TOMO I — Capítulo I
TOMO I
Capítulo I
A heroica cidade dormia a sesta. O vento Sul, quente e preguiçoso, empurrava as nuvens esbranquiçadas, que se rasgavam ao correr para o Norte. Nas ruas não havia outro ruído além do rumor estridente dos redemoinhos de pó, trapos, palhas e papéis que iam de sarjeta em sarjeta, de calçada em calçada, de esquina em esquina, esvoaçando e perseguindo-se, como borboletas que se procuram e fogem e que o ar envolve em suas pregas invisíveis. Quais bandos de moleques, aquelas migalhas do lixo, aquelas sobras de tudo juntavam-se num monte, paravam como adormecidas por um instante e tornavam a saltar sobressaltadas, dispersando-se, algumas trepando pelas paredes até os vidros trêmulos dos lampiões, outras até os cartazes de papel mal colados nas esquinas; havia pena que chegava a um terceiro andar e areia fina que se incrustava por dias, ou por anos, na vidraça de uma vitrine, presa ao chumbo.
Vetusta, a muito nobre e leal cidade, corte em século remoto, fazia a digestão do cozido e da olla podrida e descansava, ouvindo entre sonhos o monótono e familiar zumbido do sino do coro, que retumbava lá no alto da esbelta torre da Santa Basílica. A torre da catedral, poema romântico de pedra, delicado hino de suaves linhas, de beleza muda e perene, era obra do século XVI, embora começada antes, de estilo gótico, mas, pode-se dizer, moderado por um instinto de prudência e harmonia que corrigia os exageros vulgares dessa arquitetura. A vista não se cansava de contemplar durante horas aquele indicador de pedra que apontava para o céu; não era uma dessas torres cuja agulha se quebra de tão fina, mais magras que esbeltas, afetadas como mocinhas de mau gosto que apertam demais o espartilho; era maciça sem perder nada de sua grandeza espiritual e, até as segundas galerias, elegante balaustrada, subia como fortaleza, lançando-se dali numa pirâmide de ângulo gracioso, inimitável em suas medidas e proporções. Como feixe de músculos e nervos, a pedra, enroscando-se na pedra, trepava às alturas, fazendo equilíbrios de acrobata no ar; e, como prodígio de malabarismo, numa ponta de calcário mantinha-se, como que imantada, uma grande esfera de bronze dourado, e em cima outra menor, e sobre esta uma cruz de ferro que terminava em para-raios.
Quando, nas grandes solenidades, o cabido mandava iluminar a torre com lanternas de papel e copos coloridos, aquela massa romântica destacava-se bem nas trevas; mas perdia com esses adornos a inefável elegância de seu perfil e tomava os contornos de uma enorme garrafa de champanhe. Melhor era contemplá-la numa clara noite de luar, recortando-se num céu puro, cercada de estrelas que pareciam sua auréola, dobrando-se em pregas de luz e sombra, fantasma gigante que velava pela cidade pequena e enegrecida que dormia a seus pés.
Bismarck, um ilustre malandro de Vetusta, chamado por essa alcunha entre os de sua classe, não se sabe por quê, empunhava a corda gasta atada ao formidável badalo da Wamba, o grande sino que chamava ao coro os muito veneráveis cônegos, cabido da catedral de preeminentes qualidades e privilégios.
Bismarck era de ofício boleeiro de diligência, era da chibata, como em Vetusta se chamavam os de sua condição; mas suas inclinações levavam-no aos campanários; e, por delegação de Celedonio, homem de igreja, acólito em funções de sineiro, embora também não efetivo, o ilustre diplomata da chibata desfrutava alguns dias a honra de despertar o venerando cabido de sua beatífica sesta, convocando-o às rezas e aos cânticos de sua peculiar incumbência.
O boleeiro, habitualmente brincalhão, alegre e turbulento, manejava o badalo da Wamba com a seriedade de um arúspice de boa-fé. Quando pousava para a hora do coro, como se dizia, Bismarck sentia em si algo da dignidade e da responsabilidade de um relógio.
Celedonio, com a batina negra, suja e puída colada ao corpo, estava debruçado numa janela, montado nela, e cuspia com desdém, pelo canto da boca, na pracinha; e, quando lhe dava na veneta, atirava pedrinhas em algum raro transeunte que lhe parecia do tamanho e da importância de um camundongo. Aquela altura subia à cabeça dos moleques e lhes inspirava profundo desprezo pelas coisas terrenas.
«Olha tu, Chiripa, que diz que pode mais do que eu!», disse o coroinha, quase cuspindo as palavras; e lançou meia batata assada e podre à rua, mirando um cônego, mas seguro de não acertá-lo.
«Que é que ele vai poder!», respondeu Bismarck, que no campanário adulava Celedonio e na rua o tratava a pontapés e lhe arrancava à força as chaves para subir e tocar as orações. «Tu podes mais que todos os boleeiros, menos eu.»
«Porque tu passas rasteira, espertalhão, e és maior.... Olha, rapaz, queres que eu acerte no senhor Magistral, que está entrando agora?»
«Tu o reconheces daí?»
«Claro, bobo; reconheço-o pelo jeito de sacudir as capas. Olha, vem cá. Não vês como, ao andar, elas saem para trás e para a frente? É por causa da prosápia que ele tem. Já dizia outro dia o senhor Custodio, o beneficiado, a D. Pedro, o sineiro: “Esse D. Fermín tem mais orgulho que D. Rodrigo na forca”, e D. Pedro ria; e, olha, o outro disse depois, quando D. Fermín já tinha passado: “Anda, anda, belo moço, que bem se vê o ruge!”. Que te parece, rapaz? Pinta o rosto.»
Bismarck negou a pintura. Era que D. Custodio tinha inveja. Se Bismarck fosse cônego e dignidade, pois acreditava que o Magistral o fosse, em vez de boleeiro, com uma alcunha tirada das caixas de fósforos, faria mais pose que um rapazola. Pois claro. E, se fosse sineiro, o de verdade, isto é, D. Pedro... ai, meu Deus! então só falaria com o Bispo e com o senhor Roque, o maioral do correio.
«Pois, rapaz, não sabes de nada, porque o beneficiado dizia que na igreja é preciso ser humilde, como quem diz, rebaixar-se diante das pessoas, encolher-se, e aguentar uma bofetada se vier a calhar; e, senão, aí está o Papa, que é... não sei como ele disse... assim... uma coisa como... o criado de todos os criados.»
«Isso será da boca para fora», replicou Bismarck. «Olha só o Papa, que manda mais que o rei! E eu o vi pintado, num santão enorme, sentado em seu carro, que era como uma poltrona, e, em vez de mulas, quem o puxava era uma parelha de carcas, isto é, padres, segundo Bismarck, e ainda por cima iam espantando as moscas dele com um guarda-chuva, que parecia coisa de teatro... homem... como se eu não soubesse!»
O debate esquentou. Celedonio defendia os costumes da Igreja primitiva; Bismarck era partidário de todos os esplendores do culto. Celedonio ameaçou o sineiro interino de pedir-lhe a demissão. O da chibata aludiu veladamente a certas bofetadas prováveis quando descessem. Mas um sino que tocou num telhado da catedral chamou-os à ordem.
«O Laudes!», gritou Celedonio. «Toca, estão avisando.»
E Bismarck empunhou a corda e açoitou o metal com a cabeça do formidável badalo.
O ar tremeu, e o boleeiro fechou os olhos, enquanto Celedonio ostentava sua serenidade imperturbável, ouvindo, como se estivesse a duas léguas, as badaladas graves, poderosas, que o vento arrebatava da torre para levar suas vibrações por cima de Vetusta até a serra vizinha e os vastos campos, que brilhavam ao longe, todos verdes, em cem matizes.
Começava o outono. Os prados renasciam; a erva crescera fresca e vigorosa com as últimas chuvas de setembro. Os castanhais, carvalhais e pomares que se estendiam, espalhados por baixadas e encostas, ao longo do largo vale, destacavam-se sobre os prados e milharais em tons escuros; a palha do trigo, escasso, amarelecia entre tanta verdura. As casas de lavoura e algumas chácaras de recreio, todas brancas, disseminadas pela serra e pelo vale, refletiam a luz como espelhos. Aquele verde esplendoroso, com cambiantes dourados e prateados, apagava-se na serra, como se uma nuvem invisível cobrisse de sombra sua vertente e seu cume, e uma tonalidade avermelhada aparecia entre as clareiras da vegetação, menos vigorosa e variada que no vale. A serra ficava a noroeste e, pelo sul, que a vista encontrava livre, o horizonte afastava-se, marcado por silhuetas de montanhas desvanecidas na névoa, que ofuscava como poeira luminosa. Ao norte adivinhava-se o mar atrás do arco perfeito do horizonte, sob um céu limpo, sulcado, como por navios, por leves nuvenzinhas de um dourado pálido. Um farrapo da mais leve parecia a lua, apagada, flutuando entre elas no azul esbranquiçado.
Perto da cidade, nos arredores, o cultivo mais intenso, de melhor adubação, muito variado e cuidadoso, produzia na terra tons de cores sem nome exato, desenhando-se sobre o fundo castanho-escuro do solo constantemente revolvido e bem regado.
Alguém subia pela escada em caracol. Os dois moleques olharam um para o outro, estupefatos. Quem era o ousado?
«Será Chiripa?», perguntou Celedonio, entre irritado e temeroso.
«Não; é um carca. Não ouves a capa?»
Bismarck tinha razão; o roçar do tecido na pedra produzia um rumor sibilante, como o de uma voz abafada que impusesse silêncio. A capa apareceu pelo alçapão; era a de D. Fermín de Pas, Magistral daquela santa igreja catedral e provisor do Bispo. O boleeiro sentiu calafrios. Pensou:
«Será que vem nos bater?»
Não havia motivo, mas isso não importava. Ele vivia acostumado a receber bofetadas e pontapés sem saber por quê. Todo poderoso, e para ele D. Fermín era uma das personagens mais empoleiradas, Bismarck imaginava usando e abusando da autoridade de distribuir tabefes. Não discutia a legitimidade dessa prerrogativa; limitava-se a fugir dos grandes da terra, entre os quais figuravam os sacristãos e os policiais. Conformava-se com essa lei, cujos efeitos procurava evitar. Se ele próprio fosse senhor, alcaide, cônego, encanador, guarda do Jardim Botânico, empregado das barreiras, vigia noturno, alguma coisa grande, enfim, faria o mesmo. Que pontapés daria! Não passava de Bismarck, um boleeiro, e conhecia seu ofício: fugir dos figurões de Vetusta.
Mas ali não havia como escapar. Ou se atirava por uma janela, ou esperava a tempestade. A escada em caracol estava bloqueada pelo cônego. Bismarck não teve outro recurso senão encolher-se, esconder-se atrás da Wamba, empoleirado numa viga, e aguardar assim os acontecimentos.
Celedonio não estranhava aquela visita. Lembrava-se de ter visto muitas tardes o senhor Magistral subir à torre antes ou depois do coro.
Que ia fazer ali aquele senhor tão respeitável? Era isso que os olhos do boleeiro perguntavam aos do acólito. Celedonio também sabia, mas calava e sorria, comprazendo-se no pavor do amigo.
O porte altivo do coroinha convertera-se numa atitude humilde. Seu rosto revestira-se de repente da expressão oficial. Celedonio tinha doze ou treze anos e já sabia ajustar os músculos da cara achatada às exigências da liturgia. Seus olhos eram grandes, de um castanho sujo, e, quando o velhaco se julgava em funções eclesiásticas, movia-os com afetação, de baixo para cima, de cima para baixo, imitando muitos sacerdotes e beatas que conhecia e com quem tratava.
Mas, sem o perceber, dava ao olhar uma intenção lúbrica e cínica, como uma meretriz de viela que anuncia seu triste comércio com os olhos, sem que a polícia possa reivindicar os direitos da moral pública. A boca muito aberta e desdentada acompanhava, à sua maneira, os esgares dos olhos; e Celedonio, em sua expressão de humildade beatífica, passava do feio tolerável ao feio repugnante.
Assim como nas meninas de sua idade se anunciam, em esboços de contornos túrgidos, as elegantes linhas do sexo, no acólito sem ordens podia-se adivinhar a futura e próxima perversão dos instintos naturais, já provocada pelas aberrações de uma educação torta. Quando queria imitar, sob a batina manchada de cera, os movimentos compassados e ondulantes de D. Anacleto, familiar do Bispo, julgando assim manifestar sua vocação, Celedonio movia-se e gesticulava como fêmea desavergonhada, sereia de quartel. Isso já fora notado pelo Palomo, empregado leigo da Catedral, chamado, pelo mau nome de seu ofício, apanhador de cães. Mas não se atrevera a comunicar suas apreensões a superior algum, obedecendo a um critério graças ao qual desempenhara durante trinta anos seguidos, com dignidade e prestígio, suas complexas funções de limpeza e vigilância.
Na presença do Magistral, Celedonio cruzara os braços e inclinara a cabeça, depois de desmontar da janela. Aquele D. Fermín que lá embaixo, na rua da Rúa, parecia um escaravelho, como se mostrava grande agora aos olhos humilhados do coroinha e aos olhos aterrorizados de seu companheiro! Celedonio mal chegava à cintura do cônego. Via diante de si a batina lisa, de pregas esculturais, retas, simétricas, uma batina de meia-estação, de rico castor fino, e sobre ela flutuava a capa de seda, abundante, cheia de pregas e volteios.
Bismarck, atrás da Wamba, via do cônego apenas a parte inferior e a admirava. Aquilo é que era distinção! Nem uma mancha! Os pés pareciam os de uma dama; calçavam meias roxas, como se fossem de Bispo; e os sapatos eram de feitura esmerada e couro muito fino, ostentando fivela de prata, simples mas elegante, que ficava muito bem sobre a cor da meia.
Se os moleques tivessem ousado olhar D. Fermín cara a cara, tê-lo-iam visto, ao aparecer no campanário, sério, de cenho carregado; ao notar a presença dos sineiros, levemente perturbado; e logo sorridente, com uma suavidade escorregadia no olhar e uma bondade estereotipada nos lábios. O boleeiro tinha razão. De Pas não se pintava. Parecia antes estucado. Com efeito, sua tez branca tinha os reflexos do estuque. Nas maçãs do rosto, um tanto salientes, o bastante para dar energia e expressão característica à face sem enfeiá-la, havia um leve rubor que às vezes tendia à cor do colarinho clerical e das meias. Não era pintura, nem a cor da saúde, nem anúncio do álcool; era o vermelho que brota nas faces ao calor de palavras de amor ou de vergonha pronunciadas perto delas, palavras que parecem ímãs atraindo o ferro do sangue. Essa espécie de congestão também é causada pelo orgasmo de pensamentos do mesmo gênero. Nos olhos do Magistral, verdes, com pintas que pareciam pó de rapé, o mais notável era a suavidade de líquen; mas, em certas ocasiões, do meio daquela gordura pegajosa saía um fulgor agudo, surpresa desagradável como uma agulha numa almofada de penas. Poucos resistiam àquele olhar; a uns causava medo, a outros, repugnância; mas, quando algum audaz o suportava, o Magistral o humilhava, cobrindo-o com a cortina carnosa de pálpebras largas, grossas, insignificantes, como é sempre a carne informe. O nariz comprido, reto, sem correção nem dignidade, também tinha carne em excesso na extremidade e inclinava-se como árvore sob o excesso de frutos. Aquele nariz era a parte morta daquele rosto todo expressão, embora escrito em grego, pois não era fácil ler e traduzir o que o Magistral sentia e pensava. Os lábios longos e delgados, finos, pálidos, pareciam obrigados a viver comprimidos pelo queixo, que tendia a subir, ameaçando, na velhice ainda distante, estabelecer relações com a ponta do nariz claudicante. Por então, esse defeito não dava ao rosto aparência de velhice, mas uma expressão de prudência que roçava a hipocrisia covarde e anunciava egoísmo frio e calculista. Podia-se garantir que aqueles lábios guardavam como um tesouro a melhor palavra, aquela que jamais se pronuncia. O queixo pontudo e rebelde parecia o cadeado desse tesouro. A cabeça pequena e bem formada, de espesso cabelo negro muito aparado, repousava sobre um pescoço robusto, branco, de músculos rijos, pescoço de atleta, proporcionado ao tronco e aos membros do corpulento cônego, que teria sido em sua aldeia o melhor jogador de boliche, o moço mais disputado; e, vestindo sobrecasaca cintada, o mais garboso conquistador das ruas de Vetusta.
Como se tratasse de uma personagem importante, o Magistral cumprimentou Celedonio, dobrando graciosamente o corpo e estendendo-lhe a mão direita, branca, fina, de dedos muito afilados, não menos cuidada do que se fosse a de uma senhora aristocrática. Celedonio respondeu com uma genuflexão das que se fazem ao ajudar na missa.
Bismarck, escondido, viu com espanto que o cônego tirava de um bolso interior da batina um tubo que lhe pareceu de ouro. Viu que o tubo se deixava esticar como se fosse de borracha e se convertia em dois, depois em três, todos seguidos e unidos. Sem dúvida aquilo era um pequeno canhão, suficiente para acabar com um boleeiro tão insignificante quanto ele. Não; era um fuzil, pois o Magistral o aproximava do rosto e fazia pontaria. Bismarck respirou: aquele disparo não se destinava à sua pessoinha; o carca apontava para a rua, debruçado numa janela. O acólito, na ponta dos pés, sem fazer ruído, aproximara-se por trás do Provisor e procurava acompanhar a direção da luneta. Celedonio era um coroinha vivido, entrava como amigo de confiança nas melhores casas de Vetusta e, se soubesse que Bismarck tomava uma luneta por fuzil, riria na cara dele.
Um dos recreios solitários de D. Fermín de Pas consistia em subir às alturas. Era montanhês e, por instinto, buscava os cumes das montanhas e os campanários das igrejas. Em todos os países que visitara subira à montanha mais alta e, se não as havia, à torre mais soberba. Não se dava por inteirado de coisa alguma que não visse a voo de pássaro, abrangendo-a por completo e de cima. Quando ia às aldeias acompanhando o Bispo em sua visita, sempre precisava empreender, a pé ou a cavalo, como fosse possível, uma excursão ao ponto mais elevado. Na província cuja capital era Vetusta abundavam por toda parte montanhas que se perdiam entre nuvens; pois às mais árduas e elevadas subia o Magistral, deixando para trás o caminhante mais robusto, o montanhês mais experiente. Quanto mais subia, mais ansiava subir; em vez de cansaço, sentia uma febre que dava vigor de aço às pernas e alento de forja aos pulmões. Chegar ao ponto mais alto era para De Pas um triunfo voluptuoso. Ver muitas léguas de terra, divisar o mar distante, contemplar a seus pés as aldeias como se fossem brinquedos, imaginar os homens como infusórios, ver passar uma águia ou um milhafre, conforme o lugar, abaixo de seus olhos, mostrando-lhe o dorso dourado pelo sol, olhar as nuvens de cima, eram prazeres intensos para seu espírito altivo, e De Pas os procurava sempre que podia. Então, sim, havia fogo em suas faces e dardos nos olhos. Em Vetusta não podia saciar essa paixão; precisava contentar-se em subir algumas vezes à torre da catedral. Costumava fazê-lo à hora do coro, pela manhã ou à tarde, conforme lhe convinha. Celedonio, que certa vez, aproveitando uma distração, olhara pela luneta do Provisor, sabia que ela tinha poderosa aproximação; das segundas galerias, muito mais altas que o campanário, vira perfeitamente a Regenta, uma senhora belíssima, passeando e lendo um livro em seu jardim, chamado Parque dos Ozores; sim, senhor, vira-a como se pudesse tocá-la com a mão, e isso apesar de o palácio dela ficar no recanto da Praça Nova, bastante longe da torre, pois havia no meio a pracinha da catedral, a rua da Rúa e a de San Pelayo. E mais: com aquela luneta via-se uma parte do bilhar do Casino, que ficava junto à igreja de Santa María; e ele, Celedonio, vira as bolas de marfim rolarem pela mesa. E sem a luneta, ora essa! mal se enxergava a sacada, como uma janelinha de gaiola. Enquanto o acólito falava assim, em voz baixa, com Bismarck, que se atrevera a aproximar-se, seguro de que não havia perigo, o Magistral, esquecido dos sineiros, passeava lentamente o olhar pela cidade, esquadrinhando-lhe os recantos, erguendo com a imaginação os telhados, aplicando o espírito àquela inspeção minuciosa, como o naturalista estuda com poderoso microscópio as pequenezas dos corpos. Não olhava os campos, não contemplava a distância de montanhas e nuvens; seus olhos não saíam da cidade.
Vetusta era sua paixão e sua presa. Enquanto os outros o tinham por sábio teólogo, filósofo e jurisconsulto, ele estimava acima de todas a sua ciência de Vetusta. Conhecia-a palmo a palmo, por dentro e por fora, pela alma e pelo corpo; esquadrinhara os recantos das consciências e os recantos das casas. O que sentia diante da heroica cidade era gula; fazia-lhe a anatomia, não como o fisiologista que só quer estudar, mas como o gastrônomo que procura os bocados saborosos; não aplicava o escalpelo, e sim o trinchante.
E já era bastante resignação contentar-se, por enquanto, com Vetusta. De Pas sonhara com destinos mais altos e ainda não renunciara a eles. Como recordações de um poema heroico lido com entusiasmo na juventude, guardava na memória quadros brilhantes que a ambição pintara em sua fantasia; neles se contemplava oficiando de pontifical em Toledo e assistindo em Roma a um conclave de cardeais. Nem a tiara lhe teria parecido larga demais; tudo dependia do caminho; o importante era continuar andando. Mas esses sonhos, à medida que o tempo passava, tornavam-se cada vez mais vaporosos, como se se afastassem. «Assim são as perspectivas da esperança», pensava o Magistral; «quanto mais nos aproximamos do termo de nossa ambição, mais distante parece o objeto desejado, porque não está no futuro, mas no passado; o que vemos adiante é um espelho que reflete o quadro sonhado que ficou para trás, no dia longínquo do sonho...» Não renunciava a subir, a chegar o mais alto que pudesse, mas a cada dia pensava menos nessas vaguezas da ambição de longo prazo, próprias da juventude. Chegara aos trinta e cinco anos, e a cobiça do poder era mais forte e menos idealista; contentava-se com menos, mas queria-o com mais força, precisava tê-lo mais perto; era a fome que não espera, a sede do deserto que queima e se satisfaz na poça impura, sem aguardar a descoberta da fonte distante, em lugar desconhecido.
Sem confessá-lo a si mesmo, sentia às vezes desfalecimentos da vontade e da fé em si, que lhe davam calafrios; pensava, nesses momentos, que talvez jamais fosse nada daquilo a que aspirara, que talvez o limite de sua carreira fosse o estado atual ou um mau bispado na velhice, verdadeiro sarcasmo. Quando essas ideias o assaltavam, para vencê-las e esquecê-las entregava-se com furor ao gozo do presente, ao poder que tinha nas mãos; devorava sua presa, a Vetusta levítica, como o leão enjaulado devora os pedaços miseráveis de carne que o domador lhe atira.
Concentrada então sua ambição num ponto concreto e tangível, tornava-se muito mais intensa; a energia de sua vontade não encontrava em toda a diocese obstáculo capaz de resistir-lhe. Ele era o senhor do senhor. Tinha o Bispo numa garra, prisioneiro voluntário que nem sequer percebia as próprias cadeias. Em tais dias, o Provisor era um furacão eclesiástico, um castigo bíblico, um flagelo de Deus sancionado por Sua Ilustríssima.
Essas crises de ânimo costumavam ser provocadas por notícias de pessoal: a nomeação de um Bispo jovem, por exemplo. Fazia suas contas: estava muito atrasado, não poderia chegar a certas grandezas da hierarquia. Era o que pensava, enquanto o beneficiado D. Custodio o odiava principalmente porque era Magistral desde os trinta anos.
D. Fermín contemplava a cidade. Era uma presa que lhe disputavam, mas que ele acabaria devorando sozinho. Como! Também aquele mesquinho império lhe haveriam de arrancar? Não; era seu. Ganhara-o em boa luta. Para que eram tolos? Ao Magistral também a altura subia à cabeça; ele também via os vetustenses como escaravelhos; suas moradias velhas, enegrecidas e achatadas, que os cidadãos vaidosos julgavam palácios, eram tocas, cavernas, montes de terra, obra de toupeira.... Que haviam feito os donos daqueles palácios velhos e arruinados da Encimada que ele tinha ali a seus pés? Que haviam feito? Herdar. E ele? Que fizera? Conquistar. Quando era a ambição juvenil que lhe crepitava na alma, D. Fermín achava estreito o recinto de Vetusta; ele, que pregara em Roma, que por breve tempo farejara e saboreara o incenso do louvor em regiões muito altas, julgava-se preterido na catedral vetustense. Mas outras vezes, na maioria delas, era a lembrança de seus sonhos de menino, precoce em ambicionar, que o assaltava; e então via naquela cidade humilhada ao redor de seus pés a culminação de seus desejos mais loucos. Era uma espécie de prazer material, pensava De Pas, o que sentia ao comparar suas ilusões de infância com a realidade presente. Se na juventude sonhara coisas muito mais altas, seu domínio atual parecia a terra prometida às cismas da meninice, cheia de tardes solitárias e melancólicas nas pradarias das montanhas. O Magistral começava a desprezar um pouco os anos de sua juventude próxima; às vezes seus devaneios lhe pareciam ridículos, e a consciência não se comprazia em repassar todos os atos daquela época de paixões concentradas, pouco e mal satisfeitas. Na maior parte das vezes preferia recrear o espírito contemplando o passado na região mais remota da memória; a infância o enternecia, a juventude o desagradava como a lembrança de uma mulher que foi muito amada, que nos fez cometer mil loucuras e hoje nos parece digna de esquecimento e desprezo. Aquilo a que chamava prazer material, e que tinha muito de pueril, era o consolo de sua alma nos frequentes abatimentos do ânimo.
O Magistral fora pastor nas montanhas de Tarsa, e era ele, o mesmo que agora mandava à sua maneira em Vetusta! Nesse salto da imaginação estava a essência daquele prazer intenso, infantil e material que De Pas gozava como um pecado de luxúria.
Quantas vezes, no púlpito, com a alva sobrepeliz, cândida e engomada, cingindo-lhe o corpo robusto e elegante sob a senhoril murça, vendo lá embaixo, no rosto de todos os fiéis, a admiração e o encantamento, tivera de suspender o voo de sua eloquência porque o prazer o sufocava e lhe cortava a voz na garganta! Enquanto o auditório esperava em silêncio, quase sem respirar, que a emoção religiosa permitisse ao orador continuar, ele ouvia, como em êxtase de autolatria, o crepitar dos círios e das lâmpadas; aspirava com estranha voluptuosidade o ar embalsamado pelo incenso da capela-mor e pelas emanações quentes e aromáticas que subiam das damas ao redor; sentia, como murmúrio da brisa nas folhas de um bosque, o contido roçar da seda, o bater dos leques; e naquele silêncio da atenção que esperava, delirante, julgava compreender e saboreava uma adoração muda que subia até ele; e tinha certeza de que naquele momento os fiéis pensavam no orador esbelto, elegante, de voz melodiosa e gestos corretos, a quem ouviam e viam, não no Deus de quem ele lhes falava. Então, sem que pudesse afastá-las, apresentavam-se-lhe as lembranças da infância nas montanhas; aquelas tardes de sua vida de pastor melancólico e meditativo. Horas e horas, até o crepúsculo, passava sonhando acordado num cume, ouvindo os chocalhos do gado espalhado pela elevação; e com que sonhava? Que lá, lá embaixo, no vasto mundo, muito longe, havia uma cidade imensa, como cem vezes a aldeia de Tarsa, e ainda maior; aquela cidade chamava-se Vetusta, era muito maior que San Gil de la Llana, a sede do distrito, que ele tampouco vira. Na grande cidade colocava maravilhas que lisonjeavam os sentidos e enchiam a solidão de seu espírito inquieto. Entre aquela infância ignorante e visionária e o momento em que se contemplava pregador não havia intervalo; via-se menino e via-se Magistral: o presente era a realidade do sonho da infância, e disso gozava.
Emoções semelhantes ocupavam-lhe a alma enquanto a luneta, refletindo em vivos clarões os raios do sol, movia-se lentamente, fazendo a linha de visão passar de telhado em telhado, de janela em janela, de jardim em jardim.
Ao redor da catedral estendia-se, numa faixa estreita, o recinto primitivo de Vetusta. Compreendia o que se chamava bairro da Encimada e dominava toda a cidade, que se fora alongando para noroeste e sudeste. Da torre viam-se, em alguns pátios e jardins de casas velhas e ruinosas, restos da antiga muralha, convertidos em terraços ou paredes divisórias entre hortas e currais. A Encimada era o bairro nobre e o bairro pobre de Vetusta. Os de linhagem mais alta e os mais esfarrapados viviam ali, perto uns dos outros, aqueles folgadamente, estes amontoados. O bom vetustense era da Encimada. Alguns presunçosos estimavam muito a propriedade de uma casa, por miserável que fosse, na parte alta da cidade, à sombra da catedral, de Santa María la Mayor ou de San Pedro, as duas antiquíssimas igrejas vizinhas da Basílica, paróquias entre as quais se dividia o nobre território da Encimada. O Magistral via a seus pés o bairro de linhagem, composto de casarões com pretensões de palácio; conventos grandes como povoados; e casebres onde se amontoava a plebe vetustense, pobre demais para morar nos bairros novos lá embaixo, no Campo del Sol, a sudeste, onde a Fábrica Velha erguia suas augustas chaminés, em torno das quais surgira um povo de operários. Quase todas as ruas da Encimada eram estreitas, tortuosas, úmidas, sem sol; em algumas crescia erva; a limpeza daquelas em que predominava a vizinhança nobre, ou ao menos com tais pretensões, era triste, quase miserável, como a limpeza das cozinhas pobres dos asilos; parecia que a vassoura municipal e a vassoura da nobreza asseada haviam deixado naquelas pracinhas e vielas as marcas que a escova deixa no pano puído. Havia por ali pouquíssimas lojas, e nada vistosas. Da torre via-se a história das classes privilegiadas contada por pedras e adobes no recinto velho de Vetusta. A igreja antes de tudo: os conventos ocupavam quase metade do terreno; Santo Domingo sozinho tomava a quinta parte da área total da Encimada; em tamanho seguia-se o das Recoletas, onde, no tempo da Revolução de Setembro, haviam sido reunidas duas comunidades de freiras, que juntas eram dez e ocupavam, com convento e horta, a sexta parte do bairro. É verdade que San Vicente fora convertido em quartel e dentro de seus muros retumbava a voz indiscreta da corneta, profanação constante do sagrado silêncio secular; do convento pomposo e plateresco das Clarissas o Estado fizera um edifício para toda sorte de repartições; e San Benito era uma prisão lúgubre de delinquentes mal guardados. Tudo isso era triste; mas o Magistral, que via, com amargura nos lábios, esses despojos eloquentemente representados pela luneta, podia abrir o peito ao consolo e à esperança contemplando, fora do bairro nobre, a oeste e ao norte, sinais gráficos da fé renascida, nos arredores de Vetusta, onde a piedade construía novas moradas para a vida conventual, mais luxuosas e elegantes que as antigas, embora não tão sólidas nem tão grandes. A Revolução derrubara, roubara; mas a Restauração, que não podia restituir, alentava o espírito que reedificava, e as Irmãzinhas dos Pobres já haviam coroado o edifício de sua propriedade, xícara de prata que brilhava perto do Espolón, a oeste, não longe dos palácios e chalés da Colônia, isto é, o bairro novo de americanos e comerciantes do reino. Ao norte, entre prados de veludo cerrado, de verde escuro e forte, erguia-se a construção branca que as Salesas levantavam com somas fabulosas, por ora encurraladas dentro de Vetusta, perto dos despejos da Encimada, quase sepultadas nos esgotos, numa casa velha que tinha por igreja um oratório mesquinho. Ali, como em nichos, habitavam as herdeiras de muitas famílias ricas e nobres; em obséquio ao Crucificado, haviam abandonado o conforto de seus palácios largos e cômodos lá em cima pela estreiteza insalubre daquela pocilga, enquanto pais, irmãos e outros parentes regalavam o corpo preguiçoso na amplidão dos casarões tristes, mas espaçosos, da Encimada. Não era apenas a igreja que podia espreguiçar-se e esticar as pernas no recinto da Vetusta de cima; também os herdeiros de pergaminhos e solares haviam tomado para si grandes quadras, jardins e hortas que, em relação à área da cidade, podiam passar por bosques, e que de fato se chamavam, com certa hipérbole, parques, quando eram tão extensos quanto o dos Ozores e o dos Vegallana. E, enquanto não só aos conventos e palácios, mas também às árvores, se deixava campo aberto para alongar-se e alargar-se à vontade, os míseros plebeus que, de tão pobres, não haviam podido fugir às cotoveladas do egoísmo nobre ou regular viviam amontoados em casas de terra que o município obrigava a cobrir com uma camada de cal; e era de ver como aquelas casinhas, apinhadas, encaixavam-se umas nas outras, saltavam umas sobre as outras e metiam os telhados pelos olhos, isto é, pelas janelas. Pareciam um rebanho de reses travessas que, apertadas num caminho, saltam e se empoleiram no lombo das que encontram pela frente.
Apesar dessa injustiça distributiva que D. Fermín tinha sob os olhos, sem que ela o irritasse, o bom cônego amava acima de todos o bairro da catedral, aquele filho predileto da Basílica. A Encimada era seu império natural, a metrópole do poder espiritual que exercia. A fumaça e os apitos da fábrica faziam-no dirigir olhares desconfiados ao Campo del Sol; ali viviam os rebeldes, os trabalhadores sujos, negros do carvão e do ferro amassados com suor; os que ouviam de boca aberta os energúmenos que lhes pregavam igualdade, federação, partilha, mil absurdos, e não queriam ouvi-lo quando lhes falava de prêmios celestiais, de reparações além-túmulo. Não era que ali não tivesse influência alguma, mas exercia-a sobre os menos numerosos. É certo que, quando ali a crença pura, a fé católica, criava raízes, eram raízes robustas, como correntes de ferro. Mas, se morria um operário bom e crente, nasciam dois, três, que jamais ouviriam falar de resignação, lealdade, fé e obediência. O Magistral não se iludia. O Campo del Sol escapava-lhes. As mulheres defendiam ali as últimas trincheiras. Pouco antes do dia em que De Pas assim meditava, várias moradoras do bairro operário haviam querido matar a pedradas um forasteiro que se intitulava pastor protestante; mas esses excessos, esses paroxismos da fé moribunda entristeciam o Magistral mais do que o animavam. Não, aquela fumaça não era de incenso; subia às alturas, mas não ia ao céu; aqueles apitos das máquinas lhe pareciam zombeteiros, assobios de sátira, assobios de chicote. Até aquelas chaminés finas e compridas, como monumentos de uma idolatria, pareciam paródias das agulhas das igrejas....
O Magistral voltava a luneta para noroeste; ali estava a Colônia, a Vetusta novíssima, traçada a régua, deslumbrante de cores vivas com reflexos de aço; parecia um pássaro das florestas da América ou uma índia bravia adornada de plumas e fitas de tons discordantes.
Igualdade geométrica, desigualdade e anarquia cromáticas. Nos telhados, todas as cores do arco-íris, como nos muros de Ecbátana; galerias envidraçadas roubando aos edifícios, por toda parte, a esbelteza que se poderia supor neles; ostentações inoportunas de pedra, solidez afetada, luxo vociferante. A cidade do sonho de um indiano mistura-se à cidade de um usurário ou de um negociante de tecidos ou farinhas que permanecem e edificam acordados. Uma pneumonia possível por causa de uma parede mestra economizada; um incômodo certo em troca de uma suntuosidade ridícula. Mas não importa: o Magistral não presta atenção a nada disso; vê ali apenas riqueza, um Peru em miniatura, do qual pretende ser o Pizarro espiritual. E já começa a sê-lo. Os indianos da Colônia, que na América ouviram pouquíssimas missas, em Vetusta voltam, como a uma pátria, à piedade dos antepassados: a religião, com as formas aprendidas na infância, é para eles uma das doces promessas daquela Espanha que viam em sonhos do outro lado do mar. Além disso, os indianos não querem nada que não seja de bom-tom, que cheire a plebeu ou possa sequer recordar as origens humildes da estirpe; em Vetusta, os descrentes não passam de quatro malandros que não têm onde cair mortos; todas as pessoas abastadas creem e praticam, como se diz agora. Páez, D. Frutos Redondo, os Jacas, Antolínez, os Argumosa e muitos outros ilustres Américos Vespúcios do bairro da Colônia seguem escrupulosamente, até onde conseguem, os costumes distintos dos Corujedo, Vegallana, Membibre, Ozores, Carraspique e demais famílias nobres da Encimada, que se prezam de muito bons e antiquíssimos cristãos. E, se os Páez, os Redondo etc. não o fizessem por impulso próprio, suas respectivas esposas, filhas e demais parentes do sexo frágil obrigá-los-iam a imitar na religião, como em tudo, as maneiras, ideias e palavras da invejada aristocracia. Por tudo isso, o Provisor olha o bairro do noroeste com mais cobiça do que antipatia; se ali há muitos espíritos que ainda não sondou, se há muita terra a descobrir naquela América abreviada, as explorações feitas e as feitorias estabelecidas deram muito bom resultado, e D. Fermín não desespera de levar a luz da fé mais depurada, e com ela sua influência natural, a todos os recantos das casas bem alinhadas da Colônia, cujos telhados o município medira por uma só régua.
Entretanto, De Pas voltava amorosamente a linha de visão da luneta para sua querida Encimada, a nobre, a velha, a amontoada à sombra da soberba torre. Uma a leste, outra a oeste, tinha ali embaixo, como que fazendo guarda de honra à catedral, as duas igrejas antiquíssimas que talvez a tivessem visto nascer ou ao menos passar a grandezas e esplendores que elas jamais alcançaram. Chamavam-se, como já se disse, Santa María e San Pedro; sua história anda escrita nas velhas crônicas da Reconquista, e gloriosamente apodrecem pouco a pouco, vítimas da umidade e reduzidas a pó pelos séculos. Ao redor de Santa María e San Pedro há, espalhadas por becos e pracinhas, casas solarengas cuja maior glória seria poder proclamar-se contemporâneas dos templos em ruínas. Mas não podem, porque a relativa juventude desses casarões é denunciada por sua arquitetura, que revela o mau gosto decadente, pesado ou sobrecarregado, de séculos muito posteriores. A pedra de todos esses edifícios está enegrecida pelos rigores do tempo, que em Vetusta, a úmida, não deixa nada claro por muito tempo nem consente brancura duradoura.
D. Saturnino Bermúdez, que jurava possuir documentos capazes de provar a qualquer entendido em heráldica que seu Bermúdez lhe vinha do próprio rei Bermudo, era o maior especialista em contar a história de cada um daqueles casarões, que considerava outras tantas glórias nacionais. Toda vez que algum governo municipal radical empreendia, ou apenas projetava, a demolição de certas ruínas ou a desapropriação de algum terreno por utilidade pública, D. Saturnino punha o grito no céu e publicava em El Lábaro, órgão dos ultramontanos de Vetusta, longos artigos que ninguém lia e que o prefeito, se os tivesse lido, não teria entendido; neles elevava às nuvens o mérito arqueológico de cada tabique e, se se tratava de uma parede mestra, demonstrava que era todo um monumento. Não há dúvida de que o senhor D. Saturnino, ainda que pelo bem da arte, mentia não pouco e abusava do românico e do mudéjar. Para ele tudo era mudéjar ou, quando não, românico; e mais de uma vez fez remontar aos tempos de Fruela os alicerces de uma parede construída por algum modesto pedreiro ainda vivo. Esses lapsos do erudito não feriam sua reputação, porque os poucos que podiam descobri-los consideravam-nos exageros piedosos, anacronismos beneméritos, e os demais vetustenses não liam nada daquilo. Nem por isso o sábio deixava de pôr em campo a retórica em que acreditava, ostentando imagens audaciosas, figuras de grande energia, entre as quais sobressaíam as personificações mais temerárias e as epanadiploses mais cadenciadas: as muralhas falavam como livros e costumavam dizer: «tremem meus alicerces e minhas ameias tremem»; houve até uma porta de cocheira que fez chorar com seus discursos patéticos; por isso o artigo do arqueólogo costumava terminar dizendo: «Enfim, senhores da comissão de obras, sunt lacrimae rerum!».
Mais de meia hora passou o Magistral em seu observatório naquela tarde. Cansado de olhar, ou não podendo ver o que procurava lá para os lados da Praça Nova, para onde a luneta voltava constantemente, afastou-se da janela, reduziu o instrumento óptico ao tamanho mínimo, guardou-o cuidadosamente no bolso e, saudando os sineiros com a mão e a cabeça, desceu pela escada de pedra em caracol com o passo majestoso de antes. Assim que abriu a porta da torre e se encontrou na nave norte da igreja, recuperou o sorriso imóvel, expressão habitual de seu rosto, cruzou as mãos sobre o ventre, inclinou um pouco para a frente, com certa languidez entre mística e romântica, a cabeça bem modelada e, mais do que andar, deslizou sobre o mármore do pavimento, que formava um tabuleiro de damas, branco e negro. Pelas janelas altas e pelas rosáceas do arco toral e dos laterais entravam feixes de luz de muitas cores, que imitavam pedaços do arco-íris dentro das naves. A capa que o cônego movia ao ritmo dos passos e com suave meneio ia tomando em suas largas pregas, ao flutuar quase rente ao pavimento, cambiantes de penas de faisão; outras vezes parecia cauda de pavão; algumas faixas de luz trepavam até o rosto do Magistral e ora o tingiam de um verde pálido esbranquiçado, como planta de sombra, ora lhe davam a aparência viscosa de uma planta submarina, ora a palidez de um cadáver.
Na grande nave central, atrás do coro, havia pouquíssimos fiéis, espalhados a muita distância; nas capelas laterais, abertas nos grossos muros e mergulhadas em sombras, mal se viam grupos de mulheres ajoelhadas ou sentadas sobre os calcanhares, rodeando os confessionários. Aqui e ali ouvia-se o leve rumor da conversa secreta de um sacerdote e uma devota no tribunal da penitência. Na segunda capela do norte, a mais escura, D. Fermín distinguiu duas senhoras que falavam em voz baixa. Seguiu adiante. Elas quiseram ir atrás dele, chamá-lo, mas não se atreveram. Esperavam-no, procuravam-no, e ficaram sem ele.
«Vai ao coro», disse uma das damas. E sentaram-se no estrado que rodeava o confessionário, mergulhado em trevas. Era a capela do Magistral. No altar havia dois castiçais de bronze, sem velas, presos por pequenas correntes de ferro. Diante do retábulo estava uma imagem de madeira de Jesus Nazareno; os olhos de vidro, tristes, brilhavam na escuridão; os reflexos do vidro pareciam uma umidade fria. O rosto era o de um anêmico; a expressão afetada do gesto anunciava uma ideia fixa petrificada naqueles lábios finos e naquelas maçãs salientes, como gastas pelo roçar de beijos devotos.
Sem deter-se, o Magistral passou junto à porta lateral do coro; chegou ao cruzeiro; a grade que ia do coro à capela-mor estava fechada. D. Fermín, que se dirigia à sacristia, contornou a nave do deambulatório, ladeada por outra série de capelas. Diante de cada uma delas, embutidos na parede da abside, havia feixes de colunas entre os quais se ocultavam confessionários, invisíveis até o momento em que se ficava diante deles. Ali, em geral, os beneficiados atavam e desatavam culpas. De um desses esconderijos saiu, quando o Provisor passava, como perdiz levantada pelos cães, o senhor D. Custodio, o beneficiado, de rosto pálido, salvo as faces acesas por uma tonalidade arroxeada. Suava como parede úmida. O Magistral olhou o beneficiado sem sorrir, espetando-o com aquelas agulhas que tinha entre a mole gordura dos olhos. D. Custodio baixou os seus e passou de cabeça inclinada, confuso, aturdido, em direção ao coro. Era um tanto gorducho, efeminado, tinha ares de caixeiro-viajante francês vestido com traje talar muito asseado e elegante. O corpo bem torneado era cingido, sob a capa pomposa, por uma sobrepeliz que parecia peça feminina, sobre a qual ostentava a leve murça de seda própria de seu benefício. Esse D. Custodio era um inimigo doméstico, um beneficiado da oposição. Acreditava, ou ao menos propagava, todas as injúrias com que se pretendia derrubar o Provisor e o invejava pelo que pudesse haver de verdadeiro no fundo de tantas calúnias. De Pas o desprezava; a inveja daquele pobre clérigo servia-lhe para ver, como num espelho, os próprios méritos. O beneficiado admirava o Magistral, acreditava em seu futuro, imaginava-o Bispo, cardeal, favorito na corte, influente nos ministérios, nos salões, mimado por damas e magnatas. A inveja do beneficiado sonhava para D. Fermín mais grandezas do que o próprio Magistral via em suas esperanças. O olhar deste foi em seguida, rápido e rasteiro, para o confessionário de onde saíra o invejoso. Ajoelhada junto a uma das grades, viu uma jovem pálida com hábito do Carmo.
Não era uma senhorita; devia ser criada, costureira ou coisa semelhante, pensou o Magistral. Tinha os olhos carregados de uma curiosidade maliciosa, mais irritada que satisfeita; benzeu-se como se quisesse engolir o sinal da cruz e recolheu-se, sentada sobre os calcanhares, a saborear os pormenores da confissão, sem sair do lugar, colada ao confessionário ainda cheio do calor e do cheiro de D. Custodio.
O Magistral seguiu adiante, contornou a abside e entrou na sacristia. Era uma capela em forma de cruz latina, grande, fria, com quatro abóbadas altas. Ao longo de todas as paredes havia grandes gaveteiros de castanheiro, onde se guardavam roupas e objetos do culto. Sobre as gavetas pendiam quadros de pintores medíocres, antigos em sua maioria, e algumas cópias não ruins de bons artistas. Entre um quadro e outro, algumas cornucópias ostentavam o dourado velho, e seus espelhos mal refletiam os objetos, por culpa da poeira e das moscas. No meio da sacristia ocupava grande espaço uma mesa de mármore negro da região. Dois coroinhas de veste vermelha guardavam casulas e capas pluviais nos armários. O Palomo, com uma batina suja e decotada, a cabeça coberta por enorme peruca atirada para a nuca, acabava de varrer num canto as imundícies de certo gato que, não se sabia como, entrava na catedral e profanava tudo. O apanhador de cães estava furioso. Os coroinhas fingiam distração, mas ele, sem olhá-los, fazia-lhes alusões e ameaçava-os com terríveis castigos hipotéticos, repugnantes sobretudo para o estômago. O Magistral seguiu adiante, fingindo não reparar nesses pormenores grosseiros, tão estranhos à santidade do culto. Aproximou-se de um grupo que cochichava no outro extremo da sacristia, com a voz abafada da conversa profana que quer respeitar o lugar sagrado. Eram duas senhoras e dois cavalheiros. Os quatro tinham a cabeça inclinada para trás. Contemplavam um quadro. A luz entrava por janelas estreitas abertas na abóbada e chegava às pinturas muito oblíqua e escassa. O quadro para o qual olhavam estava quase na sombra e parecia uma grande mancha de negro fosco. De outra cor só se viam a fronte de uma caveira e o tarso de um pé nu e descarnado. Apesar disso, D. Saturnino Bermúdez já passara cinco minutos explicando o mérito da pintura àquelas senhoras e ao cavalheiro, que, cheios de fé e de boca aberta, ouviam o arqueólogo. O Magistral encontrava D. Saturnino quase todos os dias em ocupação semelhante. Assim que chegava a Vetusta algum forasteiro de certa importância, procurava-se por um lado ou por outro uma recomendação para que Bermúdez tivesse a amabilidade de acompanhá-lo a ver as antiguidades da catedral e outras da Encimada. D. Saturnino estava muito ocupado o dia inteiro, mas das três às quatro e meia sempre se encontrava à disposição de todas as pessoas decentes, como dizia, que quisessem pôr à prova seus conhecimentos arqueológicos e sua inveterada amabilidade. Pois, além de primeiro antiquário da província, julgava-se, e nisso tinha razão, o homem mais fino e cortês da Espanha. Não era clérigo, mas anfíbio. Em seu traje asseado e negro da cabeça aos pés via-se algo que Frígilis, personagem darwinista que encontraremos mais adiante, chamava adaptação à batina, influência do meio etc.; isto é, se D. Saturnino fosse tão atrevido a ponto de decidir gerar um Bermúdez, este já nasceria ao menos diácono, segundo Frígilis. O arqueólogo era baixo, trazia o cabelo cortado como escova de cerdas negras; procurava deixar grandes entradas na testa, e percebia-se que uma calvície precoce o teria lisonjeado bastante. Não era velho: «A idade de Nosso Senhor Jesus Cristo», dizia ele, julgando ter arriscado uma piada respeitosa, porém um tanto mundana. Como o parecer padre não estava em sua intenção, mas nas leis naturais, D. Saturno, como o chamavam, depois de perder certas ilusões numa aventura séria em que o tomaram por clérigo, deixava crescer a barba, negra como tinta da China, mas aparava-a como o buxo de sua horta. Tinha a boca muito grande e, ao sorrir com o propósito de agradar, os lábios iam de orelha a orelha. Não se sabe por que era então que melhor se percebia que Bermúdez não se queixava sem motivo ao falar do maldito estômago, das digestões difíceis e sobretudo das constipações perpétuas. Era um sorriso cheio de rugas, equivalente a uma careta provocada por dor intestinal, aquele com que Bermúdez queria passar pelo homem mais espiritual de Vetusta e pelo mais capaz de compreender uma paixão profunda e requintada. Convém advertir que suas leituras sérias de velhas crônicas e outros livros antigos alternavam, em seu espírito ambicioso, com os romances mais finos e psicológicos que então se escreviam em Paris. O parecer clérigo era muito contra sua vontade. Encomendava sobrecasacas de tricô como as de um janota, mas o alfaiate via com assombro que D. Saturno vestir a peça e ela converter-se em batina eram uma só coisa. Parecia sempre de luto, mesmo quando não estava. Contudo, raras vezes tirava a faixa de crepe do chapéu, porque se tinha por parente de toda a nobreza vetustense e, assim que morria um aristocrata, entrava em pesar. Lá no fundo da alma, julgava-se nascido para o amor, e sua paixão pela arqueologia era um sentimento da classe dos sucedâneos. Ao ver nos romances mais acreditados da França e da Espanha que as personagens da melhor sociedade sentiam mais ou menos as mesmas comichões de que ele era vítima, já não hesitou em pensar que o que lhe faltara fora um cenário. As moças de Vetusta eram incapazes de compreendê-lo, assim como ele confessava a sós que jamais se atreveria a aproximar-se de uma jovem para dizer-lhe coisa de maior importância em matéria de amores.
Talvez as casadas, algumas ao menos, pudessem entendê-lo melhor. Da primeira vez que pensou nisso teve remorsos por uma semana; mas a ideia voltou a apresentar-se tentadora e, como nos romances que saboreava quase sempre as heroínas eram casadas, pecadoras, sim, mas afinal redimidas pelo amor e pela muita fé, veio a descobrir e dar por evidente que se podia amar uma mulher casada e até dizê-lo, desde que o amor se contivesse nos limites do mais puro idealismo. Com efeito, D. Saturno apaixonou-se por uma senhora casada; mas aconteceu com ela o mesmo que com as solteiras: não se atreveu a dizer-lhe. Com os olhos, sim, dava a entender, e até com certas parábolas e alegorias tomadas da Bíblia e de outros livros orientais; mas a senhora de seus amores não fazia caso dos olhos de D. Saturno nem entendia as alegorias ou parábolas; limitava-se a dizer pelas costas de Bermúdez:
«Não sei como esse D. Saturno pode saber tanto: parece um imbecil.»
Essa senhora, a quem em Vetusta chamavam a Regenta porque seu marido, agora aposentado, fora regente da Audiência, nunca soube da ardente paixão do arqueólogo. Esse jovem sentimental e amante do saber cansou-se de devorar em silêncio aquele amor único e procurou tornar-se volúvel, aturdir-se; e isto último pouco trabalho lhe custava, porque nunca se viu homem mais aturdido do que ele quando uma mulher queria transtorná-lo com um ou dois olhares. Havia quatro anos que não perdia baile, reunião íntima, teatro nem passeio, e ainda assim as damas, toda vez que o viam dançando uma quadrilha, pois não ousava a valsa nem a polca, repetiam:
«Mas este Bermúdez está irreconhecível!»
Todos, todos empenhados em fazê-lo cartuxo! Isso o desesperava. É certo que jamais provara as doçuras grosseiras e materiais do amor carnal; mas o público sabia disso? É certo que o sol faltaria antes que D. Saturnino à missa das oito; mas essa devoção, assim como comungar duas vezes por mês, em nada prejudicava, este era seu estilo, os títulos de homem do mundo que reivindicava. E se as pessoas soubessem! Quem era aquele embuçado que, à noite, na hora das criadas, como se dizia em Vetusta, saía muito cautelosamente pela rua do Rosario, dobrava entre as sombras pela de Quintana e, de uma em outra, chegava aos pórticos da praça do Pan, deixava a Encimada e se aventurava pela Colônia, solitária àquela hora? Era D. Saturnino Bermúdez, doutor em teologia e nos dois direitos, civil e canônico, licenciado em filosofia e letras e bacharel em ciências: o autor, nada mais nada menos, de Vetusta Romana, Vetusta Goda, Vetusta Feudal, Vetusta Cristiana e Vetusta Transformada, um volume por Vetusta. Era ele, que saía disfarçado de capa e chapéu flexível. Não havia perigo de que alguém o reconhecesse naquele traje. E aonde ia? Lutar com a tentação ao ar livre; cansar a carne com passeios intermináveis; e também, um pouco, farejar o vício, o crime, pensava ele, crime no qual tinha certeza de não cair, não tanto pelos esforços da virtude quanto pela força invencível do medo, que nunca o deixava dar o último e decisivo passo na carreira do abismo. À beira chegava todas as noites, e ela costumava ser uma porta desconjuntada, suja e negra nas sombras de algum beco imundo. Às vezes, do fundo do mencionado abismo, a tentação o chamava; então o sábio recuava mais depressa, recuperava o terreno perdido, voltava às ruas largas e respirava com delícia o ar puro, puro como seu corpo; e, para chegar mais depressa às regiões do ideal, que eram seu ambiente próprio, cantava a Casta diva, ou Il spirto gentil, ou o Santo Forte, e pensava em seus amores de menino ou em alguma heroína de seus romances.
Ah, quanta felicidade havia nessas vitórias da virtude! Como então se lhe apresentava clara e evidente a ideia de uma Providência! Algo assim devia ser o êxtase dos místicos! E D. Saturno, apertando o passo, voltava para casa ébrio de idealismo, molhando as lapelas da capa com as lágrimas que lhe arrancava aquele banho de idealidade, como dizia consigo. Sua comoção era eminentemente piedosa, sobretudo nas noites de lua.
Fechado em casa, no gabinete, depois de cear, ou escrevia versos à luz do petróleo ou manejava seus alfarrábios; e por fim se deitava satisfeito consigo, contente com a vida, feliz neste mundo caluniado onde, diga-se o que se quiser, ainda há homens bons, ânimos fortes. Essa voluptuosidade ideal do bom proceder, misturando-se à sensação agradável do calorzinho do leito macio e brando, convertia pouco a pouco D. Saturno em outro homem; e então punha-se a imaginar aventuras românticas, amores em Paris, país de seus devaneios enquanto homem do mundo. Às novelas da hora de adormecer costumava voltar a imagem da Regenta, e com ela, ou com outras damas não menos formosas, entabulava diálogos muito saborosos, nos quais punha o engenho feminino em luta com seu próprio engenho sério e varonil; e, entre esses ditos e réplicas em que tudo era espiritualismo e, quando muito, vagas promessas de favores futuros, o sono ia entrando no arqueólogo, a lógica tornava-se disparatada, até o senso moral se pervertia e desmoronava a fortaleza daquele medo que pouco antes salvara o doutor em teologia.
Na manhã seguinte, D. Saturno acordava mal-humorado, com dor de estômago, a alma cheia de pessimismo desesperado e o corpo, de gases. «Memento homo!», dizia o infeliz, e atirava-se para fora da cama com tédio, procurando uma reação do espírito por meio de agudos e terríveis remorsos e propósitos de bom proceder, que facilitava com jorros de água na nuca e lavando-se com grandes esponjas. Talvez a limpeza, essa grande virtude tão recomendada por Maomé, fosse a única que positivamente possuía o ilustre autor de Vetusta Transformada. Depois de bem lavado, ia sem falta à missa, em busca do homem novo pedido pelo Evangelho. Pouco a pouco o homem novo vinha; e, por vaidade ou por fé, aquele devoto do Coração de Jesus acreditava todas as manhãs em sua regeneração. Por isso o espírito não envelhecia: era o estômago, o maldito estômago, que não fazia caso da fervorosa contrição do pobre homem. E que viessem dizer a D. Saturno que a matéria não é vil e grosseira!
Naquele dia recebera, antes do almoço, um bilhete perfumado de sua amiguinha Obdulia Fandiño, viúva de Pomares. Que emoção! Não quis abrir o misterioso papel antes de tomar a sopa. Por que não sonhar?
Que era aquilo? O. F., diziam duas letras enroscadas como cobras no monograma do envelope. «Da parte de D. Obdulia», dissera o criado. Aquela senhora, toda Vetusta sabia, era uma mulher despreocupada, talvez demais; era uma original.... Então... acaso... por que não?... um encontro.... Eles, afinal, entendiam-se um pouco, não tanto como alguns suspeitavam, mas entendiam-se.... Ela olhava para ele na igreja e suspirava. Dissera-lhe certa vez que sabia mais que o Tostado, elogio cujo valor ele soubera apreciar, por ter lido o ilustre filho de Ávila. Em certa ocasião ela deixara cair o lenço, um lenço que cheirava como aquela carta, e ele o apanhara; ao devolvê-lo, seus dedos haviam se tocado e ela dissera: «Obrigada, Saturno». Saturno, sem o D.
Uma noite, na tertúlia de Visitación Olías de Cuervo, Obdulia encostara um joelho na perna dele. Ele não retirara a perna nem ela o joelho; ele tocara com o seu o pé da bela, e ela não o retirara.... Uma colherada de sopa ficou-lhe atravessada. Bebeu vinho e abriu a carta.
Dizia assim: «Saturninho: o senhor, que é tão bom, faria o favor de vir a esta sua casa às três da tarde? Espero-o com...». Foi preciso virar a folha.
«Impaciência», pensou o sábio. Mas dizia: «...Espero-o com uns amigos de Palomares que desejam visitar a catedral acompanhados de uma pessoa inteligente... etc., etc.». D. Saturno ficou vermelho como se estivesse sendo ridicularizado diante de uma assembleia.
«Não importa», disse consigo, «esta visita à catedral é um pretexto.»
E acrescentou: «Deus bem sabe que lamento a profanação a que me convidam!»
Vestiu-se com a maior correção que soube e, depois de olhar-se no espelho como um Lovelace que estudasse arqueologia nas horas vagas, foi à casa de D. Obdulia.
Tal era a personagem que explicava a duas senhoras e a um cavalheiro o mérito de um quadro inteiramente negro, no meio do qual mal se via uma caveira cor de azeitona e o calcanhar de um pé descarnado. A pintura representava São Paulo, primeiro eremita; o pintor era um vetustense do século XVII, conhecido apenas dos especialistas em antiguidades de Vetusta e sua província. Por isso o quadro e o pintor eram tão notáveis para Bermúdez.
O senhor de Palomares vestia um sobretudo de verão muito comprido, cor de passa, e levava na mão direita um chapéu de palha impróprio para a estação, mas que custara quatro ou cinco onças, seu preço em Havana, e por isso julgava poder usá-lo durante todo o outono. O senhor Infanzón acreditava-se no dever de compreender o entusiasmo artístico do sábio melhor do que as senhoras, que, por sua ignorância natural, tinham alguma desculpa se não se pasmavam diante de um quadro que não se via. Procurou uma frase oportuna e, de pronto, encontrou isto:
«Oh! Muito! Evidentemente! De acordo!»
Depois inclinou a cabeça para o peito, como para meditar, mas na verdade, estilo de Bermúdez, para descansar, com reação proporcional, da postura incômoda em que o sábio o mantivera por um quarto de hora. Por fim o do chapéu exclamou:
«Parece-me, senhor Bermúdez, que esse famosíssimo quadro do ilustre...»
«Cenceño.»
«Pois, do ilustríssimo Cenceño, brilharia mais se...»
«Se pudesse ser visto», interrompeu a esposa do senhor Infanzón.
Este lançou-lhe um terrível olhar de repreensão conjugal e corrigiu:
«Brilharia mais... se não estivesse um pouquinho enfumaçado.... Talvez a cera... o incenso...»
«Não, senhor; que enfumaçado!», respondeu o sábio, sorrindo de orelha a orelha. «Isso que o senhor julga obra da fumaça é a pátina; precisamente o encanto dos quadros antigos.»
«A pátina!», exclamou o homem da aldeia, convencido. «Sim, é o mais provável.» E jurou a si mesmo que, ao chegar a Palomares, consultaria o dicionário para saber o que era pátina.
Naquele momento o Magistral aproximava-se para cumprimentar D. Saturno; reconheceu Obdulia e inclinou-se sorridente, porém menos sorridente que ao saudar Bermúdez. Depois dobrou a cabeça e parte do corpo diante dos de Palomares, que lhe foram apresentados pelo sábio.
«O senhor D. Fermín de Pas, Magistral e provisor da diocese...»
«Oh! Oh! Já! Já!», exclamou Infanzón, que havia muito admirava de longe o senhor Magistral. A senhora da aldeia manifestou desejo de beijar a mão do Provisor, mas o olhar do marido tornou a contê-la, e ela se limitou a dobrar os joelhos como se fosse cair. O Magistral falava em voz alta, de modo que suas palavras ressoavam nas abóbadas, e os demais, seguindo-lhe o exemplo, também passaram a gritar. Logo as gargalhadas de Obdulia Fandiño, frescas, perladas, como as chamava D. Saturno, encheram o ambiente, já profanado pelo cheiro mundano com que ela infestara a sacristia desde o momento em que entrara. Era o cheiro do bilhete, o cheiro do lenço, o cheiro de Obdulia com que o sábio sonhava às vezes. Misturado ao da cera e do incenso, sabia a glória ao antiquário, cujo ideal era unir assim os aromas místicos e eróticos, mediante uma harmonia ou composição que, segundo ele, devia ser em outro mundo melhor a recompensa dos que na terra haviam sabido resistir a toda classe de tentações.
Obdulia, que mal disfarçava o tédio enquanto se falava de quadros, ogivas, arcos sobrelevados, aduelas e outras bobagens que nunca entendera, animou-se com a presença do Magistral, de quem era filha de confissão, embora ele houvesse tentado várias vezes entregá-la a D. Custodio, faminto dessa espécie de presa. Aquela mulher crispava os nervos de D. Fermín; era um escândalo ambulante. Bastava notar como ia vestida à catedral. «Essas senhoras desacreditam a religião.» Obdulia ostentava uma capota de veludo carmesim, sob a qual saíam, abundantes como cascata de ouro, cachos e mais cachos de um louro sujo, metálico, artificial. Oito dias antes o Magistral vira aquela cabeça, através das grades do confessionário, completamente negra! A saia do vestido nada tinha de particular enquanto a dama não se movia; era negra, de cetim. Mas o pior de tudo era uma couraça de seda escarlate que clamava aos céus. Aquela couraça estava apertada contra alguma armação, não podia ser de outro modo, que figurava as formas de uma mulher exageradamente dotada pela natureza dos atributos de seu sexo. Que braços! Que peito! E tudo parecia prestes a estourar! Tudo isso encantava D. Saturno enquanto irritava o Magistral, que não queria semelhantes escândalos na igreja. Aquela senhora entendia a devoção de um modo que poderia passar em outros lugares, num grande centro, em Madri, Paris, Roma; mas em Vetusta, não. Confessava atrocidades em tom confidencial, como poderia contá-las no toucador a alguma amiga de sua espécie. Citava muito seu amigo, o Patriarca, e o afável Bispo de Nauplia; propunha rifas católicas, organizava bailes de caridade, novenas e jubileus a portas fechadas, para pessoas decentes... mil absurdos! O Magistral a refreava sempre que podia, mas nem sempre podia. Sua autoridade, quase absoluta, não conseguia segurar aquele mercúrio que lhe escapava pelas juntas dos dedos. D. Obdulita o fatigava, o atordoava. E ela queria seduzi-lo, fazê-lo seu, como ao Bispo de Nauplia, aquele prelado tão fino que não se separava dela quando moraram no Hôtel de la Paix, em Madri, parede com parede! Os olhares mais ardentes, mais negros daqueles olhos negros, grandes e abrasadores, eram para De Pas; os adoradores da viúva sabiam e o invejavam. Mas ele amaldiçoava aquele cerco.
«Tola, será que pensa conquistar-me como a D. Saturno?»
Apesar dessa cordial antipatia, mostrava-se sempre afável e cortês com a viúva, porque nisso não distinguia amigos de inimigos. Era preciso que uma pessoa estivesse debaixo de seus pés, esmagada, para que D. Fermín não usasse com ela formas irrepreensíveis. A urbanidade era um dogma tanto para o Magistral quanto para Bermúdez, mas tiravam dela proveitos muito diferentes.
Enquanto se falava do muito de bom que havia na catedral, o aldeão se pasmava e sua senhora repetia aquelas admirações, Obdulia procurava mirar-se nas altas cornucópias.
O Magistral despediu-se. Não podia acompanhar aquelas senhoras, lamentava muito... mas esperava-o a obrigação... o coro. Todos se inclinaram.
«Primeiro o que vem primeiro», disse o de Palomares, aludindo à Divindade e fazendo uma genuflexão, não se sabe se diante da Divindade ou do Provisor.
Felizmente, segundo D. Fermín, sua inutilidade não lhes faria falta, enquanto Bermúdez era uma crônica viva das antiguidades vetustenses.
D. Saturno ergueu as sobrancelhas e deu sinais de querer beijar o chão; depois olhou para Obdulia com expressão séria, penetrante, como uma sonda, como se lhe dissesse:
«Já ouves; sou eu, o primeiro antiquário de Vetusta, segundo a opinião do melhor teólogo, quem se declara teu escravo.» Tudo isso quis dizer com os olhos; mas ela não deve ter entendido, porque se despediu do Magistral, deixando-lhe a alma, pelo canal das pupilas, entre as pregas amplas e rítmicas da capa. Dela se despojou D. Fermín depois de aproximar-se de um armário, e, muito gravemente, vestiu a sobrepeliz ajustada, a senhoril murça e a capa de coro.
«Como está bonito!», disse Obdulia de longe, enquanto os aldeões admiravam com fé de carvoeiro outro quadro elogiado por D. Saturnino.
Deram a volta por toda a sacristia. Perto da porta havia alguns quadros novos, cópias não mal compreendidas de pintores célebres. Devem ter agradado mais à senhora Infanzón do que as maravilhas de Cenceño, sem dúvida porque se viam melhor. Mas seu prudente esposo, considerando que Bermúdez passava com afetado desdém diante daquelas cores vivas e flamantes, deu uma cotovelada na mulher para que entendesse que por ali se passava sem exclamações. Entre aqueles quadros havia uma cópia bastante fiel e muito discretamente compreendida do célebre São João de Deus, de Murillo, do Hospital dos Incuráveis de Sevilha. À senhora da aldeia chamou a atenção a cabeça do santo, que, vista uma vez, não se esquece.
«Oh, que belo!», exclamou, sem poder conter-se.
D. Saturno olhou-a com sorriso de compaixão e disse:
«Sim, é bonito; mas muito conhecido.»
E virou as costas a São João, que carregava sobre os ombros o mendigo enfermo entre as trevas.
O senhor Infanzón beliscou a mulher; ficou muito vermelho e, em voz baixa, repreendeu-a deste modo:
«Sempre tens de me envergonhar. Não vês que isso não tem... pátina?»
Saíram da sacristia. «Por aqui», disse Bermúdez, apontando para a direita; e atravessaram o cruzeiro, não sem escândalo de algumas beatas que interromperam as orações para descosturar e recortar mentalmente a couraça de fogo de Obdulia. A saia de cetim, que nada tinha de particular enquanto não se movia, era a parte mais subversiva do traje assim que a viúva começava a andar. Ajustava-se de tal maneira ao corpo que o que era saia parecia calção apertado, cingindo formas esculturais que, assim mostradas, não convinham à santidade do lugar.
«Senhores, vamos ver o Panteão dos Reis», murmurou muito baixo o arqueólogo, que já preparava trechos de sua Vetusta Goda e de sua Vetusta Cristiana. E, em honra da verdade, deve-se dizer que um rei lhe fugia e outro lhe vinha, isto é, misturava-os e confundia-os, sendo a saia de Obdulia a causa de tais confusões, porque o sábio não podia deixar de admirar aquela invenção audacíssima, nova em Vetusta, mediante a qual apareciam diante de seus olhos curvas graciosas e significativas que ele jamais vira senão em sonhos. Com grande pesar compreendia o devoto antiquário que o contraste do lugar sagrado com as insinuações talares de Fandiño, em vez de apagar seus fogos interiores, alimentava a combustão que deplorava, como se lançassem petróleo numa fogueira....
Entraram na capela do Panteão. Era larga, escura, fria, de fábrica tosca, mas de majestosa e imponente simplicidade. O taconear irreverente das botas imperiais cor de bronze que Obdulia exibia sob a saia curta e ajustada; o estrépito da seda roçando as anáguas; o crepitar do amido naquelas partes inferiores de neve e espuma, como pareciam a D. Saturno, que as vira outras vezes, teriam sido capazes de despertar de seu sono de séculos os reis ali sepultados, se fosse verdade o que o arqueólogo dizia sobre o descanso eterno de tão respeitáveis senhores:
«Aqui descansam desde o século VIII os senhores reis D....» E pronunciou os nomes de seis ou sete soberanos com variantes nas vogais, segundo achou o aldeão, que, seguindo corrupções vulgares, dizia ue em vez de oi e outras monstruosidades.
O homem da aldeia estava profundamente maravilhado com a sabedoria e a eloquência de D. Saturnino.
Dentro de uma cripta escavada num dos muros havia um grande sepulcro de pedra coberto de relevos e inscrições ilegíveis. Entre o sepulcro e o muro havia uma passagem estreita, de um pé de largura, e do outro lado, à mesma distância, uma grade de ferro. Na parte interior a escuridão era absoluta. Do lado da grade ficaram os aldeões. Bermúdez e, atrás dele, Obdulia perderam-se de vista na passagem mergulhada em trevas. Depois da enumeração de D. Saturno, houve um silêncio solene. O sábio tossira; ia falar.
«Acenda um fósforo, senhor Infanzón», disse Obdulia.
«Não tenho... aqui. Mas podemos pedir uma vela.»
«Não, senhor, não é preciso. Sei as inscrições de memória... e, além disso, não se podem ler.»
«Estão em latim?», atreveu-se a dizer a senhora Infanzón.
«Não, senhora, estão apagadas.»
Não se fez luz. O arqueólogo falou durante quase um quarto de hora. Recitou, fingindo o velhaco que improvisava, os capítulos primeiro, segundo, terceiro e quarto de uma de suas Vetustas, e já ia terminar com o epílogo que copiaremos ao pé da letra, quando Obdulia o interrompeu:
«Meu Deus! Haverá ratos aqui? Creio sentir...»
E soltou um grito e agarrou-se a D. Saturno, que, protegido pelas trevas, atreveu-se a tomar entre as mãos a que lhe apertava o ombro; e, depois de tranquilizar Obdulia com um aperto enérgico, concluiu deste modo:
«Tais foram os preclaros varões que galardoaram, com o donativo de ricas prendas, invejáveis privilégios e pias fundações, esta Santa Igreja de Vetusta, que lhes concedeu morada ultraterrena perpétua para os despojos mortais; com a majestade de cujo depósito cresceu tanto sua fama que logo se viu transformada em empório e gozou hegemonia, digamos assim, sobre as não menos santas igrejas de Tuy, Dumio, Braga, Iria, Coimbra, Viseo, Lamego, Celeres, Águas Cálidas, et sic de coeteris.»
«Amém!», exclamou a aldeã, sem poder conter-se, enquanto Obdulia felicitava Bermúdez com um aperto de mão na sombra.