TOMO I — Capítulo XI A Regente · Capítulo 12 de 31
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TOMO I — Capítulo XI

TOMO I

Capítulo XI

O Magistral madrugava muito. Sua vida, cheia de ocupações de natureza muito diversa, não lhe deixava livres para o estudo senão as primeiras horas do dia e as mais altas da noite. Dormia muito pouco. Sua dupla missão de homem de governo na diocese e sábio da catedral impunha-lhe um trabalho esmagador; além disso, era um clérigo de sociedade: recebia e retribuía muitas visitas, e esse cuidado, um dos mais fastidiosos, mas também dos mais importantes, roubava-lhe muito tempo. Pela manhã, estudava filosofia e teologia, lia as revistas científicas dos jesuítas e escrevia seus sermões e outros trabalhos literários. Preparava uma História da Diocese de Vetusta, obra séria e original, que lançaria muita luz sobre certos pontos obscuros dos anais eclesiásticos da Espanha. Sem conhecer esse livro, dom Saturnino Bermúdez falava muito mal dele quando estava um pouco alegre depois do jantar. Um de seus segredos era que “o Magistral merecia o nome de sábio, mas não precisamente o de arqueólogo; ninguém serve para tudo”.

Dom Fermín escrevia à luz tênue e branca do crepúsculo matutino; a manhã estava fresca. De vez em quando, como descanso, De Pas entretinha-se soprando os dedos. Meditava. Tinha os pés envolvidos num velho xale da mãe. Cobria-lhe a cabeça um gorro de veludo preto, puído; a batina, bordada de remendos, adquirira de tão velha uma tonalidade parda, e as mangas do paletó que vestia por baixo reluziam com o brilho triste do tecido muito roçado. Aquele traje sórdido, que contrastava tanto com a elegância, a riqueza e o asseio exibidos pelo Magistral diante do mundo, desaparecia ao terminar o trabalho, quando se aproximava a hora das visitas prováveis. Então dom Fermín vestia um balandrau cômodo, novo e bem talhado; num canto da alcova escondiam-se as pantufas de ourela e o gorro ensebado; e o sapato que Bismarck admirava, o cano alto, e o solidéu que brilhava como um sol negro ocupavam as extremidades respectivas do importante personagem. Em seu gabinete, só recebia aqueles a quem queria deslumbrar com sua ciência; em Vetusta e em toda a província, porém, a sabedoria quase não deslumbrava ninguém, e assim a maior parte das visitas passava para o salão contíguo.

Poucos podiam gabar-se de conhecer de alto a baixo a casa do Provisor; quase ninguém vira mais que o vestíbulo, a escada, um corredor, a antessala e o salão de cortinas verdes, com cadeiras cobertas por capas de tecido cinzento; e mesmo o salão mal se via, porque ficava pouco menos que às escuras. Um dos argumentos empregados pelos defensores da honradez do Provisor consistia em lembrar a modéstia de seus móveis e de sua vida doméstica.

Justamente se falara disso na tarde anterior, no Espolón, numa roda de maledicentes, alguns clérigos, outros leigos.

— Entre a mãe e ele, talvez não gastem doze mil réis por ano — dizia muito sério Ripamilán, o venerável Arcipreste. — Ele se veste bem, isso sim, com elegância, até com luxo; mas conserva as roupas por muito tempo, cuida delas, escova-as bem, e essa rubrica do orçamento acaba sendo insignificante. Lembrem-se, senhores, de quanto durava um chapéu de telha nos ominosos tempos em que o Governo não nos pagava. E, no restante, o que gastam? Dona Paula, com seu hábito negro de Santa Rita, todo de estamenha, o xale apertado às costas e o lenço de seda sobre a cabeça, bem colado às têmporas, já está vestida para o ano inteiro. E comer? Eu nunca os vi comer, mas tudo se sabe. O professor de Psicologia, Lógica e Ética, que os senhores sabem ser muito meu amigo, embora adepto de não sei que endiabrada escola escocesa, e que passa a vida no mercado coberto como se aquilo fosse a Stoa ou a Academia, pois esse filósofo diz que jamais viu a criada do Provisor comprar salmão, e pargo apenas quando está barato, muito barato. E a casa? A casa, todos sabem, é uma cabana limpa, é a morada de um verdadeiro sacerdote de Jesus. O melhor é aquilo que todos conhecemos, o salão; e valha-nos Deus por semelhante salão! À moda do tempo do rei que morreu de velho: solene, asseado, isso sim; mas quantas armadilhas aquela escuridão encobre! Quem nos garante que as cadeiras de damasco verde não estão com as entranhas abertas? Algum dos senhores já as viu sem capa? E o console barrigudo, antiquíssimo, de um dourado que já foi, com seu relógio musical sem música nem corda? Senhores, não me venham com histórias: o Magistral é pobre, e tudo o que se murmura sobre subornos e simonias é infame calúnia.

— Tudo isso é verdade — respondeu Foja, o ex-prefeito usurário, que estava sempre presente em conversas daquele gênero. Parecia ter nascido para a maledicência. — Não se pode negar que vivem como miseráveis, mas o senhor Capalleja faz o mesmo e é milionário. Os avarentos são sempre os mais ricos. Para ter dinheiro, é preciso guardá-lo. Dona Paula esconde seu gato, e que gato! E as casas que o Magistral compra por essas aldeias? E as propriedades adquiridas por dona Paula em Matalerejo, Toraces, Cañedo e Somieda? E as ações do Banco?

— Calúnia, pura calúnia! O senhor não viu as escrituras; não viu as apólices; não viu coisa alguma...

— Mas sei quem viu.

— Quem?

— O mundo inteiro! — gritou dom Santos Barinaga, que sempre aparecia para amaldiçoar o Provisor, seu inimigo mortal. — O mundo inteiro!... Eu... eu... Se eu falasse!... Mas ainda hei de falar!

— Ora, ora, ora, dom Santos; o senhor não pode ser juiz nem testemunha nesse processo.

— Por quê?

— Porque odeia o Magistral.

— Claro que odeio...

E mostrava os punhos cerrados.

— E ele ainda há de me pagar!

— Mas o senhor o odeia por aquilo de “quem é seu inimigo? O de seu ofício”. O senhor vende objetos de culto: cálices, patenas, galhetas, lâmpadas, sacrários, casulas, cera e até hóstias...

— Sim, senhor; e com muita honra, senhor Arcipreste.

— Homem, isso eu já sei; mas o senhor vende tudo isso e...

— Olá! Olá! — interrompeu Foja. — Preciosa confissão! Dado precioso! Dom Cayetano confessa que dom Santos e dom Fermín são inimigos porque exercem o mesmo ofício. Logo, o eminente Ripamilán reconhece como verdade aquilo que diz o mundo inteiro: que, contra as leis divinas e humanas, o Magistral é comerciante, é o dono, o verdadeiro dono de La Cruz Roja, o bazar de artigos religiosos ao qual, por bem ou por mal, todos os padres de todas as paróquias do bispado têm de vir, queiram ou não, comprar aquilo de que precisam e aquilo de que não precisam.

— Permita-me, senhor Foja ou senhor diabo...

— E o vulgo, naturalmente, é malicioso; e como se dá a maldita casualidade de que La Cruz Roja ocupa o térreo da casa contígua à do Provisor; e como se dá a casualidade ainda mais maldita de que todos sabemos haver comunicação pelos porões entre uma casa e outra...

— Homem, não seja tumultuário nem mentiroso.

— Devagar, senhor cônego; não sou tumultuário, não minto, não sou obscurantista, não admito ancas de ninguém e muito menos de um padre.

— Talvez não seja obscurantista, mas tem a cachola no escuro para tudo o que não seja velhacaria. O que tem a ver o senhor Barinaga, o bom dom Santos, ter metido na cabeça que seu comércio de quinquilharias e cera vai mal por causa de uma concorrência imaginária que, segundo ele, lhe faz o Provisor? O que isso tem a ver, alma de cântaro, com o bazar, como o senhor chama, de La Cruz Roja, possuir porões, e com o Magistral ser comerciante, embora os cânones e o Código Comercial o proíbam? Seja liberal, que isso não ofende a Deus; mas não seja um desbocado e meça melhor suas palavras.

— Escute, dom Cayetano; nem a idade nem o fato de ser aragonês lhe dão o direito de faltar ao respeito...

— Pouco barulho! Pouco barulho, senhor Fierabrás — replicou o cônego, atravessando o manteio sobre o peito.

Convém advertir que o tom de brincadeira com que se diziam aquelas palavras fortes lhes tirava toda gravidade e aparência de ofensa. Em Vetusta, o bom humor consistia em lançar insultos e grosserias durante o ano inteiro, como num carnaval perpétuo; quem se irritava destoava e era considerado mal-educado.

— É que eu — gritou o ex-prefeito — mato um cônego como mato um mosquito...

— Imagino; com alguma calúnia. Venha cá, filhote de víbora livre-pensador, Voltaire de monterinha, Lutero de guizos; segundo esse modo disparatado de pensar usado por Vossa Excelência, também se poderá afirmar aquilo que o vulgo diz dos empréstimos do Magistral a vinte por cento.

— Non capisco — respondeu o ex-prefeito, que sabia italiano de óperas.

— Entende, sim, mas falarei mais claro. O senhor não é outro libelo infamatório com língua e pés, que eu gostaria de ver cortados, entre os muitos que sacrificam a honra do Magistral? Pois, se dom Santos o amaldiçoa porque ele lhe rouba a clientela da loja de quinquilharias, o senhor o detestará por causa da usura; quem é seu inimigo?

— Devagar, senhor Ripamilán, que a fumaça já me sobe ao nariz.

— Dirá que desce, porque o senhor tem fumaça no lugar dos miolos.

— O senhor me chamou de usurário!

— Isso mesmo, com todas as letras.

— Eu emprego honradamente meu capital e auxilio o empresário e o trabalhador; sou um dos agentes da indústria e recolho o lucro natural... Isso é conta certa; e, se esses padres de missa e panela que se usam agora soubessem alguma coisa de alguma coisa, saberiam que a Economia Política me autoriza a cobrar o adiantamento, o risco e, quando for o caso, o prêmio do seguro...

— Do seguro o senhor foge, senhor economista quebra-nozes...

— Eu contribuo para a circulação da riqueza...

— Como uma esponja contribui para a circulação da água...

— E os padres são os zangões da colmeia social...

— Homem, se vamos falar de zangões...

— Os padres são bens sem dono...

— Se vamos falar de bens sem dono, conheci um prefeitorzinho no tempo da Gloriosa...

— O que o senhor tem a dizer da Gloriosa? Parece-me que a Revolução lhe fez um bom favor, dando-lhe um cargo de confiança.

— A mim?

— Ao senhor, sim; nomeou-o cônego. E, contudo, o senhor a difama.

— Homem, eu nunca fui cônego constitucional; quando me nomearam, já estava no cabido, graças a Deus e a Sua Majestade.

— E graças ao senhor ministro, que era seu compadre.

— Muito bem; e o que tem isso de mais?

— Tem que o senhor devia respeitar a liberdade de consciência.

— E respeito. Nunca obriguei ninguém a ter consciência.

— Nem a emprestá-la a juros, não é?

Aquela conversa, que começara com a defesa da pobreza do Magistral, acabou, como quase todas, em ataques recíprocos. Dom Santos Barinaga desapareceu, resmungando ameaças; Foja e Ripamilán continuaram a discutir, mas agora sobre o livre-câmbio. O Arcipreste sustentava que o protecionismo era muito melhor para as batinas, porque fazia subir o preço das roupas estrangeiras e, portanto, obrigava os leigos a gastar mais, enquanto o clero se contentava com tecido nacional. Foja invocava a ciência e dizia que a economia política não reconhecia batinas.

Naquela mesma hora da manhã seguinte, enquanto os maldizentes ainda dormiam, o Magistral trabalhava na casa tão discutida, sem pensar que sua pobreza e sua riqueza, reais ou supostas, haviam servido de assunto para a roda do Espolón.

Escrevia e meditava. Aquela manhã, porém, o pensamento lhe escapava constantemente do papel e voltava ao confessionário da véspera, às palavras da Regenta, à voz dela, àquele espírito que julgava ter visto abrir-se diante de si como uma flor rara.

Tinha certeza de haver encontrado uma alma excepcional. Não era apenas uma penitente distinta por sua beleza, pela posição social ou pela cultura; era uma natureza destinada a grandes elevações. Havia nela alguma coisa que ele buscara em vão durante anos entre beatas, senhoras nobres, jovens inclinadas ao convento e clérigos de imaginação devota. Ana possuía a necessidade de acreditar, de amar o absoluto, e ao mesmo tempo uma inteligência capaz de compreender a religião acima das fórmulas vulgares.

O Magistral sentia-se lisonjeado. Aquela alma vinha entregar-se à sua direção. Ele seria o escultor de semelhante mármore.

Recordou os anos da juventude, quando, ainda seminarista, sentira verdadeiros arroubos de fé e estivera disposto, por algum tempo, a entrar na Companhia de Jesus.

“Ali, durante certo período, sentira doces pulsações no coração, rezara com fervor, meditara com amoroso entusiasmo, disposto a sacrificar-se em Jesus... Tudo aquilo estava distante! Já não lhe parecia ser o mesmo. Não era alguma coisa semelhante aquilo que julgava sentir desde a tarde anterior? Não eram as mesmas fibras que haviam vibrado então, lá pelas margens do Bernesga, e que agora se moviam como música plácida para a alma?”

Nos lábios do Magistral apareceu um sorriso de amargura, mitigada pelo resto de otimismo que lhe ficara das reflexões anteriores.

“Mesmo que tudo isso seja ilusão e sonho, por que não sonhar? E quem sabe se esta ambição que me devora não é apenas a forma imprópria de outra paixão mais nobre? Este fogo não poderá arder por um afeto mais elevado, mais digno da alma? Não poderia eu abrasar-me numa chama mais pura que a desta ambição? E que ambição! Bem mesquinha, bem miserável. Não valerá mais a conquista do espírito dessa senhora que o assalto a uma mitra, ao barrete cardinalício, à própria tiara?”

O Magistral surpreendeu-se desenhando a tiara à margem do papel.

Suspirou, lançou fora a pena como se ela fosse culpada daqueles pensamentos, que já lhe pareciam vãos, e, sacudindo a cabeça, voltou a escrever.

O último parágrafo dizia:

“O acontecimento tão esperado pelo mundo católico, a definição do dogma da infalibilidade pontifícia, chegara finalmente no glorioso dia de eterna memória, 18 de julho de 1870: haec dies quam fecit Dominus...”

O Magistral continuou:

“Confirmava-se enfim, de modo solene, a doutrina do quarto Concílio de Constantinopla, que disse: Prima salus est rectae fidei regulam custodire; confirmava-se a doutrina professada pelos gregos com aprovação do segundo Concílio de Lyon, e declarava-se e definia-se, sacro approbante Concilio, que o Romano Pontífice, quum ex cathedra loquitur, goza plenamente, per assistentiam divinam, daquela infalibilidade com que o Divino Redentor quis prover sua Igreja...”

Dom Fermín largou a pena e deixou cair a cabeça sobre as mãos.

Não sabia o que tinha, mas não conseguia escrever. Seria o assunto? Talvez naquela manhã ele não estivesse em condições de tratar matéria tão sublime.

“A infalibilidade! Terrível, mas valentíssimo dogma: um desafio formidável da fé, cercada pela incredulidade de um século que ri. Era como estar no circo entre feras e chamá-las, atiçá-las, espetá-las... Melhor! Assim devia ser.”

Desde o começo da batalha, o Magistral fora entusiástico partidário da declaração.

“Era a coragem, a vontade enérgica, a afirmação do império, uma aventura teológica semelhante às de Alexandre Magno na guerra e às de Colombo no mar.”

Defendera o dogma heroico em Roma, do púlpito, com uma eloquência então espontânea e calorosa, como se o infalível fosse ele. Chamava Dupanloup de covarde. Em Madri, chamara muito a atenção ao pregar nas Calatravas, de volta de Roma com o bom Bispo de Vetusta. O tema também fora a infalibilidade. Os jornais o haviam comparado aos melhores oradores católicos: a Monescillo e Manterola, eclesiásticos como ele, e a Nocedal, Vinader e Estrada, leigos.

“E nada; não passara de um vintém. A Igreja é assim”, pensava De Pas, com a cabeça apoiada nas mãos e os cotovelos sobre a mesa, já esquecido do Papa infalível. “A Igreja proclama a humildade e é humilde como ser abstrato e coletivo, na hierarquia, para conter a impaciência da ambição que espera lá embaixo. Brilhei em Roma, maravilhei os fiéis em Madri, deslumbro os vetustenses e serei bispo quando chegar aos sessenta. Então representarei a comédia da humildade e não aceitarei essa esmola. Os intrigantes sobem; os amigos, os aduladores e os lacaios prosperam sem precisar de sermões; nós, porém, os que devemos ascender por mérito apostólico, não podemos mostrar impaciência, temos de esperar numa atitude digna de submissão e respeito. Farsa, pura farsa! Ah, se eu pusesse meu dinheiro para voar!... Mas meu dinheiro é de minha mãe e, além disso, não quero comprar aquilo que é meu, aquilo que mereço pela cabeça, não pelos cofres. Não estávamos de acordo em que sou uma sumidade? Não se disse que o templo cristão possuía em mim uma coluna firme? Pois, se sou coluna, por que não colocam sobre mim a carga que me cabe? Sou coluna ou palito de dentes, senhor Cardeal? Em que ficamos?”

O Magistral, que estava sozinho e tinha certeza disso, deu um murro sobre a mesa.

— Já vou, senhorito! — gritou uma voz doce e fresca de um aposento contíguo.

O Magistral nem sequer ouviu. Logo entrou no gabinete uma jovem de vinte anos, alta, delgada, pálida, mas de formas suficientemente cheias para os contornos exigidos pela beleza feminina. A palidez tinha um tom suave e delicado, que contrastava muito bem com o negro de andorinha dos olhos grandes, sonhadores, de movimentos bruscos; olhos que pareciam fazer ginástica, obrigados dia e noite às contorções místicas de uma piedade mecânica, meio postiça e falsificada. As feições daquele rosto aproximavam-se do cânone grego, e a doce seriedade da fisionomia combinava muito bem com elas. Naquela figura alongada, mas não sem graça, espiritual, não magra, solene e hierática, tudo era mudo, menos os olhos e a doçura, que parecia o perfume eloquente do corpo inteiro.

Era a criada de dona Paula, Teresina. Dormia perto do gabinete e da alcova do senhorito. Aquela proximidade sempre fora exigência de dona Paula. Ela morava no segundo andar, à vontade; não queria ruído de padres e frades entrando e saindo, mas tampouco consentia que o filho, seu pobre Fermín, que para ela seria sempre uma criança da qual era preciso cuidar muito, dormisse longe de qualquer criatura cristã. A criada devia ter o leito perto do senhorito, para, caso ele chamasse, avisar a mãe, que desceria imediatamente.

Em casa, o Magistral era “o senhorito”. Assim o chamava a ama diante dos criados, e era esse o tratamento que eles lhe davam e eram obrigados a dar.

Para dona Paula, que nem sempre fora “senhora”, “o senhorito” soava melhor que “Vossa Senhoria”. As criadas de dona Paula vinham sempre de sua aldeia; ela própria as escolhia quando passava o verão no campo. Conservava-as por muito tempo. A condição de dormirem perto do senhorito, caso ele chamasse, era-lhes imposta com naturalidade edênica. Nem as moças nem o Magistral haviam levantado jamais a menor objeção. Os olhos azuis, claros, sem expressão, muito abertos, de dona Paula afastavam a possibilidade de toda suspeita; por eles se percebia que ela não tolerava que se pusessem em dúvida a pureza dos costumes do filho e a inocência de seu sono. Nem ao próprio Provisor teria permitido meia palavra de protesto ou uma objeção ligeira em nome do que diriam.

O que poderiam dizer?

Naquela casa, a castidade dela, que era viúva, e a do filho, que era sacerdote, eram consideradas indiscutíveis; tinham evidência absoluta; não se podia sequer falar em tal coisa.

“Dom Fermín continuava sendo uma criança que jamais cresceria para a malícia.”

Esse era um dogma naquela casa. Dona Paula exigia que todos acreditassem que ela acreditava na pureza perfeita do filho. Mas tudo em silêncio.

Teresina entrou abotoando os colchetes mais altos do corpete de seu hábito negro, das Dores, e logo amarrou perto da cintura, nas costas, o lenço de seda também preto que lhe cruzava o peito.

— O que o senhorito queria? Sente-se mal? Já trago o café?

— Eu?... Minha filha... não... não chamei.

Teresina sorriu. Passou uma mão macia e fina pelos olhos, abriu um pouco a boca e acrescentou:

— Eu juraria... ter ouvido...

— Não, eu não. Que horas são?

Teresina olhou o relógio situado acima da cabeça do Magistral. Disse-lhe a hora e ofereceu novamente o café, sorrindo sempre com certa coqueteria, contida pela expressão de piedade que ali servia de libré.

— E minha mãe?

— Dorme. Deitou-se muito tarde. Como estão fechando as contas do trimestre...

— Está bem; traga o café, minha filha.

Antes de sair, Teresina pôs em ordem os móveis, que não pecavam por insurreição e estavam exatamente como ela os deixara no dia anterior; tocou também nos livros da mesa, mas não se atreveu com aqueles que jaziam sobre as cadeiras e no chão. Naqueles não se tocava. Enquanto Teresina permaneceu no gabinete, o Magistral acompanhou-a com olhar impaciente, franzindo um pouco o cenho, como se esperasse que ela fosse embora para poder continuar trabalhando ou meditando.

Somente depois de ter o café diante de si recordou que costumava celebrar missa, que era sacerdote. Tinha missa naquele dia? Prometera celebrá-la? Não conseguiu resolver as dúvidas. A segurança com que Teresa procedia, porém, tranquilizou-o.

Nem dona Paula nem Teresa esqueciam jamais esses pormenores. Eram elas que ouviam o sino do coro, anotavam as missas e cuidavam de tudo quanto se referia aos assuntos do rito. De Pas cumpria aqueles deveres rotineiros, mas precisava que lhos recordassem. Tinha tantas coisas na cabeça! Seus esquecimentos ficavam dentro de casa, porque fora dela se vangloriava de ser o mais fiel observador de tudo quanto exigia a Sinodal e dava frequentes lições ao próprio mestre de cerimônias.

Tomou o café e levantou-se para dar alguns passeios pelo gabinete; queria distrair-se, sacudir os pensamentos importunos que não lhe permitiam avançar no trabalho.

Teresina entrava e saía sem pedir licença, mas andava por ali como o silêncio em pessoa; não produzia o menor ruído. Levou o serviço de café, voltou para buscar uma jarra de estanho e o balde do lavabo; entrou novamente com eles e uma toalha limpa. Passou para a alcova, deixando abertas as portas de vidro, e pôs-se a “levantar” a cama, operação que consistia em sacudir travesseiros e colchões, dobrar lençóis e colcha e guardá-los entre um colchão e outro, estender uma manta sobre o leito e colocar uns sobre os outros os travesseiros sacudidos, mas sem fronha. Em alguns dias, o Magistral dormia a sesta, e dona Paula, por economia, preparava-lhe assim a cama. Fazê-la formalmente seria desperdício de lavagem e passagem.

Dom Fermín tornou a sentar-se na poltrona. Dali via, distraído, os movimentos rápidos da saia negra de Teresina, que apertava as pernas contra a cama para ganhar força ao manejar os pesados colchões. Ela golpeava a lã com vigor, e a saia subia e descia a cada pancada com sacudidas violentas, deixando à mostra a barra das anáguas bordadas e muito limpas e um pouco da panturrilha. O Magistral acompanhava com os olhos os movimentos da tarefa doméstica, mas o pensamento estava muito longe.

Num de seus movimentos, quase estendida de braços sobre a cama, Teresina deixou ver mais da metade da panturrilha e muita fazenda branca. De Pas sentiu na retina toda aquela brancura como se tivesse visto um relâmpago e, discretamente, levantou-se e retomou os passeios. A criada, ofegante, com um braço escondido na dobra de um colchão vergado, virou-se de repente, quase deitada de costas sobre a cama. Sorria e tinha um pouco de cor rosada nas faces.

— O barulho incomoda o senhorito?

O Magistral olhou para a bela beata, que naquele momento não conservava gesto algum de hipocrisia. Apoiando uma das mãos no batente da porta da alcova, o patrão disse, sorrindo como a criada:

— A verdade, Teresina... o trabalho de hoje é muito importante. Se para você dá no mesmo, volte depois e termine de arrumar isto quando eu não estiver.

— Está bem, senhorito, está bem — respondeu a criada, muito séria, com voz nasalada e tom de cantochão.

E, com muita pressa, fazendo as roupas saltarem perto do teto, terminou de levantar a cama e saiu dos aposentos do senhorito.

Este caminhou durante três ou quatro minutos entre os livros deitados no chão, pelos caminhos deixados livres por aqueles canteiros de teologia e cânones. Depois de fumar três cigarros, tornou a sentar-se. Escreveu sem descanso até as dez. Quando os raios do sol se meteram entre as pontas de sua pena, levantou a cabeça, satisfeito com o trabalho.

Olhou para o céu. Estava alegre, sem nuvens. Em Vetusta, o bom tempo valia mais por ser raro. O Magistral esfregou suavemente as mãos. Estava contente. Enquanto escrevera quase mecanicamente uma defesa, calamo currente, da Infalibilidade, destinada a certa Revista Católica lida apenas por católicos já convencidos, amadurecera seu plano de ataque.

Pensava o mesmo que a Regenta: fizera uma descoberta, teria uma alma irmã.

Ele, que lia os autores inimigos como lia os amigos, recordava uma narrativa poética do ímpio Renan, na qual figuravam um frade da Suécia ou da Noruega e uma jovem devota, alemã, caso a memória lhe fosse fiel. De qualquer maneira, eram duas almas que se amavam em Jesus através de grande distância. Não havia naquelas relações sentimentalismo falso, pseudorreligioso; eram afetos puros, em nada semelhantes aos amores de um Lutero, nem sequer aos de um Abelardo. Era a verdade severa, nobre e imaculada do amor místico; amor anafrodisíaco, incapaz de manchar-se com a lama da carne, mesmo em sonhos.

“Por que recordava agora aquela lenda piedosa e romanesca? O que tinha ele a ver com um monge romântico e fanático, místico e apaixonado, da Idade Média... e sueco? Ele era o Magistral de Vetusta, um padre do século XIX, um carola, um obscurantista, um zangão da colmeia social, como dizia Foja, o usurário...”

Pensando nisso e olhando-se no espelho enquanto se lavava e penteava, De Pas sorria com uma amargura mitigada pelo resíduo de otimismo deixado por suas reflexões de pouco antes.

Estava nu da cintura para cima. O pescoço robusto parecia mais forte naquele momento por causa da tensão imposta pela postura violenta, inclinado sobre o lavabo de mármore branco. Os braços, cobertos de pelos negros e encaracolados, assim como o peito alto e forte, pareciam os de um atleta. O Magistral contemplava com tristeza os músculos de aço, dotados de força inútil.

Sua pele era muito branca e fina; qualquer emoção a tingia de rosa. Por conselho de dom Robustiano, o médico, De Pas fazia ginástica com pesos de muitas libras; era um Hércules. Num dia de revolução, um patriota lhe dera ordem de parar nos arredores da cidade, perto da noite. De Pas quebrara o fuzil de pederneira nas costas do aguerrido sentinela, que tentara costurá-lo a golpes de baioneta porque ele não se entregava sem condições. Ninguém soubera daquela façanha, nem o próprio dom Santos Barinaga, que vivia à caça das calúnias e verdades correntes contra “La Cruz Roja”, como chamava coletivamente o Provisor e sua mãe. Quanto ao miliciano, calara-se, jurando ódio eterno ao clero e aos fuzis de pederneira. Era um dos que, ao murmurar contra o Magistral, acrescentavam:

— Se eu falasse!

Enquanto se lavava, nu da cintura para cima, dom Fermín recordava suas proezas no jogo de boliche, lá na aldeia, quando aproveitava as férias do seminário para tornar-se meio selvagem, correndo por penhascos e atalhos. O rapaz forte e peludo que tinha diante de si no espelho parecia-lhe um outro eu que se perdera, que ficara nas montanhas, nu, coberto de pelos como o rei da Babilônia, mas livre, feliz...

Aquela visão o assustava, levava-o para muito longe dos pensamentos presentes, e ele apressou-se a vestir-se. Assim que abotoou o colarinho clerical, o Magistral voltou a ser a imagem da mansidão cristã: forte, mas espiritual, humilde; continuava esbelto, mas já não era formidável. Parecia-se um pouco com sua querida torre da catedral, também robusta, também proporcionada, esbelta e galharda, mística; mas feita de pedra.

Ficou satisfeito, consciente de seu corpo forte, oculto sob o manteio epiceno e a batina flutuante e escultural.

Ia sair. Teresina apareceu no umbral, séria, com o olhar no chão, com a expressão dos santos de cromolitografia.

— O que há?

— Uma moça pergunta se pode ver o senhorito.

— A mim?

Dom Fermín deu de ombros.

— Quem é?

— Petra, a criada da senhora Regenta.

Ao dizer aquilo, os olhos de Teresina fixaram-se sem medo nos do patrão.

— Não disse a que vem?

— Não disse mais nada.

— Pois mande-a entrar.

Petra apresentou-se sozinha no gabinete, vestida de preto, com os cabelos cor de açafrão sobre a testa, sem cachos nem ondas, os olhos baixos e um sorriso doce e cândido nos lábios.

O Magistral reconheceu-a. Era uma jovem que se obstinara em confessar-se com ele e conseguira à força de tenacidade e paciência; depois, porém, ele tivera de repelir suas aproximações várias vezes, para que não o importunasse. Era uma das infelizes que acreditavam nos absurdos difundidos pela calúnia para descrédito dos sacerdotes. Confessava coisas de alcova, despia-se diante da treliça entre lágrimas de falso arrependimento. Era bela, provocante; mas o Magistral a afastara de si, como faria com Obdulia se as exigências sociais não o impedissem.

Petra apresentou-se como se fosse desconhecida; como se pessoa tão insignificante devesse estar apagada da memória de personagem tão elevado. Talvez em outras circunstâncias não tivesse sido bem recebida; mas, ao saber que vinha da parte de dona Ana, o clérigo sentiu uma doce piedade e perdoou de repente àquela criatura extraviada as insinuações vãs e perversas de outros tempos. Fingiu também não reconhecê-la.

Teresina os espiava da sombra no corredor imediato. O Magistral suspeitava e falou como se estivesse diante de testemunhas.

— A senhora é criada da senhora de Quintanar?

— Sim, senhor; sou sua camareira.

— Vem da parte dela?

— Sim, senhor; trago uma carta para Vossa Senhoria.

Aquele “Vossa Senhoria” fez o Provisor sorrir; pareceu-lhe muito oportuno.

— E é só isso?

— Sim, senhor.

— Então...

— A senhora me disse que entregasse esta carta pessoalmente a Vossa Senhoria, que era urgente e os criados poderiam perdê-la... ou demorar para entregá-la.

Teresina moveu-se no corredor. O Magistral ouviu e disse:

— Em minha casa, as cartas não se perdem. Se outra vez vier com um recado escrito, pode entregá-lo ali fora... com toda confiança.

Petra sorriu de uma maneira que julgou discreta e torceu uma ponta do avental.

— Perdoe-me Vossa Senhoria... — disse com voz trêmula e corando.

— Não há o que perdoar, minha filha. Agradeço seu zelo.

Dom Fermín pensava que aquela mulher poderia ser-lhe útil, embora não soubesse quando, como nem para quê. Sentiu vontade de colocá-la a seu lado, sem saber por que isso poderia importar. Também lhe passou pela imaginação dizer à Regenta que a conduta daquela moça era pouco edificante. Mas tudo era prematuro. Por enquanto, contentou-se em despedi-la com uma saudação senhorial, cortês, mas fria.

Quando Petra ia atravessar o umbral, a porta foi completamente ocupada por uma mulher quase tão alta quanto o Magistral e que parecia mais larga de ombros. Tinha a figura talhada a machado e vestia-se como um cabide. Era dona Paula, mãe do Provisor. Contava sessenta anos, mas aparentava pouco mais de cinquenta. Sob um lenço de seda preta que lhe cobria a cabeça e se atava por baixo do queixo, apareciam mechas de cabelos grisalhos, ásperos e lisos. Os olhos azuis, muito abertos e frios, fixaram-se em Petra.

A criada da Regenta fez uma reverência profunda.

Dona Paula não respondeu. Olhou para o filho e depois para a carta que ele segurava.

— Quem é esta moça? — perguntou.

— A criada da senhora de Quintanar.

— Ah.

E tornou a medir Petra da cabeça aos pés.

A jovem saiu, lançando de passagem um olhar rápido para Teresina, que continuava na sombra do corredor.

Dona Paula entrou no gabinete.

— O que queria?

— Trouxe-me esta carta de dona Ana.

— Da Regenta?

— Sim.

— Tão cedo?

— Parece que é urgente.

— Leia.

Dom Fermín abriu a carta. Dona Paula ficou de pé diante dele, imóvel, esperando. Não lhe ocorria que o filho pudesse desejar lê-la sozinho. Ele também não parecia considerar semelhante possibilidade.

A carta era breve. Ana dizia que, depois da confissão, surgira-lhe uma dúvida grave; não se julgava em condições de comungar e suplicava ao novo diretor que a esperasse naquela tarde para reconciliá-la. Acrescentava que, se ele julgasse desnecessária a nova confissão, bastaria mandar-lhe uma palavra por meio da criada.

O Magistral releu a carta.

— O que há? — perguntou dona Paula.

— Nada. Escrúpulos.

— Comungou?

— Ainda não. Quer fazê-lo amanhã.

Dona Paula estendeu a mão.

— Deixe-me ver.

Dom Fermín entregou-lhe a carta. A mãe leu devagar, aproximando muito o papel dos olhos. Ao terminar, devolveu-a sem comentário.

— E essa criada?

— O que tem?

— Não gosto dela.

— Por quê?

— Porque não gosto.

— Já a conhecia?

— Não.

— Então...

— Não gosto, e pronto.

Sentou-se diante do filho. Seus movimentos eram lentos, mas firmes, sem hesitação. Tudo nela parecia decidido de antemão.

— Essa senhora — disse — vai lhe dar muito trabalho.

— Talvez.

— E o senhor não tem tempo.

— É meu dever.

— Seu dever é cuidar de coisas maiores.

— Uma alma vale tanto quanto uma diocese.

Dona Paula apertou os lábios. Não gostava das frases solenes do filho quando eram usadas contra ela.

— Essa senhora é muito rica? — perguntou.

— Não especialmente.

— O marido?

— Tem boa posição, mas não grande fortuna.

— E a família?

— Os Ozores...

— Sei muito bem quem são os Ozores. Pergunto pela fortuna.

— A casa possui algumas propriedades, mas não creio que rendam muito.

Dona Paula refletiu.

— E por que ela escolheu o senhor?

— Porque precisava de um diretor que a compreendesse.

A mãe lançou-lhe um olhar rápido.

— Compreendesse o quê?

— Sua alma.

Dona Paula desviou os olhos. Aquela resposta não a satisfez.

— É bonita — disse depois.

— Dizem.

— O senhor não viu?

— Vi, naturalmente.

— E é bonita?

— Muito.

A mãe ficou calada.

Dom Fermín dobrou a carta e guardou-a num livro.

— Não deixe esses papéis espalhados — advertiu ela.

— Não deixo.

— Teresina entra e sai.

— Teresina não toca em meus papéis.

— Nenhuma criada deve tocar em papel algum.

— Está bem, mãe.

Dona Paula levantou-se.

— Vai sair?

— Sim.

— Aonde?

— Ao Paço, depois a Carraspique e talvez à casa dos Vegallana.

— Volta para almoçar?

— Não sei.

— Procure voltar. Há contas a revisar.

— As contas podem esperar.

— As contas nunca podem esperar.

Dom Fermín sorriu.

— A senhora pensa que o mundo inteiro é um livro-caixa.

— E o senhor pensa que o mundo se governa com sermões.

Havia entre eles uma intimidade de luta contínua, sem gritos e quase sem palavras duras. Dona Paula governava os bens e a vida material; dom Fermín governava as almas e os negócios eclesiásticos. Cada qual considerava o território do outro menos importante, mas ambos sabiam que precisavam um do outro.

— A senhora já tomou café? — perguntou ele.

— Tomei.

— Dormiu pouco.

— O bastante.

— Devia descansar.

— Descansarei quando não houver o que fazer.

— Nunca, então.

— Talvez.

Dona Paula dirigiu-se à porta, mas parou antes de sair.

— Essa criada loura...

— Petra?

— Sim. Não a deixe entrar outra vez aqui dentro.

— Por quê?

— Já disse que não gosto dela.

— Pode trazer recados da patroa.

— Que os entregue fora.

— Está bem.

A mãe saiu.

Dom Fermín ficou sozinho com a carta. Tirou-a do livro e tornou a lê-la. A letra era firme, elegante, sem floreios. Não havia nela uma palavra supérflua, mas o Provisor julgou perceber, entre as linhas, uma inquietação mais profunda do que aquela expressa.

“Que dúvida grave surgira depois da confissão? Que coisa não lhe contara?”

Sentiu curiosidade, uma curiosidade intensa, quase dolorosa.

“Talvez se tratasse de Mesía.”

O nome atravessou-lhe o pensamento como uma sombra desagradável.

Conhecia os rumores. Sabia que o presidente do Casino rondava a Regenta havia muito tempo, embora nenhum fato concreto chegasse a provar coisa alguma. Dom Fermín desprezava Mesía como homem superficial, libertino, político sem convicções e sedutor profissional. Mas não o subestimava. Sabia que possuía beleza, sangue-frio, experiência e, sobretudo, paciência.

“Se aquela mulher sofria por causa dele...”

O Magistral apertou a carta entre os dedos.

Não era ciúme. Isso seria absurdo. Era zelo de diretor espiritual, indignação diante da possível profanação de uma alma destinada a grandes coisas.

“Mesía não a compreenderia. Queria apenas vencê-la, acrescentá-la à coleção. Um corpo, uma vaidade satisfeita, mais nada.”

Ele, ao contrário, poderia elevar aquela alma, purificá-la, torná-la digna de si mesma.

A ideia de que outro homem possuísse influência sobre Ana, mesmo uma influência pecaminosa e combatida, feriu-lhe o amor-próprio. O Provisor queria chegar primeiro a todas as profundezas daquela consciência.

Guardou a carta novamente e começou a andar.

“Era preciso proceder com prudência. Nada de assustá-la, nada de exigências prematuras. A alma da Regenta não se conquistaria com ameaças de inferno nem com penitências vulgares. Era preciso envolvê-la em ideias elevadas, fazê-la compreender que a religião podia satisfazer todos os anseios nobres. Depois, quando ela dependesse dele, quando necessitasse de sua palavra como do ar... então seria possível exigir.”

Exigir o quê?

Dom Fermín não quis responder.

A campainha da porta soou. Ouviu-se o passo de Teresina no corredor e depois a voz de um criado anunciando que o coche do Paço esperava.

O Magistral pegou o solidéu, ajustou o manteio e lançou um último olhar ao espelho.

A figura refletida parecia-lhe serena, digna, irrepreensível. Nenhuma das tempestades da manhã deixara traço no rosto. Somente os olhos tinham um brilho mais vivo.

Saiu.

Enquanto descia a escada, pensava na entrevista da tarde.

“Ela viria. Ficaria outra vez ajoelhada diante dele, separada apenas pela treliça. Contaria aquilo que omitira. Ele saberia.”

A possibilidade de conhecer um segredo de Ana produzia-lhe uma emoção que procurou chamar de interesse sacerdotal.

Na rua, o ar fresco bateu-lhe no rosto. Vetusta despertava lentamente. As lojas começavam a abrir; criadas varriam as portas; alguns cônegos atravessavam as ruas em direção à catedral. O Magistral cumprimentava todos com sua cortesia habitual, inclinando o corpo e levando a mão ao solidéu.

Por dentro, porém, continuava diante da treliça do confessionário.

Antes que saísse, porém, a porta foi inteiramente ocupada por uma mulher quase tão alta quanto o Magistral e que parecia mais larga de ombros; tinha a figura talhada a golpes de machado e vestia-se como um cabide. Era dona Paula, mãe do Provisor. Tinha sessenta anos, que pareciam pouco mais de cinquenta. Sob um lenço de seda preta que lhe cobria a cabeça, atado sob o queixo, apareciam tranças fortes, de um gris sujo e lustroso; a testa era estreita, ossuda, pálida como todo o rosto; os olhos, de um azul muito claro, não tinham outra expressão além da sensação de um contato frio, eram olhos mudos; por eles ninguém saberia coisa alguma daquela mulher. O nariz, a boca e o queixo pareciam-se muito com os do Magistral. Um xale preto de merino, apertado com força contra as costas angulosas, caía sem graça sobre o hábito, também preto, de estamenha com debruns brancos. Pelo traje e pelo rosto, dona Paula parecia uma defunta amortalhada.

Petra cumprimentou-a, um pouco perturbada. Dona Paula mediu-a com os olhos, sem disfarce.

— O que a senhora queria? — perguntou, como poderia tê-lo perguntado a parede.

Petra recompôs-se e respondeu, quase com altivez:

— Era um recado para o senhor Magistral.

E saiu do gabinete. À porta da escada, Teresina recebeu-a com um sorriso afável, e despediram-se com um beijo em cada face, como as senhoritas de Vetusta. Eram amigas, ambas pertencentes à aristocracia da criadagem. Respeitavam-se sem prejuízo da inveja mútua. Petra invejava em Teresina a altura, os olhos e a casa do Magistral. Teresina invejava em Petra o desembaraço, a graça, o conhecimento das maneiras finas e da vida urbana.

— O que essa senhora queria com você? — perguntou dona Paula assim que se viu a sós com o filho.

— Não sei; ainda não abri a carta.

— Uma carta?

— Sim, esta.

Dom Fermín teria desejado que a mãe estivesse a cem léguas dali. Não conseguia ocultar a impaciência, apesar do domínio sobre si mesmo, que era uma de suas maiores forças; ansiava por poder ler a carta e temia corar diante da mãe.

“Corar?”

Sim, sem motivo, sem saber por quê; mas tinha certeza de que, se abrisse aquele envelope diante de dona Paula, ficaria vermelho como uma cereja. Coisas dos nervos. Mas sua mãe era como era.

Dona Paula sentou-se na beirada de uma cadeira, apoiou os cotovelos sobre a mesa, dessas chamadas ministeriais, e empreendeu a difícil tarefa de enrolar um cigarro de papel, grosso como um dedo. Dona Paula fumava; mas, “desde que pertenciam à catedral”, fumava às escondidas, apenas diante da família e de alguns amigos íntimos.

O Magistral deu duas voltas pelo gabinete e, numa delas, apanhou dissimuladamente a carta da Regenta e guardou-a num bolso interior, sob a batina.

— Adeus, mãe; vou dar os parabéns ao senhor de Carraspique.

— Tão cedo?

— Sim, porque depois aquilo se enche de visitas, e preciso falar com ele a sós.

— Não vai lê-la?

— Ler o quê?

— Essa carta.

— Depois, na rua; não deve ser urgente.

— Por via das dúvidas, leia aqui; talvez tenha de responder imediatamente ou deixar algum recado. Não compreende?

De Pas fez um gesto de indiferença e leu a carta.

Leu em voz alta. Fazer outra coisa seria despertar suspeitas. Sua mãe não estava acostumada a que houvesse segredos para ela.

“Além disso, o que poderia dizer a Regenta? Nada de particular.”

Meu querido amigo: hoje não pude ir comungar; preciso vê-lo antes; preciso reconciliar-me. Não creia que se trata desses escrúpulos contra os quais o senhor me preveniu; penso que é coisa séria. Se o senhor fosse tão amável a ponto de consentir em ouvir-me por um momento esta tarde, muito lhe agradeceria sua filha espiritual e afetuosíssima amiga, que lhe beija a mão,

ANA DE OZORES DE QUINTANAR.

— Jesus, que carta! — exclamou dona Paula, com os olhos cravados no filho.

— O que tem? — perguntou o Magistral, virando-lhe as costas.

— Parece-lhe correto esse modo de escrever ao confessor? Parece coisa de dona Obdulia. Você não diz que a Regenta é tão discreta? Essa carta é de uma tola ou de uma louca.

— Não é louca nem tola, mãe. É que ainda não entende dessas coisas... Escreve-me como escreveria a um amigo qualquer.

— Enfim, é uma pagã que quer converter-se.

O Magistral calou-se. Não discutia com a mãe.

— Ontem à tarde você não foi ver o senhor Ronzal.

— A hora da reunião passou sem que eu percebesse...

— Eu sei; você ficou duas horas e meia no confessionário, e o senhor Ronzal cansou-se de esperar e não teve resposta para dar ao senhor Pablo, que voltou para a aldeia acreditando que você, Ronzal, eu e todos nós somos uns moleques sem palavra, que sabemos explorá-los quando precisamos e, quando eles precisam de nós, os abandonamos.

— Mas, mãe, ainda há tempo; o rapaz está no quartel, ainda não o levaram; não saem para Valladolid antes de sábado... há tempo...

— Sim, há tempo para que apodreça no calabouço. E o que dirá Ronzal? Se você, que é o maior interessado, esquece o assunto, o que fará ele?

— Mas, senhora, o dever vem primeiro.

— O dever, o dever... é cumprir com as pessoas, Fermo! E por que aquele espantalho do dom Cayetano resolveu enfiar agora essa herança em suas mãos?

— Que herança?

De Pas girava numa das mãos o chapéu de telha, de abas soltas, e apoiava-se no batente da porta, indicando que desejava sair depressa.

— Que herança? — repetiu.

— Essa senhora; essa da carta, que, pelo visto, pensa que meu filho não tem mais nada a fazer além de atendê-la.

— Mãe, a senhora é injusta.

— Fermo, sei muito bem o que digo. Você... é bom demais. Fica endeusado e não vê nem entende.

Dona Paula acreditava que “endeusar-se” significava elevar o pensamento às regiões celestiais.

— O Arcediago e dom Custodio — prosseguiu — fizeram ontem à noite um banquete da confissão na reunião de dona Visitación, aquela megera; sim, senhor, um banquete da confissão da outra; e discutiram se durara ou não duas horas...

O Magistral benzeu-se e disse:

— Já estão murmurando? Infames!

— Sim, já! Já! E é por isso que falo: porque essas coisas devem ser cortadas a tempo. Lembra-se da Brigadeirinha? Lembra-se do trabalho que me deu aquela calúnia miserável, por você ser nobre e confiante demais? Fermo, já lhe disse mil vezes: não basta ter virtude, é preciso saber aparentá-la.

— Desprezo a calúnia, mãe.

— Eu não, filho.

— Não vê que, apesar de suas intrigas, eu piso em todos eles?

— Sim, até agora; mas quem responde pelo futuro? Tantas vezes vai o cântaro à fonte... Dom Fortunato é uma malva, está bem; não é bispo, é um cordeiro, mas...

— Tenho-o na palma da mão!

— Eu sei, e eu na outra; mas já se sabe como são os cordeiros quando se assustam. O Cabido não o suporta. O Arcediago morre de inveja; dom Custodio não pode vê-lo nem pintado; Glocester, embora o adule, odeia-o. E esses homens não descansam. Se encontram uma brecha...

— Não encontrarão.

— Encontram-na, sim, quando você se dedica a passar duas horas e meia fechado no confessionário com uma senhora que escreve cartas desse gênero.

— Mãe!

— Não levante a voz. Não estou dizendo nada contra sua honra. Sou sua mãe e sei quem você é. Mas o mundo não sabe nem quer saber. O mundo vê uma mulher bonita, um padre jovem e uma conversa de duas horas. Com isso lhe basta.

O Magistral ficou pálido.

— A senhora me ofende.

— Eu o defendo.

— Não preciso que me defendam de semelhante infâmia.

— Todos precisamos. Sobretudo os que têm inimigos.

— O que pretende? Que eu abandone uma alma porque o Arcediago e dom Custodio são uns miseráveis?

— Pretendo que não se esqueça do resto por causa de uma alma. Há muitas almas, e nenhuma vale uma mitra.

Dom Fermín fechou a mão sobre o chapéu.

— Não fale assim, mãe.

— Falo como penso. E você também pensa assim quando não está... endeusado.

O Magistral começou a andar pelo gabinete.

Dona Paula acendeu o cigarro, soltou uma baforada espessa e observou o filho através da fumaça.

— Além disso — continuou —, essa mulher não me agrada.

— Nem sequer a conhece.

— Conheço o suficiente.

— Viu-a duas ou três vezes.

— E ouvi falar dela cem.

— Calúnias.

— Tudo é calúnia quando não convém acreditar. Dizem que dom Álvaro anda atrás dela.

O nome de Mesía fez dom Fermín parar.

— Quem diz?

— Todos.

— Todos mentem.

— Pode ser. Mas ele não é homem que perca tempo à toa.

— E ela é uma senhora incapaz...

— Todas são incapazes até que deixam de ser.

— Mãe!

— Não estou falando dela; falo das mulheres. Conheço-as.

— A senhora vê lama em toda parte.

— Porque há lama em toda parte.

Dom Fermín voltou-lhe as costas.

Dona Paula continuou fumando, impassível. Não acreditava que as intrigas do Arcediago e do Cabido pudessem muito contra o prestígio de seu Fermín, instrumento de que ela, dona Paula, se servia para espremer o bispado. Fermín era a ambição, o desejo de dominar; sua mãe era a cobiça, o desejo de possuir. Dona Paula imaginava a diocese como um lagar de sidra dos que havia em sua aldeia; o filho era a força, a viga e a pedra que espremiam o fruto, comprimindo-o, descendo pouco a pouco; ela era o parafuso que apertava. Pela haste de aço de sua vontade deslizava a vontade do filho, de cera para ela; a haste entrava na porca, era natural.

“Era mecânico”, como dizia dom Fermín ao explicar religião.

“Mas, contra uma mulher, outra mulher”, pensava o parafuso.

“Seu filho ainda era jovem; podiam seduzi-lo, como já haviam tentado em outra ocasião e talvez conseguido.”

Ela acreditava na influência da mulher, mas não confiava em sua virtude.

“A Regenta, a Regenta! Dizem que é uma senhora incapaz de pecar, mas quem sabe?”

Alguma coisa ouvira a respeito dos rumores. Era amiga de certas beatas que mantinham um pé na igreja e outro no mundo; essas senhoras sabiam tudo, às vezes mesmo quando nada havia para saber. Haviam-lhe dito, mais ou menos e sem estilo flamengo, o mesmo que Orgaz contara no Casino dois dias antes: que dom Álvaro estava apaixonado pela Regenta ou, pelo menos, queria apaixoná-la, como fizera com tantas outras.

“Aquele dom Álvaro era inimigo de seu filho. Ela sabia.”

Nem o próprio dom Fermín o considerava inimigo, embora várias vezes houvesse adivinhado nele um rival pelo domínio de Vetusta. Dona Paula, porém, possuía instinto superior; via mais que ninguém em tudo quanto interessava ao poderio do filho.

“Aquele dom Álvaro era outro homem bonito, também inteligente, arrogante, conhecedor do mundo; possuía o prestígio do amor, contava com as respectivas mulheres de muitos personagens de Vetusta e, às vezes, com os próprios personagens, graças às mulheres; era chefe de um partido, o braço direito, e talvez a cabeça, dos Vegallana... Podia disputar com Fermín, talvez com forças iguais, o domínio de Vetusta, daquela Vetusta que precisava sempre de um senhor e, quando não o tinha, queixava-se da falta ‘de caráter’ dos homens importantes.”

E por que Mesía não estaria já disputando aquele domínio?

Não seria possível que a Regenta, aquela santa, e o dom Alvarito estivessem de acordo e quisessem apanhar o pobre Fermo numa armadilha?

Dona Paula supunha facilmente semelhantes artifícios em qualquer caso, por mais complicados e sutis que fossem, porque passava a vida entregue a combinações da mesma espécie. Dessas suspeitas, não comunicou ao filho senão o suficiente para preveni-lo contra a Regenta e suas confissões de duas horas. Não citou novamente o nome de Mesía. Nos lábios, saltitava-lhe esta pergunta:

“Mas de que diabos vocês falaram durante duas horas seguidas?”

Não se atreveu a tanto.

“Afinal, o filho era sacerdote e ela era cristã.”

Fazer aquela pergunta parecia-lhe irreverência, um sacrilégio que teria tirado Fermo do sério, e não havia necessidade.

— Adeus, mãe — disse dom Fermín quando dona Paula se calou por não ousar formular a pergunta sacrílega.

O Magistral já estava na escada quando ouviu a mãe dizer:

— Então hoje também não vai ao coro?

— Senhora, a esta hora já deve ter terminado...

— Está bem, está bem! — ficou ela murmurando. — Não ganhamos para pagar multas.

Por fim, o Magistral viu-se fora de casa, com o prazer de um estudante que escapa à férula de um mestre implacável.

O sol brilhava, aproximando-se do zênite. Sobre Vetusta não havia uma única nuvem. O céu parecia andaluz.

Sim, mas o bom humor do Magistral se havia nublado; a mãe o deixara nervoso, irritado, sem que ele soubesse contra quem.

“Aquele era seu tirano: um tirano consentido, amado, muito amado, mas às vezes formidável. E como romper aquelas correntes? Devia-lhe tudo. Sem a perseverança daquela mulher, sem sua vontade de aço, que avançava em linha reta para um objetivo, rompendo todos os obstáculos, o que teria sido dele? Um pastor nas montanhas ou um cavador nas minas. Ele valia mais que todos, mas sua mãe valia mais que ele. O instinto de dona Paula era superior a todos os raciocínios. Sem ela, algumas vezes teria sido esmagado na luta da vida. Sobretudo quando seus pés se enredavam nas redes sutis estendidas por algum inimigo, quem o libertava? Sua mãe. Era sua égide. Sim, ela antes de tudo. Seu despotismo era a salvação; aquele jugo, saudável. Além disso, uma voz interior dizia-lhe que o melhor de sua alma era o carinho e o respeito filial. Nas horas em que desprezava a si mesmo, para encontrar dentro de si alguma coisa pura que impedisse aquela repugnância de chegar ao desespero, precisava recordar isto: era um bom filho, humilde, dócil... uma criança, uma criança que nunca se tornava homem. Ele, que diante dos demais era um homem que costumava transformar-se em leão!”

Mas agora sentia uma rebelião na alma. A suspeita da mãe era injusta. Toda Vetusta acreditava na virtude da Regenta, e ela, de fato, era um anjo. Ele, sim, não merecia beijar o pó que aquela senhora pisava. Quem podia temer a quem?

Nesse momento, compreendeu a causa de seu súbito mau humor.

“A mãe falara das calúnias com que queriam perdê-lo... dos excessos de ambição, orgulho e sórdida cobiça que lhe atribuíam, da influência perniciosa sobre a vida de muitas famílias que lhe imputavam... mas seria tudo calúnia? Oh, se a Regenta soubesse quem ele era, não lhe confiaria os segredos de seu coração. Por um ato de fé, aquela senhora desprezara todas as injúrias com que os inimigos o perseguiam, não acreditara em nada daquilo e aproximara-se de seu confessionário para pedir-lhe luz nas trevas da consciência, para pedir-lhe um fio salvador nos abismos que se abriam a cada passo da vida.”

Se ele fosse um homem honrado, teria dito ali mesmo:

“Cale-se, senhora! Não sou digno de que a majestade de seu segredo entre em minha pobre morada. Sou um homem que aprendeu a dizer quatro palavras de consolo aos pecadores fracos e quatro palavras de terror aos pobres de espírito fanatizados; sou de mel com os que vêm morder a isca e de fel com os que já morderam; o chamariz é de açúcar, o alimento que dou a meus prisioneiros, de absinto; sou ambicioso e, o que é pior, mil vezes pior, infinitamente pior, sou avarento, guardo riquezas mal adquiridas, sim, mal adquiridas; sou um déspota em vez de pastor; vendo a Graça, negocio como um judeu com a religião daquele que expulsou os mercadores do templo... Sou um miserável, senhora; não sou digno de ser seu confidente, seu diretor espiritual. Aquela eloquência de ontem era falsa, não saía de minha alma; não sou o vir bonus, sou aquilo que diz o mundo, aquilo que dizem meus detratores.”

Como o pensamento o levava muito longe, o Magistral sentiu uma reação na consciência, reação favorável à própria fama.

“Façamos mais justiça a nós mesmos”, pensou sem querer, movido pelo instinto de conservação do amor-próprio.

Então recordou que sua mãe era quem o empurrava para todos aqueles atos de avareza que agora lhe tingiam o rosto de vergonha.

“Era sua mãe quem acumulava; por ela, a quem devia tudo, chegara ele a apalpar e mastigar o lodo daquela sordidez pouco escrupulosa. Sua paixão própria, aquela que espontaneamente fazia estragos nele, era a ambição de dominar; mas isso não era nobre no fundo? E não era, afinal, justo? Não merecia ser o primeiro da diocese? O Bispo não reconhecia de bom grado essa superioridade moral? Já fazia bastante contentando-se, por enquanto, em mandar apenas em Vetusta.”

Oh, tinha certeza. Se algum dia sua amizade com Ana Ozores chegasse ao ponto de permitir que ele também se confessasse diante dela e lhe dissesse qual era sua ambição, ela, que possuía uma alma grande, certamente o absolveria dos pecados cometidos.

Os de sua mãe, aqueles a que a cobiça materna o arrastara, eram os que não tinham desculpa, os feios, os vergonhosos, os inconfessáveis.

Enquanto tais pensamentos o atormentavam e consolavam alternadamente, o Magistral avançava pelas calçadas estreitas e gastas das ruas tortuosas e pouco frequentadas da Encimada; ia com as faces acesas, os olhos humildes, a cabeça um pouco inclinada, como de costume, o corpo elegante e ereto, o passo majestoso e rítmico, o manteio amplo flutuando, sem a sombra de uma mancha.

Respondia aos cumprimentos como se tivesse toda a alma posta neles, dobrando a cintura e descobrindo a cabeça como se passasse um rei; e, às vezes, nem sequer via quem cumprimentava.

Aquela dissimulação era nele uma segunda natureza. Tinha o dom de falar com muito tino enquanto pensava em outra coisa.

Dona Paula tornara a entrar no gabinete do filho. Vasculhou a alcova. Viu a cama levantada, rígida, muda, fresca, sem uma dobra; saiu da alcova. No gabinete, examinou o sofá de reps azul, as poltronas, as fileiras corretas de livros amontoados sobre cadeiras e tábuas por toda parte; reparou na ordem da mesa, na da poltrona, na das cadeiras. Parecia farejar com os olhos.

Chamou Teresina; perguntou-lhe qualquer coisa, cavando-lhe o rosto com o olhar como quem abre galerias numa mina; meteu-se pelas pregas do traje, correto como a ordem das cadeiras, dos livros, de tudo. Fez a moça falar para avaliar o tom da voz, como se avalia o timbre de uma moeda. Despediu-a.

— Escute... — tornou a dizer.

Depois:

— Nada, vá embora.

Deu de ombros.

— É impossível — disse entre os dentes. — Não há maneira de descobrir coisa alguma.

E, ao sair do gabinete, ainda disse:

— Que capricho dos homens!

Subindo a escada do segundo andar, acrescentou:

— É como todos, como todos; sempre fora!

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