Capítulo X O Crime do Padre Amaro · Capítulo 11 de 26
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Capítulo X

O redator da Voz do Districto, o Agostinho Pinheiro, era ainda seu parente. Chamavam-lhe geralmente o Rachitico, por ter uma forte corcunda no hombro e uma figurinha enfezada de héctico. Era extremamente sujo; e a sua carita de fêmea, amarelada, de olhos depravados, revelava vícios antigos, muito torpes. Tinha feito (dizia-se em Leiria) toda a sorte de maroteira. E ouvira tantas vezes exclamar: «Se você não fosse um rachitico, quebrava-lhe os ossos»--que, vendo na sua corcunda uma proteção suficiente, ganhara um descaro sereno. Era de Lisboa, o que o tornava mais suspeito aos burguezes sérios: atribuía-se a sua voz rouca e acre «a fartar-lhe as campainhas»: e os seus dedos queimados terminavam em unhas muito compridas--porque tocava guitarra.

A Voz do Districto fora creada por alguns homens, a quem chamavam em Leiria o grupo da Maia, particularmente hostis ao senhor governador civil. O doutor Godinho, que era o chefe e o candidato do grupo, tinha encontrado em Agostinho, como ele dizia, o homem que se precisa: o que o grupo precisava era um patife com ortografia, sem escrúpulos, que redigisse em linguagem sonora os insultos, as calumnias, as alusões que eles traziam informemente á redacção, em apontamentos. Agostinho era um estilista de vilezas. Davam-lhe quinze mil reis por mez e casa de habitação na redacção--um terceiro andar desmantelado em uma viela ao pé da Praça.

Agostinho fazia o artigo de fundo, as locais, a Correspondencia de Lisboa; e o bacharel Prudencio escrevia o folhetim literário sob o titulo de Palestras Leirienses: era um moço muito honrado, a quem o Sr.. Agostinho era repulsivo; mas tinha uma tal gula de publicidade, que se sujeitava a sentar-se todos os sabbados fraternalmente á mesma banca, a revêr as provas da sua prosa--prosa tão florida de imagens, que se murmurava na cidade, ao lêl-a: «Que opulência! Que opulência, Jesus!»

João Eduardo reconhecia também que o Agostinho era «um trastesito»; não se atreveria a passear com ele de dia nas ruas; mas gostava de ir para a redacção, alta noite, fumar cigarros, ouvir o Agostinho falar de Lisboa, do tempo que lá vivêra empregado na redacção de dois jornais, no teatro da rua dos Condes, em uma casa de penhores, e em outras instituições. Estas visitas eram segredos!

Àquela hora da noite a sala da tipografia no primeiro andar estava fechada (o jornal tirava-se aos sabbados); e João Eduardo encontrava em cima Agostinho abancado, com uma velha jaqueta de peles cujos colchetes de prata tinham sido empenhados--ruminando, curvado, á luz de um medonho candieiro de petróleo, sobre longas tiras de papel: estava fazendo o jornal, e a sala escura em redor tinha o aspecto de uma caverna. João Eduardo estirava-se no canapé de palhinha, ou indo buscar a um canto a velha guitarra de Agostinho repenicava o fado corrido. O jornalista no emtanto, com a testa apoiada a um punho, produzia laboriosamente: «a coisa não lhe saia catita»: e como nem o fadinho o inspirava, erguia-se, ia a um armário engulir um copinho de genebra que gargarejava nas fauces estanhadas, espreguiçava-se escancaradamente, acendia o cigarro, e aproveitando o acompanhamento cantarolava roucamente:

Ora foi o fado tirano Que me levou á má vida,

E a guitarra: dir-lin, din, din, dir-lin, din, don.

Na vida do negro fado Ai! Que me traz assim perdida...

Isto trazia-lhe sempre as recordações de Lisboa, porque terminava por dizer, com ódio:

--Que possilga de terra esta!

Não se podia consolar de viver em Leiria, de não poder beber o seu quartilho na taberna do tio João, á Mouraria, com a Ana alfaiata ou com o Bigodinho--ouvindo o João das Biscas de cigarro ao canto da boca, o olho choroso meio fechado pelo fumo do tabaco, fazer chorar a guitarra dizendo a morte da Sofia!

Depois, para se reconfortar com a certeza do seu talento, lia a João Eduardo os seus artigos, muito alto. E João interessava-se--porque essas «producções», sendo ultimamente sempre «desandas ao clero», correspondiam ás suas preocupações.

Era por esse tempo que, em virtude da famosa questão da Misericórdia, o doutor Godinho se tornara muito hostil ao cabido e «á padraria». Sempre detestara padres; tinha uma má doença de figado, e como a Igreja o fazia pensar no cemitério, odiava a sotaina, porque lhe parecia uma ameaça da mortalha. E Agostinho, que tinha um profundo deposito de fel a derramar, instigado pelo doutor Godinho, exagerava as suas verrínas: mas, com o seu fraco literário, cobria o vitupério de tão espessas camadas de retorica que, como dizia o cônego Dias, «aquilo era ladrar, não era morder»!

Uma de essas noites João Eduardo encontrou Agostinho todo entusiasmado com um artigo que compuzera de tarde, e que lhe «sahira cheio de piadas á Victor Hugo»!

--Tu verás! Coisa de sensação!

Como sempre, era uma declamação contra o clero e o elogio do doutor Godinho. Depois de celebrar as virtudes do doutor, «esse tão respeitável chefe de família» e a sua eloquência no tribunal que «arrancara tantos desventurados ao cutelo da lei», o artigo, tomando um tom roncante, apostrofava Cristo:--«Quem te diria a ti (bradava Agostinho), ó imortal Crucificado! quem te diria, quando no alto do Golgotha expiravas exangue, quem te diria que um dia, em teu nome, á tua sombra, seria expulso de um estabelecimento de caridade o doutor Godinho,--a alma mais pura, o talento mais robusto...»--E as virtudes do doutor Godinho voltavam, em passo de procissão, solemnes e sublimadas, arrastando caudas de adjectivos nobres.

Depois, deixando por um momento de contemplar o doutor Godinho, Agostinho dirigia-se diretamente a Roma:--«É no século XIX que vindes atirar á face de Leiria liberal os dictames do Syllabus! Pois bem. Quereis a guerra? Tel-a-heis!»

--Hein, João?! dizia. Está forte! Está filosófico!

E retomando a leitura:--«Quereis a guerra? Tel-a-heis! Levantaremos bem alto o nosso estandarte, que não é o da demagogia, comprehendei-o bem! e arvorando-o, com braço firme, no mais alto baluarte das liberdades publicas, gritaremos á face de Leiria, á face da Europa: Filhos do século XIX! ás armas! Ás armas pelo progresso!»

--Hein? Está de os enterrar!

João Eduardo, que ficara um momento calado, disse então, levantando as suas expressões em harmonia com a prosa sonora de Agostinho:

--O clero quer-nos arrastar aos funestos tempos do obscurantismo!

Uma frase tão literária surprehendeu o jornalista: fitou João Eduardo, disse:

--Porque não escreves tu alguma coisa, também?

O escrevente respondeu, sorrindo:

--E eu, Agostinho, eu é que te escrevia uma desanda aos padres... E eu tocava-lhes os pôdres. Eu é que os conheço!...

Agostinho instou logo com ele para que escrevesse a desanda.

--Vem a calhar, menino!

O doutor Godinho ainda na véspera lhe recomendara:--«Em tudo que cheirar a padre, para baixo! Havendo escândalo, conta-se! não havendo, inventa-se!»

E Agostinho acrescentou, com benevolência:

--E não te dê cuidado o estilo, que eu cá o florearei!

--Veremos, veremos, murmurou João Eduardo.

Mas de aí por diante Agostinho perguntava-lhe sempre:

--E o artigo, homem? Traze-me o artigo.

Tinha avidez de ele, porque sabendo como João Eduardo vivia na intimidade da «panelinha canônica da S. Joaneira» supunha-o no segredo de infâmias especiais.

João Eduardo, porém, hesitava. Se se viesse a saber...?

--Qual! afirmava Agostinho. A coisa publica-se como minha. É artigo da redacção. Quem diabo vai saber?

Succedeu na noite seguinte que João Eduardo surprehendeu o padre Amaro resvalando sorrateiramente um segredinho a Amelia--e ao outro dia apareceu de tarde na redacção com a palidez de uma noite velada, trazendo cinco largas tiras de papel, miudamente escritas em uma letra de cartório. Era o artigo, e intitulava-se: Os modernos fariseus!--Depois de algumas considerações, cheias de flôres, sobre Jesus e o Golgotha, o artigo de João Eduardo era, sob alusões tão diáfanas como teias de aranha, um vingativo ataque ao cônego Dias, ao padre Brito, ao padre Amaro e ao padre Natario!... Todos tinham a sua dóse, como exclamou cheio de jubilo o Agostinho.

--E quando sae? perguntou João Eduardo.

O Agostinho esfregou as mãos, refletiu, disse:

--É que está forte, diabo! É como se tivesse os nomes próprios! Mas descansa, eu arranjarei.

Foi cautelosamente mostrar o artigo ao doutor Godinho--que o achou «uma catilinária atroz». Entre o doutor Godinho e a Igreja havia apenas um arrufo: ele reconhecia em geral a necessidade da religião entre as massas; sua esposa, a bela D. Cândida, era além de isso de inclinações devotas, e começava a dizer que aquela guerra do jornal ao clero lhe causava grandes escrúpulos: e o doutor Godinho não queria provocar ódios desnecessarios entre os padres, prevendo que o seu amor da paz domestica, os interesses da ordem e o seu dever de christão o forçariam bem cedo a uma reconciliação,--«muito contra as suas opiniões, mas...»

Disse por isso a Agostinho secamente:

--Isto não póde ir como artigo da redacção, deve aparecer como comunicado. Cumpra estas ordens.

E Agostinho declarou ao escrevente--que a coisa publicava-se como um Comunicado, assignado: Um liberal. Somente João Eduardo terminava o artigo exclamando:--Álerta, mães de família! O Agostinho suggeriu que este final álerta podia dar logar á réplica jocosa--Álerta está! E depois de largas combinações decidiram-se por este fecho:--Cuidado, sotainas negras!

No domingo seguinte apareceu o comunicado assignado: Um liberal.

Durante toda essa manhã de domingo, o padre Amaro, á volta da Sé, estivera ocupado em compôr laboriosamente uma carta a Amelia. Impaciente, como ele dizia, «com aquelas relações que não andavam nem desandavam, que era olhar e apertos de mão e de ali não passava»--tinha-lhe dado uma noite, á mesa do quino, um bilhetinho onde escrevera com boa letra, a tinta azul:--Desejo encontrá-la só, porque tenho muito que lhe falar. Onde póde ser sem inconveniente? Deus proteja o nosso affecto. Ela não respondera:--E Amaro despeitado, descontente também por não a ter visto em essa manhã á missa das nove, resolveu «pôr tudo a claro em uma carta de sentimento»: e preparava os períodos sentidos que lhe deviam ir revolver o coração, passeando pela casa, juncando o chão de pontas de cigarro, a cada momento curvado sobre o Dicionário de sinônimos.

«Ameliasinha do meu coração: (escrevia ele) Não posso atinar com as razões maiores que a não deixaram responder ao bilhetinho que lhe dei em casa da senhora sua mamã; pois que era pela muita necessidade que tinha de lhe falar a sós, e as minhas intenções eram puras, e na inocência de esta alma que tanto lhe quer e que não medita o pecado.

«Deve ter comprehendido que lhe voto um fervente affecto, e pela sua parte me parece, (se não me enganam esses olhos que são os pharoes da minha vida, e como a Estrela do navegante) que também tu, minha Ameliasinha, tens inclinação por quem tanto te adora; pois que até outro dia, quando o Libano quinou com os seis primeiros números, e que todos fizeram tanta algazarra, tu apertaste-me a mão por baixo da mesa com tanta ternura, que até me pareceu que o céo se abria e que eu sentia os anjos entoarem o Hossana! Porque não respondeste pois? Se pensas que o nosso affecto póde ser desagradável aos nossos anjos da guarda, então te direi que maior pecado cometes trazendo-me em esta incerteza e tortura, que até na celebração da missa estou sempre com o pensar em ti, e nem me deixa elevar a minha alma no divino sacrifício. Se eu visse que este mutuo affecto era obra do tentador, eu mesmo te diria: oh minha bem amada filha, façamos o sacrifício a Jesus, para lhe pagar parte do sangue que derramou por nós! Mas eu tenho interrogado a minha alma e vejo em ela a brancura dos lírios. E o teu amor também é puro como a tua alma, que um dia se unirá á minha, entre os córos celestes, na bemaventurança. Se tu soubesses como eu te quero, querida Ameliasinha, que até às vezes me parece que te podia comer aos bocadinhos! Responde pois, e dize se não te parece que poderia arranjar-se a vermo-nos no Morenal, pela tarde. Pois eu anseio por te exprimir todo o fogo que me abraza, bem como falar-te de coisas importantes, e sentir na minha mão a tua que eu desejo que me guie pelo caminho do amor, até aos êxtases de uma felicidade celestial. Adeus, anjo feiticeiro, recebe a oferta do coração do teu amante e pai espiritual

«Amaro».

Depois de jantar copiou esta carta a tinta azul, e com ela bem dobrada no bolso da batina foi á rua da Misericórdia. Logo da escada sentiu em cima a voz aguda de Natario, discutindo.

--Quem está por cá?--perguntou á Ruça, que alumiava, encolhida no seu chale.

--As senhoras todas. Está o senhor padre Brito.

--Ólá! Bela sociedade!

Galgou os degraus, e á porta da sala, com o seu capote ainda pelos hombros, tirando alto o chapéo:

--Muito boas noites a todos, começando pelas senhoras.

Natario, imediatamente, plantou-se diante de ele e exclamou:

--Então que lhe parece?

--O quê? perguntou Amaro. E reparando no silencio, nos olhos cravados em ele:--O que é? Alguma coisa de novo?

--Pois não leu, senhor parocho!? exclamaram. Não leu o Districto!?

Era papel em que ele não puzera os olhos, disse. Então as senhoras indignadas romperam:

--Ai! é um desafôro!

--Ai! é um escândalo, senhor parocho!

Natario, com as mãos enterradas nas algibeiras, contemplava o parocho com um sorrisinho sarcástico, soltando de entre os dentes:

--Não leu! Não leu! Então que fez?

Amaro reparava, já aterrado, na palidez de Amelia, nos seus olhos muito vermelhos. E emfim o cônego erguendo-se pesadamente:

--Amigo parocho, dão-nos uma desanda!...

--Ora essa! exclamou Amaro.

--Têsa!

O senhor cônego, que trouxera o jornal, devia ler alto--lembraram.

--Leia, Dias, leia, acudiu Natario. Leia, para saborearmos!

A S. Joaneira deu mais luz ao candieiro: o cônego Dias acomodou-se á mesa, desdobrou o jornal, pôs os óculos cuidadosamente, e, com o lenço do rapé nos joelhos, começou a leitura do Comunicado na sua voz pachorrenta.

O principio não interessava: eram períodos enternecidos em que o liberal exprobrava aos fariseus a crucifixão de Jesus:--«Por que o matasteis? (exclamava ele). Respondei!» E os fariseus respondiam:--«Matamol-o porque ele era a liberdade, a emancipação, a aurora de uma nova era», etc. O liberal então esboçava, a largos traços, a noite do Calvário:--«Eil-o pendente da cruz, traspassado de lanças, a sua túnica jogada aos dados, a plebe infrene», etc. E, voltando a dirigir-se aos fariseus infelizes, o liberal gritava-lhes com ironia:--«Contemplai a vossa bela obra!» Depois, por uma gradação hábil, o liberal descia de Jerusalem a Leiria:--«Mas pensam os leitores que os fariseus morreram? Como se enganam! Vivem! conhecemol-os nós; Leiria está cheia de eles, e vamos apresental-os aos leitores...»

--Agora é que elas começam, disse o cônego olhando para todos em redor, por cima dos óculos.

Com efeito «elas começavam»; era, em uma fórma brutal, uma galeria de fotografias eclesiásticas: a primeira era a do padre Brito:--«Vêde-o, (exclamava o liberal) grosso como um touro, montado na sua égua castanha...»

--Até a cor da égua! murmurou com uma indignação piedosa a Sr..^a D. Maria da Assumpção.

«...Estupido como um melão, sem sequer saber latim...»

O padre Amaro, assombrado, fazia: Oh! oh! E o padre Brito, escarlate, mexia-se na cadeira, esfregando devagar os joelhos.

«...Especie de caceteiro», continuava o cônego que lia aquelas frases crueis com uma tranquilidade dôce, «desabrido de maneiras, mas que não desgosta de se dar á ternura, e, segundo dizem os bem informados, escolheu para Dulcinêa a própria e legitima esposa do seu regedor...»

O padre Brito não se dominou:

--Eu racho-o de meio a meio! exclamou erguendo-se e recahindo pesadamente na cadeira.

--Escute, homem! disse Natario.

--Qual escute! O que é, é que o racho!

Mas se ele não sabia quem era o liberal!

--Qual liberal! Quem eu racho é o doutor Godinho. O doutor Godinho é que é o dono do jornal. O doutor Godinho é que eu racho!

A sua voz tinha tons roucos: e atirava furioso grandes palmadas á côxa.

Lembraram-lhe o dever christão de perdoar as injúrias. A S. Joaneira com unção citou a bofetada que Jesus Cristo suportou. Devia imitar Cristo.

--Qual Cristo, qual cabaça! gritou Brito apoplético.

Aquela impiedade criou um terror.

--Credo, senhor padre Brito, credo! exclamou a irmã do cônego recuando a cadeira.

O Libaninho, com as mãos na cabeça, vergado sob o desastre, murmurava:

--Nossa Senhora das Dôres, que até póde cahir um raio!

E, vendo mesmo Amelia indignada, o padre Amaro disse gravemente:

--Brito, realmente você excedeu-se.

--Pois se estão a puxar por mim!...

--Homem, ninguém puxou por você, disse severamente Amaro. E com um tom pedagogo:--Apenas lhe lembrarei, como devo, que em tais casos, quando se diz a blasfêmia má, o reverendo padre Scomelli recomenda confissão geral e dois dias de recolhimento a pão e água.

O padre Brito resmungava.

--Bem, bem, resumiu Natario. O Brito cometeu uma grande falta, mas saberá pedir perdão a Deus, e a misericórdia de Deus é infinita!

Houve uma pausa comovida em que se ouviu a Sr..^a D. Maria da Assumpção murmurar «que ficara sem pinga de sangue»; e o cônego, que durante a catástrofe pousara os óculos sobre a mesa, retomou-os, e continuou serenamente a leitura:

«...Conheceis um outro com cara de furão?...»

Olhares de lado fixaram o padre Natario.

«...Desconfiai de ele: se puder trahir-vos, não hesita; se puder prejudicar-vos, folga: as suas intrigas trazem o cabido em uma confusão porque é a víbora mais damninha da diocese, mas com tudo isso muito dado á jardinagem, porque cultiva com cuidado duas rosas do seu canteiro.»

--Homem, essa! exclamou Amaro.

--É para que você veja, disse Natario erguendo-se lívido. Que lhe parece? Você sabe que eu, quando falo das minhas sobrinhas, costumo dizer as duas rosas do meu canteiro. É um gracejo. Pois senhores, até vem com isto!--E com um sorriso macilento, de fel:--mas amanhã hei de saber quem é! Ólaré! Eu hei de saber quem é!

--Deite ao desprezo, senhor padre Natario, deite ao desprezo, disse a S. Joaneira pacificadora.

--Obrigado, minha senhora, acudiu Natario curvando-se com uma ironia rancorosa--obrigado! Cá recebi!

Mas a voz imperturbável do cônego retomara a leitura. Agora era o retrato de ele, traçado com ódio:

«...Cônego bojudo e glutão, antigo caceteiro do senhor D. Miguel, que foi expulso da freguezia de Ourem, outr'ora mestre de Moral em um seminário e hoje mestre de imoralidade em Leiria...»

--Isso é infame! exclamou Amaro exaltado.

O cônego pousou o jornal, e com a voz pachorrenta:

--Você pensa que me dá isto cuidado? disse ele. Boa! Tenho que comer e que beber, graças a Deus! Deixar rosnar quem rosna!

--Não, mano, interrompeu a irmã, mas a gente sempre tem o seu bocadinho de brio!

--Ora, mana! replicou o cônego Dias com um azedume de raiva concentrada. Ora, mana! ninguém lhe pede a sua opinião!

--Nem preciso que ma peçam! gritou ela impertigando-se. Sei-a dar muito bem quando quero e como quero. Se não tem vergonha, tenho-a eu!

--Então! então!... disseram em roda, acalmando-a.

--Menos língua, mana, menos língua! disse o cônego fechando os seus óculos. Olhe não lhe cáiam os dentes postiços!

--Seu malcriado!

Ia falar, mas sufocou-se; e começou subitamente a soltar ais.

Recearam logo que lhe desse o flato: a S. Joaneira e a D. Joaquina Gansoso levaram-na para o quarto, em baixo, amparando-a, com palavras brandas:

--Estás doida! Por quem és, filha! Olha que escândalo! Nossa Senhora te valha!

Amelia mandava buscar água de flôr de laranja.

--Deixe-a lá, rosnou o cônego, deixe-a lá! Aquilo passa-lhe. São calores!

Amelia deu um olhar triste ao padre Amaro, e desceu ao quarto com a Sr..^a D. Maria da Assumpção e a Gansoso surda, que iam também «socegar a D. Josefa, coitadita»! Os padres agora estavam sós; e o cônego voltando-se para Amaro:--Ouça você, que é a sua vez--disse retomando o jornal.

--E verá que dóse! disse Natario.

O cônego escarrou, aproximou mais o candieiro, e declamou:

«...Mas o perigo são certos padres novos e ajanotados, parochos por influencias de condes da capital, vivendo na intimidade das famílias de bem onde ha donzelas inexperientes, e aproveitando-se da influencia do seu sagrado ministério para lançar na alma da inocente a semente de chamas criminosas!»

--Pouca vergonha! murmurou Amaro livido.

«...Dize, sacerdote de Cristo, onde queres arrastar a impoluta virgem? Queres arrastal-a aos lodaçais do vicio? Que vens fazer aqui ao seio de esta respeitável família? Porque rondas em volta da tua prêsa como o milhafre em torno da inocente pomba? Para traz, sacrílego! Murmuras-lhe sedutoras frases, para a desviares do caminho da honra; condemnas á desgraça e á viuvez algum honrado moço que lhe queira oferecer sua mão trabalhadora; e vais-lhe preparando um horroroso futuro de lagrimas. E tudo para quê? Para saciares os torpes impulsos de tua criminosa lascívia!...»

--Que infame! rosnou com os dentes cerrados o padre Amaro.

«...Mas acautela-te, presbítero perverso!» E a voz do cônego tinha tons cavos ao soltar aquelas apostrofes. «Já o archanjo levanta a espada da justiça. E sobre ti, e teus cúmplices, já a opinião da ilustrada Leiria fita seu olho imparcial. E nós cá estamos, nós, filhos do trabalho, para vos marcar na fronte o estigma da infâmia. Tremei, sectários do Syllabus! Cuidado, sotainas negras!»

--de escacha! fez o cônego suado, dobrando a Voz do Districto.

O padre Amaro tinha os olhos enevoados de duas lagrimas de raiva: passou devagar o lenço pela testa, soprou, disse com os beiços a tremer:

--Eu, colegas, nem sei o que hei de dizer! Pelo Deus que me ouve, isto é a calumnia das calumnias.

--Uma calumnia infame... rosnaram.

-E a mim o que me parece, continuou Amaro, é que nos dirijamos á autoridade!

--É o que eu tinha dito, acudiu Natario, é necessário falar ao secretario geral...

--Um cacete é que é! rugiu o padre Brito. Autoridade! O que é, é rachal-o! Eu bebia-lhe o sangue!...

O cônego, que meditava coçando o queixo, disse então:

--E você, Natario, é que deve ir ao secretario geral. Você tem língua, tem logica.

--Se os colegas decidem, disse Natario curvando-se, vou. E hei de lhas cantar, á autoridade!

Amaro ficara junto da mesa com a cabeça entre as mãos, aniquilado. E o Libaninho murmurava:

--Ai, filhos, eu não é nada comigo, mas só de ouvir todo esse aranzel, até se me estão a vergar as pernas. Ai, filhos, um desgosto assim...

Mas sentiram a voz da Sr..^a Joaquina Gansoso subindo a escada; e o cônego imediatamente com uma voz prudente:

--Collegas, o melhor, diante das senhoras, é não se falar mais em isto. Bem basta o que basta.

de aí a momentos, apenas Amelia entrou, Amaro ergueu-se, declarou que estava com uma forte dor de cabeça, e despediu-se das senhoras.

--E sem tomar chá? acudiu a S. Joaneira.

--Sim, minha senhora, disse ele embrulhando-se no seu capote, não me estou a sentir bem. Boas noites... E você, Natario, apareça amanhã pela Sé á uma hora.

Apertou a mão de Amelia, que se lhe abandonou entre os dedos passiva e mole,--e saiu com os hombros vergados.

A S. Joaneira notou, desconsolada:

--O senhor parocho ia muito pálido...

O cônego levantou-se, e com um tom impaciente e quezilado:

--Se ia pálido, amanhã estará córado. E agora quero dizer uma coisa: esse aranzel do jornal é a calumnia das calumnias! Eu não sei quem o escreveu, nem para que o escreveu. Mas são tolices e são infâmias. É pateta e maroto, quem quer que seja. O que devemos fazer já o sabemos, e como já se tagarelou bastante sobre o caso, a senhora mande vir o chá. E o que lá vai, lá vai, não se fala mais na questão.

As faces em roda continuavam contristadas.--E então o cônego acrescentou:

--Ah! e quero dizer outra coisa: como não morreu ninguém, não ha necessidade de estar aqui com cara de pezames. E tu, pequena, senta-te ao instrumento e repenica-me essa Chiquita!

O secretario geral, o Sr.. Gouvêa Ledesma, antigo jornalista, e, em anos mais expansivos, auctor do livro sentimental Devaneios de um sonhador, estava então dirigindo o districto na ausência do governador civil.

Era um moço bacharel que passava por ter talento. Representára de galan no teatro acadêmico, em Coimbra, com muito aplauso; e tomara a esse tempo o habito de passear á tarde na Sofia, com o ar fatal com que no palco arrepelava os cabelos, ou levava, nos transes de amor, o lenço aos olhos. Depois em Lisboa arruinara um pequeno patrimonio com o amor de Lolas e de Carmens, ceias no Matta, muita calça no Xafredo e perniciosas convivências literárias: aos trinta anos estava pobre, saturado de mercurio e auctor de vinte folhetins românticos na Civilisação: mas tornara-se tão popular, que era conhecido nos lupanares e nos cafés por um cognome carinhoso--era o Bibi. Julgando então que conhecia a fundo a existência, deixou crescer as suíças, começou a citar Bastiat, frequentou as câmaras e entrou na carreira administrativa; chamava agora á república que tanto exaltara em Coimbra uma absurda quimera; e Bibi era um pilar das instituições.

Detestava Leiria, onde passava por espirituoso; e dizia ás senhoras, nas soirées do deputado Novais,--«que estava cansado da vida». Rosnava-se que a esposa do bom Novais andava doida por ele: e em verdade Bibi escrevêra a um amigo da capital:--«enquanto a conquistas, pouco por ora; tenho apenas no papo a Novaesitos».

Levantava-se tarde; e em essa manhã, de robe-de-chambre á mesa do almoço, partia os seus ovos quentes, lendo com saudade no jornal a narração apaixonada de uma pateada em S. Carlos, quando o criado,--um galego que trouxera de Lisboa--veio dizer que «estava ali um cura».

--Um cura? Que entre para aqui!--E murmurou para sua satisfação pessoal:--O Estado não deve fazer esperar a Igreja.

Ergueu-se, e estendeu as duas mãos ao padre Natario que entrava, muito composto, na sua longa batina de lustrina.

--Uma cadeira, Trindade! Toma uma chávena de chá, senhor cura? Soberba manhã, hein? Estava justamente pensando em v. s.^a--isto é, estava pensando no clero em geral... Acabava de lêr as peregrinações que se estão fazendo a Nossa Senhora do Lourdes... Grande exemplo! Milhares de pessoas da melhor roda... É realmente consolador vêr renascer a fé... Ainda ontem eu disse em casa do Novais: «no fim de tudo a fé é a mola real da sociedade». Tome uma chávena de chá... Ah! é um grande balsamo!...

--Não, obrigado, almocei já.

--Mas não! Quando digo um grande balsamo refiro-me á fé, não ao chá! Ah! ah! É boa, não?

E prolongou a sua risadinha com complacência. Queria agradar a Natario, pelo principio que repetia muito, com um sorriso astuto--«que quem está metido na politica deve ter por si a padraria».

--E depois, acrescentou, como eu dizia ontem em casa do Novais, que vantagem para as localidades! Lourdes, por exemplo, era uma aldeola; pois com a affluencia dos devotos está uma cidade... Grandes hoteis, boulevards, belas lojas... É por assim dizer o desenvolvimento econômico, correndo parelhas com o renascimento religioso.

E deu com satisfação um puxãosinho grave ao colarinho.

--Pois eu vinha aqui falar a v. exc.^a a respeito de um comunicado na Voz do Districto.

--Ah! interrompeu o secretario geral, perfeitamente, li! Uma famosa verrina... Mas literariamente, como estilo e como imagens, que miséria!

--E que tenciona v. exc.^a fazer, senhor secretario geral?

O Sr.. Gouvéa Ledesma apoiou-se nas costas da cadeira, perguntou pasmado:

--Eu!?

Natario disse, distilando as palavras:

--A autoridade tem o dever de proteger a religião do Estado, e implicitamente os seus sacerdotes... Que tenha v. exc.^a em vista, eu não venho aqui em nome do clero...

E acrescentou com a mão sobre o peito:

--Sou apenas um pobre padre sem influencia... Venho, como particular, perguntar ao senhor secretario geral se se póde permitir que caracteres respeitaveis da Igreja diocesana sejam assim difamados...

--É certamente lamentável que um jornal...

Natario interrompeu, impertigando o busto com indignação:

--Jornal que já devia estar suspenso, senhor secretario geral!

--Suspenso!? Por quem é, senhor cura! Mas v. s.^a decerto não quer que eu volte aos tempos dos corregedores-morés! Suspender o jornal! Mas a liberdade de imprensa é um principio sagrado! Nem as leis de imprensa o permitem... Mesmo querelar pelo ministério publico porque um periódico diz duas ou três pilherias sobre o cabido, impossível! Tínhamos de querelar de toda imprensa de Portugal, com excepção da Nação e do Bem Publico! Onde iria parar a liberdade de pensamento, trinta anos de progresso, a própria idéa governamental? Mas nós não somos os Cabraes, meu caro senhor! Nós queremos luz, muitissima luz! Justamente o que nós queremos é luz!

Natario tossiu devagarinho, disse:

--Perfeitamente. Mas então quando, pelas eleições, a autoridade nos vier pedir o nosso auxilio, nós, vendo que não encontramos em ela proteção, diremos simplesmente: Non possumus!

--E pensa o senhor cura, que por amor de alguns votos que dão os senhores abbades, nós vamos trahir a civilisação?

E o antigo Bibi, tomando uma grande atitude, soltou esta frase:

--Somos filhos da liberdade, não renegaremos nossa mãe!

--Mas o doutor Godinho, que é a alma do jornal, é oposição, observou então Natario; proteger-lhe o jornal é implicitamente proteger-lhe as manobras...

O secretario geral teve um sorriso:

--Meu caro senhor cura, v. s.^a não está no segredo da politica. Entre o doutor Godinho e o governo civil não ha inimizade, ha apenas um arrufo... O doutor Godinho é uma inteligência... Vai reconhecendo que o grupo da Maia não produz nada... O doutor Godinho aprecia a politica do governo, e o governo aprecia o doutor Godinho.

E, rebuçando-se todo em um mistério de Estado, acrescentou:

--Coisas de alta política, meu caro senhor.

Natario ergueu-se:

--De modo que...

--Impossibilis est, disse o secretario. De resto acredite, senhor cura, que como particular revolto-me contra o Comunicado; mas como autoridade devo respeitar a expressão do pensamento... Mas creia, e póde dizê-lo a todo o clero diocesano, a Igreja católica não tem um filho mais fervente que eu, Gouvêa Ledesma... Quero porém uma religião liberal, de harmonia com o progresso, com a sciencia... Foram sempre as minhas idéas; préguei-as bem alto, na imprensa, na universidade e no grêmio... Assim, por exemplo, não acho que haja poesia maior que a poesia do cristianismo! E admiro Pio IX, uma grande figura! Somente lamento que ele não árvore a bandeira da civilisação!--E o antigo Bibi, contente da sua frase, repetia:--Sim, lamento que ele não árvore a bandeira da civilisação... O Syllabus é impossível em este século de eletricidade, senhor cura! E a verdade é que nós não podemos querelar de um jornal porque ele diz duas ou três pilherias sobre o sacerdócio, nem nos convém, por altas razões de política, escandalisar o doutor Godinho. Aqui tem o meu pensamento.

--Senhor secretario geral... disse Natario curvando-se.

--Um criado de v. s.^a Sinto que não tome uma chávena de chá... E como vai o nosso chantre?

--S. exc.^a em estes últimos dias, segundo creio, tem tornado a sofrer de tonturas.

--Sinto. Uma inteligência também! Grande latinista... Tenha cuidado com o degrau!...

Natario correu á Sé, com um passo nervoso, resmungando alto de cólera. Amaro passeava devagar no terraço, com as mãos atraz das costas: tinha as olheiras batidas e a face envelhecida.

--Então? disse ele, indo rapidamente ao encontro de Natario.

--Nada!

Amaro mordeu o beiço: e enquanto Natario lhe contava, excitado, a conversação com o secretario geral, «e como argumentara com ele, e como o homem tagarelara, tagarelara»,--a face do parocho cobria-se de uma sombra desconsolada, e ia arrancando raivosamente, com a ponta do guardasol, a herva que crescia nas fendas do terraço.

--Um patarata! resumiu o padre Natario com um grande gesto. Pela autoridade não se faz nada. É escusado... Mas a questão agora é entre mim e o liberal, padre Amaro! Eu hei de saber quem é, padre Amaro! E quem o esmaga sou eu, padre Amaro, sou eu!...

No emtanto João Eduardo desde o domingo triunfava: o artigo fizera escândalo: tinham-se vendido oitenta números avulsos do jornal, e o Agostinho afirmara-lhe que na botica da Praça a opinião era «que o liberal conhecia a padraria a fundo e tinha cabeça»!

--És um gênio, rapaz! disse o Agostinho. É trazer-me outro, é trazer-me outro!

João Eduardo gozava prodigiosamente «de aquele fallatorio que ia pela cidade».

Relia então o artigo com uma deleitação paternal; se não receasse escandalisar a S. Joaneira, desejaria ir pelas lojas dizer bem alto--fui eu, eu é que o escrevi!--E já ruminava outro, mais terrível, que se deveria intitular: O diabo feito ermita, ou O sacerdócio de Leiria perante o século XIX!

O doutor Godinho encontrara-o na Praça, e parara com condescendência, para lhe dizer:

--A coisa tem feito barulho. Você é o diabo! E a piada ao padre Brito é bem jogada. Que eu não sabia... E diz que é bonita, a mulher do regedor...

--V. exc.^a não sabia?

--Não sabia, e saboreei. Você é o diabo! Eu fui que disse ao Agostinho que publicasse a coisa como um comunicado. Você comprehende... Eu não me convém ter turras de mais com o clero... E depois lá minha esposa tem seus escrúpulos... Emfim é mulher, e é conveniente que as mulheres tenham religião... Mas no meu fôro interior saboreei... Sobretudo a piada ao Brito. O patife fez-me uma guerra dos diabos na eleição passada... Ah! e outra coisa, o seu negocio arranja-se. Lá para o mez que vem tem você o seu emprego no governo civil.

--Oh, Sr.. doutor... v. exc.^a...

--Qual historia! você é um benemérito!

João Eduardo foi para o cartório, tremulo de alegria. O Sr.. Nunes Ferral sahira: o escrevente aparou devagar uma pena, começou a cópia de uma procuração--e de repente, agarrando o chapéo, correu á rua da Misericórdia.

A S. Joaneira costurava só á janela; Amelia fora ao Morenal; e João Eduardo, logo da porta:

--Sabe, D. Augusta? Estive agora com o doutor Godinho. Diz que lá para o mez que vem tenho o meu emprego...

A S. Joaneira tirou a luneta, deixou cahir as mãos no regaço:

--Que me diz?...

--É verdade, é verdade...

E o escrevente esfregava as palmas, com risinhos nervosos de jubilo.

--Que pechincha! exclamou. De modo que agora, se a Ameliasinha estiver de acordo...

--Ai, João Eduardo! fez a S. Joaneira com um grande suspiro, que me tira um peso do coração... Que tenho estado... Olhe, nem tenho dormido!...

João Eduardo presentiu que ela ia falar do Comunicado. Foi pôr o chapéo em uma cadeira ao canto; e voltando á janela, com as mãos nos bolsos:

--Então porquê, porquê?

--Aquela pouca vergonha no Districto! Que diz você? Aquela calumnia! Ai! tenho-me feito velha!

João Eduardo escrevera o artigo sob as solicitações do ciume, só para «enterrar» o padre Amaro; não previra o desgosto das duas senhoras; e vendo agora a S. Joaneira com duas lagrimas no branco dos olhos, sentia-se quase arrependido. Disse ambíguamente:

--Eu li, é o diabo...

Mas aproveitando o sentimento da S. Joaneira para servir a sua paixão, acrescentou sentando-se, chegando a cadeira para ao pé de ela:

--Eu nunca lhe quis falar de isso, D. Augusta, mas... olhe que a Ameliasinha tratava o parocho com muita familiaridade... E pelas Gansosos, pelo Libaninho, mesmo sem quererem, a coisa ia-se sabendo, ia-se rosnando... Eu bem sei que ela, coitada, não via o mal, mas... a D. Augusta sabe o que é Leiria. Que línguas, hein!

A S. Joaneira então declarou que lhe ia falar como a um filho: o artigo afligira-a, sobretudo por causa de ele, João Eduardo. Porque emfim ele podia acreditar também, desfazer o casamento, e que desgosto! E ela podia dizer-lhe, como mulher de bem, como mãe, que não havia entre a pequena e o senhor parocho nada, nada, nada! Era a rapariga que tinha aquele gênio comunicativo! E o parocho tinha boas palavras, sempre muito delicado... Que ela sempre o dissera, o senhor padre Amaro tinha maneiras que tocavam o coração...

--Decerto, disse João Eduardo mordendo o bigode, com a cabeça baixa.

A S. Joaneira então pôs a mão de leve sobre o joelho do escrevente, e fitando-o:

--E olhe, não sei se me fica mal dizer-lho, mas a rapariga quer-lhe deveras, João Eduardo.

O coração do escrevente teve uma palpitação comovida.

--E eu! disse. A D. Augusta sabe a paixão que eu tenho por ela... E lá do artigo que me importa a mim!

Então a S. Joaneira limpou os olhos ao avental branco. Ai! era uma alegria para ela! Ela sempre o dissera, como rapaz de bem, não havia outro na cidade de Leiria!

--Você sabe, quero-lhe como filho!

O escrevente enterneceu-se:

--Pois vamos a isso, e tapam-se as bocas do mundo...

E erguendo-se, com uma solemnidade engraçada:

--Sr..^a D. Augusta! Tenho a honra de lhe pedir a mão...

Ela riu-se--e na sua alegria João Eduardo beijou-a na testa, filialmente.

--E fale á noite á Ameliasinha, disse ao sair. Eu venho amanhã, e felicidade não ha de faltar...

--Louvado seja Nosso Senhor! acrescentou a S. Joaneira retomando a sua costura, com um suspiro de muito alivio.

Apenas em essa tarde Amelia voltou do Morenal, a S. Joaneira, que estava pondo a mesa, disse-lhe:

--Esteve aí o João Eduardo...

--Ah!...

--Aí esteve a falar, coitado...

Amelia, calada, dobrava a sua manta de lã.

--Aí esteve a queixar-se... continuou a mãe.

--Mas de quê? perguntou ela muito vermelha.

--Ora de quê! Que se falava muito na cidade do artigo do Districto; que se perguntava a quem aludia o periódico com as donzelas inexperientes, e que a resposta era: «Quem ha de ser? a Amelia da S. Joaneira, da rua da Misericórdia!» O pobre João diz que tem andado tão desgostoso!... Não se atrevia, por delicadeza, a falar-te... Emfim...

--Mas que hei de eu fazer, minha mãe? exclamou Amelia com os olhos subitamente cheios de lagrimas àquelas palavras que cahiam sobre os seus tormentos como gotas de vinagre sobre feridas.

--Eu digo-te isto para teu governo. Faze o que quiseres, filha. Eu bem sei que são calumnias! Mas tu sabes o que são línguas do mundo... O que te posso dizer é que o rapaz não acreditou no periódico. Que era isso que me dava cuidado!... Credo! tirou-me o sono... Mas não, diz que não lhe importa o artigo, que te quer da mesma maneira, e está a arder por que se faça o casamento... E eu por mim o que fazia, para calar toda essa gente, era casar-me já. Eu bem sei que tu não morres por ele, bem sei. Deixa lá! Isso vem depois. O João é bom rapaz, vai ter o emprego...

--Vai ter o emprego!?

--Pois foi o que ele me veio dizer também... Esteve com o doutor Godinho, diz que lá para o fim do mez está empregado... Emfim tu fazes o que entenderes... Que olha que eu estou velha, filha, posso faltar-te de um momento para o outro...

Amelia não respondeu, olhando de frente no telhado voarem os pardais--menos desassocegados, em aquele instante, que os seus pensamentos.

Desde domingo vivia atordoada. Sabia bem que a donzela inexperiente a que aludia o Comunicado era ela, Amelia, e torturava-a o vexame de vêr assim o seu amor publicado no jornal. Depois (como ela pensava, mordendo o beiço em uma raiva muda, com os olhos afogados de lagrimas), aquilo vinha estragar tudo! Na Praça, na Arcada já se diria com risinhos perversos:--«Então a Ameliasita da S. Joaneira metida com o parocho, hein?» Decerto o senhor chantre, tão severo em «coisas de mulheres,» reprehenderia o padre Amaro... E por alguns olhares, alguns apertos de mão, aí estava a sua reputação estragada, estragado o seu amor!

Na segunda-feira, ao ir ao Morenal, parecera-lhe sentir pelas costas risinhos a escarnecel-a; no aceno que lhe fez da porta da botica o respeitável Carlos julgou vêr uma secura reprehensível; á volta encontrara o Marques da loja de ferragens, que não lhe tirou o chapéo, e ao entrar em casa julgava-se desacreditada--esquecendo que o bom Marques era tão curto da vista que usava na loja duas lunetas sobrepostas.

--Que hei de eu fazer? que hei de eu fazer? murmurava, às vezes, com as mãos apertadas na cabeça. O seu cérebro de devota apenas lhe fornecia soluções devotas--entrar em um recolhimento, fazer uma promessa a Nossa Senhora das Dôres «para que a livrasse de aquele apuro», ir confessar-se ao padre Silverio... E terminava por se vir sentar resignadamente ao pé da mãe com a sua costura, considerando, muito enternecida, que desde pequena fora sempre bem infeliz!

A mãe não lhe falara claramente sobre o Comunicado; tivera apenas palavras ambíguas:

--É uma pouca vergonha... É deitar ao desprezo... Quando a gente tem a sua consciência socegada, o mais historias...

Mas Amelia via-lhe bem o desgosto--na face envelhecida, nos tristes silêncios, nos suspiros repentinos quando fazia meia á janela com a luneta na ponta do nariz: e então mais se convencia que havia «grande fallatorio na cidade», de que a mãe, coitada, estava informada pelas Gansosos e pela D. Josefa Dias--cuja boca produzia o mexerico mais naturalmente que a saliva. Que vergonha, Jesus!

E então o seu amor pelo parocho, que até aí, em aquela reunião de saias e batinas da rua da Misericórdia se lhe afigurara natural, agora, julgando-o reprovado pelas pessoas que desde pequena fora acostumada a respeitar--os Guedes, os Marques, os Vazes,--aparecia-lhe já monstruoso: assim as cores de um retrato pintado á luz de azeite, e que á luz de azeite parecem justas, tomam tons falsos e disformes quando lhes cae em cima a luz do sol. E quase estimava que o padre Amaro não tivesse voltado á rua da Misericórdia.

No emtanto, com que ansiedade esperava todas as noites o seu toque de campainha! Mas ele não vinha; e aquela ausência, que a sua razão julgava prudente, dava ao seu coração o desespero de uma traição. Na quarta-feira á noite não se conteve, disse, córando sobre a sua costura:

--Que será feito do senhor parocho?

O cônego, que na sua poltrona parecia dormitar, tossiu grosso, mexeu-se, rosnou:

--Mais que fazer... E escusam de esperar por ele tão cedo!...

E Amelia, que ficara branca como a cal, teve imediatamente a certeza que o parocho, aterrado com o escândalo do jornal, aconselhado pelos padres timoratos zelosos «do bom nome do clero»--tratava de se descartar de ela! Mas, cautelosa, diante das amigas da mãe, escondeu o seu desespero: foi mesmo sentar-se ao piano, e tocou mazurkas tão estrondosas--que o cônego, tornando a mexer-se na poltrona, grunhiu:

--Menos espalhafato e mais sentimento, rapariga!

Passou uma noite agoniada, e sem chorar. A sua paixão pelo parocho flamejava mais irritada; e todavia detestava-o pela sua cobardia. Mal uma alusão em um jornal o picara, ficara a tremer na sua batina, apavorado, não se atrevendo sequer a visital-a--sem se lembrar que também ela se via diminuida na sua reputação, sem ser satisfeita no seu amor! E fora ele que a tentara com as suas palavrinhas dôces, as suas denguices! Infame!... Desejava violentamente apertal-o ao coração--e esbofeteal-o. Teve a idéa insensata de ir ao outro dia à rua das Sousas atirar-se-lhe aos braços, instalar-se-lhe no quarto, fazer um escândalo que o obrigasse a fugir da diocese... Porque não? Eram novos, eram robustos, poderiam viver longe, em outra cidade--e a sua imaginação começou a repastar-se logo histericamente nas perspectivas deliciosas de essa existência, em que se figurava constantemente a dar-lhe beijos! Através da sua intensa excitação, aquele plano parecia-lhe muito pratico, muito fácil: fugiriam para o Algarve; lá, ele deixaria crescer o cabelo (que mais bonito seria então!) e ninguém saberia que era um padre; poderia ensinar latim, ela coseria para fora; e viveriam em uma casinha--onde o que mais a atraía era o leito com as duas travesseirinhas chegadas... E a única dificuldade que via em todo este plano radiante era fazer sair de casa, às escondidas da mãe, o bahú com a sua roupa!--Mas quando acordou, essas resoluções mórbidas, á luz clara do dia, desfizeram-se como sombras: tudo aquilo lhe parecia agora tão impraticável, e ele tão separado de ela, como se entre a rua da Misericórdia e a rua das Sousas se erguessem inacessivelmente todas as montanhas da terra. Ai, o senhor parocho abandonara-a, era certo! Não queria perder os lucros da sua parochia nem a estima dos seus superiores!... Pobre de ela! Considerou-se então para sempre infeliz e desinteressada da vida. Guardou, todavia, muito intenso o desejo de se vingar do padre Amaro.

Foi então que refletiu, pela primeira vez, que João Eduardo desde a publicação do Comunicado não aparecera na rua da Misericórdia. Também me volta as costas--pensou com amargura. Mas que lhe importava! No meio da afflicção que lhe dava o abandono do padre Amaro, a perda do amor do escrevente, piegas e pesado, que lhe não trazia utilidade nem prazer, era uma contrariedade imperceptivel: uma infelicidade viera que lhe arrebatava bruscamente todas as afeições--a que lhe enchia a alma e a que apenas lhe acariciava a vaidadesinha: e irritava-a, sim, não sentir já o amor do escrevente colado a suas saias, com a docilidade de um cão--mas todas as suas lagrimas eram para o senhor parocho, «que já não queria saber de ela»! Só lamentava a deserção de João Eduardo, porque perdia assim um meio sempre pronto de fazer enraivecer o padre Amaro...

Por isso em essa tarde á janela, calada, olhando no telhado defronte voarem os pardais--depois de saber que João Eduardo, certo do emprego, viera falar emfim á mãe,--pensava com satisfação no desespero do parocho ao vêr publicados na Sé os banhos do seu casamento. Depois as palavras muito praticas da S. Joaneira trabalhavam-lhe silenciosamente em alma: o emprego do governo civil rendia 25$000 reis mensais; casando, reentrava logo na sua respeitabilidade de senhora; e se a mãe morresse, com o ordenado do homem e com o rendimento do Morenal, podia viver com decência, ir mesmo no verão aos banhos... E via-se já na Vieira, muito comprimentada pelos cavalheiros, conhecendo talvez a do governador civil.

--Que lhe parece, minha mãe?--perguntou bruscamente. Estava decidida pelas vantagens que entrevia; mas, com a sua natureza lassa, desejava ser persuadida e forçada.

--Eu ia pelo seguro, filha--foi a resposta da S. Joaneira.

--É sempre o melhor--murmurou Amelia entrando no quarto. E sentou-se muito triste aos pés da cama, porque a melancolia que lhe dava o crepúsculo tornava-lhe agora mais pungente a saudade «dos seus bons tempos com o senhor parocho».

em essa noite choveu muito, as duas senhoras passaram sós. A S. Joaneira, repousada agora das suas inquietações, estava muito somnolenta, a cada momento cabeceava com a meia cahida no regaço. Amelia então pousava a costura, e com o cotovêlo sobre a mesa, fazendo girar o abat-jour verde do candieiro, pensava no seu casamento: o João Eduardo era bom rapaz, coitado; realisava o tipo de marido tão estimado na pequena burguezia--não era feio e tinha um emprego; decerto o oferecimento da sua mão, apesar das infâmias do jornal, não lhe parecia, como a mãe dissera, «um rasgo de mão cheia»; mas a sua dedicação lisonjeava-a, depois do abandono tão cobarde de Amaro: e havia dois anos que o pobre João gostava de ela... Começou então laboriosamente a lembrar tudo o que em ele lhe agradava--o seu ar sério, os seus dentes muito brancos, a sua roupa aceada.

Fora ventava forte, e a chuva, fustigando friamente as vidraças, dava-lhe apetites de confortos, um bom lume, o marido ao lado, o pequerrucho a dormir no berço--porque seria um rapaz, chamar-se-hia Carlos e teria os olhos negros do padre Amaro. O padre Amaro!... Depois de casada, decerto, tornaria a encontrar o senhor padre Amaro... E então uma idéa atravessou todo o seu sêr, fêl-a erguer bruscamente, ir por instincto procurar a escuridão da janela para ocultar a vermelhidão do rosto. Oh! isso não, isso não! Era horrível!... Mas a idéa implacavelmente apoderara-se de ela como um braço muito forte que a sufocava e lhe dava uma agonia deliciosa. E então o antigo amor, que o despeito e a necessidade tinham recalcado no fundo da_sua alma, rompeu, inundou-a: murmurou repetidamente, com paixão, torcendo as mãos, o nome de Amaro: desejou avidamente os seus beijos--oh! adorava-o! E tudo tinha acabado, tudo tinha acabado! E devia casar, pobre de ela!... Então á janela, com a face contra a escuridão da noite, choramingou baixinho.

Ao chá a S. Joaneira disse-lhe, de repente:

-Pois a coisa a fazer-se, filha, devia ser já... Era começar o enxoval, e se fosse possível casar-te para o fim do mez.

Ela não respondeu--mas a sua imaginação alvoroçou-se àquelas palavras. Casada de aí a um mez, ela! Apesar de João Eduardo lhe ser indiferente, a idéa de aquele rapaz, novo e apaixonado, que ia viver com ela, dormir com ela, deu uma perturbação a todo o seu sêr.

E quando a mãe ia descer ao quarto disse-lhe:

--Que lhe parece, minha mãe? Eu está-me a custar entrar em explicações com o João Eduardo, dizer-lhe que sim. O melhor era escrever-lhe...

--Também acho, filha, escreve-lhe... A Ruça leva a carta pela manhã... Uma carta bonita, e que agrade ao rapaz.

Amelia ficou na sala de jantar até tarde fazendo o rascunho da carta. Dizia:

«Sr.. João Eduardo,

«A mamã cá me pôs ao facto da conversação que teve consigo. E se a sua afeição é verdadeira, como creio e me tem dado muitas provas, eu estou pelo que se decidiu com muito boa vontade, pois conhece os meus sentimentos. E a respeito de enxoval e papeis, amanhã se falará, pois que o esperamos para o chá. A mamã está muito contente e eu desejo que tudo seja para nossa felicidade, como espero ha de ser, com a ajuda de Deus. A mamã recomenda-se e eu sou

a que muito lhe quer,

«Amelia Caminha».

Apenas fechou a carta, as folhas de papel branco espalhadas diante de ela deram-lhe o desejo de escrever ao padre Amaro. Mas o quê? Confessar-lhe o seu amor, com a mesma pena, molhada na mesma tinta, com que aceitava por marido o outro?... Accusal-o da sua cobardia, mostrar o seu desgosto--era humilhar-se! E, apesar de não ter motivo para lhe escrever, a sua mão ia traçando com gozo as primeiras palavras «Meu adorado Amaro...» Deteve-se, considerando que não tinha por quem mandar a carta. Ai! tinham de separar-se assim, em silencio, para sempre!... Separarem-se porquê?--pensou. Depois de casada podia bem vêr o senhor padre Amaro. E a mesma idéa voltava, subtilmente, mas em uma fórma tão honesta agora, que a não repelia: decerto, o senhor padre Amaro podia ser o seu confessor; era em toda a christandade a pessoa que melhor guiaria a sua alma, a sua vontade, a sua consciência; haveria então entre eles uma troca deliciosa e constante de confidencias, de dôces admoestações; todos os sabbados iria receber ao confessionário, na luz dos seus olhos e no som das suas palavras, uma provisão de felicidade; e aquilo seria casto, muito picante, e para gloria de Deus.

Sentiu-se quase satisfeita com a impressão, que não definia bem, de uma existência em que a carne estaria legitimamente contente, e a sua alma gozaria os encantos de uma devoção amorosa. Tudo vinha a calhar bem, por fim... E de aí a pouco dormia serenamente, sonhando que estava na sua casa, com o seu marido, e que jogava a manilha com as velhas amigas, no meio do contentamento de toda a Sé, sentada nos joelhos do senhor parocho.

Ao outro dia a Ruça levou a carta a João Eduardo, e toda a manhã as duas senhoras, costurando á janela, falaram do casamento. Amelia não se queria separar da mãe, e, como a casa tinha acomodações, os noivos viveriam no primeiro andar, e a S. Joaneira dormiria no quarto em cima; decerto o senhor cônego ajudaria para o enxoval; podiam ir passar a lua de mel para a fazenda da D. Maria. E Amelia àquelas perspectivas felizes fazia-se toda escarlate, sob o olhar da mãe que, de luneta na ponta do nariz, a admirava babosa.

Ás Ave-Marias a S. Joaneira fechou-se em baixo no seu quarto a rezar a sua corôa, e deixou Amelia só «para se entender com o rapaz».--de aí a pouco, com efeito, João Eduardo bateu á campainha. Vinha muito nervoso, de luvas pretas, enfrascado em água de colonia. Quando chegou á porta da sala de jantar não havia luz, e a bonita fórma de Amelia destacava de pé, junto á claridade da vidraça. Ele pôs o chale-manta a um canto como costumava, e vindo para ela que ficara imóvel, disse-lhe, esfregando muito as mãos:

--Lá recebi a cartinha, menina Amelia...

--Eu mandei-a pela Ruça logo pela manhã para o pilhar em casa, disse ela imediatamente com as faces a arder.

--Eu ia para o cartório, até já ia na escada... Haviam de ser nove horas...

--Haviam de ser... disse ela.

Calaram-se, muito perturbados. Ele então tomou-lhe delicadamente os pulsos, e baixo:

--Então sempre quer?

--Quero, murmurou Amelia.

--E o mais depressa possível, hein?

--Pois sim...

Ele suspirou, muito feliz.

--Havemos de nos dar muito bem, havemos de nos dar muito bem! dizia. E as suas mãos, com pressões ternas, iam-se apoderando dos braços de ela, dos pulsos aos cotovêlos.

--A mamã diz que podemos viver juntos, disse ela, esforçando-se por falar tranquilamente.

--Está claro, e eu vou mandar fazer lenções, acudiu ele, todo alterado.

Atraiu-a então a si, subitamente, beijou-lhe os lábios; ela teve um soluçosinho, abandonou-se-lhe entre os braços, toda fraca, toda languida.

--Oh, filha! murmurava o escrevente.

Mas os sapatos da mãe rangeram na escada, e Amelia foi vivamente para o aparador acender o candieiro.

A S. Joaneira parou á porta; e para dar a sua primeira aprovação maternal, disse, com bonhomia:

--Então vocês estão aqui ás escuras, filhos?

Foi o cônego Dias que participou ao padre Amaro o casamento de Amelia, uma manhã, na Sé. Falou no «a propósito do enlace», e acrescentou:

--Eu estimo, porque é a contento da rapariga, e é um descanso para a pobre velha...

--Está claro, está claro...--murmurou Amaro que se fizera muito branco.

O cônego pigarreou grosso, e ajuntou:

--E você agora apareça por lá, agora está tudo na ordem... A patifaria do jornal isso pertence á historia... O que lá vai, lá vai!

--Está claro, está claro...--rosnou Amaro. Traçou bruscamente a capa, saiu da igreja.

Ia indignado; e continha-se, para não praguejar alto, pelas ruas. Á esquina da viela das Sousas quase esbarrou com Natario, que o agarrou logo pela manga, para lhe soprar ao ouvido:

--Ainda não sei nada!

--De quê?

--Do liberal, do Comunicado. Mas trabalho, trabalho!

Amaro, que anciava por desabafar, disse logo:

--Então ouviu a novidade? O casamento de Amelia... Que lhe parece?

--Disse-me o animal do Libaninho. Diz que o rapaz apanhou o emprego... Foi o doutor Godinho... É outro que tal!... Veja você esta corja: o doutor Godinho no jornal ás bulhas com o governo civil, e o governo civil a atirar postas aos afilhados do doutor Godinho... Vá lá entendel-os! Isto é um paiz de biltres!

--Diz que grande alegrão na casa da S. Joaneira!--disse o parocho, com um azedume negro.

--Que se divirtam! Eu não tenho tempo de lá ir... Eu não tenho tempo para nada!... Eu cá ando no meu fito, saber quem é o liberal e escachal-o! Não posso vêr esta gente que leva a chicotada, coça-se, e curva a orelha. Eu cá não! eu guardo-as!--E, com uma contracção de rancor que lhe curvou os dedos em garra e lhe encolheu o peito magro. disse por entre os dentes cerrados:--Eu, quando odeio, odeio bem!

Esteve um momento calado, gozando o sabôr do seu fel.

--Você se for á rua da Misericórdia dê lá os parabéns a essa gente...--E acrescentou com os olhinhos em Amaro:--O palerma do escrevente leva a rapariga mais bonita da cidade! Vai encher o papo!

--Até á vista! exclamou bruscamente Amaro, abalando pela rua furioso.

Depois de aquele terrível domingo em que aparecera o Comunicado, o padre Amaro, ao principio, muito egoistamente, apenas se preocupara com as consequências--«consequências fatais, santo Deus!»--que lhe podia trazer o escândalo. Hein! se pela cidade se espalhasse que era ele o padre ajanotado que o liberal apostrofava! Viveu dois dias aterrado, tremendo de vêr aparecer o padre Saldanha, com a sua cara ameninada e voz meliflua, a dizer-lhe «que sua excelência o senhor chantre reclamava a sua presença»! Passava já o tempo preparando explicações, respostas habeis, lisonjas a sua excelência.--Mas quando viu que, apesar da violência do artigo, sua excelência parecia disposto «a fazer a vista grossa», ocupou-se então, mais tranquilo, dos interesses do seu amor tão violentamente perturbados. O medo tornava-o astucioso; e decidiu não voltar algum tempo á rua da Misericórdia.

--Deixar passar o aguaceiro, pensou.

Ao fim de quinze dias, três semanas, quando o artigo estivesse esquecido, apareceria de novo em casa da S. Joaneira: deixaria vêr bem á rapariga que a adorava sempre, mas evitaria a antiga familiaridade, as conversasinhas baixas, os logarzinhos chegados ao quino; depois, pela D. Maria da Assumpção, pela D. Josefa Dias, obteria que Amelia deixasse o padre Silverio, e se confessasse a ele: poderiam então entender-se, no segredo do confessionário: combinariam uma conducta discreta, encontros cautelosos aqui e além, cartinhas pela criada: e aquele amor assim conduzido, com prudenciasinha, não teria o perigo de aparecer uma manhã anunciado no periódico! E regosijava-se já da habilidade de esta combinação, quando lhe vinha o grande choque--casava-se a rapariga!

Depois dos primeiros desesperos, desabafados em patadas no soalho e blasfêmias de que pedia logo perdão a Nosso Senhor Jesus Cristo, quis serenar, estabelecer a razão das coisas. Aonde o levava aquela paixão? Ao escândalo. E assim, casada ela, cada um entrava no seu destino legitimo e sensato--ela na sua família, ele na sua parochia. Depois, quando se encontrassem, um comprimento amável; e ele poderia passear a cidade com a sua cabeça bem direita, sem medo dos ápartes da Arcada, das insinuações da gazeta, das severidades de sua excelência e das picadinhas da consciência! E a sua vida seria feliz.--Não, por Deus! a sua vida não poderia ser feliz sem ela! Tirado á sua existência aquele interesse das visitas à rua da Misericórdia, os apertosinhos de mão, a esperança de delicias melhores--que lhe restava a ele? Vegetar, como um dos tortolhos nos cantos humidos do adro da Sé! E ela, ela que o entontecera com os seus olhinhos e as suas maneirinhas, voltava-lhe as costas mal lhe aparecia outro, bom para marido, com 25$000 reis por mez! Todos aqueles suspiros, aquelas mudanças de cor--chalaça! Mangára com o senhor parocho!...

O que a odiava!--menos que o outro porém, o outro que triunfava porque era um homem, tinha a sua liberdade, o seu cabelo todo, o seu bigode, um braço livre para lhe dar na rua! Repastava então a imaginação rancorosamente nas visões de felicidade do escrevente: via-o trazendo-a da igreja triunfantemente; via-o beijando-lhe o pescoço e o peito... E a estas idéas dava patadas furiosas no soalho--que assustavam a Vicência na cozinha.

Depois procurava socegar, retomar a direcção das suas faculdades, applical-as todas a achar uma vingança, uma boa vingança! E voltava então o antigo desespero de não viver no tempo da inquisição, e com uma denuncia de irreligião ou de feiticeria, mandal-os ambos para um carcere. Ah! em esse tempo um padre gozava! Mas agora, com os senhores liberais, tinha de vêr aquele miserável escrevente a seis vintens por dia apoderar-se-lhe da rapariga--e ele, sacerdote instruido, que podia ser bispo, que podia ser Papa, tinha de vergar os hombros e ruminar solitariamente o seu despeito! Ah! se as maldições de Deus tinham algum valor--malditos fossem eles! Quereria vêl-os cheios de filhos, sem pão na prateleira, com o último cobertor empenhado, resequidos de fome, injuriando-se,--e ele a rir-se, ele a regalar-se!...

Na segunda-feira não se conteve, foi á rua da Misericórdia. A S. Joaneira estava em baixo na saleta com o cônego Dias. E apenas viu Amaro:

--Oh, senhor parocho! bem aparecido! Estava a falar em v. s.^a! Já estranhava não o vermos, agora que ha alegria em casa.

--Já sei, já sei, murmurou Amaro pálido.

--Alguma vez havia de ser, disse o cônego jovialmente. Deus os faça felizes e lhes dê poucos filhos, que a carne está cara.

Amaro sorriu--escutando em cima o piano.

Era Amelia que tocava como outr'ora a valsa dos Dois Mundos; e João Eduardo, muito chegado a ela, voltava as folhas da musica.

--Quem entrou, Ruça? gritou ela sentindo os passos da rapariga nas escadas.

--O senhor padre Amaro.

Um fluxo de sangue abrazou-lhe o rosto--e o coração batia-lhe tão forte, que ficou um momento com os dedos imóveis sobre o teclado.

--Não se precisava cá do senhor padre Amaro, rosnou João Eduardo por entre dentes.

Amelia mordeu o beiço. Teve ódio ao escrevente: em um instante repugnou-lhe a sua voz, os seus modos, a sua figura de pé junto de ela: pensou com deleite como depois de casada (já que tinha de casar) se confessaria toda ao padre Amaro, e não deixaria de o amar! Não sentia em aquele momento escrúpulos; e quase desejava que o escrevente lhe visse no rosto a paixão que a revolvia.

--Credo, creatura! disse-lhe. Chegue-se um pouco mais para lá, que nem me deixa os braços livres para tocar!

Terminou bruscamente a valsa dos Dois Mundos, começou a cantar o Adeus:

Ai! adeus! acabaram-se os dias Que ditosa vivi a teu lado!

A sua voz elevava-se, com uma modulação ardente,--dirigindo o canto, através do soalho, ao coração do parocho, em baixo.

E o parocho, com a sua bengala entre os joelhos, sentado no canapé, devorava todos os tons da voz de ela--enquanto a S. Joaneira tagarelava, contando as peças de algodão que comprara para lenções, os arranjos que ia fazer no quarto dos noivos, e as vantagens de viverem juntos...

--Uma felicidade por aí além, interrompeu o cônego erguendo-se pesadamente. E vamos lá para cima, que isto de noivos não se querem sós...

--Ah, lá em isso, disse a S. Joaneira rindo, fio-me em ele, que é homem de bem ás direitas.

Amaro, ao subir a escada, tremia--e, mal entrou na sala, o rosto de Amelia, alumiado pelas luzes do piano, deu-lhe um deslumbramento, como se as vésperas do noivado a tivessem embelezado e a separação lha tornasse mais apetitosa. Foi dar-lhe gravemente um aperto de mão, outro ao escrevente, disse baixo, sem os olhar:

--Os meus parabéns... Os meus parabéns...

Voltou as costas, e foi conversar com o cônego que se enterrara na sua poltrona queixando-se de enfastiamento e reclamando o chá.

Amelia ficara como abstracta, correndo inconscientemente os dedos pelo teclado. Aquele modo do padre Amaro confirmava a sua idéa: queria a todo o custo descartar-se de ela, o ingrato! fazia «como se nada tivesse havido», o vilão! Na sua cobardia de padre, com o terror do senhor chantre, do jornal, da Arcada, de tudo,--sacudia-a da sua imaginação, do seu coração, da sua vida, como se sacode um insecto que tem peçonha!... Então, para o enraivecer, começou a cochichar ternamente com o escrevente; roçava-se-lhe pelo hombro, rendida, com risinhos, segredinhos; tentaram, em alarido jovial, tocar uma peça a quatro mãos; depois ela beliscou-o, ele deu um gritinho exagerado.--E a S. Joaneira contemplava-os babosa, enquanto o cônego dormitava já, e o padre Amaro, abandonado a um canto como outr'ora o escrevente, ia folheando o velho álbum.

Mas um brusco repique da campainha veio sobresaltal-os todos: passos rápidos galgaram a escada, pararam em baixo na saleta: e a Ruça apareceu dizendo «que era o senhor padre Natario, que não desejava subir, e queria dar uma palavra ao senhor cônego».

--Fracas horas para embaixadas, rosnou o cônego, arrancando-se com custo ao fundo confortável da poltrona.

Amelia fechou logo o piano--e a S. Joaneira pousando a meia foi em bicos de pés escutar ao alto da escada: fora ventava forte, e para os lados da Praça afastava-se o toque de retreta.

Emfim a voz do cônego chamou, de baixo, da porta da saleta:

--Ó Amaro!

--Padre-Mestre?

--Venha cá, homem. E diga á senhora que póde vir também.

A S. Joaneira desceu logo, muito assustada: Amaro imaginava que o padre Natario emfim descobrira o liberal!

A saleta parecia muito fria com a luz pequenina da vela sobre a mesa: e na parede, em um velho painel muito escuro--que ultimamente o cônego dera á S. Joaneira--destacava uma face livida de monge e um osso frontal de caveira.

O cônego Dias acomodara-se ao canto do canapé, sorvendo reflectidamente a pitada; e Natario, que se agitava pela sala, exclamou logo:

--Boas noites, senhora! Olá, Amaro! Trago novidades!... Não quis subir porque imaginei que estaria o escrevente, e estas coisas são cá para nós. Estava a começar a dizer ao colega Dias... Tive lá em casa o padre Saldanha. Temol-as boas!

O padre Saldanha era o confidente do senhor chantre. E o padre Amaro, já inquieto, perguntou:

--Coisa que nos toca?

Natario começou com solemnidade erguendo alto o braço:

--Primo: o colega Brito mudado da freguezia de Amor para ao pé de Alcobaça, para a serra, para o inferno...

--Que me diz!? exclamou a S. Joaneira.

--Obras do liberal, minha senhora! O nosso digno chantre levou-lhe tempo a meditar o Comunicado do Districto, mas por fim saiu-se! O pobre Brito lá vai esfogueteado!...

--Sempre é o que se dizia da mulher do regedor... murmurou a boa senhora.

--Ólá! interrompeu severamente o cônego. Então, senhora, então! Isto aqui não é casa de murmuração!... Siga com o seu recado, colega Natario.

--Secundo, continuou Natario: é o que eu ia dizer ao colega Dias... O senhor chantre, em vista do Comunicado e de outros ataques da imprensa, está decidido a «reformar os costumes do clero diocesano», palavras do padre Saldanha. Que lhe desagradam sumamente os conciliábulos de eclesiásticos e de senhoras... Que quer saber o que é isso de sacerdotes ajanotados tentando meninas bonitas... Emfim, palavras textuais de sua excelência--está decidido a limpar as cavalhariças de Augias!...--o que quer dizer em bom portuguez, minha senhora, que vai andar tudo em uma roda-viva.

Houve uma pausa consternada. E Natario, plantado no meio da saleta com as mãos enterradas nas algibeiras, exclamou:

--Que lhes parece esta á última hora, hein?

O cônego ergueu-se pachorrentamente:

--Olhe, colega, disse, entre mortos e feridos ha de escapar alguém... E a senhora não se fique aí com essa cara de Mater-dolorosa, e mande servir o chá, que é o importante.

--Eu lá disse ao padre Saldanha...--começou Natario perorando.

Mas o cônego interrompeu-o com força:

--O padre Saldanha é um patarata!... Vamos nós ás torradinhas, e lá em cima, diante dos rapazes, caluda.

O chá foi silencioso. O cônego, a cada bocado de torrada, respirava afrontado, franzia muito o sobr'olho; a S. Joaneira, depois de falar da D. Maria da Assumpção que estava mal do catarro, ficou toda murcha, com a testa sobre o punho; Natario, a grandes passadas, fazia uma ventania na sala com as abas do casacão.

--E quando vem essa boda? exclamou ele, estacando subitamente diante de Amelia e do escrevente; que tomavam o chá sobre o piano.

--Um dia cedo, respondeu ela sorrindo.

Amaro então ergueu-se devagar, e tirando o seu cebolão:

--São horas de me ir chegando á rua das Sousas, minhas senhoras, disse com uma voz desalentada.

Mas a S. Joaneira não consentiu. Credo, estavam todos mônos como se estivessem de pêzames!... Que fizessem um quino para espairecer...--O cônego porém, saindo do seu torpor, disse com severidade:

--Está a senhora muito enganada, ninguém está môno. Não ha razões senão para estar alegre. Pois não é verdade, senhor noivo?

João Eduardo mexeu-se, sorriu:

--Eu cá por mim, senhor cônego, não tenho razão senão para estar feliz.

--Pois está claro, disse o cônego. E agora Deus lhes dê boas noites a todos, que eu vou quinar para Vale de lenções. E o Amaro também.

Amaro foi apertar silenciosamente a mão de Amelia,--e os três padres desceram calados.

Na saleta a vela ainda ardia com um murrão. O cônego entrou a buscar o seu guardachuva; e então, chamando os outros, cerrando devagarinho a porta, disse-lhes baixo:

--Eu, colegas, não quis assustar ha pouco a pobre senhora, mas essas coisas do chantre, esses falatórios... É o diabo!

--É ter cautelinha, meninos! aconselhou Natario, abafando a voz.

--É sério, é sério, murmurou lugubremente o padre Amaro.

Estavam de pé no meio da saleta. Fora o vento uivava: a luz da vela agitada fazia alternadamente destacar e reentrar na sombra do quadro o osso frontal da caveira: e em cima Amelia cantarolava a Chiquita.

Amaro recordava outras noites felizes em que ele, triunfante e sem cuidados, fazia rir as senhoras,--e Amelia, gorgeando Ai chiquita que si, revirava-lhe olhares rendidos...

--Eu, disse o cônego, os colegas sabem, tenho que comer e beber, não me importa... Mas é necessário manter a honra da classe!

--E não carece dúvida, acrescentou Natario, que se ha outro artigo e mais falatórios, estala com certeza o raio...

--Olha o pobre Brito, murmurou Amaro, esfogueteado para a serra!...

Em cima decerto houve alguma graça, porque sentiram as risadas do escrevente.

Amaro rosnou com rancor:

--Grande galhofa, lá em cima!...

Desceram. Ao abrir a porta uma rajada de vento bateu a face de Natario de uma chuva miudinha.

--Olha que noite! exclamou furioso.

Só o cônego tinha guardachuva; e abrindo-o devagar:

--Pois meninos, não ha que vêr, estamos em calças pardas...

Da janela de cima, alumiada, saiam os sons do piano, nos acompanhamentos da Chiquita. O cônego soprava, agarrando fortemente o guardachuva contra o vento; ao lado Natario, cheio de fel, rilhava os dentes, encolhido no seu casacão; Amaro caminhava de cabeça cahida, em um abatimento de derrota; e enquanto os três padres, assim agachados sob o guardachuva do cônego, iam chapinhando as poças pela rua tenebrosa, por traz a chuva penetrante e sonora ia-os ironicamente fustigando!

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