Capítulo XXIV O Crime do Padre Amaro · Capítulo 24 de 26
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Capítulo XXIV

Amaro em essa manhã mandou á pressa chamar a Dionysia, apenas recebeu o seu correio. Mas a matrona que estava no mercado veio tarde, quando ele á volta da missa acabava de almoçar.

Amaro queria saber ao certo e imediatamente para quando estava a coisa...

--O bom sucesso da pequena?... Entre quinze a vinte dias... Porquê, ha novidade?

Havia; e o parocho leu-lhe então em confidencia uma carta que tinha ao lado.

Era do cônego, que escrevia da Vieira, dizendo «que a S. Joaneira tinha já trinta banhos e queria voltar! Eu, (acrescentava), perco quase todas as semanas três, quatro banhos, de propósito para os espaçar e dar tempo, porque cá a minha mulher já sabe que eu sem os meus cincoenta não vai. Ora já tenho quarenta, veja lá você. Demais por aqui começa a fazer frio deveras. Já se tem retirado muita gente. Mande-me pois dizer pela volta do correio em que estado estão as coisas.» E em um post-scriptum dizia: «Tem você pensado que destino se ha de dar ao fructo?»

--Mais vinte dias, menos vinte dias, repetiu a Dionysia.

E Amaro ali mesmo escreveu a resposta ao cônego, que a Dionysia devia levar ao correio: «A coisa póde estar pronta de aqui a vinte dias. Suspenda por todo o modo a volta da mãe! Isso de modo nenhum! Diga-lhe que a pequena não escreve nem vai, porque a excelentíssima mana passa sempre adoentada.»

E traçando a perna:

--E agora, Dionysia, como diz o nosso cônego, que destino se ha de dar ao fructo?

A matrona arregalou os olhos de surpreza:

--Eu pensei que o senhor parocho tinha arranjado tudo... Que se ia dar a criança a criar fora da terra...

--Está claro, está claro, interrompeu o parocho com impaciência. Se a criança nascer viva é evidente que se ha de dar a criar, e que ha de ser fora da terra... Mas aí é que está! Quem ha de ser a ama? É isso que eu quero que você me arranje. Vai sendo tempo...

A Dionysia pareceu muito embaraçada. Nunca gostara de inculcar amas. Ela conhecia uma boa, mulher forte e de muito leite, pessoa de confiança; mas infelizmente entrara no hospital, doente... Sabia de outra também, até tivera negócios com ela. Era uma Joana Carreira. Mas não convinha porque vivia justamente nos Poyaes, ao pé da Ricoça.

--Qual não convém! exclamou o parocho. Que tem que viva na Ricoça?... Em a rapariga convalescendo as senhoras vêm p'r'á cidade, e não se fala mais na Ricoça.

Mas a Dionysia procurava ainda, arranhando devagar o queixo. Também sabia de outra. Essa morava para o lado da Barrosa, a boa distancia... Criava em casa, era o seu oficio... Mas em essa nem falar!

--Mulher fraca, doente?

A Dionysia chegou-se ao parocho, e baixando a voz:

--Ai, menino, eu não gosto de acusar ninguém. Mas, está provado, é uma tecedeira de anjos!

--Uma quê?

--Uma tecedeira de anjos!

--O que é isso? Que significa isso? perguntou o parocho.

A Dionysia gaguejou-lhe uma explicação. Eram mulheres que recebiam crianças a criar em casa. E sem excepção as crianças morriam... Como tinha havido uma muito conhecida que era tecedeira, e as criancinhas iam para o céo... de aí é que vinha o nome.

--Então as crianças morrem sempre?

--Sem falhar.

O parocho passeava devagar pelo quarto, enrolando o seu cigarro.

--Diga lá tudo, Dionysia. As mulheres matam-em as?

Então a excelente matrona declarou que não queria acusar ninguém! Ela não fora espreitar. Não sabia o que se passava nas casas alheias. Mas as crianças morriam todas...

--Mas quem vai então entregar uma criança a uma mulher de essas?

A Dionysia sorriu, apiedada de aquela inocência de homem.

--Entregam, sim senhor, ás duzias!

Houve um silencio. O parocho continuava o seu passeio do lavatório para a janela, de cabeça baixa.

--Mas que proveito tira a mulher, se as crianças morrem? perguntou de repente. Perde as soldadas...

--É que se lhe paga um ano de criação adiantado, senhor parocho. A dez tostões ao mez, ou quartinho, segundo as posses...

O parocho agora, encostado á janela, rufava devagar nos vidros.

--Mas que fazem as auctoridades, Dionysia?

A boa Dionysia encolheu silenciosamente os hombros.

O parocho então sentou-se, bocejou, e estirando as pernas disse:

--Bem, Dionysia, vejo que a única coisa a fazer é falar á tal ama que vive ao pé da Ricoça, á Joana Carreira. Eu arranjarei isso...

A Dionysia falou ainda das peças de enxoval que já tinha comprado por conta do parocho, de um berço muito barato em segunda mão que vira no Zé Carpinteiro--e ia sair com a carta para o correio, quando o parocho erguendo-se e galhofando:

--Ó tia Dionysia, essa coisa da tecedeira de anjos é uma historia, hein?

Então a Dionysia escandalisou-se. O senhor parocho sabia que ela não era mulher de intrigas. Conhecia a tecedeira de anjos ha mais de oito anos, de lhe falar e de a vêr na cidade quase todas as semanas. Ainda no sabbado passado a vira sair da taberna do Grego... O senhor parocho já tinha ido á Barrosa?

Esperou a resposta do parocho, e continuou:

--Pois bem, sabe o começo da freguezia. Ha um muro caído. Depois é um caminho que desce. Ao fundo de esse corregosito encontra um poço atulhado. Adiante, retirada, ha uma casita que tem um alpendre. É lá que ela vive... Chama-se Carlota... Isto é pra lhe mostrar que sei, amiguinho!

O parocho ficou toda a manhã em casa, passeando pelo quarto, alastrando o chão de pontas de cigarros. Ali estava agora diante de aquele episodio fatal que até aí fora apenas um cuidado distante--dispôr do filho!

Era bem grave entregal-o assim a uma ama desconhecida, na aldeia. A mãe, naturalmente, havia de querer ir a todo o momento vêl-o, a ama poderia falar aos visinhos. O rapaz viria a ser, na freguezia, o filho do parocho... Algum invejoso, que lhe cubiçasse a parochia, poderia denuncial-o ao senhor vigário geral. Escândalo, sermão, devassa: e, se não fosse suspenso, poderia como o pobre Brito ser mandado para longe, para a serra, outra vez para os pastores... Ah! se o fructo nascesse morto! Que solução natural e perpetua! E para a criança, uma felicidade! Que destino podia ele ter em este duro mundo? Era o engeitado, era o filho do padre. Ele era pobre, a mãe pobre... O rapaz cresceria na miséria, vadiando, apanhando o estrume das bestas, rameloso e tosco... De necessidade em necessidade iria conhecendo todas as formas do inferno humano: os dias sem pão, as noites regeladas, a brutalidade da taberna, a cadeia por fim. Uma enxerga na vida, a vala na morte... E se morresse--era um anjinho que Deus recolhia ao paraíso...

E continuava passeando tristemente pelo quarto. Realmente o nome era bem posto, tecedeira de anjos... Com razão, quem prepara uma criança para a vida com o leite do seu peito, prepara-a para os trabalhos e para as lagrimas... Mais vale torcer-lhe o pescoço, e mandal-a direita para a eternidade bemaventurada! Olha ele! Que vida a sua, em esses trinta anos atraz! Uma infância melancólica, com aquela pêga da marquesa de Alegros; depois a casa na Estrela, com o alarve do tio toucinheiro; e de aí as clausuras do seminário, a neve constante de Feirão, e ali em Leiria tantos transes, tanta amargura... Se lhe tivessem esmagado o craneo ao nascer, estava agora com duas azas brancas, cantando nos córos eternos.

Mas emfim não havia que filosofar: era partir para Poyaes e falar á ama, á Sr..^a Joana Carreira.

Sahiu, dirigindo-se para a estrada, sem pressa. Ao pé da ponte veio-lhe porém de repente a idéa, a curiosidade de ir á Barrosa vêr a tecedeira... Não lhe falaria: examinaria apenas a casa, a figura da mulher, os aspectos sinistros do sitio... Demais como parocho, como autoridade eclesiástica, devia observar aquele pecado organisado em um recanto de estrada, impune e rendoso. Podia mesmo denuncial-o ao senhor vigário geral ou ao secretario do governo civil...

Tinha ainda tempo, eram apenas quatro horas. Por aquela tarde suave e lustrosa fazia-lhe bem um passeio a cavalo. Não hesitou, então; foi alugar uma egoa á estalagem do Cruz; e de aí a pouco, de espora no pé esquerdo, choutava a direito pelo caminho da Barrosa.

Ao chegar ao córrego, de que lhe falara a Dionysia, apeou, foi andando com a egoa pela arreata. A tarde estava admirável; muito alto no azul, uma grande ave fazia semi-círculos vagarosos.

Encontrou emfim o poço atulhado ao pé de dois castanheiros onde pássaros ainda chilreavam; adiante em um terreno plano, muito isolada, lá estava a casa com o seu alpendre: o sol declinando batia-lhe na única janela do lado, acendendo-a em um resplendor de ouro e braza; e, muito delgado, elevava-se da chaminé um fumo claro no ar sereno.

Uma grande paz estendia-se em redor; no monte, escuro da rama dos pinheiros baixos, a capelinha da Barrosa punha a alvura alegre da sua parede muito caiada.

Amaro ia imaginando então a figura da tecedeira; sem saber porque, supunha-a muito alta, com um carão trigueiro onde dois olhos de bruxa refulgiam.

Defronte da casa prendeu a egoa á cancela, e olhou pela porta aberta: era uma cozinha térrea, de grande lareira, com sahida para o pátio estradado de mato onde dois bacorinhos foçavam. Na prateleira da chaminé rebrilhava a louça branca. Dos lados pendiam grandes cassarolas de cobre, de um lustro de casa rica. em um velho armário meio aberto branquejavam pilhas de roupa: e havia tanta ordem que uma claridade parecia sair do asseio e do arranjo das coisas.

Amaro então bateu forte as palmas. Uma rôla pulou assustada, dentro da sua gaiola de vime pendurada da parede. Depois chamou alto:

--Senhora Carlota!

Imediatamente do lado do pátio uma mulher apareceu, com um crivo na mão. E Amaro, surpreendido, viu uma agradável creatura de quase quarenta anos, forte de peitos, ampla de encontros, muito branca no pescoço, com duas ricas arrecadas, e uns olhos negros que lhe lembraram os de Amelia ou antes o brilho mais repousado dos da S. Joaneira.

Assombrado, balbuciou:

--Creio que me enganei... Aqui é que mora a senhora Carlota?

Não se enganara, era ela; mas com a idéa que a figura medonha «que tecia os anjos» devia estar algures, agachada em um vão tenebroso da casa, perguntou ainda:

--Vossemecê vive aqui só?

A mulher olhou-o desconfiada:

--Não senhor, disse por fim, vivo com o meu marido...

Justamente o marido saia do pátio,--medonho, esse, quase anão, com a cabeça embrulhada em um lenço e muito enterrada nos hombros, a face de uma amarelidão de cera oleosa e lustrosa; no queixo anelavam-se os pelos raros de uma barba negra; e sob as arcadas fundas sem sobrancelhas, vermelhejavam dois olhos raiados de sangue, olhos de insomnia e de bebedeira.

--Para o seu serviço, vossa senhoria quer alguma coisa? disse, muito colado á saia da mulher.

Amaro foi entrando pela cozinha, e tartamudeando uma historia que ia forjando laboriosamente. Era uma parente que ia ter o seu bom sucesso. O marido não pudera vir falar-lhes porque estava doente... Queriam uma ama para lhes ir para casa, e tinham-lhe dito...

--Não, fora de casa, não. Cá em casa--disse o anão que não se despegava das saias da mulher, mirando o parocho de lado com o seu medonho olho injectado.

Ah, então tinham-em o informado mal... Sentia; mas o que o parente queria era uma ama para casa.

Veio dirigindo-se para a egoa, devagar; parou, e abotoando o casacão:

--Mas em casa recebem crianças para criação?...--perguntou ainda.

--Convindo o ajuste, disse o anão que o seguia.

Amaro arranjou a espora no pé, deu um puxão ao estribo, demorando-se, rondando em torno da cavalgadura:

--É necessário trazer-lh'a cá, já se sabe.

O anão voltou-se, trocou um olhar com a mulher que ficara á porta da cozinha.

--Também se lhe vai buscar, disse.

Amaro batia palmadas no pescoço da egoa.

--Mas sendo a coisa de noite, agora com este frio, é matar a criança...

Então os dois, falando ao mesmo tempo, afirmaram que não lhe fazia mal. Havendo, já se sabe, carinho e agasalho...

Amaro cavalgou vivamente a egoa, deu as boas tardes, e trotou pelo córrego.

Amelia agora começava a andar assustada. De dia e de noite só pensava em aquelas horas, que se avisinhavam, em que devia sentir chegarem as dôres. Soffria mais que durante os primeiros meses; tinha tonturas, perversões de gosto--que o doutor Gouvêa observava, franzindo a testa descontente. As noites eram más, em uma turbação de pesadêlos. Já não eram as alucinações religiosas: isso cessara em uma súbita aplacação de todo o terror devoto: não sentiria menos temor de Deus, se já fosse uma santa canonisada. Eram outros medos, sonhos em que o parto se lhe representava de modos monstruosos: ora era um sêr medonho que lhe saltava das entranhas, metade mulher e metade cabra; ora era uma cobra infindável que lhe saia de dentro, durante horas, como uma fita de léguas, enrolando-se no quarto em roscas sucessivas que ganhavam a altura do tecto: e acordava em tremuras nervosas que a deixavam prostrada.

Mas anciava por ter a criança. Estremecia á idéa de vêr um dia inesperadamente a mãe aparecer na Ricoça. Ela escrevera-lhe, queixando-se do senhor cônego que a retinha na Vieira, dos temporais que já reinavam, da solidão que se ia fazendo na praia. Além de isso D. Maria da Assumpção voltara; felizmente, uma noite providencialmente gelada dera-lhe durante a jornada uma inflamação dos bronchios--e estava de cama para semanas, segundo dizia o doutor Gouvêa. O Libaninho, esse, também viera á Ricoça; e sahira lastimando-se de não ter visto a Amelinha «que tinha em esse dia enxaqueca».

--Se isto se demora mais quinze dias, vem-se a descobrir tudo, dizia ela, choramigando, a Amaro.

--Paciência, filha. Não se póde forçar a natureza...

--O que tu me tens feito sofrer! suspirava ela, o que tu me tens feito sofrer!

Ele calava-se resignado--muito bom, muito terno agora com ela. Vinha-a vêr quase todas as manhãs, porque não queria pelas tardes encontrar o abbade Ferrão.

Tranquillisára-a a respeito da ama, dizendo-lhe que falara á mulher da Ricoça inculcada pela Dionysia. Era uma escolha rica a Sr..^a Joana Carreira! Mulher forte como um carvalho, com barricas de leite, e dentes de marfim...

--Fica-me tão longe para vir vêr depois a criança...--suspirava ela.

Tomavam-em a agora pela primeira vez entusiasmos de mãe. Desesperava-se em não poder ela mesma costurar o resto do enxoval. Queria que o rapaz--porque havia de ser um rapaz!--se chamasse Carlos. Cismava-o já homem, e oficial de cavalaria. Enternecia-se com a esperança de o vêr gatinhar...

--Ai, eu é que o queria criar, se não fosse a vergonha!...

--Vai muito bem para onde vai, dizia Amaro.

Mas o que a torturava, a fazia chorar todos os dias era a idéa de ele ser um engeitadinho!

Um dia veio ao abbade com um plano extraordinario «que lhe inspirara Nossa Senhora»: ela casaria já com João Eduardo, mas o rapaz devia por uma escritura adoptar o Carlinhos! Que para que o anjinho não fosse um engeitado, casava até com um calceteiro da estrada! E apertava as mãos do abbade, em uma suplicação loquaz. Que convencesse João Eduardo, que desse um papá ao Carlinhos! Queria ajoelhar aos pés de ele, do senhor abbade, que era o seu pai e o seu protetor.

--Oh, minha senhora, socegue, socegue. Esse é também o meu desejo, como lhe disse. E ha de arranjar-se, mas mais tarde, disse o bom velho, atarantado de aquela excitação.

Depois, de aí a dias, foi outra exaltação; descobrira de repente, uma manhã, que não devia trahir Amaro, «porque era o papá do seu Carlinhos». E disse-o ao abbade; fez córar os sessenta anos do bom velho, palrando muito convencidamente dos seus deveres de esposa para com o parocho.

O abbade, que ignorava as visitas do parocho todas as manhãs, assombrou-se.

--Minha senhora, que está a dizer? que está a dizer? Caia em si... Que vergonha!... Imaginei que lhe tinham passado essas loucuras.

--Mas é o pai do meu filho, senhor abbade, disse ela, olhando-o muito séria.

Fatigou então Amaro toda uma semana com uma ternura pueril. Lembrava-lhe cada meia hora que era o «papá do seu Carlinhos».

--Bem sei, filha, bem sei, dizia ele impaciente. Obrigado. Não me gabo da honra...

Ela chorava, então, aninhada no sofá. Era necessária toda uma complicação de caricias para a calmar. Fazia-o sentar em um banquinho junto de ela; tinha-o ali como um boneco, contemplando-o, coçando-lhe devagarinho a corôa; queria que se tirasse a fotografia ao Carlinhos para a trazerem ambos em uma medalha ao pescoço; e se ela morresse, ele havia de levar o Carlinhos á sepultura, ajoelhal-o, pôr-lhe as mãosinhas, fazel-o rezar pela mamã. Atirava-se então para a almofada, tapando o rosto com as mãos:

--Ai, pobre de mim, meu querido filho, pobre de mim!

--Cala-te, que vem gente! dizia-lhe Amaro furioso.

Ah, aquelas manhãs na Ricoça! Eram para ele como uma penalidade injusta. Ao entrar tinha de ir á velha escutar-lhe as lamurias. Depois, era aquela hora com Amelia, que o torturava com as pieguices de um sentimentalismo histérico,--estirada no sofá, grossa como um tonel, com a face entumecida, os olhos papudos...

em uma de essas manhãs, Amelia, que se queixava de câimbras, quis dar um passeio pelo quarto apoiada a Amaro: e ia-se arrastando, enorme no seu velho robe-de-chambre, quando se sentiram, em baixo no caminho, passos de cavalos: chegaram á janela--mas Amaro recuou vivamente, deixando Amelia que embasbacara com a face contra a vidraça. Na estrada, galhardamente montado em uma egoa baia, passava João Eduardo de paletot branco e chapéo alto; ao lado trotavam os dois Morgaditos, um em um pônei, outro acorreado em um burro; e atraz, a distancia, em um passo de respeito e de cortejo, um criado de farda, de bota de cano e esporões enormes, com uma libré muito larga que lhe fazia na ilharga rugas grotescas, e no chapéo a roseta escarlate. Ela ficara assombrada, seguindo-os até que as costas do lacaio desapareceram à esquina da casa. Sem uma palavra, veio sentar-se no sofá. Amaro, que continuava passeando pelo quarto, teve então um risinho sarcástico:

--O idiota, de lacaio á retaguarda!

Ela não respondeu, muito escarlate. E Amaro, chocado, saiu atirando com a porta, foi para o quarto de D. Josefa contar-lhe a cavalgada, e vituperar o Morgado.

--Um excomungado de criado de farda! exclamava a boa senhora, com as mãos apertadas na cabeça. Que vergonha, senhor parocho, que vergonha para a nobreza de estes reinos!

Desde esse dia Amelia não tornou a choramigar, se pela manhã o senhor parocho não vinha. Quem esperava agora com impaciência era o senhor abbade Ferrão, pela tarde. Apoderava-se de ele, queria-o em uma cadeira junto ao canapé: e depois de rodeios demorados de ave que tenteia a presa, caía sobre a pergunta fatal--se tinha visto o senhor João Eduardo?

Queria saber o que ele dissera, se falara em ela, se a avistara á janela. Torturava-o com curiosidades sobre a casa do Morgado, a mobília da sala, o numero de lacaios e de cavalos, se o criado de farda servia á mesa...

E o bom abbade respondia com paciência--contente de a vêr esquecida do parocho, ocupada de João Eduardo: tinha agora a certeza que aquele casamento se faria: ela evitava, de resto, pronunciar sequer o nome de Amaro, e uma vez mesmo respondeu ao abbade que lhe perguntava se o senhor parocho voltara á Ricoça:

--Ai, vem pela manhã vêr a madrinha... Mas eu não lhe apareço, que nem estou decente...

Todo o tempo que podia estar de pé, passava-o agora á janela, muito arranjada da cinta para cima que era o que se podia vêr da estrada--enxovalhada das saias para baixo. Estava esperando João Eduardo, os Morgados e o lacaio; e tinha de vez em quando, com efeito, o gozo de os vêr passar, em aquele passo bem lançado de cavalos de preço, sobretudo o da egoa baia de João Eduardo, que ele defronte da Ricoça fazia sempre ladear, de chicote atravessado e perna á Marialva, como lhe ensinara o Morgado. Mas era o lacaio, sobretudo, que a encantava: e com o nariz nos vidros seguia-o em um olhar guloso, até que á volta da estrada via desaparecer o pobre velho, de dorso corcovado, com a gola da farda até á nuca e as pernas bamboleantes.

E para João Eduardo que delicia aqueles passeios com os Morgaditos, na egoa baia! Nunca deixava de ir á cidade: fazia-lhe bater o coração o som das ferraduras sobre o lagedo: ia passar diante da Amparo da botica, diante do cartório do Nunes que tinha a sua banca ao pé da janela, diante da Arcada, diante do senhor administrador que lá estava na varanda de binoculo para a Teles--e o seu desgosto era não poder entrar com a egoa, os Morgaditos e o lacaio pelo escriptorio do doutor Godinho que era no interior da casa.

Foi um dia, depois de um de esses passeios triunfais, que voltando ás duas horas da Barrosa, ao chegar ao Poço das Bentas e ao subir para o caminho de carros, viu de repente o senhor padre Amaro que descia montado em um garrano. Imediatamente João Eduardo fez caracolar a egoa. O caminho era tão estreito, que apesar de se chegarem às sebes quase roçaram os joelhos--e João Eduardo pôde então, do alto da sua egoa de cincoenta moedas, agitando ameaçadoramente o chicote, esmagar com um olhar o padre Amaro que se encolhia muito pálido, com a barba por fazer, a face biliosa, esporeando ferozmente o garrano ronceiro. No alto do caminho João Eduardo ainda parou, voltou-se sobre a sela, e viu o parocho que apeava á porta do casebre isolado onde ha pouco, ao passar, os Morgaditos tinham rido «do anão».

--Quem vive ali? perguntou João Eduardo ao lacaio.

--Uma Carlota... Má gente, Sr.. Joãosinho!

Ao passar na Ricoça, João Eduardo, como sempre, pôs a passo a egoa baia. Mas não viu por traz dos vidros a costumada face pálida sob o lenço escarlate. As portadas da janela estavam meio cerradas; e ao portão, desatrelado com os varões em terra, o cabriolet do doutor Gouvêa.

É que tinha chegado emfim o dia! em essa manhã viera da Ricoça um moço da quinta com um bilhete de Amelia quase ininteligível--Dionysia depressa, a coisa chegou! Trazia ordem também de ir chamar o senhor doutor Gouvêa. Amaro foi ele mesmo avisar a Dionysia.

Dias antes, tinha-lhe dito que D. Josefa, a própria D. Josefa, lhe inculcara uma ama--que ele já ajustara, grande mulher, rija como um castanheiro. E agora combinaram rapidamente que em essa noite Amaro se postaria com a ama á portinha do pomar, e Dionysia viria dar-lhe a criança bem atabafada.

--Ás nove da noite, Dionysia. E não nos faça esperar!--recomendou-lhe ainda Amaro vendo-a abalar em um espalhafato.

Depois voltou a casa e fechou-se no quarto, face a face com aquela dificuldade que ele sentia como uma coisa viva fixal-o e interrogal-o:--Que havia de fazer á criança? Tinha ainda tempo de ir aos Poyaes ajustar a outra ama, a boa ama que a Dionysia conhecia; ou podia montar a cavalo e ir á Barrosa falar á Carlota... E ali estava, diante de aqueles dois caminhos, hesitando em uma agonia. Queria serenar, discutir aquele caso como se fosse um ponto de teologia, pesando-lhe os prós e os contras: mas tinha temerariamente diante de si, em logar de dois argumentos, duas visões:--a criança a crescer e a viver nos Poyaes, ou a criança esganada pela Carlota a um canto da estrada da Barrosa...--E, passeando pelo quarto, suava de angustia, quando no patamar a voz inesperada do Libaninho gritou:

--Abre, parochosinho, que sei que estás em casa!

Foi necessário abrir ao Libaninho, apertar-lhe a mão, oferecer-lhe uma cadeira. Mas o Libaninho felizmente não se podia demorar. Passara na rua, e subira a saber se o amigo parocho tinha noticias de aquelas santinhas da Ricoça.

--Vão bem, vão bem, disse Amaro que obrigava a face a sorrir, a prazentear.

--Eu não tenho podido ir lá, que tenho andado mais ocupado!... Estou de serviço no quartel... Não te rias, parochosinho, que estou lá fazendo muita virtude... Metto-me com os soldadinhos, falo-lhes das chagas de Cristo...

--Andas a converter o regimento, disse Amaro que mexia nos papeis da mesa, passeava, em uma inquietação de animal preso.

--Não é para as minhas forças, parocho, que se eu pudesse!... Olha, agora vou eu levar a um sargento uns bentinhos... Foram benzidos pelo Saldanhinha, vão cheios de virtude. Ontem dei outros iguais a um anspeçada, perfeito rapaz, um amor de rapaz... Pus-lh'os eu mesmo por baixo da camisola... Perfeito rapaz!...

--Devias deixar esses cuidados pelo regimento ao coronel, disse Amaro abrindo a janela, abafando de impaciência.

--Credo, olha o impio! Se o deixassem desbaptisava o regimento. Pois adeus, parochosinho. Estás amarelinho, filho... Precisas purga, eu sei o que isso é.

Ia a sair, mas á porta, parando:

--Ai, dize cá, parochosinho, dize cá: tu ouviste alguma coisa?

--De quê?

--Foi o padre Saldanha que mo disse. Diz que o nosso chantre declarara (palavras do Saldanhinha) que lhe constava que ia na cidade um escândalo com um senhor eclesiástico... Mas não disse quem nem o quê... O Saldanha quil-o sondar, mas o chantre diz que recebera só uma denuncia vaga, sem nome... Tenho estado a pensar: quem será?

--Pataratas do Saldanha...

--Ai, filho! Deus queira que sejam. Que quem folga são os impios... Quando fôres pela Ricoça dá recados àquelas santinhas...

E pulou pelos degraus a ir levar «a virtude» ao batalhão.

Amaro ficara aterrado. Era ele decerto, eram os seus amores com Amelia que já iam chegando ao vigário geral em denuncias tortuosas! E ali vinha agora aquele filho, criado a meia légua da cidade, ficar como uma prova viva!... Parecia-lhe extraordinario, quase sobrenatural, ter o Libaninho, que em dois anos não lhe viera a casa duas vezes, ter o Libaninho entrado com aquela nova terrível, quando ele estava ali em uma batalha com a consciência. Era como a Providência, que sob a fórma grotesca do Libaninho, vinha trazer-lhe o seu aviso, murmurar-lhe: «Não deixes viver quem te póde trazer o escândalo! Olha que já se suspeita de ti!»

Era decerto Deus apiedado que não queria que houvesse na terra mais um engeitado, mais um miserável,--e que reclamava o seu anjo!...

Não hesitou: partiu para a estalagem do Cruz, e de aí a cavalo para a casa de Carlota.

Demorou-se lá até ás quatro horas.

De volta a casa atirou o chapéo para cima da cama, e sentiu emfim um alivio de todo o seu sêr. Estava acabado! Lá falara á Carlota e ao anão; lá lhe pagara um ano adiantado; agora era esperar pela noite!...

Mas na solidão do quarto toda a sorte de imaginações mórbidas o assaltavam: via a Carlota a esganar a criancinha rôxa; via os cabos de policia mais tarde a desenterrar o cadáver, o Domingos da administração redigindo sobre um joelho o auto de corpo de delicto, e ele, de batina, arrastado para a cadeia de S. Francisco, em ferros, ao lado do anão! Tinha quase vontade de montar a cavalo, voltar á Barrosa desfazer o ajuste. Mas uma inercia retinha-o. Depois, nada o forçava á noite a entregar a criança á Carlota... Podia levá-la bem agasalhada á Joana Carreira, a boa ama dos Poyaes...

Para escapar àquelas idéas que lhe faziam sob o craneo um ruido de tormenta, saiu, foi vêr Natario que já se erguia--e que lhe gritou imediatamente do fundo da poltrona:

--Então você viu, Amaro! O idiota, de lacaio atraz!

João Eduardo passara-lhe na rua, na egoa baia, com os Morgadinhos; e Natario desde então rugia de impaciência de estár ali amarrado á cadeira e não poder recomeçar a campanha, expulsal-o por uma boa intriga da casa do Morgado, arrancar-lhe a egoa e o lacaio.

--Mas não as perde, em Deus me dando pernas...

--Deixe lá o homem, Natario, disse Amaro.

Deixá-lo! quando tinha uma idéa prodigiosa--que era provar ao Morgado, com documentos, que o João Eduardo era um beato! Que lhe parecia, ao amigo Amaro?

Era engraçado, com efeito. O homem não deixava de o merecer, só pela maneira como olhava para a gente de bem, do alto da egoa...--E Amaro fazia-se vermelho, ainda indignado do encontro, de manhã, no caminho de carros da Barrosa.

--Está claro! exclamou Natario. Para que somos nós sacerdotes de Cristo? Para exaltar os humildes e derrubar os soberbos.

de ali Amaro foi vêr D. Maria da Assumpção--que já se erguera também--que lhe fez a historia da sua bronchite e a enumeração dos últimos pecados: o peor era que, para se distrahir um bocado na convalescença, recostava-se por traz da vidraça, e um carpinteiro que mórava defronte embasbacava para ela; e por influencia do maligno, não tinha forças para se retirar para dentro, e vinham-lhe pensamentos maus...

--Mas vossa senhoria não está com atenção, senhor parocho.

--Ora essa, minha senhora!

E apressou-se a pacificar-lhe os escrúpulos--porque a salvação de aquela velha alma idiota era para ele um emprego melhor que a mesma parochia.

Já escurecia quando entrou em casa. A Escolástica queixou-se da demora que lhe esturrara o jantar. Mas Amaro tomou apenas um copo de vinho e uma garfada de arroz, que enguliu de pé, olhando com terror pela janela a noite que impassivelmente caía.

Entrava no quarto a vêr se os candieiros já estavam acesos, quando o coadjutor apareceu. Vinha falar-lhe sobre o batizado do filho do Guedes, que estava marcado para o dia seguinte ás nove horas.

--Trago luz?--disse de dentro a criada sentindo a visita.

--Não! gritou logo Amaro.

Temia que o coadjutor visse a alteração que sentia nas faces, ou que se instalasse para toda a noite.

--Diz que vem na Nação de antes de ontem um artigo muito bom, observou o coadjutor, grave.

--Ah! fez Amaro.

Passeava no seu trilho costumado, do lavatório para a janela; parava ás vezes a rufar nos vidros; já se tinham acendido os candieiros.

Então o coadjutor, chocado com aquela treva do quarto e aquele passear de fera em uma jaula, ergueu-se, e com dignidade:

--Estou a incomodar talvez...

--Não!

E o coadjutor satisfeito sentou-se, com o seu guardachuva entre os joelhos.

--Agora anoitece mais cedo, disse.

--Anoitece...

Emfim Amaro desesperado declarou-lhe que tinha uma enxaqueca odiosa, que se ia encostar: e o homem saiu, depois de lhe lembrar ainda o batizado do menino do seu amigo Guedes.

Amaro partiu logo para a Ricoça. Felizmente a noite estava tenebrosa e quente, anunciando chuva. Ia agora tomado de uma esperança que lhe fazia bater o coração: era que a criança nascesse morta! E era bem possível. A S. Joaneira em nova tivera duas crianças mortas; a ansiedade em que vivera Amelia devia ter perturbado a gestação. E se ela morresse também? Então a esta idéa, que nunca lhe acudira, invadiu-o bruscamente uma piedade, uma ternura por aquela boa rapariga que o amava tanto, e que agora, por obra de ele, gritava dilacerada de dôres. E todavia, se ambos morressem, ela e a criança, era o seu pecado e o seu erro que cahiam para sempre nos escuros abismos da eternidade... Ele ficava, como antes da sua vinda a Leiria, um homem tranquilo, ocupado da sua igreja, de uma vida limpa e lavada como uma pagina branca!

Parou junto ao casebre em ruínas á beira da estrada, onde devia estar a pessoa que da Barrosa vinha buscar a criança: não se tinha decidido se seria o homem ou a Carlota: e Amaro receava encontrar o anão, para lhe levar o filho, com aqueles olhos raiados de um sangue mau. Falou para dentro, para as trevas do casebre:

--Olá!

Foi um alivio quando a clara voz da Carlota disse da negrura:

--Cá está!

--Bem, é esperar, Sr..^a Carlota.

Estava contente: parecia-lhe que não tinha nada a temer, se o filho partisse aninhado contra aquele robusto seio de quarentona fecunda, tão fresca e tão lavada.

Foi então rondar a casa. Estava apagada e muda, como um empastamento mais denso de sombra em aquela lúgubre noite de dezembro. Nem uma fenda de luz saia das janelas do quarto de Amelia. No ar muito pesado nenhuma folhagem ramalhava. E a Dionysia não aparecia.

Aquela demora torturava-o. Podia passar gente e vél-o rondar na estrada. Mas repugnava-lhe ir ocultar-se no casebre em ruínas ao pé de Carlota. Foi andando ao comprido do muro do pomar, voltou,--e viu então na porta envidraçada do terraço uma claridade de luz aparecer.

Correu para a portinha verde do pomar que quase imediatamente se abriu; e a Dionysia, sem uma palavra, pôs-lhe nos braços um embrulho.

--Morta? perguntou ele.

--Qual! Vivo! Um rapagão!

E fechou a porta devagarinho, quando os cães, farejando rumor, começavam a ladrar.

Então o contacto do seu filho, contra o seu peito, desmanchou como um vendaval todas as idéas de Amaro. O quê! ir dal-o àquela mulher, á tecedeira de anjos, que na estrada o atiraria a algum valado, ou em casa o arremessaria á latrina? Ah! não, era o seu filho!

Mas que fazer, então? Não tinha tempo de correr aos Poyaes e acordar a outra ama... A Dionysia não tinha leite... Não o podia levar para a cidade... Oh! que desejo furioso de bater àquela porta da quinta, precipitar-se para o quarto de Amelia, meter-lhe o pequerruchinho na cama, muito agasalhado, e todos três ficarem ali como no conchego de um céo! Mas quê, era padre! Maldita fosse a religião que assim o esmagava!

De dentro do embrulho saiu um gemido. Correu então para o casebre--quase esbarrou com a Carlota, que se apoderou logo da criança.

--Aí está, disse ele. Mas ouça lá. Isto agora é sério. Agora é outra coisa. Olhe que o não quero morto... É para o tratar. O que se passou não vale... É para o criar! é para viver. Você tem a sua fortuna... Trate de ele!...

--Não tem dúvida, não tem dúvida, dizia a mulher apressada.

--Escute... A criança não vai bem agasalhada. Ponha-lhe o meu capote.

--Vai bem, senhor, vai bem.

--Não vai, com mil diabos! É o meu filho! Ha de levar o capote! Não quero que morra de frio!

Atirou-lh'o aos hombros com força, traçando-lh'o sobre o peito, agasalhando a criança;--e a mulher já enfastiada meteu rapidamente pela estrada.

Amaro ficou ali plantado no meio do caminho, vendo o vulto perder-se na negrura. Então todos os seus nervos, depois de aquele choque, se relaxaram em uma fraqueza de mulher sensível--e rompeu a chorar.

Muito tempo rondou a casa. Mas ela permanecia na mesma escuridão, em aquele silencio que o aterrava. Depois, triste e fatigado, veio voltando para a cidade, quando batiam as dez badaladas na Sé.

A essa hora, na sala de jantar da Ricoça, o doutor Gouvêa ceava tranquilamente o frango assado que lhe preparara a Gertrudes, para depois das canceiras do dia. O abbade Ferrão, sentado junto da mesa, assistia-lhe á ceia; viera munido dos sacramentos para o caso de haver perigo. Mas o doutor estava satisfeito; durante as oito horas de dôres a rapariga mostrara-se corajosa; o parto fora feliz, de resto, e sahira um rapagão que fazia muita honra ao papá.

O bom abbade Ferrão baixava castamente os olhos àqueles detalhes, no seu pudor de sacerdote.

--E agora, dizia o doutor trinchando o peito do frango, agora que eu introduzi a criança no mundo, os senhores (e quando digo os senhores, quero dizer a Igreja) apoderam-se de ele e não o largam até á morte. Por outro lado, ainda que menos sôfregamente, o Estado não o perde de vista... E aí começa o desgraçado a sua jornada do berço á sepultura, entre um padre e um cabo de policia!

O abbade curvou-se, e tomou uma estrondosa pitada preparando-se para a controvérsia.

--A Igreja, continuava o doutor com serenidade, começa, quando a pobre creatura ainda nem tem sequer a consciência da vida, por lhe impôr uma religião...

O abbade interrompeu, meio sério, meio rindo:

--Ó doutor, ainda que não seja senão por caridade com a sua alma, devo advertil-o que o sagrado Concilio de Trento, cânon decimo terceiro, comina a pena de excomunhão contra todo o que disser que o baptismo é nulo, por ser imposto sem a aceitação da razão.

--Tomo nota, abbade. Eu estou acostumado a essas amabilidades do Concilio de Trento para comigo e outros colegas...

--Era uma assembléa respeitável! acudiu o abbade já escandalisado.

--Sublime, abbade. Uma assembléa sublime. O Concilio de Trento e a Convenção foram as duas mais prodigiosas assembléas de homens que a terra tem presenciado...

O abbade fez uma visagem de repugnacia àquele cotejo irreverente entre os santos auctores da doutrina e os assassinos do bom rei Luiz XVI.

Mas o doutor prosseguiu:

--Depois, a Igreja deixa a criança em paz algum tempo enquanto ela faz a sua dentição e tem o seu ataque de lombrigas...

--Vá, vá, doutor! murmurava o abbade, escutando-o pacientemente, de olhos cerrados--como significando «anda, anda, enterra bem essa alma no abismo de fogo e pez»!

--Mas quando se manifestam no pequeno os primeiros symptomas de razão, continuava o doutor, quando se torna necessário que ele tenha, para o distinguir dos animais, uma noção de si mesmo e do universo, então entra-lhe a Igreja em casa e explica-lhe tudo! Tudo! Tão completamente, que um gaiato de seis anos que não sabe ainda o b-a-bá tem uma sciencia mais vasta, mais certa, que as reais academias combinadas de Londres, Berlim e Paris! O velhaco não hesita um momento para dizer como se fez o universo e os seus sistemas planetários; como apareceu na terra a creação; como se sucederam as raças; como passaram as revoluções geologicas do globo; como se formaram as línguas; como se inventou a escripta... Sabe tudo: possui completa e imutável a regra para dirigir todas as acções e formar todos os juízos; tem mesmo a certeza de todos os mistérios; ainda que seja míope como uma toupeira vê o que se passa na profundidade dos céus e no interior do globo; conhece, como se não tivesse feito senão assistir a esse espectaculo, o que lhe ha de suceder depois de morrer... Não ha problema que não decida... E quando a Igreja tem feito de este marmanjo uma tal maravilha de saber, manda-o então aprender a lêr... O que eu pergunto é: para que?

A indignação tinha emudecido o abbade.

--Diga lá abbade, para que os mandam os senhores ensinar a lêr? Toda a sciencia universal, o rês scibilis, está no Catecismo: é meter-lh'o na memoria, e o rapaz possui logo a sciencia e consciência de tudo... Sabe tanto como Deus... De facto, é Deus mesmo.

O abbade pulou.

--Isso não é discutir, exclamou, isso não é discutir!... Isso são chalaças á Voltaire! Essas coisas devem-se tratar mais de alto...

--Como chalaças, abbade? Tome um exemplo: a formação das línguas. Como se formaram? Foi Deus, que descontente com a Torre de Babel...

Mas a porta da sala abriu-se, e apareceu a Dionysia. Havia pouco o doutor tinha-lhe dado uma desanda no quarto de Amelia; e agora a matrona falava-lhe sempre encolhida de terror.

--Senhor doutor, disse ela no silencio que se fez, a menina acordou e diz que quer o filho.

--E então? A criança levaram-em a, não?

--A criança levaram-em a... disse a Dionysia.

--Bem, acabou-se...

Dionysia ia fechar a porta, mas o doutor chamou-a.

--Ouça lá, diga-lhe que a criança vem amanhã... Que amanhã sem falta que lha trazem. Minta. Minta como um cão; aqui o senhor abbade dá licença... Que durma, que socegue.

A Dionysia retirou-se. Mas a controvérsia não recomeçou: diante de aquela mãe que acordava depois da fadiga do parto e reclamava o seu filho, o filho que lhe tinham levado para longe e para sempre, os dois velhos esqueceram a Torre de Babel e a formação das línguas. O abbade sobretudo parecia comovido. Mas o doutor não tardou, sem piedade, a lembrar-lhe que eram aquelas as consequências da situação do padre na sociedade...

O abbade baixou os olhos, ocupado na sua pitada, sem responder, como ignorando que houvesse um padre em aquela historia infeliz.

O doutor então, seguindo a sua idéa, discursou contra a preparação e educação eclesiástica.

--Aí tem o abbade uma educação dominada inteiramente pelo absurdo: resistência ás mais justas solicitações da natureza, e resistência aos mais elevados movimentos da razão. Preparar um padre é criar um monstro que ha de passar a sua desgraçada existência em uma batalha desesperada contra os dois factos irresistiveis do universo--a força da Materia e a força da Razão!

--Que está o senhor a dizer? exclamou assombrado o abbade.

--Estou a dizer a verdade. Era que consiste a educação de um sacerdote? Primò: em o preparar para o celibato e para a virgindade; isto é, para a supressão violenta dos sentimentos mais naturais. Secundò: em evitar todo o conhecimento e toda a idéa que seja capaz de abalar a fé católica; isto é, a supressão forçada do espirito de indagação e de exame, portanto de toda a sciencia real e humana...

O abbade erguera-se, ferido de uma piedosa indignação:

--Pois o senhor nega á Igreja a sciencia?

--Jesus, meu caro abbade, continuou tranquilamente o doutor, Jesus, os seus primeiros discípulos, o ilustre S. Paulo representaram em parábolas, em epístolas, em um prodigioso fluxo labial, que as producções do espirito humano eram inúteis, pueris, e sobretudo perniciosas...

O abbade passeava pela sala, indo contra um e outro móvel como um boi espicaçado, apertando as mãos na cabeça na desolação de aquelas blasfêmias; não se conteve, gritou:

--O senhor não sabe o que diz!... Perdão, doutor, peço-lhe humildemente perdão... O senhor faz-me cahir em pecado mortal... Mas isso não é discutir... Isso é falar com a leviandade de um jornalista...

Lançou-se então com calor em uma dissertação sobre a sabedoria da Igreja, os seus altos estudos gregos e latinos, toda uma filosofia creada pelos santos padres...

--Leia S. Basilio! exclamou. Lá verá o que ele diz dos estudos dos auctores profanos, que são a melhor preparação para os estudos sagrados! Leia a Historia dos mosteiros na meia idade! Era lá que estava a sciencia, a filosofia...

--Mas que filosofia, senhor, mas que sciencia! Por filosofia meia duzia de concepções de um espirito mythologico, em que o misticismo é posto em logar dos instinctos sociais... E que sciencia! Sciencia de comentadores, sciencia de gramáticos... Mas vieram outros tempos, nasceram ciências novas que os antigos tinham ignorado, a que o ensino eclesiástico não oferecia nem base nem método, estabeleceu-se logo o antagonismo entre elas e a doutrina católica!... Nos primeiros tempos, a Igreja ainda tentou supprimil-as pela perseguição, a masmorra, o fogo! Escusa de se torcer, abbade... O fogo, sim, o fogo e a masmorra. Mas agora não o póde fazer e limita-se a vituperal-as em mau latim... E no emtanto contínua a dar nos seus seminários e nas suas escólas o ensino do passado, o ensino anterior a essas ciências, ignorando-as, e desprezando-as, refugiando-se na Escolástica... Escusa de apertar as mãos na cabeça... Estranha ao espirito moderno, hostil nos seus princípios e nos seus métodos ao desenvolvimento espontâneo dos conhecimentos humanos... O senhor não é capaz de negar isto! Veja o Syllabus no seu cânon terceiro excomungando a Razão... No seu cânon decimo terceiro...

A porta abriu-se timidamente; era ainda a Dionysia:

--A pequena está a choramingar, diz que quer a criança.

--Mau, mau! disse o doutor.

E depois de um momento:

--Que tal aspecto tem ela? Está córada? Está inquieta?

--Não senhor, está bem. Só a choramingar, a falar no pequeno... Diz que o quer hoje por força...

--Converse com ela, distraia-a... Veja se ela adormece...

A Dionysia retirou-se; e o abbade logo com cuidado:

--Ó doutor, supõe que lhe possa fazer mal o afligir-se?

--Póde-lhe fazer mal, abbade, póde--disse o doutor que rebuscava na sua farmácia portátil. Mas eu vou-a fazer dormir... Pois é verdade, a Igreja hoje é uma intrusa, abbade!

O abbade tornou a levar as mãos á cabeça.

--Escusa de ir mais longe, abbade. Veja a Igreja em Portugal. É grato observar-lhe o estado de decadência...

Pintou-lh'o a largos traços, de pé, com o seu frasco na mão. A Igreja fora a Nação; hoje era uma minoria tolerada e protegida pelo Estado. Dominára nos tribunais, nos conselhos da corôa, na fazenda, na armada, fazia a guerra e a paz; hoje um deputado da maioria tinha mais poder que todo o clero do reino. Fora a sciencia no paiz; hoje tudo o que sabia era algum latim macarrônico. Fora rica, tinha possuido no campo districtos inteiros e ruas inteiras na cidade; hoje dependia para o seu triste pão diário do ministro da justiça, e pedia esmola á porta das capelas. Recrutára-se entre a nobreza, entre os melhores do reino; e hoje, para reunir um pessoal, via-se no embaraço e tinha de o ir buscar aos engeitados da Misericórdia. Fora a depositaria da tradição nacional, do ideal colectivo da pátria; e hoje, sem comunicação com o pensamento nacional (se é que o ha) era uma estrangeira, uma cidadã de Roma, recebendo de lá a lei e o espirito...

--Pois se está assim tão prostrada, mais uma razão para a amar!--disse o abbade, erguendo-se escarlate.

Mas a Dionysia tinha de novo aparecido á porta.

--Que temos mais?

--A menina está-se a queixar de um peso na cabeça. Diz que sente faíscas diante dos olhos...

O doutor então imediatamente, sem uma palavra, seguiu a Dionysia. O abbade, só, passeava pela sala ruminando toda uma argumentação erriçada de textos, de nomes formidaveis de teólogos, que ia fazer desabar sobre o doutor Gouvêa. Mas, meia hora passou, a luz do candieiro ia esmorecendo, e o doutor não voltou.

Então aquele silencio da casa, onde só o som dos seus passos sobre o soalho da sala punha uma nota viva, começou a impressionar o velho. Abriu a porta devagarinho, escutou; mas o quarto de Amelia era muito afastado, ao fim da casa, ao pé do terraço; não vinha de lá nem rumor nem luz. Recomeçou o seu passeio solitário na sala, em uma tristeza indefinida que o ia invadindo. Desejaria bem ir vêr também a doente; mas o seu caráter, o pudor sacerdotal não lhe permitiam aproximar-se sequer de uma mulher no leito, em trabalho de parto, a não ser que o perigo reclamasse os sacramentos. Outra hora mais longa, mais fúnebre, passou. Então, em pontas de pés, córando na escuridão de aquela audácia, foi até ao meio do corredor: agora, aterrado, sentia no quarto de Amelia um ruido confuso e surdo de pés movendo-se vivamente no soalho, como em uma lucta. Mas nem um ai, nem um grito. Recolheu á sala, e abrindo o seu Breviario começou a rezar. Sentiu os chinelos da Gertrudes passarem rapidamente, em uma carreira. Ouviu uma porta a distancia bater. Depois o arrastar no soalho de uma bacia de latão. E emfim o doutor apareceu.

A sua figura fez empalidecer o abbade: vinha sem gravata, com o colarinho espedaçado; os botões do colete tinham saltado; e os punhos da camisa, voltados para traz, estavam todos manchados de sangue.

--Alguma coisa, doutor?

O doutor não respondeu, procurando rapidamente pela sala o seu estojo, com a face animada de um calor de batalha. Ia já sair com o estojo, mas lembrando-lhe a pergunta ansiosa do abbade:

--Tem convulsões, disse.

O abbade então deteve-o á porta, e muito grave, muito digno:

--Doutor, se ha perigo, peço-lhe que se lembre... É uma alma christã em agonia, e eu estou aqui.

--Certamente, certamente...

O abbade tornou a ficar só, esperando. Tudo dormia na Ricoça, D. Josefa, os caseiros, a quinta, os campos em redor. Na sala, um relógio de parede, enorme e sinistro, que tinha no mostrador a carranca do sol e em cima sobre o caixilho a figura esculpida em pau de uma coruja pensativa, um móvel de Castelo antigo, bateu a meia noite, depois uma hora. O abbade a cada momento ia até ao meio do corredor: era o mesmo rumor de pés em uma lucta; outras vezes um silencio tenebroso. Voltava então para o seu Breviario. Meditava em aquela pobre rapariga que, além no quarto, estava talvez no momento que ia decidir da sua eternidade: não tinha ao pé nem a mãe, nem as amigas: na memoria apavorada devia passar-lhe a visão do pecado: diante dos olhos turvos aparecia-lhe a face triste do Senhor ofendido: as dôres contorciam o seu corpo miserável: e na escuridão em que ia penetrando, sentia já o halito ardente da aproximação de Satanás. Temeroso fim do tempo e da carne!--Então rezava fervorosamente por ela.

Mas depois pensava no outro que fora uma metade do seu pecado, e que agora na cidade, estirado na cama, resonava tranquilamente. E rezava então também por ele.

Tinha sobre o Breviario um pequeno **crucifixo**. E contemplava-o com amor, abismava-se enternecido na certeza da sua força, contra a qual era bem pouca a sciencia do doutor e todas as vaidades da razão! Filosofias, idéas, glorias profanas, gerações e impérios passam: são como os suspiros efêmeros do esforço humano: só ela permanece e permanecerá, a cruz--esperança dos homens, confiança dos desesperados, amparo dos frageis, asilo dos vencidos, força maior da humanidade: crux triumphus adversus demônios, crux oppugnatorum murus...

Então o doutor entrou, muito escarlate, vibrante de aquela tremenda batalha que estava dando lá dentro á morte; vinha buscar outro frasco; mas abriu a janela, sem uma palavra, para respirar um momento uma golfada de ar fresco.

--Como vai ela? perguntou o abbade.

--Mal, disse o doutor saindo.

O abbade, então, ajoelhou, balbuciou a oração de S. Fulgencio:

--Senhor, dá-lhe primeiro a paciência, dá-lhe depois a misericórdia...

E ali ficou, com a face nas mãos, apoiado á beira da mesa.

A um rumor de passos na sala ergueu a cabeça. Era a Dionysia, que suspirava, recolhendo todos os guardanapos que encontrava nas gavetas do aparador.

--Então, senhora, então? perguntou-lhe o abbade.

--Ai, senhor abbade, está perdidinha... Depois das convulsões que foram de arripiar, cahiu em aquele sono, que é o sono da morte...

E olhando para todos os cantos como para se assegurar da solidão, disse muito excitada:

--Eu não quis dizer nada... Que o senhor doutor tem um gênio!... Mas sangrar a rapariga em aquele estado é querer matal-a... Que ela tinha perdido pouco sangue, é verdade... Mas nunca se sangra ninguém em semelhante momento. Nunca, nunca!

--O senhor doutor é homem de muita sciencia...

--Póde ter a sciencia que quiser... Eu também não sou nenhuma tola... Tenho vinte anos de experiencia... Nunca me morreu nenhuma nas mãos, senhor abbade... Sangrar em convulsões! Até causa horror!...

Estava indignada. O senhor doutor tinha torturado a creaturinha. Até lhe quisera administrar chloroformio...

Mas a voz do doutor Gouvêa berrou por ela do fundo do corredor--e a matrona abalou, com o seu molho de guardanapos.

O medonho relógio, com a sua coruja pensativa, bateu as duas horas, depois as três... O abbade, agora, cedia a espaços a uma fadiga de velho, cerrando um momento as pálpebras. Mas resistia bruscamente: ia respirar o ar pesado da noite, olhar aquela treva de toda a aldeia; e voltava a sentar-se, a murmurar, com a cabeça baixa, as mãos postas sobre o Breviario:

--Senhor, volta os teus olhos misericordiosos para aquele leito de agonia...

Foi então Gertrudes que apareceu comovida. O senhor doutor mandara-a a baixo acordar o moço para pôr a egoa ao cabriolet.

--Ai, senhor abbade, pobre creaturinha! Ia tão bem, e de repente isto... Que foi por lhe tirarem o filho... Eu não sei quem é o pai, mas o que sei é que em isto tudo anda um pecado e um crime!...

O abbade não respondeu, orando baixo pelo padre Amaro.

O doutor então entrou com o seu estojo na mão:

--Se quiser, abbade, póde ir, disse.

Mas o abbade não se apressava, olhando o doutor, com uma pergunta a bailar-lhe nos lábios entreabertos, e retendo-a por timidez: emfim, não se conteve, e em um tom de medo:

--Fez-se tudo, não ha remedio, doutor?

--Não.

--É que nós, doutor, não devemos aproximar-nos de uma mulher em parto ilegitimo senão em um caso extremo...

--Está em um caso extremo, senhor abbade, disse o doutor, vestindo já o seu grande casacão.

O abbade então recolheu o Breviario, a cruz--mas antes de sair, julgando do seu dever de sacerdote pôr diante do medico racionalista a certeza da eternidade mistica que se desprende do momento da morte, murmurou ainda:

--É em este instante que se sente o terror de Deus, o vão do orgulho humano...

O doutor não respondeu, ocupado a afivelar o seu estojo.

O abbade saiu--mas, já no meio do corredor, voltou ainda, e falando com inquietação:

--O doutor desculpe... Mas tem-se visto, depois dos socorros da religião, os moribundos voltarem a si de repente, por uma graça especial... A presença do medico então póde ser útil...

--Eu ainda não vou, ainda não vou, disse o doutor, sorrindo involuntariamente de vêr a presença da Medicina reclamada para auxiliar a eficacia da Graça.

Desceu, a vêr se estava pronto o cabriolet.

Quando voltou ao quarto de Amelia, a Dionysia e a Gertrudes, de rojos ao lado da cama, rezavam. O leito, todo o quarto estava revolvido como um campo de batalha. As duas velas consumidas extinguiam-se. Amelia estava imóvel, com os braços hirtos, as mãos crispadas de uma cor de purpura escura--e a mesma cor mais arroxeada cobria-lhe a face rígida.

E debruçado sobre ela, com o crucifixo na mão, o abbade dizia ainda, em uma voz de angustia:

--Jesu, Jesu, Jesu! Lembra-te da graça de Deus! Tem fé na misericórdia divina! Arrepende-te no seio do Senhor! Jesu, Jesu, Jesu!

Por fim, sentindo-a morta, ajoelhou, murmurando o Miserere. O doutor que ficara á porta retirou-se devagarinho, atravessou em bicos de pés o corredor, e desceu á rua, onde o moço segurava a egoa atrelada.

--Vamos ter água, senhor doutor, disse o rapaz bocejando de sono.

O doutor Gouvêa ergueu a gola do paletot, acomodou o seu estojo no assento--e de aí a um momento o cabriolet rodava surdamente pela estrada, sob a primeira pancada de chuva, cortando a escuridão da noite com o clarão vermelho das suas duas lanternas.

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