TOMO I — Capítulo XIII A Regente · Capítulo 14 de 31
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TOMO I — Capítulo XIII

TOMO I

Capítulo XIII

O sol entrava no salão amarelo e no gabinete da Marquesa pelas largas sacadas escancaradas; também ele fora convidado, assim como a brisa indiscreta que movia as franjas dos lambrequins de cetim, os cristais prismáticos dos lustres e as folhas dos livros e jornais espalhados pelo centro da sala e sobre os consoles. Se entravam torrentes de luz e ar fresco, saíam correntes de alegria, gargalhadas que iam perder suas ressonâncias pelas ruas solitárias da Encimada, ruído de saias, de anáguas engomadas, de mantos farfalhantes, de cadeiras levadas e trazidas, de leques que adejavam... O melhor de Vetusta enchia o salão e o gabinete. Dona Rufina, vestida de azul-elétrico, a cabeça empoada e adornada com flores naturais que pareciam, sem que se soubesse por quê, feitas de pano, reinava e não governava naquela sociedade tão a seu gosto, onde cônegos riam, aristocratas fátuos faziam roda como pavões, mocinhas namoriscavam, mulheres maduras exibiam carnes brancas e firmes, deputados provinciais salvavam a comarca e elegantes de meia légua imitavam os modos afetados de seus congêneres de Madri.

A Marquesa, estendida numa cadeira comprida, forrada de cetim, estava na galeria de seu gabinete, respirando com delícia o ar fresco da rua. Discutia-se aos gritos. Perto dela, triunfante, de pé, com um leque de madrepérola na mão direita, abanando-se voluptuosamente, Glocester ostentava sua bela figura algo torcida. Com a mão esquerda prendia, como se fosse com um cravo romano, as pregas da capa, que caía graciosamente em direção ao chão e se detinha, num brilhante amontoado de tecido negro, sobre a saia cor de cereja da sempre chamativa Obdulia Fandiño; esta, aos pés da Marquesa e aos pés do Arcediago, sentada num tamborete histórico (roubado ao salão arqueológico do Marquês), inclinava-se sobre o colo da nobre amiga com mais graça do que recato e honestidade. Essas três pessoas formavam um grupo na sacada da galeria, e, do gabinete, sentados aqui e ali, alguns de pé, ouviam Glocester outros três cônegos, o capelão da casa, dom Aniceto, três damas nobres, a governadora civil, Joaquinito Orgaz e mais dois rapazolas vetustenses, dos que estudavam na Corte.

Discutia-se aos gritos, entre gargalhadas, com pilhérias repetidas de geração em geração e de povoado em povoado, e com frases feitas inveteradas, se a mulher podia servir a Deus tão bem no mundo quanto no claustro; e se era necessária mais virtude para ousar resistir às tentações que, no mundo, assediam uma boa mãe e esposa fiel, do que para encerrar-se num convento.

Todas as senhoras, menos uma, alta, gorda e vestida com o hábito do Carmo (uma senhora que parecia um frade), sustentavam que a boa mulher casada no mundo tinha mais mérito do que a esposa de Jesus.

A governadora se exaltava; gesticulava com o leque fechado acima da cabeça e chamava o Arcediago de meu senhor.

Glocester defendia o claustro, mas batendo em retirada por galanteria, sorrindo e abanando-se.

No salão falava-se de política local. Grande conflito haviam criado para o Governo, na opinião de todos os da roda, o prefeito, presidente da Câmara Municipal, e a viúva do marquês de Corujedo, ao exigirem a mesma pequena concessão de tabaco, a importante concessão de tabaco do Espolón, para seus respectivos protegidos.

O chefe da Fazenda dissera que o governador que resolvesse; ele próprio o contava aos presentes. O governador consultara o Governo por telégrafo, acabava de dizê-lo a governadora, e o Governo tinha de decidir entre desairar a dama conservadora que dispunha do maior número de votos em Vetusta ou um dos mais firmes sustentáculos da causa da ordem, que era o senhor prefeito.

As opiniões se dividiam. O marquês de Vegallana e Ripamilán, que estavam no meio do grupo, voltando-se para todos os lados, opinavam que, se fossem o Governo, dariam o estanco à viúva. «Antes de tudo, as senhoras!»

Trabuco, isto é, Pepe Ronzal, da comissão provincial, pensava, com a maioria dos presentes, inclusive o chefe da repartição fazendária, que a razão de Estado aconselhava preferir a pretensão do prefeito, embora este, segundo as más-línguas, quisesse a concessão para uma antiga concubina.

-- Os senhores estão vendo, isso é um escândalo! -- dizia o Marquês, que tinha na aldeia todos os seus filhos ilegítimos. -- Esse homem não sabe guardar as aparências...

-- Eu deixo passar isso -- dizia o Arcipreste. -- O mal não está em ele querer pagar dívidas sagradas; o mal está em tê-las contraído... Mas a outra é uma dama!...

Enquanto no salão e no gabinete se discutia assim e de muitas outras maneiras, pelas dependências interiores do primeiro andar, pela sala de jantar, pelos corredores, pela escada que conduzia ao pátio e à horta, corriam alegres e buliçosos Paco Vegallana, que festejava o dia de seus anos, Visitación, Edelmira, sobrinha da Marquesa, uma menina de quinze anos que parecia ter vinte, dom Saturnino Bermúdez e o senhor Quintanar; a Regenta e dom Álvaro Mesía assistiam às brincadeiras inocentes dos outros de uma janela da sala de jantar que dava para o pátio.

Quintanar pedira a Paco um roupão para substituir a sobrecasaca de tricô que se lhe enroscava nas pernas. O roupão ficava-lhe largo e curto. Era de alpaca muito clara.

O Magistral encontrou na escada Visitación e Quintanar, que procuravam pelos cantos a cigarreira do ex-regente, escondida por Edelmira e Paco. Dom Saturnino Bermúdez, pálido, com olheiras e um sorriso cortês que lhe ia de orelha a orelha, vinha atrás, sozinho, também fazendo-se de louquinho da maneira mais desgraçada do mundo. Dava tristeza vê-lo divertir-se, saltar, imitar a alegria ruidosa dos outros. Mas, meu amigo, era sua obrigação: era parente, pertencia aos íntimos da casa, aos que ficavam para almoçar, e precisava fazer o que faziam os demais, correr, alvoroçar-se e até beliscar as senhoras, se a ocasião se apresentasse. Acabava sempre sozinho; se queria dizer alguma coisa à Regenta, a Visitación ou a Edelmira, as damas, distraídas, deixavam-no com a palavra na boca, sem poder evitá-lo. Não era falta de educação, mas os períodos de Bermúdez eram tão complicados, constavam de tantos incisos e dois-pontos, que ouvir um deles inteiro seria obra de paciência. Quando viu o Magistral, viu o céu aberto; já tinha um pretexto para voltar a ser sério. Cumprimentou-o com a finura «que lhe era característica» e dispôs-se a acompanhá-lo ao salão. Paco o saudara de longe, depressa e mal, porque naquele momento fugia com a cigarreira de Quintanar para escondê-la na horta, seguido por Edelmira, sua prima mais roliça, vivaz e corada.

-- Esse rapaz é louco quando começa a fazer travessuras -- disse Bermúdez, desculpando o parente e como que recebendo, na qualidade de familiar dos marqueses, o senhor Magistral.

Dom Fermín olhou de soslaio para a Regenta e dom Álvaro, que conversavam à janela da sala de jantar. Fingiu não vê-los e, com um pouco de fogo nas faces, deixou-se conduzir por dom Saturnino até o salão.

Os senhores graves receberam-no com as mais lisonjeiras demonstrações de respeito e estima.

-- Oh, senhor Magistral! Oh, que boa surpresa! Aqui está o Antonelli de Vetusta.

O Marquês deu-lhe um abraço que causou inveja a um padrezinho, apaniguado da casa.

Ripamilán apertou a mão de dom Fermín com efusivo carinho; e juntos passaram ao gabinete.

Os três cônegos levantaram-se; a senhora que parecia um frade sorriu satisfeita e murmurou:

-- Ah, senhor Provisor!...

-- Graças a Deus, senhor desaparecido... -- gritou a Marquesa, erguendo-se um pouco e estendendo uma das mãos, que, de longe e graças à sua elevada estatura, o Magistral pôde apertar com galhardia, formando um arco sobre o corpo elegante, cor de cereja, de Obdulia, que lá de baixo parecia querer engolir o belo rapaz nos abismos dos grandes olhos negros.

O Arcediago ficou com o leque aberto, imóvel, como a pá de um moinho sem vento. Compreendeu de repente que acabava de ser destronado; de protagonista passava a figurante. Com efeito, seu discurso, que padres e damas escutavam com deleite, morreu sufocado sem que ninguém sentisse falta dele. Glocester sentiu-se tão eclipsado que chegou a ter a impressão de estar com frio, como se de súbito o sol se houvesse escondido.

«Era sempre a mesma coisa; havia motivo para odiar aquele homem.» Entretanto, Mourelo, como cônego mundano que era, ocultou uma vez mais seus sentimentos e estendeu a mão ao inimigo, acompanhando o gesto com uma catarata de gritos guturais, pelos quais exprimia sua imensa alegria.

-- Olá, olá, olá!... -- e dava palmadinhas no ombro do outro.

O Magistral não pôde saborear tranquilamente aquele triunfo vulgar, ordinário, porque, sem querer, pensava no grupo da janela da sala de jantar. Enquanto respondia com modéstia e discrição a todos aqueles amigos, sua imaginação estava lá fora.

Passavam-se minutos e mais minutos, e os da sala de jantar não vinham.

«Anita comeria na casa da Marquesa? Nesse caso não iria reconciliar-se naquela tarde, como dizia a carta...»

A aparente cordialidade e a alegria expansiva de todos os presentes ocultavam um fundo de rancores e invejas. Aquelas senhoras, clérigos e cavalheiros leigos estavam divididos, naquele instante, em dois partidos inimigos: o dos invejados e o dos invejosos; o dos convidados para o almoço, que eram poucos, e o dos não convidados. Embora tanto se falasse de tantas coisas, a ideia que preocupava todos era a do convite. Ninguém aludia a ele e ninguém pensava em outra coisa. Começaram as despedidas, e os que partiam dissimulavam o despeito, certa vergonha; julgavam-se humilhados, quase ridículos. Havia rapaz que cumprimentava desajeitadamente e saía como se tivesse sido enxotado. As senhoras eram as que pior fingiam tranquilidade e indiferença. Algumas saíam ruborizadas. Glocester estava entre os não convidados. A dúvida que o atormentava era esta: «E ele? De Pas estava convidado?» Não sabia e não queria ir embora sem averiguá-lo. Como o tempo passava e gabinete e salão iam ficando pouco a pouco vazios, o Magistral achou que devia retirar-se. Aproximou-se da Marquesa, mas não teve coragem de se despedir e falou-lhe de qualquer coisa. Nesse momento entrou Visitación no gabinete, lançando fogo pelos olhos e pelas faces, e falou à parte, «com licença daqueles senhores», com a Marquesa e Obdulia: as três cercaram o Magistral e, com licença dos senhores, que já não eram mais do que o Arcediago e dois insignificantes rapazolas vetustenses, tiveram com ele um conciliábulo no qual houve risos, protestos do Magistral, meigas e elegantes nos gestos que as acompanhavam. Nos murmúrios das damas havia súplicas em forma de gemidos, galanteios sem sexo, outros dirigidos a ele, embora honestamente assinalados; Glocester, que fingia prestar atenção ao que lhe diziam os rapazolas insossos, devorava o grupo pelo canto do olho. «Não havia dúvida: estavam suplicando que ele ficasse para almoçar.» Terminou o conciliábulo; Obdulia e Visitación saíram correndo, fazendo algazarra, ostentando a intimidade com que tratavam os marqueses, e os jovens despediram-se. Ficaram no gabinete a Marquesa, o Magistral e Glocester. Houve um momento de silêncio. O Arcediago concedeu a si mesmo um minuto de prorrogação, para ver se o outro também se despedia. No salão ouviu-se a voz de alguns que diziam adeus ao Marquês... já não restavam na casa senão os convidados... Glocester, tirando forças da fraqueza, levantou-se, estendeu a mão a dona Rufina e saiu contando pilhérias, fazendo mesuras e prodigalizando risos falsos. Ia cego; cego de vergonha e de cólera. «Convidar o outro... um prebendado de ofício... e desairá-lo a ele... que era dignitário! Sempre o inimigo triunfante!... Mas um dia pagaria tudo de uma vez.»

No vestíbulo, enquanto lançava a capa sobre o ombro, embora fizesse calor, pensou esta frase: «Essa senhora Marquesa é uma... alcoviteira de conventos, uma Celestina!... Quer perder aquela jovem! Quer enfiá-lo pelos olhos dela!...» E saiu à rua pensando atrocidades e procurando uma fórmula decorosa para comunicar aos outros o que pensava.

Os convidados eram: Quintanar e sua senhora, Obdulia Fandiño, Visitación, dona Petronila Rianzares, a senhora que parecia um frade, Ripamilán, Álvaro Mesía, Saturnino Bermúdez, Joaquín Orgaz e, à última hora, o Magistral, com alguns outros vetustenses ilustres, por exemplo, o médico Somoza. Edelmira contava como pessoa da casa, pois estava ali hospedada.

Nos outros anos, o dia de Paco não era festejado daquela maneira; ele o celebrava fora de casa. Mas dessa vez improvisara-se aquela festa íntima e, por exceção, comia-se à espanhola, para visitar à tarde, nos coches da casa, a quinta do Vivero, onde o Marquês possuía um palácio cercado de grandes bosques e uma fábrica de curtumes montada à antiga. Tratava-se de ir ver os cães de caça e um cão de São Bernardo que Paco comprara alguns dias antes. Eram seu orgulho. Depois das mulheres venais, o Marquesinho adorava os animais mansos, sobretudo cães e cavalos.

O convite ao Magistral fora um complô entre Quintanar, Paco e Visitación. A ideia viera da mulher do Banco. Era uma peça que queria pregar em Mesía; queria ver o confessor e o diabo, o tentador, um diante do outro. Disseram a Quintanar que De Pas seria convidado para ver Obdulia flertar com o clérigo e o pobre Bermúdez, apaixonado pela viúva, enraivecer-se em silêncio. Quintanar achou boa a ideia, mas disse «que lavava as mãos quanto ao que houvesse de irreverente no propósito; embora já se soubesse que ele considerava os padres tão homens quanto os demais».

-- Por outro lado -- acrescentou o ex-regente --, alegra-me que dom Fermín coma conosco, porque assim minha mulher tirará da cabeça a ideia pecaminosa de ir reconciliar-se esta tarde... Quero que se acostume a ver de perto o novo confessor, para convencer-se de que ele é um homem como os outros... Isso mesmo... e, salvo o devido respeito... vejam se conseguem embriagá-lo...

Paco não queria prejudicar Mesía em seus planos, aos quais talvez obedecesse em parte a festa daquele dia; mas achou muito divertido e picante incomodar o senhor Magistral se, como Visitación suspeitava, desagradava àquele ilustre cônego ver a Regenta entregue ao braço secular de Mesía.

Visitación dissera logo de início a Paco que sabia de tudo, que Álvaro tampouco tinha segredos para ela.

-- Mas e Ana? Disse-lhe alguma coisa?

-- Ana? Nunca na vida; ela é muito capaz disso. Mas deixe...

-- Naturalmente não se trata senão de uma coisa... espiritual...

-- Sem dúvida... espiritualíssima...

-- Porque, do contrário, nós... não nos prestaríamos... você compreende... o pobre dom Víctor...

-- Está claro!... Brincadeiras, rapaz, nada mais que brincadeiras; mas você verá como ao Provisor elas hão de saber a chifre queimado. Assim falava Visitación com os amigos íntimos.

-- Obdulia há de consolá-lo; ela o assedia e o prefere a dom Saturno, ao mitrado e ao meu amigo Joaquín.

-- Mas ele a detesta... ela é muito escandalosa... ele não gosta desse tipo...

-- Você é que o odeia...

-- Os hipócritas me dão nos nervos, rapaz... E escute: convém a você que o Magistral fique.

-- Por quê?

-- Porque Obdulia o deixará em paz e você poderá cultivar a priminha... Oh, isso eu não lhe perdoo! Protejo a inocência... ficarei de olho...

-- Não seja tola... basta ela estar em minha casa para que eu a respeite...

-- Ah, ah! Essa é boa... vejam o senhor do respeito... não confio...

Edelmira interrompera o diálogo e, sem mais, ficou combinado que pediriam à Marquesa que convidasse, com reiteradas súplicas se necessário, o senhor Magistral.

Visitación arranjou tudo em um minuto.

Como sempre. Onde ela estava, ninguém fazia nada além dela. Passava a vida ocupada em sua grande paixão de tratar dos assuntos alheios, chupar guloseimas dos outros e comer fora de casa. Lá ficava o modesto marido, o humilde empregado do Banco, de corpo pequeno, rosto de anjo envelhecido, alisando o bigodinho grisalho e cuidando da prole. Visitación exigia que fosse assim. Não havia de fazer tudo sozinha. Quem dirigia a casa? Quem a salvava nos apertos? Quem conjurava as demissões? Quem contornava as dificuldades do orçamento? Quem era ali a grande inventora de expedientes financeiros? Visitación. Pois que a deixassem divertir-se, sair, não parar em casa o dia inteiro. Além disso, era mulher de tal despacho que sua lida ficava pronta para o dia todo, a casa limpa, a comida preparada, antes que em outros lugares se desse uma vassourada e se acendesse o fogo. Tudo ficava um tanto sujo, mas, já com a consciência tranquila, saía à caça de notícias, mexericos, torrões de açúcar e recomendações a senhora do Banco, que estava em toda parte e sempre em serviço ativo.

Sua nova campanha, talvez a mais importante de sua vida, chamava-a de enfiar aquele pelos olhos dela: o pronome subentendido era Anita. Queria enfiar dom Álvaro pelos olhos de Ana e, depois da conversa da tarde anterior com Mesía, não pensava em outra coisa. Pela manhã fora à casa de Quintanar, que passeava pelo gabinete em mangas de camisa, com os suspensórios bordados pendentes: representavam, em cores vivas de seda fina, todos os episódios da caça a um cervo fabuloso, de galhada inverossímil. Dom Víctor ocupava-se em abotoar um botão do colarinho; mordia o lábio inferior e esticava a cabeça para o alto, como se pedisse auxílio ao sobrenatural e ao divino. Visitación entrou por engano no gabinete...

-- Ah! Desculpe-me -- disse. -- Estou atrapalhando?

-- Não, minha filha, não; chega em boa hora. Este maldito botão...

E enquanto a dama, sem tirar as luvas, lhe abotoava o colarinho, dom Víctor começou a expor-lhe seus propósitos irrevogáveis de distrair a mulher...

-- Meu programa é este.

E explicou-o tintim por tintim.

Visitación aprovou-o em todas as partes, e juntos foram ao toucador de Ana, que naquele instante, depressa e como às escondidas, fechava a carta que pouco depois dom Fermín lia diante de sua mãe.

Quase à força Visitación e Quintanar haviam feito Ana vestir-se «como Deus manda» e sair com eles. Visita separara-se deles na praça da Catedral para tratar do assunto da Livre Irmandade. Voltariam a encontrar-se na casa dos Vegallana. A Marquesa escrevera muito cedo aos Quintanar, convidando-os para almoçar e anunciando o programa do dia. Ana discutiu com o marido; queria ir reconciliar-se, dissera isso numa carta ao Provisor, não era coisa de levá-lo e trazê-lo ao sabor dos outros. «Nada, nada! Dom Víctor estava decidido a ser inflexível...»

-- Você se reconciliará, se tiver forças para isso, depois de almoçar na casa do Marquês; e depressa, para irmos logo em seguida ao Vivero... Não transijo!

E foram dar os parabéns a vários Franciscos e Franciscas. À uma e quinze estavam na casa do Marquês.

A primeira pessoa que Ana viu foi dom Álvaro.

Teve medo de ficar vermelha, de que a voz lhe tremesse ao responder ao cumprimento cortês de Mesía. Olhou para o marido, um pouco assustada, mas Quintanar apertava a mão de dom Álvaro com carinhosa efusão. Tinha-lhe muita simpatia e, embora se tratassem pouco, cada vez que conversavam estreitavam os laços de uma amizade nascente que ameaçava tornar-se íntima e duradoura. Dom Álvaro possuía, aos olhos de Quintanar, o raro mérito de não ser teimoso: em Vetusta todos o eram, segundo o bom aragonês; mas aquele modelo de cavalheiro elegante não insistia em sustentar uma opinião descabelada, acabava sempre dando razão a Quintanar, que dizia pelas costas do belo rapaz: «Se este fosse para Madri faria carreira... com essa figura, esses ares e esse talento social!... Oh, há de vir a ser alguém!»

Ana tomou a súbita resolução de dominar-se, de tratar dom Álvaro como tratava os demais, sem reservas suspeitas, pensando que, a rigor, nada havia, nem podia, nem devia haver entre os dois.

Quando, poucos minutos depois, ele habilmente a sitiava junto a uma janela da sala de jantar, enquanto Víctor ia com Paco aos aposentos deste para vestir o roupão largo e curto, a Regenta precisou recordar, para conservar-se fria e serena, que nada de sério acontecera entre ela e aquele homem; que os olhares capazes de lhe dar coragem não eram compromissos que um homem do mundo pudesse lançar-lhe em rosto. Ana falava dos homens do mundo pelo que lera nos romances; jamais os tratara naquele campo de prova.

Dom Álvaro teve o cuidado de não aludir ao encontro da noite anterior; nada disse da rápida cena do parque; mas falou com mais confiança, num tom familiar que nunca empregara com ela. Haviam conversado poucas vezes e sempre no meio de muita gente. Ana tratava toda Vetusta, mas suas relações com os homens tinham sido sempre pouco íntimas. Só Paco e Frígilis eram amigos de confiança. Não era expansiva; sua amabilidade invariável não animava, continha. Visita assegurava que aquele coraçãozinho não tinha porta. Ela, pelo menos, não encontrara a chave.

Dom Álvaro falou muito e bem, com naturalidade e simplicidade, procurando agradar à Regenta mais pela bondade de seus sentimentos do que pelo brilho e originalidade das ideias. Via-se claramente que buscava simpatia, cordialidade, e que se oferecia como homem de coração sadio, sem dobras nem recônditos. Ria com franca jovialidade, abrindo bastante a boca e mostrando uma dentadura perfeita. Ana achou de muito bom gosto o rumo que Mesía dava à estranha situação dos dois. Quando dom Álvaro se calava, ela voltava aos temores; parecia-lhe que também ele tornava a pensar no que havia entre ambos, na aparição diabólica da noite anterior, no passeio pelas ruas e em tantos encontros implícitos, procurados, investigados, solicitados sem se saber como por ele; covarde e criminosamente consentidos por ela.

Dom Víctor era pouco mais alto que Ana; dom Álvaro precisava inclinar-se para que seu hálito, ao falar, roçasse suavemente a cabeça pequena e graciosa da dama. Parecia uma sombra protetora, um abrigo, um apoio; sentia-se bem junto àquele homem, como junto a uma fortaleza. Ana, enquanto ouvia, a testa inclinada e os olhos nas pedras do pátio, só podia entrever de soslaio o sobretudo claro, impecável, do belo rapaz. Quando dom Álvaro se movia com alguma vivacidade, deixava no ar um perfume que Ana, da primeira vez que o sentiu, julgou delicioso, depois temível; um perfume capaz de atordoar depressa. Ela não o conhecia, mas devia conter algo de bom tabaco e outras coisas puramente masculinas, exclusivas do homem elegante. Às vezes a mão do interlocutor apoiava-se no peitoril da janela; Ana via, sem poder evitá-lo, dedos longos e finos, pele branca, veias azuis e unhas polidas, ovais e bem aparadas. E, se baixava ainda mais os olhos, para que o outro não julgasse que ela contemplava suas mãos, via a calça cair em curva graciosa sobre um pé estreito, comprido, calçado com um esmero superior a tudo em Vetusta. Não podia haver pecado nem coisa parecida em reconhecer que tudo aquilo era agradável, ficava bem e devia ser assim.

Ana ouvia vagamente os ruídos da cozinha, onde Pedro dispunha com voz de comando os preparativos do almoço; o murmúrio dos repuxos do pátio e as gargalhadas e gritos do marido, de Visita, de Edelmira e de Paco, que iam e vinham pelas escadas, pelos corredores, pela horta, por toda a casa.

Não vira o Provisor entrar. Visita aproximou-se da janela para dizer-lhe ao ouvido:

-- Minha filhinha, se quiser, pode confessar-se agora, porque aí está o padre espiritual... ele já vai almoçar com você.

Ana estremeceu e afastou-se de Mesía sem olhá-lo.

-- Olá, olá -- disse dom Víctor, que entrava dando o braço à robusta e corada Edelmira. -- Minha mulherzinha, então está de conversa com esse cavalheiro?... Pois aqui me tem com meu parzinho, isto é, em justa vingança.

Só Edelmira riu da graça, que para ela era novidade. Todos passaram ao salão, onde estavam os demais convidados. Obdulia conversava com o Magistral e Joaquinito Orgaz; o Marquês discutia com Bermúdez, que inclinava a cabeça para a direita, abria a boca até as orelhas num sorriso e, com a maior cortesia do mundo, punha em dúvida as afirmações do magnata.

-- Sim, senhor, eu derrubaria São Pedro sem nenhum inconveniente e construiria o mercado...

-- Oh, por Deus, senhor Marquês!... Não creio que o senhor... se atrevesse... suas ideias...

-- Minhas ideias são outra coisa. O mercado de hortaliças não pode continuar ao ar livre, exposto ao tempo.

-- Mas São Pedro é um monumento e uma relíquia gloriosa.

-- É uma ruína.

-- Nem tanto...

O Magistral interveio, fugindo de Obdulia, que já o assediava, como Paco e Visita haviam previsto.

Quando a Regenta entrou no salão, De Pas interrompeu uma frase pausada e elegante, porque não pôde evitá-lo, e inclinou-se, cumprimentando-a sem grande familiaridade.

Atrás de Ana apareceu Mesía, com a face esquerda um pouco corada, alisando o bigode louro e sedoso. Vinha olhando para a frente, como quem vê o que pensa e não o que tem diante de si. O Magistral estendeu-lhe a mão, que Mesía apertou enquanto dizia:

-- Senhor Magistral, é um grande prazer...

Tratavam-se pouco e com muitas cortesias. Ana viu-os juntos, ambos altos, Mesía um pouco mais, ambos esbeltos e elegantes, cada qual em seu gênero; o Magistral mais robusto, dom Álvaro de formas mais nobres, o clérigo mais inteligente nos gestos e no olhar, o elegante mais correto nas feições.

Dom Álvaro já olhava o Provisor com prevenção, já o temia; o Provisor não suspeitava que dom Álvaro pudesse ser o inimigo tentador da Regenta. Se não gostava dele, era por considerar perigosa para a sua própria influência a que o outro exercia em Vetusta, e porque sabia que, sem ser adversário declarado e fanfarrão da Igreja, não a estimava. Quando o viu com Anita à janela, conversando tão alheios aos demais, dom Fermín sentiu um mal-estar que foi crescendo enquanto teve de esperar que aparecessem.

Ana sorriu-lhe com doçura franca e nobre, e com uma humildade pudica que, pelo leve rubor que a revelava, aludia aos segredos confessados na tarde anterior. Recordou tudo o que haviam dito um ao outro e que falara, como nunca falara com ninguém no mundo, com aquele homem que lhe acariciara o ouvido e a alma com palavras de esperança e consolo, com promessas de luz e poesia, de uma vida importante, empregada em algo bom, grande e digno do que ela sentia dentro de si, como se fosse o fundo da alma. Às vezes lera nos livros algo semelhante, mas que vetustense sabia falar daquele modo? E era muito diferente ler ideias tão boas e belas e ouvi-las de um homem de carne e osso, que tinha na voz um calor suave, música nas consoantes sibilantes e mel nas palavras e nos movimentos. Ana lembrou-se também da carta que lhe escrevera poucas horas antes, e esse era outro laço agradável, misterioso, que fazia cócegas a seu modo. A carta era inocente, o mundo inteiro podia lê-la; contudo, era uma carta de que podia falar com um homem que não era seu marido, e que esse homem talvez guardasse perto do corpo e em que talvez pensasse.

Ana não procurava explicar a si mesma como aquela emoção levemente voluptuosa se conciliava com o conceito claro que tinha da espécie de amizade que nascia entre ela e o Magistral. O que sabia com certeza era que em dom Fermín estava a salvação, a promessa de uma vida virtuosa sem tédio, cheia de ocupações nobres, poéticas, que exigiam esforços e sacrifícios, mas que por isso mesmo davam dignidade e grandeza à existência morta, animal e insuportável que Vetusta lhe oferecera até aquele dia. Justamente por estar segura de salvar-se da tentação abertamente criminosa de dom Álvaro, entregando-se a dom Fermín, queria desafiar o perigo e deixava que aqueles olhos cinzentos, sem cor definida, transparentes, quase sempre frios, lhe fitassem as pupilas; olhos que de repente se acendiam como a lanterna de um farol, dizendo com suas labaredas insolências das quais ela não tinha direito de queixar-se. Se Ana, assustada, tornava a buscar amparo nos olhos do Magistral, fugindo dos outros, encontrava apenas a cortina de carne branca que os cobria, aquelas pálpebras insignificantes, que nem sequer exprimiam discrição ao descerem com a casta oportunidade regulamentar.

Mas, ao conversar, dom Fermín não tinha inconveniente em olhar para as mulheres; olhava também para a Regenta, porque então seus olhos não eram mais do que um modo de pontuar as palavras; ali não havia sentimento, havia somente inteligência e ortografia. Era em silêncio e frente a frente que ele não olhava para as senhoras quando havia testemunhas.

Dom Álvaro viu que, enquanto a conversa geral ocupava todos os convidados, a maioria de pé no salão, esperando a voz que os chamasse à mesa, Ana se aproximara dissimuladamente do Magistral e, junto a uma sacada, falava-lhe um pouco perturbada e muito baixo, enquanto sorria ruborizada.

Mesía recordou o que Visitación lhe dissera na tarde anterior: cuidado com o Magistral, que sabe muita teologia parda. Sem que ninguém o instigasse, já era muito capaz de pensar grosseiramente a respeito de clérigos e mulheres. Não acreditava na virtude; aquela espécie de materialismo que era sua religião levava-o a pensar que ninguém podia resistir aos impulsos naturais, que os clérigos eram necessariamente hipócritas e que a luxúria mal contida lhes escapava aos borbotões por onde e quando podia. Dom Álvaro, que sabia apresentar-se como personagem de romance sentimental e idealista quando as circunstâncias o exigiam, era, no que chamava El Lábaro de santuário da consciência, um cínico sistemático. Em geral invejava e temia os padres com quem suas amantes se confessavam. Quando exercia muita influência sobre uma mulher, proibia-a de confessar-se. «Sabia muitas coisas.» Nos momentos de paixão desenfreada a que, sempre que podia, arrastava a fêmea, para fazê-la degradar-se e gozar ele de verdade com alguma novidade, obrigava a vítima a desnudar a alma em sua presença; as aberrações dos sentidos passavam à língua, e entre carícias absurdas e beijos desatinados brotavam confissões vergonhosas, segredos de mulher que Mesía saboreava e anotava na memória. Como um mau clérigo que abusa do confessionário, dom Álvaro conhecia fraquezas cômicas ou repugnantes de muitos maridos e de muitos amantes, seus predecessores; e nessas crônicas escandalosas entravam, como parte muito importante do cabedal de obscenidades, as pretensões lúbricas dos solicitantes, seus desvios, às vezes dignos de pena, quase sempre repugnantes e odiosos. Orgulhoso daquela ciência, Mesía generalizava, julgava pisar terreno firme e apoiar-se em «fatos repetidos ao infinito» ao assegurar que a mulher procura no clérigo o prazer secreto e a voluptuosidade espiritual da tentação, ao passo que o clérigo abusa, sem exceções, das vantagens que lhe oferece uma instituição «cujo caráter sagrado dom Álvaro não discutia...» diante dos outros, mas negava em suas solidões de materialista de almanaque francês, materialista à moda de commis-voyageur.

Não pensava, Deus o livrasse, que o Magistral buscasse na nova filha de penitência a satisfação de apetites grosseiros e vulgares; nem ele se atreveria a tanto, nem com uma dama como aquela era possível tentar semelhantes ultrajes... mas «pelo fino, pelo fino», repetia consigo, era muito provável que pretendesse seduzir aquela bela mulher, desocupada, na flor da idade e sem amar. «Sim, esse padre quer fazer o mesmo que eu, só que por outro sistema e com os recursos que lhe facilitam o estado e o ofício de confessor... Oh! Eu devia ter chegado antes para impedi-lo, mas agora não posso, ainda não tenho autoridade para tanto.» Essas e outras reflexões análogas deixaram Mesía mal-humorado e irritado contra o Magistral, cuja influência em Vetusta, sobretudo sobre o sexo frágil e devoto, o incomodava havia muito tempo.

-- Então esta tarde já não pode ser? -- dizia Ana com voz humilde, suave e trêmula.

-- Não, senhora -- respondeu o Magistral, com o timbre de um zéfiro entre flores. -- O principal é cumprir a vontade de dom Víctor e até antecipar-se a ela quando possível. Esta tarde, alegria e nada além de alegria. Amanhã bem cedo...

-- Mas o senhor vai incomodar-se... não tem o costume de ir à Catedral a essa hora...

-- Não importa, irei amanhã; é um dever... e para mim é uma satisfação poder servi-la, minha amiga...

Não era nessas palavras, de galanteria vulgar, que estava a doçura inefável encontrada por Ana no que ouvia: estava na voz, nos movimentos, num aroma de incenso espiritual que parecia penetrar até a alma.

Combinaram que, na manhã seguinte, muito cedo, dom Fermín esperaria a Regenta em sua capela para reconciliá-la.

-- E, enquanto isso, nada de pensar em coisas sérias; divertir-se, fazer algazarra, como manda o senhor Quintanar, que, além de ter o direito de mandar, pede algo muito sensato. É muito possível que suas... tristezas, essas inquietações... -- o Magistral ficou levemente corado e a voz lhe tremeu um pouco, porque aludia às confidências da tarde anterior --, essas angústias de que a senhora se queixa e se acusa tenham muito de nervoso e possam também curar-se, na parte que corresponde ao mal físico, com essa nova vida que lhe aconselham e exigem. Sim, senhora, por que não? Oh, minha filha, quando nos conhecermos melhor, quando a senhora souber como penso em matéria de prazeres mundanos... -- eram suas frases --, os prazeres do mundo podem ser, para uma alma firme e bem nutrida, passatempo inocente, até insosso e insignificante; distração útil, aproveitada como um remédio sem sabor, mas eficaz...

Ana compreendia perfeitamente. «O Magistral queria dizer que, quando ela gozasse as delícias da virtude, as diversões com que podia recrear o corpo lhe pareceriam jogos pueris, vulgares, sem graça, bons apenas porque a distraíam e davam repouso ao espírito. Entendido. Afinal, já era assim agora; tão pouco a divertiam os bailes, os teatros, os passeios e os banquetes de Vetusta!»

Quintanar aproximou-se e, ouvindo dom Fermín repetir que o exercício era higiênico e muito saudável a vida alegre e distraída, aplaudiu o Magistral com entusiasmo; sua satisfação aumentou ainda mais quando soube que Ana já não se reconciliaria naquela tarde.

-- Absurdo! -- disse dom Fermín. -- Esta tarde, ao campo... ao Vivero...

-- À mesa, à mesa! -- gritou a Marquesa da porta do salão, onde acabava de receber a notícia.

-- Santa palavra! -- exclamou o Marquês.

Cada qual disse alguma coisa em honra do anúncio, e todos, falando, gesticulando, contentes, «sem cerimônia», dispensável na casa de dona Rufina, passaram à sala de jantar. Os marqueses de Vegallana sabiam tratar os convidados segundo todas as regras da etiqueta enjoativa da aristocracia provinciana; mas, nessas festas de amigos íntimos, das quais de propósito se excluíam os parentes de alta linhagem que não gostavam de certas familiaridades, portavam-se como qualquer plebeu rico, embora sem perder, nem mesmo nas maiores expansões, certos ares de distinção e senhorio vetustense que lhes eram inatos. O Marquês possuía a arte de dar-se importância à boa maneira do povo, como dizia na prosa mais humilde jamais falada por um aristocrata.

«O almoço era íntimo, como todos sabiam.» Isso queria dizer que o Marquês e a Marquesa não renunciariam a suas manias e caprichos gastronômicos em consideração aos convidados; mas estes seriam tratados como reis. A intimidade naquela mesa não significava escassez nem desleixo; dispensavam-se a libré, a baixela de prata herdada de um Vegallana, alto dignitário no México, e as cerimônias incômodas, mas não os vinhos finos, os aperitivos e entradas pelos quais aquela mesa era famosa, nem, enfim, o melhor que a fauna e a flora da província produziam na água, na terra e no ar. Outros aristocratas disputavam com Vegallana a supremacia em matéria de nobreza ou riqueza, mas nenhum ousava negar que a cozinha e a adega do Marquês eram as primeiras de Vetusta.

Habitualmente a Marquesa fazia-se servir por moças de cerca de vinte anos, bonitas, viçosas, alegres, bem vestidas e limpas como ouro.

-- Talvez seja de mau gosto -- dizia --, coisa de gente pobre, mas todos os meus convidados ficam satisfeitos com semelhante serviço.

-- Porque tenho observado -- acrescentava -- que, em regra geral, as senhoras não gostam de criados; nem reparam neles, e os homens sempre gostam de boas moças, nem que seja dentro da sopa.

Paquito recebera com entusiasmo a inovação da mãe, dizendo: «Isso mesmo! Esse serviço de donzelas parece alegrar a casa; lembra-me as casas de orchata e alguns cafés da Exposição...» Para o Marquês a mudança era indiferente. De todo modo, ele não pecava em casa nem sequer dentro do perímetro urbano.

A sala de jantar era quadrada e dava para a horta e para o pátio por quatro grandes janelas que se abriam até perto do teto, não muito alto. Em cada janela a Marquesa acumulara flores em vasos, jardineiras e jarrões japoneses, mais ou menos autênticos; as cores vivas e metálicas daquela exposição de flores contrastavam com os tons severos da nogueira fosca que escurecia o forro de caixotões do teto e aparecia nas molduras e painéis dos grandes armários envidraçados e corridos, que rodeavam a sala em todo o espaço deixado livre pelas aberturas e por um grande sofá encostado a uma das paredes. Também adornavam as paredes, onde cabiam, quadros de pouco gosto, mas todos alusivos às múltiplas atividades relacionadas ao bem comer. Ali estava uma caçada do tempo que Vegallana imaginava ser o feudalismo: a castelã no palafrém, o pajem a seus pés com o açor no punho erguido acima da cabeça; a garça lá nas nuvens, cor de gema de ovo; mais atrás, o senhor daqueles bosques, do castelo roqueiro e da pequena aldeia que se perdia ao longe... Em frente, uma cena de romance de Feuillet; também uma caçada, mas sem garça, açor nem senhor feudal: um recanto do bosque, uma dama montando à inglesa e um cavaleiro que a perseguia, disposto, ao que tudo indicava, a beijar-lhe uma das mãos assim que conseguisse alcançá-la... Em outra parte, uma mesa revolvida; mais adiante, uma natureza-morta de realismo insuportável depois do almoço. E, por fim, no teto, exatamente acima do centro da mesa, dentro de um medalhão, o retrato de dom Jaime Balmes, sem que se soubesse por quê nem para quê. Que fazia ali o filósofo catalão? O Marquês nunca quis explicar a ninguém. Bermúdez julgava aquilo um absurdo; Ronzal dizia ser «um anacronismo»; mas, apesar dessas e de outras murmurações, o chefe do partido conservador de Vetusta conservava Balmes no medalhão e não dava explicações.

A Marquesa considerava essa uma das tolices menos maçantes do marido.

Os convidados sentaram-se: não havia lugares determinados além dos que ficavam respectivamente à direita e à esquerda dos donos da casa. À direita de dona Rufina sentou-se Ripamilán e, à esquerda, o Magistral; à direita do Marquês, dona Petronila Rianzares e, à esquerda, dom Víctor Quintanar. Os demais, onde quiseram ou puderam. Paco ficou entre Edelmira e Visitación; a Regenta, entre Ripamilán e dom Álvaro; Obdulia, entre o Magistral e Joaquín Orgaz; dom Saturnino Bermúdez, entre dona Petronila e o capelão dos Vegallana. À esquerda de dom Víctor estava dom Robustiano Somoza, o viçoso médico da nobreza, que comia com o guardanapo preso ao pescoço por um gracioso nó.

Antes que os outros tomassem a sopa, o Marquês serviu-se de um grande prato de sardinhas, enquanto falava com dona Petronila sobre a demolição de São Pedro, que à dama parecia ignominiosa. Os convidados, nesse meio-tempo, entretinham-se com as variadas, ricas e raras entradas. Já sabiam! Estavam entre íntimos e era preciso respeitar os costumes conhecidos de todos. Vegallana começava sempre pelas sardinhas; devorava algumas dúzias, levantava-se em seguida e desaparecia discretamente da sala. Seguindo um uso inveterado, todos fingiram não notar a ausência do Marquês; nesse intervalo chegou e foi servida a sopa. Quando o dono da casa voltou a seu lugar, estava um pouco pálido e suava.

-- Então? -- perguntou a Marquesa entre dentes, mais com o gesto do que com os lábios.

E o marido respondeu com uma inclinação de cabeça que queria dizer:

-- Perfeitamente!

Enquanto isso, servia-se de um bom prato de sopa de tartaruga. O Marquês já não tinha as sardinhas no corpo.

Outro mistério como o de Balmes no teto.

A Marquesa fazia suas misturas singulares, às quais ninguém mais prestava atenção; comia alface com quase todos os pratos e regava tudo com vinagre ou besuntava com mostarda. Seus vizinhos conheciam-lhe os caprichos à mesa e a serviam solícitos, ostentando longa experiência naquelas combinações de temperos avinagrados com que ajudavam a dona da casa. Ripamilán, enquanto discutia acaloradamente com seu querido amigo dom Víctor, de pé, movendo a cabeça como se tivesse uma mola, preparava a terceira salada da Marquesa com a habilidade de uma máquina bem conservada; e a senhora o deixava fazer, tranquila, embora sem tirar os olhos de suas mãos, segura da exatidão do diminuto cônego.

-- Meu senhor! -- gritava Ripamilán, enquanto dissolvia sal no prato de dona Rufina, batendo o azeite e o vinagre com a ponta de uma faca. -- Meu senhor! Creio que o senhor de Carraspique está em seu perfeito direito; e não sei de onde lhe vêm essas ideias dissolventes, que em quarenta anos de convivência nunca lhe conheci...

-- Escute aqui, mau clérigo! -- exclamou Quintanar, que estava de ótimo humor e começava a sentir-se rejuvenescido. -- Sei muito bem o que digo, e nem você nem nenhum velhote libertino de oitenta anos como você me dá lições de moralidade. Mas eu sou liberal...

-- Tolices.

-- Mais liberal hoje do que ontem, amanhã mais do que hoje...

-- Bravo! Bravo! -- gritaram Paco e Edelmira, que também se sentiam muito jovens; e obrigaram dom Víctor a brindar com eles.

Tudo aquilo era brincadeira; nem dom Víctor era hoje mais liberal que ontem, nem tratava Ripamilán por senhor, nem o considerava um libertino. Mas assim se manifestava ali a alegria que a todos comunicava aquele vinho transparente, brilhando no cristal fino, ora com reflexos de ouro, ora com misteriosos cambiantes de gruta mágica, no amaranto e no violeta escuro do Bordeaux em que se banhavam os raios mais ousados do sol, entrando através do verde da folhagem, tapeçaria das janelas do pátio. Por que não se alegrar? Por que não rir e dizer disparates? Tudo era contentamento: na horta, rumores de água e de árvores embaladas pelo vento, cantos loucos de pássaros tagarelas; das janelas do pátio vinham perfumes trazidos pela brisa, que fazia chocalhos com as folhas das plantas. Os repuxos lá embaixo eram uma orquestra acompanhando o banquete ruidoso; Pepa e Rosa, vestidas de cores vivas, mas com vestidos justos de bom corte, airosas, limpas como arminhos, sinuosas ao andar com saias sonoras, sorridentes, uma loura, a outra, que tinha nome de flor, morena como mulata, serviam com graça, rapidez, bom humor e acerto, mostrando aos homens dentes de pérola, inclinando-se com as travessas numa humildade coquete, de modo que, segundo Ripamilán, aquela boa comida assim apresentada era mel sobre filhós.

Os que estavam à mesa correspondiam à alegria do ambiente; riam, já gritavam, obsequiavam-se, elogiavam-se mutuamente por meio de discretas provocações e antífrases; já se sabia que uma censura desavergonhada queria dizer exatamente o contrário: era um elogio sem pudor.

Na cozinha havia ecos da alegria da sala de jantar; quando Pepa e Rosa entravam com os pratos, ainda vinham sorrindo do espetáculo que deixavam lá dentro. Em toda a casa não havia naquele momento senão uma personagem completamente séria: Pedro, o cozinheiro.

Depois ele se divertiria; agora pensava em sua responsabilidade. Ia e vinha, dirigia aquilo como uma batalha; às vezes aparecia à porta da sala de jantar e corrigia os pequenos erros do serviço com olhares magnéticos, aos quais Pepa e Rosa obedeciam como autômatos, disciplinadas apesar da expansão e da algazarra, como veteranos.

Depois de Pedro, os menos ruidosos eram a Regenta e o Magistral; às vezes se olhavam, sorriam um para o outro, e De Pas dirigia a palavra a Anita de tempos em tempos, inclinando o tronco para ela por trás da Marquesa, a fim de fazer-se ouvir. Dom Álvaro observava-os então, silencioso, de cenho franzido, sem perceber que Visitación, sentada ao seu lado, o observava. Uma pisadela discreta da mulher do Banco arrancava-o de suas distrações.

-- Ardem, ardem -- dizia Visita.

-- O quê? -- perguntava a Marquesa, que comia sem cessar, muito contente em meio ao tumulto. -- O que é que arde?

-- Os pimentões, senhora.

E dom Álvaro agradecia a Visitación o aviso e voltava a mergulhar na conversa geral, ocultando como podia o tédio que, para si, chamava soberano.

«Que coisa mais estranha! Estava tocando o vestido e às vezes chegava a sentir um joelho da Regenta, da mulher que desejava, quando tornaria a encontrar-se assim com outra? E, no entanto, entediava-se, parecia-lhe estar sobrando ali, certo de que aquele almoço de nada serviria a seus planos e de que a Regenta não era mulher para se alegrar em semelhantes ocasiões, pelo menos por enquanto.»

«Seria uma grande imprudência dar mais um passo; se eu aproveitasse a excitação do almoço, perder-me-ia por muito tempo no ânimo desta senhora. Tenho certeza de que ela também está um tanto excitada, de que também pensa em meus joelhos e cotovelos, mas ainda não é hora de aproveitar essas vantagens fisiológicas... Esta ocasião não é ocasião... Veremos lá no Vivero; aqui, porém, nada, nada, por mais que o apetite espete.» E mostrava-se ainda mais fino com Anita, obsequiava-a com a distinção que sabia empregar, mas nada além disso. Visitación não acreditava no que via. «Que era aquilo?» Olhava espantada para Mesía, quando ninguém notava, arregalava os olhos e inflava as faces, gesto que queria dizer mais ou menos isto:

«Você me parece um paspalho, e fico pasmada de vê-lo feito um seminarista quando o coloquei ao lado dela com a melhor das intenções...»

Como única resposta, Mesía aproximava-se dela e pisava-lhe um dos pés; mas a mulher do Banco recebia-o a pontapés miúdos, com o que dava a entender «que não era boba» e que nela continuava dominando o mesmo critério que presidira à bofetada da tarde anterior.

Paco não se atrevia a pisar sua prima nova, mas a tinha encantada com as brincadeiras de senhorito fino que vivera e aproveitara a vida em Madri. Além disso, como o primo cheirava bem, a coisas tão frescas e ao mesmo tempo tão delicadas e elegantes! Lá em sua aldeia, Edelmira pensara muito no Marquesinho, a quem vira duas ou três vezes quando era ainda muito pequena e ele adolescente. Agora o via como novo, e ele superava em muito seus sonhos e imaginações; era mais bonito, mais rosado, mais alegre e mais gordo. Naquela tarde, o Marquesinho vestia um terno de alpaca fina, cor de grão-de-bico, colete de piquê da mesma cor, e calçava umas babuchas de verão que Edelmira considerava o cúmulo da elegância, embora parecessem coisa de turcos. Os berloques do primo, a camisa colorida, a gravata, os anéis ricos e vistosos, as mãos que pareciam de senhorita, tudo isso encantava Edelmira, que também era muito amiga da limpeza e da saúde.

Paco fora aproximando um joelho da saia da jovem; por fim sentiu uma firmeza macia e já ia recuar, mas a menina permaneceu tão tranquila que o primo deixou a perna encostada ali como se a tivesse esquecido. A inocência de Edelmira assustava-se tão pouco que Paco poderia ter ousado pisar-lhe um pé sem que ela protestasse, desde que não a machucasse. «Além disso, pensava a jovem, estas são coisas daqui»; a tradição contava maravilhas ainda maiores da casa dos tios.

Obdulia, sentada em frente, olhava às vezes com languidez para o viçoso casal. Lembrava-se do sol de inverno da tarde anterior. Paco já o esquecera! Não pensava senão naquela beleza fresca, cheirando a erva e alecrim, que vinha da aldeia alegrar-lhe os sentidos. Mas a viúva, depois de consagrar uma lembrança triste aos devaneios da véspera, voltou-se para o Magistral, insinuante e provocadora; procurava atordoá-lo com seus perfumes, com seus olhares de cortina rápida e com todos os recursos que conhecia e podiam ser empregados contra semelhante homem em tais circunstâncias. De Pas respondia com desdém mal dissimulado aos galanteios de Obdulia e nem sequer lhe agradecia o holocausto que ela lhe oferecia ao desprezar, com ênfase também mal disfarçada, as atenções de Joaquín Orgaz.

Joaquinito estava possesso. «Aquela mulher era uma... tal...» e dizia-o a si mesmo em linguagem de flamengo.

«Pois não estava ela lançando o laço ao Provisor?» Aquilo, que os demais convidados não notavam ou fingiam não ver, ele observava porque lhe importava. Mas não se dava por vencido; insistia em galantear a viúva, fingindo não perceber o que se passava com o Magistral. De ordinário, Obdulia e Joaquinito se entendiam. «Senhor! Ela chegara a marcar-lhe um encontro numa carvoaria! Era verdade que ele não podia vangloriar-se de ter tomado aquela praça... desmantelada; ainda não gozara os favores supremos... mas, enfim, adiantamentos... arras... ou como se quisesse chamar, isso sim. Oh! Quando chegasse a vencê-la completamente, e assim esperava, ela lhe pagaria aqueles desdéns caprichosos, aquelas mudanças de humor e a humilhação de preteri-lo por um carola.»

Quem nada esperava, quem estava desenganado, triste até a morte, era dom Saturnino Bermúdez. Depois da cena na Catedral, onde acreditava ter avançado tanto, à custa, é verdade, da própria consciência, não tornara a ver Obdulia; e naquela manhã, ao aproximar-se dela para dizer quanto sofrera com a ausência daqueles dias, ocultando, porém, a prisão de ventre que o obcecara e o retivera na cama, ao ir recitar-lhe ao ouvido o pequeno discurso preparado, estilo Feuillet passado pela sacristia, Obdulia voltara-lhe as costas, não uma vez, mas três ou quatro, dando-lhe a entender claramente que non erat hic locus, que ele só seria tolerado na igreja.

«Assim eram as mulheres! Assim era, em particular, aquela mulher! Para que amá-las? Para que perseguir o ideal do amor? Ou, melhor, para que amar mulheres vivas, de carne e osso? Melhor sonhar, continuar sonhando.» Assim pensava, melancólico, Bermúdez, que ficava triste com o vinho, enquanto respondia distraído, mas muito friamente, a dona Petronila Rianzares, ocupada em fazer, em voz baixa, um panegírico do Magistral, seu ídolo. Bermúdez olhava de vez em quando para a Regenta, que amara em segredo, e outras vezes para Visitación, por quem fora apaixonado na adolescência, na época em que a mulher do Banco, segundo as más-línguas, fugira com um namorado por uma sacada. Nem sequer Visitación lhe prestara atenção em toda a vida; jamais o olhara com os olhinhos enrugados com que julgava encantar. Não era desprezo; para as senhoras de Vetusta, Bermúdez era um sábio, um santo, mas não um homem. Obdulia descobrira nele o varão, mas logo desprezara a descoberta.

O Magistral, Ripamilán, dom Víctor, dom Álvaro, o Marquês e o médico sustentavam a conversa geral; Vegallana e o Magistral tendiam aos assuntos sérios, mas Ripamilán e dom Víctor davam a toda discussão um rumo festivo, e todos acabavam tratando-a como brincadeira. Assim que se sentiu forte, graças ao sábio equilíbrio gástrico de líquidos e sólidos que estabelecia com grande tino, o Marquês insistiu em seu espírito de reformador de pedra e cal. «Pois bem! Queria derrubar São Pedro, e não lhe falassem de suas ideias; além de não ser fanático, nem dever o partido conservador ser confundido com certas doutrinas ultramontanas, uma coisa era a religião e outra os interesses locais; o mercado coberto para as hortaliças era uma necessidade. Localização? Havia apenas uma, e nisso não admitia discussão: a praça de São Pedro. Mas como? Onde? Mediante a demolição da igreja arruinada.»

Dona Petronila protestava, invocando a autoridade do Magistral. O Magistral votava com dona Petronila, mas não reforçava os argumentos. Ripamilán, com os olhinhos semelhantes a duas contas de vidro, gritava:

-- Fora com esse iconoclasta! As hortaliças, as hortaliças! Isso quer dizer que, para Vossa Excelência, senhor Marquês, a religião, a arte e a história valem menos do que um rabanete?

-- Bravo, conterrâneo! -- gritou dom Víctor, de pé, com uma taça de champanhe na mão.

-- Não há seriedade, não se pode discutir -- dizia o Marquês. -- Esse Quintanar agora aplaude o outro e antes se dizia liberal.

-- Mas que tem uma coisa com a outra?

-- O senhor não quer derrubar a igreja, mas queria tirar do convento as filhas de Carraspique...

-- Uma simples secularização.

-- Víctor, Víctor, não diga disparates... -- atreveu-se a dizer a Regenta, sorrindo.

-- São brincadeiras -- advertiu o Magistral.

-- Como brincadeiras? -- gritou o médico. -- Pela honra de Somoza, se dom Víctor ataca de brincadeira meu primo Carraspique, eu empunho a espada, ataco-o a sério e as varas se transformam em lanças. Senhores, aquela menina está apodrecendo...

A discussão terminou sem causa, ou, melhor dizendo, por causa dos vapores do vinho. Todos falavam; Paco também queria secularizar as freiras; Joaquinito Orgaz começou a contar pilhérias flamengas que divertiam muito a Marquesa e Edelmira. Visitación chegou a levantar-se da mesa para açoitar com o leque aberto os que manifestavam ideias pouco ortodoxas. Pepa, Rosa e as demais criadas sorriam discretamente, sem ousar tomar parte na desordem, mas um pouco menos disciplinadas do que no começo do almoço. Pedro já não aparecia à porta. Duas taças haviam sido quebradas.

Os pássaros da horta pousavam nas trepadeiras das janelas para ver o que era aquilo e misturavam seus gritos gárrulos e agudos ao estrépito geral.

-- O café no caramanchão! -- ordenou a Marquesa.

-- Muito bem, muito bem! -- gritaram dom Víctor e Edelmira, que, de braços dados e aos acordes da marcha real, dizia o ex-regente, tocada lá dentro por Visitación num piano desafinado, foram os primeiros a dirigir-se à horta, seguidos por Paco, empenhado em coroar os cabelos brancos de dom Víctor com uma grinalda de flores de laranjeira. Encontrara-a num armário do quarto de sua irmã Emma. Era ali que Edelmira dormiria. Todos saíram para a horta, que era grande e, como o parque dos Ozores, cercada de árvores altas e copadas, que escondiam dos vizinhos grande parte do recinto. Dom Víctor, Paco e Edelmira corriam pelos caminhos, longe, entre as árvores. Dom Álvaro dava o braço à Marquesa e, diante deles, retida pela conversa de dona Rufina, ia Anita, mordendo folhas de buxo dos canteiros, a testa inclinada, os olhos brilhantes e as faces acesas. O Magistral ficara para trás, em poder de dona Petronila Rianzares, que lhe falava de assunto sério: a casa das Irmãzinhas dos Pobres que se construía perto do Espolón, em terrenos doados por dona Petronila, com admiração e aplauso de toda a Vetusta católica. A senhora de Rianzares era viúva de um antigo intendente de Havana, que lhe deixara uma das fortunas mais respeitáveis da província; empregava grande parte de suas rendas a serviço da Igreja, especialmente em dotar freiras, levantar conventos e proteger a causa de Dom Carlos enquanto o partido esteve em armas. Julgava-se pouco menos que papisa e teria ousado excomungar provisoriamente qualquer pessoa, segura de que o Papa sancionaria sua excomunhão; tratava o Bispo de potência para potência, e Ripamilán, que não a suportava porque, segundo ele, era uma mulher masculinizada, chamava-a de Grande Constantino, aludindo ao imperador que protegeu a Igreja. «A boa senhora pensa que, por ter sabido conservar com decoro as toucas da viuvez e levantar edifícios para obras piedosas, é uma santa e pouco menos do que o Metropolitano.» O Arcipreste tinha razão; dona Petronila só pensava em sua proteção ao culto católico e opinava que os demais deviam passar a vida louvando sua munificência e sua castidade de viúva.

Entre todo o clero vetustense, não reconhecia ninguém superior ao Magistral, que considerava acima do Bispo; «era um grande homem que, por humildade, vivia relegado». Segundo o Arcipreste, o Magistral tratava a senhora de Rianzares como uma rainha, ou como se ela fosse o bispo-mãe; ela o agradecia e retribuía sendo em toda parte sua advogada mais eloquente. Onde ela estivesse, que ninguém murmurasse; não o consentia.

Quando chegaram ao caramanchão, onde começavam a servir o café, a senhora de Rianzares inclinava a cabeça de frade corpulento perto do ombro do Magistral, dizendo, com os olhos voltados para o céu e a boca cheia de mel:

-- Vamos, meu amigo!... Eu lhe suplico... acompanhe-me ao Vivero... seja amável... por caridade...

O Magistral, não menos doce, suave e pegajoso, recebia com prazer aquele incenso, atrás do qual devia haver tantas bolsas de dinheiro.

-- Senhora... com todo o prazer... se pudesse... mas... tenho o que fazer; às sete preciso estar...

-- Oh, não, desculpas não valem... Ajude-me, Marquesa, ajude-me a convencer este malandro.

A Marquesa ajudou, mas foi inútil. Dom Fermín decidira não ir ao Vivero naquela tarde; compreendia que todos ali eram íntimos da casa, menos ele. Já aceitara o convite porque... não pudera recusá-lo, por fraqueza, e não queria outras fraquezas. Que faria naquela excursão? Sabia que ao Vivero iam todos aqueles loucos, Visitación, Obdulia, Paco, Mesía, divertir-se com liberdade excessiva e imitar de maneira muito viva as brincadeiras infantis. Ripamilán lho dissera várias vezes. Ripamilán ia sem escrúpulos, mas todos sabiam como era o Arcipreste; ele, De Pas, não devia assistir àquelas cenas que, sem serem propriamente escandalosas... não eram para os olhos de um cônego sério. Não, não convinha prodigalizar-se; sempre soubera manter-se no difícil equilíbrio de sacerdote sociável sem degenerar em homem mundano; sabia conservar a boa fama. A confiança excessiva e o trato familiar demais prejudicariam seu prestígio; não iria ao Vivero. E vontade não lhe faltava, isso era verdade; pois aquele senhor Mesía voltara a colar-se às saias da Regenta, e dom Fermín já começava a suspeitar que o célebre dom Juan de Vetusta tivesse propósitos non sanctos.

A Marquesa, sem malícia, como fazia todas as coisas, chamou Anita para perto de si e disse-lhe:

-- Venha cá, venha cá, a ver se este senhor displicente lhe dá mais atenção do que a nós.

-- Do que se trata?

-- De dom Fermín, que não quer vir ao Vivero.

Dom Fermín, que já tinha as faces um pouco acesas por causa das libações mais frequentes que de costume, ficou cor de cereja ao ver a Regenta fitá-lo de frente e dizer com verdadeiro pesar:

-- Oh, por Deus, não seja assim; veja que nos causará um desgosto a todos. Acompanhe-nos, senhor Magistral...

No gesto e no olhar da Regenta qualquer pessoa podia ver, e De Pas e dom Álvaro viram, uma expressão sincera de contrariedade: a notícia dada pela Marquesa era para ela um desgosto.

Pela alma de dom Álvaro passou uma emoção semelhante a uma queimadura; conhecedor da matéria, não hesitou em chamar de ciúme o que sentira. Irritou-se por senti-lo. «Isso queria dizer que aquela mulher lhe interessava mais seriamente do que imaginara; e havia obstáculos, e de que gênero! Um padre! Um padre bonito, era preciso confessar...» Então os olhos apagados do elegante Mesía brilharam ao cravar-se no Magistral, que sentiu o choque daquele olhar e o resistiu com o seu, eriçando as pontas que havia nas pupilas em meio a tanta brandura. Dom Fermín assustou-se com a impressão produzida nele, mais do que pelas palavras, pelo gesto de Ana; sentiu uma gratidão dulcíssima, um calor inteiramente novo nas entranhas. Já não se tratava da vaidade suavemente lisonjeada, mas de fibras do coração cujo som ele desconhecia. «Que diabos é isto?», pensou De Pas; e foi precisamente então que seus olhos se encontraram com os de dom Álvaro. O olhar, ao chocar-se, converteu-se num desafio; um desses olhares que esbofeteiam. Ninguém percebeu além deles e da Regenta. Ambos estavam de pé, perto um do outro, arrogantes e esbeltos; a sobrecasaca justa de Mesía, correta e severa, ostentava sua gravidade em linhas não menos dignas e elegantes do que o ampla e hierática capa do clérigo, que reluzia ao sol e descia até o chão.

«Ambos pareceram à Regenta belos e interessantes, algo como São Miguel e o Diabo, mas o Diabo quando ainda era Lúcifer; o Diabo também Arcanjo. Os dois pensavam nela, era certo; dom Fermín como amigo protetor, o outro como inimigo de sua honra, porém amante de sua beleza. Ela daria a vitória a quem a merecesse, ao anjo bom, que era um pouco menos alto, não tinha bigode, que sempre assentava bem, mas era garboso, bem-apessoado a seu modo, como se pode ser debaixo de uma batina. A Regenta tinha de confessar a si mesma, embora pensasse nisso apenas por um instante, que lhe agradava encontrar seu salvador tão elegante e vigoroso; tão distinto, como dizia Obdulia, que nisso tinha razão. E, sobretudo, aqueles dois homens olhando-se assim por causa dela, reclamando cada qual, com fim diferente, a vitória, a conquista de sua vontade, eram algo que rompia a monotonia da vida vetustense, algo interessante, capaz de ser dramático, que já começava a sê-lo. A honra, aquela coisinha que aparecia sempre nos versos recitados pelo marido, estava a salvo; claro, não era preciso pensar nela. Mas seria bom que um homem de tanta inteligência como o Magistral a defendesse contra os ataques mais ou menos temíveis do belo rapaz, que tampouco era pouca coisa, que demonstrava muito tato, grande prudência e, pior ainda, um interesse verdadeiro por ela. Sim, já estava convencida: dom Álvaro não queria vencê-la por capricho nem vaidade, mas por verdadeiro amor; com certeza aquele homem teria preferido encontrá-la solteira. A rigor, dom Víctor era um respeitável obstáculo.

Mas ela o amava, estava certa disso; amava-o com carinho filial, misturado a certa confiança conjugal, que valia pelo menos tanto, a seu modo, quanto uma paixão de outra espécie. Além disso, se não fosse dom Víctor, o Magistral não teria razão para defendê-la, nem teria razão de existir aquela luta entre dois homens distintos que começava naquela tarde. Não se devia esquecer que dom Fermín não a queria nem podia querê-la para si, mas para dom Víctor.»

Quando Ana se perdia nessas e em outras reflexões semelhantes, ouviu-se a voz de Obdulia, que dava grandes gritos pedindo socorro. Os que tomavam pacificamente o café sob o caramanchão correram para a extremidade da horta.

-- Onde estão? Onde estão? -- perguntava a Marquesa, assustada.

-- No balanço! No balanço! -- disse o médico dom Robustiano.

Era um balanço de madeira, semelhante aos oferecidos ao público madrileno na romaria de Santo Isidro, embora mais elegante e cuidadosamente construído. Em um dos assentos, que imitavam a barquinha de um balão, agachado, sorridente e pálido, dom Saturnino Bermúdez, imóvel a pouco menos de um metro do chão, fazia a figura mais ridícula do mundo, com plena consciência disso, e tornava-se ainda mais ridículo pelos esforços de disfarçá-lo, procurando dar à situação ares toleráveis que ela não podia ter. Na outra extremidade, na barquinha oposta, que ficara presa a uma escora de parede, resto do andaime de uma obra recente, Obdulia Fandiño ostentava as cores chamativas da saia e a exuberância de sua pessoa, agarrada à embarcação como um náufrago do ar, muito sinceramente assustada, embora coquete e aparatosa em meio ao susto e ao que julgava ser perigo.

-- Não se mexa, não se mexa! -- gritava dom Víctor, gesticulando debaixo da barquinha e provavelmente vendo aquilo que Obdulia, pelo menos naquele transe, não se importava muito em ocultar.

-- Não se mexa, não se mexa; olhe que, se cair, você se mata... -- dizia Paco, procurando alguma coisa com que desprender o balanço.

-- Três metros e meio -- disse o Marquês, que chegou a tempo de calcular exatamente, a olho, a altura da possível queda, como sempre fazia seus cálculos geométricos.

O fato é que nem dom Víctor, nem Paco, nem Orgaz conseguiam, por seus próprios meios, inventar maneira de subir à altura daquela madeira e libertar Obdulia.

-- A culpa foi de Paco -- dizia Visitación, com as pernas amarradas por uma corda por cima do vestido. -- Empurrou forte demais, para fazer Saturno cair, e zás! A barquinha subiu lá em cima e, quando desceu... ficou presa nesse pau.

Obdulia não se mexia, mas gritava sem cessar.

-- Não grite, minha filha -- dizia a Marquesa, que já nem a olhava, para não se incomodar com a posição desagradável da cabeça atirada para trás. -- Já vão tirá-la daí...

O Marquês tentou subir numa escada de mão de poucos degraus, usada pelo jardineiro para aparar a copa das arvorezinhas e as colunas de buxo. Mas, mesmo no degrau mais alto, o Marquês não alcançava a barquinha do balanço de modo a poder fazer força para desprendê-la.

-- Chamem Diego... Bautista... -- dizia a Marquesa.

-- Sim, sim, que venha Bautista!... -- gritava Obdulia, lembrando-se da força do cocheiro.

-- É inútil -- advertiu o Marquês. -- Bautista tem força, mas não alcança; é da minha altura... não há outro remédio senão procurar outra escada...

-- Não há no jardim... Deus sabe onde aparecerá...

-- Por Deus! Por Deus!... Já estou tonta, vou cair de medo.

Então dom Álvaro, a quem Ana dirigira um olhar animador e suplicante, decidiu-se. Havia algum tempo lhe ocorrera que, graças à sua estatura, poderia alcançar comodamente a barquinha e arrancá-la da prisão... mas que lhe importava Obdulia? Podia fazer figura ridícula, sujar a sobrecasaca. O olhar de Ana fê-lo saltar para a escada. Felizmente era ágil. A Regenta viu-o tão garboso, tão limpo e elegante naquela posição de acendedor de lampiões quanto passeando pelo Espolón.

-- Bravo! Bravo! -- gritaram Edelmira e Paco ao verem os braços do belo rapaz entre as madeiras da barquinha do balanço.

-- Não me puxe! Não me puxe! -- gritou Obdulia, que sentiu as mãos do antigo amante debaixo das pernas.

Visita deu um beliscão em Edelmira, a quem já tratava por tu. A moça percebeu a intenção do beliscão porque reparara no tratamento. Ela a chamara de tu!

-- Fique tranquila; não é com a senhora -- respondeu dom Álvaro, já arrependido de haver cedido ao pedido tácito de Anita.

Fez longos preparativos para colocar os braços de modo a empregar força suficiente e erguer o balanço de uma só vez... Ao tentar o primeiro esforço, que desde logo julgou inútil, pensou na expressão que o Magistral estaria fazendo.

-- Força!... -- gritou Visitación lá de baixo, para maior ignomínia.

-- O senhor não consegue, não consegue!... Não mexa, é pior!... Vou morrer! -- gritou a Fandiño.

Os demais se calavam.

-- Fique quieta! -- disse dom Álvaro em voz baixa, rouca e furiosa, desejando de boa vontade vê-la cair de cabeça.

E tentou um segundo esforço, sem sucesso.

Aquilo não se movia. Suava mais de vergonha do que de cansaço. Um homem como ele devia ser capaz de erguer aquele fardo.

-- Deixe, deixe, vamos ver se Bautista... -- disse a Marquesa. -- Malditos rapazes!

-- Bautista não alcança -- observou outra vez o Marquês. -- Outra escada... que procurem nas cocheiras... deve haver alguma lá...

Dom Álvaro deu o terceiro empurrão... Inútil. Olhou para baixo, como se procurasse maneira de livrar-se de parte do fardo. Na outra caixa, debaixo de seu nariz, numa atitude humilde e ridícula, viu dom Saturnino agachado, imóvel, esquecido por todos. Mesía não pôde deixar de sorrir, embora estivesse possesso. Olhou para Bermúdez com vontade de cuspir-lhe em cima, enquanto este lhe sorria sem cessar, e disse com calma forçada:

-- Homem! Isso tem graça! O senhor continua aí? Pensa que estou fazendo os trabalhos de Alcides e se põe aí como lastro?...

Gargalhada geral.

-- Sim, riam -- clamou Obdulia. -- A situação é muito engraçada.

-- Eu... -- balbuciou Bermúdez --, desculpe-me... como ninguém me dizia nada... pensei que não atrapalhava... e, além disso... achei que, ao descer... poderia piorar a situação dessa senhora... provocar algum solavanco.

-- Ai, não, não! Não desça! -- gritou a viúva, apavorada.

-- Como não? -- rugiu dom Álvaro, furioso. -- Quer que eu levante este trambolho com os dois em cima e apenas com os braços?

-- É que... eu não vejo como... se não me ajudarem... isto está tão alto...

-- Pouco menos de um metro -- advertiu o Marquês.

Paco tomou dom Saturno nos braços e tirou-o da caixa nefanda.

-- Agora -- disse -- nós o ajudaremos, empurrando daqui de baixo...

-- Isso é inútil -- observou o Magistral com voz muito doce. -- Como aquela madeira se meteu entre os dois varões laterais... se não se erguer todo o balanço de uma vez... não será possível desprendê-lo.

-- É claro -- bramava o outro lá de cima; e tentou novamente sua força.

Mas Bermúdez devia pesar muito pouco, pois dom Álvaro não moveu o pesado aparelho.

O elegante julgava-se exposto à vergonha no pelourinho e, com um salto que procurou tornar gracioso, pôs-se no chão. Sacudindo o pó das mãos e enxugando o suor da testa, disse:

-- É impossível! Procurem outra escada.

-- Já podia estar procurada...

-- Se eu alcançasse... -- insinuou então o Magistral, com modéstia na voz e no gesto.

-- É verdade -- disse a Marquesa. -- O senhor também é alto.

-- Alcança, alcança! -- gritou Paco, que queria vê-lo fazer acrobacias.

-- Sim, o senhor alcança -- concluiu Vegallana pai. -- Desde que tenha força... E aqui ninguém o vê.

O difícil era subir ao alto da escada sem fazer triste figura com a veste talar.

-- Tire a capa -- observou Ripamilán.

-- Não é preciso -- respondeu De Pas, horrorizado com a ideia de que o vissem apenas de batina.

E, sem perder um átomo da dignidade, da gravidade nem da graça, subiu como um esquilo ao degrau mais alto, enquanto a capa flutuava ondulante às suas costas.

-- Perfeitamente -- disse, introduzindo os braços por onde pouco antes Mesía metera os seus.

Aplausos na multidão. Obdulia conteve um grito de má espécie.

Dona Petronila, extática, de boca aberta, exclamou em voz baixa:

-- Que homem! Que luminar!

Sem grande esforço aparente, com desenvoltura e graça, o Magistral suspendeu o balanço nos braços; livre da prisão e contido na descida pela própria força que o levantara, o aparelho baixou majestosamente. Somoza, Paco e Joaquín Orgaz ajudaram Obdulia a sair da caixa maldita. O Magistral recebeu uma verdadeira ovação. Paco admirou-o em silêncio: a força muscular inspirava-lhe um terror um tanto religioso; ele desperdiçara a sua nas lides do amor. Tinha bastante carne, mas mole. Dom Álvaro mal conseguiu disfarçar o vexame. «Que infantilidade! Mas estava sinceramente envergonhado.» Além disso, ele, que via os padres como mulheres frágeis, como um sexo frágil especial por causa da veste talar e da mansidão que os cânones lhes impunham, acabava de descobrir no Magistral um atleta; um homem muito capaz de matá-lo com um soco, caso surgisse aquela ocasião inverossímil. Mesía lembrava-se de que muitas vezes, especialmente por ocasião das eleições nas aldeias, dissera, por exemplo: «Pois o senhor padre que não faça graça, que não abuse da vantagem de suas saias, porque, se eu me irritar, agarro-o pela batina e o atiro pela sacada». Sempre imaginara, por nunca ter pensado bem no assunto, que os padres, uma vez perdido o respeito religioso, podiam ser esbofeteados impunemente; não lhes supunha coragem, nem força, nem sangue nas veias... «E agora... aquele cônego, talvez um pouco seu rival, acabava de dar-lhe aquela liçãozinha de ginástica, que bem podia ser uma advertência salutar.»

A gratidão de Obdulia não tinha limites, mas o Magistral julgou necessário impô-los, mostrando-se frio, seco e dando-lhe a entender que «não fizera aquilo por ela». A viúva, entretanto, insistiu em afirmar que lhe devia a vida.

-- Indubitavelmente! -- corroborava dona Petronila, que não suspeitava como Obdulia pretendia pagar aquela vida que dizia dever ao Magistral.

Ana admirou em silêncio a força do pai espiritual, na qual viu apenas um símbolo físico da fortaleza da alma; fortaleza em que possuía, sem dúvida, defesa segura e inexpugnável contra as tentações que começavam a assediá-la.

Visita subiu então ao balanço, mas com as pernas amarradas: não queria que lhe vissem as roupas de baixo.

Obdulia protestou.

-- Como? Então se via alguma coisa? Não quero! Não quero! Por que não me avisaram? Isto é uma traição.

-- Esta senhora tem razão -- disse dom Víctor. -- Igualdade perante a lei; fora com essa corda.

Edelmira subiu ao balanço sem se amarrar. Não havia necessidade de precauções, não se via nada.

Dom Víctor e Ripamilán também se balançaram, mas ficaram tontos.

-- Os coches já chegaram! -- gritou a Marquesa de longe; e todos correram para o pátio.

A Marquesa, dona Petronila, a Regenta e Ripamilán subiram à carruagem descoberta; veículo de luxo que fora excelente, mas já estava antiquado e desajeitado nos movimentos. A parelha de cavalos negros era digna do rei. Os demais acomodaram-se num antigo coche de viagem, sólido, mas de má aparência, puxado por quatro cavalos; era o que ordinariamente servia ao Marquês em suas excursões pela província, ora para levar e trazer eleitores, ora para caçar talvez em terreno proibido. Quantas coisas se diziam daquele coche de estrada! Sua forma lembrava as antigas diligências que ainda faziam em Madri o serviço do correio entre a Central e as estações. Chamavam-no de Gôndola, de Familiar e de outros apelidos.

Abriram um pouco de espaço para o Magistral, entre Ripamilán e Anita, com a promessa solene de deixá-lo no Espolón, onde tinha de procurar certa pessoa. Não havia pessoa alguma; era um pretexto para cumprir o propósito de não ir ao Vivero.

-- Nós o sequestramos -- dissera Obdulia...

-- Sim, sim, sequestrá-lo é o melhor; não o deixaremos descer -- acrescentou dona Petronila.

-- Não; protesto... nesse caso não subo.

Subiu; e a carruagem partiu, arrancando faíscas das pedras pontiagudas pelas ruas estreitas da Encimada. Atrás ia a Gôndola, ensurdecendo a vizinhança com horríssono estrépito de guizos, estalos de chicote, vidros saltitantes e vozes e gargalhadas que soavam lá dentro.

O sol ainda aquecia, e as damas da carruagem improvisaram com as sombrinhas um toldo colorido que abrigava também o Magistral e o Arcipreste. Ripamilán, quase oculto entre as saias de dona Petronila, sentada diante dele, ia no auge da felicidade; não pelo contato com o Grande Constantino, mas por estar entre damas, sob sombrinhas, respirando perfumes femininos e sentindo o sopro dos leques. Sair ao campo com senhoras! A bucólica cortesã, ou pouco menos! O belo ideal do poeta septuagenário, do eterno amante platônico de Fílis e Amarílis com corpete de seda, estava realizando-se.

O Magistral ia um pouco envergonhado: incomodava-o, por um lado, e por outro não, a casualidade, ou o que quer que fosse, de ir tocando Ana. Tocando apenas, é claro; nem ela nem ele se mexiam. Ele estava perturbado; ela não. Ia satisfeita ao lado dele; continuava imaginando-o como um escudo bem lavrado e forte. Ela o protegia do sol, e ele a defendia de dom Álvaro. «Se este senhor viesse ao Vivero... talvez o outro não se atrevesse a aproximar-se... e, se ele não vai... vai atrever-se... claro, como ali cada um corre por seu lado, e Víctor é capaz de sair com Paco e Edelmira para fazer papel de bobo, de menino... Não, pois não quero que perceba que tenho medo dele; de modo que, se se aproximar... não fugirei. Se este quisesse vir!...»

-- Dom Fermín -- disse-lhe, já perto do Espolón, com voz humilde, com o respeito doce e sereno com que sempre lhe falava. -- Dom Fermín, por que o senhor não vem conosco? Pouco mais de uma hora... creio que hoje voltaremos mais cedo... venha... venha!

De Pas sentia cócegas dulcíssimas por todo o corpo ao ouvir a Regenta; e, sem pensar, inclinava-se para ela como atraído por um ímã. Felizmente as outras damas e o Arcipreste estavam muito absorvidos numa conversa agradável cujo objeto era esfolar a pobre Obdulia. Ripamilán citava, como costumava fazer em tais matérias, o Bispo de Náuplia, o hotel de Madri, os vestidos da prima cortesã etc., etc. Não se pode negar que a resolução do Magistral esteve a ponto de quebrar-se, mas lhe pareceu indigno mostrar tão pouca força de vontade, e temeu também o que poderia acontecer no Vivero. Ele não podia fazer papel de cadete; se dom Álvaro quisesse tirar a desforra da derrota no balanço e o desafiasse em qualquer outra espécie de exercício, ele, com a capa, a batina e o canonicato às costas, estaria muito exposto ao ridículo. Não, não iria. E, ao firmar-se em seu propósito, sentiu uma voluptuosidade intensa, profunda: era o orgulho satisfeito. Sabia muito bem quanta força precisava empregar para resistir à tentação que saía daqueles lábios, tanto mais sedutores quanto menos maliciosos; por isso mesmo apreciou ainda mais a própria energia, a têmpera de sua alma, que «sem dúvida viera ao mundo para empresas mais elevadas do que lutar com obscuros vetustenses».

Voltou os olhos brandos para a amiga e, dando à voz um tom de carinhosa confiança, novo, um pouco semelhante, segundo notou a Regenta, ao que Mesía empregara naquela tarde à sacada da sala de jantar, respondeu muito baixo:

-- Não devo ir com os senhores...

E o gesto indescritível deu a entender que lamentava, mas que, como ele era padre... e ela se confessara com ele... e Paco, Obdulia e Visita eram um pouco loucos, e em Vetusta os ociosos, que eram quase todos, murmuravam até da coisa mais inocente...

Tudo isso, mesmo que o gesto não quisesse dizê-lo, compreendeu a Regenta; e resignou-se a lidar outra vez com Mesía sem o amparo do Provisor.

Não falaram mais. O veículo parou; o Magistral levantou-se e cumprimentou as damas. A Regenta sorriu-lhe como teria sorrido muitas vezes para a mãe, se a tivesse conhecido. De Pas não sabia sorrir daquela maneira; a brandura de seus olhos não servia para tais momentos, e respondeu olhando com faíscas das quais nem ele se deu conta... nem Ana tampouco.

Estavam na entrada do Espolón, o passeio dos padres, segundo o antigo nome. Ali desceu dom Fermín, entre os lamentos de dona Petronila.

-- O senhor é muito pouco amável -- disse a Marquesa, permitindo-se um tom familiar que empregava com todos os cônegos, menos com dom Fermín.

E chegou a dar-lhe uma pancadinha na mão com o leque fechado. Queria assim manifestar o desejo de estreitar a amizade um tanto fria que havia entre o Provisor e os Vegallana. De Pas compreendeu e agradeceu. Tornar-se íntimo dos Vegallana era tornar-se íntimo de dom Víctor e de sua esposa, ele bem sabia; estavam sempre juntos, no teatro, nos passeios, em toda parte, e a Regenta comia com muita frequência na casa do Marquês. Portanto, para vê-la, ali era muito melhor do que na Catedral. Tudo isso passou pela mente do Magistral no pouco tempo de que precisou para tirar o pé do estribo e fazer o último cumprimento às senhoras, dando um passo para trás.

-- Vamos, Bautista! -- gritou a Marquesa; e a carruagem retomou a marcha diante da expectativa de sacerdotes, damas e cavalheiros leigos que passeavam pelo Espolón, de crianças que brincavam no prado vizinho e de artesãos que trabalhavam ao ar livre.

Os olhos do Magistral seguiram o veículo enquanto puderam. A Regenta sorria-lhe de longe, com a expressão doce e casta de pouco antes, e cumprimentava-o timidamente, sem espalhafato, com o leque... Depois já não se viu senão o perfil anguloso de Ripamilán, que movia os braços como as pás de um moinho de brinquedo.

O outro coche passou como um relâmpago. De Pas viu uma mão enluvada que o cumprimentava de uma janela. Era uma das mãos de Obdulia, a viúva eternamente agradecida. Não o saudava com as duas porque Joaquinito Orgaz apertava-lhe a esquerda, doce e clandestinamente; ele jamais torcera o nariz para pratos de segunda mesa, desde que fossem substanciosos.

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