Capítulo VII
Dias depois o padre Amaro e o cônego Dias tinham ido jantar com o abbade da Cortegassa.--Era um velho jovial, muito caridoso, que vivia ha trinta anos em aquela freguezia e passava por ser o melhor cozinheiro da diocese. Todo o clero das visinhanças conhecia a sua famosa cabedela de caça. O abbade fazia anos, havia outros convidados--o padre Natario e o padre Brito: o padre Natario era uma creaturinha biliosa, seca, com dois olhos encovados, muito malignos, a pele picada das bexigas e extremamente irritável. Chamavam-lhe o Furão. Era esperto e questionador; tinha fama de ser grande latinista, e ter uma logica de ferro; e dizia-se de ele: é uma língua de víbora! Vivia com duas sobrinhas orphãs, declarava-se extremoso por elas, gabava-lhes sempre a virtude, e costumava chamar-lhes as duas rosas do seu canteiro. O padre Brito era o padre mais estupido e mais forte da diocese; tinha o aspecto, os modos, a forte vida de um robusto beirão que maneja bem o cajado, emborca um almude de vinho, péga alegremente á rabiça do arado, serve de trolha nos arranjos de um alpendre, e nas séstas quentes de junho atira brutalmente as raparigas para cima das medas de milho. O senhor chantre, sempre correcto nas suas comparações mythologicas, chamava-lhe--o leão de Nemeia.
A sua cabeça era enorme, de cabelo lanígero que lhe descia até ás sobrancelhas: a pele cortida tinha um tom azulado, do esforço da navalha de barba; e, nas suas risadas bestiais, mostrava dentinhos muito miúdos e muito brancos do uso da brôa.
Quando iam sentar-se á mesa chegou o Libaninho todo azafamado, gingando muito, com a calva suada, exclamando logo em tons agudos:
--Ai, filhos! desculpem-me, demorei-me mais um bocadinho. Passei pela igreja de Nossa Senhora da Ermida, estava o padre Nunes a dizer uma missa de intenção. Ai, filhos! papei-a logo, venho mesmo consoladinho!
A Gertrudes, a velha e possante ama do abbade, entrou então com a vasta terrina do caldo de galinha; e o Libaninho, saltitando em roda de ela, começou os seus gracejos:
--Ai, Gertrudinhas! quem tu fazias feliz bem eu sei!
A velha aldeã ria com o seu espesso riso bondoso, que lhe sacudia a massa do seio.
--Olhe que arranjo me aparece agora pela tarde!...
--Ai, filha! as mulheres querem-se como as peras, maduras e de sete cotovêlos. Então é que é chupal-as!
Os padres gargalharam; e, alegremente, acomodaram-se á mesa.
O jantar fora todo cozinhado pelo abbade: logo á sopa as exclamações começaram:
--Sim, senhor, famoso! de isto nem no céo! Bela coisa!
O excelente abbade estava escarlate de satisfação. Era, como dizia o senhor chantre, «um divino artista»! Lera todos os Cozinheiros completos, sabia innumeras receitas: era inventivo--e, como ele afirmava dando marteladinhas no craneo, «tinha-lhe saído muito petisco de aquela cachimônia»! Vivia tão absorvido pela sua «arte» que lhe acontecia, nos sermões de domingo, dar aos fieis ajoelhados para receberem a palavra de Deus, conselhos sobre o bacalhau guisado ou sobre os condimentos do sarrabulho. E ali vivia feliz, com a sua velha Gertrudes, de muito bom paladar também, com o seu quintal de ricos legumes, sentindo uma só ambição na vida--ter um dia a jantar o bispo!
--Oh, senhor parocho! dizia ele a Amaro, por quem é! mais um bocadinho de cabedela, faça favor! Essas côdeasinhas de pão ensopadas no môlho! Isso! isso! Que tal, hein?--E com um aspecto modesto:--Não é lá por dizer, mas a cabedela hoje saiu-me boa!
Estava com efeito, como disse o cônego Dias, de tentar Santo Antônio no deserto! Todos tinham tirado as capas, e, só com as batinas, as voltas alargadas, comiam devagar, falando pouco. Como no dia seguinte era a festa da Senhora da Alegria, os sinos na capela, ao lado, repicavam; e o bom sol do meio-dia dava tons muito alegres á louça, ás bojudas canecas azuis com vinho da Bairrada, aos pires de pimentões escarlates, ás frescas malgas de azeitonas pretas--enquanto o bom abbade, de olho arregalado, mordendo o beiço, ia cortando com cuidado nacos brancos do peito do capão recheado.
As janelas abriam para o quintal. Viam-se dois largos pés de camélias vermelhas crescendo junto ao peitoril, e para além das copas das macieiras um pedaço muito vivo de céo azul-ferrete. Uma nora chiava ao longe, lavadeiras batiam a roupa.
Sobre a comoda, entre in-fólios, na sua peanha um Cristo perfilava tristemente contra a parede o seu corpo amarelo, coberto de chagas escarlates: e, aos lados, simpáticos santos sob redomas de vidro, lembravam legendas mais dôces de religião amável: o bom gigante S. Christovão atravessando o rio com o divino pequerrucho que sorri, e faz saltar o mundo sobre a sua mãosinha como uma pela; o dôce pastor S. Joãosinho coberto com uma pele de ovelha, e guardando os seus rebanhos, não com um cajado, mas com uma cruz; o bom porteiro S. Pedro, tendo na sua mão de barro as duas santas chaves que servem nas fechaduras do céo! Nas paredes, em litografias de coloridos crueis, o patriarca S. José apoiava-se ao seu cajado onde florescem lírios brancos; o cavalo empinado do bravo S. Jorge pisava o ventre de um dragão surpreendido; e o bom Santo Antônio, á beira de um regato, sorria, falando a um tubarão. O tlim-tlim dos copos, o ruido das facas animavam a velha sala de tecto de carvalho defumado, de uma alegria desusada. E Libaninho devorava, dizendo pilherias:
--Gertrudinhas, flôr do caniço, passa-me as vagens. Não me olhes assim, magana, que me fazes revolver os intestinos!
--O diabo é o homem! dizia a velha. Olha p'r'ó que lhe deu! Fallasse-me aqui ha trinta anos, seu perdido!
--Ai, filha! exclamava revirando os olhos, nem me digas isso que sinto coisas pela espinha acima!
Os padres engasgavam-se de riso. Já duas canecas de vinho estavam vazias: e o padre Brito desabotoara a batina, deixando vêr a sua grossa camisola de lã da Covilhã, onde a marca da fabrica, feita de linha azul, era uma cruz sobre um coração.
Um pobre então viera á porta rosnar lamentosamente Padre-Nossos; e enquanto Gertrudes lhe metia no alforge metade de uma brôa, os padres falaram dos bandos de mendigos que agora percorriam as freguezias.
--Muita pobreza por aqui, muita pobreza! dizia o bom abbade. Ó Dias, mais este bocadinho da aza?
--Muita pobreza, mas muita preguiça, considerou duramente o padre Natario.--Em muitas fazendas sabia ele que havia falta de jornaleiros, e viam-se marmanjos, rijos como pinheiros, a choramingar Padre-Nossos pelas portas.--Sucia de mariolas! resumiu.
--Deixe lá, padre Natario, deixe lá! disse o abbade. Olhe que ha pobreza deveras. Por aqui ha famílias, homem, mulher e cinco filhos, que dormem no chão como porcos e não comem senão hervas.
--Então que diabo querias tu que eles comessem? exclamou o cônego Dias lambendo os dedos depois de ter esburgado a aza do capão. Querias que comessem perú? Cada um como quem é!
O bom abbade puxou, repoltreando-se, o guardanapo para o estomago, e disse com affecto:
--A pobreza agrada a Deus Nosso Senhor.
--Ai, filhos! acudiu o Libaninho em um tom choroso, se houvesse só pobresinhos isto era o reininho dos céus!
O padre Amaro considerou com gravidade:
--É bom que haja quem tenha cabedais para legados pios, edificações de capelas...
--A propriedade devia estar na mão da Igreja, interrompeu Natario com autoridade.
O cônego Dias arrotou com estrondo e acrescentou:
--Para o esplendor do culto e propagação da fé.
Mas a grande causa da miséria, dizia Natario com uma voz pedante, era a grande imoralidade.
--Ah! lá isso não falemos! exclamou o abbade com desgosto. em este momento ha só aqui na freguezia mais de doze raparigas solteiras gravidas! Pois senhores, se as chamo, se as reprehendo, põem-se-me a fungar de riso!
--Lá nos meus sítios, disse o padre Brito, quando foi pela apanha da azeitona, como ha falta de braços, vieram as maltas trabalhar. Pois agora o verás! Que desafôro!--Contou a historia das maltas, trabalhadores errantes, homens e mulheres, que andam oferecendo os braços pelas fazendas, vivem na promiscuidade e morrem na miséria.--Era necessário andar sempre de cajado em cima de eles!
--Ai! disse o Libaninho para os lados apertando as mãos na cabeça. Ai, o pecado que vai pelo mundo! Até se me estão a erriçar os cabelos!
Mas a freguezia de Santa Catarina era a peor! As mulheres casadas tinham perdido todo o escrúpulo.
--Piores que cabras, dizia o padre Natario alargando a fivela do colete.
E o padre Brito falou de um caso na freguezia de Amor: raparigas de dezesseis e dezoito anos que costumavam reunir-se em um palheiro--o palheiro do Silverio--e passavam lá a noite com um bando de marmanjos!
Então o padre Natario, que já tinha os olhos luzidios, a língua solta, disse, repoltreando-se na cadeira e espaçando as palavras:
--Eu não sei o que se passa lá na tua freguezia, Brito; mas se ha alguma coisa o exemplo vem de alto... A mim têm-me dito que tu e a mulher do regedor...
--É mentira! exclamou o Brito fazendo-se todo escarlate.
--Oh, Brito! oh, Brito! disseram em redor, reprehendendo-o com bondade.
--É mentira! berrou ele.
--E aqui para nós, meus ricos, disse o cônego Dias baixando a voz, com o olhinho aceso em uma malicia confidencial, sempre lhes digo que é uma mulher de mão cheia!
--É mentira! clamou o Brito. E falando de um jacto:--Quem anda a espalhar isso é o morgado da Cumiada, porque o regedor não votou com ele na eleição... Mas tão certo como eu estar aqui, quebro-lhe os ossos!--Tinha os olhos injectados, brandia o punho:--Quebro-lhe os ossos!
--O caso não é para tanto, homem, considerou Natario.
--Quebro-lhe os ossos! Não lhe deixo um inteiro!
--Ai, sossega, leãosinho! disse o Libaninho com ternura. Não te percas, filhinho!
Mas recordando a influencia do morgado da Cumiada, que era então oposição e que levava duzentos votos á urna, os padres falaram de eleições e dos seus episódios. Todos ali, a não ser o padre Amaro, sabiam, como disse Natario, «cozinhar um deputadosinho». Vieram anecdotas; cada um celebrou as suas façanhas.
O padre Natario na última eleição tinha arranjado oitenta votos!
--Caspitè! disseram.
--Imaginam vocês como? Com um milagre!
--Com um milagre!? repetiram espantados.
--Sim, senhores.
Tinha-se entendido com um missionário, e na véspera da eleição receberam-se na freguezia cartas vindas do céo e assignadas pela Virgem Maria, pedindo, com promessas de salvação e ameaças do inferno, voto para o candidato do governo. De chupeta, hein?
--De mão cheia! disseram todos.
Só Amaro parecia surpreendido.
--Homem! disse o abbade com ingenuidade, de isso é que eu cá precisava. Eu então tenho de andar aí a estafar-me de porta em porta.--E sorrindo bondosamente:--Com o que se faz ainda alguma coisita é com o relaxe da côngrua!
--E com a confissão, disse o padre Natario. A coisa então vai pelas mulheres, mas vai segura! Da confissão tira-se grande partido.
O padre Amaro, que estivera calado, disse gravemente:
--Mas emfim a confissão é um ato muito sério, e servir assim para eleições...
O padre Natario, que tinha duas rosetas escarlates na face e gestos excitados, soltou uma palavra imprudente:
--Pois o senhor toma a confissão a sério?
Houve uma grande surpreza.
--Se tomo a confissão a serio!? gritou o padre Amaro recuando a cadeira, com os olhos arregalados.
--Ora essa! exclamaram. Oh, Natario! Oh, menino!
O padre Natario exaltado queria explicar, atenuar:
--Escutem, creaturas de Deus! Eu não quero dizer que a confissão seja uma brincadeira! Irra! Eu não sou pedreiro-livre! O que eu quero dizer é que é um meio de persuasão, de saber o que se passa, de dirigir o rebanho para aqui ou para ali... E quando é para o serviço de Deus, é uma arma. Aí está o que é--a absolvição é uma arma!
--Uma arma! exclamaram.
O abbade protestava, dizendo:
-Oh, Natario! oh, filho! isso não!
O Libaninho tinha-se benzido; e, dizia, «tinha já um tal terror que até lhe tremiam as pernas»!
Natario irritou-se:
--Então talvez me queiram dizer, gritou, que qualquer de nós, pelo facto de ser padre, porque o bispo lhe impoz três vezes as mãos e porque lhe disse o ácipe, tem missão directa de Deus,--é Deus mesmo para absolver?!
--Decerto! exclamaram, decerto!
E o cônego Dias disse, meneando uma garfada de vagens:
--Quorum remiseris peccata, remittuntur eis. É a fórmula. A fórmula é tudo, menino...
--A confissão é a essência mesma do sacerdócio, soltou o padre Amaro com gestos escolares, fulminando Natario. Leia Santo Ignacio! leia S. Tomás!
--Anda-me com ele! gritava o Libaninho pulando na cadeira, apoiando Amaro.--Anda-me com ele, amigo parocho! Salta-me no cachaço do impio!
--Oh, senhores! berrou Natario furioso com a contradicção, o que eu quero é que me respondam a isto. E voltando-se para Amaro:--O senhor, por exemplo, que acaba de almoçar, que comeu o seu pão torrado, tomou o seu café, fumou o seu cigarro, e que depois se vai sentar no confessionário, ás vezes preocupado com negócios de família ou com faltas de dinheiro, ou com dôres de cabeça ou com dôres de barriga, imagina o senhor que está ali como um Deus para absolver?
O argumento surprehendeu.
O cônego Dias, pousando o talher, ergueu os braços, e com uma solemnidade cômica exclamou:
--Hereticus est! É hereje!
--Hereticus est! também eu digo, rosnou o padre Amaro.
Mas a Gertrudes entrava com a larga travessa do arroz dôce.
--Não falemos em essas coisas, não falemos em essas coisas, disse logo prudentemente o abbade. Vamos ao arrozinho. Gertrudes, dá cá a garrafinha do Porto!
Natario, debruçado sobre a mesa, ainda arremessava argumentos a Amaro:
--Absolver é exercer a graça. A graça só é atributo de Deus: em nenhum auctor encontra que a graça seja transmissível. Logo...
--Ponho duas objecções... gritou Amaro com o dedo em riste, em atitude de polemica.
--Oh, filhos! oh, filhos! acudiu o bom abbade afflicto. Deixem a sabbatina, que até nem lhes sabe o arrozinho!
Serviu o vinho do Porto, para os acalmar, enchendo os copos devagar, com as precauções clássicas:
--Mil oitocentos e quinze! dizia. de isto não se bebe todos os dias.
Para o saborear, depois de o fazer reluzir á luz na transparência dos copos, repoltreavam-se nas velhas cadeiras de couro; começaram as saudes! A primeira foi ao abbade, que murmurava:--Muita honra... muita honra... Tinha os olhos chorosos de satisfação.
--A sua santidade Pio IX! gritou então o Libaninho brandindo o cálix. Ao mártir!
Todos beberam comovidos. Libaninho entoou em voz de falsete o hymno de Pio IX: o abbade, prudente, fêl-o calar por causa do hortelão que no quintal aparava o buxo.
A sobremesa foi longa, muito saboreada. Natario tornara-se terno, falava das suas sobrinhas, «as suas duas rosas», e citava Virgilio, molhando as castanhas em vinho. Amaro, todo deitado para traz na cadeira, as mãos nos bolsos, olhava machinalmente as árvores do jardim, pensando vagamente em Amelia, nas suas formas: suspirou mesmo com um desejo de ela--enquanto o padre Brito, rubro, queria convencer os republicanos a marmeleiro.
--Viva o marmeleiro do padre Brito! gritou entusiasmado o Libaninho.
Mas Natario começara a discutir com o cônego historia eclesiástica: e, muito questionador, voltou aos seus argumentos vagos sobre a doutrina da Graça: afirmava que um assassino, um parricida poderia ser canonisado--se se tivesse revelado o estado de Graça! Divagava, com frases de escóla em que se lhe pegava a língua. Citou santos que tinham sido escandalosos; outros que pela sua profissão deviam ter conhecido, praticado, amado o vicio. Exclamou com as mãos na cinta:
--Santo Ignacio foi militar!
--Militar!? gritou o Libaninho.--E erguendo-se correndo a Natario, lançando-lhe um braço ao pescoço com uma ternura pueril e avinhada:--Militar!? E que era ele? Que era ele, o meu devoto Santo Ignacio?
Natario repeliu-o:
--Deixa-me, homem! Era sargento de caçadores.
Houve uma enorme risada.
O Libaninho ficara extático.
--Sargento de caçadores! dizia erguendo as mãos em um impeto beato. Meu rico Santo Ignacio! Bendito e louvado seja ele por toda a eternidade!
E então o abbade propôz que fossem tomar café para debaixo da parreira.
Eram três horas. Ao erguer-se todos cambaleavam um pouco, arrotando formidavelmente, com risadas espessas; só Amaro tinha a cabeça lucida, as pernas firmes--e sentia-se muito terno.
--Pois agora, colegas, disse o abbade sorvendo o último gole de café, o que está a calhar é um passeio à fazenda.
--Para esmoer, rosnou o cônego erguendo-se com dificuldade. Vamos lá á fazenda do abbade!
Foram pelo atalho da Barroca, um caminho estreito de carros. O dia estava muito azul, de um sol tépido. A vereda seguia entre valados erriçados de silvas; para além as terras lisas estendiam-se cobertas de rastolho; a espaços as oliveiras destacavam, com grande nitidez, na sua folhagem fina; para o horizonte arredondavam-se colinas cobertas da rama verde-negra dos pinheiros; havia um grande silencio; só ás vezes, ao longe, em um caminho, um carro chiava. E em aquela serenidade da paizagem e da luz, os padres iam caminhando devagar, tropeçando um pouco, de olho aceso, estomago enfartado, chacoteando e achando a vida boa.
O cônego Dias e o abbade, de braço dado, caturravam. O Brito, ao lado de Amaro, jurava que havia de beber o sangue ao morgado da Cumiada.
--Prudencia, colega Brito, prudencia, dizia Amaro chupando o cigarro.
E o Brito, com passadas de carretão, rosnava:
--Hei de comer-lhe os figados!
O Libaninho atraz, só, cantarolava em falsete:
--Passarinho trigueiro, Salta cá fora...
Adiante de todos ia o padre Natario: levava a capa no braço, arrastando pelo chão; a batina desabotoada por traz deixava vêr o forro imundo do colete; e as suas pernas escanifradas, com as meias pretas de lã cheias de passagens, faziam bordos que o atiravam contra o silvado.
E no emtanto Brito, com grandes bafos de vinho, roncava:
--Eu só me contentava em agarrar em um cajado e correr tudo! tudo!--E gesticulava com um gesto imenso que abrangia o mundo.
--Tem as azas quebradas, Não póde agora...
gania atraz o Libaninho.
Mas pararam de repente: Natario adiante gritava com uma voz furiosa:
--Seu burro, você não vê? Sua bêsta!
Era á volta do atalho. Tropeçára com um velho que conduzia uma ovelha; ia caindo; e ameaçava-o com o punho fechado em uma raiva avinhada.
--Queira vossa senhoria perdoar, dizia humildemente o homem.
--Sua bêsta! berrava Natario com os olhos chamejantes. Que o racho!
O homem balbuciava, tinha tirado o chapéo; viam-se os seus cabelos brancos; parecia ser um antigo criado de lavoura envelhecido no trabalho; era talvez avô--e curvado, vermelho de vergonha, encolhia-se com as sebes para deixar passar no estreito caminho de carros os senhores padres joviais e excitados da vinhaça!
Amaro não os quis acompanhar até á fazenda. Ao fim da aldeia, no cruzeiro, tomou pelo caminho de Sobros, voltou para Leiria.
--Olhe que é uma legoa á cidade, dizia o abbade. Eu mando-lhe aparelhar a egoa, colega.
--Qual historia, abbade, a perninha é rija!--E, traçando alegremente a capa, partiu cantarolando o Adeus.
Ao pé da Cortegassa o atalho de Sobros alarga-se, ao comprido de um muro de quinta coberto de musgos e erriçado no alto de luzidios fundos de garrafas. Quando Amaro chegou próximo ao portão de carros, baixo e pintado de vermelho, encontrou no meio do caminho, parada, uma grande vaca malhada; Amaro divertido espicaçou-a com o guarda-chuva; a vaca trotou balouçando a papeira--e Amaro ao voltar-se viu Amelia, ao portão, que saudava, dizendo toda risonha:
--Então está-me a espantar o gado, senhor parocho?
--É a menina! Que milagre é este?
Ela fez-se um pouco vermelha:
--Vim á quinta com a D. Maria da Assumpção. Vim dar uma vista de olhos á fazenda.
Ao pé de Amelia uma rapariga acamava couves em uma canastra.
--Então esta é que é a quinta da D. Maria?
E Amaro deu um passo para dentro do portão.
Uma rua larga de velhos sobreiros, dando uma sombra dôce, estendia-se até á casa que se entrevia no fundo, branquejando ao sol.
--É. A nossa fazenda fica do outro lado, mas entra-se também por aqui. Vá, Joana, avia-te!
A rapariga pôs a canastra á cabeça, deu as boas tardes, meteu pelo caminho de Sobros, batendo muito os quadris.
--Sim, senhor! sim, senhor! Parece uma boa propriedade... considerava o parocho.
--Venha vêr a nossa fazenda! disse Amelia. É uma migalhinha de terra, mas para fazer uma idéa. Vai-se por aqui mesmo... Olhe, vamos ter lá baixo com a D. Maria, quer?
--Valeu. Vamos lá á D. Maria, disse Amaro.
Foram subindo a rua dos sobreiros, calados. O chão estava cheio de folhas secas, e, entre os troncos espaçados, moitas de hortênsias pendiam abatidas, amareladas dos chuveiros; ao fundo a casa baixa, velha, de um andar só, assentava pesadamente. Ao longo da parede grandes aboboras amadureciam ao sol, e no telhado, todo negro do inverno, esvoaçavam pombos. Por traz o laranjal formava uma massa de folhagens verde-escuras; uma nora chiava monotonamente.
Um rapazito passou com um balde de lavagem.
--Para onde foi a senhora, João? perguntou Amelia.
--Foi p'r'ó olival, disse o rapaz com a sua vozinha arrastada.
O olival era longe, no fundo da quinta: havia ainda grandes lamas, não se podia ir lá sem tamancos.
--Vai-se a gente sujar toda, disse Amelia. Deixar lá a D. Maria, hein? Vamos nós vêr a quinta... Por aqui, senhor parocho...
Estavam defronte de um velho muro onde cresciam clematites. Amelia abriu uma porta verde; e por três degraus de pedra desconjuntados desceram a uma rua toldada por uma larga parreira. Junto do muro cresciam rosas de todo o ano; do outro lado, por entre os pilares de pedra que sustentavam a latada e os pés torcidos das cepas, via-se, batido de luz, com tons amarelados, um grande campo de herva; os tectos baixos do curral coberto de colmo destacavam ao longe em escuro, e de esse lado um fumosinho leve e branco perdia-se no ar muito azul.
Amelia a cada momento parava, explicava a quinta:--Ali ia semear-se cevada; além havia de vêr o cebolinho, estava muito bonito...
--Ah! a D. Maria da Assumpção traz isto muito bem tratado!
Amaro ouvia-a falar, com a cabeça baixa, olhando-a de lado; a sua voz em aquele silencio dos campos parecia-lhe mais rica, mais dôce; o grande ar dava-lhe uma cor mais picante ás faces; o seu olhar rebrilhava. Para saltar umas lamas tinha apanhado o vestido; e a brancura da meia, que ele entreviu, perturbou-o como um começo da sua nudez.
Ao fundo da parreira atravessaram um campo ao comprido de um regueiro. Amelia riu muito do parocho, que tinha medo de sapos. Ele então exagerou os seus sustos. Ó menina Amelia, haveria víboras? E roçava-se por ela, afastando-se das hervas altas.
--Vê aquele valado? Pois para o lado de lá é a nossa fazenda. Entra-se pela cancela, vê? Mas veja lá se está cansado! Que o senhor parece-me que não é grande caminhador... Ai, um sapo!
Amaro deu um pulinho, tocou-lhe o hombro. Ela empurrou-o dôcemente, e com um riso cálido:
--Seu medroso! seu medroso!
Estava toda contente, toda viva. Falava na sua fazenda com uma vaidadesinha satisfeita de entender da lavoura, de ser proprietária.
--A cancela está fechada, parece, disse Amaro.
--Está? fez ela.--Apanhou as saias, deu uma carreirinha. Estava fechada! Que pena! E abalava, impaciente, as grades estreitas, entre as duas fortes hombreiras de madeira encravadas na espessura do silvado.
--Foi o caseiro que levou a chave!
Agachou-se, gritou para o lado do campo, arrastando muito tempo a voz:--Antônio! Antônio!
Ninguém respondeu.
--Anda lá para o fundo da quinta! disse ela. Que seca! Se o senhor parocho quizesse, aqui adiante póde-se passar. Ha uma abertura no valado, chamam-lhe o salto da cabra. Póde a gente saltar para o outro lado.
E caminhando rente ao silvado, chapinhando a lama, toda alegre:
--Quando eu era pequena nunca passava pela cancela, saltava sempre por ali. E cada trambolhão quando o chão estava resvaladiço com a chuva! Era um vivo demônio, aqui onde me vê! Ninguém ha de dizer, senhor parocho, hein? Ai! vou-me a fazer velha!--E voltando-se para ele, com um risinho onde luzia o esmalte dos dentes:--Não é verdade? Estou-me a fazer velha, hein?
Ele sorria. Custava-lhe falar. O sol, batendo-lhe nas costas, depois do vinho do abbade, amolecia-o: e a figura de ela, os seus hombros, os seus encontros davam-lhe um desejo continuo e intenso.
--Aqui está o salto da cabra, disse Amelia parando.
Era uma abertura estreita no valado: a terra do outro lado, mais baixa, estava toda lamacenta. Via-se de ali a fazenda da S. Joaneira: o campo plano estendia-se até um olival, com a herva fina muito estrelada de pequenos malmequeres brancos; uma vaca preta, de grandes malhas, pastava; e para além viam-se tectos aguçados de casais onde voavam revoadas de pardais.
--E agora? perguntou Amaro.
--Agora saltar, disse ela rindo.
--Cá vai! exclamou ele.
Traçou a capa, saltou; mas escorregou nas hervas humidas--e imediatamente Amelia, debruçando-se, rindo muito, com grandes acenos de mãos:
--E agora adeus, senhor parocho, que eu vou ter com a D. Maria. Aí fica preso na fazenda. Para cima não póde o senhor pular, pela cancela não póde o senhor passar! É o senhor parocho que está preso...
--Ó menina Amelia! ó menina Amelia!
Ela cantarolava-lhe, escarnecendo:
Fico sósinha á varanda Que o meu bem está na prisão!
Aquelas maneirinhas excitavam o padre--e com os braços erguidos, a voz cálida:
--Salte, salte!
Ela então fez voz de mimo:
--Ai, tenho medinho! tenho medinho...
--Salte, menina!
--Lá vai! gritou ela bruscamente.
Saltou, foi cahir-lhe sobre o peito com um gritinho. Amaro resvalou, firmou-se--e, sentindo entre os braços o corpo de ela, apertou-a brutalmente e beijou-a com furor no pescoço.
Amelia desprendeu-se, ficou diante de ele, sufocada, com a face em braza, compondo na cabeça e em roda do pescoço, com as mãos tremulas, as pregas da manta de lã. Amaro disse-lhe:
--Ameliasinha!
Mas ela de repente apanhou os vestidos, correu ao comprido do valado. Amaro, com grandes passadas, seguiu-a atarantado. Quando chegou á cancela, Amelia falava ao caseiro, que aparecia com a chave.
Atravessaram o campo junto ao regueiro, depois a rua coberta com a parreira. Amelia adiante palrava com o caseiro; e atraz Amaro, de cabeça baixa, seguia muito murcho. Ao pé da casa Amelia parou, fazendo-se vermelha, compondo sempre a manta em redor do pescoço:
--Ó Antônio, disse, ensine o portão ao senhor parocho. Muito boas tardes, senhor parocho.
E através das terras humidas correu para o fundo da quinta, para os lados do olival.
A Sr..^a D. Maria da Assumpção ainda lá estava, sentada em uma pedra, tagarelando com o tio Patricio; um bando de mulheres, com grandes varas, batiam em redor a ramagem das oliveiras.
--Que é isso, tonta? de onde vens tu a correr, rapariga? Credo, que doida!
--Vim a correr, disse **ela** toda vermelha, sufocada.
Sentou-se ao pé da velha; e ficou imóvel, com as mãos cahídas no regaço, respirando fortemente, os beiços entreabertos, os olhos fixos em uma abstracção. Todo o seu sêr se abismava em uma só sensação:
--Gosta de mim! Gosta de mim!
Estava ha muito namorada do padre Amaro--e ás vezes, só, no seu quarto, desesperava-se por imaginar que ele não percebia nos seus olhos a confissão do seu amor! Desde os primeiros dias, apenas o ouvia pela manhã pedir de baixo o almoço, sentia uma alegria penetrar todo o seu sêr sem razão, punha-se a cantarolar com uma volubilidade de pássaro. Depois via-o um pouco triste. Porquê? Não conhecia o seu passado; e, lembrada do frade de Évora, pensou que ele se fizera padre por um desgosto de amor. Idealisou-o então: supunha-lhe uma natureza muito terna, parecia-lhe que da sua pessoa airosa e pálida se desprendia uma fascinação. Desejou tel-o por confessor: como seria bom estar ajoelhada aos pés de ele, no confessionário, vendo de perto os seus olhos negros, sentindo a sua voz suave falar do paraíso! Gostava muito da frescura da sua boca; fazia-se pálida à idéa de o poder abraçar na sua longa batina preta! Quando Amaro saia, ia ao quarto de ele, beijava a travesseirinha, guardava os cabelos curtos que tinham ficado nos dentes do pente. As faces abrazavam-se-lhe quando o ouvia tocar a campainha.
Se Amaro jantava fora com o cônego Dias estava todo o dia impertinente, ralhava com a Ruça, ás vezes mesmo dizia mal de ele, «que era casmurro, que era tão novo que nem inspirava respeito». Quando ele falava de alguma nova confessada, amuava, com um ciume pueril. A sua antiga devoção renascia, cheia de um fervor sentimental: sentia um vago amor físico pela Igreja; desejaria abraçar, com pequeninos beijos demorados, o altar, o órgão, o missal, os santos, o céo, porque não os distinguia bem de Amaro, e pareciam-lhe dependências da sua pessoa. Lia o seu livro de missa pensando em ele como no seu Deus particular. E Amaro não sabia, quando passeava agitado pelo quarto, que ela em cima o escutava, regulando as palpitações do seu coração pelas passadas de ele, abraçando o travesseiro, toda desfalecida de desejos, dando beijos no ar, onde se lhe representavam os lábios do parocho!
A tarde caía quando D. Maria e Amelia voltaram para a cidade. Amelia adiante, calada, chibatava a sua burrinha, enquanto D. Maria da Assumpção vinha palrando com o moço da quinta, que segurava a arreata. Ao passar junto á Sé tocou a Ave-Marias. E Amelia, rezando, não podia destacar os olhos das cantarias da igreja tão grandiosamente erguidas, decerto para que ele ali celebrasse! Lembravam-lhe então domingos em que o vira, ao repicar dos sinos, dar a benção dos degraus do altar-mór; e todos se curvavam, mesmo as senhoras do morgado Carreiro, mesmo a senhora baronesa de Via-Clara e a mulher do governador civil, tão orgulhosa, com o seu nariz de cavalete! Dobravam-se sob os seus dedos erguidos, e achavam decerto também bonitos os seus olhos negros! E era ele que a tinha apertado nos braços, ao pé do valado! Sentia ainda no pescoço a pressão cálida dos seus beiços: uma paixão flamejou como uma chama por todo o seu sêr: largou a arreata do burrinho, apertou as mãos contra o peito, e cerrando os olhos, lançando toda a sua alma em uma devoção:
--Ó Nossa Senhora das Dôres, minha madrinha, faze que ele goste de mim!
No adro lageado cônegos passeavam, conversando. A botica defronte já tinha luz, os bocais reluziam; e por detrás da balança a figura do farmacêutico Carlos, com o seu boné bordado a missanga, movia-se magestosamente.