TOMO II — Capítulo XVIII
TOMO II
Capítulo XVIII
As nuvens pardas, opacas, largas como estepes, vinham do Oeste, chocavam-se contra as cristas de Corfín, rasgavam-se e, desfeitas em água, caíam sobre Vetusta, umas em diagonais vertiginosas, como chicotadas furibundas, como castigo bíblico; outras pachorrentas, tranquilas, em delgados fios verticais. Passavam, vinham outras, e depois outras que pareciam as mesmas de antes, como se tivessem dado a volta ao mundo para tornar a rasgar-se em Corfín. A terra esponjosa se descarnava como os ossos de Jó; sobre a serra, o vento preguiçoso arrastava a névoa lenta e desfalecida, semelhante a um penacho de plumas cinzentas; e toda a campina entorpecida, nua, estendia-se ao longe, imóvel como o cadáver de um náufrago, ainda escorrendo a água das ondas que o haviam atirado à praia. A tristeza resignada, fatal, da pedra que a gota eterna perfura era a expressão muda do vale e do monte; a natureza morta parecia esperar que a água dissolvesse seu corpo inerte, inútil. A torre da catedral aparecia ao longe, entre a cerração, como um mastro submerso. A desolação do campo era resignada, poética em sua dor silenciosa; mas a tristeza da cidade enegrecida, onde a umidade imunda porejava pelos telhados e pelas paredes gretadas, parecia mesquinha, repugnante, estridente, como a cantilena de um mendigo de profissão. Incomodava; não inspirava melancolia, mas um tédio desesperado. Frígilis preferia molhar-se em campo aberto e arrastava consigo Quintanar para longe de Vetusta, perto do mar, até os prados e pântanos solitários de Palomares e Roca Tajada, onde extenuavam o monte e a planície, perseguindo perdizes e galinholas na espessura dos outeiros arborizados; e, nas planuras nuas, alcaravões melancólicos e queixosos, nuvens de estorninhos, tordos-d’água, patos-marinhos e bandos escuros de diligentes peguetas. Para essas excursões distantes, Dom Víctor contava com o beneplácito da esposa. Saíam ao romper do dia, no trem do correio, chegavam a Roca Tajada uma hora depois e, às dez da noite, entravam em Vetusta silenciosos, carregados de ramalhetes de penas e ensopados como sopas em vinho. Lá nos pântanos de Palomares, Dom Víctor costumava sentir falta do teatro.
“Se o trem saísse duas horas antes, ainda vá!”
Frígilis não sentia falta de coisa alguma. Sua devoção à caça, à vida ao ar livre, no campo, na solidão triste e doce, era profunda, sem rival: Quintanar dividia aquela afeição com o amor às farsas do palco. Frígilis aborrecia-se e resfriava-se no teatro. Tinha horror às correntes de ar e só se julgava seguro no meio da campina, que não tem portas.
Crespo tinha sua vocação bem definida e arraigada: a natureza. Quintanar chegara à velhice sem saber “qual era seu destino na terra”, como dizia, usando a linguagem dos tempos românticos, da qual ainda lhe restavam alguns ranços. O espírito do ex-regente era de cera mole; tomava com facilidade todas as formas e com igual facilidade as trocava por outras novas. Julgava-se homem enérgico porque, às vezes, empregava em casa uma linguagem imperativa, de edital municipal; mas não passava, a rigor, de uma massa com que os outros faziam o que bem queriam. Assim se explicava que, embora valente, jamais tivesse encontrado ocasião de mostrar sua coragem, lutando contra uma vontade adversa. Sustentava que em sua casa só se fazia o que ele queria, sem perceber que sempre acabava querendo aquilo que os outros determinavam. Se Ana Ozores tivesse um caráter dominador, Dom Víctor se veria na triste condição de escravo; felizmente, a Regenta deixava o bom marido entregue às veleidades de seus caprichos e contentava-se em negar-lhe qualquer influência sobre os próprios gostos e inclinações. Aquele programa de diversões, alegria e atividade buliçosa, que Quintanar anunciara ao som de trombetas, cumpria-se apenas nos pontos e durante o tempo que pareciam convenientes à esposa; se ela preferia ficar em casa e voltar aos devaneios, Dom Víctor, que prometera e até jurara não ceder, aos poucos cedia; procurava fazer com que a retirada fosse honrosa, fingia transigir e julgava salvo seu brio de homem enérgico e senhor da casa, permitindo-se a audácia de resmungar um pouco, por entre os dentes, quando já ninguém o ouvia. Os criados lhe impunham a própria vontade sem que ele desconfiasse. Até na sala de jantar fora derrotado. Amante, como bom aragonês, dos pratos fortes, do vinho encorpado, da clássica abundância, fora cedendo pouco a pouco, sem o notar, e já comia muito menos e aceitava iguarias mais fantásticas que substanciosas, que agradavam à mulher. Não era que Anita lhas impusesse, mas as cozinheiras preferiam agradar à senhora, porque nela enxergavam uma vontade séria, ao passo que no patrão só encontravam um pregador que as aborrecia com sermões que não compreendiam. Até no estilo se percebia que Quintanar carecia de caráter. Falava como o jornal ou o livro que acabara de ler, e certos torneios de frase, inflexões de voz e outras qualidades de sua oratória, que pareciam sinais de uma maneira original, não passavam de vestígios de inclinações e ocupações anteriores. Assim, às vezes falava como um acórdão do Supremo Tribunal, empregava na conversa familiar o tecnicismo jurídico, e isso era tudo o que nele restava do antigo magistrado. Não pouco contribuíra para privar Quintanar de originalidade e resolução o contraste entre seu ofício e suas inclinações. Se nascera para alguma coisa, fora, sem dúvida, para comediante ambulante, ou melhor, para ator amador de teatro doméstico. Se a sociedade estivesse organizada de modo que a profissão de ator amador bastasse para ganhar a vida, Quintanar a teria seguido até a morte e chegaria a trabalhar, expressão sua, tão bem quanto qualquer um desses outros primeiros-galãs que percorrem as capitais de província à maneira de mascates.
Mas Dom Víctor compreendeu que, na Espanha, o ator não vive de seu trabalho honrado se não se entrega à vergonha de servir ao público a arte nas companhias de comediantes profissionais; compreendeu, além disso, que com o tempo precisaria constituir família, e entrou a contragosto na carreira judicial. Quis o acaso, e quiseram as boas relações dos seus, que Quintanar ascendesse rapidamente, e ele se viu magistrado, viu-se presidente da Audiência de Granada, numa idade em que ainda se julgava capaz de representar O alcaide de Zalamea com toda a energia exigida pelo papel. Mas levava o espinho cravado no coração; reconhecia que o cargo de magistrado era delicadíssimo, enorme a responsabilidade, porém ele… “era antes de tudo um artista”. Detestava os processos, amava o palco e não podia pisá-lo dignamente! Esse era o tormento de seu espírito. Se lhe fosse lícito representar comédias, talvez não tivesse feito outra coisa na vida; mas, como isso lhe era vedado pelo decoro e por uma série de outras considerações sérias, procurava outros caminhos para aliviar a coceira de ser algo mais que uma engrenagem do Poder Judiciário, máquina complicada; e era caçador, botânico, inventor, marceneiro, filósofo, tudo aquilo que seu amigo Frígilis e os ventos do acaso e do capricho quisessem fazer dele.
Frígilis formara seu querido Víctor, depois de tantos anos de convivência íntima, à sua imagem e semelhança, na medida do possível. Quintanar saía da servidão ignorada do lar para entrar sob o poder ditatorial, embora esclarecido, de Tomás Crespo, aquele pedaço de seu coração, a quem não sabia se estimava tanto quanto à sua Anita da alma. A simpatia nascera de uma paixão comum: a caça. Mas, antes, a caça não passava de exercício de homem primitivo para o aragonês; caçava sem saber o que eram, por dentro, as perdizes, as lebres e os coelhos; Frígilis estudava a fauna e a flora da região enquanto caçava, e ainda meditava como filósofo da natureza. Crespo falava pouco, e menos ainda no campo; não costumava discutir, preferia expor laconicamente sua opinião, sem se preocupar em convencer quem o ouvia. Assim, a influência da filosofia naturalista de Frígilis chegou à alma de Quintanar por aluvião: insensivelmente, foram-se agarrando ao cérebro as ideias daquele bom homem, de quem os vetustenses diziam ser um lunático, um meio-tolo.
Frígilis desprezava a opinião dos conterrâneos e compadecia-se de sua pobreza de espírito. “A humanidade era má, mas não tinha culpa. O oídio consumia a uva, o carvão prejudicava o milho, as batatas tinham sua praga, vacas e porcos tinham as suas; o vetustense tinha a inveja, seu oídio, e a ignorância, seu carvão. Que culpa tinha ele?” Frígilis desculpava todos os desvios, perdoava todos os pecados, fugia do contágio e procurava livrar dele os poucos a quem queria. Visitava poucas casas e muitas hortas; seus grandes conhecimentos e sua habilidade prática em arboricultura e floricultura faziam dele o árbitro de todos os parques e jardins da cidade; conhecia folha por folha a quinta do marquês de Corujedo, plantara árvores na de Vegallana, visitava de tempos em tempos o jardim inglês de Dona Petronila; mas nem sequer conhecia de vista o Grande Constantino, o bispo-mãe, jamais entrara no gabinete de Dona Rufina, nem mantinha com o marquês de Corujedo relações além das do Cassino. Entendia-se com os jardineiros. Assim que começavam as chuvas de inverno, depois do irônico veranico de São Martinho, Vetusta caía sobre Frígilis, e ele só permanecia em seu recinto nos dias em que suas árvores e flores o reclamavam.
Quintanar o seguia morto de sono, encerrado em seu uniforme de caçador, do qual Frígilis zombava bastante, pois usava a mesma roupa no monte e na cidade e os mesmos sapatos brancos, de sola grossa e cravejada. Metiam-se num vagão de terceira classe, entre aldeões alegres, viçosos, corados; Quintanar cochilava, batendo a cabeça contra a madeira dura; Frígilis distribuía ou aceitava cigarros de papel, grossos, e, mais falante que em Vetusta, conversava, jovial e expansivo, com os filhos do campo, sobre as colheitas deste ano e as nuvens do ano passado; se a conversa degenerava e recaía em processos judiciais, franzia o rosto e deixava de prestar atenção, para mergulhar na contemplação daquela campina agora triste, sempre querida por ele, que a conhecia palmo a palmo.
Ana invejava no marido a felicidade de fugir de Vetusta, de ir molhar-se nos montes e nos pântanos, na solidão, longe daqueles telhados de um vermelho enegrecido, que a água caída do céu transformava numa imundície.
“Ah, sim! Ela estava disposta a procurar a salvação da alma, a buscar o caminho seguro da virtude; mas como seu espírito se teria aberto melhor para aquelas grandezas religiosas num cenário mais digno de tão sublime poesia! Como era difícil admirar a criação para elevar-se à ideia do Criador naquela Encimada taciturna, ensopada de umidade até os ossos de pedra e madeira carcomida; de ruas estreitas, cobertas de erva, erva alegre no campo, ali símbolo de abandono, lambidas sem cessar pelas goteiras dos telhados, ao ruído monótono e eterno da água salpicando compassadamente os seixos pontiagudos!…”
A Regenta não compreendia como Visitación ia e vinha de casa em casa, alegre como sempre, sorridente, sem medo da água e muito menos da lama do regato… sem sequer pensar que chovia, sem se lembrar de que o céu era uma mortalha em vez de um manto azul, como deveria ser. Para Visita, o tempo era sempre o mesmo; não pensava nele e só o usava como assunto de conversa nas visitas de cerimônia.
A mulher do Banco, como passarinho das neves, saltava de pedra em pedra, esquivava-se das poças e, de passagem, deixava ver o pé não muito mal calçado, as anáguas não muito limpas e, às vezes, um pouco de uma panturrilha digna de meia melhor. Tampouco a água encerrava Obdulia em casa ou a entorpecia: também alegre e buliçosa, corria de portal em portal, desafiando os aguaceiros mais fortes, rindo às gargalhadas se uma gota indiscreta molhava a garganta que palpitava morna; era de ver a arte com que suas saias, dotadas de instintos de arminho, atravessavam todo aquele perigo de lodo, imaculadas, flocos de neve rendada, arabescos e folhagens sonoras de espuma da Holanda; tentação de Bermúdez, o arqueólogo espiritualista.
Ana notava, com tristeza e quase inveja, que os vetustenses em geral se resignavam sem grande esforço àquela vida submarina, que durava boa parte do outono, a maior parte do inverno e quase toda a primavera. Cada qual procurava seu canto e não parecia menos satisfeito que Frígilis, fugindo para as planícies vizinhas do mar a fim de molhar-se à vontade.
A Marquesa de Vegallana levantava-se tanto mais tarde quanto mais chovia; em seu leito blindado contra os ataques mais violentos do frio, desfrutava prazeres que não sabia explicar, lendo, bem agasalhada, romances de viagens ao polo, de caçadas a ursos e outros cuja ação se passava na Rússia ou, pelo menos, no norte da Alemanha. O contraste entre o calorzinho e a imobilidade de que ela desfrutava e os grandes frios que os heróis de seus livros tinham de suportar, além das longas caminhadas que davam pelo globo, era o maior prazer de Dona Rufina ao longo do ano. Ouvir a água açoitando os vidros lá fora e ficar compadecendo-se de uma pobre criança perdida nos gelos… que delícia para uma alma terna, à sua maneira, como a da senhora Marquesa!
— Eu não sou sentimental — dizia ela a Dom Saturnino Bermúdez, que a escutava com a cabeça inclinada e o sorriso esticado por cravelhas de uma orelha à outra. — Não sou sentimental, isto é, não gosto de sentimentalismos… mas, lendo certas coisas, sinto-me bondosa… enterneço-me… choro… mas não faço alarde disso.
— É o dom das lágrimas de que fala Santa Teresa, senhora — respondia o arqueólogo.
E suspirava como se fechasse à chave a gaveta dos segredos sentimentais.
O Marquês fazia o que os gatos fazem em janeiro. Desaparecia de Vetusta por temporadas. Dizia que ia preparar as eleições. Mas seus íntimos o tinham ouvido, no segredo da confiança, depois de comer bem, à hora das confissões, afirmar que, para ele, não havia afrodisíaco melhor que o frio. “Nem os mariscos produzem em mim o efeito da água e da neve.” E, como suas aventuras eram todas rurais, o bom Vegallana saía para desafiar os elementos, percorrendo as aldeias, entre lama, gelo e neve, em sua carruagem de viagem. E assim preparava as eleições, procurando votos para um futuro distante, segundo a expressão maliciosa de Dom Cayetano Ripamilán, sempre disposto a perdoar essa espécie de desvio.
A roda da Marquesa via o céu abrir-se assim que o tempo desandava em água. Os que possuíam o invejável e invejado privilégio de penetrar naquela estufa perfumada abençoavam os aguaceiros que serviam de pretexto para comparecer todas as noites ao gabinete de Dona Rufina. Que fariam, se não? Aonde iriam? Na lareira ardiam as florestas seculares dos domínios do Marquês; aqueles carvalhos feudais transformavam-se em carvão com rangidos majestosos. Ao seu calor não se contavam antigas lendas, como Trifón Cármenes supunha que devia necessariamente acontecer em toda residência senhorial, mas se murmurava contra o mundo inteiro, inventavam-se novas calúnias e amava-se com toda a franqueza prosaica e sensual que, segundo Bermúdez, “era a característica do presente momento histórico, despido de toda joia ideal e poética”. O gabinete não era grande, os móveis eram muitos, e os frequentadores se tocavam, roçavam-se, apertavam-se, quando não havia remédio. Quem pensava nos aguaceiros?
Nas reuniões de segunda ordem, abundantes em Vetusta, a umidade excitava a alegria; cada qual se metia no buraco de costume e era de ouvir, por exemplo, o alarido com que entravam no portal da casa de Visita “os que uma vez por semana a favoreciam, honrando-lhe os salões”, que eram uma sala e um gabinete; eram de ouvir as gargalhadas, as brincadeiras dos frequentadores abrigados sob os guarda-chuvas, que recebiam com estrépito as duchas das tremendas serpentinas de folha de flandres… Todos desprezavam a água, pensando nos prazeres esotéricos da loteria e das charadas representadas.
Quanto ao “elemento devoto de Vetusta”, expressão de O Lábaro, metia-se em novenas assim que o tempo desandava em água. O elemento devoto era a cidade inteira quando chegava o mau tempo, e até os membros da Sexta-feira Santa, uns perdidos que se reuniam durante a Semana da Paixão para comer carne na hospedaria, até esses acorriam ao templo, embora para criticar os pregadores e olhar as moças. Esse fervor religioso de Vetusta começava com a Novena das Almas, pouco popular, e com a muito concorrida do Coração de Jesus, e não cessava até a celebração da mais famosa de todas, a das Dores, e da quase tão frequentada da Mãe do Belo Amor, esta última no florido mês de maio. Mas, além das novenas, as almas piedosas tinham muitas outras ocasiões de louvar a Deus e seus santos, em solenidades tão notáveis como as festas da Páscoa e as da Quaresma, especialmente nos Sermões da Audiência, pagos pelo Tribunal Territorial todas as sextas-feiras daquele tempo santo e de meditação, segundo Cármenes.
O temporal retardou bastante o cumprimento daquele plano de higiene moral suavemente imposto por Dom Fermín à querida amiga. Ana detestava a lama e a umidade; a frieza da rua úmida e suja lhe crispava os nervos, e ela quase não saía do sombrio casarão dos Ozores. Confessara-se outras duas vezes antes do fim de novembro, mas não se decidira a ir à casa de Dona Petronila, nem o Magistral se atrevera a lembrar-lhe aquele encontro. O Grande Constantino já sabia, por intermédio de seu querido e admirado senhor De Pas, que agora a visitava com maior frequência, que Dona Ana desejava ajudá-la em seus santos trabalhos e na administração das muitas obras piedosas que ela sabiamente dirigia e custeava.
— Quando virá para cá esse anjo formosíssimo? — perguntava o bispo-mãe, em estilo de novena, carregado de superlativos abstratos.
As beatas que serviam como questoras do palácio do Grande Constantino, as do conclave, como as chamava Ripamilán, aguardavam com ansiedade mística e curiosidade maligna a nova companheira, que tanto prestígio traria, com sua juventude e formosura, à piedosa e complicada empresa de salvar o mundo em Jesus e por Jesus; pois nada menos que isso se propunham aquelas devotas de armas na mão, militantes como couraceiros.
Mas Ana, sem saber por quê, sentia uma vaga repugnância ao pensar em ir à casa de Dona Petronila; parecia-lhe melhor encontrar o Magistral na igreja, pois ali encontrava o fervor religioso necessário para confessar suas ideias más, seus desejos perigosos. O Magistral começou a impacientar-se; a Regenta não subia a encosta, persistia em seus perigosos anseios panteístas, como ele os qualificava, insistia em chamar de piedade aquela ternura que sentia diante de espetáculos profanos e declarava francamente que as leituras devotas lhe sugeriam reflexões provavelmente heréticas ou, pelo menos, pouco adequadas para alcançar a fé profunda que o Magistral exigia como preparação absolutamente indispensável para dar um passo firme. Outras vezes, os livros piedosos a faziam cair numa sonolência melancólica ou numa espécie de marasmo intelectual que parecia estupidez. Quanto à oração, Ana dizia que recitar preces de memória era exercício inútil, soporífero, que irritava os nervos; repetia-as cem vezes, para nelas fixar a atenção, e chegava a sentir náuseas antes de alcançar um pouco de fervor…
— Nada, nada disso; não há coisa pior que rezar assim — respondia o Magistral. — À oração chegaremos depois; por enquanto, nesse ponto, bastam suas antigas devoções.
E, embora temesse os perigos da imaginação de Ana, para não perder terreno tinha de deixá-la entregar-se aos impulsos espontâneos de ternura piedosa que apareciam sem que se soubesse como, de repente, provocados por qualquer acidente que parecia não ter relação alguma com as ideias religiosas. O medo das expansões naturais daquele espírito ardente o fizera trocar o plano suave dos primeiros dias por aquele outro exposto no caramanchão do Parque, mais semelhante à disciplina ordinária a que submetia os penitentes; mas Dom Fermín já via que era preciso voltar à brandura e conceder ao instinto da amiga maior participação na árdua tarefa de conquistar para o bem aqueles tesouros de sentimento e grandeza ideal. Esse sistema da corda bamba retardava o triunfo, mas permitia que ele se apresentasse aos olhos de Ana de modo mais simpático, falando a linguagem daquela imprecisão romântica que ela julgava religiosidade sincera e que, segundo Dom Fermín, não passava de idolatria dissimulada. Não, ele não se deixava seduzir por panteísmos, ainda que fossem tão belos como o de sua amiga.
Do que estava seguro era do efeito profundo e salutar que, numa mulher como aquela, haveriam de produzir as belezas do culto, no dia em que ela as presenciasse com atenção e com o ânimo disposto às sensações místicas por aquela excitação nervosa, de cujos acessos o diligente confessor já tinha tantas notícias.
Quando ela tornava a falar-lhe do enfado, da dor do fastio, da estupidez da água caindo sem cessar, ele repetia:
— À igreja, minha filha, à igreja; não para rezar; para ficar ali, sonhar ali, pensar ali, ouvindo a música do órgão e de nossa excelente capela, sentindo o cheiro do incenso do altar-mor, o calor dos círios, vendo tudo quanto ali brilha e se move, contemplando as altas abóbadas, os pilares esbeltos, as pinturas suaves e misteriosamente poéticas dos vitrais coloridos…
Pouca graça fazia a Dom Fermín aquela retórica à Chateaubriand; sempre acreditara que recomendar a religião por sua beleza exterior era ofender a santidade do dogma, mas sabia engolir o desgosto e adaptar-se às circunstâncias. Além disso, sem que quisesse pensar no assunto, lisonjeava-o a esperança de encontrar muitas vezes na catedral, nas Conferências de São Vicente, no Catecismo, sua amiga, que ali o veria triunfante, exibindo o talento, a ciência e a elegância natural e singela.
Mas a repugnância de Anita em pisar a rua aumentava a cada dia; a umidade lhe causava horror, mantinha-a encolhida, envolta num xale, junto à lareira monumental da lúgubre sala de jantar, horas e horas, de dia e de noite. Dom Víctor não parava em casa. Quando não estava caçando, entrava e saía, mas sem se demorar; mal permanecia em seu escritório. Criara certo medo dele. Várias máquinas que estava inventando ou aperfeiçoando tinham-se revoltado, eriçando-se de dificuldades inesperadas de mecânica racional. Ali jaziam, cobertos de gloriosa poeira sobre a mesa do escritório, diabólicos artefatos de aço e madeira, esperando em posições provisórias que Dom Víctor empreendesse o estudo sério das matemáticas, de todas as matemáticas, adiado por culpa da companhia dramática de Perales. Enquanto isso, Quintanar, um pouco envergonhado diante daqueles brinquedos irônicos que riam em suas barbas, evitava o escritório sempre que podia; nem cartas escrevia ali. Além disso, as coleções botânicas, mineralógicas e entomológicas jaziam numa desordem caótica, e a preguiça de empreender a penosa tarefa de tornar a classificar tantas ervas e mosquitos também o afastava de casa. Ia ao Cassino discutir e jogar xadrez; fazia muitas visitas e procurava meios de não se entediar encerrado no lar.
“Melhor”, pensava Ana, sem querer.
Seu Dom Víctor, a quem em princípio estimava, respeitava e até amava tudo quanto, a seu ver, era necessário, parecia-lhe mais insubstancial a cada dia; e, sempre que ele aparecia diante dela, punha por terra os projetos de vida piedosa que Ana pouco a pouco acumulava no cérebro, disposta a ser, assim que o tempo melhorasse, uma beata no sentido solicitado pelo Magistral. Enquanto pensava no marido abstrato, tudo corria bem; sabia que seu dever era amá-lo, cuidar dele, obedecer-lhe; mas o senhor Quintanar se apresentava com o laço da gravata de seda preta torto, junto a uma das orelhas; vivaz, inquieto, cheio de pensamentos insignificantes, ocupado em qualquer ninharia, dedicando todo o ardor natural às coisas mais mesquinhas e dignas de esquecimento, e ela, sem conseguir evitá-lo, com intensidade ainda maior por causa da dissimulação, sentia um rancor surdo, irracional, mas invencível naquele momento, e culpava o universo inteiro pelo absurdo de estar para sempre unida a semelhante homem. Dom Víctor saía, deixando para trás as portas abertas, dando ordens caprichosas para que se cumprissem durante sua ausência; e, quando Ana, novamente sozinha, colada à lareira taciturna, decorada com figuras de gesso enegrecido pela fumaça, queria voltar à sua propedêutica piedosa, aos preparativos para a vida virtuosa, encontrava toda aquela construção sentimental de sua religiosidade inundada em vinagre e qualificava de hipocrisia toda a sua resignação.
“Ah, não, não! Eu não posso ser boa! Não sei ser boa; não posso perdoar as fraquezas do próximo ou, se as perdoo, não consigo tolerá-las. Esse homem e esta cidade enchem minha vida de prosa miserável; diga o que quiser Dom Fermín, para voar são necessárias asas, ar…”
Esses pensamentos às vezes a levavam tão longe que a imagem de Dom Álvaro tornava a aparecer, oferecendo-lhe a revolta, aquela amável, brilhante, dulcíssima revolta dos sentidos poetizados, que o elegante dândi cravara em seu coração com punhaladas dos olhos, na tarde memorável de Todos os Santos. Então Ana se punha de pé, percorria a sala de jantar a passos largos, com a cabeça enterrada na dobra do xale apertado contra o corpo, dava a volta à mesa oval e acabava aproximando-se dos vidros da sacada e comprimindo a testa contra eles. Saía, atravessando a triste sala de visitas, corredores e galerias; chegava ao gabinete e também ali se apertava contra os vidros e contemplava com os olhos distraídos, muito abertos e fixos, os galhos nus dos castanheiros-da-índia e os soberbos eucaliptos, cobertos de folhas longas, metálicas, de um verde fosco, trêmulas e ressonantes. Quando não chovia muito, Frígilis costumava andar por ali; Quintanar faltava de casa por mais tempo do que Frígilis da horta. Ana acabava por vê-lo.
“Aquele fora seu único amigo na triste juventude, no tempo da miserável servidão; e agora ela quase o odiava; ele a casara e, sem remorso algum, sem pensar naquela estupidez, dedicava-se às árvores, que podava sem compaixão, que enxertava a seu gosto, sem consultá-las, sem saber se elas queriam aqueles cortes e aqueles enxertos…”
“E pensar que aquele homem fora inteligente, amável! E agora… não passava de uma máquina agrícola, uma tesoura, uma ceifadeira mecânica. A quem a vida de Vetusta não embrutecia!”
Frígilis, se via sua querida Ana por trás dos vidros, cumprimentava-a com um sorriso e tornava a inclinar-se sobre a terra; esmagava um caracol, cortava um rebento importuno, firmava uma estaca e seguia adiante, arrastando os sapatos brancos pela areia úmida dos caminhos… E Ana via desaparecer entre os galhos aquele chapéu redondo, flexível, sempre cinzento, aquele cachecol de quadrados de veludo cotelê eternamente pendurado ao pescoço, aquela jaqueta parda e aquelas calças nem largas nem estreitas, nem novas nem velhas, com raminhos desbotados de lã verde e vermelha alternando-se sobre fundo preto.
A mulher do Banco e o Marquesito visitavam com frequência a Regenta. Paco admirava a heroica resistência da senhora de Ozores; não compreendia como seu ídolo, seu Dom Álvaro, demorava tanto a conquistar uma vontade, a render uma virtude, se a vontade já estava conquistada.
— Ela está apaixonada por você, disso tenho certeza — dizia Paco a Mesía no Cassino, alta noite, quando ali só restavam os notívagos de profissão.
Estavam ambos sentados junto a uma mesinha coberta por fina toalha branca; ceavam com uma meia garrafa de Bordeaux ao lado de cada um e chegavam ao momento necessário das expansões e confidências; Mesía, melancólico, bebendo em goles a nostalgia do infinito, que os descrentes também possuem à sua maneira, inclinava, abatida, a elegante e delicada cabeça de um louro pálido e parecia um pouco mais velho que de costume. Calava-se, comia e bebia. Paco, de boca cheia, mas não de modo grosseiro, e sim quase elegante, falava com a pupila brilhante, as faces vermelhas, o chapéu jogado para a nuca.
— Ela está apaixonada, disso tenho certeza… mas você… você já não é o mesmo… parece que tem medo dela. Nunca quer vir comigo à casa dela… e isso que Dom Víctor nunca está, vive andando com aquele espírita do Frígilis por esses montes.
Paco acreditava que Frígilis fosse espírita, opinião muito difundida em Vetusta.
— Na casa dela não se pode avançar nada. É uma mulher estranha… histérica… é preciso estudá-la bem. Deixem comigo.
Mesía não queria confessar que se considerava derrotado: acreditava firmemente que Ana se entregara ao Magistral. Não queria aquela conversa; sentia-se agora humilhado com a proteção de Paco, solicitada meses antes por ele. Sem saber, o Marquesito o feria cada vez que lhe falava do assunto e propunha planos de ataque e meios para entrar na fortaleza de surpresa.
“Quando ele, Mesía, precisara de socorros dessa espécie? Quando permitira a alguém saber como e a que horas vencia uma mulher?… E esta senhora o humilhava assim! Como Visita devia rir dele, embora disfarçasse; e o próprio Paco! Que estaria pensando? Ah, Regenta, Regenta, se eu vencer no fim!… Você me pagará!”
Mas já não esperava vencer; lutava desesperado. Em vão, sempre que o tempo permitia, montava seu formoso cavalo branco, de pura raça espanhola; passava e tornava a passar pela Praça Nova e algumas vezes via, por trás dos vidros, na Rinconada, a mulher de Quintanar, que o cumprimentava afável e tranquila; mas o cavalo não era o talismã que julgara, pois a cena daquela tarde nunca se repetiu.
“Sim, foi aquilo que eu temia, não passou de um quarto de hora que não soube aproveitar.”
Acreditava com fé inabalável que seu único recurso seria a dificílima, quase impossível, ocasião de um ataque brusco, bárbaro, coincidindo com outro quarto de hora. Mas isso não preenchia seu desejo, não satisfazia seu amor-próprio; seria um prazer efêmero e uma vingança… e, além disso, era quase impossível! Poucas vezes se atrevera a visitar a Regenta, que não o recebia se Dom Víctor não estivesse em casa. Quintanar, ao contrário, abria-lhe os braços e apertava-o com efusão, cada dia mais enamorado, como dizia, daquele belo figurino: que arrogante primeiro-galã faria o digníssimo Dom Álvaro numa comédia de costumes! Mas, já que o palco não o chamava, por que não se tornava deputado às Cortes? Mesía nascera para algo mais que ser cabeça de rato; era pouco ser chefe de um partido que jamais chegava ao poder, numa capital de segunda ordem. Por que não ia a Madri com um diploma no bolso?
Quando lhe dirigia essas perguntas lisonjeiras, Dom Álvaro inclinava a cabeça e olhava com ar compungido para a Regenta, como se dissesse:
“É pela senhora, pelo amor que lhe tenho, que permaneço neste miserável canto!”
— O senhor é da madeira de que se fazem ministros…
— Oh… Dom Víctor… não pense que isso me lisonjeia… Ministro! Para quê? Não tenho ambição política… Se milito num partido, é para servir ao meu país, mas a política me é antipática… tanta farsa… tanta mentira…
— Com efeito, nos Estados Unidos só os canalhas são políticos… mas na Espanha… é outra coisa… um homem como o senhor… Meu Dom Álvaro subiria como espuma.
Mas Dom Álvaro suspirava e tornava os olhos para a Regenta… De resto, continuava considerando-se, antes de tudo, um homem político. A ida para Madri ficava para depois. Agora fazia deputados a partir de Vetusta e permanecia ali; mas, assim que conseguisse amolecer a senhora do ministro, voaria, voaria… seguro de não levar um tombo. Esses eram seus planos. Mas, além disso, aquela resistência de Ana, que julgara vencer, se não em poucas semanas, ao menos em poucos meses, era novo motivo para adiar a mudança.
Como ir para Madri sem vencer aquela mulher? E aquela mulher já parecia invencível.
Desde a noite de Todos os Santos, Mesía, embora se envergonhasse de confessá-lo a si mesmo, não avançara um passo. Passara oito dias sem conseguir falar a sós por um instante com Ana e, quando alcançou esse intento, foi para convencer-se de que aquela exaltação da tarde feliz talvez tivesse passado para sempre.
Visitación enlouquecia. Seu marido, o senhor Cuervo, e os filhos comiam grão-de-bico duro, lavavam-se sem toalha porque ela saíra levando as chaves, como sempre, e nunca mais voltava.
“Como havia de voltar, se aquela maldita Regenta não se rendia e resistia ao homem irresistível com heroísmo de rochedo?”
O mísero empregado do Banco torcia o bigodinho engomado e dizia, com voz de soprano, à multidão de filhos que choravam pela sopa:
— Silêncio, crianças, que mamãe briga se começarmos a comer sem ela.
E a sopa esfriava, e por fim aparecia Visitación, ofegante, distraída, mal-humorada. Vinha da casa de Vegallana, onde conseguira que Ana e Álvaro conversassem a sós por um instante, por acaso… acaso que ela preparara. Mas que boa conversa Deus lhe desse! Ele saíra mordendo o bigode e dissera a ela, a Visita, “Deixe-me em paz!”, quando ela quis fazer uma brincadeira. “Deixe-me em paz!”, sinal de que não avançava um passo. Visitación sentia agora uma vergonha retrospectiva; recordava quanto tempo levara para ceder, comparava-o à resistência de Ana e… suas faces acendiam-se de cólera, inveja e pudor mau, falso. Algo lhe dizia na consciência que o ofício assumido era miserável… mas ela não estava em condições de ouvir conselhos de comédia moral nem gritos interiores; aquele anseio vil era uma paixão a cada dia mais forte, tinha um saborzinho agridoce e picante que ela já preferia a todas as doçuras da confeitaria. Era uma paixão, uma coisa que recordava a juventude, embora ao mesmo tempo parecesse sintoma da velhice. Enfim, ela não procurava resistir e chegara a acreditar que seria capaz de atirar a amiga à força nos braços do antigo amante. De todo modo, na casa de Visita faltava limpeza no chão, nos móveis, na sala e na cozinha, e seu lar não era uma taça de prata; houve dia em que o marido não encontrou camisa no armário e foi para o Banco… com uma blusinha da esposa, que simulava, bem ou mal, um colarinho de marinheiro.
Mas tamanho empenho era inútil; nem Visita, nem Paco, nem os passeios a cavalo de Mesía conseguiam render a Regenta. E se ao menos se percebesse que aquela fortaleza era indiferença! Mas não; a léguas de distância se via, segundo os três, que Ana estava interessada. Era isso o que mais os irritava, sobretudo Visita. Dom Álvaro não falava desse mau negócio com a mulher do Banco, por mais que ela o provocasse. Apenas com Paco desabafava, e poucas vezes. Mas Ana acreditava numa conspiração, e isso não pouco a ajudava a defender-se. Ia de tempos em tempos à casa de Vegallana, apesar dos protestos maçantes, insuportáveis, de Quintanar, que repetia:
— Que dirão esses senhores, Anita, que dirão os Marqueses!
Se Dom Álvaro perdia as esperanças, o Magistral tampouco estava satisfeito. Via muito distante o dia da vitória; a inércia de Ana lhe apresentava novos obstáculos, com os quais ele não contara. Além disso, seu amor-próprio estava ferido. Se alguma vez tentara interessar a amiga, revelando-lhe, como exemplo ou prova de confiança, algo da própria história íntima, ela o escutara distraída, como que absorta no egoísmo de suas penas e preocupações. Havia mais: aquela senhora que falava em grandes sacrifícios, que pretendia viver consagrada à felicidade alheia, recusava-se a violentar os próprios hábitos, saindo frequentemente de casa, pisando lama, desafiando a chuva; recusava-se a levantar muito cedo, alegando, como se tratasse de coisa sagrada, as exigências da saúde, os caprichos dos nervos.
“Levantar-me muito cedo me mata; a umidade me transforma numa máquina elétrica.”
Isso era humilhante para a religião e depressivo para Dom Fermín; era, de outra maneira, uma jarra de água que esfriava a alma do Provisor e lhe tirava o sono.
Certa tarde, De Pas entrou no confessionário com tão mau humor que Celedonio, o coroinha, o viu fechar a gelosia com uma pancada violenta. Dom Fermín descia do campanário, onde, como fazia de tempos em tempos, estivera examinando com a luneta os recantos das casas e das hortas. Vira a Regenta passeando pelo parque, enquanto lia um livro que devia ser a história de Santa Joana Francisca, presente que ele próprio lhe dera. Pois bem, depois de ler durante cinco minutos, Ana atirara o livro com desdém sobre um banco.
— Oh! Oh! Estamos mal! — exclamara o clérigo do alto da torre, contendo imediatamente a ira, como se Ana pudesse ouvir suas queixas.
Depois, dois homens apareceram no parque: Mesía e Quintanar. Dom Álvaro apertara a mão da Regenta, que não a retirara tão depressa quanto devia; “nem que fosse apenas porque ele os estava observando!”. Dom Víctor desaparecera, e o sedutor profissional e a dama ocultaram-se aos poucos entre as árvores, numa curva do caminho. O Magistral sentiu então o impulso de atirar-se da torre. Tê-lo-ia feito, se tivesse certeza de que voaria sem inconvenientes. Pouco depois, Dom Víctor tornara a aparecer, o idiota do Dom Víctor, de chapéu baixo e sem sobretudo, vestindo uma jaqueta clara, acompanhado de Dom Tomás Crespo, o do cachecol; ambos foram procurar os outros, e os quatro surgiram novamente diante da objetiva da luneta, que tremia nas mãos finas e brancas do cônego. Dom Víctor erguia a cabeça, estendia o braço, apontava para as nuvens e dava pequenos golpes com o pé no chão. Ana desaparecera outra vez, entrara em casa, esquecendo Santa Joana Francisca sobre o banco, e dois minutos depois voltara, de xale e chapéu; e os quatro saíram pela porta do parque, aberta por Frígilis com sua chave. Iam para o campo!
Quando Dom Fermín se viu encerrado entre as quatro tábuas de seu confessionário, comparou-se ao criminoso preso no cepo.
Naquele dia, as filhas de confissão do Magistral o encontraram distraído, impaciente; ouviam-no mexer-se no banco, a madeira da geringonça rangia, as penitências eram desproporcionais, enormes.
Em vão esperou, com esperança insensata, ver a Regenta apresentar-se na capela, por acaso, por impulso repentino, fosse como fosse, apresentar-se, pois era isso que ele queria, era disso que necessitava. Era verdade que não haviam combinado tal coisa; faltavam oito dias para a próxima confissão. Por que haveria ela de vir?
“Porque sim, porque ele precisava, porque queria falar com ela, dizer-lhe que aquilo não estava certo, que ele não era um saco para ser largado encostado a uma parede, que a piedade não era brincadeira e que livros edificantes não se atiravam com desdém sobre os bancos da horta; nem se desaparecia entre as árvores de Frígilis, sem mais nem menos, na companhia de um belo rapaz materialista e corrompido.”
Mas não, Ana não apareceu na capela.
“Deus sabia onde estariam. Que expedição era aquela? Tolices de Dom Víctor; levantara o braço apontando para as nuvens; aquilo parecia significar que garantia o bom tempo; de fato, a tarde estava bonita, podia-se assegurar que não choveria… mas e daí? Era razão suficiente para sair com o inimigo para o campo? Porque aquele era o inimigo, sim, Dom Fermín tornava a suspeitar. A Regenta, contudo, jamais se acusara de uma inclinação particular; falava de tentações em geral e de sonhos lascivos, mas não confessava amar determinado homem. E Ana, sua doce amiga, jamais mentia, muito menos naquele santo tribunal. Mas então com quem sonhava?”
O Magistral recordou a dulcíssima hipótese que acariciara certa vez… e agora se lhe opunha aquela outra, que o fazia saltar dentro da caixa de gelosias:
“Suponhamos que sonhe com… esse cavalheiro.”
Saiu da capela furioso, quase sem disfarçar. Encontrou Dom Custodio no retrocoro e não respondeu ao cumprimento; entrou na sacristia e ameaçou o Pombo de demissão, porque o gato tornara a sujar as gavetas das roupas. Depois foi ao palácio, e o Bispo sofreu uma forte reprimenda, dessas que seu Provisor costumava dirigir-lhe num tom quase desrespeitoso, azedo, espinhoso. O bom Fortunato estava em apuros, não tinha dinheiro para pagar a conta de um alfaiate que fizera batinas novas para os familiares de Sua Ilustríssima. E o alfaiate, com as melhores maneiras do mundo, pedia o pagamento num papel amarrotado, cheio de letras grandes, que o Bispo segurava entre os dedos. O mestre da tesoura chamava o prelado de sereníssimo senhor, mas queria receber o que era seu.
Fortunato, com a voz trêmula, solicitava um empréstimo. O Magistral fez-se de rogado e ofereceu-se para adiantar o dinheiro depois de humilhar cem vezes o bom pastor, que interpretava ao pé da letra as metáforas religiosas.
“Para que tinham vindo aquelas batinas novas? E, sobretudo, por que era ele, Fortunato, quem as pagava do próprio bolso? Se sabia que não tinha um vintém, porque distribuía todo o ordenado antes de recebê-lo, por que assumia compromissos?”
Fortunato confessou que parecia um subtenente com o salário submetido a descontos; disse que queria sair daquela vida de dívidas.
— Eu já nem sei quanto devo à sua mãe, Fermín. Deve ser uma fortuna?
— Sim, senhor, uma fortuna, mas o pior não é que o senhor nos arruíne, é que também se arruína, e o mundo inteiro sabe, e isso desprestigia a Igreja… Endividar-se pelos pobres… Ser um caloteiro da caridade. Homem de Deus, aonde vamos parar? Cristo disse: distribui teus bens e segue-me, mas não disse: distribui os bens dos outros…
— Você fala como um sábio, meu filho, fala como um sábio, e, se não fosse indecoroso, pediria ao ministro que descontasse diretamente do meu salário, para ver se eu me corrigia.
Depois, De Pas entrou nos escritórios, e ali tiveram motivos para se recordar durante muito tempo de sua visita. Tudo lhe pareceu mal; revirou processos, descobriu abusos, levantou poeira, ameaçou suspender salários, negou tudo quanto pôde, preparou dois ou três castigos para vários párocos de aldeia e, por fim, já à porta, disse que “não dava um vintém” para uma subscrição em favor dos marinheiros náufragos de Palomares.
— Senhor — disse-lhe, chorando, um pobre pescador de barba branca, com uma boina catalã na mão —, senhor, este ano morreremos de fome! A pesca do pargo não dá nem para a broa!…
Mas o Magistral saiu sem sequer responder, pensando em Ana e Mesía; e, meia hora depois, enquanto passeava sozinho pelo Espolón, a passos largos, esquecendo o ritmo de sua marcha habitual, uma voz, não sabia qual, repetia-lhe no cérebro:
“Pargo, pargo!”
“Por que estava pensando no pargo?”
E encolheu os ombros, irritado também com aquela obsessão de idiota.
— Só faltava eu ficar louco agora.
Passaram-se oito dias e, à hora marcada, Anita apresentou-se de joelhos diante da gelosia do confessionário.
Depois da absolvição, enxugou uma lágrima que lhe corria pela face, levantou-se e saiu para o pórtico. Ali esperou pelo Magistral e, juntos, já perto do anoitecer, chegaram à casa de Dona Petronila.
O Grande Constantino estava sozinho; revisava as contas da Mãe do Belo Amor, com os enormes olhos cor de avelã assomando por trás das lentes de uns óculos de ouro. Era muito morena, tinha a testa muito ossuda, as pálpebras salientes, as sobrancelhas cinzentas e espessas, como a grande moita de cabelo áspero que lhe cingia a cabeça; queixo redondo e carnudo, nariz de correção insignificante, boca grande, lábios pálidos e grossos. Era alta, de ombros largos, e sua longa viuvez casta parecia ter espalhado pelo corpo algo semelhante a uma vegetação cerrada de pureza, que lhe dava certo aspecto de virgem vetusta. O vestido era preto, hábito das Dores, com uma correia de verniz muito larga e um escudo de prata estridente, ostensivo, na manga, apertada ao pulso de trabalhador rural por presilhas de contas.
Estava sentada diante de uma escrivaninha de armário, decorada com figuras chinesas, douradas, incrustadas na madeira preta. Levantou-se, abraçou a Regenta e beijou a mão do Magistral. Depois de agradecer a surpresa da visita, suplicou-lhes que a deixassem terminar aquele emaranhado de números; e a dama e o clérigo viram-se sozinhos na sala sombria, de damasco verde-escuro e papel cinzento e dourado. Ana sentou-se no sofá, e o Magistral, ao lado, numa poltrona. As folhas semicerradas das sacadas deixavam passar estreitos raios da luz do dia moribundo; Ana e De Pas mal se enxergavam. Do gabinete à direita saiu um gato branco, gordo, de cauda opulenta e curvas elegantes; aproximou-se do sofá, passo a passo, ergueu preguiçosamente a cabeça, olhando para a Regenta, soltou um leve e dengoso gemido gutural e, depois de esfregar familiarmente o lombo na batina do Provisor, saiu para o corredor com lentidão, sem ruído, como se caminhasse entre algodões. Ana teve a impressão de que o alvíssimo gato cheirava a incenso; de qualquer modo, parecia um símbolo da devoção doméstica de Dona Petronila. Reinava em toda a casa o silêncio de uma caixa acolchoada; o ambiente era morno e estava levemente perfumado por algo que cheirava a cera, a estoraque e talvez a alfazema… Ana sentia uma sonolência doce, mas um tanto alarmante; estava-se bem ali, porém temia-se vagamente a asfixia.
Dona Petronila demorava. Uma criada, também vestida de hábito negro, entrou com uma antiga lâmpada de bronze, que deixou sobre uma mesinha, depois de dizer, com voz de freira resfriada:
— Boa noite!
Não levantou os olhos do tapete de feltro, de quadrados verdes e cinzentos.
Ana e seu confessor tornaram a ficar sozinhos.
Interrompendo um silêncio de alguns minutos, disse o Magistral, numa voz semelhante à do gato branco:
— A senhora não pode imaginar, minha querida amiga, quanto lhe agradeço esta resolução…
— O senhor deveria ter falado antes…
— Falei bastante, sua danadinha…
— Mas não como hoje. Nunca me disse que eu o estava desfeiteando e que estas senhoras já sabiam que eu me recusava a vir… Chovia tanto!… O senhor sabe que a umidade me mata, que a rua molhada me horroriza… Estou doente… sim, senhor, apesar destas cores e destas carnes, como diz Dom Robustiano, estou doente; às vezes me parece que por dentro sou um monte de areia que se desfaz… Não sei explicar… sinto rachaduras na vida… divido-me dentro de mim… diminuo, anulo-me… Se o senhor me visse por dentro, teria pena de mim… Mas, apesar de tudo isso, se tivesse falado comigo antes como falou hoje, eu teria vindo, ainda que fosse nadando. Sim, Dom Fermín, eu posso ser qualquer coisa, mas não sou ingrata. Sei o que lhe devo e que nunca poderei pagar. Uma voz, uma voz no deserto solitário em que eu vivia, o senhor não pode imaginar quanto valia para mim… e sua voz chegou tão a tempo… Eu não tive mãe, vivi como o senhor sabe… não sei ser boa; o senhor tem razão, só quero a virtude quando ela é pura poesia, e a poesia da virtude parece prosa a quem não é virtuoso… já sei… Por isso quero que o senhor me guie… Virei a esta casa, imitarei estas senhoras, ocuparei meu tempo com o trabalho que me impuserem… Farei tudo o que o senhor mandar; não apenas por submissão, mas por egoísmo, porque está visto que não sei dispor de mim mesma; prefiro que o senhor mande em mim… Quero voltar a ser menina, começar minha educação, ser alguma coisa de uma vez, seguir sempre um impulso, não ir e vir como agora… E, além disso, preciso curar-me; às vezes temo enlouquecer… Já lhe disse; há noites em que, desperta na cama, procuro afastar as ideias tristes pensando em Deus, em sua existência. “Se Ele está aqui, que importa todo o resto?” É o que digo a mim mesma, mas não adianta porque, já lhe contei, de repente saltam dentro da minha cabeça ideias antigas, como dores de feridas apalpadas, ideias de revolta, argumentos ímpios, preconceitos tolos, teimosos, que não sei quando aprendi e que vagamente me recordo de ter ouvido em minha casa, quando meu pai era vivo. E às vezes me ocorre perguntar: e se Deus for apenas esta ideia minha, nada mais, esta opressão dolorosa que me parece sentir no cérebro sempre que me esforço para provar a mim mesma a existência de Deus?…
— Anita, Anita… cale-se… cale-se, está se exaltando! Sim, sim, há perigo, agora vejo, grande perigo… mas nós nos salvaremos, tenho certeza; a senhora é boa, o Senhor está com a senhora… e eu daria minha vida para arrancá-la dessas apreensões… Tudo isso é doença, é flato, são nervos… que sei eu? Mas é material, nada tem que ver com a alma… embora o contato seja perigoso, sim, Anita; não mais por mim, mas pela senhora, é necessário entrar na vida devota prática… As obras, as obras, minha amiga! Isto é sério, precisamos de remédios enérgicos. Se às vezes lhe repugnam certas palavras, certos atos destas boas senhoras, não se deixe levar pela imaginação, não as condene levianamente; perdoe as fraquezas alheias, pense bem e não se importe com as aparências… E agora, falando um pouco de mim, se a senhora pudesse penetrar em minha alma, Anita! Sou eu quem jamais poderá pagar-lhe esta bela resolução desta tarde…
— O senhor falou de um jeito!…
— Falei com a alma…
— Eu estava sendo ingrata sem saber…
— Mas enfim… vida nova, não é verdade, minha filha?
— Sim, sim, meu pai, vida nova…
Calavam-se e olhavam-se. Dom Fermín, sem pensar em conter-se, tomou uma das mãos da Regenta, que repousava sobre uma almofada de crochê, e apertou-a entre as suas, sacudindo-a. Ana sentiu o rosto arder, mas pareceu-lhe absurdo alarmar-se. Ambos se tinham levantado, e então entrou Dona Petronila, a quem De Pas disse, sem soltar a mão da Regenta:
— Minha senhora, chega a tempo; será testemunha de que a ovelha oferece solenemente ao pastor jamais se afastar do rebanho que escolheu…
O Grande Constantino beijou Ana na testa.
Foi um beijo solene, apertado, porém frio… Parecia imprimir ali o selo de uma confraria, molhado em gelo.