Capítulo XXV
Ao outro dia desde as sete da manhã, o padre Amaro esperava a Dionysia em casa, postado á janela, com os olhos cravados na esquina da rua, sem reparar na chuva miudinha que lhe fustigava a face. Mas a Dionysia não aparecia: e ele teve de partir para a Sé, amargurado e doente, a baptisar o filho do Guedes.
Foi uma pesada tortura para ele vêr aquela gente alegre que punha na gravidade da Sé, mais sombria por esse escuro dia de dezembro, todo um rumor mal contido de regosijo domestico e de festa paterna; o papá Guedes resplandecente de casaca e gravata branca, o padrinho compenetrado com uma grande camélia ao peito, as senhoras de gala, e sobretudo a parteira rechonchuda, passeando com pompa um montão de rendas engomadas e de laçarotes azuis onde mal se percebiam duas bochechinhas trigueiras. Ao fundo da igreja, com o pensamento bem longe na Ricoça e na Barrosa, foi engorolando á pressa as ceremonias: soprando em cruz sobre a face do pequerrucho para expulsar o Demônio que já habitava aquelas carninhas tenras; impondo-lhe o sal sobre a boca para que ele se desgostasse para sempre do sabor amargo do pecado e tomasse gosto a nutrir-se só da verdade divina; tocando-o com saliva nas orelhas e nas narinas, para que ele não escutasse jamais as solicitações da carne e jamais respirasse os perfumes da terra. E em roda, com tochas na mão, os padrinhos, os convidados, na fadiga que davam tantos latins rosnados á pressa, só se ocupavam do pequeno, em um receio que ele não respondesse com algum desacato impudente ás tremendas exhortações que lhe fazia a Igreja sua Mãe.
Amaro, então, pondo de leve o dedo sobre a touquinha branca, exigiu do pequerrucho que ele, ali em plena Sé, renunciasse para sempre a Satanás, ás suas pompas e ás suas obras. O sacristão Matias, que dava em latim as respostas rituais, renunciou por ele--enquanto o pobre pequerrucho abria a boquinha a procurar o bico da mama. Emfim o parocho dirigiu-se á pia baptismal seguido de toda a família, das velhas devotas que se tinham juntado, de gaiatos que esperavam uma distribuição de patacos. Mas foi toda uma atrapalhação para fazer as unções: a parteira comovida não atinava a desapertar os laçarotes do chambre, para pôr a nú os hombrosinhos, o peito do pequeno; a madrinha quis ajudal-a: mas deixou escorregar a tocha, alastrou de cera derretida o vestido de uma senhora, uma vizinha dos Guedes, que ficou embezerrada de raiva.
--Franciscus, credis?--perguntava Amaro.
O Matias apressou-se a afirmar, em nome de Francisco:
--Credo.
--Franciscus, vis baptisari?
O Matias:
--Volo.
Então a água lustral cahiu sobre a cabecinha redonda como um melão tenro: a criança agora perneava em uma perrice.
--Ego te baptiso, Franciscus, in nomine Patris... et Filiis... et Espiritus Sancti...
Emfim, acabara! Amaro correu á sacristia a desvestir-se--enquanto a parteira grave, o papá Guedes, as senhoras enternecidas, as velhas devotas e os gaiatos saiam ao repique dos sinos; e agachados sob os guardachuvas, chapinhando a lama, lá iam levando em triunfo Francisco, o novo christão.
Amaro galgou os degraus de casa com o presentimento que ia encontrar a Dionysia.
Lá estava, com efeito, sentada no quarto, esperando-o, amarrotada, enxovalhada da lucta da noite e da lama da estrada: e apenas o viu começou a choramingar.
--Que é, Dionysia?
Ela rompeu em soluços, sem responder.
--Morta! exclamou Amaro.
--Ai, fez-se-lhe tudo, filho, fez-se-lhe tudo! gritou emfim a matrona.
Amaro tombou para os pés da cama como morto também.
A Dionysia berrou pela criada. Inundaram-lhe a face de água, de vinagre. Ele recuperou-se um pouco, muito pálido: afastou-as com a mão, sem falar; e atirou-se de bruços para sobre o travesseiro, em um choró desesperado,--enquanto as duas mulheres consternadas iam recolhendo á cozinha.
--Parece que tinha muita amizade á menina, começou a Escolástica, falando baixo como na casa de um moribundo.
--Costume de ir por lá. Foi hospede tanto tempo... Ai, eram como irmãos...--disse a Dionysia, ainda chorosa.
Falaram então de doenças de coração--porque a Dionysia contara á Escolástica que a pobre menina tinha morrido de um aneurisma rebentado. A Escolástica também sofria do coração; mas em ela eram flatos, dos maus tratos que lhe dera o marido... Ah, tinha sido bem infeliz também!
--Vossemecê toma uma gotinha de café, Sr..^a Dionysia?
--Olhe, a falar a verdade, Sr..^a Escolástica, tomava uma gotinha de geropiga...
A Escolástica correu á taberna ao fim da rua, trouxe a geropiga em um copo de quartilho debaixo do avental: e ambas á mesa, uma molhando sopas no café, outra escorropichando o copo, concordavam, com suspiros, que em este mundo tudo eram sustos e lagrimas.
Deram onze horas: e a Escolástica pensava em levar um caldo ao senhor parocho, quando ele chamou de dentro. Estava de chapéo alto, com o casaco abotoado, os olhos vermelhos como carvões...
--Escolástica, vá a correr ao Cruz que me mande um cavalo... Mas depressa.
Chamou então a Dionysia: e sentado ao pé de ela, quase contra os joelhos da mulher, com a face rígida e livida como um mármore, escutou em silencio a historia da noite--as convulsões de repente, tão fortes que ela, a Gertrudes e o senhor doutor mal a podiam segurar! o sangue, as prostrações em que caía! depois a ansiedade da asfixia que a fazia tão rôxa como a túnica de uma imagem...
Mas o moço do Cruz chegara com o cavalo. Amaro tirou de uma gaveta, de entre roupa branca, um pequeno crucifixo, deu-o á Dionysia que ia voltar á Ricoça para ajudar a amortalhar a menina.
--Que lhe ponham este crucifixo no peito, tinha-m'o ela dado...
Desceu, montou; e apenas na estrada da Barrosa despediu a galope. Não chovia, agora; e entre as nuvens pardas algum raio fraco do sol de dezembro fazia brilhar a relva, as pedras molhadas.
Quando chegou ao pé do poço entulhado, de onde se avistava a casa de Carlota, teve de parar, para deixar passar um longo rebanho de ovelhas que tomava o caminho; e o pastor, com uma pele de cabra ao hombro e a borracha a tiracolo, fez-lhe lembrar de repente Feirão, toda a vida passada, que lhe voltava por fragmentos bruscos--aquelas paizagens afogadas nos vapores pardacentos da serra; a Joana rindo estupidamente dependurada da corda do sino; as suas ceias de cabrito assado na Gralheira, com o abbade, defronte da chaminé, onde a lenha verde estalava; os longos dias em que se desesperava na tristeza da residencia, vendo fora sem cessar cahir a neve... E veio-lhe um desejo ancioso de essas solidões da serra, de essa existência de lobo, longe dos homens e das cidades, sepultado lá com a sua paixão.
A porta da Carlota estava fechada. Bateu, foi de roda chamar, atirando a voz por cima do telhado dos currais, para o pátio, onde sentia cacarejar os galos. Ninguém respondeu. Seguiu então pelo caminho da aldeia, levando a egoa pela arreata; parou na taberna, onde uma mulher obesa fazia meia sentada á porta. Dentro, no escuro da baiuca, dois homens com os seus quartilhos ao lado, batiam as cartas em uma bisca renhida; e um rapazola de uma amarelidão de sezões, com um lenço amarrado na cabeça, olhava-lhes o jogo tristemente.
A mulher tinha justamente visto passar a Sr..^a Carlota, que até parara a comprar um quartilho de azeite. Devia estar em casa da Michaela, ao adro. Chamou para dentro; uma rapariguita vesga apareceu de traz da sombra das pipas.
--Corre, vai á Michaela, dize à Sr..^a Carlota que está aqui um senhor da cidade.
Amaro voltou para a porta da Carlota, esperou sentado em uma pedra, com o seu cavalo pela rédea. Mas aquela casa fechada e muda aterrava-o. Foi pôr o ouvido á fechadura, na esperança de ouvir um choró, uma rabuje de criança. Dentro pesava um silencio de caverna abandonada. Mas tranquillisava-o a idéa que a Carlota teria levado a criança consigo, para Michaela. Devia realmente ter perguntando á mulher na taberna, se a Carlota trazia uma criança ao colo... E olhava a casa bem caiada, com a sua janela em cima que tinha uma cortininha de cassa, um luxo tão raro em aquelas freguezias pobres; recordava a boa ordem, o escarolado da louça da cozinha... Decerto, o pequerrucho devia ter também um berço aceado...
Ah, estava doido decerto na véspera, quando puzera ali, na mesa da cozinha, quatro libras em ouro, preço adiantado de um ano de criação, e dissera cruelmente ao anão--«conto consigo»! Pobre pequerruchinho!... Mas a Carlota comprehendera bem, á noite na Ricoça, que ele agora queria-o vivo, o seu filho, e creado com mimo!... Todavia não o deixaria ali, não, sob o olho raiado de sangue do anão... Leval-o-hia essa noite á Joana Carreira dos Poyaes...
Que as sinistras historias da Dionysia, a tecedeira de anjos, eram uma legenda insensata. A criança estava muito regalada em casa de Michaela, chupando aquele bom peito de quarentona sã... E vinha-lhe então o mesmo desejo de deixar Leiria, ir enterrar-se em Feirão, levar consigo a Escolástica, educar lá a criança como sobrinho, revivendo em ele largamente todas as emoções de aquele romance de dois anos; e ali passaria em uma paz triste, na saudade de Amelia, até ir como o seu antecessor, o abbade Gustavo que também creára um sobrinho em Feirão, repousar para sempre no pequeno cemitério, de verão sob as flôres silvestres, de inverno sob a neve branca.
Então a Carlota apareceu; e ficou atônita ao reconhecer Amaro, sem passar da cancela, com a testa franzida, a sua bela face muito grave.
--A criança? exclamou Amaro.
Depois de um momento, ela respondeu, sem perturbação:
--Nem me fale em isso, que me tem dado um desgosto... Ontem mesmo, duas horas depois de ter chegado... O pobre anjinho começa a fazer-se rôxo, e ali me morreu debaixo dos olhos...
--Mente! gritou Amaro. Quero vêr.
--Entre, senhor, se quer vêr.
--Mas que lhe disse eu ontem, mulher?
--Que quer, senhor? Morreu. Veja...
Tinha aberto a porta, muito simplesmente, sem cólera nem receio. Amaro entreviu em um relance, ao pé da chaminé, um berço coberto com um saiote escarlate.
Sem uma palavra voltou as costas, atirou-se para cima do cavalo. Mas a mulher, muito loquaz subitamente, rompeu a dizer que tinha ido justamente à aldeia para encomendar um caixãosinho decente... Como vira que era filho de pessoa de bem, não o quisera enterrar embrulhado em um trapo. Mas emfim, como o senhor ali estava, parecia-lhe razoável que desse algum dinheiro para a despeza... Uns dois mil reis que fossem.
Amaro considerou-a um momento com um desejo brutal de a esganar; por fim, meteu-lhe o dinheiro na mão. E ia trotando no carreiro, quando a sentiu ainda correndo, gritando pst! pst! A Carlota queria-lhe restituir o capote que ele emprestara na véspera: tinha feito muito bom serviço, que a criança chegara quente como um rojãosinho... Infelizmente...
Amaro já a não escutava, esporeando furiosamente a ilharga da cavalgadura.
Na cidade, depois de apear à porta do Cruz, não entrou em casa. Foi direito ao paço do bispo. Tinha agora uma idéa só: era deixar aquela cidade maldita, não vêr mais as faces das devotas, nem a fachada odiosa da Sé...
Foi só ao subir a larga escadaria de pedra do paço, que lhe lembrou com inquietação o que o Libaninho dissera na véspera da indignação do senhor vigário geral, da denuncia obscura... Mas a afabilidade do padre Saldanha, o confidente do paço, que o introduziu logo na livraria de sua excelência, tranquilizou-o. O senhor vigário geral foi muito amável. Estranhou o ar pálido e perturbado do senhor parocho...
--É que tenho um grande desgosto, senhor vigário geral. Minha irmã está a morrer em Lisboa. E venho pedir a vossa excelência licença para lá ir, por uns dias...
O senhor vigário geral consternou-se com bondade.
--Decerto, consinto... Ah! somos todos passageiros forçados da barca de Charonte.
Ipse ratem conto subigit, velisque ministrat Et ferrugínea subvectat corpora cimba.
Ninguém lhe escapa... Sinto, sinto... Não me esquecerei de a recomendar nas minhas orações...
E muito metódico, sua excelência tomou uma nota a lápis.
Amaro, ao sair do paço, foi direito á Sé. Fechou-se na sacristia, a essa hora deserta: e depois de pensar muito tempo com a cabeça entre os punhos, escreveu ao cônego Dias:
«Meu caro padre-mestre.--Treme-me a mão ao escrever estas linhas. A infeliz morreu. Eu não posso, bem vê, e vou-me embora, porque, se aqui ficasse, estalava-me o coração. Sua excelentíssima irmã lá estará tratando do enterro... Eu, como comprehende, não posso. Muito lhe agradeço tudo... Até um dia, se Deus quiser que nos tornemos a vêr. Por mim conto ir para longe, para alguma pobre parochia de pastores, acabar meus dias nas lagrimas, na meditação e na penitencia. Console como puder a desgraça da mãe. Nunca me esquecerei do que lhe devo, enquanto tiver um sopro de vida. E adeus, que nem sei onde tenho a cabeça.--Seu amigo do C.--Amaro Vieira.»
«P. S. A criança morreu também, já se enterrou.»
Fechou a carta com uma obreia preta; e depois de arranjar os seus papeis, foi abrir o grande portão chapeado de ferro, olhar um momento o pátio, o barracão, a casa do sineiro... As nevoas, as primeiras chuvas já davam àquele recanto da Sé o seu ar lúgubre de inverno. Adiantou-se devagar, sob o silencio triste dos altos contrafortes, espreitou á vidraça da cozinha do tio Esguelhas: ele lá estava, sentado á chaminé, com o cachimbo na boca, cuspilhando tristemente para as cinzas. Amaro bateu de leve nos vidros--e quando o sineiro abriu a porta, aquele interior conhecido, rapidamente entrevisto, a cortina da alcova da Tótó, a escada que ia para o quarto, agitaram o parocho de tantas recordações e de saudades tão bruscas, que não pôde falar um momento, com a garganta tomada de soluços.
--Venho-lhe dizer adeus, tio Esguelhas, murmurou por fim. Vou a Lisboa, tenho minha irmã a morrer...
E acrescentou com os beiços trêmulos de um choró que ia romper:
--Todas as desgraças vêm juntas. Sabe, a pobre Ameliasinha lá morreu de repente...
O sineiro emudeceu, assombrado.
--Adeus, tio Esguelhas. Dê cá a mão, tio Esguelhas. Adeus...
--Adeus, senhor parocho, adeus! disse o velho com os olhos arrazados de água.
Amaro fugiu para casa, contendo-se para não soluçar alto pelas ruas. Disse logo á Escolástica que ia partir em essa noite para Lisboa. O tio Cruz devia mandar-lhe um cavalo, para ir tomar o comboio a Chão de Maçãs.
--Eu não tenho senão o dinheiro que é necessário para a jornada. Mas o que aí me fica em lenções e toalhas é para você...
A Escolástica, chorando de perder o senhor parocho, quis beijar-lhe a mão por tanta generosidade: ofereceu-se para fazer a mala...
--Eu mesmo a arranjo, Escolástica, não se incomode.
Fechou-se no quarto. A Escolástica, ainda choramingando, foi logo recolher, examinar as poucas roupas que estavam pelos armários. Mas Amaro de aí a pouco gritou por ela: diante da janela uma harpa e uma rebeca, em desafinação, tocavam a valsa dos Dois mundos.
--Dê um tostão a esses homens, disse o padre furioso. E diga-lhe que vão p'r'ó inferno... Que está aqui gente doente!
E até ás cinco horas a Escolástica não tornou a sentir rumor no quarto.
Quando o moço do Cruz veio com o cavalo, pensando que o senhor parocho adormecera, ela foi-lhe bater devagarinho á porta do quarto, choramingando já da despedida próxima. Ele abriu logo. Estava de capote aos hombros; no meio do quarto pronta e acorreada a mala de lona que devia ir á garupa da egoa. Deu-lhe um maço de cartas para ir entregar em essa noite à Sr..^a D. Maria da Assumpção, ao padre Silverio e a Natario: e ia descer, entre os prantos da mulher, quando sentiu na escada um ruido conhecido de muleta, e o tio Esguelhas apareceu muito comovido.
--Entre, tio Esguelhas, entre.
O sineiro cerrou a porta, e depois de hesitar um momento:
--Vossa senhoria ha de desculpar, mas... Tinha-me esquecido de todo, com os desgostos que tenho passado. Já ha tempo que achei no quarto isto, e pensei que...
E meteu na mão de Amaro um brinco de ouro. Ele reconheceu-o logo: era de Amelia. Muito tempo ela o procurara debalde; soltara-se decerto em alguma manhã de amor, sobre a enxerga do sineiro. Amaro então, sufocado, abraçou o tio Esguelhas.
--Adeus! Adeus, Escolástica. Lembrem-se por cá de mim. Dê lembranças ao Matias, tio Esguelhas...
O moço afivelou a maleta ao selim, e Amaro partiu, deixando a Escolástica e o tio Esguelhas, a chorar ambos á porta.
Mas depois de ter passado os açudes, ao pé de uma volta da estrada, teve de apear para compôr o estribo: e ia montar, quando apareceram dobrando o muro o doutor Godinho, o secretario geral e o senhor administrador do concelho, muito amigos agora, e que vinham, depois do passeio, recolhendo para a cidade. Pararam logo a falar ao senhor parocho--admirando-se de o vêr ali, de maleta na garupa, com ares de jornada...
--É verdade, disse, vou para Lisboa!
O antigo Bibi e o administrador suspiraram invejando-lhe a felicidade.--Mas quando o parocho falou da irmã moribunda, afligiram-se com polidez; e o senhor administrador disse:
--Deve estar muito sentido, compreendo... De mais a mais essa outra desgraça na casa de aquelas senhoras suas amigas... A pobre Ameliasinha, morta assim de repente...
O antigo Bibi exclamou:
--O quê? A Ameliasinha, aquela bonita que morava na rua da Misericórdia? Morreu?
O doutor Godinho também o ignorava, e pareceu consternado.
O senhor administrador soubera-o pela sua criada, que o ouvira da Dionysia. Dizia-se que fora um aneurisma.
--Pois senhor parocho, exclamou Bibi, desculpe se aflijo as suas crenças respeitaveis, que são as minhas de resto... Mas Deus cometeu um verdadeiro crime... Levar-nos a rapariga mais bonita da cidade! Que olhos, senhores! E depois com aquele picantesinho da virtude...
Então, em um tom de pezames, todos lamentaram aquele golpe que devia ter affectado tanto o senhor parocho.
Ele disse muito grave:
--Senti-o deveras... Conhecia-a bem... E com as suas boas qualidades, devia fazer, sem dúvida, uma esposa modêlo... Senti-o muito.
Apertou silenciosamente as mãos em redor--e enquanto os cavalheiros recolhiam á cidade, o padre Amaro foi trotando pela estrada, que já escurecia, para a estação de Chão de Maçãs.
Ao outro dia, pelas onze horas, o enterro de Amelia saiu da Ricoça. Era uma manhã áspera: o céo e os campos estavam afogados em uma nevoa pardacenta; e caía, muito miúda, uma chuva regelada. Era longe da quinta a capela dos Poyaes. O menino do coro adiante, de cruz alçada, apressava-se, chapinhando a lama a grandes pernadas; o abbade Ferrão, de estola negra, abrigava-se, murmurando o Exultabunt Domino, sob o guardachuva que sustentava ao lado o sacristão com o hissope; quatro trabalhadores da quinta, abaixando a cabeça contra a chuva oblíqua, levavam em uma padiola o esquife que tinha dentro o caixão de chumbo; e, sob o vasto guardachuva do caseiro, a Gertrudes de mantéo pela cabeça ia desfiando as suas contas. Ao lado do caminho o Vale triste dos Poyaes cavava-se, todo pardo na neblina, em um grande silencio; e a voz enorme do vigário, mugindo o Miserere, rolava pela quebrada humida onde murmuravam os riachos muito cheios.
Mas ás primeiras casas da aldeia os moços do caixão pararam derreados; e então um homem, que estava esperando debaixo de uma árvore sob o seu guardachuva, veio juntar-se silenciosamente ao enterro. Era João Eduardo, de luvas pretas, carregado de luto, com as olheiras cavadas em dois sulcos negros, grossas lagrimas a correrem-lhe nas faces. E imediatamente, por traz de ele, vieram colocar-se dois criados de farda, com as calças muito arregaçadas e tochas na mão--dois lacaios que mandara o Morgado, para honrar o enterro de uma de essas senhoras da Ricoça, amigas do abbade.
Então, vendo estas duas librés que vinham afidalgar o préstito, o menino do coro rompeu logo, erguendo mais alto a cruz; os quatro homens, já sem fadiga, impertigaram-se ás varas da padiola: o sacristão bramiu um Requiem tremendo. E pelas lamas do íngreme caminho da aldeia foi subindo o enterro, enquanto às portas as mulheres se ficavam persignando, olhando as sobrepelizes brancas e o caixão de galões de ouro, que se iam afastando seguidos do grupo de guardachuvas abertos, sob a chuva triste.
A capela era no alto, em um adro de carvalheiras: o sino dobrava: e o enterro sumiu-se para o interior da igreja escura, ao canto do Subvenite sancti que o sacristão entoou em ronco.--Mas os dois criados de farda não entraram porque o senhor Morgado assim o tinha ordenado.
Ficaram á porta, sob o guardachuva, escutando, batendo os pés regelados. Dentro seguia o cantochão; depois era um ciciar de orações que se amortecia: e de repente latins fúnebres lançados pela voz grossa do vigário.
Então os dois homens, enfastiados, desceram do adro, entraram um momento na taberna do tio Serafim. Dois moços de gado da quinta do Morgado, que bebiam em silencio o seu quartilho, ergueram-se logo vendo aparecer os dois criados de farda.
--Á vontade, rapazes, é sentar e beber, disse o velho baixito que acompanhava João Eduardo a cavalo. Nós lá estamos, na massada do enterro... Boas tardes, Sr.. Serafim.
Apertaram a mão ao Serafim, que lhes mediu duas aguardentes--e informou-se se a defunta era a noiva do Sr.. Joãosinho. Tinham-lhe dito que morrera de uma veia rebentada.
O baixito riu:
--Qual veia rebentada! Não lhe rebentou coisa nenhuma. O que lhe rebentou foi um rapagão pelo ventre...
--Obra do Sr.. Joãosinho? perguntou o Serafim, arregalando o olho bréjeiro.
--Não me parece, disse o outro com importância. O Sr.. Joãosinho estava em Lisboa... Obra de algum cavalheiro da cidade... Sabe vossemecê de quem eu desconfio, Sr.. Serafim?...
Mas a Gertrudes, esbaforida, rompeu pela taberna gritando que o saimento já ia ao pé do cemitério, e que não faltavam senão «aqueles senhores»! Os lacaios abalaram logo, e alcançaram o enterro quando ia passando a pequena grade do cemitério, ao último versículo do Miserere. João Eduardo agora levava uma vela na mão, ia logo atraz do caixão de Amelia, tocando-o quase, com os olhos enevoados de lagrimas fitos no veludilho negro que o cobria. Sem cessar o sino na capela dobrava desoladamente. A chuva caía mais miúda. E todos calados, no silencio fusco do cemitério, com passos abafados pela terra mole, iam-se dirigindo para o canto do muro onde estava cavada de fresco a cova de Amelia, negra e profunda entre a relva humida. O menino do coro cravou no chão a haste da cruz prateada, e o abbade Ferrão, adiantando-se até á beira do buraco escuro, murmurou o Deus cujus miseratione... Então João Eduardo, muito pálido, vacilou de repente, e o guardachuva cahiu-lhe das mãos; um dos criados de farda correu, segurou-o pela cinta; queriam-no levar, arrancal-o de ao pé da cova; mas ele resistiu, e ali ficou, com os dentes cerrados, segurando-se desesperadamente á manga do criado, vendo o coveiro e os dois moços amarrarem as cordas no caixão, fazerem-no resvalar devagar entre a terra esfarelada que rolava, com um ranger de taboas mal pregadas.
--Requiem aeternam dona ei, Domine!
--Et lux perpetua luceat ei, mugiu o sacristão.
O caixão bateu no fundo com uma pancada surda: o abbade espalhou em cima uma pouca de terra em fórma de cruz: e sacudindo lentamente o hissope sobre o veludilho, a terra, a relva em redor:
--Requiescat in pacé.
--Amen, responderam a voz cava do sacristão e a voz aguda do menino do coro.
--Amen, disseram todos em um murmurio, que ciciou, se perdeu entre os ciprestes, as hervas, os túmulos e as nevoas frias de aquele triste dia de dezembro.