Capítulo XVIII
Foi aquele o período mais feliz da vida de Amaro.
«Ando na graça de Deus», pensava ele ás vezes á noite, ao despir-se, quando por um habito eclesiástico, fazendo o exame dos seus dias, via que eles se seguiam faceis, tão confortaveis, tão regularmente gozados. Não houvera, nos últimos dois meses, nem atritos nem dificuldades no serviço da parochia; todo o mundo, como dizia o padre Saldanha, andava de um humor de santo. D. Josefa Dias arranjara-lhe muito barata uma cozinheira excelente, e que se chamava Escolástica. Na rua da Misericórdia tinha a sua côrte admiradora e devota; cada semana, uma ou duas vezes, vinha àquela hora deliciosa e celeste na casa do tio Esguelhas; e para completar a harmonia até a estação ia tão linda, que já no Morenal começavam a abrir as rosas.
Mas o que o encantava era que nem as velhas, nem os padres, ninguém da sacristia suspeitava os seus rendez-vous com Amelia. Aquelas visitas á Tótó tinham entrado nos costumes da casa; chamavam-lhe «as devoções da pequena»; e não a interrogavam com particularidades, pelo principio beato que as devoções são um segredo que se tem com Nosso Senhor. Só ás vezes alguma das senhoras perguntava a Amelia--como ia a doente; ela assegurava que estava muito mudada, que começava a abrir os olhos á lei de Deus; então, muito discretamente, falavam de coisas diferentes. Havia apenas o plano vago de irem um dia, mais tarde, quando a Tótó soubesse bem o seu catecismo e pela eficacia da oração se tivesse tornado boa, admirar em romaria a obra santa de Amelia e a humilhação do Inimigo.
Amelia mesmo, perante esta confiança tão larga na sua virtude, propuzera um dia a Amaro, como muito hábil--dizer ás amigas que o senhor parocho ás vezes vinha assistir á pratica piedosa que ela fazia á Tótó...
--Assim, se alguém te surprehendesse a entrar para a casa do tio Esguelhas, já não havia suspeitas.
--Não me parece necessário, disse ele. Deus está comnosco, filha, é claro. Não queiramos intrometer-nos nos seus planos. Ele vê mais longe que nós...
Ela concordou logo--como em tudo que saia dos seus lábios. Desde a primeira manhã, na casa do tio Esguelhas, ela abandonara-se-lhe absolutamente, toda inteira, corpo, alma, vontade e sentimento: não havia na sua pele um cabelinho, não corria no seu cérebro uma idéa a mais pequenina, que não pertencesse ao senhor parocho. Aquela possessão de todo o seu sêr não a invadira gradualmente; fora completa, no momento que os seus fortes braços se tinham fechado sobre ela. Parecia que os beijos de ele lhe tinham sorvido, esgotado a alma: agora era como uma dependência inerte da sua pessoa. E não lho ocultava; gozava em se humilhar, oferecer-se sempre, sentir-se toda de ele, toda escrava; queria que ele pensasse por ela e vivesse por ela; descarregara-se em ele, com satisfação, de aquele fardo da responsabilidade que sempre lhe pesara na vida; os seus juízos agora vinham-lhe formados do cérebro do parocho, tão naturalmente como se sahisse do coração de ele o sangue que lhe corria nas veias. «O senhor parocho queria ou o senhor parocho dizia» era para ela uma razão toda suficiente e toda poderosa. Vivia com os olhos em ele, em uma obediência animal: tinha só a curvar-se quando ele falava, e quando vinha o momento a desapertar o vestido.
Amaro gozava prodigiosamente esta dominação; ela desforrava-o de todo um passado de dependências--a casa do tio, o seminário, a sala branca do senhor conde de Ribamar... A sua existência de padre era uma curvatura humilde que lhe fatigava a alma; vivia da obediência ao senhor bispo, á camara eclesiástica, aos cânones, á Regra que nem lhe permitia ter uma vontade própria nas suas relações com o sacristão. E agora, emfim, tinha ali aos seus pés aquele corpo, aquela alma, aquele sêr vivo sobre quem reinava com despotismo. Se passava os seus dias, por profissão, louvando, adorando e incensando Deus,--era ele também agora o Deus de uma creatura que o temia e lhe dava uma devoção pontual. Para ela ao menos, era belo, superior aos condes e aos duques, tão digno da mitra como os mais sábios. Ela mesmo, um dia, dissera-lhe, depois de ter estado um momento pensativa:
--Tu podias chegar a Papa!
--de esta massa se fazem, respondeu ele com seriedade.
Ela acreditava-o--com um receio, todavia, que as altas dignidades o afastassem de ela, o levassem para longe de Leiria. Aquela paixão, em que estava abismada e que a saturava, tornara-a estupida e obtusa a tudo o que não respeitava ao senhor parocho ou ao seu amor. Amaro de resto não lhe consentia interesses, curiosidades alheias á sua pessoa. Prohibia-lhe até que lêsse romances e poesias. Para que se havia de fazer doutora? Que lhe importava o que ia no mundo? Um dia que ela falara, com algum apetite, de um baile que iam dar os Vias-Claras, ofendeu-se como de uma traição. Fez-lhe em casa do tio Esguelhas acusações tremendas: era uma vaidosa, uma perdida, uma filha de Satanás!...
--Mas mato-te! Percebes? Mato-te!--exclamou, agarrando-lhe os pulsos, fulminando-a com o olhar aceso.
Tinha um medo, que o pungia, de a vêr subtrahir-se ao seu império, perder-lhe a adoração muda e absoluta. Pensava ás vezes que ela se fatigaria, com o tempo, de um homem que não lhe satisfazia as vaidades e os gostos de mulher, sempre metido na sua batina negra, com a cara rapada e a corôa aberta. Imaginava que as gravatas de cores, os bigodes bem torcidos, um cavalo que trota, um uniforme de lanceiros exercem sobre as mulheres uma fascinação decisiva. E se a ouvia falar de algum oficial do destacamento, de algum cavalheiro da cidade, eram ciumes desabridos...
--Góstas de ele? Hein? É pelos trapos, pelo bigode?...
--Gósto de ele! Oh, filho, eu nunca vi o homem!
Mas escusava de falar da creatura, então! Era ter curiosidade, pôr o pensamento em outro! de essas faltas de vigilância sobre a alma e a vontade é que se aproveitava o demônio!...
Viera assim a ter um ódio a todo o mundo secular--que a poderia atrair, arrastar para fora da sombra da sua batina. Impedia-lhe, com pretextos complicados, toda a comunicação com a cidade. Convenceu mesmo a mãe que a não deixasse ir só á Arcada e ás lojas. E não cessava de lhe representar os homens como monstros de impiedade, cobertos de pecados como de uma crosta, estúpidos e falsos, votados ao inferno! Contava-lhe horrores de quase todos os rapazes de Leiria. Ela perguntava-lhe aterrada, mas curiosa:
--Como sabes tu?
--Não te posso dizer, respondia com uma reticencia, indicando que lhe fechava os lábios o segredo da comfissão.
E ao mesmo tempo martelava-lhe os ouvidos com a glorificação do sacerdócio. Desenrolava-lhe com pompa a erudição dos seus antigos compêndios, fazendo-lhe o elogio das funções, da superioridade do padre. No Egypto, grande nação da antiguidade, o homem só podia ser rei se era sacerdote! Na Persia, na Etiópia, um simples padre tinha o privilegio de destronar os reis, dispôr das corôas! Onde havia uma autoridade igual á sua? Nem mesmo na côrte do céo. O padre era superior aos anjos e aos serafins--porque a eles não fora dado como ao padre o poder maravilhoso de perdoar os pecados! Mesmo a Virgem Maria, tinha ela um poder maior que ele, padre Amaro? Não: com todo o respeito devido à majestade de Nossa Senhora, ele podia dizer com S. Bernardino de Sena: «o sacerdote excede-te, ó mãe amada!»--porque, se a Virgem tinha incarnado Deus no seu castissimo seio, fora só uma vez, e o padre, no santo sacrifício da missa, incarnava Deus todos os dias! E isto não era argucia de ele, todos os santos padres o admitiam...
--Hein, que te parece?
--Oh, filho! murmurava ela pasmada, desfalecida de voluptuosidade.
Então deslumbrava-a com citações venerandas: S. Clemente, que chamou ao padre «o Deus da terra»; o eloquente S. Chrysostomo, que disse «que o padre é o embaixador que vem dar as ordens de Deus». E Santo Ambrósio que escreveu: «entre a dignidade do rei e a dignidade do padre ha maior diferença que a que existe entre o chumbo e o ouro»!
--E o ouro é cá o menino, dizia Amaro com palmadinhas no peito. Que te parece?
Ela atirava-se-lhe aos braços, com beijos vorazes, como para tocar, possuir em ele o «ouro de Santo Ambrósio», o «embaixador de Deus», tudo o que na terra havia mais alto e mais nobre, o sêr que excede em graça os archanjos!
Era este poder divino do padre, esta familiaridade com Deus, tanto ou mais que a influencia da sua voz--que a faziam crêr na promessa que ele lhe repetia sempre: que ser amada por um padre chamaria sobre ela o interesse, a amizade de Deus; que depois de morta dois anjos viriam tomal-a pela mão para a acompanhar e desfazer todas as dúvidas que pudesse ter S. Pedro, chaveiro do céo; e que na sua sepultura, como sucedera em França a uma rapariga amada por um cura, nasceriam espontaneamente rosas brancas, como prova celeste de que a virgindade não se estraga nos abraços santos de um padre...
Isto encantava-a. Àquela idéa da sua cova perfumada de rosas brancas, ficava toda pensativa, em um antegosto de felicidades misticas, com suspirinhos de gozo. Affirmava, fazendo beicinho, que queria morrer.
Amaro galhofava.
--A falar da morte, com essas carnesinhas...
Engordára com efeito. Estava agora de uma beleza ampla e toda igual. Perdera aquela expressão inquieta que lhe punha nos lábios uma secura e lhe afilava o nariz. Nos seus beiços havia um vermelho quente e humido; o seu olhar tinha risos sob um fluido sereno; toda a sua pessoa uma aparência madura de fecundidade. Fizera-se preguiçosa: em casa, a cada momento suspendia o seu trabalho, ficava a olhar longamente com um sorriso mudo e fixo; e tudo parecia ficar adormecido um momento, a agulha, o pano que ela costurava, toda a sua pessoa... Estava revendo o quarto do sineiro, o catre, o senhor parocho em mangas de camisa.
Passava os seus dias esperando as oito horas, em que ele aparecia regularmente com o cônego. Mas os serões agora pezavam-lhe. Ele recomendara-lhe muita reserva; ela exagerava-a, por um excesso de obediência, a ponto de nunca se sentar ao pé de ele ao chá, e de nem mesmo lhe oferecer bolos. Odiava então a presença das velhas, a gralhada das vozes, as pachorras do quino: tudo lhe parecia intolerável no mundo, excepto estar só com ele... Mas depois, em casa do sineiro, que desforra! Aquele rosto todo alterado, aquelas sufocações de delírio, aqueles ais agonisantes, depois a imobilidade da morte, assustavam ás vezes o padre. Erguia-se no cotovêlo, inquieto:
--Estás incomodada?
Ela abria os olhos espantados, como resurgindo de muito longe; e era realmente bela, cruzando os braços nús sobre o peito descoberto, dizendo lentamente com a cabeça que não...