TOMO II — Capítulo XXX
TOMO II
Capítulo XXX
— E agora, muito cuidado. Veja bem o que vai fazer.
— Você não entra?
— Não, não... Estou com pressa, tenho coisas para fazer.
— Vai me deixar sozinho agora!
— Voltarei, caso queira... mas... seria melhor deitar-se cedo. Amanhã virei bem cedo.
— Eu o advirto de que não disse que sim.
— Está bem, está bem... Adeus.
— Espere, espere... Não me deixe sozinho... ainda. Não disse que sim. Talvez... pense melhor e... decida seguir o caminho contrário.
— Mas, por enquanto, Víctor, prudência, dissimulação... Isto é, caso não queira expor-se a uma desgraça. Você já sabe...
— Sim, sim! Benítez acredita que um grande susto, uma forte impressão...
— Exatamente. Pode matá-la.
— Ela está doente!
— Sim, mais do que você imagina.
— Está doente! E um susto, um susto grande... pode matá-la.
— Exatamente como estou dizendo.
— E eu devo subir, guardar para mim todos estes rancores, engolir toda esta bílis... e dissimular, falar com ela para que não suspeite, não se assuste... e não morra de repente diante de mim...
— Sim, Víctor, sim. É isso que deve fazer.
— Mas confesse, Tomás, que tudo isso é mais fácil de dizer do que de fazer. Compreenda que aquela aldrava me cause medo. Entenda por que sinto por ela o mesmo horror que sentiria se fosse feita de ferro derretido.
Frígilis calou-se.
Vinham da estação. Estavam no portal do casarão dos Ozores, iluminado apenas em alguns pontos pelo lampião dourado pendurado no teto.
Quintanar não tinha coragem de subir. Não queria bater à porta.
“Iriam abrir. Ela, Ana, sairia ao seu encontro. Atrever-se-ia a sorrir como sempre e talvez aproximasse a testa de seus lábios para que ele a beijasse...
E ele teria de sorrir, beijá-la e calar-se... e deitar-se tão sereno quanto em todas as outras noites...
Tomás deveria compreender que aquilo era demais.”
Além disso, as revelações de Frígilis a respeito da saúde de Ana haviam caído sobre o pobre ex-regente como uma marreta.
“Aquela alegria, aquela exaltação que a levara... ao crime, à infâmia de uma traição... eram uma doença. Ana poderia morrer de repente a qualquer dia. Uma impressão extraordinária, tanto de dor quanto de alegria, principalmente dolorosa, poderia matá-la em poucas horas.”
Essa fora a resposta de Frígilis à história do amigo.
Fuzilemos Mesía, dissera, caso isso o console. Mas é preciso esperar, evitar o escândalo e, acima de tudo, evitar o susto, o pavor que se apoderaria de sua mulher caso você entrasse na alcova como os maridos do teatro.
Ana, culpada segundo as leis divinas e humanas, não era, na opinião de Frígilis, culpada a ponto de merecer a morte.
— Quem quer matá-la? Eu não quero isso! — interrompera dom Víctor ao ouvi-lo.
Frígilis replicara:
— Quer, sim, caso diga que sabe de tudo. É preciso pensar no que se fará. Não digo que deva perdoá-la, nem que essa seja a única solução. Mas admita que perdoar também é uma solução.
— Perdoá-la é conformar-se com a desonra...
— Isso ainda veremos. Você é cristão?
— Sim, de todo o coração, e cada dia mais. Já não vejo outro refúgio para minha alma além da religião.
— Muito bem. Sendo cristão, veremos se deve perdoar ou não. Mas ainda não se trata disso. Trata-se de não fechar o caminho ao perdão antes de sabermos se ele convém, dando à sua mulher uma punhalada mortal ao entrar no quarto e gritar: “Morra a esposa infiel!”, para que ela responda: “Jesus, mil vezes!” e caia redonda.
Não sei se diria “Jesus, mil vezes”, mas tenho certeza de que cairia.
E, como vê, antes de matá-la, precisamos saber se temos o direito de fazê-lo.
— Não, não tenho. Minha consciência me diz isso.
— E diz muito bem. Nem eu tenho o direito de aconselhar coisa alguma trágica. Quando o casei com ela, porque fui eu quem os uniu, Víctor, você deve se lembrar, acreditei que faria a felicidade dos dois.
— E não parecia que você estivesse enganado. A minha felicidade você fizera. A dela... durante mais de dez anos pareceu que também.
— Sim, pareceu. Mas a procissão seguia por dentro...
Durante dez anos ela foi boa. A vida é curta. Não foi tão pouco.
— Veja, Frígilis, sua filosofia não serve para consolar um marido em minha situação. Já sei tudo quanto você pode dizer, e muito mais. Isso não me consola.
— Nem creio que sua situação admita outro consolo além do tempo e de uma reflexão lenta e prolongada. Mas agora não se trata de você, trata-se dela.
Você insiste em atravessar o corpo de Mesía com um florete ou uma espada? Seja. Mas precisamos ver quando e como. É preciso ter calma.
Depois do que sabe sobre a doença de Ana, segredo que Benítez me impôs e que rompo por causa da gravidade da situação, depois de saber que ela pode sucumbir diante de semelhante revelação...
— Mas não é pior ela fazer o que faz do que saber que eu sei? Quem garante que não me desprezará, que não procurará fugir com o outro?
— Víctor, não seja tolo! O outro... é um aventureiro insignificante. Limitou-se a esperar que o fruto caísse de maduro.
Ela não está apaixonada por Mesía.
Assim que perceber que é um covarde e que a abandona em vez de lutar por ela, há de desprezá-lo e amaldiçoá-lo. Em compensação, os remorsos a farão voltar para você, a quem sempre amou.
— Amou!
— Sim, mais do que a um pai. Que prova melhor deseja do que tudo quanto aconteceu? Por que se tornou mística?
E a pobre... também deve ter sofrido investidas... creio eu, vindas de outro lado... de... Mas, enfim, não falemos disso.
Por que lutou, como sem dúvida lutou? Porque o amava... porque ainda o ama... ama-o muito.
— E me vende!
— Vende, vende... Enfim, não falemos disso. Já disse que não quer minhas filosofias.
O fato é que, caso arme lá em cima uma cena de honra ultrajada, logo teremos outra, de enterro.
— Homem, você diz as coisas de uma maneira!
— Digo a verdade. Um drama completo.
Mas, em último caso, caso esteja tão irritado, caso se veja tão cego, caso não consiga atender à razão nem à consciência, que lhe fala com tamanha clareza, bata à porta, suba, faça um escândalo, incendeie a casa.
Ou nem faça tanto. Bastará assustá-la com a notícia para que Ana caia de costas e alguma dessas coisas em que você não acredita rebente dentro dela, dessas coisas que são para a vida como os fios para o telégrafo.
Caso esteja furioso, caso não consiga conter-se, também terá desculpa, faça o que fizer.
Houve uma pausa.
— Mas, caso não esteja, Quintanar, não terá o perdão de Deus.
Crespo pronunciou essas últimas palavras com voz solene, grave e vibrante, fazendo o amigo estremecer.
Depois desse diálogo, mantido em parte no caminho entre a estação e a casa, e em parte no interior do portal, Quintanar aproximou-se da porta para pegar a aldrava, e Frígilis exclamou:
— E agora, muito cuidado. Veja bem o que vai fazer.
Frígilis tinha pressa. Queria afastar-se de dom Víctor quanto antes para correr à procura de dom Álvaro e adverti-lo de que Quintanar conhecia a traição, para que se abstivesse de invadir o Parque naquela noite e de comparecer ao encontro, caso houvesse um, como era de supor.
Crespo pensava que não ocorrera a Víctor, como tantas outras coisas não lhe ocorriam, que naquela noite a cena da anterior voltaria a repetir-se, pois já devia ser um costume antigo.
Dom Álvaro, que não vira a vítima espreitando-o no Parque, poderia voltar às antigas aventuras. Quintanar poderia surpreendê-lo, e então seria impossível evitar uma tragédia.
Além disso, Frígilis tinha a convicção de que dom Álvaro fugiria de Vetusta assim que soubesse que Quintanar pretendia desafiá-lo.
Não lhe faltavam motivos para considerar muito covarde aquele dom Juan Tenório.
Mas aquele Víctor não o deixava partir!
Por fim, depois de prometer novamente que dissimularia, ocultaria a dor, a ira ou o que quer que fosse, mas somente naquela noite, o digno regente aposentado bateu à porta com a mesma pancada enérgica e concisa que outrora fazia o pátio retumbar, quando a casa era honrada e o chefe da família, respeitado e talvez amado.
— Adeus, adeus, até amanhã cedo! — disse Frígilis, livrando-se da mão trêmula que lhe segurava o braço.
“Egoísta”, pensou dom Víctor ao ficar sozinho. “É a única pessoa que me ama neste mundo... e é egoísta!”
A porta se abriu.
Hesitou por um instante. Pareceu-lhe que do pátio saía uma corrente de ar gelado.
Entrou e, ao voltar-se para o portal a fim de fechar a porta que deixava para trás, viu entrar em sua casa um fantasma negro e comprido, que avançava lentamente pelo portal, aproximava-se dele e tirava o chapéu de telha.
— Meu senhor dom Víctor! — disse uma voz melosa e trêmula.
— Como? O senhor? É o senhor... senhor Magistral!
Um tremor frio, como precursor de um desmaio, percorreu o corpo do ex-regente, enquanto ele acrescentava, procurando manter a voz serena:
— A que devo... a estas horas... a honra? Que aconteceu? Alguma desgraça?
“Mas este homem não sabe de nada?”, perguntou De Pas a si mesmo, com aparência de quem saíra da sepultura.
Olhou para dom Víctor à luz do lampião da escada e viu-lhe o rosto transtornado.
Dom Víctor também o viu tão pálido e com tais olhos que sentiu um medo vago e supersticioso, medo de um mal incerto.
Até chegarem ali, o Magistral não falou. Limitou-se a apertar a mão de dom Víctor e, com um gesto ao mesmo tempo gracioso e enérgico, convidá-lo a subir a escada.
— Mas que aconteceu? — repetiu dom Víctor em voz baixa, no primeiro patamar.
— O senhor vem da caça? — respondeu o outro, com voz fraca.
— Sim, senhor, com Crespo. Mas que aconteceu? Faz tanto tempo... e a estas horas...
— Ao escritório, ao escritório... Não há motivo para alarme... Ao escritório...
Anselmo iluminava os corredores do casarão para o patrão, seguido pelo Magistral.
“Não pergunta por Ana”, pensou De Pas.
— A senhora não ouviu bater. Está no toucador... O senhor quer que eu a avise? — perguntou Anselmo.
— O quê? Não, não, deixe... Quero dizer... caso o senhor Magistral deseje falar comigo a sós...
E o dono da casa voltou-se ao dizer isso.
— Muito bem, sim. Ao escritório. Entremos no escritório.
Entraram.
O tremor de Quintanar já era visível.
“Que lhe diria aquele homem? Por que viera?”
Anselmo acendeu duas velas de espermacete e saiu.
— Escute. Caso a senhora pergunte por mim, diga-lhe que já vou... que estou ocupado... que me espere no quarto... Não é isso? O senhor não quer que fiquemos a sós?
O Magistral aprovou com a cabeça, enquanto cravava os olhos na porta por onde Anselmo saía.
“Já estava ali. Agora precisava falar.
Que diria?
Que situação terrível! Precisava dizer alguma coisa, mas nem uma ideia remota lhe vinha para dar-lhe luz. Não sabia absolutamente nada sobre aquilo que lhe convinha dizer.
Como falar sem perguntar primeiro?
Que sabia dom Víctor?
Essa era a questão.
Conforme aquilo que soubesse, assim ele deveria falar.
Mas não, não era isso.
Precisava começar explicando-se.
Belo aperto.”
O Magistral estava como se dom Víctor o houvesse surpreendido ali, no escritório, roubando os castiçais de prata onde ardiam as velas.
Quintanar batia os dentes e perguntava com os olhos muito abertos e espantados.
“O senhor dirá?”, diziam aquelas pupilas brilhantes, que naquele instante não tinham outra expressão senão uma interrogação.
Era preciso falar.
— O senhor teria... por aí... um pouco de água? — perguntou dom Fermín, que sufocava e não conseguia separar a língua do céu da boca.
Dom Víctor procurou água e encontrou-a num copo sobre a mesinha de cabeceira.
A água estava cheia de poeira e tinha gosto ruim.
Dom Fermín não estranharia se tivesse gosto de vinagre.
Estava no Calvário.
Entrara naquela casa porque não conseguira evitar. Sabia que precisava estar ali, fazer alguma coisa, ver, buscar a vingança, mas ignorava como.
Estava, perto das dez da noite, no escritório do marido da mulher que enganava a ele, De Pas, e ao próprio marido.
Que fazia ali?
Que diria?
Pela memória excitada do Magistral passaram todas as estações daquele dia de Paixão.
Enquanto bebia o copo de água e limpava os lábios pálidos e estreitos, sentia as emoções daquele dia atravessarem-lhe o cérebro como o amargor de um purgante.
De manhã, despertara com febre, chamara a mãe assustado e, como não podia explicar-lhe a causa do mal, preferira fingir que estava saudável, levantar-se e sair.
As ruas e as pessoas brilhavam diante de seus olhos como o reflexo amarelado de círios distantes. Os passos e as vozes soavam abafados. Os corpos sólidos pareciam ocos. Tudo possuía a fragilidade dos sonhos.
A indiferença universal parecia-lhe a crueldade de uma fera, um egoísmo de pedra.
Por que todos os vetustenses falavam sobre mil assuntos que não lhe importavam? Por que ninguém adivinhava sua dor, sentia compaixão ou o ajudava a amaldiçoar e castigar os traidores?
Saíra das ruas e passeara no Passeio de Verão, agora triste, com a areia úmida bordada pelos rastros da água corrente e as árvores nuas e geladas.
Caminhara pisando com ira, a passos largos, como se pretendesse rasgar a batina com os joelhos.
Aquela batina que se enroscava entre suas pernas era um sarcasmo do destino, um trapo de carnaval pendurado em seu pescoço.
“Ele, ele era o marido”, pensava, “e não aquele idiota, que ainda não matara ninguém, embora já fosse meio-dia, e que devia saber de tudo desde as sete.
As leis do mundo, que farsa!
Dom Víctor tinha o direito de vingar-se, mas não o desejo.
Ele tinha o desejo, a necessidade de matar e devorar o morto, mas não tinha o direito.
Era clérigo, cônego, prebendado.
Outras tantas gargalhadas do destino, que ria dele de todos os lados.”
Naqueles momentos, dom Fermín trazia na cabeça toda uma mitologia de divindades zombeteiras, conjuradas contra o miserável Magistral de Vetusta.
A batina, açoitada pelas pernas vigorosas, dizia: “Rás, rás, rás”, como uma corrente estridente que jamais se romperia.
Sem saber como, De Pas passara diante da hospedaria de Mesía.
Sabia que dom Álvaro estava em casa, na cama.
Caso, como temia, dom Víctor não lhe houvesse fechado a saída do Parque dos Ozores, caso nada tivesse acontecido, dom Álvaro estaria no leito, tranquilo, descansando do prazer.
Poderia subir, entrar no quarto e sufocá-lo ali, na cama, entre os travesseiros.
Era isso que deveria fazer.
Caso não o fizesse, era covarde.
Temia a mãe, o mundo e a justiça.
Temia o escândalo, a novidade de ser um criminoso descoberto.
Prendia-o a inércia da vida cotidiana, sem grandes aventuras.
Era covarde.
Um homem de coragem subiria e mataria.
E, caso o mundo, os estúpidos vetustenses, sua mãe, o Bispo e o Papa perguntassem por quê, ele responderia aos gritos, do púlpito se fosse preciso:
“Idiotas! Por que mato?
Porque roubaram minha mulher, porque minha mulher me enganou, porque respeitei o corpo daquela infame para conservar-lhe a alma, e ela, prostituta como todas as mulheres, rouba-me a alma porque eu não lhe tomei também o corpo.
Mato os dois porque esqueci aquilo que ouvi do médico, esqueci que ubi irritatio, ibi fluxus, esqueci de ser com ela tão grosseiro quanto fui com as outras, esqueci que sua carne divina era carne humana.
Tive medo de seu pudor, e o pudor me enganou.
Julguei-a corpo santo, e a podridão de seu corpo envenena minha alma.
Mato porque ela me enganou, porque seus olhos se cravavam nos meus e me chamavam de irmão mais velho da alma, enquanto os lábios também o diziam sorrindo.
Mato porque devo, mato porque posso, porque sou forte, porque sou homem... porque sou fera.”
Mas não matou.
Aproximou-se da portaria e perguntou pelo senhor Bispo de Náuplia, que estava de passagem por Vetusta.
— Saiu — responderam.
Dom Fermín, sem ver o que fazia, dobrou um cartão e deixou-o com o porteiro.
Voltou para casa.
Trancou-se no escritório. Disse que não receberia ninguém e caminhou pelo aposento estreito como dentro de uma jaula.
Sentou-se e escreveu duas folhas.
Era uma carta para a Regenta.
Leu o que escrevera e rasgou tudo em cem pedaços.
Voltou a caminhar e tornou a escrever, e a rasgar, e a cada instante cravava as unhas na cabeça.
Naquelas cartas que rasgava, chorava, gemia, amaldiçoava, suplicava, rugia, arrulhava.
Às vezes, aqueles estreitos e tortuosos regos de tinta fina pareciam o esgoto das imundícies que o Magistral tinha na alma.
A soberba, a ira, a lascívia enganada, sufocada e provocada saíam aos borbotões como uma podridão líquida e espessa.
A paixão falava com o murmúrio rouco e gutural do lixo que corre por um canal.
Outras vezes, o fantástico idealismo do clérigo queixava-se como uma rola.
Recordava sem rancor, como numa elegia, os dias da amizade suave, terna e íntima, os sorrisos que prometiam eterna fidelidade dos espíritos, os encontros marcados no céu, as promessas fervorosas e as doces confidências.
Recordava aquelas manhãs de verão entre flores e orvalho, esperanças místicas e conversas agradáveis, a felicidade presente comparável à futura.
Mas, entre os gemidos da rola, o vento voltava a rugir, sacudindo a ramagem. O furacão tornava a bramir, o trovão explodia, e um sarcasmo cruel e grosseiro rasgava o papel como um relâmpago rasga o céu negro.
“E por quem Ana abandonava a salvação da alma, a companhia dos santos e a amizade de um coração fiel e confiante?
Por um dom Juan de falso ouro, por um elegante provinciano, por um parisiense de temporada, por um belo busto, por um Narciso estúpido, por um egoísta de gesso, por uma alma que nem no inferno desejariam, de tão insubstancial, insípida e oca!”
“Mas já compreendia a causa daquele amor.
Era a lascívia impura.
Ela se apaixonara pela carne flácida, e por menos ainda: pelas roupas do alfaiate, pelos caprichos da passadeira, pela habilidade do sapateiro, pela aparência do cavalo, pelas tolices da fama, pelos escândalos do libertino, pelo capricho, pela ociosidade, pela poeira, pelo ar.
Hipócrita... hipócrita... lasciva, condenada sem remédio, por vil, indigna, mentirosa, falsa, por...”
Era nesse ponto que, furioso consigo mesmo, o Magistral rasgava os papéis, irritado por não saber escrever de maneira que insultasse, matasse e despedaçasse sem insultar, matar e despedaçar com as palavras.
Aquilo não poderia ser enviado num envelope a uma mulher, por mais que a mulher merecesse tudo.
Não.
Era mais nobre tirar um punhal da bainha e ferir do que ferir com letras envenenadas escondidas sob um envelope perfumado.
Mas tornava a escrever. Procurava conter-se e, por fim, a indignação e a franqueza necessárias à paixão explodiam por outro lado.
Então era ele mesmo quem aparecia hipócrita, lascivo, enganando o mundo inteiro.
“Sim, sim”, escrevia. “Eu negava isso a mim mesmo, mas queria você para mim.
No fundo de minhas entranhas, sem saber, como respiro sem pensar, queria possuí-la, chegar a lhe ensinar que o amor, nosso amor, devia estar acima de tudo.
O resto era mentira, coisa de criança, conversa inútil.
A única coisa real, a única coisa séria era você me amar, e acima de tudo eu amar você, e fugir caso fosse necessário, e eu lançar fora a máscara, as roupas negras, e ser quem sou, longe daqui, onde não posso ser.
Sim, Anita, sim, eu era um homem. Você não sabia?
Foi por isso que me enganou?
Pois veja, posso desfazer seu amante com um único golpe. Ele tem medo de mim, saiba disso. Tem medo até quando olho para ele.
Caso me encontrasse num lugar deserto, nós dois frente a frente, fugiria.
Eu sou seu esposo.
Você me prometeu isso de cem maneiras.
Seu dom Víctor não é ninguém.
Veja como não se queixa.
Eu sou seu senhor. Você me jurou isso à sua maneira.
Eu mandava em sua alma, que é o principal.
Você inteira é minha, principalmente porque a amo como aquele miserável vetustense e aquele aragonês não sabem amar.
Que sabem eles, Anita, dessas coisas que nós dois conhecemos?
Sim, você também conhecia... e esqueceu... por um pedaço de carne flácida, lambido por todas as mulheres ruins da cidade.
Você beija a carne da orgia, os lábios que passaram por todas as pústulas do adultério, por todas as feridas do estupro, por...”
Dom Fermín também rasgou essa carta, em mil pedaços, mais do que todas as outras.
Não conseguia acertar a cesta com os pedacinhos brancos e negros, e o chão parecia coberto de neve.
Caminhava furioso sobre aquelas ruínas de sua indignação artística, desejando para a ira e a vingança alguma coisa mais substanciosa do que tinta, papel mudo e frio.
Saiu outra vez de casa.
Caminhou sob os pórticos da Praça Nova, diante da casa dos Ozores.
“Que teria acontecido?
Dom Víctor descobrira alguma coisa?
Não. Caso algo houvesse acontecido, já se saberia.
Dom Víctor teria disparado a espingarda contra dom Álvaro, ou estaria sendo preparado um duelo, e isso já se saberia.
Não se sabia nada, absolutamente nada.
Logo, nada acontecera.”
Duas ou três vezes, já ao anoitecer, o Magistral entrou no vestíbulo escuro do casarão da Rinconada.
Queria saber alguma coisa, espiar os ruídos.
Mas não se atrevia a bater à porta.
“Que fazia ali?
Quem o chamava naquela casa onde, em outros tempos, seu conselho valia tanto, onde era tão respeitado e até amado?
Ninguém o chamava.
Não devia entrar.”
Não entrou.
“Além disso”, pensava enquanto se afastava, “caso eu me veja diante dela, que sei eu o que farei?
Caso aquele marido indigno, de sangue aguado, a perdoe, eu... eu não a perdoo.
E, caso a tivesse entre as mãos, ou ao menos ao alcance delas... Deus sabe o que faria.
Não, não devo entrar naquela casa. Eu me perderia e perderia todos eles.”
Voltou para a própria casa.
Dona Paula entrou no escritório.
Conversaram sobre os negócios comerciais, sobre os assuntos do Paço e sobre muitas outras coisas, mas não disseram nada daquilo que preocupava filho e mãe.
“Não era possível falar daquilo”, pensava ele.
“Não era possível falar daquilo, nem a sós”, pensava ela.
A mãe sabia de tudo.
Comprara o segredo de Petra.
Além disso, por meio do serviço de polícia secreta e daquilo que observava diretamente, já compreendera que o filho perdera o domínio sobre a Regenta.
Antes amaldiçoava Ana porque a julgava amada por seu Fermo.
Agora a odiava porque o desprezo, a zombaria e o engano também a feriam.
Desprezar seu filho e abandoná-lo por um janota murcho como dom Álvaro!
O orgulho materno saltava de cólera dentro de dona Paula.
“Seu filho era o melhor homem do mundo.
Era pecado apaixonar-se por ele, porque era clérigo.
Mas pecado maior era enganá-lo e cravar-lhe aqueles espinhos na alma.
E pensar que não havia maneira de vingar-se!
Não, não havia.”
Aquilo que dona Paula mais temia era que o Magistral não conseguisse suportar os ciúmes e a ira e cometesse algum crime escandaloso.
Desesperava-a a impossibilidade de consolá-lo e aconselhá-lo.
Dona Paula imaginava um modo de castigar os infames, principalmente o janota envelhecido.
Esse método consistia em divulgar o crime, espalhar o vergonhoso adultério e incitar o dom Quixote de dom Víctor a sair de lança em riste para matar dom Álvaro.
E nada disso poderia ser dito a Fermo.
Dona Paula entrava, saía, falava de tudo e observava todos os gestos do filho, aquela palidez, a voz rouca, o tremor das mãos, as idas e vindas pelo escritório.
“O que não daria para lhe sugerir uma maneira de vingar-se!
Sim, aquele filho de suas entranhas merecia que lhe arrancassem os espinhos da alma.
Fora um filho tão bom!
Fora tão hábil em conservar e aumentar o prestígio que lhe disputavam!”
Desde que dona Paula percebeu que o escândalo não explodia e que dom Fermín demonstrava incomparáveis discrição e cautela em suas estranhas relações com a Regenta, perdoou-lhe tudo e deixou de importuná-lo com admoestações.
Depois do triunfo do filho sobre a impiedade representada por dom Pompeyo Guimarán, depois daquela gloriosa conversão, admirava-o com novo fervor e procurava ajudá-lo a satisfazer os desejos íntimos, conservando sempre os cuidados formais exigidos por aquilo que considerava decência.
Não, não era possível falar daquilo que tanto importava aos dois.
Por fim, dona Paula deixou dom Fermín sozinho e subiu ao quarto.
Dali, acordada, decidiu vigiar os passos do filho, que continuava movimentando-se no andar de baixo.
Ela o ouvia vagamente.
Sim, dom Fermín, que trancou a porta do escritório assim que ficou sozinho, movimentava-se muito.
Estava com febre.
Ocorriam-lhe projetos disparatados, crimes de tragédia, mas logo os rejeitava.
“Estava amarrado por todos os lados.”
Qualquer atrocidade que lhe ocorria, e que poderia ser sublime em outro, nele parecia, antes de tudo, grotesca e ridícula.
Aquela batina, porém, queimava-lhe o corpo.
A ideia de maníaco de que estava fantasiado tornou-se uma obsessão intolerável.
Sem saber o que fazia e sem conseguir conter-se, correu até um armário, retirou o traje de caçador que costumava usar em alguns anos, em Matalerejo, para perseguir animais pelos desfiladeiros.
Em dois minutos, o clérigo transformou-se num montanhês esbelto e vigoroso.
Com aquelas roupas pardas ajustadas ao corpo forte, exibia uma figura elegante, natural, masculina e ainda cheia de juventude.
Olhou-se no espelho.
“Aquilo, sim, era um homem.”
A Regenta nunca o vira assim.
No armário havia um punhal de montanha.
Procurou-o, encontrou-o e pendurou-o no cinto de couro preto.
A lâmina brilhava. O fio, marcado por raios luminosos, parecia harmonizar-se com a paixão do clérigo.
O Magistral encontrava uma música naquele fio insinuante.
“Poderia sair de casa.
Já era noite, noite fechada. Haveria pouca gente nas ruas.
Ninguém o reconheceria naquele traje de caçador montanhês.
Poderia esperar dom Álvaro no caminho de Traslacerca, na esquina pela qual Petra dizia tê-lo visto subir uma noite.
Dom Álvaro, caso dom Víctor nada tivesse descoberto ou não soubesse que dom Víctor o descobrira, voltaria outra vez, como talvez fizesse todas as noites.
Ele, dom Fermín, poderia esperá-lo ao pé do muro, no caminho, na escuridão.
Ali, corpo a corpo, obrigando-o a lutar, poderia vencê-lo, derrubá-lo e matá-lo.
Para isso serviria aquele punhal.”
Dona Paula moveu-se no andar de cima.
As tábuas do teto rangeram.
Como se as ideias da mãe houvessem atravessado a madeira e caído no cérebro do filho, dom Fermín pensou de repente:
“Não. Tudo isso é disparate.
Não posso assassinar aquele infame com um punhal.
Não tenho esse tipo de coragem.
São tolices de romance.
Para que pensar naquilo que jamais farei?
Não há outro remédio senão utilizar a coragem e as ideias românticas e cavalheirescas de dom Víctor.
Guardarei o punhal.
Minha espada terá de ser a língua.”
Dom Fermín despiu o casaco pardo, deixou o chapéu de abas largas, soltou o cinto preto e guardou todas as peças, junto com o punhal, no armário.
Vestiu a batina e o mantelete como uma armadura.
“Sim, aquela era sua couraça, aqueles eram seus arreios.”
“Agora mesmo.
Vou vê-lo agora mesmo.
Caso aquele grande idiota tenha ido caçar em Palomares, a esta hora deve estar voltando ou chegando.
É a hora do trem.
Irei à sua casa.”
E saiu.
“Caso minha mãe me detenha, direi que um enfermo me espera, que quer confessar-se comigo sem falta.”
Com efeito, ao ouvir o filho no corredor, dona Paula desceu correndo.
— Aonde vai?
Ele contou a mentira.
Ela fingiu acreditar e deixou-o partir, porque adivinhou no rosto, na voz, em tudo, que o filho não ia cego nem pretendia provocar um escândalo.
“Talvez lhe tenha ocorrido a mesma coisa que a mim.”
Dom Fermín de Pas chegou ao casarão dos Ozores, viu dom Tomás Crespo desaparecer pela praça, entrou no portal, decidiu cumprimentar dom Víctor, que abria a porta, e subiu com ele.
Estava disposto a falar, perguntar, aconselhar, insinuar a vingança necessária.
Mas não sabia como começar.
Quando terminou de beber o copo de água com gosto de poeira, o Magistral ainda não sabia o que diria.
Os olhos de Quintanar, porém, continuavam perguntando, espantados.
Dom Fermín falou:
— Meu amigo, luto entre o desejo de satisfazer sua impaciência e o temor de não encontrar a maneira de abordar um assunto espinhoso e, infelizmente, por mais que se suavize a expressão, de acesso muito pouco agradável.
— Vá ao ponto, senhor Magistral.
— A hora de minha visita, o fato de eu frequentar pouco esta casa há algum tempo, tudo isso contribuirá...
— Sim, senhor, contribui. Mas prossiga. Que aconteceu, dom Fermín? Pelos cravos de Cristo!
— Também preciso falar-lhe de Cristo, dos cravos, dos espinhos e da cruz.
— Por compaixão...
— Dom Víctor, antes de falar, preciso que o senhor me declare o estado de seu espírito.
— Que quer dizer?
— O senhor está pálido, visivelmente preocupado, sob o efeito de uma grande tristeza, sem dúvida. Percebi ao entrar, à luz do lampião da escada.
— E o senhor também... está.
A voz de Quintanar tremia.
— É justamente isso que desejo saber. Caso o senhor conheça, ao menos em parte, a causa de minha visita, poderei poupar-me o desgosto de abordar os preliminares extremamente desagradáveis de uma questão...
— Mas de que se trata? Pelas onze mil!
— Senhor Quintanar, o senhor é bom cristão, e eu sou sacerdote. Caso tenha alguma coisa para... dizer, algum conselho a procurar...
Também venho falar-lhe sobre aquilo que sei como sacerdote, mas a consciência de quem me comunicou exige precisamente que eu dê este passo.
Dom Víctor levantou-se de um salto.
Naquele momento, o Magistral estava muito satisfeito consigo mesmo, porque acabava de enxergar com clareza.
Já sabia qual era o seu caminho.
— Uma pessoa... manda o senhor vir a estas horas à minha casa?
— Dom Víctor, confesse-me se sabe alguma coisa de um assunto que lhe interessa muitíssimo e se esse conhecimento é a causa da alteração de seu rosto.
Preciso começar por aí.
— Sim, senhor. Hoje sei uma coisa que ontem ignorava e que me importa muitíssimo, é claro, mais do que a vida.
Mas, caso o senhor não fale com maior clareza, não sei se devo... se posso...
— Agora, sim. Agora já posso falar com clareza.
— Uma pessoa... dizia o senhor...
— Uma pessoa que protegeu um crime prejudicial ao senhor compareceu arrependida diante do tribunal da penitência para confessar a vergonhosa cumplicidade.
Disse-me que a consciência a acusava e que, como medida urgente de reparação, colocara nas mãos do senhor a descoberta daquela infâmia.
Temendo, porém, novas desgraças por causa de sua maneira desastrada de agir, apressava-se a declarar-me o que havia, para vermos se ainda seria possível evitar outros crimes.
Afinal, uma violência, uma vingança sangrenta também seria crime.
Dom Fermín interrompeu-se e calou, respeitando assim a dor de dom Víctor, que se deixara cair sobre o sofá e apertava a cabeça entre as mãos.
— Petra... foi Petra? — perguntou dom Víctor, com o tom particular de quem já sabe aquilo que pergunta.
— A infeliz não compreendeu a princípio que sua conduta poderia causar novos estragos.
É para impedi-los que venho, dom Víctor, caso ainda haja tempo.
Em nome do Crucificado, dom Víctor, que aconteceu aqui?
— Nada, mas ainda estamos em tempo! — respondeu o marido enganado, levantando-se, com os punhos cerrados e envergonhado como se estivesse de camisa no meio da praça.
Estava furioso com a ideia de que nada acontecera ali, nenhum crime cujo autor devesse ser ele, segundo exigiam as leis da honra e do teatro.
— Nada, nada... Mas haverá, haverá sangue.
E o senhor sabe?
Aquela mulher divulgou minha desonra?
Isso também foi vingança, não arrependimento. Foi vingança.
Mas pouco importa.
Aquilo que importa é que o mundo sabe!
Desgraçado Quintanar!
Miserável de mim!
O pobre velho tornou a cair no sofá e voltou a sentir o mesmo sono entorpecente que lhe encolhera o espírito pela manhã.
“O mundo sabe”, dissera dom Víctor.
Essas palavras sugeriram a dom Fermín outra mentira proveitosa.
Antes, porém, disse:
— Dom Víctor, não me surpreende que, em sua dor, o senhor não tenha tempo nem forças para refletir.
Mas eu não disse que o mundo soubesse.
Eu não sou o mundo. Sou um confessor.
— Mas o senhor acredita que Petra não contou?
— Petra, não. Mas, infelizmente...
— Além disso, aquilo que importa aqui é minha honra, não que o mundo saiba ou ignore.
De qualquer maneira, logo saberá de minha vingança e poderá conhecer tudo.
Começou a caminhar pelo escritório.
De Pas também se levantou.
— Infelizmente — continuou —, a maledicência apoderou-se há muito tempo de certos rumores, de alguma coisa aparente...
Dom Víctor rugiu:
— Meu Deus! Que é isto? Ainda há mais? O mundo fala? Vetusta inteira comenta?
Cravava as unhas na cabeça e arrancava os cabelos brancos.
Enquanto o outro se entregava às manifestações teatrais de dor e vergonha, dom Fermín falou longamente sobre o assunto.
Sim, infelizmente, havia meses, desde o verão, talvez até antes, murmurava-se sobre a confiança e a frequência com que dom Álvaro entrava no palácio dos Ozores.
Aquilo era o pior, depois da própria desgraça.
Era o pior porque o Magistral, conhecendo as exaltadas ideias de dom Víctor a respeito da honra, temia que, obedecendo a impulsos desculpáveis, mas injustos, e surdo à voz da religião, ele se lançasse a uma vingança terrível, principalmente contra dom Álvaro, cujo crime não poderia ser mais repugnante e digno de castigo.
Mas, meu amigo, embora ele, o Magistral, como homem e homem de experiência, compreendesse a veemente cólera que deveria dominar dom Víctor e desculpasse, até certo ponto, seu desejo de vingança imediata e terrível, como sacerdote de uma religião de paz e perdão precisava aconselhar e procurar, quanto pudesse, a moderação e os procedimentos recomendados pela moral em tais casos.
Dom Víctor, com o rosto entre as mãos, fazia sinais de protesto. Negava com a cabeça como se quisesse arrancá-la do tronco.
Mas que poderia Quintanar dizer ao Magistral que ele não compreendesse?
Sim, sim, vendo as coisas como o mundo as vê, aquilo pedia sangue.
Mais ainda, não apenas para satisfazer o desejo de vingança. Até para continuar vivendo entre os homens com aquilo que o mundo chama de decoro, era necessário, conforme as leis sociais e aquilo que os costumes e as ideias correntes exigiam, que dom Víctor procurasse Mesía, desafiasse-o e o matasse, caso lhe fosse possível.
Caso o surpreendesse em flagrante delito ou nas proximidades, deveria sacrificá-lo sem considerações, com justiça imediata.
Assim haviam procedido varões ilustres, assombro do mundo, cantados e elogiados em poemas e tragédias.
O Magistral sabia perfeitamente de tudo isso.
Com efeito, expunha com tal ardor e eloquência as razões que, do ponto de vista mundano, aconselhavam o derramamento de sangue, que depois, ao lembrar-se de que precisava defender o partido contrário, o da caridade, do perdão, do amor ao próximo, do esquecimento das ofensas e da conformidade com a cruz, já cansado pelos esforços anteriores, tornava-se outro Magistral.
Falava com lentidão e frieza, repetindo lugares-comuns de sermão de aldeia.
Dom Víctor não compreendia o propósito, mas sentia os efeitos da perfídia do cônego.
“Sim”, pensava o ex-regente, enquanto o Magistral voltava a enumerar os sacrifícios de amor-próprio, pundonor e muitas outras coisas exigidas pela religião a um bom cristão enganado pela mulher.
“Sim, estive cego. Comportei-me indignamente.
Deveria ter matado Mesía com uma descarga de chumbo quando estava sobre o muro, ou então corrido imediatamente à casa dele e obrigado-o a lutar até a morte naquele mesmo instante.
O mundo sabe de tudo.
Vetusta inteira me considera um... um...”
E dom Víctor quase saltava até o teto ao ouvir no cérebro a palavra vergonhosa.
As frases frias e sem vigor com que o Magistral recomendava o perdão e o esquecimento soavam-lhe ocas, como retórica inútil.
“Aquele santo homem não sabia o que era uma ofensa daquela espécie, nem aquilo que a sociedade exigia.”
Para que o clérigo o deixasse em paz e não o cansasse mais com sermões insípidos, sem vida nem unção, dom Víctor fingiu ceder.
Disse que não cometeria disparate algum, que meditaria e procuraria conciliar as exigências da honra com aquilo que a religião lhe pedia.
Então dom Fermín ficou alarmado.
Acreditou haver perdido terreno e voltou ao ataque.
Pintou com cores vivas o desprezo que o mundo lança sobre o marido que perdoa e que a malícia julga consentir.
Ouvindo o Magistral, dom Víctor imaginava-se o homem mais desprezível do mundo caso não fizesse alguma coisa rumorosa.
Sim, quanto antes.
Assim que amanhecesse, daria os passos necessários e enviaria dois padrinhos a dom Álvaro.
Era preciso matá-lo.
Dom Fermín voltou a tranquilizar-se ao ver a exaltação da ira desenhada no magistrado.
Sim, havia homem.
A máquina estava pronta.
O canhão pelo qual ele, dom Fermín, dispararia seu ódio mortal estava carregado até a boca.
Dom Víctor não falava.
Rosnava encostado à parede, num canto.
Já não havia o que fazer ali.
O Magistral despediu-se.
Mas, ao sair, quando chegou à porta, voltou-se de repente e, com gesto solene, como sacerdote de ópera, exclamou:
— Exijo-lhe, como pai espiritual que fui e creio ainda ser do senhor, exijo-lhe em nome de Deus que, caso esta noite surpreenda algum novo atentado, caso aquele infame, que ignora que o senhor sabe de tudo, volte esta noite...
Sei que peço muito, mas um assassinato jamais encontra desculpa diante dos olhos de Deus, ainda que a encontre diante dos olhos do mundo.
Impeça que aquele homem consiga chegar até aqui.
Mas nada de sangue, dom Víctor, nada de sangue, em nome daquele que o Crucificado derramou por todos!
“É verdade”, pensou dom Víctor ao ficar sozinho. “É verdade!
E eu, estúpido e tolo, não pensara nisso?
Aquele homem deve voltar esta noite.
E eu, para não matá-la de susto, permitiria que outra vez... outra vez...
E não pensava nisso!”
A porta se abriu, e a Regenta entrou.
Estava pálida e vestia um roupão branco.
Não fazia ruído ao caminhar.
Os olhos pareciam maiores do que nunca e olhavam com uma fixidez que causava calafrios.
Ao menos dom Víctor os sentiu.
Recuou um passo e teve medo, como diante de um fantasma.
Antes de pensar na traição daquela mulher, pensou no grande perigo que a vida de Ana correria caso uma forte emoção a assustasse.
Dom Víctor não viu nela a esposa. Viu a Traviata na cena em que morre cantando.
O pobre velho sentiu uma compaixão supersticiosa.
Aquele ser vaporoso, que lhe aparecia de repente em silêncio, pisando como um fantasma, era amado naquele instante com o amor de um pai que teme pela vida da filha e, ao mesmo tempo, temido como uma criatura do outro mundo.
“Como seria fácil assassinar com uma palavra a pobre enferma, que talvez nem fosse responsável pelo crime!
Ah, não.
Ele não a mataria, nem com punhal, nem com bala, nem com palavras fulminantes.”
— Quem estava aqui? — perguntou Ana tranquilamente.
— O Magistral — respondeu dom Víctor, supondo que a mulher soubesse a resposta da pergunta.
Ana perturbou-se.
— Por que veio... a estas horas? — perguntou, dissimulando os temores.
— Por quê? Coisas de política... A questão do Bispo e do governador... as votações, que são urgentes... enfim, assuntos políticos.
A Regenta não insistiu.
Retirou-se sem se aproximar do marido, que tampouco foi procurá-la para dar-lhe o beijo na testa com que costumavam despedir-se todas as noites.
Quintanar respirou ao ficar sozinho.
Aquilo saíra bem.
Nada fora descoberto.
Anita não poderia ter suspeitado.
Tinha a consciência tranquila, sinal de que, por enquanto, agira corretamente.
Pediu o chá, que era sua ceia nos dias de caça e almoço de frios.
Ordenou aos criados que se deitassem.
Às onze e meia, na ponta dos pés e sem tropeçar em nada, apesar de caminhar no escuro, desceu ao Parque de pantufas, armado com a espingarda.
Carregara-a com bagos grossos.
Ah, sim.
Sem querer, o Magistral lhe sugerira uma boa ideia.
Nada de sangue, não é?
Pois, caso aquele homem voltasse naquela noite, dom Álvaro morreria.
E que o mundo ardesse.
Que Ana se assustasse, que caísse redonda, que o prendessem.
Qualquer coisa.
Mas, caso voltasse, morreria.
Assim como pouco antes sentira a consciência tranquila ao conter a cólera diante de Ana, agora estava satisfeito com a resolução de matar o ladrão de sua honra, caso voltasse.
A noite estava escura e o frio, intenso.
Dom Víctor não teve outro remédio senão voltar ao quarto para buscar a capa.
Arriscava-se a fazer barulho ou a permitir que o outro chegasse e subisse à sacada enquanto isso.
Mas não era possível permanecer ali sem agasalho.
Ficaria congelado.
Foi buscar a capa com toda a rapidez possível e, bem envolto nela, voltou ao posto de sentinela no caramanchão, de onde via o perfil do muro, vagamente destacado contra o céu negro.
Também veria a sacada do toucador caso ela se abrisse para dar passagem a dom Álvaro.
Ouviu meia-noite, uma hora, duas horas.
Não ouviu as três, porque deve ter cochilado um pouco, embora negasse isso a si mesmo.
Às quatro, já não conseguiu resistir ao frio e ao sono.
Delirante, sem consciência de si nem do mundo ao redor, tropeçando em tudo, subiu ao quarto, procurou a cama às apalpadelas, despiu-se como uma máquina, envolveu-se nos lençóis e caiu num torpor febril, cheio de fantasmas ardentes e monstros dolorosos.
Naquela tarde, nem Mesía, nem Ronzal, nem o capitão Bedoya, nem o coronel Fulgosio compareceram ao Casino na hora do café, como costumavam.
Foja, o ex-prefeito, percebeu a ausência e exclamou em tom misterioso:
— Meus senhores, quando digo que aí há gato...
— Que gato? — perguntou dom Frutos Redondo, o americano.
Estavam, como sempre àquela hora, na sala contígua ao gabinete vermelho, o da bisca.
Todos os presentes cercaram Foja, que acrescentou:
— Reparem que hoje não vieram Ronzal, o capitão nem o coronel. Os touros são certos. Onde há fumaça...
— Mas que fumaça? — perguntou Orgaz pai, que sabia alguma coisa.
Joaquinito, dando-se ares de conhecer muitos segredos, disse:
— Nada, meus senhores. Garanto que não há coisa alguma.
— Pois, com sua licença, sei que há grandes novidades. Sei de fonte segura. Quintanar já deve ter enviado seus padrinhos a dom Álvaro.
— Padrinhos? Por quê? — perguntou Redondo.
— Ora! O senhor está muito fingido. Sabe perfeitamente por quê. A verdade é que aquilo já era um escândalo.
Joaquín Orgaz defendeu dom Álvaro.
Foja, porém, não atacava Mesía. Atacava dom Víctor, que tolerara aquela desvergonha por tanto tempo.
— Mas que sabe o senhor se tolerava? Não sabia de nada. E, caso agora desafie o outro, deve ter descoberto alguma coisa.
— Ou se cansado de tolerar.
— Ou talvez não haja desafio algum.
Durante toda a tarde, não falaram em outra coisa.
Ao anoitecer, Ronzal chegou.
No princípio, ninguém se atreveu a interrogá-lo.
Foja cansou-se de ser prudente e perguntou a Trabuco, dando-lhe uma pancadinha no ombro:
— O senhor é padrinho?
— Padrinho de quê? — perguntou Ronzal, de cenho carregado, ar misterioso e aparência de homem prudentíssimo que opõe uma muralha de gelo à indiscrição.
— Padrinho do duelo mortal entre Mesía e Quintanar.
— Mas quem lhe disse? Palavra de... quero dizer... não sei... Nego tudo.
O senhor é um imbecil e um tagarela sem substância.
Acha que assuntos tão sérios são discutidos no café?
— Estão vendo? Era o que eu dizia! — gritou Foja, triunfante, sem dar atenção aos insultos.
Ronzal negou e obstinou-se em calar.
Mas era evidente que isso lhe exigia grande esforço.
Olhou muitas vezes para o relógio e perguntou a Joaquinito Orgaz, em particular, embora de maneira que os demais ouvissem:
— O senhor sabe se dom Pedro, o picador, ainda tem sabres de...?
O restante foi dito em voz baixa.
Orgaz não sabia de nada.
Ronzal fez uma expressão de desgosto e saiu do Casino, dizendo:
— Adeus, meus senhores.
— Estão vendo? Era o que eu dizia. Teremos duelo.
Aqueles senhores declararam-se em sessão permanente.
Os empregados acenderam o gás, e a roda de conversa da tarde emendou-se à da noite.
Alguns foram jantar e voltaram.
Às oito horas, em todo o Casino, não se falava senão do duelo.
Os jogadores de bilhar abandonaram os tacos para ir à sala das mentiras caçar notícias.
Até os de cima, os do quarto do crime, que costumavam deixar passar revoluções inteiras sem dar-se por informados, enviaram emissários ao andar de baixo para saber o que acontecia.
Um desafio em Vetusta era um acontecimento dos mais extraordinários.
De tempos em tempos, alguns senhoritos trocavam bofetadas no Espolón ou em outro lugar público, mas a coisa não passava disso.
Os insultos nunca tinham consequências.
Jamais houvera em Vetusta uma sala de armas.
Anos antes, um comandante aposentado tentara ganhar a vida dando aulas de sabre.
O Marquesito, Orgaz filho e pai, Ronzal e vários outros começaram, com grande entusiasmo, a deixar-se espancar.
Logo se cansaram, e o comandante precisou dedicar-se a pedir uma moeda emprestada a qualquer pessoa.
A população só se lembrava de dois desafios em que se chegara ao terreno.
Um fora de Mesía, muitos anos antes, quando ainda era muito jovem.
Frígilis, único vetustense que assistira à luta, fora padrinho do adversário.
Nunca quisera contar o que acontecera, mas era verdade que nem Mesía nem o oponente haviam passado um único dia de cama depois do duelo.
O outro desafio fora entre um chefe da Fazenda e um caixa, por questões relativas ao dinheiro.
A discussão era se você tirou ou se fui eu quem tirou.
Lutaram até o primeiro sangue.
O caixa recebeu um arranhão no pescoço porque o chefe da Fazenda desferia golpes horizontais de sabre com o propósito de degolar o adversário.
Não havia outros desafios levados ao terreno nas crônicas vetustenses.
Naquela noite, enquanto esperavam notícias, discutiu-se muito, para passar o tempo, a legitimidade daquele costume bárbaro herdado da Idade Média.
Orgaz pai, que possuía alguma erudição apesar de ser tabelião de profissão, garantiu que o duelo era um vestígio das ordálias.
Dom Frutos disse que talvez fosse, mas nem ordálias nem santo das ordálias o fariam lutar.
Recorreria ao juiz caso fosse ofendido e, se não houvesse outro meio, resolveria a questão a pauladas.
— Permitir que me mate um espadachim que nunca precisou trabalhar para ganhar o pão é coisa que o filho de minha mãe não aceitará.
— Entretanto — dizia Orgaz pai —, há circunstâncias... a honra... a sociedade... Veja, Fígaro condena o duelo e confessa que lutaria caso chegasse a ocasião.
— É que eu não sou um barbeiro ruim, meu senhor! — gritou dom Frutos. — Tenho alguma coisa a perder.
Foi preciso explicar a dom Frutos quem era Fígaro.
Mesmo depois de informado, Redondo, que já suava de tanto discutir e gritar, berrou que, de qualquer forma, quebraria a alma de quem o desafiasse.
— Quanto a mim — disse o ex-prefeito —, confio na justiça. Uma ação criminal. A lei é clara.
— Quanto a mim — exclamou solenemente Orgaz pai, levantando-se, com voz trêmula —, não faço nada disso.
Caso um espadachim me desafie, obrigo-o a aceitar um duelo nas seguintes condições:
Todos prestaram atenção.
— A dois passos de distância...
Colocou-se diante de dom Frutos, medindo dois passos compridos. Redondo ficou muito sério e ereto.
— Uma pistola carregada e outra descarregada.
Orgaz empalideceu diante da ideia de aquilo poder acontecer como narrava.
— Um, dois, três...
Bateu três palmas.
— Bum! E aquele a quem Deus der a sorte, São Pedro que a abençoe! É assim que luto. A questão não é ser habilidoso, mas ter coragem.
— Bravo, bravo! Isso, isso! — gritou grande parte dos presentes, como se ouvisse a ideia pela primeira vez.
Sempre que falavam de desafios, Foja, dom Frutos, Orgaz e os outros cavalheiros repetiam as mesmas coisas.
Os sócios esperaram notícias em vão.
Durante toda a noite, não apareceram Ronzal, Fulgosio nem Bedoya, que, segundo diziam, eram os padrinhos, além de Frígilis.
Era verdade.
Embora Crespo recomendasse o mais absoluto segredo a todas as pessoas que precisaram intervir no triste negócio, ninguém sabe como, embora se suspeite que por culpa de Ronzal, o rumor da verdade logo se espalhou por Vetusta.
Petra e Ronzal foram os indiscretos.
Petra, por vingança e má índole, falara. Contara a alguma amiga aquilo de sua antiga patroa.
Por que deixara aquela casa?
Por isso e por aquilo.
Trabuco, a quem a honra de merecer a confiança de Quintanar enchera de vaidade, não conseguira resistir à tentação de deixar o segredo transparecer.
O fato era que, em toda Vetusta, não se falava de outra coisa.
O governador dizia em casa que ninguém lhe falasse sobre aquilo, pois o dever de autoridade estava em aberta contradição com seu dever de cavalheiro.
Precisava ter ouvidos de mercador e olhos de toupeira.
E assim faria.
Passou aquele dia.
Passou o seguinte.
Nada se sabia.
— Aquilo do duelo era uma invenção? — perguntava Foja no Casino.
Então Joaquinito Orgaz, que sabia de tudo pelo Marquesito, não conseguiu mais se conter.
— Não, não era brincadeira. A coisa era séria. Duelo até a morte.
Mas os padrinhos se haviam comportado mal. Eram desastrados, apesar dos ares do coronel Fulgosio, que dizia conhecer o código da honra na ponta dos dedos.
Não encontravam armas.
Primeiro falaram em sabre, mas não apareciam sabres de duelo.
Não havia em Vetusta sabres daquele tipo ou os proprietários se recusavam a emprestá-los.
Recorreram à pistola, mas tampouco apareciam pistolas adequadas.
— Eu acredito — acrescentava Joaquinito —, e Paco pensa o mesmo, que isto é inverossímil e que Frígilis quer adiar a questão, para ver se convence Mesía e o faz deixar Vetusta.
— Que indignidade! — gritou Foja.
— Pois essa fora a primeira solução.
Na mesma noite do dia em que, ao que parece, pois é assim que contam, dom Víctor descobriu a desonra, Frígilis foi procurar Mesía e suplicou que deixasse a cidade quanto antes.
Mesía contou tudo, ponto por ponto, a Paco.
— Muito bem. E que mais?
— Nada. Mesía, naturalmente, se opôs. Disse que Quintanar e toda Vetusta poderiam atribuir sua ausência ao medo.
Mas Frígilis, que exerce alguma influência sobre dom Álvaro, obrigou-o a dar sua palavra de honra de que no dia seguinte tomaria o trem para Madri.
Parece que Quintanar teve nas mãos a vida de Álvaro, que poderia tê-lo matado com um tiro e não matou.
Frígilis invocou isso e os direitos do marido ultrajado para obrigar Mesía a fugir.
“Isso não é covardia”, dizem que lhe falou. “É fazer justiça a si mesmo. O senhor merece a morte pela traição, e eu comuto a pena por desterro.”
— Crespo disse isso?
— Isso.
— Vejam só Frígilis!
— Ele tem muita intimidade com Álvaro, que o respeita bastante.
— Muito bem. E que mais?
— Nada. Álvaro deu sua palavra.
Mas, na manhã seguinte, ontem, quando nosso dom Juan já fazia as malas para partir, Frígilis e Ronzal apareceram em nome de um desafio.
Parece que, muito cedo, dom Víctor chamou Frígilis e o obrigou a procurar Trabuco para que fossem juntos desafiar o sedutor.
Frígilis não teve outro remédio senão obedecer porque, ao saber que o outro pretendia fugir, Quintanar ameaçou segui-lo até o fim do mundo e chamá-lo de covarde nos jornais e nas ruas.
Estava furioso.
— Claro. As comédias!
— O fato é que Frígilis precisou devolver a palavra dada a Álvaro e mandar que procurasse padrinhos.
— E Mesía?
— Naturalmente. Abandonou a viagem e procurou padrinhos.
Queriam que eu fosse um deles, mentira, mas depois... como sou muito amigo de ambos... enfim, procuraram outros... e não encontravam.
Somente Fulgosio, que sempre se presta a semelhantes complicações, e Bedoya, que afinal é militar.
Em geral, Joaquinito estava bem informado.
Mesía contara tudo ao Marquesito, que fora visitá-lo na hospedaria.
Aquilo que não lhe dissera era que sentia muito medo.
Embora se alegrasse por ver rompidas aquelas relações, que acabariam com a pouca saúde que lhe restava e o deixariam em situação ridícula até diante dos olhos de Ana, horrorizava-o a ideia de ficar frente a frente com dom Víctor, com uma espada ou pistola na mão.
Aceitara imediatamente a primeira proposta de Frígilis.
Era natural.
Precisava fugir.
Com que direito procuraria a morte do homem que lhe poupara a vida naquela manhã e de quem roubara a honra?
Fugiria.
No dia seguinte, sem falta, tomaria o trem.
Frígilis já esperava isso, pois sabia perfeitamente a que ater-se a respeito da coragem de Álvaro.
Fora testemunha daquele duelo misterioso mencionado pelos sócios do Casino.
Por causa de uma mulher, dom Álvaro fora desafiado para um combate singular por um forasteiro.
Todos os padrinhos pertenciam à guarnição, menos Frígilis, o único vetustense que presenciara o acontecimento.
O duelo seria a sabre, no Montico, numa área arborizada, ao entardecer, perto de escurecer.
Mesía e o adversário estavam em mangas de camisa, Frígilis recordava como se fosse no dia anterior.
Estavam em mangas de camisa, com os sabres nas mãos, ambos pálidos e tremendo de frio e medo.
O céu coberto ameaçava desabar em torrentes de chuva.
Os dois combatentes olhavam para as nuvens.
Frígilis compreendeu o que desejavam.
A luta começou, e no primeiro choque das lâminas explodiu um trovão e começaram a cair gotas do tamanho de punhos.
Mesía e o adversário tremiam como os galhos das árvores açoitados pelo vento.
O aguaceiro foi tão forte que os padrinhos suspenderam o duelo, que jamais continuou.
Não haviam ido lutar contra os elementos.
Mesía saiu intacto, e Crespo deu-lhe implicitamente garantias de que guardaria segredo sobre aquela situação ridícula e sobre a covardia do Tenório vetustense.
Recordando tudo isso, Frígilis tratou Mesía como um trapo naquela noite memorável em que lhe ordenou a fuga.
Mas Joaquinito Orgaz tinha razão.
No dia seguinte, precisou devolver a palavra a dom Álvaro.
Já não deveria fugir.
Quintanar insistia em lutar.
Era aragonês e não recuaria.
— Não sei quem mudou aquele homem. Ontem à noite parecia decidido, ou quase, a uma solução pacífica. Contentava-se com que o senhor desaparecesse. Hoje, quando fui vê-lo, encontrei o senhor Ronzal, que está aqui presente, ao lado do leito de meu amigo.
Ronzal cumprimentou.
Mesía empalideceu muito.
Colocava roupas brancas num baú e interrompeu a tarefa.
— Então...
— O senhor precisa procurar padrinhos.
Frígilis se irritara porque dom Víctor, sem consultá-lo, chamara Ronzal.
Quintanar acreditava na energia do deputado por Pernueces e sabia que ele não estimava dom Álvaro.
Segundo o ex-magistrado, era um bom padrinho.
Segundo Frígilis, tratava-se de um erro.
O pior foi que não houve maneira de dissuadir Quintanar.
— Nem um único dia isto será adiado. Já que minha desonra é pública, que a reparação também seja, e, além disso, terrível e rápida.
— Mas você está com febre, está doente...
— Não importa. Melhor.
Caso os senhores não desafiem aquele homem, levanto-me e procuro pessoalmente outros padrinhos.
Não houve outro remédio.
Mesía, de má vontade e escondendo o terror quanto podia, procurou seus dois padrinhos.
Combinaram que o duelo seria a sabre.
Mas não encontravam sabres adequados.
Além disso, surgiram dificuldades em relação a certos pormenores.
Assim passou um dia.
Na manhã seguinte, decidiram que lutariam com pistolas.
Dom Víctor formou então seu plano.
Alegrou-se porque o duelo seria a pistola.
Mas também não apareciam pistolas de duelo.
Passou outro dia.
Na manhã seguinte, dom Víctor levantou-se depois de passar setenta horas na cama, um dia inteiro com febre, às vezes impaciente, outras vezes angustiado e sempre dissimulando diante de Ana, que cuidava dele com solicitude.
Durante aquelas longas horas de cama, com a fraqueza que sucedera à febre, vieram acessos de melancolia e meditações filosófico-religiosas.
Dom Víctor sentiu o espírito enfraquecer, não por amor à própria vida, pois não acreditava correr grande perigo diante de dom Álvaro, mas pelo medo dos remorsos.
Quando soube das pistolas, decidiu não matar o adversário.
Deixá-lo-ia aleijado.
Atiraria nas pernas.
Não era provável que o outro o ferisse atirando a vinte passos. Isso somente poderia acontecer por acaso.
Sem que Ana suspeitasse de coisa alguma, porque Mesía cumprira a palavra dada a Frígilis e se despedira por escrito para uma viagem eleitoral urgentíssima e breve, sem que Ana suspeitasse, ao menos, que estavam em jogo a vida ou a morte do marido e do amante, dom Víctor saiu de casa pelo portão do Parque, acompanhado de Frígilis, na hora em que costumavam partir para a caça.
No caminho de Traslacerca, Ronzal os esperava.
A manhã estava fria, e a geada sobre o capim imitava uma camada fina de neve.
Na estrada de Santianes, uma carruagem os esperava.
Dentro dela estava Benítez, o médico de Ana.
Ao vê-lo, dom Víctor empalideceu, mas nada mais revelou a emoção.
Quase não falaram durante a viagem.
Chegaram aos muros do Vivero.
Desceram e, contornando a quinta do Marquês, entraram no bosque de carvalhos onde, meses antes, dom Víctor procurara a mulher com a ajuda do Magistral.
Quantas coisas que não compreendera então se explicavam agora!
Não importava.
A verdade era que do furor que devastara seu coração depois da visita noturna de dom Fermín restavam apenas resíduos apagados.
Já não odiava dom Álvaro.
Já não considerava impossível continuar vivendo enquanto aquele homem não morresse.
A filosofia e a religião triunfavam no espírito de dom Víctor.
Estava decidido a não matar.
Chegaram ao ponto mais alto do bosque.
Havia ali uma pequena planície e, numa clareira, espaço suficiente para medir mais de trinta passos.
As condições finais do duelo eram estas: vinte e cinco passos, com a possibilidade de cada um avançar cinco.
Era permitido apontar durante os intervalos das palmas, que seriam muito breves.
A verdade era que Fulgosio, o coronel, nunca presenciara um duelo a pistola, embora garantisse ter assistido a muitos.
Ronzal e Bedoya jamais haviam participado de semelhantes negócios.
Frígilis vira apenas o duelo frustrado de Mesía.
O coronel copiara as condições de um romance francês que Bedoya lhe emprestara.
A única coisa original era que Fulgosio jurava que sua honra de soldado não lhe permitia autorizar um simulacro de desafio.
Um duelo a pistola, àquela distância, sob voz de comando, sem tempo para apontar, entre dois principiantes, pois Mesía também era principiante com pistolas, seria uma inutilidade completa.
Bedoya pensou que dom Víctor era bom atirador, mas não ousou apresentar objeções ao colega.
A parte contrária também nada disse.
Quando chegaram à planície, o lugar do duelo estava vazio.
Quinze minutos depois, apareceram entre as árvores nuas dom Álvaro e os padrinhos, acompanhados do senhor dom Robustiano Somoza.
Mesía estava bonito com a palidez opaca e o traje preto fechado, elegante e impecável.
Os olhos de dom Víctor se encheram de lágrimas quando viu o inimigo.
Naquele instante, teria gritado com prazer:
— Perdoo! Perdoo!
Como Jesus na cruz.
Quintanar não sentia medo, mas desfalecia de tristeza.
Que amarga era a ironia do destino!
Ele, ele dispararia contra aquele belo jovem que poderia ter feito Anita feliz, caso a houvesse conquistado dez anos antes.
E ele, Quintanar, estaria naquela hora tranquilo no Supremo Tribunal ou na Almunia de dom Godino.
Tudo aquilo de matarem-se era absurdo.
Mas não havia remédio.
A prova era que já o chamavam e já colocavam a pistola fria em sua mão.
Frígilis mantinha-se sereno por dignidade, mas temia um acaso, que Mesía tivesse coragem de disparar e, também por acaso, ferisse Víctor.
Apertou a mão de Quintanar ao deixá-lo no posto de honra.
Testemunhas e médicos afastaram-se para uma boa distância, porque todos temiam uma bala perdida.
Dom Álvaro pensou em Deus sem querer.
Essa ideia aumentou-lhe o terror.
Recordou que aquela piedade só lhe surgia nas doenças graves, na solidão de seu leito de solteiro.
Frígilis estava assustado com a coragem daquele homem.
O próprio Mesía não compreendia bem como chegara até ali.
Pensando nisso, enquanto apontava para dom Víctor sem vê-lo, sem enxergar coisa alguma e sem força para apertar o gatilho, ouviu três palmas rápidas e logo uma detonação.
A bala de Quintanar queimou a calça justa do janota.
Mesía sentiu de repente uma força estranha no coração.
Era robusto, e o sangue ferveu com energia.
O instinto de conservação despertou com ímpeto.
Precisava defender-se.
Caso o outro disparasse novamente, haveria de matá-lo.
Era dom Víctor, o grande caçador!
Mesía avançou cinco passos e apontou.
Naquele instante, sentiu-se tão corajoso quanto qualquer homem.
Era o pressentimento!
O pulso estava firme.
Acreditava ter a cabeça de dom Víctor apoiada na boca da pistola.
Apertou suavemente o gatilho frio e acreditou que o tiro escapara.
Não, não fora ele quem disparara.
Fora o pressentimento.
O fato era que dom Víctor Quintanar se arrastava sobre o capim coberto de geada e mordia a terra.
A bala de Mesía entrara-lhe na bexiga, que estava cheia.
Os médicos descobriram isso pouco depois, na casa nova do Vivero, para onde levaram, como puderam, o corpo inerte do digno magistrado.
Dom Víctor estava deitado na mesma cama onde meses antes dormira com o doce sono das crianças.
Ao redor do leito estavam os dois médicos, Frígilis, que tinha lágrimas geladas nos olhos, Ronzal, estupefato, e o coronel Fulgosio, cheio de remorsos.
Bedoya acompanhara Mesía, que poucas horas depois tomava o trem para Madri, três dias mais tarde do que Frígilis havia planejado.
Pepe, o caseiro dos Marqueses, permanecia de pé, de boca aberta, espantado e triste, esperando ordens no quarto contíguo ao do moribundo.
Viu Frígilis sair, mostrando os punhos ao céu por acreditar-se sozinho.
— Que aconteceu, senhor? Como está aquele bendito de Deus?
Frígilis olhou para Pepe como se não o reconhecesse e, falando consigo mesmo, disse:
— A bexiga cheia... A peritonite de... não sei quem... É o que eles dizem.
— A quê, senhor?
— Nada. Ele vai morrer, com certeza!
Frígilis entrou num gabinete escuro para chorar sozinho.
Pouco depois, Pepe viu sair o coronel Fulgosio e, atrás dele, Somoza, o médico.
— E levá-lo para Vetusta? — dizia o militar.
— Impossível! Nem sonhe com isso! E para quê? Morrerá certamente esta tarde.
Somoza costumava enganar-se, antecipando a morte dos enfermos.
Dessa vez, enganou-se concedendo a dom Víctor mais tempo de vida do que a bala de dom Álvaro lhe permitiu.
Quintanar morreu às onze horas da manhã.
Naquele ano, em Vetusta, o mês de maio foi digno do nome.
Coisa rara!
As nuvens eternas do Corfín haviam derramado todos os humores durante março e abril.
Os vetustenses saíam às ruas como o corvo de Noé pôde sair da arca, e todos compreendiam que ele não tivesse voltado.
Depois de dois meses passados debaixo d’água, era tão doce ver o céu azul, respirar o ar e caminhar por prados verdes cobertos de pequenas margaridas que pareciam faíscas do sol!
Toda Vetusta passeava.
Frígilis, porém, não conseguiu que Ana colocasse um pé na rua.
— Mas, minha filha, isto é suicídio. A senhora sabe o que Benítez disse: o exercício é indispensável, esses nervos não ficarão quietos enquanto a senhora não os levar para tomar ar, ver o sol...
Vamos, Anita, pelo amor de Deus, seja razoável. Tenha caridade... consigo mesma.
Sairemos muito cedo, ao amanhecer, caso queira. O Passeio Grande está tão bonito nessas horas!
Ou então ao anoitecer, para tomar o ar fresco por alguma estrada.
Pelo amor de Deus, minha filha, a senhora voltará a adoecer.
— Não, não saio.
Ana movia a cabeça como os cegos.
— Pelo amor de Deus, dom Tomás, não me atormentem, não me atormentem com essa insistência...
Sairei mais tarde... não sei quando.
Agora a ideia da rua me causa horror.
Ah, não, pelo amor de Deus... não!
Pelo amor de Deus, deixem-me.
Juntava as mãos e se exaltava.
Frígilis precisava calar-se.
Ana passara oito dias entre a vida e a morte, um mês inteiro na cama, sem sair do perigo, e dois meses convalescente, sofrendo crises nervosas de formas estranhas, que a ela mesma pareciam doenças diferentes a cada vez.
Frígilis dissera à Regenta que Quintanar fora ferido nos pântanos de Palomares, que a espingarda disparara sozinha e...
Mas Ana, aterrorizada e adivinhando a verdade, exigira que a levassem imediatamente aos pântanos de Palomares.
Não era possível. Não havia trem até o dia seguinte.
Então uma carruagem, uma carruagem!
Estavam enganando-a.
Caso aquilo fosse verdade, Frígilis estaria ao lado de Víctor.
Frígilis explicou como pôde sua permanência ali.
As mentiras piedosas foram inúteis.
Ana preparou-se para sair sozinha e correr à procura de seu Víctor.
Foi preciso contar-lhe uma verdade: a morte do marido.
Quis vê-lo morto, mas não conseguiu mover-se.
Caiu desacordada e despertou no leito.
Durante dois dias, Frígilis acreditou tê-la enganado, atribuindo a desgraça a um acidente de caça.
Ana, porém, acreditava na verdade, não naquilo que lhe diziam.
A ausência de Mesía e a morte de Víctor explicaram tudo.
Numa tarde, três dias depois da catástrofe, na ausência de Frígilis, Anselmo entregou à patroa uma carta em que dom Álvaro, escrevendo de Madri, explicava o desaparecimento e o silêncio.
Quando Crespo entrou na alcova de Ana, ao anoitecer, chamou-a em vão duas ou três vezes.
Pediu luz, assustado, e viu a amiga como morta, deitada de costas.
Sobre a dobra do lençol estava a carta perfumada de Mesía.
Pouco depois, enquanto Benítez devolvia a Regenta à vida com antiespasmódicos e receitava novos remédios para combater novos perigos, complicações do sistema nervoso, Frígilis lia no toucador a carta daquele a quem, para si mesmo, já chamava sempre de covarde assassino.
Depois de ler o papel asqueroso, amassou-o entre os punhos de lavrador e disse com voz rouca:
— Idiota! Infame! Grosseiro! Idiota!
Naquele papel que cheirava a mulher vulgar, dom Álvaro falava com frases românticas e incorretas sobre o crime, a morte de Quintanar e a cegueira da paixão.
Fugira porque...
— Porque teve medo da justiça e de mim também, covarde! — disse Frígilis.
Fugira porque o remorso o arrastara para longe dela.
Mas o amor mandava-o voltar.
Deveria voltar?
Ana acreditava que ele deveria voltar?
Ou deveriam encontrar-se em outro lugar, em Madri, por exemplo?
Tudo era falso, frio e estúpido naquele papel escrito por um egoísta incapaz de amar verdadeiramente outra pessoa e igualmente incapaz de comportar-se com dignidade nas circunstâncias em que o destino e os crimes o haviam colocado.
Ana não conseguira terminar a leitura da carta.
Caíra sobre o travesseiro como morta assim que viu, naquelas linhas lamacentas, a confirmação definitiva das suspeitas.
Naquele momento, não conseguiu pensar na pequenez daquele espírito miserável, abrigado no corpo elegante que acreditara amar de verdade e pelo qual seus sentidos estiveram realmente apaixonados à sua maneira.
Não.
A Regenta somente pensaria nisso muito mais tarde.
No delírio da doença grave e prolongada que Benítez combateu desesperadamente, aquilo que atormentava o cérebro de Ana era o remorso misturado às imagens absurdas e concretas da febre.
Outra vez teve medo de morrer.
Outra vez sentiu o pânico da loucura, a horrível apreensão de perder a razão e saber que a perdia.
Mais uma vez, esse terror superior a todos os outros medos a fez procurar repouso e seguir as prescrições daquele médico frio, sempre fiel, atento e inteligente.
Passou dias inteiros sem pensar no adultério nem em Quintanar.
Mas isso aconteceu no começo da melhora, quando o corpo fraco voltou a sentir amor pela vida e se agarrou a ela como um náufrago cansado de lutar contra as ondas da morte escura e amarga.
Com a alimentação e a força recuperada, reapareceu o fantasma do crime.
Ah, como o mal era evidente!
Ela estava condenada.
Era claro como a luz.
Às vezes, porém, enquanto meditava e pensava no delito, no duplo delito, principalmente na morte de Quintanar, ao remorso, que era uma coisa sólida na consciência, um mal palpável, uma desesperança definida e evidente, misturava-se, como névoa passando diante de um corpo, um terror vago, mais temível do que o inferno.
Era o terror da loucura, a apreensão de perder a razão.
Ana deixava de enxergar o crime com tanta clareza.
Não sabia quem discutia dentro dela, inventando sofismas irrespondíveis que não aliviavam a dor do remorso, mas faziam-na duvidar de tudo, de que existissem justiça, crimes, piedade, Deus, lógica, alma... Ana.
“Não, nada existe”, dizia aquele tormento do cérebro.
“Só existe um jogo de dores, um choque de contradições que podem fazê-la sofrer infinitamente.
Não existe razão para que essa tortura do espírito tenha limites.
Ele duvida de tudo, até de si mesmo, mas não da dor, que é a única coisa que chega àquele que sente dentro de você, que não se sabe como é nem o que é, mas sofre, pois você sofre.”
Aquelas discussões de palavras da voz interior eram claras para a enferma, porque ela não falava assim consigo mesma senão diante daquilo que experimentava.
Pensava tudo isso porque o observava dentro de si.
Chegava a não acreditar senão em sua dor.
Era como um consolo, como respirar ar puro, sentir terra sob os pés e voltar à luz, sair daquele caos doloroso e retornar à evidência da vida, da lógica, da ordem e da consistência do mundo.
Ainda que fosse para encontrar novamente a recordação de um adultério infame e de um marido enganado, ferido pela bala de um miserável covarde que fugia de um morto, mas não fugira do crime.
E esse mesmo prazer, essa satisfação egoísta que ela não conseguia evitar e sentia apesar da repugnância de senti-la, era um novo remorso.
Surpreendia-se experimentando um vago bem-estar quando a lógica funcionava regularmente dentro dela, quando acreditava nas leis morais e se via criminosa, claramente criminosa, segundo princípios que sua razão aceitava.
Aquilo era horrível, mas ao menos significava viver em terra firme, não sobre a massa enferma e movediça de absurdos do capricho intelectual, não numa espécie de terremoto interior, que era a pior sensação que poderia chegar ao cérebro.
Ana explicou tudo isso a Benítez como pôde, evitando referir-se aos remorsos.
Ele compreendeu tanto aquilo que dizia quanto aquilo que calava e declarou que, naquele momento, o dever principal era livrar-se do perigo da morte.
— A senhora quer suicidar-se?
— Ah, não, isso não!
— Pois, caso não pretendamos nos suicidar, precisamos cuidar do corpo. E a saúde do corpo exige outra vez... exatamente o contrário daquilo que a senhora está fazendo.
A senhora acredita ser seu dever atormentar-se, recordando e amando aquilo que existiu... e odiando aquilo que não deveria ter existido.
Tudo isso seria muito bom caso tivesse forças para suportar essa agitação do pensamento.
A senhora não tem.
Esquecimento, paz, silêncio interior, convivência com o mundo, com a primavera que começa e vem ajudar-nos a viver.
Prometo que, no dia em que a vir fora de perigo, saudável e salva, direi, caso queira:
“Anita, agora a senhora tem saúde suficiente para começar a atormentar a si mesma.”
Frígilis falava no mesmo sentido.
Ninguém mais falava.
Anselmo quase não sabia falar.
Servanda ia e vinha como uma estátua em movimento.
Os outros vetustenses não entravam no casarão dos Ozores depois da morte de dom Víctor.
Não entravam.
Vetusta, a nobre, estava escandalizada e horrorizada.
Uns diante dos outros, com expressões de hipócrita compunção, os bons vetustenses escondiam o íntimo prazer causado por aquele grande escândalo, que era como um romance, alguma coisa que interrompia a eterna monotonia da cidade triste.
Ostensivamente, porém, poucos se alegravam com o que acontecera.
Era um escândalo!
Um adultério descoberto!
Um duelo!
Um marido, ex-regente da Audiência, morto por um tiro na bexiga!
Em Vetusta, nem nos dias de revolução houvera tiros.
A conquista dos direitos inalienáveis do homem não custara um único cartucho.
Aquele tiro de Mesía, cuja culpa pertencia à Regenta, rompia a tradição pacífica do crime silencioso, moderado e cauteloso.
Todos sabiam que muitas damas importantes da Encimada e da Colônia enganavam, haviam enganado ou estavam prestes a enganar os respectivos maridos.
Mas não a tiros!
A inveja que até então se disfarçara de admiração saiu às ruas com toda a cor amarelada de sua carne.
Descobriu-se que invejavam secretamente a beleza e a fama virtuosa da Regenta não apenas Visita Olías de Cuervo, Obdulia Fandiño e a baronesa da Dívida Flutuante, mas também a Governadora, a senhora de Páez, a senhora de Carraspique, a senhora de Rianzares, ou seja, o Grande Constantino, as criadas da Marquesa, toda a aristocracia, toda a classe média e até as mulheres do povo.
E, quem diria, a própria Marquesa, aquela dona Rufina tão liberal, que absolvia a si mesma com tamanha magnanimidade das leviandades da juventude... e de outras épocas!
Todas as mulheres de Vetusta falavam mal de Ana Ozores.
Até muitos homens com alma semelhante à daquelas mulheres a invejavam e esfolavam.
Glocester, no Cabido, com dom Custodio ao lado, falava de escândalo, hipocrisia, perversão e desvios babilônicos.
No Casino, Ronzal, Foja e os Orgaz lançavam lama com as duas mãos sobre a honra morta daquela pobre viúva encerrada entre quatro paredes.
Poucas horas depois de a cidade conhecer a catástrofe, Obdulia Fandiño saíra à rua usando o maior chapéu, o vestido mais apertado nas pernas e as saias mais ruidosas para respirar o ar da maledicência, farejar o escândalo e saborear o ressaibo do crime que passava de boca em boca como uma guloseima lambida por todos, enquanto disfarçavam o prazer daquela doçura pegajosa.
“Estão vendo?”, diziam os olhares triunfantes de Fandiño. “Somos todas iguais.”
Os lábios diziam:
— Pobre Ana! Perdida sem remédio! Com que rosto há de aparecer em público?
Como era tão romântica, até uma coisa... dessa espécie precisou acontecer com ela dessa maneira, a tiros, para que o mundo inteiro ficasse sabendo.
— Os senhores se lembram do passeio da Sexta-feira Santa? — perguntava o Barão.
— Sim, comparem... Quem diria!
— Eu diria — exclamava a Marquesa. — Aquela desfaçatez já me pareceu mau sinal... aquilo de mostrar os pés descalços... malorum signum.
— Sim, malorum signum — repetia a Baronesa, como se dissesse: et cum spiritu tuo.
— E, acima de tudo, o escândalo! — acrescentava dona Rufina, indignada, depois de uma pausa.
— O escândalo! — repetia o coro.
— A imprudência, a falta de habilidade!
— Isso! Isso!
— Pobre dom Víctor!
— Sim, pobre homem, e que Deus o tenha perdoado... mas mereceu o que lhe aconteceu.
— Mereceu inteiramente.
— Vejam aquela amizade tão íntima...
— Era escandalosa.
— Aquilo era...
— Nauseabundo!
Foi o marquês de Vegallana, que tinha na região todos os seus filhos ilegítimos, quem disse isso.
Obdulia assistia àquelas conversas como a um triunfo de sua reputação.
Ela nunca provocara escândalos daquela espécie.
Toda Vetusta sabia quem era Obdulia, mas ela não provocara escândalo algum.
Sim, sim, o escândalo era o pior.
Aquele duelo funesto também era uma complicação.
Mesía fugira e vivia em Madri.
Já se falava de seus amores reatados com a Ministra de Palomares.
Vetusta perdera dois de seus personagens mais importantes por culpa de Ana e de sua falta de habilidade.
Castigaram-na rompendo com ela toda espécie de relação.
Ninguém foi visitá-la.
Nem sequer o Marquesito, a quem passara pela cabeça recolher a herança de Mesía.
A fórmula daquele rompimento, daquele cordão sanitário, foi:
— É preciso isolá-la. Nada, absolutamente nada de relações com a filha da bailarina italiana!
A honra de ressuscitar aquela expressão pertenceu à baronesa da Barcaça.
Caso Ripamilán pudesse sair de casa, não teria respeitado o cruel acordo da alta sociedade.
Mas o pobre dom Cayetano caíra no leito para não mais levantar-se.
Viveu ali, sempre contente, durante outros dois anos.
Terminou a peregrinação pela terra cantando e recitando versos de Villegas.
A Regenta não precisou fechar a porta do casarão para ninguém, como prometera, porque ninguém foi visitá-la.
Soube-se que estava muito doente, e os mais caridosos contentavam-se em perguntar aos criados e a Benítez como passava a enferma, a quem costumavam chamar de “aquela desgraçada”.
Ana preferia aquela solidão.
Ela mesma a teria exigido caso Vetusta não se houvesse antecipado a seus desejos.
Mas, quando já convalescente voltou a pensar no mundo que a cercava e nos anos futuros, sentiu o gelo do ambiente e saboreou a amargura daquela maldade universal.
Todos a abandonavam!
Ela merecia.
Mas, apesar disso, como eram perversos todos aqueles vetustenses que sempre desprezara, até quando a adulavam e mimavam!
A viúva de Quintanar resolveu seguir quanto pudesse os conselhos de Benítez.
Pensava o mínimo possível nos remorsos, na solidão e no futuro triste, monótono em sua escuridão.
Assim que a força do corpo renascido permitiu, trabalhou com agulha e empenhou-se, com vontade de ferro, em encontrar graça no crochê e no tricô.
Odiava todos os livros, fossem quais fossem.
Todo raciocínio a levava a pensar nas desgraças.
A questão era não raciocinar.
Às vezes conseguia.
Então lhe parecia que a melhor parte da alma adormecia, enquanto permanecia acordado apenas o espírito suficiente para ser uma mulher como tantas outras.
Chegou a compreender aquelas tardes eternas que Anselmo passava no pátio, agachado e acariciando o gato.
Calar-se, viver, limitar-se a sentir-se bem e deixar passar as horas, isso era alguma coisa, talvez o melhor.
Por esse caminho devia chegar-se à morte.
Ana avançava sem medo.
Morrer não a assustava.
Queria apenas morrer sem desaparecer naquelas loucuras causadas pela fraqueza do cérebro.
Quando Benítez a surpreendia naquelas horas de calma triste e muda, Ana lhe perguntava com um sorriso de moribunda:
— O senhor está satisfeito?
Com outro sorriso frio e triste, o médico respondia:
— Muito bem, Ana, muito bem. Fico contente por a senhora ser obediente.
Mas, quando Benítez e Crespo ficavam a sós, o médico dizia:
— Ana não me agrada.
— Pois às vezes eu a vejo muito tranquila.
— Sim, justamente por isso... não me agrada. É preciso obrigá-la a distrair-se.
Frígilis decidiu conseguir que ela se distraísse.
Por isso suplicava que saísse para passear com ele quando chegou aquele maio sorridente, seco, ameno e sem nuvens, raramente desfrutado em Vetusta.
Como nada conseguiu, como Anita lhe pedia de mãos juntas que a deixassem em paz, tranquila em seu casarão, Crespo resolveu divertir a pobre amiga dentro da própria casa.
“Quem sabe consigo despertar-lhe o gosto pelas árvores e flores?”
Nada se perdia tentando.
Tentou.
Ana, para agradá-lo, escutava-o com os olhos fixos nele e sorria.
Descia ao Parque quando se tratava de aulas práticas.
Frígilis chegou a entusiasmar-se e, certa tarde, contou a história de seu grande triunfo, a aclimatação do Eucalyptus globulus na região vetustense.
Durante a doença da amiga, dom Tomás Crespo, desconfiando do zelo de Anselmo e Servanda e sem pedir licença a ninguém, instalara-se no casarão dos Ozores.
Transferiu sua cama da pensão onde vivia desde o ano de sessenta para o térreo do casarão.
O toucador e a alcova de Ana ficavam sobre o aposento escolhido por Frígilis.
Ali, com o menor aparato possível e sem incomodar ninguém, instalou-se para vigiar a Regenta e acudir ao menor perigo.
Almoçava e jantava na pensão, mas dormia no casarão.
Anita só ficou sabendo quando, já convalescente, se queixou certo dia daquela solidão.
Confessou que às vezes sentia medo à noite.
Vermelho como um tomate, o bom Frígilis observou timidamente que havia mais de um mês e meio tomara a liberdade de dormir no andar inferior ao da Regenta.
Os criados tinham ordens de não contar à senhora.
Desde que soube disso, Ana sentiu-se menos sozinha durante as noites tristes.
Rompido o segredo, Frígilis tossia de propósito e com força lá embaixo, para que Ana ouvisse, como quem dizia:
“Não tenha medo. Estou aqui.”
Mas, como a malícia sabe de tudo, Vetusta também soube.
Disseram que Frígilis se instalara como pensionista na casa da Regenta, no nobilíssimo casarão dos Ozores.
Alguns diziam:
— Deve ser uma obra de caridade. A pobre deve estar passando dificuldades e, com a ajuda de Frígilis, poderá sobreviver.
A alta sociedade fazia nos dedos as contas do que teria restado a Anita.
Não devia ter restado nada.
— Ela não possui rendimentos.
— As propriedades do marido, as de dom Víctor lá em Aragão, não lhe pertencem.
— Não deve ter pedido a pensão de viuvez.
— Seria ignominioso!
— Claro! Ela, causa da morte do digno magistrado, reclamar a pensão de viúva!
— Seria indigno.
— Indigno.
— E já não é correto que continue morando no casarão dos Ozores.
— Claro, porque, embora o marido o tenha dado a ela, segundo dizem, foi ele quem o comprou das tias de Ana, e não com bens do casal, mas vendendo terras na Almunia.
— Seja como for, ela não deveria morar naquela casa.
— Portanto, ninguém sabe de que vive.
— Deve viver disso. De hospedar Frígilis, que pagará bem.
— Isso, sim, porque ele é um maluco sem escrúpulos... mas é bom.
— Bom... relativamente — dizia o Marquês, que, com a gota começando a incomodá-lo, adquiria moralidade severa e humor negro como carvão.
Recordando aquele gerúndio que causara tamanho efeito em outra ocasião, resumia:
— De qualquer maneira, viver sob o mesmo teto que abriga a viúva infiel do melhor amigo é... é nauseabundo!
Ninguém ousava negar.
Todos aqueles escrúpulos da roda de conversa dos Vegallana também haviam atormentado a Regenta.
Assim que se sentiu forte o bastante para sair à horta, atreveu-se a contar a Frígilis aquilo que a atormentava havia tempo:
— Eu... gostaria de sair desta casa... Esta casa, a rigor... não é minha. Pertence aos herdeiros de Víctor, à irmã dele, dona Paquita, que tem filhos... e...
Frígilis ficou furioso.
Como assim?
Já resolvera tudo.
Escrevera a Zaragoza, e dona Paquita contentara-se com as propriedades da Almunia.
Era mais do que suficiente.
O casarão pertencia a Ana, legal e moralmente.
Ana cedeu porque já não possuía energia para contrariar uma vontade forte.
Com maior obstinação, recusou-se a assinar os documentos apresentados por Frígilis quando ele decidiu solicitar a pensão de viuvez que cabia à Regenta.
— Isso, não, dom Tomás. Antes morrer de fome!
Com efeito, a fome e uma pobreza triste e incômoda ameaçavam a viúva caso não solicitasse seus direitos previdenciários.
Ana disse que preferia reclamar a pensão de órfã que lhe pertencia como filha de militar.
— Podemos mandar um galgo atrás dela... Isso não deve valer nada. E nem sei se conseguiríamos...
Frígilis, não sem ficar vermelho ao fazê-lo, falsificou a assinatura de Ana.
Alguns meses depois, apresentou-lhe o primeiro pagamento de viúva.
A necessidade era tamanha, e tão impossível obter por outro caminho o suficiente para viver, que a Regenta, depois de chorar e recusar cem vezes, aceitou o triste dinheiro da viuvez.
Dali em diante, ela mesma assinou os documentos.
Benítez e Frígilis viam nisso sintomas tristes.
“Aquela vontade está morrendo”, pensava Crespo. “Em outros tempos, Ana teria preferido pedir esmolas. Agora cede... para não lutar.”
E as lágrimas lhe caíam.
“Caso eu fosse rico... mas sou tão pobre...”
E acrescentava, naturalmente:
“Receber essas poucas moedas não é vergonhoso. Para ela parece, mas não é.
O dinheiro pertence a ela.”
Assim vivia Ana.
Desde que o perigo iminente desaparecera, Benítez visitava menos a viúva.
Servanda e Anselmo eram fiéis. Talvez sentissem afeto pela patroa, mas eram incapazes de demonstrá-lo.
Obedeciam e serviam como sombras.
O gato lhe fazia mais companhia do que eles.
Frígilis era o amigo constante, o companheiro das tristezas.
Falava pouco.
Mas Ana se consolava ao pensar:
“Crespo está ali.”
Passo a passo, a saúde voltava a dominar o corpo sempre belo de Ana Ozores.
Com algum remorso, ela sentia novamente apego à vida e desejo de atividade.
Chegou um dia em que já não lhe bastava vegetar ao lado de Frígilis, vendo-o semear e plantar na horta e ouvindo suas apologias do eucalipto.
Prometera a si mesma não sair de casa, e a casa começava a parecer uma prisão estreita demais.
Certa manhã, despertou pensando que naquele ano não cumprira seus deveres com a Igreja.
Além disso, já podia sair do casarão triste para assistir à missa.
Sim, dali em diante iria à missa bem cedo, muito coberta, com um véu espesso, na capela da Vitória, que ficava perto dali.
Também iria confessar-se.
Sem ter fé nem deixar de tê-la, já acostumada a não pensar naquelas grandes questões que a enlouqueciam, Anita Ozores retornou às práticas religiosas, jurando a si mesma não se deixar vencer jamais por aquele falso misticismo que era sua vergonha.
A visão de Deus... Santa Teresa... tudo aquilo passara para não voltar.
Já não a atormentava o terror do inferno, embora se considerasse perdida pelo pecado.
Tampouco a consolavam aqueles ímpetos de amor ideal que outrora lhe davam a certeza do sobrenatural e do divino.
Agora, nada.
Fugir da dor e do pensamento.
Mas aquela piedade mecânica, aquele rezar e assistir à missa como as outras mulheres, parecia-lhe bom.
Parecia-lhe a religião compatível com o marasmo da alma.
Além disso, sem perceber, a religião vulgar, como a chamava para si mesma, dava-lhe um pretexto para faltar à promessa de jamais sair de casa.
Chegou outubro.
Numa tarde em que soprava um vento sul preguiçoso e quente, Ana saiu do casarão dos Ozores e, com um véu espesso sobre o rosto, toda vestida de preto, entrou na catedral solitária e silenciosa.
O coro já terminara.
Alguns cônegos e beneficiados ocupavam seus confessionários, espalhados pelas capelas laterais e entre as colunas da abside, atrás do altar-mor.
Fazia tanto tempo que ela não entrava ali!
Como quem retorna à pátria, Ana sentiu nos olhos lágrimas de ternura.
Mas como era triste aquilo que o templo lhe dizia, falando com as abóbadas, pilares, vidraças, naves e capelas, falando com tudo aquilo que continha as recordações da Regenta!
O cheiro singular da catedral, diferente de qualquer outro, fresco e de íntima volúpia, chegava-lhe à alma.
Parecia-lhe uma música surda que penetrava no coração sem passar pelos ouvidos.
“Ah, caso a fé renascesse!
Caso ela pudesse chorar como uma Madalena aos pés de Jesus!”
Pela primeira vez depois de tanto tempo, sentiu dentro da cabeça aquele ímpeto que sempre lhe parecera uma voz sobrenatural.
Sentiu nas entranhas aquela ascensão de ternura que subia até a garganta e provocava uma ameaça de delicioso estrangulamento.
Lágrimas brotaram-lhe dos olhos.
Sem pensar mais, Ana entrou na capela escura onde tantas vezes o Magistral lhe falara do céu e do amor das almas.
Quem a levara até ali?
Não sabia.
Pretendia confessar-se com qualquer sacerdote e, sem compreender como, encontrava-se a dois passos do confessionário daquele irmão mais velho da alma.
O mundo o caluniara por culpa dela.
Ela mesma, aconselhada pelos sofismas da paixão grosseira que a mantivera cega, também o caluniara, imaginando que o afeto do sacerdote era amor brutal, amor como o de Álvaro, o infame.
Talvez fosse um afeto puro que ela não soubera compreender por causa da própria torpeza.
Voltar àquela amizade seria um sonho?
O impulso que a lançara dentro da capela seria voz do alto ou capricho do histerismo, daquela maldita doença que às vezes era a parte mais íntima de seu desejo e pensamento, ela mesma?
Ana pediu de todo o coração a Deus, em quem naquele instante acreditava claramente, que aquela fosse Sua voz.
Pediu que o Magistral fosse o irmão de alma em quem acreditara durante tanto tempo, não o pretendente lascivo que o infame Mesía lhe descrevera.
Ana rezou fervorosamente, como nos dias da piedade exaltada.
Acreditou ser possível retornar à fé, ao amor de Deus e da vida, sair do limbo daquela sonolência espiritual que era pior do que o inferno.
Acreditou que poderia salvar-se agarrada àquela tábua daquele compartimento sagrado que conhecia tantos de seus sonhos e sofrimentos.
A pouca claridade que chegava da nave e os reflexos amarelados e misteriosos da lâmpada da capela misturavam-se no rosto anêmico daquele Jesus do altar, sempre triste e pálido, cuja vida de estátua se concentrava nos olhos de vidro, que refletiam uma ideia imóvel e eterna.
Quatro ou cinco vultos negros ocupavam a capela.
No confessionário, o cochicho de uma beata soava como o rumor de moscas de verão vagando pelo ar.
O Magistral estava em seu lugar.
Quando a Regenta entrou na capela, reconheceu-a apesar do manto.
Ouvia distraidamente a conversa da penitente e olhava para a grade da entrada.
De repente, aquele perfil conhecido e amado apareceu como num sonho.
A figura, o contorno de todo o corpo, a genuflexão diante do altar e outros sinais que somente ele recordava e reconhecia gritaram como uma explosão dentro de seu cérebro:
“É Ana!”
A beata atrás da treliça continuava o murmúrio dos pecados.
O Magistral não a ouvia.
Ouvia os rugidos da paixão que gritavam dentro dele.
Quando a beata se calou, o clérigo voltou à realidade.
Como uma máquina de distribuir bênçãos, absolveu os pecados da devota e, com a mesma mão, fez sinal para que outra se aproximasse da treliça vazia.
Ana decidira aproximar-se também, levantar o véu diante da grade de ripas oblíquas e, através daqueles orifícios, pedir o perdão de Deus e do irmão de alma.
Caso o perdão não fosse possível, pediria a penitência sem perdão.
Com a fé perdida, adormecida ou quebrada, não sabia, pediria a fé, ainda que viesse acompanhada do terror do inferno.
Queria chorar ali, onde chorara tantas vezes, algumas com amargura, outras sorrindo de prazer entre as lágrimas.
Queria encontrar o Magistral daqueles dias em que o julgava emissário de Deus.
Queria fé, queria caridade.
Depois, o castigo de seus pecados, caso merecesse castigo maior do que aquela escuridão e aquele torpor da alma.
O confessionário rangia de tempos em tempos, como se os ossos rangessem.
O Magistral deu outra absolvição e chamou outra beata com a mão.
A capela esvaziava-se.
Quatro ou cinco vultos negros, todos absolvidos, foram saindo silenciosamente, um após outro.
Por fim, ficaram apenas a Regenta, sobre o estrado do altar, e o Provisor dentro do confessionário.
Já era tarde.
A catedral estava deserta.
A noite começava ali dentro.
Ana esperava sem respirar, decidida a aproximar-se ao primeiro gesto que a chamasse para a treliça.
Mas o confessionário permanecia calado.
A mão não aparecia.
A madeira já não rangia.
O Jesus esculpido, de lábios pálidos e entreabertos e olhar fixo de vidro, parecia dominado pelo espanto, como se esperasse uma cena trágica iminente.
Diante daquele silêncio, Ana sentiu um medo estranho.
Passavam-se segundos, alguns minutos muito longos, e a mão não a chamava.
A Regenta, que estava de joelhos, levantou-se com aquela coragem nervosa que lhe surgia nas grandes crises.
Atreveu-se a dar um passo em direção ao confessionário.
Então o compartimento sombrio rangeu com força, e de seu centro surgiu uma figura negra e comprida.
À luz da lâmpada, Ana viu um rosto pálido e olhos que espetavam como fogo, fixos e atônitos como os do Jesus do altar.
O Magistral estendeu um dos braços e deu um passo de assassino em direção à Regenta.
Horrorizada, ela recuou até tropeçar no estrado.
Ana quis gritar e pedir socorro, mas não conseguiu.
Caiu sentada sobre a madeira, com a boca aberta, os olhos aterrorizados e as mãos estendidas na direção do inimigo que, segundo lhe dizia o terror, iria assassiná-la.
O Magistral parou e cruzou os braços sobre o ventre.
Não conseguia falar, nem queria.
Todo o corpo tremia.
Tornou a estender os braços para Ana.
Deu outro passo adiante.
Depois, cravando as unhas no próprio pescoço, deu meia-volta como se fosse cair e, com as pernas fracas e trêmulas, saiu da capela.
Quando chegou atrás do coro, tirou força da fraqueza e, embora caminhasse cego, procurou não tropeçar nos pilares.
Chegou à sacristia sem cair nem sequer vacilar.
Ana, vencida pelo terror, caiu de bruços sobre o pavimento de mármore branco e preto.
Caiu desacordada.
A catedral estava deserta.
As sombras dos pilares e das abóbadas juntavam-se pouco a pouco, deixando o templo mergulhado nas trevas.
Celedonio, o acólito afeminado, alto e esquálido, de batina curta e suja, percorria as capelas fechando as grades.
As chaves do molho tilintavam umas contra as outras.
Chegou à capela do Magistral e fechou-a com estrépito.
Depois de fechar, teve a impressão de haver ouvido alguma coisa lá dentro.
Encostou o rosto à grade e olhou para o fundo da capela, perscrutando a escuridão.
Debaixo da lâmpada, pareceu-lhe ver uma sombra maior do que de costume.
Redobrou então a atenção e ouviu um rumor semelhante a um gemido fraco, a um suspiro.
Abriu a grade, entrou e reconheceu a Regenta desmaiada.
Celedonio sentiu um desejo miserável, uma perversão da própria perversão de sua lascívia.
Para desfrutar um prazer estranho, ou experimentar se conseguiria desfrutá-lo, inclinou o rosto asqueroso sobre o da Regenta e beijou-lhe os lábios.
Ana voltou à vida, rasgando as névoas de um delírio que lhe causava náuseas.
Acreditara sentir sobre a boca o ventre viscoso e frio de um sapo.