Capítulo IX O Crime do Padre Amaro · Capítulo 10 de 26
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Capítulo IX

Assim recomeçou a intimidade de Amaro na rua da Misericórdia. Jantava cedo, depois lia o seu Breviario; e apenas na igreja batiam as sete horas, embrulhava-se no seu capote e dava volta pela Praça passando rente da botica, onde os frequentadores caturravam, com as mãos moles apoiadas ao cabo dos guardachuvas. Mal avistava a janela da sala de jantar alumiada, todos os seus desejos se erguiam; mas ao toque agudo da campainha sentia ás vezes um susto indefinido de achar a mãe já desconfiada ou Amelia mais fria!... Mesmo por superstição entrava sempre com o pé direito.

Encontrava já as Gansosos, a D. Josefa Dias; e o cônego, que jantava agora muito com a S. Joaneira, e que àquela hora, estirado na poltrona, findava a sua somneca, dizia-lhe bocejando:

--Ora viva o menino bonito!

Amaro ia sentar-se ao pé de Amelia que costurava á mesa; o olhar penetrante que se trocavam era todos os dias como o mutuo juramento mudo que o seu amor crescera desde a véspera; e ás vezes mesmo, debaixo da mesa, roçavam os joelhos com furor. Começava então a «cavaqueira». Eram sempre os mesmos interessesinhos, as questões que iam na Misericórdia, o que dissera o senhor chantre, o cônego Campos que despedira a criada, o que se rosnava da mulher do Novais...

--Mais amor do próximo! resmungava o cônego mexendo-se na poltrona. E com um arrôto curto tornava a cerrar as pálpebras.

Então as botas de João Eduardo rangiam na escada, e Amelia imediatamente abria a mesinha para a partida de manilha: os parceiros eram a Gansoso, D. Josefa, o parocho: e como Amaro jogava mal, Amelia, que era mestra, sentava-se por detrás de ele para o «guiar». Logo ás primeiras vasas havia altercações. Então Amaro voltava o rosto para Amelia, tão perto que confundiam os seus halitos.

--Esta? perguntava, indicando a carta com o olho languido.

--Não! não! espere, deixe vêr, dizia ela, vermelha.

O seu braço roçava o hombro do parocho: Amaro sentia o cheiro da água de colonia que ela usava com exagero.

Defronte, ao pé de Joaquina Gansoso, João Eduardo, mordicando o bigode, contemplava-a com paixão; Amelia, para se desembaraçar de aqueles dois olhos langorosos fitos em ela, tinha-lhe dito por fim «que até era indecente, diante do parocho que era de cerimônia, estar assim a cocal-a toda a noite».

Ás vezes mesmo dizia-lhe, rindo:

--Ó Sr.. João Eduardo, vá conversar com a mamã, senão têmol-a aqui têmol-a a dormir.

E João Eduardo ia sentar-se ao pé da S. Joaneira, que, de lunetas na ponta do nariz, fazia somnolentamente a sua meia.

Depois do chá Amelia sentava-se ao piano. Causava então entusiasmo em Leiria uma velha canção mexicana, a Chiquita. Amaro achava-a de apetite; e sorria de gozo, com os seus dentes muito brancos, apenas Amelia começava com muita languidez tropical:

Quando sali de la Habana Valga-me Dios!...

Mas Amaro amava sobretudo a outra estrofe, quando Amelia, com os dedos frouxos no teclado, o busto deitado para traz, rolando os olhos ternos, em movimentos dôces de cabeça, dizia toda voluptuosa, silabando o espanhol:

Si á tua ventana lega Una paloma, Trata-la com cariño, Que es mi persona.

E como a achava graciosa, creoula, quando ela gorgeava:

Ay chiquita que si, Ay chiquita que no-o-o-o!

Mas as velhas reclamavam-o para continuar a manilha, e ele ia sentar-se, cantarolando as últimas notas, com o cigarro ao canto da boca, os olhos humidos de felicidade.

Ás sextas-feiras era a grande partida. A Sr..^a D. Maria da Assumpção aparecia sempre com o seu belo vestido de seda preta: e como era rica e tinha parentela fidalga davam-lhe com deferência o melhor logar ao pé da mesa--que ela ia ocupar, meneando pretenciosamente os quadris, com ruge-ruges de seda. Antes do chá a S. Joaneira levava-a sempre ao seu quarto, onde guardava para ela uma garrafa de geropiga velha: e ali as duas amigas tagarelavam muito tempo, sentadas em cadeirinhas baixas. Depois Artur Couceiro, cada dia mais chupado e mais tísico, cantava o fado novo que compuzera, chamado o Fado da Confissão; eram quadras feitas para regalar aquela piedosa reunião de saias e de batinas:

Na capelinha do amor, No fundo da sacristia, Ao senhor padre Cupido Confessei-me em outro dia...

Vinha depois a confissão de pecadinhos dôces, um ato de contrição de amor, uma penitencia terna:

Seis beijinhos de manhã, De tarde um abraço só... E pra acalmar dôces chamas Jejuar a pão de ló.

Aquela composição galante e devota fora muito apreciada na sociedade eclesiástica de Leiria. O senhor chantre pedira uma cópia, e perguntara, referindo-se ao poeta:

--Quem é o hábil Anacreonte?

E informado que era o escrevente da administração, falou de ele com tanto apreço á esposa do senhor governador civil, que Artur obteve a gratificação de oito mil reis, que havia anos implorava.

Àquelas reuniões nunca faltava o Libaninho. A sua última pilheria era furtar beijos á Sr..^a D. Maria da Assumpção; a velha escandalisava-se muito alto, e abanando-se com furor atirava-lhe de revez um olhar guloso. Depois o Libaninho desaparecia um momento, e entrava com uma saia de Amelia vestida, uma touca da S. Joaneira, fingindo uma chama lubrica por João Eduardo--que, entre as risadas agudas das velhas, recuava, muito escarlate. Brito e Natario vinham ás vezes: formava-se então um grande quino. Amaro e Amelia ficavam sempre juntos; e toda a noite, com os joelhos colados, ambos vermelhos, permaneciam vagamente entorpecidos no mesmo desejo intenso.

Amaro saia sempre de casa da S. Joaneira mais apaixonado por Amelia. Ia pela rua devagar, ruminando com gozo a sensação deliciosa que lhe dava aquele amor--uns certos olhares de ela, o arfar desejoso do seu peito, os contactos lascivos dos joelhos e das mãos. Em casa despia-se depressa, porque gostava de pensar em ela, ás escuras, atabafado nos cobertores; e ia percorrendo em imaginação, uma a uma, as provas sucessivas que ela lhe dera do seu amor, como quem vai aspirando uma e outra flôr, até que ficava como embriagado de orgulho: era a rapariga mais bonita da cidade! e escolhera-o a ele, a ele padre, o eterno excluido dos sonhos femininos, o sêr melancólico e neutro que ronda como um sêr suspeito á beira do sentimento! Á sua paixão misturava-se então um reconhecimento por ela; e com as pálpebras cerradas murmurava:

--Tão boa, coitadinha, tão boa!

Mas na sua paixão havia ás vezes grandes impaciencias, Quanto tinha estado, durante três horas da noite, recebendo o seu olhar, absorvendo a voluptuosidade que se exhalava de todos os seus movimentos,--ficava tão carregado de desejos que necessitava conter-se «para não fazer um disparate ali mesmo na sala, ao pé da mãe». Mas depois, em casa, só, torcia os braços de desespero: queria-a ali de repente, oferecendo-se ao seu desejo: fazia então combinações--escrever-lhe-hia, arranjariam uma casita discreta para se amarem, planeariam um passeio a alguma quinta! Mas todos aqueles meios lhe pareciam incompletos e perigosos, ao recordar o olho finório da irmã do cônego, as Gansosos tão mexeriqueiras! E diante de aquelas dificuldades que se erguiam como as muralhas sucessivas de uma cidadela, voltavam as antigas lamentações: não ser livre! não poder entrar claramente em aquela casa, pedil-a á mãe, possuil-a sem pecado, comodamente! Porque o tinham feito padre? Fora «a velha pêga» da marquesa de Alegros! Ele não abdicara voluntariamente a virilidade do seu peito! Tinham-o impelido para o sacerdócio como um boi para o curral!

Então, passeando excitado pelo quarto, levava as suas acusações mais longe, contra o Celibato e a Igreja: porque prohibia ela aos seus sacerdotes, homens vivendo entre homens, a satisfação mais natural, que até têm os animais? Quem imagina que desde que um velho bispo diz--serás casto--a um homem novo e forte, o seu sangue vai subitamente esfriar-se? e que uma palavra latina--acedo--dita a tremer pelo seminarista assustado, será o bastante para conter para sempre a rebelião formidável do corpo? E quem inventou isso? Um concilio de bispos decrépitos, vindos do fundo dos seus claustros, da paz das suas escólas, mirrados como pergaminhos, inúteis como eunucos! Que sabiam eles da Natureza e das suas tentações? Que viessem ali duas, três horas para o pé da Ameliasinha, e veriam, sob a sua capa de santidade, começar a revoltar-se-lhe o desejo! Tudo se ilude e se evita, menos o amor! E se ele é fatal, porque impediram então que o padre o sinta, o realise com pureza e com dignidade? É melhor talvez que o vá procurar pelas vielas obscenas!--Porque a carne é fraca!

A carne! Punha-se então a pensar nos três inimigos da alma--Mundo, Diabo e Carne. E apareciam á sua imaginação em três figuras vivas: uma mulher muito formosa; uma figura negra de olho de braza e pé de cabra; e o mundo, coisa vaga e maravilhosa (riquezas, cavalos, palacetes)--de que lhe parecia uma personificação suficiente o senhor conde de Ribamar! Mas que mal tinham eles feito á sua alma? O diabo nunca o vira; a mulher formosa amava-o e era a única consolação da sua existência; e do mundo, do senhor conde, só recebera proteção, benevolência, tocantes apertos de mão... E como poderia ele evitar as influencias da Carne e do Mundo? A não ser que fugisse, como os santos de outr'ora, para os areais do deserto e para a companhia das feras! Mas não lhe diziam os seus mestres no seminário que ele pertencia a uma Igreja militante? O ascetismo era culpado, sendo a deserção de um serviço santo.--Não comprehendia, não comprehendia!

Procurava então justificar o seu amor com exemplos dos livros divinos. A Biblia está cheia de nupcias! Rainhas amorosas adiantam-se nos seus vestidos recamados de pedras; o noivo vem-lhe ao encontro, com a cabeça coberta de faxas de linho puro, arrastando pelas pontas um cordeiro branco; os levitas batem em discos de prata, gritam o nome de Deus; abrem-se as portas de ferro da cidade para deixar passar a caravana que leva os bem esposados; e as arcas de sândalo onde vão os tesouros do dote rangem, amarradas com cordas de purpura, sobre o dorso dos camelôs! Os martyres no circo casam-se em um beijo, sob o bafo dos leões, ás aclamações da plebe! Jesus mesmo não vivêra sempre na sua santidade inhumana; era frio e abstracto nas ruas de Jerusalem, nos mercados do Bairro de David; mas lá tinha o seu logar de ternura e de abandono em Betânia, sob os sicômoros do Jardim de Lazaro; ali, enquanto os magros nazarenos seus amigos bebem o leite e conspiram á parte, ele olha defronte os tectos dourados do templo, os soldados romanos que jogam o disco ao pé da Porta de Ouro, os pares amorosos que passam sob os arvoredos de Gethesemani--e pousa a mão sobre os cabelos louros de Marta, que ama e fia a seus pés!

O seu amor era pois uma infracção canônica, não um pecado da alma: podia desagradar ao senhor chantre, não a Deus: seria legitimo em um sacerdócio de regra mais humana. Lembrava-se de se fazer protestante: mas onde, como? Parecia-lhe mais extraordinariamente impossível que transportar a velha Sé para cima do monte do Castelo.

Encolhia então os hombros, escarnecendo toda aquela vaga argumentação interior. «Filosofia e palhada»! Estava doido pela rapariga,--era o positivo. Queria-lhe o amor, queria-lhe os beijos, queria-lhe a alma... E o senhor bispo se não fosse velho faria o mesmo, e o Papa faria o mesmo!

Eram ás vezes três horas da manhã, e ainda passeava no quarto, falando só.

Quantas vezes João Eduardo, passando alta noite pela rua das Sousas, tinha visto na janela do parocho uma luz amortecida! Porque ultimamente João Eduardo, como todos que têm um desgosto amoroso, tomara o habito triste de andar até tarde pelas ruas.

O escrevente, logo desde os primeiros tempos, percebêra a simpatia de Amelia pelo parocho. Mas conhecendo a sua educação e os hábitos devotos da casa, atribuía aquelas atenções quase humildes com Amaro ao respeito beato pela sua batina de padre, pelos seus privilégios de confessor.

Instinctivamente porém começou a detestar Amaro. Sempre fora inimigo de padres! achava-os um «perigo para a civilisação e para a liberdade»; supunha-os intrigantes, com hábitos de luxuria, e conspirando sempre para restabelecer «as trevas da meia idade»; odiava a confissão que julgava uma arma terrível contra a paz do lar; e tinha uma religião vaga--hostil ao culto, ás rezas, aos jejuns, cheia de admiração pelo Jesus poético, revolucionário, amigo dos pobres, e «pelo sublime espirito de Deus que enche todo o Universo»! Só desde que amava Amelia é que ouvia missa, para agradar á S. Joaneira.

E desejaria sobretudo apressar o casamento para tirar Amelia de aquela sociedade de beatas e padres, receando ter mais tarde uma mulher que tremesse do inferno, passasse horas a rezar estações na Sé, e se confessasse aos padres «que arrancam ás confessadas os segredos de alcova»!

Quando Amaro voltara a frequentar a rua da Misericórdia, ficou contrariado. «Cá temos outra vez o marmanjo»! pensou. Mas que desgosto, quando reparou que Amelia tratava agora o parocho com uma familiaridade mais terna, que a presença de ele lhe dava visivelmente uma animação singular, «e que havia uma especie de namoro»! Como ela se fazia vermelha, mal ele entrava! Como o escutava, com uma admiração babosa! Como arranjava sempre a ficar ao pé de ele nas partidas de quino!

Uma manhã, mais inquieto, veio á rua da Misericórdia,--e enquanto a S. Joaneira tagarelava na cozinha, disse bruscamente a Amelia:

--Menina Amelia, sabe? Está-me a dar um grande desgosto com essas maneiras com que trata o senhor padre Amaro.

Ela ergueu os olhos muito espantados:

--Que maneiras?! Ora essa! então como quer que o trate? É um amigo da casa, esteve aqui de hospede...

--Pois sim, pois sim...

--Ah! mas socegue. Se isso o quezila, verá. Não me torno a chegar ao pé do homem.

João Eduardo, tranquilizado, raciocinou--que «não havia nada». Aqueles modos eram excessos de beatério. Entusiasmo pela padraria!

Amelia decidiu então disfarçar o que lhe ia no coração: sempre considerara o escrevente um pouco tapado--e se ele percebêra, que fariam as Gansosos tão finas, e a irmã do cônego que era cortida em malicia! Por isso mal sentia Amaro na escada, de aí por diante, tomava uma atitude distrahida, muito artificial: mas, ai! apenas ele lhe falava com a sua voz suave ou voltava para ela aqueles olhos negros que lhe faziam correr estremeções nos nervos,--como uma ligeira camada de neve que se derrete a um sol muito forte a sua atitude fria desaparecia, e toda a sua pessoa era uma expressão continua de paixão. Ás vezes, absorvida no seu enlevo, esquecia que João Eduardo estava ali; e ficava toda surprehendida quando ouvia a um canto da sala a sua voz melancólica.

Ela sentia de resto que as amigas da mãe envolviam a sua «inclinação» pelo parocho em uma aprovação muda e afável. Ele era, como dizia o cônego, o menino bonito: e das maneirinhas e dos olhares das velhas exhalava-se uma admiração por ele que fazia ao desenvolvimento da paixão de Amelia uma atmosfera favorável. D. Maria da Assumpção dizia-lhe ás vezes ao ouvido:

--Olha para ele! É de inspirar fervor. É a honra do clero. Não ha outro!...

E todas elas achavam João Eduardo «um presta-p'ra-nada»! Amelia então já não disfarçava a sua indiferença por ele: as chinelas que lhe andava a bordar tinham ha muito desaparecido do cesto do trabalho, e já não vinha á janela vel-o passar para o cartório.

A certeza agora tinha-se estabelecido na alma de João Eduardo--na alma, que, como ele dizia, lhe andava mais negra que a noite.

--A rapariga gosta do padre, tinha ele concluído. E á dor da sua felicidade destruida juntava-se a afflicção pela honra de ela ameaçada.

Uma tarde, tendo-a visto sair da Sé, esperou-a adiante da botica, e muito decidido:

--Eu quero-lhe falar, menina Amelia... Isto não póde continuar assim... Eu não posso... A menina traz namoro com o parocho!

Ela mordeu o beiço, toda branca:

--O senhor está a insultar-me!--E queria seguir, indignada.

Ele reteve-a pela manga do casabeque:

--Ouça, menina Amelia. Eu não a quero insultar, mas é que não sabe... Tenho andado, que até se me parte o coração!--E perdeu a voz, de comovido.

--Não tem razão... Não tem razão... balbuciava ela.

--Jure-me então que não ha nada com o padre!

--Pela minha salvação!... Não ha nada!... Mas também lhe digo, se torna a falar em tal, ou a insultar-me, conto tudo á mamã, e o senhor escusa de nos voltar a casa.

--Oh, menina Amelia...

--Não podemos continuar aqui a falar... Está ali já a D. Michaela a cocar...

Era uma velha, que levantara a cortina de cassa em uma janela baixa, e espreitava com olhinhos reluzentes e gulosos, a face toda resequida encostada sôfregamente á vidraça. Separaram-se então--e a velha desconsolada deixou cahir a cortina.

Amelia em essa noite--enquanto as senhoras discutiam com algazarra os missionários que então prégavam na Barrosa--disse baixo a Amaro, picando vivamente a costura:

--Precisamos ter cautela... Não olhe tanto para mim nem esteja tão chegado... Já houve quem reparasse.

Amaro recuou logo a cadeira para junto de D. Maria da Assumpção; e, apesar da recomendação de Amelia, os seus olhos não se despregavam de ela, em uma interrogação muda e ansiosa, já assustado que as desconfianças da mãe ou a malicia das velhas «andassem armando escândalo». Depois do chá, no rumor das cadeiras que se acomodavam ao quino, perguntou-lhe rapidamente:

--Quem reparou?

--Ninguém. Eu é que tenho medo. É preciso disfarçar.

Desde então cessaram as olhadelas dôces, os logares chegadinhos á mesa, os segredos; e sentiam um gozo picante em affectar maneiras frias, tendo a certeza vaidosa da paixão que os inflamava. Era para Amelia delicioso--enquanto o padre Amaro afastado tagarelava com as senhoras--adorar a sua presença, a sua voz, as suas graças, com os olhos castamente aplicados ás chinelas do João Eduardo que muito astutamente recomeçara a bordar.

Todavia o escrevente vivia ainda inquieto: amargurava-o encontrar o parocho instalado ali todas as noites, com a face próspera, a perna traçada, gozando a veneração das velhas. «A Ameliasinha, sim, agora portava-se bem, e era-lhe fiel, era-lhe fiel...»: mas ele sabia que o parocho a desejava, a «cocava»; e apesar do juramento de ela pela sua salvação, da certeza que não havia nada--temia que ela fosse lentamente penetrada por aquela admiração caturra das velhas, para quem o senhor parocho era um anjo: só se contentaria em arrancar Amelia (já empregado no governo civil) àquela casa beata: mas essa felicidade tardava a chegar--e saia todas as noites da rua da Misericórdia mais apaixonado, com a vida estragada de ciumes, odiando os padres, sem coragem para desistir. Era então que se punha a andar pelas ruas até tarde; ás vezes voltava ainda vêr as janelas fechadas da casa de ela; ia depois á alameda ao pé do rio, mas o frio ramalhar das árvores sobre a água negra entristecia-o mais; vinha então ao bilhar, olhava um momento os parceiros carambolando, o marcador, muito esguedelhado, que bocejava encostado ao reste. Um cheiro de mau petróleo sufocava. Sahia; e dirigia-se, devagar, á redacção da Voz do Districto.

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