TOMO I — Capítulo VI
TOMO I
Capítulo VI
O Casino de Vetusta ocupava um casarão solitário, de pedra enegrecida pelos ultrajes da umidade, numa pracinha suja e triste perto de San Pedro, a antiquíssima igreja vizinha da catedral. Os sócios jovens queriam mudar-se, mas a mudança de endereço seria a morte da sociedade, segundo o elemento sério e mais arraigado. O Casino não se mudou e continuou remendando como pôde as goteiras e demais achaques de linhagem. Três gerações haviam bocejado naquelas salas estreitas e escuras, e aquela solenidade do tédio herdado não devia ser trocada pelos azares de um futuro duvidoso na parte moderna da cidade, na Colônia. Além disso, diziam os velhos, se o Casino deixasse a Encimada, adeus Casino. Era um aristocrata.
Em geral, o salão de baile era mostrado aos forasteiros com orgulho; confessava-se que o restante valia pouco.
Os empregados da casa vestiam uniforme semelhante ao da polícia urbana. O forasteiro que chamasse um criado podia pensar, por falta de costume, que vinham prendê-lo. Os garçons costumavam ter péssima educação, também herdada. Haviam-lhes posto uniforme para que se reconhecesse ao menos por alguma coisa que eram eles os criados.
No vestíbulo havia dois porteiros perto de uma mesa de pinho. Era costume inveterado aqueles senhores não saudarem os sócios que entravam ou saíam. Mas, desde que Ronzal, que vira outros usos em suas curtas viagens, fazia parte da Diretoria, os porteiros inclinavam-se quando passava um sócio sem importância e chegavam a deixar ouvir um grunhido que, bem interpretado, podia ser tomado por saudação; se era membro da Diretoria, erguiam-se da cadeira cerca de meio palmo; se era Ronzal, levantavam-se um palmo inteiro; e, quando passava D. Álvaro Mesía, presidente da sociedade, punham-se de pé e perfilaram-se como recrutas.
Depois do vestíbulo encontravam-se três ou quatro corredores transformados ao mesmo tempo, e de qualquer maneira, em salas de espera, descanso, conversa e jogo de dominó. Mais adiante havia outra sala mais luxuosa, com grandes lareiras que consumiam muita lenha, embora não tanta quanto diziam os criados. Aquela lenha suscitava graves polêmicas nas assembleias gerais de fim de ano. Naquele aposento proibia-se o estridente dominó, e ali se reuniam os personagens mais sérios e importantes de Vetusta. Não se devia fazer barulho porque, no extremo oriental, atrás de um majestoso cortinado de veludo carmesim, ficava a sala de voltarete, chamada gabinete vermelho. Ali devia reinar o silêncio e, se possível, também na sala contígua. Antes o voltarete ficava perto dos bilhares, mas o ruído das bolas e tacos incomodava os jogadores, que se transferiram para o gabinete vermelho, onde então ficava o salão de leitura. O salão de leitura foi para perto dos bilhares. A sala de voltarete jamais recebia a luz do sol: permanecia sempre em trevas caliginosas, que tornavam palpáveis as tristes chamas das velas, semelhantes a lâmpadas de mineiro nas entranhas da terra.
D. Pompeyo Guimarán, filósofo que odiava o voltarete, chamava os do gabinete vermelho de falsificadores de moeda. Parecia-lhe que naquele antro, no qual se penetrava em silêncio misterioso e onde se continham toda alegria e expansão do ânimo, nada lícito podia ser feito. Os rapazes mais bulhentos, ao entrar no gabinete do voltarete, revestiam-se de seriedade prematura; pareciam jovens sacerdotes de culto estranho. Entrar ali era, para os vetustenses, como abandonar a toga pretexta e vestir a viril. Jogando ou vendo jogar, havia sempre algum jovem pálido, ensimesmado, que fingia desprezar os prazeres vãos, talvez saciado deles, e preferir os graves cuidados do solo e do codilho. Examinar com algum vagar os sacerdotes habituais daquele culto cerimonioso e circunspecto da espada e do basto é conhecer a Vetusta intelectual em um de seus aspectos característicos.
Com efeito, embora o chefe de Fomento garantisse que todos os vetustenses eram uns desastrados, isso não passava de pretexto para subir ao quarto do crime em busca de ganhos mais abundantes e rápidos; pois no Casino de Vetusta jogava-se com perfeição já famosa. Não faltavam inexperientes, e estes eram até necessários, pois, do contrário, quem ganharia de quem? Mas os fatos protestavam contra a afirmação do chefe de Fomento. De Vetusta, e só de Vetusta, saíram aqueles insignes jogadores de voltarete que, uma vez em esferas mais altas, alçaram voo e chegaram a ocupar postos eminentes na administração do Estado, devendo tudo à ciência dos estojos.
Há quatro mesas, uma em cada canto, e outros dois pares no meio. Das oito, metade está ocupada. Ao redor, sentados ou de pé, vários curiosos, em sua maioria escravos do vício. Fala-se pouco. Quase sempre para pedir um cigarro de papel. Dão-se poucos conselhos. Não são necessários ou não servem. Basilio Méndez, empregado da Prefeitura, é o melhor espada entre os presentes. É pálido e magro. Não se sabe se veste como artesão ou como pessoa decente, segundo se diz em Vetusta. O salário não basta às necessidades; tem mulher e cinco filhos; ajuda-se com o voltarete; é respeitado. Joga como quem trabalha sem gosto, de mau humor; é brusco; mal responde quando lhe falam. Vai ao seu negócio: uma casa de três andares que está construindo à custa do voltarete junto ao Espolón. Ao seu lado está D. Matías, o procurador: joga voltarete para fugir do monte. Quando a sorte lhe é adversa lá em cima, desce e se expõe a ganhar no voltarete tudo o que pode e a perder muito pouco, porque, se perde, para. Quem descansa neste momento, pois acaba de distribuir as cartas e jogam quatro, é a galinha dos ovos de ouro do Procurador e de D. Basilio. Vão matando-o, mas de consunção. É um morgado de aldeia; chamam-no Vinculete. Antes vinha de sua vila durante as feiras para jogar voltarete; depois se fez deputado provincial para vir jogar também; por fim, tornou-se morador de Vetusta para nunca se separar daqueles espadas que admirava, enquanto os enriquecia sem suspeitar. O voltarete de sua aldeia não o divertia.
Vinculete jogava das três da tarde às duas da manhã, sem outro descanso senão o necessário para jantar mal e depressa. D. Basilio e o Procurador alternavam no cuidado de depená-lo; revezavam-se; mas às vezes o depenavam juntos. O quarto jogador era qualquer um. Nas outras mesas, as partidas eram mais equilibradas. Jogavam muitos forasteiros, quase todos funcionários.
É axioma que no jogo se conhece a boa educação. Havia ali muitas pessoas muito bem-educadas, mas, como reinava a maior confiança, costumavam ouvir-se frases como estas:
“Digo-lhe que foi o senhor quem me deu.”
“Eu lhe digo que não.”
“Eu lhe digo que sim.”
“Pois o senhor mente.”
“Bela educação tem o senhor.”
“Melhor que a sua...”
Tratava-se de um duro falso. Para que a harmonia pudesse subsistir, por uma espécie de equilíbrio estabelecido pela natureza entre os temperamentos, acontecia que alguns jogadores eram valentões e de gênio infernal, e outros, como Vinculete, pacíficos como cordeiros e medrosos como pombas.
D. Basilio afirmava que o pequeno morgado não jogava com toda a limpeza necessária.
Vinculete costumava sustentar os foros de sua dignidade, e então o funcionário municipal gritava:
“Comigo ninguém se insolenta!” E dava um soco na mesa.
Vinculete calava-se e continuava recebendo codilhos.
Essas disputas, nada frequentes, interrompiam o silêncio por poucos instantes; a calma logo renascia e aquilo tornava a ser um templo jamais profanado por rios de sangue.
O gabinete de leitura, que também servia de biblioteca, era estreito e não muito comprido. No meio havia uma mesa oblonga coberta de baeta verde e rodeada de poltronas de veludo de Utrecht. A biblioteca consistia numa estante de nogueira, não muito grande, embutida na parede. Ali representavam a sabedoria da sociedade o Dicionário e a Gramática da Academia. Esses livros haviam sido comprados por causa das repetidas disputas de alguns sócios que não concordavam quanto ao significado e até à ortografia de certas palavras. Havia ainda uma coleção incompleta da Revue des deux mondes e outras de várias revistas ilustradas. A Ilustração Francesa fora cancelada num impulso de patriotismo, por culpa de uma gravura em que apareciam não se sabia quais reis da Espanha matando touros. Por ocasião daquela medida radical e patriótica, pronunciaram-se na assembleia geral muitos e excelentes discursos, nos quais foram oportunamente citados os heróis de Sagunto, os de Covadonga e, por fim, os do ano oito. Nas gavetas inferiores da estante havia alguns livros de ensino mais sólido, mas a chave daquele compartimento se perdera.
Quando um sócio pedia um daqueles livros, o zelador aproximava-se de mau humor do pedinte e fazia-o repetir a solicitação.
“Sim, senhor, a crônica de Vetusta...”
“Mas o senhor sabe que ela está aí?”
“Sim, senhor, aí está...”
“O caso é...” E o senhor zelador coçava uma orelha. “Como não há costume...”
“Costume de quê?”
“Enfim, procurarei a chave.” O zelador dava meia-volta e partia a passo de tartaruga.
O sócio, que necessariamente devia ser novo para andar com tais pretensões, podia entreter-se enquanto isso olhando o mapa da Rússia e da Turquia e o Pai-Nosso em gravuras, que adornavam as paredes daquele centro de instrução e recreio. O zelador voltava com as mãos nos bolsos e sorriso malicioso nos lábios.
“Como eu dizia, senhorito... perdeu-se a chave.”
Os sócios antigos olhavam a biblioteca como se estivesse pintada na parede.
Dos jornais e revistas ilustradas fazia-se mais uso; tanto que aqueles desapareciam quase todas as noites, e as gravuras de mérito eram cuidadosamente arrancadas. A questão do furto de jornais era uma das difíceis que as diretorias tinham de resolver. O que fazer? Pôr grilhões nos papéis? Os sócios arrancavam as folhas ou levavam papel e ferro. Resolveu-se por fim deixar os jornais livres, mas exercer grande vigilância. Era inútil. D. Frutos Redondo, o americano mais rico, não conseguia dormir sem ler na cama o Imparcial do Casino. E não havia de transportar o leito para o gabinete de leitura. Levava o jornal. Aqueles cinco centavos que assim economizava tinham para ele gosto de glória. Quanto ao papel de cartas, que também desaparecia e era mais caro, resolveu-se dar uma folha, e já era favor, ao sócio que a pedisse com muita necessidade. O zelador adquirira humor de carcereiro nesse trato. Olhava os sócios que liam como gente de honestidade duvidosa; tinha-lhes pouca consideração. Nem sempre acudia quando o chamavam e costumava negar-se a trocar as penas enferrujadas.
Ao redor da mesa cabiam doze pessoas. Raras vezes havia tantos leitores, exceto na hora do correio. A maioria dos sócios amantes do saber só lia notícias.
O mais digno de consideração entre os frequentadores do gabinete de leitura era um cavalheiro apoplético que levara grãos à Inglaterra e se julgava obrigado a ler a imprensa estrangeira. Chegava infalivelmente às nove da noite, apanhava Le Figaro, depois The Times, que punha por cima, colocava os óculos de ouro e, embalado por certo assobio tênue dos bicos de gás, adormecia docemente sobre o primeiro jornal do mundo. Era direito que ninguém lhe disputava. Pouco depois de aquele senhor morrer de apoplexia sobre The Times, descobriu-se que não sabia inglês. Outro leitor assíduo era um jovem candidato a promotorias e registros que devorava a Gazeta sem deixar escapar um leilão. Era um Alcubilla em um volume: sabia de memória tudo quanto se fizera, desfizera, consertara e tornara a destruir em nossa administração pública.
Ao seu lado costumava sentar-se um cavalheiro que tinha um vício secreto: escrever cartas aos jornais da corte com as notícias mais contraditórias. Assinava “O Correspondente”, e sempre que uma folha de Madri dizia “O caso de Vetusta”, era obra sua. No dia seguinte desmentia em outro jornal as próprias notícias, e resultava que “o caso de Vetusta” não era coisa alguma. Assim se fizera um cético consumado em matéria de imprensa. “Se ele havia de saber como se faziam os jornais!” Quando franceses e alemães chegaram às vias de fato, O Correspondente duvidava da guerra: talvez fosse manobra dos bolsistas; não se convenceu de que havia alguma coisa até a rendição de Metz.
O poeta Trifón Cármenes também comparecia sem falta à hora do correio. Passava em revista vários jornais com ansiedade febril e desaparecia logo depois com mais uma desilusão na alma. Era que “não lhe haviam publicado”. Tratava-se de alguma poesia ou conto fantástico que mandara a qualquer jornal e que nunca chegava a sair. Cármenes, que nos certames de Vetusta ganhava todas as flores naturais, não conseguia que seus versos encontrassem lugar nas jornais madrilenhos; e isso apesar de empregar, nas cartas com que recomendava as composições, toda a finura do mundo. A fórmula costumava ser esta: “Muito senhor meu e de minha mais distinta consideração: junto lhe remeto alguns versos para que, se os julgar dignos de tão assinalada honra, vejam a luz pública nas colunas de seu conceituado periódico. Escritos sem pretensões..., etc., etc.” Mas nada: não saíam. Ao cabo de um ano, pedia que lhos devolvessem. Mas “não se devolviam os originais”. Aproveitava o rascunho e publicava aquilo em El Lábaro, o jornal reacionário de Vetusta.
Outro leitor constante era um velhote meio idiota que jamais se deitava sem ter lido todos os editoriais da imprensa que chegava ao Casino. Deleitava-o singularmente a prosa maciça de um jornal que tinha fama de hábil e circunspecto. Os conceitos vinham envolvidos em tantos eufemismos, preterições e circunlóquios, e se quebravam de tão sutis, que o velho acabava sempre sem entender patavina.
“Que habilidade!”, dizia, sem compreender palavra.
Precisamente por isso acreditava na habilidade, porque, se ele a percebesse, já não haveria habilidade alguma.
Certa noite, o leitor de editoriais despertou a esposa, dizendo:
“Escute, Paca, sabe que não consigo dormir?... Veja se você entende isto que li hoje no jornal: ‘Não deixa de deixar de nos parecer repreensível...’ Você entende, Paca? Eles acham repreensível ou não? Enquanto eu não resolver isso, não consigo dormir...”
Esses e outros leitores assíduos passavam os jornais de mão em mão, em silêncio, devorando notícias que liam repetidas em oito ou dez folhas. Assim se alimentavam aqueles espíritos que, antes das onze da noite, iam dormir satisfeitos, convencidos de que o caixa de certa parte fugira com os fundos, de que se preparava uma crise ministerial e de que o príncipe tal chegara ao porto qual.
Quando já não restava ninguém no gabinete, o zelador entrava, resmungando contra os sócios que lhe roubavam o sono, diminuía a chama do gás e deixava o aposento quase às escuras. E voltava a dormir na portaria.
Era então que entrava D. Amadeo Bedoya, capitão de artilharia, em trajes civis, envolto num casacão de ampla pelerine. Olhava bem... não havia ninguém... a escuridão favorecia-o. Aproximava-se da estante com muita cautela; tirava uma chave, abria a gaveta inferior, apanhava um livro, deixava outro que trazia oculto sob a pelerine, escondia o primeiro entre as dobras do casacão e fechava a gaveta. Aproximava-se da mesa, depois de respirar fundo, assobiava a marcha real e fingia dar uma olhada nos jornais. Jornais, para ele! Só para disfarçar ficava ali cinco minutos e saía triunfante. Não era ladrão, era bibliófilo. A chave de Bedoya era a que o zelador perdera. D. Amadeo era o D. Saturnino Bermúdez da tropa. Fora um bravo militar; mas, como anos antes tivera a honra de ser eleito presidente de um Ateneu de infantaria e se vira na necessidade de estudar e pronunciar um discurso, descobriu, com grande surpresa, ser excelente orador, na própria opinião e na dos chefes, e, de uma coisa a outra, acabou homem de letras, a ponto de jurar solenemente, e com a energia que tão bem assenta aos defensores da pátria, tornar-se erudito. Começou a chamar a atenção dos vetustenses aquele militar que sabia de letras mais que muitos paisanos, e o próprio Bedoya se animava ao trabalho com a graça do que lhe parecia ser o contraste entre a artilharia e a literatura. Pouco a pouco chegou a ser membro, ora correspondente, ora efetivo, de muitas sociedades científicas, artísticas e literárias. Destacava-se na Arqueologia e na Botânica, sobretudo na relação desta com a Horticultura. Era especialista nas doenças da batata e tinha um trabalho sobre o assunto que o Governo não acabava de premiar. Também lhe dava para a biografia militar. Sabia de vários tenentes-generais que haviam sido outros tantos Farnésios e Spínolas, sem que o mundo suspeitasse; e trazia à baila a história de certo brigadeiro que, se em vez de não comandar tivesse comandado a ação de tal lugar, teria conquistado a glória de um Napoleão, em vez de perder as posições, como de fato as perdera o general inepto.
As fontes dessa espécie de biografias de pessoas que poderiam ter sido importantes estavam em livros como aqueles da gaveta inferior da estante do Casino. Haveria outros exemplares pelo mundo, mas deles não se tinha notícia, e Bedoya pertencia à espécie de eruditos que encontram mérito em copiar o que ninguém quis ler. Assim que via no papel de sua propriedade os parágrafos que ia copiando com aquela letra inglesa esbelta e asseada que Deus lhe dera, já lhe parecia obra sua tudo aquilo. Mas seu forte eram as antiguidades. Para ele, um objeto de arte não tinha mérito, ainda que fosse do tempo de Noé, se não lhe pertencesse. Assim como Bermúdez amava a antiguidade por si mesma, a poeira pela poeira, Bedoya era mais subjetivo, como dizia; precisava que o objeto amado lhe pertencesse. “Se ele pudesse falar! Bermúdez, o Magistral e tutti quanti ficariam deste tamanhinho.” Mas não podia falar. Provavelmente iria para a prisão, se falasse. “Enfim, a bem da verdade, tinha...”, e olhava para os lados ao dizê-lo, “tinha um precioso manuscrito de Filipe II, um documento político de grande importância.” Roubara-o no arquivo de Simancas. Como? Esse era o seu orgulho.
Assim, seguro daquela superioridade, Bedoya olhava por cima do ombro os outros antiquários e calava. Calava por medo da prisão.
O quarto do crime, a sala dos jogos de azar, e mais concretamente da roleta e do monte, ficava no segundo andar. Chegava-se a ela depois de percorrer muitos corredores escuros e estreitos. A autoridade jamais perturbara a calma daquele refúgio retirado e escondido da arte do acaso, nem nos tempos de maior moralidade pública. A pedido dos noticiaristas, especialmente o de El Lábaro, perseguia-se cruelmente a prostituição, mas o jogo não se podia perseguir. Quanto às “infames que comerciavam com o próprio corpo”, como dizia Cármenes, escrevendo incógnito os editoriais de El Lábaro, como não haveriam de ser maltratadas, se diariamente se publicavam incitações desse gênero na imprensa local?
Quase todos os dias vinha à luz uma notinha intitulada, por exemplo, Essas pombas! ou Fogo nelas!, e numa ocasião o próprio D. Saturnino Bermúdez escreveu a sua, que se chamava simplesmente Meretrizes e terminava dizendo: “da impudica scortum”.
Voltando ao jogo, se algum governador enérgico ameaçara os sócios do Casino com lhes dar um susto, os jogadores influentes lhe haviam profetizado a exoneração. O habitual sempre fora fechar os olhos, e não faltaram às vezes subvenções na forma mais decorosa possível, como diziam as partes contratantes. Os jogadores vetustenses tinham uma virtude: não viravam a noite. Eram homens ocupados que precisavam madrugar. Certo médico recolhia-se às dez, depois de perder os ganhos do dia: levantava-se às seis da manhã, percorria toda a cidade entre poças e lama, desafiava a neve, o granizo, o frio, o vento; e, depois de trabalho ímprobo, voltava, como quem leva uma oferenda ao altar, para depositar sobre o pano verde as pesetas ganhas. Advogados, procuradores, tabeliães, comerciantes, industriais, empregados, proprietários, todos faziam o mesmo. No voltarete, no gabinete de leitura, no bilhar, nas salas de conversação, de dominó e xadrez, estavam sempre as mesmas pessoas, os respectivos aficionados; mas o quarto do crime era o lugar onde se reuniam todos os ofícios, todas as idades, todas as ideias, todos os gostos, todos os temperamentos.
Não era em vão que se afirmava distinguir-se Vetusta por seu acrisolado patriotismo, sua religiosidade e sua afeição aos jogos proibidos. A religiosidade e o patriotismo explicavam-se pela história; a afeição ao jogo, pela muita chuva que caía em Vetusta. Que haviam de fazer os sócios, se não se podia passear? Por isso propunha D. Pompeyo Guimarán, o filósofo, que a catedral se transformasse em passeio coberto. “Risum teneatis!”, respondia Cármenes numa notinha de El Lábaro.
A religiosidade, ainda que sob a lamentável forma da superstição, manifestava-se no próprio vício da jogatina. Contavam-se no Casino prodígios de credulidade dos jogadores mais famosos. Um comerciante, liberal e nada temente, tinha depositado à porta daquele centro de recreio um par de sapatos velhos. Chegava ao Casino, calçava os sapatos de sola furada e subia para tentar a sorte. Jurava que jamais, usando botas novas, a fortuna o favorecera. Era uma espécie de jogador da ordem dos descalços. Entre sua fé e certa experiência maliciosa, obtinha ganhos seguros. Num ano, fez uma esplêndida novena a São Francisco, à qual compareceu toda “Vetusta edificada”, como dizia Bermúdez.
Depois que Bedoya saía do Casino, passando sem ser visto pelos porteiros, que dormiam suavemente, não restavam ali mais sócios que oito ou dez notívagos juramentados. Poucos e sempre os mesmos. Uns eram personagens avariados que haviam adquirido em Madri o hábito de varar a noite, outros, elegantes e libertinos de Vetusta que os imitavam. Mas dessa tertúlia da última hora teremos de falar mais adiante, porque a ela assistiam personagens importantes desta história.
Eram três e meia da tarde. Chovia. Na sala contígua ao gabinete velho estavam os sócios de costume, os que não jogavam coisa alguma e os seis que jogavam xadrez. Estes haviam colocado o respectivo tabuleiro junto a uma sacada, para ter mais luz. No fundo da sala parecia que ia anoitecer. Sobre uma mesa de mármore brilhava entre a fumaça espessa do tabaco, como estrela por trás da névoa, a chama de uma vela que servia para acender os charutos. Ocultos na sombra de um canto, ao redor daquela mesa, uns afundados num divã, outros em cadeiras de balanço de palha, estavam meia dúzia de sócios fundadores, que desde tempos imemoriais compareciam às três em ponto para tomar café e licor. Falavam pouco. Nenhum jamais se permitia arriscar uma afirmação que não pudesse ser aceita por unanimidade. Ali se julgavam os homens e os acontecimentos do dia, mas sem paixão; condenava-se, sem ofendê-lo, todo inovador, quem houvesse feito alguma coisa fora do comum. Elogiavam-se, sem grande entusiasmo, os cidadãos que sabiam ser comedidos, corteses e incapazes de exagerar coisa alguma. Antes mentir do que exagerar. D. Saturnino Bermúdez recebera mais de uma vez a homenagem de uma admiração prudente naquele círculo de senhores respeitáveis. Mas, em geral, preferiam falar de animais: por exemplo, do instinto de alguns, como o cão e o elefante, embora sempre lhes negando, naturalmente, a inteligência: “o castor constrói hoje sua morada do mesmo modo que no tempo de Adão; não há inteligência, é instinto”. Falavam também da utilidade de outros irracionais; o porco, do qual tudo se aproveitava, a vaca, o gato, etc., etc. E a conversa lhes parecia ainda mais interessante se se referia a objetos inanimados. O direito civil também os encantava no que se referia ao parentesco e à herança. Passava um sócio qualquer, e, se algum dos fundadores não o conhecia, perguntava:
“Quem é esse?”
“Esse é filho de... neto de... que se casou com... que era irmã de...”
E, como cerejas, saíam enganchados pelo parentesco quase todos os vetustenses. Essa conversa terminava sempre com uma frase:
“Bem vistas as coisas, aqui todos somos parentes em alguma medida.”
A meteorologia tampouco faltava nunca aos temas das conferências. O vento que soprava mantinha sempre muito preocupados os beneméritos sócios. O inverno corrente era sempre mais frio que todos os de que se lembravam, salvo um.
Também às vezes se murmurava um pouco, mas com a maior moderação, sobretudo se se falava de clérigos, senhoras ou autoridades.
Apesar do encanto de tais conversas, o grupo de veneráveis anciãos, entre os quais só havia um jovem, e este calvo, preferia ao mais agradável colóquio o silêncio; e a ele se consagrava principalmente aquela espécie de sesta que dormiam acordados. Quase sempre se calavam.
Não longe deles, e por sinal incomodando-os às vezes bastante, havia dois ou três grupos de arruaceiros, e ao longe ouvia-se o antipático estrépito do dominó, que os veneráveis haviam desterrado de sua sala. Os do dominó eram sempre os mesmos: um catedrático, dois engenheiros civis e um magistrado. Riam e gritavam muito; insultavam-se, mas sempre de brincadeira. Aqueles quatro amigos, ligados pelo seis duplo, teriam vendido a ciência, a justiça e as obras públicas para salvar qualquer companheiro da partida. No salão de baile, onde não se permitia jogar nem tomar café, passeavam os senhores da Audiência e outros personagens, como o marquês de Vegallana, nos dias de muita chuva, quando ele não podia dar seus passeios.
A animação estava nos grupos de arruaceiros antes citados.
“Ali não se respeitava nada nem ninguém”, diziam os velhos do canto. Embora estivessem a dois passos deles, raras vezes as conversas se misturavam. Os anciãos calavam e julgavam.
“Que leviandade!”, disse um venerável em voz baixa.
“Observe”, responderam-lhe, “que raras vezes falam dos interesses reais da província.”
“Unicamente quando vem o senhor Mesía...”
“Oh, é que o senhor Mesía... é outra coisa.”
“Sim, é um grande homem. Muito entendido em Fazenda e nisso que chamam Economia Política.”
“Eu também acredito na Economia Política.”
“Eu não acredito, mas respeito muito a memória de Flórez Estrada, a quem conheci.”
Tudo, menos discutir; assim que despontava uma discussão, lançavam-lhe terra por cima e todos se calavam.
Na mesa em frente, gritava um senhor que fora alcaide liberal e era usurário sob todos os sistemas políticos; malicioso e inimigo dos padres, porque assim julgava provar seu liberalismo com pouco trabalho.
“Mas vejamos”, dizia, “quem lhe garantiu que o Magistral não quis confessar a Regenta?”
“Disse-me quem viu com os próprios olhos D. Anita entrar na capela de D. Fermín e D. Fermín sair sem cumprimentar a Regenta.”
“Pois eu os vi cumprimentarem-se e conversarem no Espolón.”
“É verdade”, gritou um terceiro. “Eu também os vi. De Pas ia com o Arcipreste e a Regenta com Visitación. Mais ainda, o Magistral ficou muito vermelho.”
“Homem, homem!”, exclamou o ex-alcaide, fingindo escandalizar-se.
“Pois eu sei mais que todos vocês”, vociferou um frangote que imitava Zamacois, Luján, Romea, o sobrinho, e todos os atores cômicos de Madri, onde acabava de formar-se em Medicina.
Baixou a voz, fez um sinal que significava sigilo; todos os da roda se achegaram a ele, e, com a mão ao lado da boca, como um anteparo, deixando cair a cadeira em que estava montado até apoiar o espaldar na mesa, disse:
“Contou-me Paquito Vegallana; o Arcipreste, o célebre D. Cayetano, pediu a Anita que mudasse de confessor, porque...”
“Homem, homem! Que sabe você do porquê?”, interrompeu o inimigo do clero. “O segredo da confissão!”
“Está bem, está bem! Sei de fonte segura. Paquito me contou. Mesía”, e baixou muito mais a voz, “Mesía quer pôr varas na Regenta.”
Escândalo geral. Murmúrio no canto escuro.
“Aquilo era demais.”
“Podia-se murmurar, falar sem fundamento, mas não tanto. Vá lá pelo Magistral e pelo segredo da confissão; mas tocar na Regenta! Aquele sietemesino era um imprudente, sem dúvida.”
“Senhores, não digo que a Regenta aceite as varas, mas que Álvaro quer pôr-lhas; o que é muito diferente.”
Todos negaram a probabilidade da afirmação.
“Homem... a Regenta... é coisa demais!”
O frangote deu de ombros.
“Estava certo. Dissera-lhe o marquesito, o íntimo de Mesía.”
“E vejamos”, perguntou o senhor Foja, o ex-alcaide, “que têm a ver essas varas que Mesía quer pôr na Regenta com o Magistral e a confissão?”
Não queria largar a presa. Nem sempre se podia falar mal dos padres no Casino.
“Pois tem muito a ver; porque o Arcipreste pediu auxílio ao outro; quer deixar-lhe a carga da consciência dela.”
“Rapaz, rapaz, você está escorregando”, advertiu o pai do desbocado, que estava presente e admirava o descaramento do filho, adquirido positivamente em Madri, e muito à sua custa.
“Quero dizer que Anita é muito cismadora, como todos sabemos”, e continuava baixando a voz, enquanto os demais se aproximavam, até formar um cacho de cabeças dignas de outra Campana de Huesca, “é cismadora e talvez tenha notado os olhares... e o resto, não é? do outro... e queira prevenir-se... e o Arcipreste não está para casos de consciência complicados, e o Magistral sabe muito disso.”
A roda não pôde deixar de sorrir em sinal de aprovação.
O pai do maledicente babava de satisfação e piscava um olho para um amigo. Não havia dúvida de que os rapazes só em Madri despertavam. Custava caro, mas enfim viam-se os resultados.
O desembaraço do rapaz costumava suscitar protestos, mas depois vencia a eloquência de seus epigramas maliciosos e do tom manolesco dos gestos e do sotaque.
Começava então o chamado gênero flamenco a ser de bom-tom em certos bairros da arte e em algumas sociedades. O medicuzinho vestia calças muito justas e combinava sabiamente os cornos que então se usavam sobre a testa com as mechas que os toureiros deixavam cair sobre as têmporas. Seu penteado parecia uma peruca de marchetaria.
Chamava-se Joaquín Orgaz e trocava olhares com todas as moças casadoiras da cidade, o que quer dizer que as fitava com insistência e tinha o gosto de ser fitado por elas. Terminara o curso naquele ano e seu propósito era casar-se quanto antes com uma moça rica. Ela traria o dote, e ele, sua figura, o diploma de médico e suas habilidades flamencas. Não era tolo, mas a escravidão da moda fazia-o parecer mais vulgar do que talvez fosse. Se em Madri era um entre tantos, em Vetusta não tinha a temer mais que cinco ou seis rivais importadores de maneiras semelhantes. Nos meses de férias, aproveitava o tempo procurando a convivência das famílias ricas ou nobres de Vetusta. Fizera-se amigo íntimo de Paquito Vegallana e, ainda que de longe, algo lhe chegava do esplendor irradiado pelo célebre Mesía, flor e nata dos elegantes de Vetusta. Orgaz chamava-o Álvaro, tamanha era a familiaridade entre Paco e Mesía; e como ele tratava Paquito por você... por isso.
Joaquín animou-se com o bom êxito de suas murmurações e sustentou que era cafona aquele respeito e admiração inspirados pela Regenta.
“É uma mulher bonita, lindíssima; se vocês quiserem, de talento, digna de outro palco, de voar mais alto... se me apertarem, direi que é uma mulher superior, se é que há mulheres assim; mas afinal é mulher, et nihil humani...”
Não sabia o que significava aquele latim, nem aonde levava, nem de quem era, mas o usava sempre que se tratava de possíveis fraquezas.
Os sócios soltaram gargalhadas. “Até em latim sabe maldizer o patife!”, pensou o pai, cada vez mais satisfeito com os sacrifícios que lhe custava aquele inimigo.
Joaquinito, vermelho de prazer, e um pouco por causa do Anís del Mono que bebera, julgou oportuno coroar o edifício de sua glória cantando alguma coisa nova. Pôs-se de pé, esticou uma perna, girou sobre um salto e cantou, ou se cantou, como dizia:
> Abre-me a porta,
> porta do postigo...
“Era preciso acabar com os preconceitos da cidade. A Regenta! Acaso deixaria de ser de carne e osso? E Álvaro sempre fora irresistível...” Orgaz filho interrompeu a dança, que empreendera enquanto fazia observações. Na sala vizinha haviam soado passos que faziam tremer o pavimento.
“Aí vem o inglês”, disse entre dentes o flamenco; e ficou um pouco pálido.
Com efeito, era Ronzal. Pepe Ronzal, vulgo Trabuco, não se sabe por quê, era natural de Pernueces, aldeia da província. Filho de um rico criador de gado, pôde fazer seus estudos, que já se verá que estudos foram, na capital. Afeiçoado ao monte, como Vinculete ao voltarete, desde a adolescência, nem durante as férias queria voltar a Pernueces, desejoso de não perder sequer uns feijões. Não pôde concluir o curso. Não bastou a tradicional benevolência dos professores para que Trabuco conseguisse formar-se nos dois direitos.
Certa vez perguntaram-lhe num exame:
“Que é um testamento, meu filho?”
“Testamento... a própria palavra diz: é o que fazem os defuntos.”
Além de Trabuco, chamavam-no o Estudante, por uma antonomásia irônica que ele não compreendia.
Passou o tempo; morreu o criador de gado, Pepe Ronzal deixou de ser o Estudante, vendeu terras, transferiu-se para a capital e começou a ser homem político, sem que se saiba ao certo como nem por quê.
O fato é que de uma mesa de colégio eleitoral passou à Câmara Municipal, e de vereador passou a deputado provincial por Pernueces. Se jamais conseguiu livrar-se da ignorância primitiva, no andar, no vestir e até no cumprimentar foi alcançando progressos graduais, e era preciso ser um pouco antigo em Vetusta para recordar tudo quanto aquele homem tivera de agreste. Do ano da Restauração em diante, Ronzal já passava por homem de iniciativa, afortunado em amores de certo gênero e em negócios de quintas. Era partidário muito decidido das instituições vigentes. Penteava-se segundo o modelo dos selos e das pesetas, e, quanto ao calçado, usava-o fortíssimo, blindado. Acreditava que isso lhe dava certo ar de nobre inglês.
“Sou muito inglês em todas as minhas coisas”, dizia com ênfase, “sobretudo nas botas.”
“Militava” no partido mais reacionário entre os que se alternavam no poder.
“Dai-me um povo saxão”, dizia, “e serei liberal.”
Mais tarde foi liberal sem que lhe dessem o povo saxão, mas outra coisa que não pertence a esta história.
Era alto, gordo e não malformado; tinha a cabeça pequena e redonda, e a testa estreita; olhos selvagens, sem expressão, assustados, que não movia sempre que queria, mas quando podia. Falar com Ronzal, vê-lo animado, loquaz, dizendo disparates com grande energia e entusiasmo, e notar que seus olhos não se moviam nem exprimiam coisa alguma daquilo, mas olhavam fixos, com o espanto e a desconfiança dos animais do monte, causava calafrios.
Tinha boa cor morena e a perna muito bem-feita. No que se adiantara a seu tempo era nas calças, porque as usava muito curtas. Trazia sempre luvas, fizesse calor ou frio, fossem oportunas ou não. Para ele, a luva fora sempre o distintivo da finura, como dizia, da condição senhorial, como também dizia. Além disso, suas mãos suavam.
Abominava tudo quanto cheirasse a plebe. Os republicaninhos tinham nele um inimigo formidável. Num dia de São Francisco, o zelador não pôs colgaduras nas sacadas do Casino. Ronzal, que já pertencia à Junta, quis atirar o mísero empregado por uma daquelas sacadas.
“Senhor”, gritava o zelador, “hoje é São Francisco de Paula!”
“Que importa, animal?”, respondeu Trabuco, furioso. “Não há Paula que valha: sendo São Francisco, é dia de gala e penduram-se colgaduras!”
Assim entendia ele servir às Instituições.
Com rasgos como esse, foi-se fazendo respeitar pouco a pouco.
Cara a cara, ninguém mais ria dele. Não lhe faltou perspicácia para compreender que o mundo dava muito às aparências e que, no Casino, passavam por mais sábios os que gritavam mais, eram mais teimosos e liam mais jornais do dia. E disse consigo:
“Isto da sabedoria é um complemento necessário. Serei sábio. Felizmente tenho energia”, tinha punhos muito bons, “e em teimosia ninguém me vence, e disponho de um pulmão como um manolito”, monólito, naturalmente. “Só com isso e lendo La Correspondencia, serei o Hipócrates da província.”
Hipócrates era o mestre de Platão, mestre ao qual Trabuco nunca chamou Sócrates, nem precisava.
Desde então leu jornais e romances de Pigault-Lebrun e Paul de Kock, únicos livros que conseguia olhar sem adormecer imediatamente. Ouvia com atenção as conversas que lhe soavam a sabedoria; e, sobretudo, procurava impor-se dando muitos gritos e ficando sempre por cima.
Se os argumentos do adversário o apertavam um pouco, sacava o que não se pode chamar de Cristo, porque era um bastão, e, brandindo-o, gritava:
“E fique claro que sustentarei isto em todos os terrenos! Em todos os terrenos!”
E repetia a palavra terreno cinco ou seis vezes, para que o outro reparasse no tropo e no cacete e se desse por vencido.
Compreendia que ali as discussões de menor compromisso eram as mais volumosas e sobre coisas remotas, e assim seu forte era a política externa. Quanto mais distante estivesse o país cujos interesses se discutiam, mais lhe convinha. Nesse caso, o perigo estava nos lapsos geográficos. Costumava confundir os países com os generais que comandavam os exércitos invasores. Em certa infeliz polêmica, chegou às mãos com o capitão Bedoya, que lhe negava a existência do general Sebastopol.
Também acreditou que sua fama de homem de talento se consolidaria se provasse forças no xadrez, e aplicou a esse jogo muita energia. Certa tarde, jogando na presença de vários sócios e tendo perdido muitas peças, viu a salvação em transformar um peãozinho em rainha.
“Este vai a rainha!”, exclamou, cravando os olhos nos do adversário.
“Não pode ser.”
“Como não pode ser?”
E o adversário, por instinto, retirou uma peça que estorvava a passagem do peão que devia ir a rainha.
“Vai a rainha, e faço disso questão pessoal”, acrescentou Trabuco, envalentonado, dando um soco no próprio peito.
E o adversário, sem querer, deixou-lhe livre outra casa.
E assim, de uma em outra, jogando a vida em todas elas, transformou o peão em rainha e ganhou a partida o enérgico deputado provincial de Pernueces.