Capítulo VIII O Crime do Padre Amaro · Capítulo 9 de 26
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Capítulo VIII

O padre Amaro voltara para casa aterrado.

--E agora? E agora? dizia ele encostado ao canto da janela, sentindo o coração encolhido.

Devia sair imediatamente da casa da S. Joaneira! Não podia continuar ali, na mesma familiaridade, depois de ter tido «aquele atrevimento com a pequena».

Que ela não ficara muito indignada--apenas atordoada; contivera-a talvez o respeito eclesiástico, a delicadeza para com o hospede, a atenção para com o amigo do cônego. Mas podia contar á mãe, ao escrevente... Que escândalo! E via já o senhor chantre, traçando a perna e fitando-o,--que era a sua atitude de reprehensão--dizer-lhe com pompa:--«São esses desregramentos que desonram o sacerdócio. Não se comportaria de outro modo um Satyro no monte Olympo!»--Poderiam desterral-o outra vez para alguma freguezia da serra!... Que diria a senhora condessa de Ribamar?

E depois, se persistisse em vê-la na intimidade, ter constantemente presentes aqueles olhos negros, o sorriso cálido que lhe fazia uma covinha no queixo, a curva de aquele peito--a sua paixão, crescendo surdamente, irritada a toda a hora, recalcada para dentro, tornal-o-hia doido, «podia fazer alguma asneira»!

Decidiu-se então a ir falar ao cônego Dias: a sua natureza fraca necessitava sempre receber forças de uma razão, de uma experiencia alheia: costumava consultar ordinariamente o cônego que, pelo habito da disciplina eclesiástica, ele julgava mais inteligente por ser seu superior na hierarchia; e não perdera, desde o seminário, a sua dependência de discípulo. Depois, se quizesse arranjar uma casa e uma criada para ir viver só, necessitava o auxilio do cônego, que conhecia Leiria como se a tivesse edificado.

Encontrou-o na sala de jantar. O candieiro de azeite esmorecia com um murrão avermelhado. Os tições da brazeira, cobertos de uma pulverisação de cinza, revermelhavam vagamente. E o cônego, sentado em uma cadeira de braços, com o capote pelos hombros, os pés embrulhados em um cobertor, amodorrado no calor do lume, com o Breviario sobre os joelhos, dormitava. Na dobra do cobertor, a Trigueira estirada dormitava como ele.

Aos passos de Amaro o cônego abriu muito devagar os olhos, rosnou:

--Ia adormecendo, hein!

--É cedo, disse o padre Amaro. Ainda não tocou a recolher. Então que preguiça é essa?

--Ah! é você? disse o cônego com um enorme bocejo. Cheguei tarde de casa do abbade, tomei uma gota de chá, veio o quebranto... Então que é feito?

--Vim por aqui.

--Pois o abbade deu-nos um rico jantar. A cabedela estava de mão cheia! Eu carreguei-me um bocado, disse o cônego rufando com os dedos na capa do Breviario.

Amaro, sentado ao pé de ele, remexia devagar o brazido:

--Sabe você, padre-mestre? disse ele de repente. Ia acrescentar:--Aconteceu-me um caso!--Mas reteve-se, murmurou:--Estou hoje exquisito; tenho andado ultimamente fora dos eixos...

-Você com efeito anda amarelo, disse o cônego, considerando-o. Purgue-se, homem!

Amaro esteve um momento calado, a olhar o lume.

--Sabe? estou com idéa de mudar de casa.

O cônego ergueu a cabeça, arregalou os olhinhos somnolentos:

--Mudar de casa! Ora essa! Porquê?

O padre Amaro chegou a cadeira para ele, e falando baixo:

--Você percebe... Tenho estado a pensar, é assim exquisito estar em casa de duas mulheres, com uma rapariga...

--Ora, historias! Que me vem você contar? Você é hospede... Deixe-se de isso, homem! É como quem está na hospedaria.

--Não, não, padre-mestre, eu cá me entendo...

E suspirou; desejava que o cônego o interrogasse, facilitasse as confidencias.

--Então só hoje é que pensa em isso, Amaro?!

--É verdade, tenho estado a pensar hoje em isto. Tenho minhas razões.--Ia a dizer:--Fiz uma tolice,--mas acanhou-se.

O cônego olhou para ele um momento:

--Homem, seja franco!

--Sou.

--Você acha aquilo caro?

--Não! disse o outro com uma negação impaciente.

--Bem, então é outra coisa...

--É. Você que quer?--E em um tom magano, com que julgou agradar ao cônego:--A gente também gosta do que é bom...

--Bem, bem, disse o cônego rindo, percebo. Você, como eu sou amigo da casa, quer-me dizer por bons modos que tem nojo de tudo aquilo!

--Tolice! disse Amaro erguendo-se, irritado de tanta obtusidade.

--Oh, homem! exclamou o cônego abrindo os braços. Você quer sair da casa? Por alguma é! Ora a mim parece-me que melhor...

--É verdade, é verdade, dizia Amaro que dava agora grandes passadas pela sala. Mas estou com esta ferrada! Veja você se me arranja uma casita barata com alguma mobília... Você entende melhor de essas coisas...

O cônego ficou calado, muito enterrado na poltrona, coçando devagar o queixo.

--Uma casita barata... rosnou por fim. Eu verei, eu verei... Talvez.

--Você comprehende, acudiu vivamente Amaro, chegando-se ao cônego. A casa da S. Joaneira...

Mas a porta rangeu, D. Josefa Dias entrou: e depois de conversarem sobre o jantar do abbade, o catarro da pobre D. Maria da Assumpção, a doença de figado que ia minando o engraçado cônego Sanches--Amaro saiu, quase contente agora de se não «ter desabotoado com o padre-mestre».

O cônego ficou ainda ao pé do lume, ruminando. Aquela resolução de Amaro de deixar a casa da S. Joaneira era bem vinda; quando ele o trouxera de hospede para a rua da Misericórdia, combinara com a S. Joaneira diminuir-lhe a mesada que havia anos lhe dava, regularmente, no dia 30. Mas arrependeu-se logo; a S. Joaneira, se não tinha hospede, dormia só no primeiro andar: o cônego podia então saborear livremente os carinhos da sua velhota,--e Amelia, na sua alcova, em cima, era alheia a este «conchêgosinho». Quando veio o padre Amaro, a S. Joaneira cedeu-lhe o quarto e dormia em uma cama de ferro ao pé da filha: e o cônego então reconheceu, como ele disse, desconsolado--«que aquele arranjo tinha estragado tudo». Para gozar as doçuras da sésta com a sua S. Joaneira era necessário que Amelia jantasse fora, que a Ruça estivesse na fonte, outras combinações importunas; e ele, cônego do cabido, na egoísta velhice, quando precisava ter recato com a sua saúde, via-se obrigado a esperar, a espreitar, a ter nos seus prazeres regulares e higiênicos as dificuldades de um colegial que ama a senhora professora. Ora se Amaro sahisse, a S. Joaneira descia ao seu quarto, no primeiro andar; vinham as antigas comodidades, as tranquilas séstas. É verdade que tinha de dar a antiga mesada... Daria a mesada!

--Que diabo! ao menos está um homem á sua vontade, resumiu ele.

--Que está para aí o mano a falar só? perguntou a Sr..^a D. Josefa despertando do quebranto em que ia caindo, ao pé do lume.

--Estava cá a malucar como hei de castigar a carne na quaresma...--disse o cônego com um riso grosso.

A essa hora a Ruça chamava o padre Amaro para o chá: e ele subia devagar, com o coração pequenino, receando encontrar a S. Joaneira muito carrancuda, já informada do insulto. Achou só Amelia--que tendo-lhe sentido os passos na escada tomara rapidamente a costura e, com a cabeça muito baixa, dava grandes agulhadas, vermelha como o lenço que abainhava para o cônego.

--Muito boa noite, menina Amelia.

--Muito boa noite, senhor parocho.

Amelia costumava sempre ter um olá! ou um ora viva! muito amável; aquela secura aterrou-o; disse-lhe logo muito perturbado:

--Menina Amelia, eu peço-lhe que me perdoe... Foi um atrevimento... Eu nem soube o que fiz... Mas acredite... Estou resolvido a sair de aqui. Até já pedi ao senhor cônego Dias que me arranjasse casa...

Falava com o rosto baixo--e não via Amelia erguer os olhos para ele, surprehendida e toda desconsolada.

em este momento a S. Joaneira entrou, e logo da porta, abrindo os braços:

--Viva! Então já sei, já sei! Disse-me o senhor padre Natario: grande jantar! Conte lá, conte lá!

Amaro teve de dizer os pratos, as pilherias do Libaninho, a discussão teológica; depois falaram da fazenda: e Amaro desceu, sem se ter atrevido a dizer á S. Joaneira que ia deixar a casa,--o que era, coitada, para a pobre mulher, uma perda de seis tostões por dia!

Na manhã seguinte o cônego foi a casa de Amaro, pela manhã, antes de ir ao coro. O parocho fazia a barba á janela:

--Ólá, padre-mestre! Que ha de novo?

--Parece-me que se arranja a coisa! E foi por acaso, esta manhã... Ha uma casita lá para os meus lados, que é um achado. Era do major Nunes, que vai mudado para o 5.

Aquela precipitação desagradou a Amaro: perguntou, dando desconsoladamente o fio á navalha:

--Tem mobília?

--Tem mobília, tem louças, tem roupas, tem tudo.

--Então...

--Então é entrar e começar a gozar. E aqui para nós, Amaro, você tem razão. Estive a pensar no caso... É melhor para você viver só. De modo que vista-se, e vamos vêr a casita.

Amaro, calado, rapava a cara com desespero.

A casa era na rua das Sousas, de um andar, muito velha, com a madeira carunchosa: a mobília, como disse o cônego, «podia passar a veteranos»; algumas litografias desbotadas pendiam lugubremente de grandes prégos negros; e o imundo major Nunes deixara os vidros quebrados, os soalhos todos escarrados, as paredes riscadas de fósforos, e até sobre um poial da janela duas piúgas quase negras.

Amaro aceitou a casa. E em essa mesma manhã o cônego ajustou-lhe uma criada, a Sr..^a Maria Vicência, pessoa muito devota, alta e magra como um pinheiro, antiga cozinheira do doutor Godinho. E (como considerou o cônego Dias) era a própria irmã da famosa Dionysia!

A Dionysia fora outr'ora a Dama das Camelias, a Ninon de Lenclos, a Manon de Leiria: gozara a honra de ser concubina de dois governadores civis e do terrível morgado da Sertejeira; e as paixões frenéticas que inspirara tinham sido para quase todas as mães de família de Leiria causa de lagrimas e de fanicos. Agora engomava para fora, encarregava-se de empenhar objectos, entendia muito de partos, protegia «o rico adulteriosinho» segundo a singular expressão do velho D. Luiz da Barrosa cognominado o infame, fornecia lavradeirinhas aos senhores empregados públicos, sabia toda a historia amorosa do districto. E via-se sempre na rua a Dionysia com o seu chale de xadrez traçado, o pesado seio tremendo dentro de um chambre sujo, o passinho discreto e os antigos sorrisos--mas a que faltavam já os dois dentes de diante.

O cônego logo em essa tarde deu parte á S. Joaneira da resolução de Amaro. Foi um grande espanto para a excelente senhora! Queixou-se, com amargura, da ingratidão do senhor parocho.

O cônego tossiu grosso e disse:

--Escute, senhora. Fui eu que arranjei a coisa. E eu lhe digo porquê: é que este arranjo de quarto em cima, etc., está-me a arrazar a saúde.

Deu outras razões de prudencia higiênica e acrescentou, passando-lhe com bondade os dedos pelo pescoço:

--E o que é perder a conveniência, não se aflija a senhora! Eu darei p'r'á panela como de antes; e como a colheita foi boa porei mais meia moeda para os arrebiques da pequena. Ora venha de lá uma beijoca, Augustinha, sua bréjeira! E ouça, hoje como-lhe cá as sopas.

Amaro no emtanto em baixo ia emalando a sua roupa. Mas a cada momento parava, dava um ai triste, ficava a olhar em redor o quarto, a cama fôfa, a mesa com a sua toalha branca, a larga cadeira forrada de chita onde ele lia o Breviario, ouvindo, por cima, cantarolar Amelia.

--Nunca mais! pensava. Nunca mais!

Adeus as boas manhãs passadas ao pé de ela, vendo-a costurar! Adeus as alegres sobremesas, que se prolongavam á luz do candieiro! Adeus os chás, ao pé da brazeira, quando o vento uivava fora e cantavam as frias goteiras! Tudo tinha acabado!

A S. Joaneira e o cônego apareceram então á porta do quarto. O cônego resplandecia; e a S. Joaneira disse, muito magoada:

--Já sei, já sei, seu ingrato!

--É verdade, minha senhora, fez Amaro encolhendo os hombros tristemente. Mas ha razões... Eu sinto...

--Olhe, senhor parocho, disse a S. Joaneira, não se ofenda com o que lhe vou dizer, mas eu já lhe queria como filho...--E levou o lenço aos olhos.

--Tolices! exclamou o cônego. Pois então ele não póde vir aqui em amizade, passar as noites para o cavaco, tomar o seu café?... O homem não vai para o Brasil, senhora!

--Pois sim, pois sim, dizia a pobre senhora desconsolada, mas sempre era tel-o de portas a dentro!

Emfim, ela bem sabia que a gente na sua casa está muito melhor... Fez-lhe então grandes recomendações sobre a lavadeira, que mandasse buscar o que quizesse, louças, lenções...

--E veja lá não lhe esqueça alguma coisa, senhor parocho!

--Muito obrigado, minha senhora, muito obrigado...

E, continuando a arrumar a sua roupa, o parocho desesperava-se agora contra a resolução que tomara. A pequena evidentemente não tinha aberto bico! Para que sairia então de aquela casa tão barata, tão confortável, tão amiga? E odiava o cônego pelo seu zelo tão precipitado.

O jantar foi triste. Amelia, decerto para explicar a sua palidez, queixava-se de dôres na cabeça. Ao café o cônego quis a sua «dóse de musica»; e Amelia, ou machinalmente ou com intenção, disse a canção querida:

Ai! adeos! acabaram-se os dias Que ditoso vivi a teu lado! Sôa a hora, o momento fadado, É forçoso deixar-te e partir!

Então, àquela chorosa melodia repassada das tristezas da separação, Amaro sentiu-se tão perturbado que teve de se erguer bruscamente, ir encostar o rosto á vidraça, esconder as duas lagrimas que irreprimivelmente lhe saltavam das pálpebras. Os dedos de Amelia embrulhavam-se também no teclado; até a mesma S. Joaneira disse:

--Oh filha, toca outra coisa, credo!

Mas o cônego erguendo-se pesadamente:

--Pois senhores, vão sendo horas. Vamos lá, Amaro. Eu vou consigo até a rua das Sousas...

Amaro então quis dizer adeus á idiota; mas, depois de um forte acesso de tosse, a velha dormia, muito fraca.

--Deixá-la socegada, disse Amaro. E apertando a mão á S. Joaneira:--Muito obrigado por tudo, minha senhora, acredite...

Calou-se, com um soluço na garganta.

A S. Joaneira tinha levado aos olhos a ponta do seu avental branco.

--Oh, senhora! disse o cônego rindo-se, já ha bocado lhe disse, o homem não vai p'r'ás Indias!

--A gente é pela amizade que lhes ganha... choramingou a S. Joaneira.

Amaro tentou gracejar. Amelia, muito branca, mordia o beicinho.

Emfim Amaro desceu: e o João Ruço que na sua chegada a Leiria lhe trouxera o bahú para a rua da Misericórdia, muito bêbedo, cantarolando o Bendito,--levava-lh'o agora para a rua das Sousas, bêbedo também, mas trauteando o Rei-chegou.

Quando Amaro, em essa noite, se viu só em aquela casa tristonha, sentiu uma melancolia tão pungente e um tédio tão negro da vida, que, com a sua natureza lassa, teve vontade de se encolher a um canto e ficar ali a morrer!

Parava no meio do quarto, punha-se a olhar em redor: a cama era de ferro, pequena, com um colchão duro e uma coberta vermelha; o espelho com o aço gasto luzia sobre a mesa; como não havia lavatório, a bacia e o jarro, com um bocadinho de sabonete, estavam sobre o poial da janela; tudo ali cheirava a môfo; e fora, na rua negra, caía sem cessar a chuva triste. Que existência! E seria sempre assim!...

Desesperou-se então contra Amelia: acusou-a, com o punho fechado, das comodidades que perdera, da falta de mobília, da despeza que ia ter, da solidão que o regelava! Se fosse mulher de coração devia ter vindo ao seu quarto e dizer-lhe: «Senhor padre Amaro, para que sae de casa? Eu não estou zangada!» Porque emfim quem irritara o seu desejo? Ela, com as suas maneirinhas ternas, os seus olhinhos adocicados! Mas não, deixara-o emalar a roupa, descer a escada, sem uma palavra amiga, indo tocar com estrondo a valsa do Beijo!

Jurou então não voltar a casa da S. Joaneira. E, a grandes passadas pelo quarto, pensara no que havia de fazer para humilhar Amelia. O quê? Desprezal-a como uma cadela! Ganhar influencia na sociedade devota de Leiria, ser muito do senhor chantre; afastar da rua da Misericórdia o cônego e as Gansosos; intrigar com as senhoras da boa roda para que se afastassem de ela, com secura, no altar-mór, á missa do domingo; dar a entender que a mãe era uma prostituta... Enterral-a! cobril-a de lama! E na Sé, ao sair da missa, regalar-se de a vêr passar encolhida no seu mantelete preto, escorraçada de todos, enquanto ele, á porta, de propósito, conversaria com a mulher do senhor governador civil e seria galante com a baronesa de Via-Clara!... Depois prégaria um grande sermão, na quaresma, e ela ouviria dizer, na arcada, nas lojas: «Grande homem, o padre Amaro!» Tornar-se-hia ambicioso, intrigaria e, protegido pela senhora condessa de Ribamar, subiria nas dignidades eclesiásticas: e o que pensaria ela quando o visse um dia bispo de Leiria, pálido e interessante na sua mitra toda dourada, passando, seguido dos incensadores, ao longo da nave da Sé, entre um povo ajoelhado e penitente, sob os roucos cantos do órgão? E ela o que seria então? Uma magra creatura murcha, embrulhada em um chale barato! E o Sr.. João Eduardo, o escolhido de agora, o esposo? Seria um pobre amanuense mal pago, com uma quinzena roçada, os dedos queimados do cigarro, curvado sobre o seu papel almasso, imperceptivel na terra, adulando alto e invejando baixo! E ele, bispo, na vasta escadaria hierarchica que sobe até ao céo, estaria já muito para cima dos homens, na zona de luz que faz a face de Deus-Padre!--E seria par do reino, e os padres da sua diocese tremeriam de o vêr franzir a testa!

Na igreja, ao lado, bateram devagar dez horas.

Que faria ela àquela hora? pensava. Costurava decerto, na sala de jantar: estava o escrevente: jogavam a bisca, riam--ela roçava-lhe talvez com o pé, no escuro, debaixo da mesa! Recordou o seu pé, o bocadinho da meia que vira quando ela saltava as lamas na quinta; e essa curiosidade inflamada subia pela curva da perna até ao seio, percorrendo belezas que suspeitava... O que ele gostava de aquela maldita! E era impossível obtel-a! E todo o homem feio e estupido podia ir á rua da Misericórdia pedil-a á mãe, vir á Sé dizer-lhe: «Senhor parocho, case-me com esta mulher», e beijar, sob a proteção da Igreja e do Estado, aqueles braços e aquele peito! Ele não. Era padre! Fora aquela infernal pêga da marquesa de Alegros!...

Abominava então todo o mundo secular--por lhe ter perdido para sempre os privilégios: e, como o sacerdócio o excluia da participação nos prazeres humanos e sociais, refugiava-se, em compensação, na idéa da superioridade espiritual que ele lhe dava sobre os homens. Aquele miserável escrevente podia casar e possuir a rapariga--mas que era ele em comparação de um parocho a quem Deus conferira o poder supremo de distribuir o céo e o inferno?...--E repastava-se de este sentimento, enchendo o espirito de orgulhos sacerdotais. Mas vinha-lhe bem depressa a desconsoladora idéa que esse domínio só era valido na região abstracta das almas; nunca o poderia manifestar, por atos triunfantes, em plena sociedade. Era um Deus dentro da Sé--mas, apenas saia para o largo, era apenas um plebeu obscuro. Um mundo irreligioso reduzira toda a acção sacerdotal a uma mesquinha influencia sobre almas de beatas... E era isto que lamentava, esta diminuição social da Igreja, esta mutilação do poder eclesiástico, limitado ao espiritual, sem direito sobre o corpo, a vida e a riqueza dos homens... O que lhe faltava era a autoridade dos tempos em que a Igreja era a nação e o parocho dono temporal do rebanho. Que lhe importava, no seu caso, o direito mistico de abrir ou fechar as portas do céo? O que ele queria era o velho direito de abrir ou fechar a porta das masmorras! Necessitava que os escreventes e as Amelias tremessem da sombra da sua batina... Desejaria ser um sacerdote da antiga Igreja, gozar das vantagens que dá a denuncia e dos terrores que inspira o carrasco, e ali em aquela vila, sob a jurisdicção da sua Sé, fazer estremecer, á idéa de castigos torturantes, aqueles que aspirassem a realizar felicidades--que lhe eram a ele interdictas: e pensando em João Eduardo e em Amelia, lamentava não poder acender as fogueiras da Inquisição!--Assim aquele inofensivo moço tinha durante horas, sob a excitação colérica de uma paixão contrariada, ambições grandiosas de tirania católica:--porque todo o padre, o mais boçal, tem um momento em que é penetrado pelo espirito da Igreja ou nos seus lances de renunciamento mistico ou nas suas ambições de dominação universal: todo o sub-diácono se julga uma hora capaz de ser santo ou de ser Papa: não ha seminarista que não tenha, durante um instante, aspirado com ternura á caverna no deserto em que S. Jeronymo, olhando o céo estrelado, sentia descer-lhe sobre o peito a Graça como um abundante rio de leite: e o abbade pansudo que á tardinha, á varanda, palita o dente furado saboreando o seu café com um ar paterno, traz dentro em si os indistinctos restos de um Torquemada.

A vida de Amaro tornou-se monótona. Março ia muito molhado, muito frio; e, depois do serviço na Sé, Amaro entrava em casa, tirava as botas enlameadas, ficava em chinelas a aborrecer-se. Ás três horas jantava; e nunca levantava a tampa rachada da terrina sem se lembrar, com uma saudade pungente, do jantarinho na rua da Misericórdia, quando Amelia, com o seu colar muito branco, lhe passava a sopa de grãos de bico, sorrindo, toda carinhosa. Ao lado a Vicência servia, têsa e enorme, com o seu corpo de soldado vestido de saias, sempre constipada; e de vez em quando, desviando a cabeça, assoava-se ao avental com ruido. Era muito suja: as facas tinham o cabo humido da água gordurosa das lavagens. Amaro, desgostoso e indiferente, não se queixava; comia mal, á pressa; mandava vir o café, e ficava horas esquecidas sentado á mesa, quebrando a cinza do cigarro na borda do prato, perdido em um tédio mudo, sentindo os pés e os joelhos frios do vento que entrava pelas frinchas da sala desabrigada.

Ás vezes o coadjutor, que nunca o visitara na rua da Misericórdia, aparecia ao fim do jantar: sentava-se arredado da mesa, e ficava calado, com o seu guardachuva entre os joelhos. Depois, julgando agradar ao parocho, repetia, invariavelmente:

--Vossa senhoria aqui está melhor, sempre é estar em sua casa.

--Está claro... rosnava Amaro.

Ao principio, para consolar o seu despeito, dizia ligeiramente mal da S. Joaneira, provocando, animando o coadjutor (que era de Leiria) a contar os escândalos da rua da Misericórdia. O coadjutor, por servilismo, tinha sorrisos mudos, repassados de perfídia.

--Ali ha pôdres, hein? dizia o parocho.

O outro encolhia os hombros, com as mãos muito espalmadas ao pé das orelhas, em uma expressão de malicia; mas não pronunciava um som, receando que as suas palavras, repetidas, escandalisassem o senhor cônego. Ficavam então soturnos, trocando, a espaços, frases moles: um batizado que havia; o que dissera o cônego Campos; um frontal do altar que era necessário limpar. Aquela conversa enfastiava Amaro: sentia-se muito pouco padre, muito distante da panelinha eclesiástica: não o interessavam as intriguinhas do cabido, as parcialidades tão comentadas do senhor chantre, os roubos da Misericórdia, as turras da camara eclesiástica com o governo civil; e achava-se sempre alheio, mal informado, nas palestras eclesiásticas em que tão femininamente se deleitam os padres, e que têm a puerilidade de uma caturrice e a tortuosidade de uma conspiração.

--O vento está sul? perguntava ele emfim, bocejando.

--Sempre! respondia o coadjutor.

Acendia-se a luz; o coadjutor erguia-se, sacudia o guardachuva, e saia com um olhar de revez á Vicência.

Era aquela a peor hora, a da noite, quando ficava só. Procurava lêr, mas os livros enfastiavam-em o: desabituado da leitura não comprehendia «o sentido». Ia olhar á vidraça: a noite estava tenebrosa, o lagedo reluzia vagamente. Quando acabaria aquela vida? Acendia o cigarro, e do lavatório para a janela recomeçava os seus passeios, com as mãos atraz das costas. Deitava-se sem rezar ás vezes: e não tinha escrúpulos: julgava que ter renunciado a Amelia era já uma penitencia, não necessitava cansar-se a lêr orações no livro; celebrara o «seu sacrifício»--sentia-se vagamente quite com o céo!

E continuava a viver só: o cônego nunca vinha á rua das Sousas, «porque, dizia, era casa que só o entrar em ela até se lhe agoniava o estomago». E Amaro, cada dia mais amuado, não voltara a casa da S. Joaneira. Escandalisára-se muito que ela não lhe tivesse mandado pedir para ir ás partidas da sexta-feira; attribuira «a desfeita» á hostilidade de Amelia; e, mesmo para a não vêr, trocara com o padre Silveira a missa do meio-dia onde ela costumava ir, e dizia a das nove horas, furioso com aquele novo sacrifício!

Todas as noites Amelia, ao ouvir tocar a campainha, tinha uma palpitação tão forte no coração que ficava como sufocada um momento. Depois os botins de João Eduardo rangiam na escada, ou ela conhecia os passos fôfos das galochas das Gansosos: apoiava-se então às costas da cadeira, cerrando os olhos, como na fadiga de uma desesperança repetida. Esperava o padre Amaro; e ás vezes, pelas dez horas, quando já não era possível que ele viesse, a sua melancolia era tão pungente que se lhe entumecia a garganta de soluços, tinha de pousar a costura, dizer:

--Vou-me deitar, estou com umas dôres de cabeça que não paro!

Atirava-se para a cama de bruços, murmurava em uma agonia:

--Oh Senhora das Dôres, minha madrinha! porque não vem ele, porque não vem ele?

Nos primeiros dias, apenas ele se fora embora, toda a casa lhe pareceu desabitada e lúgubre! Quando vira no quarto de ele os cabides sem a sua roupa, a comoda sem os seus livros, rompeu a chorar. Foi beijar a travesseirinha onde ele dormia, apertou ao peito com delírio a última toalha a que ele limpara as mãos! Tinha constantemente o seu rosto presente, ele entrava sempre nos seus sonhos. E com a separação o seu amor ardia mais forte e mais alto, como uma fogueira que se isola.

Uma tarde, que fora visitar uma prima enfermeira no hospital, viu ao chegar á ponte gente parada, embasbacada com gozo para uma rapariga de cuia á banda e garibáldi escarlate, que, de punho no ar, já rouca, praguejava contra um soldado: o rapazola, um beirão de cara redonda e lorpa coberta de penugem loura, virava-lhe as costas, encolhendo os hombros, as mãos muito enterradas nos bolsos, rosnando:

--Não lhe fez mal, não lhe fez mal...

O Sr.. Vasques, com loja de panos na Arcada, parara a olhar, descontente de aquela «falta de ordem publica».

--Algum barulho? perguntou-lhe Amelia.

--Olá, menina Amelia! Não, uma brincadeira do soldado. Atirou-lhe um rato morto á cara, e a mulher está a fazer aquele espalhafato. Bebedas!

Mas a rapariga de garibáldi vermelha voltara-se--e Amelia aterrada reconheceu a Joaninha Gomes, sua amiga da mestra, que fora amante do padre Abilio! O padre fora suspenso, deixara-a; ela partira para Pombal, depois para o Porto; de miséria em miséria voltara a Leiria, e aí vivia em alguma viela ao pé do quartel, entisicando, gasta por todo um regimento!--Que exemplo, santo Deus, que exemplo!

E também ela gostava de um padre! Também ela, como outr'ora a Joaninha, chorava sobre a sua costura quando o senhor padre Amaro não vinha! Onde a levava aquela paixão? Á sorte da Joaninha! A ser a amiga do parocho! E via-se já apontada a dedo, na rua e na Arcada, mais tarde abandonada por ele, com um filho nas entranhas, sem um pedaço de pão!... E, como uma rajada de vento que limpa em um momento um céo enevoado, o terror agudo que lhe dera o encontro de Joaninha varreu-lhe do espirito as nevoas amorosas e mórbidas em que ela se ia perdendo. Decidiu aproveitar a separação, esquecer Amaro: lembrou-se mesmo de apressar o seu casamento com João Eduardo para se refugiar em um dever dominante; durante alguns dias forçou-se a interessar-se por ele; começou mesmo a bordar-lhe umas chinelas...

Mas pouco a pouco a idéa má que, atacada, se encolhera e se fingira morta,--principiou lentamente a desenroscar-se, a subir, a invadil-a! De dia, de noite, costurando e rezando, a idéa do padre Amaro, os seus olhos, a sua voz apareciam-lhe, tentações teimosas! com um encanto crescente. Que faria ele? porque não vinha? gostava de outra? Tinha ciumes indefinidos, mas mordentes, que a queimavam. E aquela paixão ia-a envolvendo como uma atmosfera de onde não podia sair, que a seguia se ela fugia, e que a fazia viver! As suas resoluções honestas resequiam-se, morriam como debeis florinhas em aquele fogo que a percorria. Se ás vezes a lembrança de Joaninha ainda voltava, repelia-a com irritação; e acolhia alvoroçadamente todas as razões insensatas que lhe vinham de amar o padre Amaro! Tinha agora só uma idéa:--atirar-lhe os braços ao pescoço e beijal-o... oh! beijal-o! Depois, se fosse necessário, morrer!

Começou então a impacientar-se com o amor de João Eduardo. Achava-o «palerma».

--Que massada! pensava quando lhe sentia os passos na escada, á noite.

Não o suportava com os seus olhos voltados sempre para ela, a sua quinzena preta, as suas monótonas conversas sobre o governo civil.

E idealisava Amaro! As suas noites eram sacudidas de sonhos lúbricos; de dia vivia em uma inquietação de ciumes, com melancolias lúgubres, que a tornavam, como dizia a mãe, «uma môna, que até enraivece»!

O gênio azedava-se-lhe.

--Credo, rapariga! que tens tu? exclamava a mãe.

--Não me sinto boa. Estou para ter alguma!

Andava, com efeito, amarela, perdera o apetite. E emfim uma manhã ficou de cama com febre. A mãe, assustada, chamou o doutor Gouvêa. O velho pratico, depois de vêr Amelia, veio à sala de jantar sorvendo com satisfação a sua pitada.

--Então, senhor doutor? disse a S. Joaneira.

--Case-me esta rapariga, S. Joaneira, case-me esta rapariga. Tenho-lh'o dito tantas vezes, creatura!

--Mas, senhor doutor...

--Mas case-a por uma vez, S. Joaneira, case-a por uma vez! repetia ele pelas escadas, arrastando um pouco a perna direita que um reumatismo teimoso encolhia.

Amelia emfim melhorou--com grande alegria de João Eduardo, que enquanto ela estivera doente vivera em uma afflicção, lamentando não poder ser seu enfermeiro, e derramando ás vezes no cartório uma lagrima triste sobre os papeis selados do severo Nunes Ferral.

No domingo seguinte, á missa das nove horas na Sé, Amaro, ao subir para o altar, entre as devotas que se arredavam viu de relance Amelia ao pé da mãe, com o seu vestido de seda preta de largos folhos. Cerrou um momento os olhos; e mal podia sustentar o cálix com as mãos tremulas.

Quando, depois de resmungar o Evangelho, Amaro fez uma cruz sobre o missal, se persignou e se voltou para a igreja dizendo Dominus vobiscum--a mulher do Carlos da botica disse baixo a Amelia «que o senhor parocho estava tão amarelo, que devia ter alguma dor». Amelia não respondeu, curvada sobre o livro, com todo o sangue nas faces. E durante a missa, sentada sobre os calcanhares, absorta, a face banhada em um êxtase baboso, gozou a sua presença, as suas mãos magras erguendo a hóstia, a sua cabeça bem feita curvando-se na adoração ritual; uma doçura corria-lhe na pele quando a voz de ele, apressada, dizia mais alto algum latim: e quando Amaro, tendo a mão esquerda no peito e a direita estendida, disse para a igreja o Benedicat vos, ela, com os olhos muito abertos, arremessou toda a sua alma para o altar, como se ele fosse o próprio Deus a cuja benção as cabeças se curvavam ao comprido da Sé, até ao fundo, onde os homens do campo com os seus varapaus pasmavam para os dourados do sacrário.

Á sahida da missa começara a chover; e Amelia e a mãe, á porta com outras senhoras, esperavam uma «aberta».

--Ólá! por aqui!? disse de repente Amaro, chegando-se, muito branco.

--Estamos á espera que passe a chuva, senhor parocho, disse a S. Joaneira voltando-se. E imediatamente, muito reprehensiva:--E porque não tem aparecido, senhor parocho? Realmente! Que lhe fizemos nós? Credo, até dá que falar...

--Muito ocupado, muito ocupado... balbuciou o parocho.

--Mas um bocadinho á noite. Olhe, póde crêr, tem-me causado desgosto... E todos têm reparado. Não, lá isso, senhor parocho, tem sido ingratidão!

Amaro disse, córando:

--Pois acabou-se. Hoje á noite lá apareço, e estão as pazes feitas...

Amelia, muito vermelha, para encobrir a sua perturbação olhava para todos os pontos o céo carregado, como assustada do temporal.

Amaro então ofereceu-lhe o seu guardachuva. E enquanto a S. Joaneira o abria, apanhando com cuidado o vestido de seda, Amelia disse ao parocho:

--Até á noite, sim?--E mais baixo, olhando em redor, com medo:--Oh, vá! Tenho estado tão triste! tenho estado como doida! Vá, peço-lh'o eu!

Amaro, voltando para casa, continha-se para não correr de batina pelas ruas. Entrou no quarto, sentou-se aos pés da cama, e ali ficou saturado de felicidade, como um pardal muito farto em um raio de sol muito quente: recordava o rosto de Amelia, a redondeza dos seus hombros, a beleza dos encontros, as palavras que lhe dissera:--Tenho estado como doida! A certeza de que «a rapariga gostava de ele» entrou-lhe então na alma com a violência de uma rajada, e ficou a susurrar por todos os recantos do seu sêr com um murmurio melodioso de felicidades agitadas. E passeava pelo quarto com passadas de covado, estendendo os braços, desejando a posse imediata do seu corpo: sentia um orgulho prodigioso: ia defronte do espelho altear a arca do peito, como se o mundo fosse um pedestal expresso que só o sustentasse a ele! Mal pôde jantar. Com que impaciência desejava a noite! A tarde clareara; a cada momento tirava o seu «cebolão» de prata, indo olhar á janela, com irritação, a claridade do dia que se arrastava devagar no horizonte. Engraxou ele mesmo os seus sapatos, lustrou o cabelo de banha. E antes de sair rezou cuidadosamente o seu Breviario--porque, em presença de aquele amor adquirido, viera-lhe um susto supersticioso que Deus ou os santos escandalisados o viessem perturbar: e não queria, com desleixos de devoção, dar-lhes razão de queixa.

Ao entrar na rua de Amelia o coração bateu-lhe tão forte que teve de parar, sufocado; e pareceu-lhe melodioso o piar das corujas na velha Misericórdia, que ha tantas semanas não ouvia.

Que admiração quando ele apareceu na sala de jantar!

--Ditosos olhos que o veem! Pensavamos que tinha morrido! Grande milagre!...

Estava a Sr..^a D. Maria da Assumpção, as Gansosos. Arredaram as cadeiras com entusiasmo para lhe dar logar, admiral-o.

--Então que tem feito, que tem feito? E olhe que está mais magro!

O Libaninho, no meio da sala, imitava foguetes subindo ao ar. O Sr.. Artur Couceiro improvisou-lhe um fadinho á viola:

Ora já cá temos o senhor parocho Nos chás da S. Joaneira. Isto já parece outra coisa, Volta a bela cavaqueira!

Houve palmas. E a S. Joaneira, toda banhada de riso:

--Ai, tem sido uma ingratidão de ele!

--Uma ingratidão, diz a senhora? rosnou o cônego. Uma casmurrice, digo eu!

Amelia não falava, com as faces abrazadas, os olhos humidos pasmados para o padre Amaro--a quem tinham dado a poltrona do cônego, e que se repoltreava em ela, túmido de gozo, fazendo rir as senhoras pelas pilherias com que contava os desleixos da Vicência.

João Eduardo, isolado a um canto, ia folheando o velho álbum.

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