Capítulo XXVI
Nos fins de maio de 1871 havia grande alvoroço na Casa Havaneza, ao Chiado, em Lisboa. Pessoas esbaforidas chegavam, rompiam pelos grupos que atulhavam a porta, e alçando-se em bicos de pés esticavam o pescoço, por entre a massa dos chapéus, para a grade do balcão, onde em uma taboleta suspensa se colavam os telegramas da Agencia Havas; sujeitos de faces espantadas saiam consternados, exclamando logo para algum amigo mais pacato que os esperara fora:
--Tudo perdido! Tudo a arder!
Dentro, na multidão de grulhas que se apertava contra o balcão, questionava-se forte; e pelo passeio, no largo do Loreto, defronte ao pé do estanco, pelo Chiado até ao Magalhães, era, por aquele dia já quente do começo de verão, toda uma gralhada de vozes impressionadas onde as palavras--Communistas! Versailles! Petroleiros! Thiers! Crime! Internacional! voltavam a cada momento, lançadas com furor, entre o ruido das tipoias e os pregões dos garotos gritando suplementos.
Com efeito, a cada hora, chegavam telegramas anunciando os episódios sucessivos da insurreição batalhando nas ruas de Paris: telegramas despedidos de Versailles em um terror dizendo os palácios que ardiam, as ruas que se aluiam; fuzilamentos em massa nos páteos dos quarteis e entre os mausoléus dos cemitérios; a vingança que ia saciar-se até á escuridão dos esgotos; a fatal demência que desvairava as fardas e as blusas; e a resistência que tinha o furor de uma agonia com os métodos de uma sciencia, e fazia saltar uma velha sociedade pelo petróleo, pela dinamite e pelo nitro-glicerina! Uma convulsão, um fim de mundo--que vinte, trinta palavras de repente mostravam, em um relance, a um clarão de fogueira.
O Chiado lamentava com indignação aquela ruína de Paris. Recordavam-se com exclamações os edifícios ardidos, o Hotel de Ville, «tão bonito», a rua Royale, «aquela riqueza». Havia individuos tão furiosos com o incêndio das Tulherias como se fosse uma propriedade sua: os que tinham estado em Paris um ou dois meses abriam-se em invectivas, arrogando-se uma participação de parisiense na riqueza da cidade, escandalisados por a insurreição não ter respeitado monumentos em que eles tinham posto os seus olhos.
--Vejam vocês! exclamava um sujeito gordo. O palácio da Legião de Honra destruido! Ainda não ha um mez que eu lá estive com minha mulher... Que infâmia! Que patifaria!
Mas espalhara-se que o ministério recebera outro telegrama mais desolador: toda a linha do boulevard da Bastilha á Magdalena ardia, e ainda a praça da Concordia, e as avenidas dos Campos-Elyseos até ao Arco do Triunfo. E assim tinha a revolta arrazado, em uma demência, todo aquele sistema de restaurantes, cafés-concertos, bailes públicos, casas de jogo e ninhos de prostitutas! Então houve por todo o largo do Loreto até ao Magalhães um estremecimento de furor. Tinham pois as chamas aniquilado aquela centralisação tão comoda da patuscada! Oh que infâmia! O mundo acabava! Onde se comeria melhor que em Paris? Onde se encontrariam mulheres mais experientes? Onde se tornaria a vêr aquele desfilar prodigioso de uma volta de Bois, nos dias ásperos e secos de inverno, quando as victórias das cocotes resplandeciam ao pé dos faetons dos agentes da Bolsa? Que abominação! Esqueciam-se as bibliotecas e os museus: mas a saudade era sincera pela destruição dos cafés e pelo incêndio dos lupanares. Era o fim de Paris, era o fim da França!
em um grupo ao pé da Casa Havaneza os questionadores politicavam: pronunciava-se o nome de Proudhon que, por esse tempo, se começava a citar vagamente em Lisboa como um monstro sanguinolento; e as invectivas rompiam contra Proudhon. A maior parte imaginava que era ele que tinha incendiado. Mas o poeta estimado das Flôres e Ais acudiu dizendo «que, à parte as asneiras que Proudhon dizia, era ainda assim um estilista bastante ameno». Então o jogador França berrou:
--Qual estilo, qual cabaça! Se aqui o pilhasse no Chiado rachava-lhe os ossos!
E rachava. Depois do cognac o França era uma fera.
Alguns moços porém, a quem o elemento dramático da catástrofe revolvia o instincto romântico, aplaudiam a heroicidade da Comuna--Vermorel abrindo os braços como o Crucificado, e sob as balas que o trespassavam gritando: Viva a humanidade! O velho Delecluze, com um fanatismo de santo, dictando do seu leito de agonia as violências da resistência...
--São grandes homens! exclamava um rapaz exaltado.
Em redor as pessoas graves rugiam. Outras afastavam-se pálidas, vendo já as suas casas na Baixa a escorrer de petróleo e a mesma Casa Havaneza presa de chamas socialistas. Então era em todos os grupos um furor de autoridade e repressão: era necessário que a sociedade, atacada pela Internacional, se refugiasse na força dos seus princípios conservadores e religiosos, cercando-os bem de baionetas! Burguezes com tendas de capelistas falavam da «canalha» com o desdem imponente de um La Tremouille ou de um Ossuna. Sujeitos, palitando os dentes, decretavam a vingança. Vadios pareciam furiosos «contra o operário que quer viver como príncipe». Falava-se com devoção na propriedade, no capital!
de outro lado eram moços verbosos, localistas excitados que declamavam contra o velho mundo, a velha idéa, ameaçando-os de alto, propondo-se a derruil-os em artigos tremendos.
E assim uma burguezia entorpecida esperava deter, com alguns policias, uma evolução social: e uma mocidade, envernizada de literatura, decidia destruir em um folhetim uma sociedade de dezoito séculos. Mas ninguém se mostrava mais exaltado que um guarda-livros de hotel, que do alto do degrau da Casa Havaneza brandia a bengala, aconselhando á França a restauração dos Bourbons.
Então um homem vestido de preto, que sahira do estanco e atravessava por entre os grupos, parou, sentindo uma voz espantada que exclamava ao lado:
--Ó padre Amaro! ó maganão!
Voltou-se: era o cônego Dias. Abraçaram-se com vehemencia, e para conversarem mais tranquilamente foram andando até ao largo de Camões, e ali pararam, junto á estatua:
--Então você quando chegou, padre-mestre?
Tinha chegado na véspera. Trazia uma demanda com os Pimentas da Pojeira por causa de uma servidão na quinta, tinha apelado para a Relação, e vinha seguir de perto a questão na capital.
--E você, Amaro? Na última carta dizia-me que tinha vontade de sair de Santo Thyrso.
Era verdade. A parochia tinha vantagens; mas vagara Vila-Franca, e ele, para estar mais perto da capital, viera falar com o senhor conde de Ribamar, o seu conde, que lá andava obtendo a transferência. Devia-lhe tudo, sobretudo á senhora condessa!
--E de Leiria? A S. Joaneira, vai melhor?
--Não, coitada... Você sabe, ao principio tivemos um susto dos diabos... Pensavamos que lhe ia suceder como á Amelia. Mas não, era hidropesia... E ali o que ha é anasarca...
--Coitada, santa senhora! E o Natario?
--Avelhado. Tem tido seus desgostos. Muita língua.
--E diga lá, padre-mestre, o Libaninho?
--Eu escrevi-lhe a esse respeito, disse o cônego rindo.
O padre Amaro riu também: e durante um momento os dois sacerdotes pararam, apertando as ilhargas.
--Pois é verdade, disse emfim o cônego. A coisa tinha sido realmente escandalosa... Porque emfim, repare o amigo que o pilharam com o sargento, de tal modo que não havia a duvidar... E ás dez horas da noite, na alameda! Já é imprudencia... Mas emfim a coisa esqueceu, e quando o Matias morreu, lá lhe demos o logar de sacristão, que é bem boa posta... Muito melhor que o que ele tinha no cartório... E ha de cumprir com zelo!
--Ha de cumprir com zelo, concordou muito sério o padre Amaro. E a propósito, a D. Maria da Assumpção?
--Homem, rosnam-se coisas... Criado novo... Um carpinteiro que morava defronte... O rapaz anda no trinque.
--Palavra?
--No trinque. Charuto, relógio, luva! Tem pilheria, hein?
--É divino!
--As Gansosos na mesma, continuou o cônego. Têm agora a sua criada, a Escolástica.
--E da besta do João Eduardo?
--Eu mandei-lhe dizer, não? Lá está ainda nos Poyaes. O Morgado está mal do figado. E o João Eduardo diz que está tísico... que eu não sei, nunca mais o vi... Quem mo disse foi o Ferrão.
--Como vai ele, o Ferrão?
--Bem. Sabe quem eu vi ha dias? A Dionysia.
--E então?
O cônego disse uma palavra baixo ao ouvido do padre Amaro.
--Deveras, padre-mestre?
--Na rua das Sousas, a dois passos da sua antiga casa. O D. Luiz da Barrosa é que lhe deu o dinheiro para montar o estabelecimento. Pois aqui estão as novidades. E você está mais forte, homem! Fez-lhe bem a mudança...
E pondo-se diante, galhofando:
--Ó Amaro, e você a escrever-me que queria retirar-se para a serra, ir para um convento, passar a vida em penitencia...
O padre Amaro encolheu os hombros:
--Que quer você, padre-mestre?... em aqueles primeiros momentos... Olhe que me custou! Mas tudo passa...
--Tudo passa, disse o cônego. E depois de uma pausa:--Ah! Mas Leiria já não é Leiria!
Passearam então um momento em silencio, em uma recordação que lhes vinha do passado, os quinos divertidos da S. Joaneira, as palestras ao chá, as passeatas ao Morenal, o Adeus e o Descrido cantados pelo Artur Couceiro e acompanhados pela pobre Amelia, que agora lá dormia, no cemitério dos Poyaes, sob as flôres silvestres...
--E que me diz você a estas coisas de França, Amaro? exclamou de repente o cônego.
--Um horror, padre-mestre... O arcebispo, uma sucia de padres fuzilados!... Que brincadeira!
--Má brincadeira, rosnou o cônego.
E o padre Amaro:
--E cá pelo nosso canto parece que começam também essas idéas...
O cônego assim o ouvira. Então indignaram-se contra essa turba de maçons, de republicanos, de socialistas, gente que quer a destruição de tudo o que é respeitável--o clero, a instrução religiosa, a família, o exercito e a riqueza... Ah! a sociedade estava ameaçada por monstros desencadeados! Eram necessárias as antigas repressões, a masmorra e a forca. Sobretudo inspirar aos homens a fé e o respeito pelo sacerdote.
--Aí ó que está o mal, disse Amaro, é que nos não respeitam! Não fazem senão desacreditar-nos... Destroem no povo a veneração pelo sacerdócio...
--Calumniam-nos infamamente, disse em um tom profundo o cônego.
Então junto de eles passaram duas senhoras, uma já de cabelos brancos, o ar muito nobre; a outra, uma creaturinha delgada e pálida, de olheiras batidas, os cotovêlos agudos colados a uma cinta de esterilidade, pouff enorme no vestido, cuia forte, tacões de palmo.
--Caspitè! disse o cônego baixo, tocando o cotovêlo do colega. Hein, seu padre Amaro?... Aquilo é que você queria confessar.
--Já lá vai o tempo, padre-mestre, disse o parocho rindo, já as não confesso senão casadas!
O cônego abandonou-se um momento a uma grande hilaridade; mas retomou o seu ar ponderoso de padre obeso, vendo Amaro tirar profundamente o chapéo a um cavalheiro de bigode grisalho e óculos de ouro, que entrava na praça, do lado do Loreto, com o charuto cravado nos dentes e o guardasol debaixo do braço.
Era o senhor conde de Ribamar. Adiantou-se com bonhomia para os dois sacerdotes; e Amaro, descoberto e perfilado, apresentou «o seu amigo, o senhor cônego Dias, da Sé de Leiria». Conversaram um momento da estação, que já ia quente. Depois o padre Amaro falou dos últimos telegramas.
--Que diz vossa excelência a estas coisas de França, senhor conde?
O estadista agitou as mãos, em uma desolação que lhe assombreava a face:
--Nem me fale em isso, senhor padre Amaro, nem me fale em isso... Vêr meia duzia de bandidos destruir Paris... O meu Paris!... Creiam vossas senhorias que tenho estado doente.
Os dois sacerdotes, com uma expressão consternada, uniram-se á dor do estadista.
E então o cônego:
--E qual pensa vossa excelência que será o resultado?
O senhor conde de Ribamar, com pausa, em palavras que sabiam devagar, sobrecarregadas do peso das idéas, disse:
--O resultado?... Não é difícil prevel-o. Quando se tem alguma experiencia da Historia e da Politica, o resultado de tudo isto vê-se distinctamente. Tão distinctamente como os vejo a vossas senhorias.
Os dois sacerdotes pendiam dos lábios proféticos do homem de governo.
--Suffocada a insurreição--continuou o senhor conde olhando a direito diante de si com o dedo no ar, como seguindo, apontando os futuros históricos que a sua pupila, ajudada pelos óculos de ouro, penetrava--sufocada a insurreição, dentro de três meses temos de novo o império... Se vossas senhorias tivessem visto como eu uma recepção nas Tulherias ou no Hotel de Ville, nos tempos do império, haviam de dizer, como eu, que a França é profundamente imperialista e só imperialista... Temos pois Napoleão III: ou talvez ele abdique, e a imperatriz tome a regência na menoridade do príncipe imperial... Eu aconselharia antes, e já o fiz saber, que era esta talvez a solução mais prudente. Como consequência imediata temos o Papa em Roma outra vez senhor do poder temporal... Eu, a falar a verdade, e já o fiz saber, não aprovo uma restauração papal. Mas eu não lhes estou aqui a dizer o que aprovo, ou o que reprovo. Felizmente não sou o dono da Europa... Seria um encargo superior á minha idade e ás minhas enfermidades. Estou a dizer o que a minha experiencia da Politica e da Historia me aponta como certo... Dizia eu...? Ah! a imperatriz no trono de França, Pio Nono no trono de Roma, aí temos a democracia esmagada entre estas duas forças sublimes, e creiam vossas senhorias um homem que conhece a sua Europa e os elementos de que se compõe a sociedade moderna, creiam que depois de este exemplo da Comuna não se torna a ouvir falar de república, nem de questão social, nem de povo, em estes cem anos mais chegados!...
--Deus Nosso Senhor o ouça, senhor conde, fez com unção o cônego.
Mas Amaro, radiante de se achar ali, em uma praça de Lisboa, em conversação intima com um estadista ilustre, perguntou ainda, pondo nas palavras uma ansiedade de conservador assustado:
--E crê vossa excelência que essas idéas de república, de materialismo, se possam espalhar entre nós?
O conde riu: e dizia, caminhando entre os dois padres, até quase junto das grades que cercam a estatua de Luiz de Camões:
--Não lhes dê isso cuidado, meus senhores, não lhes dê isso cuidado! É possível que haja aí um ou dois esturrados que se queixem, digam tolices sobre a decadência de Portugal, e que estamos em um marasmo, e que vamos caindo no embrutecimento, e que isto assim não póde durar dez anos. etc. etc. Babuseiras!...
Tinha-se encostado quase ás grades da estatua, e tomando uma atitude de confiança:
--A verdade, meus senhores, é que os estrangeiros invejam-nos... E o que vou a dizer não é para lisonjear a vossas senhorias: mas enquanto em este paiz houver sacerdotes respeitaveis como vossas senhorias, Portugal ha de manter com dignidade o seu logar na Europa! Porque a fé, meus senhores, é a base da ordem!
--Sem dúvida, senhor conde, sem dúvida, disseram com força os dois sacerdotes.
--Senão, vejam vossas senhorias isto! Que paz, que animação, que prosperidade!
E com um grande gesto mostrava-lhes o largo do Loreto, que àquela hora, em um fim de tarde serena concentrava a vida da cidade. Tipoias vazias rodavam devagar; pares de senhoras passavam, de cuia cheia e tacão alto, com os movimentos derreados, a palidez chlorotica de uma degeneração de raça; em alguma magra pileca, ia trotando algum moço de nome histórico, com a face ainda esverdeada da noitada de vinho; pelos bancos da praça gente estirava-se em um torpôr de vadiagem; um carro de bois, aos solavancos sobre as suas altas rodas, era como o simbolo de agriculturas atrazadas de séculos; fadistas gingavam, de cigarro nos dentes; algum burguez enfastiado lia nos cartazes o anuncio de operetas obsoletas; nas faces enfezadas de operários havia como a personificação das industrias moribundas... E todo este mundo decrepito se movia lentamente, sob um céo lustroso de clima rico, entre garotos apregoando a loteria e a batota publica, e rapazitos de voz plangente oferecendo o Jornal das pequenas novidades: e iam, em um vagar madraço, entre o largo onde se erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque comprido das casarias da praça onde brilhavam três taboletas de casas de penhores, negrejavam quatro entradas de taberna, e desembocavam, com um tom sujo de esgoto aberto, as vielas de todo um bairro de prostituição e de crime.
--Vejam, ia dizendo o conde: vejam toda esta paz, esta prosperidade, este contentamento... Meus senhores, não admira realmente que sejamos a inveja da Europa!
E o homem de estado, os dois homens de religião, todos três em linha, junto ás grades do monumento, gozavam de cabeça alta esta certeza gloriosa da grandeza do seu paiz,--ali ao pé de aquele pedestal, sob o frio olhar de bronze do velho poeta, erecto e nobre, com os seus largos hombros de cavaleiro forte, a epopeia sobre o coração, a espada firme, cercado dos chronistas e dos poetas heroicos da antiga pátria--pátria para sempre passada, memoria quase perdida!
Outubro 1878--Outubro 1879.