Capítulo XXII
O cônego Dias recomendara muito a Amaro que ao menos nas primeiras semanas, para evitar as suspeitas da mana e da criada, não fosse á Ricoça. E a vida de Amaro tornou-se então mais triste, mais vazia que outr'ora, quando pela primeira vez deixando a casa da S. Joaneira viera para a rua das Sousas. Todos os seus conhecidos estavam fora de Leiria: D. Maria da Assumpção na Vieira; as Gansosinhos ao pé de Alcobaça com a tia, a famosa tia que havia dez anos estava para morrer e para lhes deixar uma grande herdade. Depois do serviço da Sé, as horas, todo o longo dia, arrastavam-se pesadas como chumbo. Não estaria mais separado de toda a comunicação humana, se como Santo Antônio vivesse nos areais do deserto líbico. Só o coadjutor que, coisa singular, nunca lhe aparecia nos tempos felizes, voltara agora, como o companheiro fatídico das horas tristes, a visital-o uma, duas vezes por semana, ao fim do jantar, mais magro, mais chupado, mais soturno, com o seu eterno guardachuva na mão. Amaro odiava-o; ás vezes, para o impôr, fingia-se todo occúpado em uma leitura; ou precipitando-se para a mesa, mal lhe sentia nos degraus as passadas lentas:
--Amigo coadjutor, desculpe, que estou aqui a rabiscar uma coisa.
Mas o homem instalava-se, com o odioso guardachuva entre os joelhos:
--Não se prenda, senhor parocho, não se prenda.
E Amaro, torturado por aquela figura lúgubre que não se mexia na cadeira, atirava a pena, furioso, agarrava o chapéo:
--Não estou hoje p'r'á coisa, vou espairecer.
E á primeira esquina descartava-se bruscamente do coadjutor.
Ás vezes, farto de solidão, ia visitar o Silverio. Mas a felicidade pachorrenta de aquele sêr obeso, ocupado em colecionar receitas de medicina caseira e em observar as perturbações fantásticas da sua digestão; os seus constantes louvores do doutor Godinho, dos pequenos e da senhora; as chalaças obsoletas que ele repetia havia quarenta anos e a inocente hilaridade que elas lhe davam, impacientavam Amaro. Sahia, enervado, pensando na sorte inimiga era a felicidade por fim: porque não havia de ele ser também um bom padre caturra, com uma pequenina mania tirânica, parasita regalado de uma família respeitável, tendo um de estes sangues tranquilos que giram sob camadas de gordura, sem perigo de transbordar e de causar desgraças, como um riacho que corre por debaixo de uma montanha?...
Outras vezes ia ao colega Natario, cuja fractura, mal tratada ao principio, o retinha ainda na cama com o aparelho na perna. Mas aí, enjoava-o o aspecto do quarto--impregnado de um cheiro de arnica e de suor, com uma profusão de trapos ensopados em malgas vidradas, e esquadrões de garrafas sobre a comoda entre fileiras de santos. Natario, mal o via aparecer, rompia em queixas: As cavalgaduras dos médicos! A sua má sorte habitual! As torturas a que o forçavam! O atrazo em que estava a medicina em este maldito paiz!... E ia salpicando o soalho negro de expectorações e de pontas de cigarro. Desde que estava doente, a saúde dos outros, sobretudo dos amigos, indignava-o como uma ofensa pessoal.
--E você sempre rijo, hein? Pudera!--murmurava com rancor.
E pensar que aquela besta do Brito nunca lhe doera a cabeça! E que o alarve do abbade se gabava de nunca ter estado na cama depois das sete da manhã! Animaes!
Amaro então dava-lhe as novidades: alguma carta que recebera do cônego, da Vieira, as melhoras da D. Josefa...
Mas Natario não se interessava pelas pessoas a quem apenas o unia a convivência e a amizade; interessavam-em o só os seus inimigos, com quem tinha ligações de ódio. Queria saber do escrevente, se já tinha estourado de fome...
--Esse ao menos pude-lhe ser bom antes de cahir aqui em esta maldita cama!...
As sobrinhas apareciam então--duas creaturinhas sardentas, de olhos muito pisados. O seu grande desgosto era que o titi não mandasse vir a benzedeira pôr-lhe virtude na perna: era o que tinha curado o morgadinho da Barrosa, e o Pimentel de Ourem...
Natario, na presença das duas rosas do seu canteiro, calmava-se.
--Coitaditas, não é por falta de cuidados de elas que eu ainda não arribei... Mas tenho sofrido, caramba!
E as duas rosas, com o mesmo movimento simultâneo, voltavam-se para o lado limpando os olhos aos lenços.
Amaro saia de ali, mais enfastiado.
Para se fatigar tentava dar grandes passeios pela estrada de Lisboa. Mas apenas se afastava do movimento da cidade, a sua tristeza tornava-se mais intensa, concordando com aquela paizagem de colinas tristes e árvores enfezadas: e a sua vida aparecia-lhe como essa mesma estrada monótona e longa, sem um incidente que a alegrasse, estirando-se desoladamente até se perder nas brumas do crepúsculo. Ás vezes, ao voltar, entrava no cemitério, ia passeando entre os renques de ciprestes, sentindo àquela hora do fim da tarde a emanação adocicada das moitas de goivos; lia os epitáfios; encostava-se á grade dourada do jazigo da família Gouvêa, contemplando os emblemas em relevo, um chapéo armado e um espadim, seguindo as negras letras da famosa ode que lhe adorna a lapida:
Caminhante, detem-te a contemplar Estes restos mortais; E, se sentires a mágoa a transbordar, Detem teus ais. Que Julio Cabral da Silva Maldonado Mendonça de Gouvêa, Moço fidalgo, bacharel formado, Filho da ilustre Cêa, Ex-administrador de este concelho, Comendador de Cristo, Foi de virtudes singular espelho, Caminhante, crê em isto.
Depois era o rico mausóleo do Morais, onde sua esposa, que agora, rica e quarentona, vivia em concubinagem com o belo capitão Trigueiros, fizera gravar uma piedosa quadra:
Entre os anjos espera, ó esposo, A metade do teu coração Que no mundo ficou, tão sózinha, Toda entregue ao dever da oração!...
Algumas vezes, ao fundo do cemitério, junto ao muro, via um homem ajoelhado ao pé de uma cruz negra, que um chorão assombreava, ao lado da vala dos pobres. Era o tio Esguelhas, com a sua moleta no chão, rezando sobre a sepultura da Tótó. Ia falar-lhe, e mesmo, em uma igualdade que aquele logar justificava, passeavam familiarmente, hombro a hombro, conversando. Amaro, com bondade, consolava o velho: de que servia á desgraçada rapariga a vida para a passar estirada em uma cama?
--Sempre era viver, senhor parocho... E eu, veja agora isto, sósinho de dia e de noite!
--Todos têm as suas solidões, tio Esguelhas, dizia melancolicamente Amaro.
O sineiro então suspirava, perguntava pela Sr..^a D. Josefa, pela menina Amelia...
--Lá está na quinta.
--Coitadita, não está má estopada...
--Cruzes da vida, tio Esguelhas.
E continuavam calados por entre as ruas de buxo que fecham os canteiros cheios do negrejamento das cruzes e da brancura das lapidas novas. Amaro, ás vezes, reconhecia alguma sepultura que ele mesmo tinha aspergido e consagrado: onde estariam aquelas almas que ele recomendara a Deus em latim, distrahido, engorolando á pressa as orações para ir ter com Amelia? Eram jazigos de gente da cidade; ele conhecia de vista as pessoas da família; vira-as então lavadas em lagrimas, e agora passeavam em rancho pela Alameda ou chalaceavam ao balcão das lojas...
Voltava para casa mais triste,--e a sua longa noite começava, infindável. Tentava lêr; mas ao fim das dez primeiras linhas bocejava de tédio e de fadiga. Ás vezes escrevia ao cônego. Ás nove horas tomava chá; e depois era um passear sem fim pelo quarto, fumando maços de cigarros, parando á janela a olhar a negrura da noite, lendo aqui e além uma noticia ou um anuncio do Popular e recomeçando a passear com bocejos tão cavos que a criada os ouvia na cozinha.
Para entreter estas noites melancólicas, e por um excesso de sensibilidade ociosa, tentara fazer versos, pondo o seu amor e a historia dos dias felizes nas formulas conhecidas da saudade lirica:
Lembras-te de esse tempo da delicias, Ó anjo feiticeiro, Amelia amada, Quando tudo eram risos e ventura E a vida nos corria socegada?
Lembras-te de essa noite de poesia Em que a lua brilhava pelos céus, E nós unindo as almas, ó Amelia, Erguemos nossa prece para Deus?...
Mas a despeito de todos os esforços nunca passara de estas duas quadras--apesar de as ter produzido com uma facilidade prometedora--como se o seu sêr contivesse apenas estas duas gotas isoladas de poesia, e, soltas elas á primeira pressão, nada mais restasse senão a seca prosa do temperamento carnal.
E esta existência varia relaxara-lhe tão subtilmente todo o machinismo da vontade e da acção, que qualquer trabalho que lhe pudesse encher a fastidiosa concavidade das horas infindaveis era-lhe odioso como o peso de um fardo injusto. Preferia ainda os tédios da ociosidade aos tédios da ocupação. A não serem os deveres estrictos que ele não podia desleixar sem escândalo e sem censura--desembaraçara-se, pouco a pouco, de todas as praticas do zelo interior: nem a oração mental, nem as visitas regulares ao Santissimo, nem as meditações espirituais, nem o rosário á Virgem, nem a leitura á noite do Breviario, nem o exame de consciência--todas estas obras da devoção, estes meios secretos de santificação progressiva substituia-os pelos infindaveis passeios pelo quarto, do lavatório á janela, e por maços de cigarros fumados até ao negro dos dedos. A missa, pela manhã, era rapidamente engorolada; o serviço da parochia feito com surdas revoltas de impaciência; tornara-se consumadamente o Indignus sacerdos dos ritualistas; e tinha na sua ampla totalidade os trinta e cinco defeitos e os sete meios defeitos que os teólogos atribuem ao mau padre.
Só lhe restava através da sua sentimentalidade um apetite tremendo. E como a cozinheira era excelente, e a Sr..^a D. Maria da Assumpção, antes da sua partida para a Vieira, lhe deixara um fornecimento de cento e cincoenta missas a cruzado--banqueteava-se, tratando-se a galinha e a geleia, regando-se de um vinho picante da Bairrada que o padre-mestre lhe escolhera. E ali ficava á mesa, horas esquecidas, de perna esticada, fumando sobre o café, e lamentando não ter á mão a sua Ameliasita...
--Que fará ela por lá, a pobre Ameliasita! pensava, espreguiçando-se com tédio e com langor.
A pobre Ameliasita, na Ricoça, amaldiçoava a sua vida.
Logo durante a jornada no char-à-banc D. Josefa lhe fizera tacitamente sentir que de ela não tinha a esperar nem a antiga amizade, nem o perdão do escândalo... E assim foi, quando se instalaram. A velha tornou-se intratável: era todo um modo cruel de abandonar o tu, de a tratar por menina; uma recusa ríspida se Amelia lhe queria arranjar a almofada ou aconchegal-a no chale; um silencio reprehensivo quando ela lhe passava o serão no quarto, costurando; e a todo o momento alusões suspiradas ao triste encargo que Deus lhe mandava no fim dos seus dias...
Amelia, consigo, acusava o parocho: ele prometera-lhe que a madrinha seria toda caridade, toda cumplicidade; entregava-a por fim a uma semelhante ferocidade de velha virgem devota!...
Quando se viu em aquele casarão da Ricoça, em um quarto regelado, pintado a cor de canário, lugubremente mobilado com uma cama de docel e duas cadeiras de couro, chorou toda a noite com a cabeça, enterrada no travessseiro--torturada por um cão que debaixo das janelas, estranhando sem dúvida as luzes e o movimento na casa, uivou até de madrugada.
Ao outro dia desceu á quinta a vêr os caseiros. Era talvez boa gente com quem podia distrahir-se. Encontrou uma mulher, alta e lúgubre como um cipreste, carregada de luto: um grande lenço negro tingido, muito puxado para a testa, dava-lhe um ar de farricoco; e a sua voz gemebunda tinha uma tristeza de dobre a finados. O homem pareceu-lhe ainda peor, semelhante a um ourango-tango, com duas orelhas enormes muito despegadas do craneo, uma saliência bestial de queixo, as gengivas deslavadas, um corpo desengonçado de tísico, de peito metido para dentro. Abalou bem depressa, foi vêr o pomar: andava maltratado; as ruasitas estavam invadidas por um hervaçal humido; e a sombra das árvores muito juntas, em um terreno baixo, cercado de altos muros, dava uma sensação doentia.
Era ainda preferível passar os seus dias metida no casarão; dias infindaveis em que as horas se iam movendo com o vagar fastidioso de um desfilar funerário.
O seu quarto era na frente; e pelas duas janelas recebia a impressão triste da paizagem que se estendia defronte, uma ondulação monótona de terras estereis com alguma magra árvore aqui e além, um ar abafado em que parecia errar constantemente a exhalação de paues próximos e de baixas humidas, e a que nem o sol de setembro dissipava o tom sezonático.
Logo pela manhã ia ajudar a levantar D. Josefa, accommodal-a no canapé; depois vinha costurar para ao pé de ela--como outr'ora na rua da Misericórdia para ao pé da mãe; mas agora em logar das boas «cavaqueiras» tinha só o silencio intratável da velha e a sua ronqueira incessante. Pensára em fazer vir o seu piano da cidade; mas, apenas em tal falou, a velha exclamou com azedume:
--A menina está doida... Não tenho saúde para tocatas! Ora o desproposito!
A Gertrudes também não lhe fazia companhia; nas horas em que não estava ao pé da velha, ou na cozinha, desaparecia; era justamente de aquela freguezia, e passava o seu tempo pelos casais, palrando com as antigas vizinhas.
A peor hora era ao anoitecer. Depois de rezar o seu rozario, ficava junto á janela olhando estupidamente as gradações da luz poente; todos os campos pouco a pouco se perdiam no mesmo tom pardo; um silencio parecia descer, pousar sobre a terra; depois uma primeira estrelinha tremeluzia e brilhava; e diante de ela era então só uma massa inerte de sombra muda até ao horizonte, aonde ainda ficava um momento uma delgada tira cor de laranja desbotada. O seu pensamento, sem nenhum tom de luz ou contorno de objecto em redor que o prendesse, ia muito saudoso para longe, para a Vieira; àquela hora a mãe e as amigas recolhiam do passeio na praia; já todas as redes estavam apanhadas; já pelos palheiros começam a aparecer as luzes; é a hora do chá, dos quinos alegres, quando os rapazes da cidade vão em rancho pelas casas amigas, com uma viola e uma flauta, improvisando soirées. E ela ali, só!...
Era então necessário deitar a velha, rezar com ela e com a Gertrudes o terço. Accendiam depois o candieiro de latão, pondo-lhe diante uma velha chapeleira para dar sombra ao rosto da doente; e todo o serão, no silencio lúgubre, apenas se ouvia o rumor do fuso da Gertrudes que fiava agachada a um canto.
Antes de se deitarem, iam trancar todas as portas, em um medo constante de ladrões; e então começava para Amelia a hora dos terrores supersticiosos. Não podia adormecer, sentido ao pé a negrura de aquelas antigas salas desabitadas e em redor o tenebroso silencio dos campos. Ouvia ruidos inexplicaveis: era o soalho do corredor que estalava, sob passadas mulplicadas; era a luz da vela que de repente se dobrava como sob um halito invisivel; ou a distancia, para os lados da cozinha, o baque surdo de um corpo. Accumulava então as orações, encolhida debaixo da roupa; mas, se adormecia, as visões do pesadêlo continuavam-lhe os terrores da vigília. Uma vez acordara de repente, a uma voz que dizia, gemendo, por traz da alta barra da cama:--Amelia, prepara-te, o teu fim chegou! Espavorida, em camisa, atravessou correndo a casa, foi refugiar-se na cama da Gertrudes.
Mas na noite seguinte a voz sepulchral voltou quando ela ia adormecer: Amelia, lembra-te dos teus pecados! Prepara-te, Amelia! Deu um grito, desmaiou. Felizmente a Gertrudes, que ainda se não deitara, correu àquele ai agudo que cortara o silencio do casarão. Achou-a estirada ao través do leito, com os cabelos soltos da rede rojando no chão, as mãos geladas e como mortas. Desceu a acordar a mulher do caseiro, e até de madrugada foi uma azafama para a chamar á vida. Desde esse dia a Gertrudes dormia ao pé de ela--e a voz não tornou a ameaçal-a por traz da barra.
Mas, de noite e de dia, não a deixou mais a idéa da morte e o pavor do inferno. Por esse tempo, um vendedor ambulante de estampas passou pela Ricoça; e a Sr..^a D. Josefa comprou-lhe duas litografias--a Morte do Justo e a Morte do Pecador.
--Que é bom que cada um tenha o exemplo vivo diante dos olhos, disse ela.
Amelia não duvidou ao principio que a velha, que contava morrer no mesmo aparato de gloria com que expirava o Justo da estampa, lhe quisera mostrar a ela, a pecadora, a scena pavorosa que a esperava. Odiou-a por aquela «picardia». Mas a sua imaginação aterrada não tardou a dar á compra da estampa outra explicação: era Nossa Senhora que ali mandara o vendedor de pinturas, para lhe mostrar ao vivo na litografia da Morte do Pecador o espectaculo da sua agonia: e estava então certa que tudo seria assim, traço por traço--o seu anjo da guarda fugindo aos soluços; Deus-Padre desviando o rosto de ela com repugnância; o esqueleto da morte rindo ás gargalhadas; e demônios de cores rutilantes, com todo um arsenal de torturas, apoderando-se de ela, uns pelas pernas, outros pelos cabelos, arrastando-a com uivos de jubilo para a caverna chamejante toda abalada da tormenta de rugidos que solta a Eterna Dor... E ela podia vêr ainda, no fundo dos céus, a grande balança--com um dos pratos muito alto onde as suas orações não pesavam mais que uma pena de canário, e o outro prato caído, de cordas retesadas, sustentando a enxerga da cama do sineiro e as suas toneladas de pecado.
Cahiu então em uma melancolia histérica que a envelhecia; passava os dias suja e desarranjada, não querendo dar cuidado ao seu corpo pecador; todo o movimento, todo o esforço lhe repugnava; as mesmas orações lhe custavam, como se as julgasse inúteis; e tinha atirado para o fundo de uma arca o enxoval que andava a costurar para o filho--porque o odiava, aquele sêr que ela sentia mexer-se-lhe já nas entranhas e que era a causa da sua perdição. Odiava-o--mas menos que o outro, o parocho que lho fizera, o padre malvado que a tentara, a estragara, a atirara ás chamas do inferno! Que desespero quando pensava em ele! Estava em Leiria sossegado, comendo bem, confessando outras, namorando-as talvez--e ela ali sósinha, com o ventre condemnado e enfartado do pecado que ele lá depuzera, ia-se afundindo na perdição sempiterna!
Decerto esta excitação a teria matado--se não fosse o abbade Ferrão que começara então a vir vêr muito regularmente a irmã do amigo cônego.
Amelia ouvira falar muitas vezes em ele na rua da Misericórdia; dizia-se lá que o Ferrão tinha «idéas exquisitas»: mas não era possível recusar-lhe nem a virtude da vida nem a sciencia de sacerdote. Havia muitos anos que era ali abbade; os bispos tinham-se sucedido na diocese, e ele ali ficara esquecido em aquela freguezia pobre, de côngrua atrazada, em uma residencia onde chovia pelos telhados. O último vigário geral, que nunca dera um passo para o favorecer, dizia-lhe todavia, liberal de palavriado:
--Você é um dos bons teólogos do reino. Você está predestinado por Deus para um bispado. Você ainda apanha a mitra. Você ha de ficar na historia da Igreja portuguesa como um grande bispo Ferrão!
--Bispo, senhor vigário geral! Isso era bom! Mas era necessário que eu tivesse o arrojo de um Affonso de Albuquerque ou de um D. João de Castro, para aceitar aos olhos de Deus semelhante responsabilidade!
E ali ficara, entre gente pobre, em uma aldeia de terra escassa, vivendo de dois pedaços de pão e uma chávena de leite, com uma batina limpa onde os remendos faziam um mapa, precipitando-se a uma meia légua por um temporal desfeito se um parochiano tinha uma dor de dentes, passando uma hora a consolar uma velha a quem tinha morrido uma cabra... E sempre de bom humor, sempre com um cruzado no fundo do bolso dos calções para uma necessidade do seu visinho, grande amigo de todos os rapazitos a quem fazia botes de cortiça, e não duvidando parar, se encontrava uma rapariga bonita, o que era raro na freguezia, e exclamar: «Linda moça, Deus a abençôe!»
E todavia, em novo, a pureza dos seus costumes era tão celebre, que lhe chamavam «a donzela».
De resto, padre perfeito no zelo da Igreja; passando horas de estação aos pés do Santissimo Sacramento; cumprindo com uma felicidade fervente as menores praticas da vida devota; purificando-se para os trabalhos do dia com uma profunda oração mental, uma meditação de fé, de onde a sua alma saia mais ágil, como de um banho fortificante; preparando-se para o sono com um de estes longos e piedosos exames de consciência, tão uteis, que Santo Agostinho e S. Bernardo faziam do mesmo modo que Plutarcho e Seneca, e que são a correcção laboriosa e subtil dos pequenos defeitos, o aperfeiçoamento meticuloso da virtude activa, emprehendido com um fervor de poeta que revê um poema querido... E todo o tempo que tinha vago, abismava-se em um cahos de livros.
Tinha só um defeito o abbade Ferrão: gostava de caçar! Cohibia-se, porque a caça tira muito tempo, e é sanguinário matar uma pobre ave que anda azafamada pelos campos nos seus negócios domésticos. Mas nas claras manhãs de inverno, quando ainda ha orvalho nas giestas, se via passar um homem de espingarda ao hombro, o passo vivo, seguido do seu perdigueiro--iam-se-lhe os olhos em ele... Ás vezes porém, a tentação vencia: agarrava furtivamente a espingarda, assobiava á Janota, e com as abas do casacão ao vento, lá ia o teólogo ilustre, o espelho de piedade, através de campos e vales... E de aí a pouco--pum... pum! Uma codorniz, uma perdiz em terra! E lá voltava o santo homem com a espingarda debaixo do braço, os dois pássaros na algibeira, cosendo-se com os muros, rezando o seu rosário á Virgem, e respondendo aos bons dias da gente pelo caminho com os olhos baixos e o ar muito criminoso.
O abbade Ferrão, apesar do seu aspecto «gêbo» e do seu grande nariz, agradou a Amelia, logo desde a primeira visita á Ricoça; e a sua simpatia cresceu, quando viu que D. Josefa o recebia com pouco alvoroço, apesar do respeito que o mano cônego tinha pela sciencia do abbade.
A velha, com efeito depois de ter estado só com ele em uma pratica de horas, condemnára-o com uma única palavra, na sua autoridade de velha devota experiente:
--É relaxado!
Não se tinham realmente comprehendido. O bom Ferrão, tendo vivido tantos anos em aquela parochia de quinhentas almas, as quais cahiam todas, de mães a filhas, no mesmo molde de devoção simples a Nosso Senhor, Nossa Senhora e S. Vicente, patrono da freguezia, tendo pouca experiencia de confissão, encontrava-se subitamente diante de uma alma complicada de devota de cidade, de um beatério caturra e atormentado; e ao ouvir aquela extraordinária lista de pecados mortais, murmurava espantado:
--É estranho, é estranho...
Percebera bem ao principio que tinha diante de si uma de essas degenerações mórbidas do sentimento religioso, que a teologia chama Doença dos escrúpulos--e de que na sua generalidade estão affectadas hoje todas as almas católicas; mas depois, a certas revelações da velha, receou estar realmente em presença de uma maniaca perigosa; e instinctivamente, com o singular horror que os sacerdotes têm pelos doidos, recuou a cadeira.
Pobre D. Josefa! Logo na primeira noite em que chegara á Ricoça (contava ela), ao começar o rosário a Nossa Senhora, lembrara-lhe de repente que lhe esquecera o saiote de flanela escarlate, que era tão eficaz nas dôres das pernas... Trinta e oito vezes de seguida recomeçara o rosário, e sempre o saiote escarlate se interpunha entre ela e Nossa Senhora!... Então desistira, de exhausta, de esfalfada. E imediatamente sentira dôres vivas nas pernas, e tivera como uma voz de dentro a dizer-lhe que era Nossa Senhora por vingança a espetar-lhe alfinetes nas pernas...
O abbade pulou:
--Oh, minha senhora!...
--Ai, não é tudo, senhor abbade!
Havia outro pecado que a torturava: quando rezava, às vezes, sentia vir a expectoração; e, tendo ainda o nome de Deus ou da Virgem na boca, tinha de escarrar; ultimamente engulia o escarro, mas estivera pensando que o nome de Deus ou da Virgem lhe descia de embrulhada para o estomago e se ia misturar com as fezes! Que havia de fazer?
O abbade, de olhar esgazeado, limpava o suor da testa.
Mas isto não era o peor: o grave era, que na noite antecedente estava toda socegada, toda em virtude, a rezar a S. Francisco Xavier--e de repente, nem ela soube como, põe-se a pensar como seria S. Francisco Xavier nú em pelo!
O bom Ferrão não se moveu, atordoado. Emfim, vendo-a a olhar ansiosa para ele, á espera das suas palavras e dos seus conselhos, disse:
--E ha muito que sente esses terrores, essas dúvidas...?
--Sempre, senhor abbade, sempre!
--E tem convivido com pessoas que, como a senhora, são sujeitas a essas inquietações?
--Todas as pessoas que conheço, duzias de amigas, todo o mundo... O Inimigo não me escolheu só a mim... A todos se atira...
--E que remedio dava a essas anciedades de alma...?
--Ai, senhor abbade, aqueles santos da cidade, o senhor parocho, o Sr.. Silverio, o Sr.. Guedes, todos, todos nos tiravam sempre de embaraços... E com uma habilidade, com uma virtude...
O abbade Ferrão ficou calado um momento: sentia-se triste, pensando que por todo o reino tantos centenares de sacerdotes trazem assim voluntariamente o rebanho em aquelas trevas de alma, mantendo o mundo dos fieis em um terror abjecto do céo, representando Deus e os seus santos como uma côrte que não é menos corrompida nem melhor que a de Caligula e dos seus libertos.
Quis então levar àquele nocturno cérebro de devota, povoado de fantasmagorias, uma luz mais alta e mais larga. Disse-lhe que todas as suas inquietações vinham da imaginação torturada pelo terror de ofender a Deus... Que o Senhor não era um amo feroz e furioso, mas um pai indulgente e amigo... Que é por amor que é necessário servil-o, não por medo... Que todos esses escrúpulos, Nossa Senhora a enterrar alfinetes, o nome de Deus a cahir no estomago, eram perturbações da razão doente. Aconselhou-lhe confiança em Deus, bom regímen para ganhar forças. Que não se cansasse em orações exageradas...
--E quando eu voltar, disse emfim erguendo-se e despedindo-se, continuaremos a conversar sobre isto, e havemos de serenar essa alma.
--Obrigada, senhor abbade, respondeu a velha secamente.
E apenas a Gertrudes de aí a pouco entrou a trazer-lhe a botija para os pés, D. Josefa exclamou, toda indignada, quase choramingando:
--Ai, não presta pra nada, não presta pra nada!... Não me percebeu... É um tapado... É um pedreiro-livre, Gertrudes! Que vergonha em um sacerdote do Senhor...
Desde esse dia não tornou a revelar ao abbade os pecados medonhos que continuava a cometer; e quando ele, por dever, quis recomeçar a educação da sua alma, a velha declarou-lhe sem rodeios que, como se confessava com o senhor padre Gusmão, não sabia se seria delicado receber de outro a direcção moral...
O abbade fez-se vermelho, respondeu:
--Tem razão, minha senhora, tem razão, deve-se ter muita delicadeza em essas coisas...
Sahiu. E de aí por diante, depois de ter entrado no quarto a saber-lhe da saúde, de ter falado do tempo, da estação, das doenças que iam, de alguma festa na igreja,--apressava-se em se despedir e ir para o terraço conversar com Amelia.
Vendo-a sempre tão tristonha, interessara-se por ela; para Amelia, as visitas do abbade eram uma distracção, em aquela solidão da Ricoça; e assim se iam familiarisando, a ponto que nos dias em que ele regularmente vinha, Amelia punha um mantelete e ia pelo caminho dos Poyaes esperal-o até junto á casa do ferrador. As conversas do abbade, falador incansável, entretinham-na, tão diferentes dos mexericos da rua da Misericórdia,--como o espectaculo de um largo Vale com árvores, plantações, águas, pomares e rumor de lavouras, recreia os olhos habituados ás quatro paredes caiadas de uma trapeira da cidade. Tinha com efeito uma de estas conversações semelhantes aos jornais semanais de recreio, o Thesouro das famílias ou as Leituras para serões, em que de ha tudo--doutrina moral, historias de viagens, anecdotas dos grandes homens, dissertações sobre a lavoura, citação de uma boa chalaça, traços sublimes da vida de um santo, um verso aqui e além, e até receitas, como uma muito útil que deu a Amelia para lavar as flanelas sem encolherem. Só era monótono quando falava da sua família parochiana, dos casamentos, baptisados, doenças, questões, ou quando começava as suas historias de caça.
--Uma vez, minha rica senhora, ia eu pelo Corrego das Tristes, quando uma revoada de perdizes...
Amelia sabia que, pelo menos uma hora, tudo seriam façanhas da Janota, pontarias fabulosas contadas em mimica, com imitações de vozes de pássaros, e pum, pum de fusilaria. Ou então eram descripções das caçadas selvagens que ele lera com gula--a caça ao tigre do Nepal, ao leão de Argelia e ao elefante, historias ferozes que arrastavam a imaginação da rapariga para longe, para os paizes exóticos onde a herva é alta como os pinheiros, o sol queima como um ferro em braza, e entre cada ramagem reluzem os olhos de uma fera... E depois, a propósito de tigres e de malaios, lembrava-lhe uma historia curiosa de S. Francisco Xavier, e eil-o lançado, o terrível palrador, na descripção dos feitos da Asia, das armadas da Índia e das estocadas famosas do cerco de Diu!
Foi mesmo um de esses dias, no pomar, em que o abbade, tendo começado por enumerar as vantagens que o cônego tiraria de transformar o pomar em terra de lavoura, acabara por contar perigos e valores dos missionários da Índia e do Japão--que Amelia, então em toda a intensidade dos seus terrores nocturnos, falou dos ruidos que ouvia na casa e dos sobresaltos que lhe davam.
--Oh, que vergonha! disse o abbade rindo; uma senhora da sua idade ter medo de papões...
Ela então, atraída por aquela bondade do senhor abbade, contou-lhe as vozes que ouvia de noite por detrás da barra da cama.
O abbade pôs-se sério:
--Minha senhora, isso são imaginações que deve a todo o custo dominar... Decerto tem havido prodígios no mundo, mas Deus não se põe assim a falar a qualquer, por detrás das barras das camas, nem permite ao demônio que o faça... Essas vozes, se as ouve, e se os seus pecados são grandes, não vêm de detrás da cama, vêm-lhe de si mesmas, da sua consciência... E póde então fazer dormir ao pé de si a Gertrudes, e cem Gertrudes, e todo o batalhão de infanteria, que as ha de continuar a ouvir... Havia de as ouvir, mesmo que fosse surda. O que é necessário é calmar a consciência que reclama penitencia e purificação...
Tinham subido ao terraço, falando assim: e Amelia sentara-se fatigada em um dos bancos de pedra que ali havia, e ficara a olhar a quinta ao longe, os tectos dos currais, a longa rua de loureiros, a eira, e a distancia os campos que se sucediam planos e avivados do tom humido que lhes dera a chuva ligeira da manhã: agora a tarde estava de uma placidez clara, sem vento, com grandes nuvens paradas que o sol do poente tocava de vivos cor de rosa tenro... Pensava em aquelas palavras tão sensatas do abbade, no descanso que gozaria se cada pecado que lhe pesava na alma como um penedo se tornasse ligeiro e se dissipasse sob a acção da penitencia. E vinham-lhe desejos de paz, de um repouso igual á quietação dos campos que se estendiam diante de ela.
Um pássaro cantou, depois calou-se; e recomeçou de aí a um momento com um trinado tão vibrante, tão alegre, que Amelia sorria, escutando-o.
--É um rouxinol...
--Os rouxinóis não cantam a esta hora, disse o abbade. É um melro... Aí está um que não tem medo de fantasmas, nem ouve vozes... Olha que entusiasmo, o maganão!
Era com efeito um gorgear triunfante, um delírio de melro feliz, que dera de repente a todo o pomar uma sonoridade festiva.
E Amelia, diante de aquele chilrear glorioso de um pássaro contente, subitamente, sem razão, em um de estes abalos nervosos que vem às mulheres histéricas, rompeu a chorar.
--Então, que é isso, que é isso? fez o abbade muito surpreendido.
Tomou-lhe a mão, com uma familiaridade de velho e de amigo, calmando-a.
--Que infeliz que sou!... murmurou ela aos soluços.
Ele então muito paternal:
--Não tem razão para o ser... Sejam quais forem as afflicções, as inquietações, uma alma christã tem sempre a consolação á mão... Não ha pecado que Deus não perdoe, nem dor que não calme, lembre-se de isso... O que não deve é guardar em si o seu desgosto... É isso que a sufoca, que a faz chorar... Se eu lhe posso valer, socegal-a, é procurar-me...
--Quando? disse ela toda desejosa já de se refugiar na proteção de aquele santo homem.
--Quando quiser, disse ele rindo. Eu não tenho horas para consolar... A igreja está sempre aberta, Deus está sempre presente...
Ao outro dia cedo, antes da hora em que a velha se erguia, Amelia foi á residencia; e durante duas horas esteve prostrada diante do pequeno confessionário de pinho--que o bom abbade por suas mãos pintara de azul escuro, com extraordinarias cabecinhas de anjos que em logar de orelhas tinham azas, uma obra de alta arte de que ele falava com uma secreta vaidade.