TOMO I — Capítulo XV A Regente · Capítulo 16 de 31
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TOMO I — Capítulo XV

TOMO I

Capítulo XV

No alto da escada, no patamar do primeiro andar, dona Paula, com um castiçal numa das mãos e o cordão da porta da rua na outra, via, silenciosa e imóvel, o filho subir devagar, de cabeça baixa, o rosto oculto pelo chapéu de abas largas.

Ela mesma lhe abrira, sem perguntar quem era, certa de que só podia ser ele. Nem uma palavra ao vê-lo. O filho subia, e a mãe não se movia; parecia disposta a barrar-lhe a passagem, ali no meio, rígida como um fantasma negro, comprido e anguloso.

Quando De Pas alcançava os últimos degraus, dona Paula deixou o posto e entrou no gabinete. Dom Fermín olhou-a então, sem que ela o visse.

Reparou que a mãe trazia nas têmporas emplastros untados de sebo, grandes e ostensivos.

«Ela sabe de tudo», pensou o Provisor. Quando sua mãe se calava e punha emplastros de sebo, queria dar a entender que não podia estar mais zangada, que estava furiosa. Ao passar diante da sala de jantar, De Pas viu a mesa posta para duas pessoas. Era cedo para o jantar; nas outras noites a toalha não se estendia antes das nove e meia, e acabavam de dar nove horas.

Dona Paula acendeu sobre a mesa do gabinete o lampião a óleo à luz do qual o filho costumava fazer serão.

Ele sentou-se no sofá, deixou o chapéu de lado e enxugou a testa com o lenço. Olhou para dona Paula.

— Dói-lhe a cabeça, mãe?

— Doeu-me. Teresina!

— Senhora.

— O jantar!

E saiu do gabinete. O Provisor fez um gesto de paciência e foi atrás dela. «Ainda não era hora de jantar, faltavam mais de quarenta minutos... mas quem se atreveria a dizer-lhe isso?»

Dona Paula sentou-se à mesa, de lado, como os maus atores no teatro. Junto ao lugar de dom Fermín havia um paliteiro e um galheteiro com sal, azeite e vinagre. O guardanapo dele tinha argola; o da mãe, não.

Teresina, grave, com os olhos baixos, entrou com o primeiro prato, que era uma salada.

— Não se senta? — perguntou a mãe ao Provisor.

— Não tenho apetite... mas tenho muita sede.

— Está passando mal?

— Não, senhora... isso não.

— Jantará mais tarde?

— Não, senhora, também não.

O Magistral ocupou o lugar diante de dona Paula, que se serviu em silêncio.

Com um cotovelo apoiado na mesa e a cabeça na mão, De Pas contemplava a senhora sua mãe, que comia depressa, distraída, mais pálida do que de costume, os grandes olhos azuis, claros e frios, fixos num pensamento que ela parecia enxergar no chão.

Teresina entrava e saía sem fazer ruído, como um gato bem-educado. Aproximou a salada do patrão.

— Já disse que não janto.

— Deixe-o, ele não janta. Ela não o tinha ouvido, criatura.

E acariciou a criada com os olhos.

Novo silêncio. De Pas teria preferido uma discussão imediata. Qualquer coisa, antes dos emplastros e do silêncio. Sentia náuseas e não se atrevia a pedir uma xícara de chá. Morria de sede, mas receava beber água.

Dona Paula falava com Teresa mais do que de costume e com uma amabilidade de que raramente fazia uso.

Tratava-a como se fosse preciso consolá-la de alguma desgraça pela qual a própria dona Paula tivesse parte da culpa. Ao menos foi isso que o Magistral julgou perceber.

Faltava alguma coisa que estava no aparador, e a dona da casa levantava-se para buscá-la pessoalmente.

Dom Fermín pediu açúcar para pôr no copo d'água, e sua mãe disse:

— O açucareiro está lá em cima, no meu quarto... Deixe, eu mesma vou buscá-lo.

— Mas, mãe...

— Deixe-me.

Teresina ficou a sós com o patrão e, enquanto lhe servia água, deixando o jorro cair de muito alto, suspirou discretamente.

De Pas olhou-a, um pouco surpreendido. Estava muito bonita; parecia uma virgem de cera. Ela não levantou os olhos. De todo modo, era-lhe antipática. Sua mãe a mimava, e não se deve dar asas aos criados.

Dona Paula tornou a descer, e, assim que Teresina saiu, disse, olhando para a porta:

— Não sei como a pobre ainda se aguenta.

— Por quê? — perguntou dom Fermín, que acabava de ouvir o primeiro trovão.

Sua mãe, de pé junto a ele e mexendo o açúcar no copo, olhou-o de cima com expressão indignada.

— Por quê? Foi esta tarde duas vezes ao Paço, uma à casa do Arcipreste, outra à de Carraspique, outra à de Páez, outra à do Chato, duas à Catedral, duas à Santa Obra, uma às Paulinas, outra... sei lá! A pobre está morta de cansaço.

— E para que foi? — respondeu De Pas ao segundo trovão.

Pausa solene. Dona Paula voltou a sentar-se e, ostentando uma paciência que nem a de um santo, disse com muita calma, pesando as sílabas:

— Procurar você, Fermín; foi para isso.

— Malfeito, mãe. Não sou criança para que me procurem de casa em casa. Que diria Carraspique, que diria Páez?... Tudo isso é ridículo.

— Ela não tem culpa; faz o que lhe mandam. Se está malfeito, repreenda-me.

— Um filho não repreende a mãe.

— Mas a mata de desgostos; compromete-a, compromete a casa... a fortuna, a honra... a posição... tudo... por uma... por uma... Onde o senhor almoçou?

Era inútil mentir, além de vergonhoso. Sua mãe sabia de tudo, sem dúvida. O Chato lhe teria contado; o Chato, que o teria visto descer da carruagem no Espolón.

— Almocei com os marqueses de Vegallana; era o dia de Paquito; insistiram... não houve remédio. E não mandei recado porque seria ridículo, porque não tenho ali intimidade para isso.

— Quem almoçou lá?

— Cinquenta pessoas, sei lá.

— Basta, Fermín, basta de dissimulações! — gritou com voz rouca a mulher dos emplastros.

Levantou-se, fechou a porta e, de pé, a certa distância, prosseguiu:

— Foi lá procurar essa... senhora... almoçou ao lado dela... passeou com ela em carro aberto, toda Vetusta o viu, desceu no Espolón; já temos outra Brigadeirinha... Parece que precisa do escândalo, que quer me perder.

— Mãe! mãe!

— Nada de mãe! Lembrou-se de sua mãe o dia inteiro? Não a deixou comer sozinha, ou, melhor dizendo, sem comer? Importou-se com o susto que sua mãe naturalmente levaria? E o que fez depois, até as dez da noite?

— Mãe, mãe, por Deus! Não sou uma criança.

— Não, não é uma criança; pouco lhe importa que sua mãe se consuma de impaciência, que morra de incerteza... A mãe é um móvel que serve para guardar os bens, como um cão; sua mãe lhe dá o próprio sangue, arrancaria os olhos por você, condena-se por você... mas você não é uma criança e dá seu sangue, os olhos e a salvação... por uma mulherona.

— Mãe!

— Por uma mulher má!

— Senhora!

— Cem vezes, mil vezes pior do que essas que puxam pela sobrecasaca de dom Saturnino, porque essas cobram e deixam em paz quem as procurou; mas as senhoras sugam a vida, a honra... desfazem num mês o que levei vinte anos para construir... Fermín, você é um ingrato!... É um louco!

Sentou-se, exausta, e com o lenço que trazia na cabeça improvisou uma faixa para as têmporas.

— Minha testa vai estourar!

— Mãe, por Deus, acalme-se. Nunca a vi assim... Mas o que houve? O que houve?... Tudo isso é calúnia... E como foram rápidos... como foram rápidos em tramá-la! Que Brigadeirinha, que grã-senhoras, nada disso existe... juro-lhe que não é isso... não há nada!

— Você não tem coração, Fermín, não tem coração.

— A senhora está vendo o que não existe... asseguro-lhe.

— O que fez até as dez da noite? Ficou rondando a casa daquela gigantona, sem dúvida.

— Por Deus, senhora! Isso é indigno da senhora. Está insultando uma mulher honrada, inocente, virtuosa; não falei com ela três vezes... é uma santa.

— É igual às outras.

— A quais outras?

— Às outras.

— Senhora! Se a ouvissem!

— Ora, ora! Se me ouvissem, eu me calaria. Fermín... a bom entendedor... Veja, Fermín, você não se lembra, mas eu me lembro; sou a mãe que o pariu, sabe? Conheço você, conheço o mundo e sei levar tudo em conta... tudo. Mas dessas coisas você e eu não podemos falar... nem a sós... você me entende. Ainda assim, tenho sido bastante boa, calei-me bastante, vi bastante.

— A senhora não viu nada.

— Tem razão... não vi; mas compreendi, e agora você vê... Nunca lhe falei dessas... porcarias, mas parece que agora se compraz em ser visto... está seguindo pelo pior caminho.

— Mãe... a senhora mesma o disse: é absurdo, é indecoroso que nós dois falemos, ainda que por cifras, de certas coisas.

— Já vejo, Fermín, mas é você quem o quer. O que fez hoje foi um escândalo.

— Mas eu lhe juro que não há nada; que isto nada tem a ver com todas aquelas calúnias antigas.

— Pior; pior ainda... E acima de tudo temo que o outro saiba, que Camoirán acredite em tudo isso que já andam dizendo.

— Já andam dizendo! Em dois dias!

— Sim, em dois dias; em meio dia... numa hora. Não vê que estão loucos para apanhá-lo? Que é chuva sobre o molhado?... Faz dois dias? Pois dirão que faz dois meses, dois anos, o que bem entenderem. Começa agora? Dirão que só agora foi descoberto. Conhecem o Bispo, sabem que só por aí podem atacá-lo... Digam a Camoirán que você roubou o cibório: ele não acredita. Mas nisso, sim; lembre-se da Brigadeirinha!

— Que Brigadeirinha, mãe, que Brigadeirinha! Não podemos falar dessas coisas, mas... se eu lhe explicasse...

— Não preciso saber de nada; compreendo tudo, sei tudo... à minha maneira. Fermín, não lhe correu bem a vida inteira deixar-se guiar por sua mãe nestas miseráveis coisas deste mundo? Não lhe correu bem?

— Sim, minha mãe, sim!

— Fui eu ou não que o tirei da pobreza?

— Sim, mãe da minha alma!

— Seu pobre pai não nos deixou mortos de fome, com água pelo pescoço, tudo penhorado, tudo perdido?

— Sim, senhora, sim... e eu lhe serei eternamente...

— Deixe-se de eternidades. Não quero palavras; quero que continue acreditando em mim. Sei o que faço. Você prega, deslumbra o mundo com suas belas palavras e seus belos modos... eu sigo o meu jogo. Fermín, se sempre foi assim, por que agora se desvia de mim? Por que me escapa?

— Não há nada disso, mãe.

— Há, sim, Fermín. Diz que não é criança... é verdade; mas pior ainda se for um tolo. Sim, um tolo com toda a sua sabedoria. Sabe apunhalar pelas costas, ferir a honra? Pois olhe para o Arcediago: torto como é, sabe fazê-lo como um mestre. Aí está um ignorante que sabe mais do que você.

Dona Paula arrancara os emplastros; as tranças espessas de seus cabelos brancos caíram-lhe sobre os ombros e as costas. Os olhos, quase sempre apagados, agora lançavam fogo, e aquela mulher, como que talhada a machado, parecia uma estátua rústica da Eloquência prudente e carregada de experiência.

A tempestade desfizera-se numa chuva de palavras e conselhos. Já não brigavam; discutiam com calor, mas sem ira. As lembranças evocadas por dona Paula, sem intenção patética, haviam enternecido Fermín. Havia ali, enfim, um filho e uma mãe, e não se receava mais que as palavras se transformassem em raios.

Dona Paula não se enternecia; tinha essa vantagem. Chamava as carícias de momices e amava muito o filho, à sua maneira, de longe. O seu era um afeto opressor, tirânico. Fermín, além de filho, era seu capital, uma fábrica de dinheiro. Ela o fizera homem à custa de sacrifícios, de vergonhas das quais ele não sabia nem a metade, de vigílias, suores, cálculos, paciência, astúcia, energia e pecados sórdidos. Por conseguinte, não julgava pedir demais ao exigir juros do resultado de seus esforços, do Provisor de Vetusta. O mundo pertencia a seu filho, porque ele era o mais talentoso, o mais eloquente, o mais sagaz, o mais sábio, o mais belo; mas seu filho pertencia a ela. Devia receber os rendimentos de seu capital, e, se a fábrica parasse ou se avariasse, podia reclamar perdas e danos; tinha o direito de exigir que Fermín continuasse produzindo.

Em Matalerejo, sua terra natal, Paula Raízes vivera muitos anos ao lado das minas de carvão em que trabalhava o pai, um lavrador miserável que ganhava a vida cultivando uma terra ruim de milho e batatas e completando o sustento com uma jornada nas minas. Aqueles homens que saíam negros das galerias, suando carvão, os olhos inchados, sombrios, blasfemando como demônios, manejavam mais prata entre os dedos sujos do que os camponeses que revolviam a superfície dos campos, ceifavam e amontoavam a erva dos prados frescos e floridos. O dinheiro estava nas entranhas da terra; era preciso cavar fundo para tirá-lo. Em Matalerejo e por todo o vale reinava a cobiça, e os meninos louros, de tez amarelada, que pululavam às margens do rio negro, serpenteando pelas encostas dos montes altos, cobertos de castanheiros e fetos, pareciam filhos de sonhos avarentos. Quando menina, Paula era loura como uma espiga de milho; tinha os olhos quase brancos de tão claros e, na alma, desde que adquirira uso da razão, toda a cobiça da aldeia reunida. Nas minas e nas fábricas que as cercavam havia trabalho para as crianças assim que conseguiam sustentar na cabeça um cesto com um pouco de terra. Os vinténs que os filhos dos pobres ganhavam dessa maneira eram, em Matalerejo, a semente da avareza lançada naqueles corações tenros, semente de metal que se incrustava nas entranhas e dali jamais se arrancava. Paula via diariamente a miséria em casa: ora faltava pão para o jantar, ora para o almoço; o pai gastava na taberna e no jogo o que ganhava na mina.

A menina foi aprendendo o valor do dinheiro pela enorme tristeza com que os seus lamentavam sua ausência. Aos nove anos, Paula era uma espiga tostada pelo sol, comprida e seca; já não ria. Beliscava as amigas com muita força, trabalhava muito e escondia moedas num buraco do quintal. A cobiça fez dela mulher antes do tempo; tinha uma seriedade prematura, um juízo firme e frio.

Falava pouco e observava muito. Desprezava a pobreza da própria casa e vivia com a ideia constante de voar... voar por cima daquela miséria. Mas como? As asas precisavam ser de ouro. Onde estava o ouro? Ela não podia descer à mina.

Seu espírito observador descobriu na igreja um veio menos escuro e triste do que o das galerias subterrâneas. «O padre não trabalha e é mais rico do que meu pai e os outros cavadores das minas. Se eu fosse homem, não descansaria enquanto não me tornasse padre. Mas posso ser governanta, como a senhora Rita.» Começou a frequentar a igreja; não perdeu novena, rogativa, missão ou rosário, e era sempre a última a deixar o templo. Os habitantes de Matalerejo haviam sepultado a antiga piedade debaixo do carvão; eram indiferentes e tinham fama de hereges nos povoados vizinhos. Por isso a senhorita Rita logo percebeu a devoção de Paula. «A filha de Antón Raízes», disse ao pároco, «tem jeito para santa; não sai da igreja.» O padre falou com a menina e assegurou a Rita que ali havia uma Teresa de Jesus em botão. Quando a governanta adoeceu, o pároco pediu a Raízes que lhe cedesse a filha para substituir Rita no serviço. Rita sarou, mas Paula não deixou a casa paroquial. Acabaram-se as idas e vindas com o cesto de terra. Vestiu-se de negro e, por amor de Deus, esqueceu os pais. Dois anos depois, a senhora Rita saía da casa do padre mostrando os punhos a Paula e levando num baú as economias de vinte anos. O padre morreu de velho, e o novo pároco, de trinta anos, admitiu a filha de Raízes como parte integrante da casa paroquial.

Paula era então uma jovem alta, branca, viçosa, de carne dura e pele fina, mas desajeitada de corpo. Certa noite, à meia-noite, ao luar, saiu da casa paroquial, situada no alto de uma colina cercada de castanheiros e acácias, cem passos abaixo da igreja. Levava nos braços um lenço negro que envolvia roupas brancas. Atrás dela saiu uma sombra, de gorro de dormir e em mangas de camisa. Ao perceber que a seguiam, Paula correu pela ruela que descia ao vale. O homem do gorro alcançou-a, agarrou-a pela saia de estamenha e obrigou-a a parar. Conversaram; ele abria os braços, levava as mãos ao coração, beijava dois dedos cruzados; ela dizia não com a cabeça. Depois de meia hora de luta, os dois voltaram à casa paroquial; entrou ele, ela veio atrás e fechou a porta por dentro, depois de dizer a um cão que latia:

— Quieto, Nay, que é o patrão!

Desde aquela noite, Paula tornou-se o tirano do padre, sem prejuízo da própria honra. Um momento de fraqueza na solidão custou ao pároco, sem que chegasse a saciar o apetite, muitos anos de escravidão. Tinha fama de santo; era um jovem que pregava moralidade e castidade, sobretudo aos padres da comarca, e pregava pelo exemplo. Certa noite, porém, durante o jantar, reparou no corpo malformado e anguloso de Paula e sentiu uma lascívia selvagem, irresistível, cega, excitada por aqueles ângulos de carne e osso, pelos quadris sem graça, pelas pernas longas e fortes, que deviam ser como as de um homem. À primeira insinuação amorosa, brusca, expressa mais por gestos do que por palavras, a governanta respondeu com um grunhido, fingindo não compreender o que lhe pediam. À segunda tentativa, que foi um ataque brutal, sem arte, de homem casto enlouquecido de súbito pela luxúria, Paula respondeu com um salto e um pontapé; sem dizer palavra, foi ao quarto, fez um embrulho de roupas, símbolo de despedida, embora tivesse ali muitos baús cheios de trapos e outros artigos, e saiu dizendo da escada:

— Senhor padre! Vou dormir na casa de meu pai.

A conciliação custou ao clérigo uma humilhação até o pó, uma abdicação completa. Daí em diante viveram em paz, mas ele sempre viu nela a senhora de baraço e cutelo; ela tinha a honra dele nas mãos e podia perdê-lo. Não o perdeu. Certa noite, porém, quando o padre jantava tarde, depois de estudar, Paula aproximou-se e pediu que a ouvisse em confissão.

— Minha filha, a esta hora?

— Sim, senhor; agora tenho coragem... e não respondo por tornar a tê-la algum dia.

Confessou-lhe que estava grávida.

Francisco De Pas, licenciado de artilharia, frequentava muito a casa do padre, de quem era parente distante. Fizera a corte a Paula, e ela lhe respondera a bofetadas. O padre corou, lembrando-se do pontapé que também recebera. Mas o licenciado fora teimoso; voltara a cortejá-la e prometera casar-se assim que lhe concedessem a pequena tabacaria que os homens do Governo lhe haviam prometido. Ela se tranquilizara e, desde então, consentia em conversar com aquele pretendente suspeito. Segundo o costume da terra, o artilheiro ia falar com Paula à meia-noite, não através de uma grade, que não havia em Matalerejo, mas no corredor do celeiro, uma construção de tábuas sustentada por pilares largos, a duas ou três varas do chão. Ali ela dormia no verão. Certa noite, Francisco faltou ao combinado; foi ousado, passou do corredor para o interior do celeiro. Paula lutou, lutou até cair vencida, jurava-o diante de um Cristo, vencida pela força do artilheiro. Desde aquela noite passou a detestá-lo, mas queria casar-se com ele. Talvez daquela traição tenha nascido Fermín, dois meses depois de o bom pároco unir Paula e Francisco por laço indissolúvel. Todos os vizinhos disseram que Fermín era filho do padre, que dotara a governanta com boas moedas de ouro.

Francisco De Pas não era interesseiro; sempre tivera a intenção de casar-se com Paula. Os vizinhos, porém, haviam-lhe enchido a alma de suspeitas e espinhos, e ele, acreditando que o padre talvez zombasse de um licenciado, fez o que fez. Mas aquela noite, semelhante a uma batalha no escuro, terrível, convenceu-o da inocência do pároco e da virtude de Paula. Aquilo não se fingia. O artilheiro conhecia muito bem as armadilhas do mundo e as donzelas falsas, mas voltou para casa ao amanhecer persuadido de que vencera, bem ou mal, uma honra verdadeira. Retomou então o projeto de casar-se com a governanta do padre. Jurou-lhe de joelhos, como vira os galãs fazerem nos teatros, mundo afora:

— Amanhã mesmo pedirei sua mão a seus pais e ao padre.

— Não — disse ela. — Agora, não.

Continuaram a ver-se. Quando Paula teve certeza de que daquela traição, ou das concessões posteriores, havia fruto, disse ao namorado:

— Agora conto ao patrão, e você, quando ele o chamar, nega-se a casar; diz que andam falando que não foi só você... enfim...

— Sim, sim, entendo.

— Aquilo mesmo que você suspeitava, animal!

— Sim, já sei.

— Pois é.

— E depois?

— Depois deixe o padre oferecer alguma coisa... e não diga sim à primeira proposta; deixe-o aumentar o preço... nem à segunda. Na terceira, dê-se por vencido.

E assim foi. De uma só vez, Paula arrancou do pobre pároco de Matalerejo, o mais casto de todo o arciprestado, o restante do preço que havia posto em seu silêncio. Com que fervor o bom homem passou depois a pregar a castidade firme! «Um instante de fraqueza o perde, pecador; basta um instante! Um desejo, um desejo que nem sequer chega a saciar, custa-lhe a salvação» — e todas as economias, a paz do lar e a tranquilidade da vida inteira, acrescentava consigo mesmo.

Paula comprou grandes partidas de vinho e passou a vendê-las por atacado aos taberneiros de Matalerejo. O comércio começou bem, graças à inteligência e à atividade dela. Trabalhava pelos dois. Francisco era muito fanfarrão, segundo a mulher. Gostava de contar suas proezas e até suas aventuras amorosas, estas em segredo, depois de colocar alguns odres de vinho de Toro, bebendo em companhia do freguês. Era generoso e, no calor das amizades improvisadas na taberna, abria créditos exorbitantes aos taberneiros, seus compradores. Isso deu origem a rixas trágicas: cadeiras voavam, facas acabavam cravadas numa mesa de pinho, havia ameaças surdas e reconciliações efusivas da parte do artilheiro, secas, frias e nada sinceras da parte da mulher. A mania de vender fiado tornou-se vício, paixão daquele licenciado perdulário. Gostava de dar-se ares de rico e desprezava o dinheiro com grande prosopopeia. «Os países que conheceu! As mulheres que seduziu, lá tão longe!» Seus amigos taberneiros, que não haviam visto outro rio além do de sua terra, enganavam-no já no segundo copo. Enquanto ele se perdia em recordações e sonhos do passado, que apresentava como feitos reais, os compadres o interrompiam com elogios e admirações e arrancavam-lhe odres e mais odres de vinho, a pagar depois... «Disso nem era preciso falar.»

— O homem é honrado — dizia o artilheiro. E acrescentava: — Se tenho um duro, por exemplo, e um amigo, por comparação, precisa desse duro... e quem diz um duro diz vinte arrobas de vinho, suponhamos...

Poucos anos bastaram, apesar da prosperidade inicial do comércio, para levá-lo à falência. Um freguês ousou não pagar; depois dele vieram outros, e por fim quase ninguém pagava. Paula, que dominara dois padres e estava disposta a dominar o mundo, não conseguia dominar o marido.

— Como você quiser, tem razão — dizia ele; e meia hora depois voltava a fazer o mesmo.

Se ela se irritava, esgotava-se o que ele chamava de paciência, e, uma vez no terreno da força, o artilheiro sempre vencia. Paula era forte como um carvalho, mas Francisco fora o rapaz mais arrogante do nosso exército e tinha músculos de urso. Nascera no ponto mais alto da montanha e, até os vinte anos, trabalhara nos portos de montanha, cuidando de gado.

Quando a pobreza bateu à porta e Paula decidiu abandonar o comércio, De Pas determinou que os poucos vinténs salvos fossem empregados na criação de gado. Tomou vacas em parceria e partiu com a mulher e o filho para sua aldeia, a viver do pastoreio nos caminhos mais íngremes. Ali Fermín passou a infância e chegou à adolescência; a mãe desejava fazê-lo clérigo.

— Pastor e vaqueiro há de ser, como o avô e o pai — gritava o licenciado sempre que a mãe falava em mandar o menino aprender latim com o padre de Matalerejo.

O negócio de gado não foi melhor que o de vinho. Ocorreu a Francisco que sempre fora excelente atirador; entregou-se à caça, perseguindo corços e javalis, e até enfrentava o urso nas raras ocasiões em que aparecia. Certa tarde de inverno, Paula viu chegar à aldeia quatro homens que traziam aos ombros, numa padiola improvisada com ramos de carvalho, o corpo destroçado de seu marido. Ele caíra do alto de um penhasco abraçado à ursa, gravemente ferida, que os vaqueiros perseguiam havia uma semana. O artilheiro morreu com glória; mas a viúva ficou esmagada sob armadilhas, dívidas e, por sarcasmo da sorte, créditos sem fim que jamais seriam cobrados. Voltou a Matalerejo depois de perder, em penhoras, tudo quanto possuía. Levava consigo aqueles papéis inúteis e o filho destinado ao sacerdócio. Fermín já era um rapazote enorme; seus quinze anos pareciam vinte. Paula, contudo, fazia dele o que queria e manejava-o melhor do que manejara o pai.

Fez que estudasse latim com o padre, o mesmo que dera o dote perdido pelo defunto. Era preciso recuperar tempo, e Fermín o recuperou: estudava por quatro, trabalhava nos afazeres domésticos da casa paroquial, cuidava também da horta e assim ganhava alimento e instrução. Ia dormir na cabana da mãe, que erguera quatro tábuas à entrada de uma mina para instalar uma taberna. As despesas do novo negócio, que não foram grandes, correram ainda por conta do pároco, que se mostrou desinteressado mais por caridade do que por medo. Já não receava o que Paula pudesse dizer, e ela tampouco acreditava na eficácia da arma com que outrora o ameaçara, terrível, cruel e fria.

A taberna prosperava. Ao saírem para a claridade, os mineiros davam com ela e ali mesmo, sem avançar um passo, saciavam a sede, a fome e a paixão pelo jogo que dominava quase todos. Atrás de umas tábuas que deixavam passar as blasfêmias e o ruído do dinheiro, o filho do padre, como os operários o chamavam com cinismo diante da mãe, mas nunca na presença de Fermín, estudava durante as intermináveis noites de inverno. Ele já provara a muitos que o estudo não lhe enfraquecera os braços. O espetáculo da ignorância, do vício e do embrutecimento causava-lhe tamanha repugnância que chegava às náuseas; então se lançava com fervor na piedade sincera, devorava livros e desejava para si o mesmo que a mãe desejava: o seminário, a batina, toga do homem livre, que poderia arrancá-lo da escravidão a que estaria condenado junto daqueles miseráveis, caso seus esforços não o conduzissem a outra vida, melhor, digna do voo de sua ambição e dos instintos que despertavam em seu espírito.

Paula sofreu muito naquela época. O lucro era certo e muito superior ao que poderiam imaginar os que não a viam explorar os apetites brutais, cegos e nada exigentes daquela turba das minas; mas seu ofício tinha os perigos do domador de feras. Todos os dias, todas as noites, havia brigas na taberna; navalhas brilhavam, bancos voavam pelo ar. A energia de Paula exercitava-se em acalmar aquela vaga de paixões brutais e, com maior empenho, em obrigar quem quebrasse alguma coisa a pagá-la, e por bom preço. Também incluía na conta, a seu modo, o prejuízo causado pelo escândalo. Às vezes Fermín queria ajudá-la, intervir com os punhos nas cenas trágicas da taberna, mas a mãe o proibia:

— Você, aos estudos. Vai ser padre e não deve ver sangue. Se o virem no meio desses ladrões, pensarão que é um deles.

Fermín obedecia por respeito e por nojo. Quando o estrépito se tornava ensurdecedor, tapava os ouvidos e procurava mergulhar no trabalho até esquecer o que acontecia atrás daquelas tábuas, na taberna.

Paula escondia do filho algo mais do que as rixas entre fregueses. Embora já não fosse jovem, seu corpo forte, a pele lisa e branca, os braços robustos e os quadris exuberantes excitavam a luxúria daqueles miseráveis que viviam nas trevas. «A Morta é um bom petisco», dizia-se nas minas. Chamavam-na Morta por sua palidez branca; e, julgando fácil aquela conquista, muitos bêbados se lançavam sobre ela como sobre uma presa. Paula, porém, recebia-os a socos, pontapés e pauladas; quebrou mais de um copo na cabeça de alguma fera das galerias e ainda teve coragem de cobrar o copo quebrado.

Esses ataques de luxúria animal costumavam acontecer em altas horas da noite, quando o apaixonado selvagem se eternizava no banco, esperando que todos partissem. Fermín estudava ou dormia. Paula fechava a porta da rua, porque a autoridade assim exigia. Não expulsava o bêbado, embora conhecesse suas intenções, porque, enquanto permanecesse ali, consumia, e vender era a suprema aspiração de Paula. Então começava a luta. Ela se defendia em silêncio. Por mais que o homem gritasse, Fermín não acudia; julgava tratar-se de uma briga entre mineiros. Além disso, uns o temiam por ser forte, outros por ser filho dela, e procuravam vencer sem que ele soubesse. Nunca venciam. No máximo, um abraço furtivo, um beijo que era como um arranhão. Nada. Paula desprezava aquela baba. Sentia mais nojo ao varrer as imundícies deixadas ali por aqueles ursos das cavernas.

Tudo pelo filho; para ganhar o necessário e pagar-lhe os estudos. Queria-o teólogo, nada de padreco acomodado. Ela estava ali para varrer para a rua o lodo que todos os dias entrava pela porta da taberna. O lodo sujava a ela, não a ele. Ele ficava lá dentro, com Deus e os santos, bebendo nos livros a ciência que o faria senhor; e sua mãe permanecia do lado de fora, manejando imundícies e recolhendo, vintém a vintém, o futuro do filho, que era também o seu, pois tinha certeza de que um dia seria uma senhora.

Lá nas montanhas, assim que Fermín aprendera a ler e escrever, ela o obrigara a ensinar-lhe o que sabia. Paula lia e escrevia. Na taberna, entre tantas blasfêmias, entre os uivos de bêbados e jogadores, devorava os livros que pedia ao padre.

Mais de uma vez a Guarda Civil precisou visitá-la, e a cada pouco ela ia à sede da comarca depor em processos por lesões ou furto.

O padre, Fermín e até os guardas, que estimavam sua honradez, aconselharam-na muitas vezes a abandonar aquele comércio repugnante. Não a aborrecia passar a vida entre bêbados e jogadores que tão frequentemente se transformavam em assassinos?

«Não, não e não!» Que a deixassem em paz. Estava fazendo seu pé-de-meia sem que ninguém suspeitasse. Em qualquer outra indústria que empreendesse, com os poucos recursos de que dispunha, não ganharia a décima parte do que obtinha ali. Os mineiros saíam da escuridão com os bolsos cheios, a sede e a fome aguçadas; pagavam bem, esbanjavam e comiam e bebiam veneno barato vendido como vinho e iguarias boas e caras. Na taberna de Paula tudo era falsificado. Ela comprava o pior do pior, e os bêbados comiam e bebiam sem saber o que engoliam; os jogadores nem sequer olhavam, com a alma fixa nas cartas.

O consumo era grande, e considerável o lucro de cada artigo. Só por isso Paula ainda não ateara fogo à taberna com todos os ladrões dentro.

Não abandonou o negócio até que os estudos e a idade de Fermín o exigiram. Foi preciso deixar a região. Por recomendação do pároco de Matalerejo, Paula foi servir de governanta ao padre da Virgem do Caminho, a uma légua de Leão, num ermo. Fermín, também pela influência do padre de Matalerejo e do pároco da Virgem do Caminho, entrou em São Marcos de Leão, no colégio dos jesuítas, que poucos anos antes se haviam instalado às margens do Bernesga. O rapaz resistiu a todas as provas a que os padres o submeteram; logo demonstrou grande talento, sagacidade e vocação, e o padre reitor chegou a dizer que aquele jovem nascera jesuíta.

Paula se calava, mas estava decidida a tirar dali o filho no momento oportuno, quando pudesse assegurar-lhe um futuro fora daquela santa casa. Não o queria jesuíta. Queria-o cônego, bispo, quem sabe quantas coisas mais. Ele falava de missões no Oriente, de tribos, dos mártires do Japão, de imitar-lhes o exemplo. Lia para a mãe, com os olhos brilhantes de entusiasmo, os jornais que narravam os perigos do padre Sevillano, da Companhia, lá em terras de selvagens. Paula sorria e se calava. Era só o que faltava: depois de tantos sacrifícios, o filho tornar-se mártir! Nada, nada de loucuras, nem sequer a loucura da cruz.

No Santuário da Virgem do Caminho, manejava-se muita prata no dia em que se abria o tesouro da Virgem, na presença da autoridade civil; mas o padre era pobre.

Paula via duros e pesetas passarem por suas mãos, mas aquilo era água do mar para quem tem sede. Nada tirava de proveitoso em remexer trigo e prata da imagem milagrosa. Sua fama de governanta perfeita de sacerdote correu por toda a província. O pároco da Virgem tinha a imprudência de elogiar seu talento culinário, sua presteza, integridade, limpeza, devoção e demais qualidades diante de outros clérigos, à mesa, depois de comer bem e beber melhor. A fama de Paula se espalhou, e um cônego de Astorga arrebatou-a ao padre da Virgem. Foi uma traição, e Paula, uma ingrata. Entretanto, o cônego era santo; a traição não partira dele. Dom Fortunato Camoirán não era capaz de traições. Propuseram-lhe uma governanta e ele a aceitou, sem suspeitar que poucos meses depois seria seu escravo.

Nada convinha tanto a Paula quanto um patrão santo. Um ano depois de entrar para o serviço do cônego Camoirán, vangloriava-se de tê-lo salvado várias vezes da falência: sem ela, ele teria atirado a casa pela janela; tudo teria ido parar nas mãos dos pobres, dos malandros e dos vadios que o saqueavam com a gazua da caridade. Paula pôs ordem em tudo aquilo. Camoirán agradeceu e continuou dando esmolas às escondidas, mas poucas, apenas o que conseguia surrupiar da governanta. O cônego era incapaz de governar-se nas necessidades urgentes da vida; não entendia uma palavra dos interesses mundanos, e em pouco tempo compreendeu que Paula era seus olhos, suas mãos, seus ouvidos, até seu bom senso. Sem Paula, talvez o tivessem levado para um hospital, por louco e pobre.

Aquele domínio foi o mais tirânico que a governanta exerceu na vida. Aproveitou-o em favor da carreira de Fermín. O cônego compreendeu que devia considerar o estudante coisa sua: se Paula lhe consagrava a vida, ele devia consagrar cuidados, dinheiro e influência ao filho de Paula. Além disso, também se afeiçoava ao rapaz; Fermín era tão discreto e sagaz quanto a mãe, e mais amável, mais suave no trato. Mas era preciso tirá-lo de São Marcos. Paula o afirmava, o jovem o desejava e, sobretudo, sua saúde abalada de aprendiz de jesuíta o exigia. Tiraram-no de lá, e ele entrou no Seminário para concluir a teologia.

Tornou-se presbítero, obteve um bom benefício paroquial e foi chamado a pregar em São Isidro de Leão, em Astorga, em Villafranca e onde quer que o cônego Camoirán, já famoso por sua piedade, tivesse influência. Quando ofereceram a Fortunato o bispado de Vetusta, ele hesitou; melhor dizendo, dispôs-se a pedir de joelhos que o deixassem em paz. Paula, porém, ameaçou abandoná-lo.

«Aquilo era absurdo!» Sozinho, já não poderia viver.

— Não pela senhora, senhor; pelo rapaz é preciso aceitar.

Talvez ela tivesse razão. Camoirán aceitou pelo rapaz... e todos foram para Vetusta. Ali, entretanto, arranjaram outra governanta para o Bispo, e Paula continuou exercendo, de sua própria casa, as funções de suprema inspeção. Fermín foi subindo, subindo. O rapaz tinha valor, mas a mãe valia ainda mais. Fora ela quem o fizera homem, isto é, padre; fora ela quem o transformara no protegido de um bispo; fora ela quem o empurrara para chegar ao ponto a que chegara. Era ela quem ganhava o que ele ganhava, quem podia o que ele podia... e ele era um ingrato!

A essa conclusão chegava o Magistral naquela noite. Depois da longa conversa com a mãe, fechou-se no gabinete para repassar na memória tudo quanto sabia dos sacrifícios que aquela mulher forte empreendera e realizara por ele, para que ele subisse, dominasse e conquistasse riquezas e honrarias.

— Sim, era um ingrato! Um ingrato! — e o amor filial arrancava-lhe duas lágrimas ardentes, que enxugou surpreendido de encontrar umidade naquelas fontes secas havia tantos anos.

«Como podia estar chorando? Que coisa mais estranha! Seria o álcool a causa daquele pranto? Talvez. Seria... o que sucedera naquele dia? Talvez tudo misturado. Ah, mas também o amor que sentia pela mãe era coisa terna, grande, digna, capaz de elevá-lo aos próprios olhos.»

Abriu de par em par a varanda do gabinete. A lua já surgira e parecia rolar sobre o telhado da casa fronteira. A rua estava deserta; a noite, fresca; respirava-se bem. Os raios pálidos da lua e as suaves lufadas de ar pareceram-lhe carícias. «Que sensações tão novas, ou antes tão antigas, tão antigas e tão esquecidas, estava experimentando! Ah, para ele não era novidade, não, sentir o peito oprimido ao contemplar a lua, ao escutar os silêncios da noite; assim começara a adoecer, lá entre os jesuítas. Mas então seus anseios eram vagos, e agora não; agora ansiava por...» Tampouco ousava pedir clareza e precisão aos próprios desejos. «Mas já não eram tristezas místicas, nem inquietações de filósofo amarrado a um teólogo, o que o angustiava e produzia aquela doce dor, semelhante à lenta dilatação das fibras mais profundas...» O sorriso da Regenta surgiu-lhe unido à boca, às faces, aos olhos que lhe davam vida... e ele recordou, uma por uma, todas as vezes em que ela lhe sorrira. Nos livros, aquilo se chamava estar platonicamente apaixonado; mas ele não acreditava em palavras. Não; tinha certeza de que aquilo não era amor. O mundo inteiro, e sua mãe com o mundo inteiro, pensavam grosseiramente ao classificar de pecaminosa aquela amizade inocente. Ora, se ele sabia o que era bom e o que era mau! Sua mãe o amava muito; devia-lhe tudo, estava claro; mas... ela não sabia sentir com delicadeza, não compreendia afetos finos, sublimes... era preciso perdoá-la. Sim, mas ele necessitava de um amor mais brando que o de dona Paula... mais íntimo, de comunhão mais fácil por afinidade de idade, educação e gostos. Embora vivesse com a mãe querida, não possuía um lar, um lar seu; e essa devia ser a felicidade suprema das almas sérias, das almas que pretendiam merecer o nome de grandes. Faltava-lhe companhia no mundo; não havia dúvida.

De uma casa da mesma rua, por uma varanda aberta, saíam as notas doces, lânguidas e indolentes de um violino tocado por mãos experientes. Eram motivos do terceiro ato do Fausto. O Magistral não conhecia música; não podia associá-la às cenas correspondentes, mas compreendia que ali se falava de amor. Ouvir com deleite, como ouvia, aquela música insinuante já era moleza, já era prazer sensual e perigoso; mas... como aquele violino exprimia bem as coisas estranhas que ele estava sentindo!

De repente, lembrou-se dos seus trinta e cinco anos e da vida estéril que levara, fecunda apenas em sobressaltos e remorsos, cada vez menos pungentes, porém mais entorpecedores do espírito. Sentiu por si mesmo uma terníssima compaixão; e, enquanto o violino gemia, dizendo à sua maneira:

> Al pallido chiaror

> che vien degli astri d'or

> dammi ancor contemplar il tuo viso...

O Magistral chorava por dentro, contemplando a lua através de uma teia de fios de lágrimas que lhe inundavam os olhos. Olhava-a exatamente como Trifón Cármenes afirmava, no Lábaro, que ele próprio a contemplava todas as quintas-feiras e domingos, dias de folhetim literário.

«Estamos bem arranjados!», pensou dom Fermín ao surpreender em si ideia tão extravagante. E então tornou a ocorrer-lhe que, naquele sentimentalismo de última hora, devia ter grande participação a taça de conhaque, ou lá o que fosse.

Lá embaixo era dia de acerto de contas. Dona Paula cobrava-as com frequência do bom Froilán Zapico, proprietário de A Cruz Vermelha perante o público e o direito comercial. Froilán era um escravo branco de dona Paula; devia-lhe tudo, até não ter ido para a prisão. Ela o mantinha preso, como dizia, por todos os lados, e por isso o deixava figurar como dono do estabelecimento, sem receio de traição. Tratava-o por você e muitas vezes o chamava de animal e patife. Ele sorria, fumava o cachimbo, sempre colado à boca, e dizia com a calma de um filósofo cínico:

— Coisas da alma.

Vestia sobrecasaca e chegava a usar luvas pretas nas procissões. Precisava parecer um senhor, para dar verossimilhança à sua propriedade de A Cruz Vermelha, o comércio mais próspero de Vetusta, único no gênero desde que o infeliz dom Santos Barinaga vinha arruinando-se.

Dona Paula casara Froilán com uma das criadas que recrutava na aldeia, uma das que haviam precedido Teresa nas funções de camareira do senhorito. Como Teresa agora, a moça dormira a poucos passos do Magistral.

Aquele casamento fora uma recompensa para Juana, mulher de Froilán. Zapico ouviu a proposta da patroa com ar malicioso. Julgava compreender. Mas era muito filósofo: não se detinha em certos requisitos a que outros davam grande importância. Ao propor-lhe o matrimônio, a patroa pensara: «Isto é um pouco forte; mas ai dele se se rebelar!» Froilán não se rebelou. Juana era uma bela moça e sabia cuidar de um homem. Zapico casou-se e, no dia seguinte ao casamento, dona Paula, que o observava de soslaio, desconfiada, talvez algo arrependida de haver esticado demais a corda, notou que o noivo estava muito contente, muito amável com ela e derretido em doçuras com a mulher.

«Você engole cada sapo, Froilán! É um valente», pensava ela, admirando-o e desprezando-o ao mesmo tempo.

E ele sorria com mais malícia do que nunca.

«A senhora levou um belo logro; se soubesse...», pensava ele, fumando o cachimbo. Mas, naturalmente, jamais contou a dona Paula o segredo daquela noite, em que ocorreram surpresas muito diferentes das que a senhora supunha.

Era o único segredo entre patroa e escravo; a única peça que ela tentara pregar-lhe. E, como tampouco tivera mau resultado, antes fora muito proveitosa para Zapico, este continuava estimando dona Paula. Ela, ao vê-lo tão contente, sem nenhum ressentimento, ardia de vontade de perguntar; e ele, muito satisfeito com o engano da patroa, que redundara em seu benefício, ardia de vontade de dizer alguma coisa; mas ambos se calavam. Havia apenas certos olhares que trocavam e surpreendiam um no outro de vez em quando. Muitas vezes se encontravam a escavar, cada qual com os olhos, o rosto do outro, em busca do segredo. Mas nenhuma palavra. Dona Paula encolhia os ombros, e Froilán ria, passando a mão pela barba de porco-espinho que lhe crescia sob o queixo raspado.

Ali, o assunto sério era o dinheiro. As contas, sempre certas, limpas. Froilán era fiel por conveniência e por medo. Naquela casa, a contagem das moedas constituía um culto. Desde menino, dom Fermín habituara-se à seriedade religiosa com que se tratavam os negócios de dinheiro e ao respeito supersticioso com que se manejavam o ouro e a prata. Lá embaixo, nos fundos de A Cruz Vermelha, aos quais se passava da casa do Magistral não por subterrâneos, como supunha a maledicência, mas por uma porta larga aberta na parede divisória do térreo, dona Paula, erguida sobre uma plataforma diante de uma escrivaninha verde, examinava os livros do comércio e, em cestos de esparto e sacos engordurados, contava e recontava o ouro, a prata, o cobre e o bronze que Froilán lhe entregava, de pé num degrau da plataforma, abaixo da mesa em que a patroa revia os registros. Ela parecia uma sacerdotisa; ele, um acólito daquele culto platônico. O próprio dom Fermín, nas vezes em que assistia àquelas cerimônias, sentia um vago respeito supersticioso, sobretudo ao contemplar o rosto da mãe, então mais pálido, semelhante a uma estátua de marfim, a uma Minerva amarelada, a Palas Atena da crisologia.

Naquela noite, o Magistral não quis agradar à mãe descendo aos fundos da loja; sentia repugnância. Imaginava que lá embaixo havia um grande foco de podridão, águas sujas e estagnadas. Ouvia rumores vagos e distantes do choque das moedas antigas, da prata e do ouro, de timbre cristalino. Aqueles ruídos, abafados pela distância, subiam pelo vão da escada no profundo silêncio da casa inteira. O violino tornou a rasgar o silêncio de fora com notas trêmulas, que pareciam cintilar como estrelas. Já não se tratava dos anseios amorosos de Fausto diante do olhar casto e puro de Margarida; agora o instrumentista arrastava preguiçosamente pelas cordas do violino os lamentos da Traviata, pouco antes de morrer.

O Magistral viu surgir numa esquina da rua um vulto que se aproximava com passo vacilante, ora pela calçada, ora pelo leito da rua. Era dom Santos Barinaga, que voltava para casa, três portas acima da do Magistral, na calçada oposta. De Pas só o reconheceu quando o viu debaixo de sua varanda. Antes, porém, ao passar junto à casa onde soava o violino, Barinaga, que vinha falando sozinho, deteve-se e calou. Tirou o chapéu verde, em forma de cone truncado, ergueu a cabeça e escutou com ar de conhecedor. De vez em quando fazia sinais de aprovação. «Conhecia aquilo; era a Traviata ou o Miserere do Trovador; de todo modo, coisa boa.»

— Perfeita... mente — disse em voz alta. — Meus parabéns, Agustinito... isso... isso... o cultivo das artes... nada de comércio... nesta terra de ladrões. Hein?...

— É o filho do fabricante de velas — acrescentou, olhando para um lado, para o chão, como se o contasse a alguém que estivesse junto dele e fosse mais baixo.

O violino calou-se, e dom Santos deu meia-volta, como se procurasse as notas que se haviam extinguido. Então viu, diante de si, iluminada por um lampião, uma tabuleta de letras douradas onde se lia: «A Cruz Vermelha».

Barinaga cobriu-se, deu uma palmada na copa do chapéu verde e, estendendo um braço enquanto cambaleava no meio da rua, gritou:

— Ladrões!

— Sim, senhor — acrescentou em voz mais baixa. — Não retiro uma só palavra... ladrões; o senhor e sua mãe, senhor Provisor... ladrões!

Barinaga falava com a tabuleta da loja, mas o Magistral sentiu brasas nas faces e, antes que o vizinho percebesse sua presença, recuou da varanda e, sem o menor ruído, pouco a pouco, deixou as vidraças apenas entreabertas, com uma fresta por onde pudesse ver e ouvir sem ser visto. Para maior segurança, baixou a chama do candeeiro e levou-o para o quarto. Voltou à varanda para espiar as palavras e os movimentos daquele bêbado, a quem desprezava o ano inteiro e que naquela noite, sem que soubesse por quê, o assustava e irritava. Outras vezes, à mesma hora, ouvira-o na rua murmurar imprecações enquanto ele velava trabalhando; mas nunca quisera levantar-se para escutar as tolices daquele perdido. Sabia muito bem que Barinaga atribuía a ele e à mãe a ruína da loja de quinquilharias de que vivia; mas quem dava atenção a um miserável, vítima da aguardente?

Barinaga continuava:

— Sim, senhor Provisor, o senhor é um ladrão e um simoníaco, como o chama o senhor Foja... que é liberal... isso mesmo, um liberal de verdade...

E, como A Cruz Vermelha não respondesse, dom Santos dirigiu-se à própria sombra, que lhe subia pela barba à medida que ele se aproximava da porta fechada da loja, tomando-a pelo próprio senhor De Pas:

— Senhor obscurantista! Apaga-luzes!... O senhor arruinou minha família... fez de mim um herege... um maçom, sim, senhor, agora sou maçom... para me vingar... para... abaixo a corja clerical!

Disse isso bastante alto para que o ouvisse o guarda-noturno, que dobrava a esquina. O bêbado sentiu nos olhos a claridade viva e desavergonhada de um triângulo de luz que brotava da lanterna de Pepe, seu bom amigo.

O guarda, aquele Pepe, reconheceu dom Santos e aproximou-se sem apressar o passo.

— Boa noite, amigo; você é um homem honrado... e eu o estimo... mas este carola, este papa-hóstias, este rapa-velas, este maldito tirano da Igreja, este Provisor... é um ladrão, e sustento o que digo... Tome um cigarro.

Pepe aceitou o cigarro, escondeu a lanterna, encostou a lança à parede e disse com voz grave:

— Dom Santos, já é hora de se deitar; quer que eu abra a porta?

— Que porta?

— A da sua casa.

— Eu já não tenho casa... sou um mendigo... não está vendo? Não vê estas calças, esta sobrecasaca?... E minha filha... é uma peste... também me foi roubada pelos padres, mas não por este. Este me roubou a freguesia... arruinou-me... e dom Custodio me rouba o amor de minha filha. Não tenho família. Não tenho lar... nem panela no fogo... E dizem que eu bebo!... Que quer que eu faça, Pepe?... Se não fosse por você... por você e pela aguardente... o que seria deste velho?...

— Vamos, dom Santos, vamos para casa.

— Já disse que não tenho casa... deixe-me... hoje tenho o que fazer aqui... Vá embora, vá você... É segredo... eles pensam... que ninguém sabe... mas eu sei... eu os espio... eu os ouço... Vá... não me pergunte... vá embora...

— Mas não deve fazer algazarra, dom Santos; os vizinhos já se queixaram do senhor, e eu... que quer que eu faça?...

— Sim, você... claro, como sou pobre... Vá embora, deixe-me com esta raça de bandidos... ou quebro sua lança na sua cabeça.

O guarda-noturno cantou a hora e seguiu adiante.

Dom Santos às vezes o convidava a tomar uma dose... que havia de fazer Pepe? Além disso, Barinaga não costumava provocar escândalo excessivo.

Dom Santos ficou sozinho na rua, e o Magistral lá em cima, atrás das vidraças entreabertas, sem perder de vista aquele a quem já chamava, consigo mesmo, de sua vítima.

Barinaga retomou o monólogo, interrompido por perturbações do estômago e pelas dificuldades da língua.

— Miseráveis! — dizia com voz patética de baixo profundo. — Miseráveis!... Ministro de Deus!... Ministro coisa nenhuma!... O ministro sou eu, eu, Santos Barinaga, comerciante honrado... que não obrigo ninguém... que não tiro o pão de ninguém... que não forço os padres de toda a diocese... isso, isso mesmo... a comprar em minha loja cálices, patenas, galhetas, casulas, lâmpadas — ia contando pelos dedos, que encontrava com dificuldade — e outras coisas... como pedras de altar; sim, senhor! Que os surdos nos ouçam, senhor Magistral! O senhor mandou renovar as pedras de altar de todas as igrejas do bispado... e eu, quando soube... comprei um grande lote delas... porque pensei que o senhor fosse... uma pessoa decente... um cristão... Belo cristão Deus lhe dê! Jesus... que era um grande liberal, como o senhor Foja... isso, um republicano... não vendia pedras de altar... e expulsava os mercadores do templo!... Resultado: estou endividado, penhorado, depenado... e o senhor vendeu centenas de pedras de altar pelo preço que quis... Sabe-se tudo, tudo, senhor apaga-luzes... dom Simão, o Mago... Torquemada... Calomarde!... Estão vendo este santarrão? Pois vende até hóstias... e cera... arruinou também o fabricante de velas... E papel de parede... Ele mesmo mandou empapelar o Santuário de Palomares... que o diga a sociedade dos marinheiros daquele porto... se não é ladrão... já disse... ladrão, um Filipe II!... Ouça, seu patife! Esta noite não tenho o que jantar... não haverá fogo em minha cozinha... pedirei uma xícara de chá... e minha filha me dará um rosário... Vocês são uns miseráveis!... — Fez uma pausa. — Belo século das luzes! — disse, apontando para o lampião. — Eu rio dessas luzes... para que quero lampiões, se neles não penduram os ladrões?... Raios e trovões! E essa revolução?... Petróleo!... Venha o petróleo!...

O bêbado calou-se por um momento e, aos tropeções, chegou à porta de A Cruz Vermelha. Encostou o ouvido ao buraco de uma fechadura e, depois de escutar com atenção, soltou o que nas comédias se chama de riso sardônico.

— Ah, ah, ah! — parecia dizer, pela garganta e pelo nariz. — Já estão remexendo tudo!... Lá dentro, estou ouvindo vocês, miseráveis, não se escondam... estou ouvindo muito bem como repartem meu dinheiro, ladrões; esse ouro é meu; essa prata é do fabricante de velas... Devolva meu dinheiro, dona Paula... devolva meu dinheiro, cavalheiro De Pas; ou somos cavalheiros ou não somos... meu dinheiro é meu! Digo isso, não digo? Pois então, venha!

Calou-se novamente e tornou a encostar o ouvido à fechadura.

O Magistral abriu a varanda sem ruído e inclinou-se sobre o gradil para ver dom Santos.

«Será que ele ouve alguma coisa? Parece impossível...»

E, voltando a cabeça para o interior escuro e silencioso da casa, escutou também com profunda atenção. Sim, ele ouvia algo... era o choque das moedas; mas o ruído era confuso, só podia ser identificado por quem soubesse de antemão que estavam contando dinheiro. Da rua, porém, nada deveria ser ouvido; era impossível. Contudo, a ideia de que a alucinação do bêbado coincidisse com a realidade desagradava-lhe ainda mais, causava-lhe um medo supersticioso.

— Esses miseráveis têm aí toda a moeda da diocese!... E tudo isso é meu e do fabricante de velas... Ladrões!... Senhor Magistral, entendamo-nos; o senhor prega uma religião de paz... pois bem, esse dinheiro é meu...

Dom Santos aprumou-se; tornou a bater na copa do chapéu verde e, estendendo uma das mãos e dando um passo para trás, exclamou:

— Nada de violências... Abra-se à justiça! Em nome da lei, abaixo essa porta!

— Senhor dom Santos, para a cama! — disse o guarda-noturno, que já voltava. — Não posso permitir que o senhor continue provocando escândalo.

— Abra essa porta, derrube-a, senhor Pepe. O senhor representa a lei... pois bem... lá dentro estão contando meu dinheiro.

— Ora, ora, dom Santos, basta de disparates.

E agarrou-o por um braço, para levá-lo à força.

— Porque sou pobre... ingrato! — disse Barinaga, caindo em profundo abatimento.

Deixou-se arrastar. Da varanda, escondido na escuridão, o Magistral acompanhou-os com os olhos, sem respirar, esquecido do mundo inteiro, exceto daquele dom Santos Barinaga que lhe lançara lama ao rosto do charco de sua lamentável embriaguez.

Dom Fermín estava como que aterrorizado, com a alma presa aos cambaleios daquele bêbado e às palavras que ele mais arrotava do que dizia. «Uma taça de conhaque, uma refeição um pouco pesada, um pouco de Bordeaux, poderiam produzir semelhante irritação na consciência, no cérebro ou onde quer que fosse?» Não sabia, mas jamais a aparição de uma de suas vítimas lhe causara aqueles calafrios trágicos que agora lhe percorriam o corpo. Imaginava a loja vazia, as prateleiras desertas, mostrando o fundo cor de chocolate como nichos preparados para seus mortos. E via a lareira fria, sem uma única centelha entre as cinzas. Quem pudesse mandar àquele pobre velho a xícara de chá por que suspirava em seu delírio, ou um caldo quente... alguma coisa das que se dão aos enfermos e aos velhos em seus desfalecimentos!

Dom Santos e o guarda-noturno chegaram, depois de bom tempo, à porta da loja de Barinaga, que servia também de entrada para a casa. O Magistral ouviu os golpes da lança retumbarem na madeira. Ninguém abria. A impaciência consumia o Provisor. «Será que aquela beata adormeceu?», pensou.

Chegavam-lhe aos ouvidos, confusas e de ressonância metálica, as palavras do guarda e de Barinaga; parecia que falavam uma língua estranha.

Pepe repetiu os golpes e, ao fim de dois minutos, abriu-se uma varanda e uma voz áspera disse lá de cima:

— A chave vai aí!

A varanda fechou-se com estrépito. Dom Santos entrou na loja, exatamente como o Magistral a imaginara, e, deixando-se iluminar pelo guarda-noturno, atravessou o triste armazém, onde os passos ressoavam como sob uma abóbada, e subiu lentamente a escada, respirando com dificuldade. O guarda saiu depois de entregar a chave ao dono da casa. Fechou a porta com um golpe e seguiu rua acima.

Escuridão e silêncio. O Magistral abriu então de par em par a varanda e debruçou o corpo sobre o gradil, na direção da casa de Barinaga, procurando ouvir alguma coisa.

A princípio, o que ouvia parecia imaginação, como se o som viesse de dentro do cérebro; depois, porém, quando surgiu luz por trás dos vidros, o Magistral pôde ter certeza de que lá dentro discutiam e atiravam alguma coisa sobre o assoalho.

Celestina, filha de Barinaga, era uma beata viperina; confessava-se com dom Custodio e tratava o pai como a um leproso que causasse horror. O partido do Arcediago e do beneficiado tentara tirar grande proveito da situação do infeliz dom Santos para combater o Magistral; para isso conquistara Celestina. Celestina, porém, não conseguira conquistar o pai. O senhor Barinaga bebia, e, por esse lado, já não se podia culpar o Provisor por sua miséria. «É claro», diriam os partidários de dom Fermín, «ele gasta tudo em aguardente, vive bêbado e afugenta a freguesia; como pretende que o clero consuma os artigos de um perdido... que, além disso, é herege?» Essa era outra triste graça. Apesar das advertências e dos maus-tratos da filha, Barinaga não quisera passar para o partido contrário; fizera-se livre-pensador e renegava de todo o culto e de todo o clero.

— Nada, nada — repetia. — Todos são iguais; é o que diz dom Pompeyo Guimarán: o mal está na raiz; fogo na raiz! Abaixo a corja clerical!

E, quanto mais bêbado, mais rente à raiz queria cortar. Em vão a filha o submetia a tormentos domésticos para convertê-lo. Só conseguia fazê-lo chorar desesperado, como o infeliz rei Lear, ou levá-lo a tamanha cólera que ele lhe atirasse algum objeto à cabeça. Ela passava por mártir, mas o mártir era ele.

Como dom Santos suspeitara, Celestina não quis dar-lhe chá, nem tília, nem coisa alguma; não havia nada. Não havia fogo e, além do mais, àquela hora... Houve gritos, prantos e objetos lançados pelo ar. Graças ao silêncio da noite, o Magistral ouvia rumores vagos da discussão, que se prolongava como se ninguém no mundo tivesse sono. Seus olhos se fechavam, mas ele não sabia que força o mantinha pregado à varanda.

Naquele momento, detestava Celestina. Recordou que era a jovem que vira dias antes aos pés de dom Custodio, junto a um confessionário do deambulatório. Naquela tarde não a reconhecera. Tinha aparência de parasita de sacristia... de qualquer coisa repulsiva.

Os rumores continuavam. De vez em quando, ouvia-se o ruído de um golpe seco. Por trás da vidraça iluminada passava, de tempos em tempos, um corpo escuro.

Ao longe, o guarda-noturno cantou meia-noite.

Pouco depois cessou o rumor abafado e confuso das vozes.

O Magistral esperou. O ruído não voltou. «Já não discutiam.»

A claridade da vidraça desapareceu de súbito.

O Magistral continuou espiando o silêncio. Nada; nem vozes, nem luz.

O guarda-noturno tornou a cantar meia-noite... mais longe.

De Pas respirou fundo e disse entre dentes:

— A esta hora já deve estar dormindo a bebedeira.

Ouviu-se o ruído discreto de uma varanda que se fecha com medo de perturbar o silêncio da noite.

Pisando de leve, dom Fermín entrou no quarto.

Atrás da divisória, ouviu o crepitar das palhas de milho do enxergão em que Teresa dormia e, depois, um suspiro ruidoso.

O Magistral encolheu os ombros e sentou-se na cama.

«Meia-noite, dissera o guarda; já era amanhã! Isto é, já era hoje. Dentro de oito horas, a Regenta estaria a seus pés, confessando culpas que esquecera no outro dia.»

— Seus pecados! — disse o Provisor a meia voz, com os olhos fixos na chama do candeeiro. — Se eu tivesse de confessar-lhe os meus!... Que nojo ela sentiria!

E, dentro do cérebro, como marteladas, ouvia aqueles gritos de dom Santos:

«Ladrão... ladrão... rapa-velas!»

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