TOMO II — Capítulo XIX
TOMO II
Capítulo XIX
Dom Robustiano Somoza, assim que março dava as caras, atribuía as doenças de seus clientes à Primavera médica, da qual não possuía conceito muito claro; mas, como sua missão principal era consolar os aflitos, e essa explicação climatológica costumava satisfazê-los, o médico bem-apessoado não pensava em procurar outra. Foi a Primavera médica que, segundo dom Robustiano, pôs de cama a Regenta, que se deitou certa noite de fins de março com os dentes cerrados sem querer e a cabeça cheia de fogos de artifício. Ao despertar na manhã seguinte, saindo de sonhos povoados de larvas, compreendeu que estava com febre.
Quintanar fora caçar nos pântanos de Palomares; não voltaria antes das dez da noite. Anselmo foi chamar o médico, e Petra instalou-se à cabeceira da cama, como um cão fiel. A cozinheira, Servanda, ia e vinha com xícaras de tília, silenciosa, sem disfarçar a indiferença; era nova na casa e viera da serra. Havia muito tempo Anita não sentia um daqueles impulsos carinhosos de que dom Víctor costumava ser objeto, mas naquele dia, à tarde, sobretudo ao escurecer, chorou escondendo o rosto, pensando no marido ausente. “Como desejava que ele estivesse ali! Só ele poderia acompanhá-la na solidão de enferma que começava naquele dia.” Em vão a Marquesa, Paco, Visitación e Ripamilán acorreram pressurosos ao saber do mal; recebeu a todos com afabilidade, sorriu para todos, mas contava os minutos que faltavam para as dez da noite. “Seu Quintanar! Aquele era o verdadeiro amigo, o pai, a mãe, tudo.” A Marquesa ficou pouco tempo junto da amiga enferma; tocou-lhe a testa e disse que não era nada, que Somoza tinha razão, a primavera médica... e falou de salsaparrilha e logo se despediu. Paco admirava em silêncio a beleza de Ana, cuja cabeça, afundada na brancura macia dos travesseiros, lhe parecia “uma joia em seu estojo”. Visita observou que, mais do que nunca, Ana se parecia então com a Virgem da Cadeira. A febre punha luz e chama nos olhos da Regenta, e rosas vivas no rosto; ao sorrir, parecia uma santa. Paco pensou sem querer “que estava apetitosa”. Ofereceu-se para tudo, como a mãe, e saiu. No corredor, deu um beliscão em Petra, que trazia um copo de água açucarada. Visita deixou a mantilha sobre o leito da amiga e preparou-se para meter-se em tudo, sem dar atenção ao gesto impertinente de Petra. “Quem confiava em criados? Felizmente, ela estava ali para tudo o que fosse preciso.”
“Quanto ao mais, temos de confessar que esse teu Quintanar da alma também tem lá suas coisas; onde já se viu ir caçar e deixar-te assim?”
— Mas como podia ele saber?...
— Pois não te queixavas já ontem à noite?
— Esse Frígilis é o culpado de tudo...
— E quem anda com Frígilis acaba louco, nem mais nem menos do que ele. Não é esse Frígilis que enxertava galos ingleses?
— Sim, sim, era ele.
— E o que diz que nossos avós eram macacos? Belo macaco mal-educado ele é... mas, mulher, se nem sequer se veste como gente decente... Nunca lhe vi o colarinho da camisa... nem cartola...
Somoza voltou às oito da noite; apesar da primavera médica, não estava tranquilo. Examinou a língua da enferma, tomou-lhe o pulso, mandou que pusessem na axila um termômetro que ele tirou do bolso e contou os graus. O doutor ficou vermelho como uma cereja... Olhou Visita de cenho carregado e, lançando-se a adivinhar, exclamou com irritação:
— Estamos mal!... Aqui se falou demais... Deixaram-na atordoada, não foi? Estou vendo como se tivesse estado aqui... muita gente, com certeza... muita conversa!...
Dessa vez foi Visita quem sentiu o rosto arder. Somoza adivinhara. Não sabia medicina, mas sabia com quem lidava. Passou a receita; censurou também dom Víctor por sua ausência intempestiva; disse que um louco fazia cem; que Frígilis entendia tanto de darwinismo quanto ele de ferrar moscas; deu duas palmadinhas no rosto da Regenta, comprazendo-se no contato; e, batendo portas com estrépito, saiu, não sem despedir-se de longe até a manhã seguinte.
Visitación, enquanto, sentada aos pés da cama, devorava uma boa porção de doce em conserva, garantia de boca cheia que Somoza e a espingarda de Ambrósio eram a mesma coisa. A mulher do Banco acreditava em remédios caseiros e renegava dos médicos. Duas vezes uma famosa parteira, sem diploma nem Deus que a fundasse, a livrara de perigos do parto: “Dize logo que tudo neste mundo é farsa. Como pode dizer que estás pior porque procuraram distrair-te! Animal! Que saberá ele do que é uma mulher nervosa, de imaginação viva! Aposto que, se eu não estivesse aqui, passarias o dia inteiro consumindo-te em pensamentos tristes, dando voltas à ideia de teu Quintanar ausente: ‘por que não estará aqui, será mesmo um bom marido, já não é criança para não refletir’... e sei lá eu; as coisas que ocorrem a uma pessoa na solidão, quando está doente e tem motivo para queixar-se de alguém.”
Ana estudava a maneira de ouvir Visita sem tomar conhecimento do que ela dizia, pensando em outra coisa, único meio de tornar suportável o tormento daquela tagarelice. Às dez e quinze, dom Víctor entrou no quarto, pingando pássaros e apetrechos de caça, com grandes polainas e cinturão de couro; atrás dele vinha dom Tomás Crespo, Frígilis, de chapéu cinzento amarrotado, cachecol xadrez e sapatos brancos de sola tripla. Quintanar deixou cair no chão uma capa impermeável, como Manrique atira a capa no primeiro ato de O Trovador; e, mal o fez, lançou-se nos braços da mulher, cobrindo-lhe a testa de beijos, sem se lembrar de que havia testemunhas.
“Ah, sim! Aquilo era o pai, a mãe, o irmão, a doce fortaleza da carícia conhecida, o amparo espiritual do amor doméstico; não, ela não estava sozinha no mundo, seu Quintanar era seu.” Jurou-lhe fidelidade eterna em silêncio, no beijo longo e intenso com que retribuiu os do marido. O bigode de dom Víctor parecia uma vassoura molhada; com a umidade que trazia dos pântanos, borrifou a testa da esposa; mas ela não sentiu repugnância e viu ouro e prata naqueles pelos hirtos, que pareciam uma escova de ervas tornadas cinza junto à raiz e tostadas nas pontas. Dom Víctor também opinou que “aquilo não seria nada”, mas, ainda assim, lamentou do fundo da alma não ter vindo no trem das quatro e meia.
— Estás vendo, Crespo, se eu tivesse obedecido àquele pressentimento... Sim, senhora — acrescentou, dirigindo-se a Visita —, que ele o diga, não sei por que me veio a ideia de que devia voltar mais cedo para casa...
— Oh, sim, disso esteja certo. Existem pressentimentos — gritou a mulher do Banco, que já se dispunha a narrar três ou quatro de suas adivinhações.
— Mas este aqui teve a culpa...
Frígilis encolheu os ombros e tomou o pulso da enferma, que lhe apertou a mão, perdoando-lhe tudo. A verdade era que dom Víctor quisera voltar mais cedo... para não perder o teatro. Mas isso não se podia dizer. Frígilis, em silêncio, teve mais uma vez ocasião de negar a existência de avisos sobrenaturais. Tirara o chapéu, e seu cabelo espesso, de cor agreste, cortado por igual, parecia uma touceira, uma amostra das brenhas. Fechava os olhos cinzentos e franzia o cenho; a luz o incomodava, esbarrava nos móveis, cheirava a mato; trazia grudada ao corpo a névoa dos pântanos e parecia rodeado pela escuridão e pelo frescor do campo. Tinha algo da fera que cai na armadilha, do morcego que, para sua desgraça, entra numa habitação humana atraído pela luz... E, junto de Ana nervosa, apreensiva, febril, parecia o símbolo da saúde querendo contagiar a enferma com suas emanações.
Quando marido e mulher ficaram a sós, depois de conseguirem, não sem trabalho, que Visita renunciasse a sacrificar-se ficando para velar a amiga, Ana tornou a pedir os braços do esposo e disse-lhe com voz em que tremia o pranto:
— Não te deites ainda, estou muito assustada, preciso de ti, fica aqui, por Deus, Quintanar...
— Sim, filha, sim, pois não faltava mais nada...
E, solícito, carinhoso, ajustava-lhe a dobra dos lençóis às costas rosadas, acetinadas, que ele nem sequer olhava. Mas a Regenta logo percebeu que o marido estava preocupado.
— Que tens? Estás apreensivo? Acreditas que estou pior do que dizem... e queres disfarçar...
— Não, filha, não... pelo amor de Deus... não é isso...
— Sim, sim; eu te conheço. Pois não tenhas medo; garanto-te que isto passará; eu sei. Já sabes como sou, parece que uma doença me ameaça... e depois não é nada... Agora, sim, estou muito nervosa, de repente me parece que o mundo me abandona, que fico sozinha, sozinha... e preciso de ti... mas isso passa, são os nervos...
— Sim, filha, claro, são os nervos.
E, sem conseguir conter-se, levantou-se dizendo:
— Minha vida, sou todo teu.
E saiu pela porta lateral.
— Vejamos — gritou no corredor —, Petra, Servanda, Anselmo, qualquer um... dom Tomás levou a perdiz?
Anselmo examinou as aves mortas, depositadas na cozinha, e respondeu de longe:
— Sim, senhor; aqui não há perdiz nenhuma!
— Ira de Deus! Por Deus! Maldição! Sempre o mesmo! Se ela é minha, se fui eu que a matei... se tenho certeza de que foi o meu tiro... É o homem mais vaidoso!... Anselmo! Ouve o que digo: amanhã, ao romper do dia, entendes?, vais pessoalmente à casa de dom Tomás e lhe pedes, de minha parte, com a maior energia e seriedade, a perdiz, esteja como estiver, entendes? E dize que não é brincadeira; mesmo que já esteja depenada, quero que ma restitua... Suum cuique.
Ana ouviu os gritos e apressou-se a perdoar aquela fraqueza inocente do marido. “Todos os caçadores são assim”, pensou com a benevolência da febre incipiente.
Dom Víctor voltou, e o sorriso doce, cristão, da esposa restituiu-lhe a calma, já que a perdiz não podia fazê-lo.
Só à uma e meia sua mulher conciliou o sono, e então, e somente então, dom Víctor pôde preparar-se para dormir.
Já em mangas de camisa diante da cama, considerou que a doença de sua queridíssima Ana era um sério contratempo. “Ele não estava alarmado, Deus bem o sabia; não havia perigo; se houvesse, ele o reconheceria pelo susto, pela dor que o estaria atormentando; não havia susto, não havia dor, logo não havia perigo. Mas havia contratempo; para começar, adeus teatro por muitos dias e, embora agora se tratasse de uma companhia de zarzuela, que era um gênero híbrido, ainda assim ele confessava que começava a saborear as belezas suaves e simples da zarzuela séria, e encontrara nas noites anteriores certo colorido local em Marina e sabor de época em O Dominó Azul, sem contar os amores contrariados de O Juramento, que eram coisa delicada. Mas e a expedição com o Governador da província para inaugurar a ferrovia econômica do Ocidente? E as partidas de dominó com o engenheiro-chefe no Casino? E os longos passeios de que precisava para fazer bem a digestão?” A ideia de não sair de casa durante muitos dias o aterrava...
Deitou-se de péssimo humor. Apagou a luz. A escuridão sugeriu-lhe um remorso. “Era um egoísta, não pensava em sua pobre mulher, mas em sua comodidade, em seus caprichos.” E, como desagravo, para enganar a si próprio, suspirou com força e exclamou em voz alta:
— Pobrezinha da minha alma!
E adormeceu satisfeito. Despertou com a cabeça cheia de projetos, como de costume; mas, de repente, pensou em Ana, na febre, e sua alma encheu-se de uma tristeza covarde... “Deus sabe o que aquilo seria!” A farmácia, os xaropes que ele abominava, o medo de errar as doses, o pavor que lhe inspiravam os remédios esverdeados, que acreditava poderem ser veneno, pois, para dom Víctor, apesar dos estudos físico-químicos, o veneno era sempre verde ou amarelo; os enganos e as trapalhadas das criadas, as horas de tédio e silêncio ao pé do leito da enferma, as inquietações naturais, o ficar dependente das palavras de Somoza, o ter de repetir a todos os que quisessem informar-se a mesma coisa, os graus da doença... todos esses incômodos se aglomeraram na imaginação de dom Víctor, que cuspiu bílis repetidas vezes e se levantou cheio de pena de si mesmo. Foi ao quarto da mulher e esqueceu de súbito tudo aquilo: Ana estava mal, delirara; não quiseram acordá-lo, mas a senhora passara uma noite terrível, segundo Petra, que a velara.
Somoza chegou às oito.
— O que é? O que ela tem? É grave?
Dom Víctor, com as mãos cruzadas, apertadas, convulso, fazia essas perguntas diante da enferma, que, embora letárgica, ouvia.
O médico não respondeu. Prescreveu e saiu para a saleta.
— O que há? O que há? — repetia ali Quintanar, em voz trêmula e muito baixa. — O que há?
Dom Robustiano olhou-o com desprezo, ódio e indignação...
“O que há! O que há! Isso se pergunta depressa.” Dom Robustiano não sabia o que ia fazer, mas pelos sinais parecia coisa séria; foi o que pensou, porém disse:
— Há... que andar num pé só, ter muito cuidado, não deixá-la nas mãos das criadas, nem de Visitación, que a atordoa com a tagarelice... é isso que há.
— Mas é coisa grave, é coisa grave?
— Hum... é e não é. Não, não é grave; a ciência não pode dizer que é grave... nem pode negá-lo. Mas, meu caro, o senhor não entende dessas coisas... Trata-se de uma hepatite? Pode ser... talvez haja gastroenterite... talvez... mas há fenômenos reflexos que enganam...
— Então não são os nervos? Nem a primavera médica?...
— Homem, os nervos sempre entram na história... e a primavera... o sangue... a seiva nova... está claro... tudo influi... mas o senhor não pode entender isso...
— Não, senhor, não posso. Nas horas vagas li livros de medicina, conheço Jaccoud... mas semelhante leitura me dava vontade de... enfim, sentia náuseas e parecia-me ouvir o sangue circular, e eu imaginava que era assim... uma coisa parecida com o reservatório do Lozoya, com canais e comportas no coração...
— Está bem, está bem; por mim, não diga mais disparates. Até a tarde; se houver novidade, mandem avisar. Ah, e não ponham roupa demais sobre ela, nem deixem... que Visitación entre... ela a atordoa. A ciência proíbe terminantemente que essa senhora protetora de parteiras meta aqui os pés!...
Quatro dias depois, dom Robustiano mandou em seu lugar um médico jovem, seu protegido; julgava chegado o momento de retirar-se do caso. Já se sabia: ele não podia tratar pessoas muito queridas quando chegavam a certo estado...
O substituto era um rapaz inteligente, muito estudioso. Declarou que a doença não era grave, mas seria longa e teria convalescença penosa. Não gostava de usar os nomes vulgares e pouco exatos das doenças, e empregava os técnicos quando o apertavam, não por ridícula pedanteria, mas pelo gosto de não informar aos profanos aquilo que não importava que soubessem e que, a rigor, não podiam saber. O resultado foi que Anita julgou que ia morrer e sofreu ainda mais do que no período de maior perigo, quando começaram a dizer-lhe que estava melhor. Ao saber que passara seis dias naquele torpor, com intervalos de exaltação e delírio, admirou-se de que tão longo martírio lhe tivesse parecido tão breve.
A fraqueza deixava-a não apenas prostrada, mas exaltada e vidrada. Via tudo de um amarelo pálido; entre os objetos e ela flutuavam infinitos pontos e pequenos círculos de ar, às vezes como bolhas, outras como poeira e teias de aranha muito sutis. Se deixava os braços estendidos sobre a dobra do leito e olhava as mãos magras, sulcadas por feixes azuis sobre um fundo branco fosco, de repente acreditava que aqueles dedos não eram seus, que movê-los não dependia de sua vontade, e decidir-se a querer esconder as mãos custava-lhe grande esforço. Suas maiores angústias vinham ao tomar o primeiro alimento: caldos insípidos, sem gosto, que dom Víctor esfriava a sopros, soprando com fé e perseverança, manifestando seu zelo e carinho naquele modo de soprar. O ideal do caldo, segundo Quintanar, nunca era realizado pelas criadas de Vetusta. Era disso que ele falava enquanto Ana sentia suores mortais que pareciam arrancar-lhe da pele a última força e até o ânimo de viver. Fechava os olhos e deixava de sentir-se por fora e por dentro; às vezes escapava-lhe a consciência de sua unidade, começava a ver-se repartida em mil, e o horror que a dominava produzia uma reação de energia suficiente para fazê-la voltar ao seu eu, como a um porto seguro. Ao recuperar essa consciência de si, sentia que sofria muito, mas quase gozava com aquela dor, que afinal era a vida, prova de que ela era quem era. Se dom Víctor falava ao seu lado, sem querer Ana acompanhava então o pensamento do marido e, contra o próprio desejo, a atenção se fixava nos juízos de Quintanar, e a inteligência lhes aplicava uma crítica rigorosa, uma análise sutil e dolorosa para a enferma, que, ao pulverizar contra a vontade as desrazões do marido, padecia tormento indescritível, localizado, segundo ela, no cérebro.
Via o médico muito preocupado com o tronco e sem pensar nas dores inefáveis que ela sentia naquilo que tinha de mais seu, em algo que devia ser corpo, mas que parecia alma, de tão íntimo. Todos os dias era preciso apalpar-lhe o ventre e fazer perguntas relativas às funções mais humildes da vida animal; dom Víctor, que não confiava na memória, sempre com o relógio na mão, mantinha num caderno um registro em que assentava, com abreviaturas cuidadosas e estilo gongórico, aquilo que ao médico importava saber desses pormenores.
Enquanto durou o temor da gravidade, o amoroso esposo não pensou senão na enferma e cumpriu honestamente o dever; se às vezes era importuno, descuidado ou pouco hábil, não tinha consciência disso. Depois começou a aborrecer-se, a sentir falta da vida ordinária, e exagerava ao contar as horas que passava acordado. Para suportar melhor sua cruz, decidiu tomar gosto pelo ofício de enfermeiro e conseguiu: preparar beberagens, pintar o corpo da mulher com iodo, soprar e coar caldos e consultar o relógio para contar os minutos e até os segundos tornou-se para ele tão divertido quanto fazer pórticos ogivais de marchetaria. Nessa operação chegou a empregar uma exatidão que impacientava Petra e Servanda. Esperava com ansiedade a visita do médico, primeiro para ouvi-lo dizer vinte vezes que Ana ia melhor, muito melhor, e também para saborear a conversa alegre, alheia a todas as doenças do mundo, que se seguia à parte clínica da visita. O substituto de Somoza não era falador, mas divertia-se ouvindo Quintanar, e este chegou a sentir grande afeição por Benítez, que assim se chamava. O contraste entre os cuidados vulgares e insignificantes, o quarto estreito e cheio de atmosfera abafada, a vida monótona da casa, e os grandes interesses da Europa, a guerra da Rússia, o ar livre, a última zarzuela, encantava dom Víctor, que conduzia a conversa para coisas frescas, grandiosas e cheias de acontecimentos. Também gostava de discutir com Benítez e sondá-lo, como dizia. Um dos problemas que mais preocupavam o dono da casa era o da pluralidade dos mundos habitados. Ele acreditava que sim, que havia habitantes em todos os astros; a generosidade de Deus assim o exigia. Citava Flammarion, as cartas de Feijóo e a opinião de um bispo inglês cujo nome não recordava, “Mister não sei quantos”, porque para ele todos os ingleses eram Mister.
Desde que o médico declarou que a melhora, embora lenta, provavelmente seria contínua, Quintanar, muito contente, não permitiu que se duvidasse daquela marcha ininterrupta em busca da saúde. Seu egoísmo cândido, porém vigoroso, estava cansado de pensar nos outros, de esquecer-se de si; não queria mais tempo de servidão, e, quando Ana se queixava, o marido fazia uma careta e chegou até a falar, em voz agridoce, de paciência e seriedade.
— Não sejamos crianças, Ana; estás melhor, isso que sentes é efeito da fraqueza... não penses nisso... é apreensão; a apreensão faz mais vítimas do que o mal.
E repetia infalivelmente a parábola do cólera e da apreensão.
A ideia de uma recaída, ou mesmo de uma estagnação, parecia-lhe subversiva, uma maquinação contra seu repouso. “Ele não era de pedra. Não poderia resistir...”
Já não sentia compaixão da enferma; ali já não havia senão nervos... e começou a pensar exclusivamente em si mesmo. Entrava e saía a todo instante do quarto de Ana; quase nunca se sentava e chegou a aborrecer-se do registro dos remédios e dos demais pormenores íntimos. O médico teve de entender-se com Petra. Quintanar inventava sofismas e até mentiras para ficar fora, em seu gabinete, no Parque. “Que grandes coisas eram a Arte e a Natureza! A rigor, tudo era uma só coisa, Deus o autor de tudo.” E dom Víctor respirava as brisas de abril com prazer voluptuoso, engolindo ar a plenos pulmões. Voltou a consertar suas maquininhas, sonhou com novas invenções e invejou Frígilis por ter aclimatado o Eucalyptus globulus em Vetusta.
A Regenta percebeu a ausência do marido; ele a deixava sozinha durante horas e horas que lhe pareciam minutos. Quando as angústias a inundavam em mares de tristeza que pareciam não ter margens, quando se sentia como que isolada do mundo, irremediavelmente abandonada, já não chamava Quintanar, embora ele fosse o único ser vivo de quem então se lembrava; preferia deixá-lo tranquilo lá fora, porque, se vinha, fazia-lhe mal com aquele desprezo tagarela e absurdo pelos padecimentos nervosos.
Numa tarde cor de chumbo, tanto mais triste por ser de primavera e parecer de inverno, a Regenta, erguida no leito entre muralhas de travesseiros, sozinha, já escuro o fundo do quarto, onde casacos seus e umas calças que dom Víctor deixara ali assumiam posturas trágicas; sem fé no médico e acreditando em não sabia que mal incurável, incompreendido pelos doutores de Vetusta, teve de repente, como um amargor no cérebro, esta ideia: “Estou sozinha no mundo.” E o mundo era plúmbeo, amarelado ou negro, conforme as horas, conforme os dias; o mundo era um rumor triste, distante, abafado, em que havia cantigas de meninas, monótonas, sem sentido; estrépito de rodas que faziam tremer as vidraças, ranger as pedras e se perdiam ao longe como o rosnar de ondas rancorosas; o mundo era uma contradança do sol girando muito depressa ao redor da terra, e isso eram os dias: nada. As pessoas entravam e saíam de seu quarto como no palco de um teatro, falavam ali com interesse afetado e pensavam no que havia lá fora; sua realidade era outra, aquilo era a máscara. “Ninguém amava ninguém. Assim era o mundo, e ela estava sozinha.” Olhou para o corpo e ele lhe pareceu terra. “Era cúmplice dos outros, também escapava sempre que podia; parecia-se mais com o mundo do que com ela, era mais do mundo do que dela.”
“Eu sou minha alma”, disse entre dentes e, soltando os lençóis que suas mãos apertavam, escorregou no leito e ficou de costas enquanto a muralha de travesseiros desmoronava. Chorou de olhos fechados. A vida voltava por entre aquelas ondas de lágrimas. Ouviu a campainha de um relógio da casa. Era a hora de um remédio. Naquela tarde, Quintanar estava encarregado de dá-lo, mas não aparecia. Ana esperou. Não quis chamar e inclinou-se para a mesa de cabeceira. Sobre um livro de capa verde havia um copo. Tomou-o e bebeu. Então leu, distraída, na lombada do volume grosso: Obras de Santa Teresa. I.
Estremeceu, sentiu um terror vago; de repente veio-lhe à memória aquela tarde em que lera Santo Agostinho no caramanchão do pomar, em Loreto, quando era menina, e julgara ouvir vozes sobrenaturais que estouravam em seu cérebro; agora já não possuía a fé cândida de então. “Era uma casualidade, pura casualidade, a presença daquele livro místico coincidindo com os pensamentos de abandono que a entristeciam e despertando ideias de piedade, com forte impulso, com calor da alma, sérias, profundas, não impostas, mas como que reveladas e imediatamente acolhidas pelos abraços do desejo... Mas não importava; fosse ou não um aviso do céu, ela aceitava a lição, aproveitava a coincidência, compreendia o sentido profundo do acaso. Não se queixava de estar sozinha, não caíra como desfalecida pela ideia do abandono?... Pois ali estavam aquelas letras douradas: Obras de Santa Teresa. I. Quanta eloquência num título! ‘Estás sozinha! E Deus?’”
O pensamento de Deus foi então como uma brasa introduzida no coração; tudo ardeu ali dentro em piedade; e Ana, com irresistível ímpeto de fé ostensiva, viva, material, fortíssima, pôs-se de joelhos sobre o leito, toda branca; e, cega de pranto, as mãos unidas tremendo sobre a cabeça, balbuciante, exclamou com voz de menina doente e amorosa:
— Meu Pai! Meu Pai! Senhor! Senhor! Deus da minha alma!
Sentiu calafrios e ondas de vertigem que subiam ao cérebro; apoiou-se no estuque frio e caiu sem sentidos sobre a colcha de damasco vermelho.
Apesar da proibição de dom Víctor, veio o retrocesso, a enferma recaiu, e voltaram os sustos, as aflições, as noites em claro; o médico tornou a ser um oráculo, os pormenores do quarto, negócios árduos, e o relógio, um ditador lacônico.
Ana teve naquelas noites sonhos horríveis. Ao amanhecer, quando a luz pálida e covarde se arrastava pelo chão, depois de entrar laminada pelas frestas da varanda, despertava sufocada por aquelas visões, como náufrago que alcança a praia... Parecia-lhe ainda sentir o roçar dos fantasmas grosseiros e cínicos, cobertos de peste; cheirar as emanações hediondas de sua podridão, respirar na atmosfera fria, quase viscosa, dos subterrâneos em que o delírio a aprisionava. Monstros andrajosos, ameaçando-a com o contato de suas chagas purulentas, obrigavam-na, entre gargalhadas, a passar uma e cem vezes por um buraco estreito aberto no chão, onde seu corpo não cabia sem tormento. Então julgava morrer. Numa noite, a Regenta reconheceu naquele subterrâneo as catacumbas, segundo as descrições românticas de Chateaubriand e Wiseman; mas, em vez de virgens de túnica branca, vagavam pelas galerias úmidas, estreitas e esmagadas larvas repugnantes, descarnadas, cobertas de casulas de ouro, capas pluviais e mantos que, ao tocá-los, eram como asas de morcego. Ana corria, corria sem poder avançar quanto desejava, procurando o buraco estreito, querendo antes dilacerar nele as carnes do que suportar o cheiro e o contato das máscaras asquerosas; mas, ao chegar à saída, uns lhe pediam beijos, outros ouro, e ela escondia o rosto e distribuía moedas de prata e cobre, enquanto ouvia cantar responsos às gargalhadas e a água suja dos aspersórios que bebiam nas poças lhe salpicava o rosto.
Quando despertou, sentiu-se inundada de suor frio, teve asco do próprio corpo e a apreensão de que seu leito cheirava como o humor fétido dos aspersórios do pesadelo...
“Iria morrer? Eram aqueles sonhos repugnantes emanações da sepultura, o sabor antecipado da terra? E aqueles subterrâneos e suas larvas eram imitação do inferno? O inferno! Nunca pensara nele demoradamente; era uma das tantas crenças irrefletidas nela, como na maioria dos fiéis; acreditava no Inferno como em tudo o que a Igreja mandava acreditar, porque sempre que seu pensamento se rebelara ela o submetera com um ato de pretendida fé, dissera ‘creio às cegas’, tomando as palavras e a resolução de crer pela própria crença. Mas agora era diferente: o Inferno já não era um dogma englobado em outros; ela sentira seu cheiro, seu sabor... e compreendia que antes, a rigor, não acreditava no Inferno. Sim, sim, era material, ou assim parecia; por que não? Como lhe parecia agora vã a filosofia superficial do otimismo ruidoso, do espiritualismo abstrato, bonachão, sem percepção da triste realidade do mundo! Havia inferno! Era assim... a podridão da matéria para os espíritos apodrecidos... E ela pecara, sim, sim, pecara. Como eram diferentes o critério que agora aplicava às suas culpas e aquele que o mundo costumava empregar e com o qual ela se absolvera de certas leviandades que já lhe pesavam como chumbo!”
E recordava máximas e aforismos religiosos que ouvira do Magistral, sem penetrar sua terrível severidade, aquele sentido lúgubre e profundo que não pareciam ter nos lábios finos, suaves, cheios de sons sibilantes, do pulquérrimo cônego.
O sol já subira bom trecho no céu, a manhã já se aquecia com as carícias tépidas de um abril de Vetusta; na casa julgavam a Regenta prostrada ou adormecida e não abriam as folhas da varanda nem interrompiam o descanso da enferma. Ana sentia o dia no melancólico regalo que o próprio leito, tantas vezes aborrecido, lhe oferecia naquelas horas da manhã de primavera; outra vez a vida começava a mover-se naquele corpo murcho, devastado como um campo de batalha; a vida avançava pelo terreno de sua vitória, ainda duvidosa dela. O cérebro recuperava os domínios da lógica, sua saúde; a memória, firme, já não era um tormento nem se misturava a visões e disparates.
Ana, contente por a deixarem sozinha, por a julgarem dormindo ou em sopor, repassava na consciência aqueles pecados de que queria
acusar-se; a memória era a relatora, a imaginação, o promotor, e pouco a pouco, à medida que as ondas de saúde subiam em sua maré, a enferma, perdido o terror com que despertara, ouvia a acusação com uma doce curiosidade crescente; a ideia do inferno se desvanecia, como morrem as vibrações de uma lâmina, já longe das sensações de asco e terror; aquelas culpas recordadas, que eram a vida, a realidade ordinária, passavam pelo cérebro de Ana como alimento, davam calor e força ao ânimo e, sem que o remorso se extinguisse, o relato adquiria interesse cada vez maior.
Passaram então pela lembrança todos os dias que se seguiram ao entorpecimento do rigoroso temporal, quando o espírito de Ana deixara aquela espécie de vida de serpente hibernante. Recordou a romaria de São Brás, na estrada da Fábrica Velha; aquela tarde de sol que era uma festa do céu; a torre da catedral lá em cima, como no cume de um monumento, renda de pedra escura sobre fundo laranja e violeta de um céu suave, listrado por nuvens longas, estreitas, onduladas, imóveis sobre o abismo, como se esperassem que o sol se deitasse para fechar o horizonte... Sem saber como, São Brás anunciava a primavera; Ana já esperava aqueles dias em que, entre longos intervalos de mau tempo, aparece um pouco de luz que arranca vibrações de alegria e brilho ao verde adormecido dos campos de Vetusta; aqueles dias que são algo melhor que abril e maio: sua esperança. As ideias tristes tinham voado como pássaros de inverno; Ana se vira no passeio de São Brás, rodeada de gente, festejada, e ao seu lado caminhava dom Álvaro Mesía, apaixonado, triste de tanto amor, resignado, carinhoso sem interesse, suave e terno, sem esperança. Algo semelhante ao encanto do próprio dia; a rigor, o inverno, nada, mas na tranquilidade e na tépida e vaga alegria do ambiente, uma delícia que a Regenta saboreava com gozo inefável.
Assim era dom Álvaro; jamais seria seu, isso não; aquele verão ardente não viria, ela nem sequer lhe permitiria falar claramente, insistir em suas pretensões; mas tê-lo ao lado, senti-lo amá-la, adorá-la, isso sim: era doce, suave, um prazer tranquilo, profundo... Ela o olhava com labaredas que apagava assim que brotavam dos olhos, sorria-lhe como uma deusa que admite o holocausto, mas uma deusa humilde, maternal, cheia de caridade e graça, embora não de amor de fogo. Assim fora o passeio de São Brás.
Desde aquela tarde, Mesía recuperara parte das esperanças; voltou a acreditar na influência do físico e propôs-se permanecer ao lado de Ana o maior tempo possível. Era uma vilania, mas recorreu à amizade cega de dom Víctor. No Casino sentava-se junto dele, tinha a paciência de vê-lo jogar dominó ou xadrez e, terminada a partida, tomava-o pelo braço; como costumava chover, passeavam pelo salão comprido, o de baile, escuro, triste, ressoante sob os passos dos cinco ou seis pares que o percorriam de alto a baixo a grandes passadas, as quais, pelo furor dos saltos, tinham algo de protesto contra o mau tempo. Havia veterano do Casino que percorrera naquele salão caminho suficiente para chegar à lua. Os dois amigos passeavam, e Mesía ia entrando, entrando pela alma do regente aposentado e tomando posse de todos os seus recantos.
Dom Víctor chegou a acreditar que, no mundo, não havia para Mesía negócios mais importantes do que os dele, os de Quintanar, e, sem medo de aborrecê-lo, mantinha-o tardes inteiras preso ao braço, dando voltas pelas tábuas trêmulas do salão, detendo-se a cada passagem interessante do relato ou sempre que havia uma dúvida a consultar com o amigo. Dom Álvaro suportava o tormento pensando na vingança. Durante muito tempo sua delicadeza, ou o que quer que fosse, resistira a tomar aquele caminho subterrâneo e traiçoeiro, mas já não podia evitá-lo. Além disso, “que diabo! Maiores patifarias havia na história de suas aventuras”.
Dom Víctor parava, soltava o braço do confidente, erguia a cabeça para olhá-lo face a face e dizia, por exemplo:
— Veja, aqui entre nós, no segredo da... enfim... contando com sua discrição... Frígilis também tem seus defeitos. Eu o amo mais do que a um irmão, isso sim, mas ele... ele me tem em pouca conta... acredite... Não tente negar, é inútil, eu o conheço melhor: ele me tem em pouca conta, julga-se muito superior. Não lhe nego certas vantagens. Entende mais de arboricultura, conhece melhor os lugares de caça, é mais constante do que eu no trabalho... mas atirar melhor do que eu! Homem, por Deus! E o talento mecânico? Ele é desajeitado dos dedos e lento de engenho.
E dom Víctor, parando outra vez, quase ao ouvido de dom Álvaro, acrescentava:
— Direi a palavra: um rotineiro!
Quintanar era inesgotável no capítulo das queixas e da inveja miúda, varejista, quando se tratava do amigo íntimo, de seu Frígilis; sentia-se dominado por ele e desabafava a colerazinha surda, covarde, no fundo bonachona, nessas confidências. Mesía era uma espécie de rival nascente de Frígilis; dom Víctor encontrava certa satisfação maligna na infidelidade incipiente.
Dom Álvaro calava e ouvia. Só quando dom Víctor tratava de sua boa pontaria ficava um pouco preocupado. Parecia-lhe impossível que se pudesse falar tanto de um homem tão insignificante como dom Tomás Crespo, a quem julgava louco de nascença.
Anoitecia, continuava a chover, os criados acendiam duas ou três luzes de gás no salão, e Quintanar percebia, por esse sinal e pelo cansaço, que lhe arrancava suor copioso, que falara demais; sentia então remorsos, compadecia-se de Mesía, agradecia-lhe no íntimo o silêncio e a atenção e muitas vezes o convidava a tomar um copo de cerveja alemã em sua casa.
A frase era:
— Vamos à Rinconada?
Mesía, calado, seguia dom Víctor.
Uma intuição singular dizia ao ex-regente que recompensava bem o amigo por sua atenção levando-o para casa. Por que dom Álvaro haveria de gostar de acompanhá-lo? Se perguntassem isso a Quintanar, ele não saberia responder. Mas o coração lho dizia; observara-o sem fixar-se na observação: Mesía gostava de entrar na casa da Rinconada.
Costumava levá-lo ao gabinete de trabalho, ao seu museu, como dizia; ali lhe explicava o mecanismo daqueles intrincados pedaços de madeira e molas e, convencido da ignorância do amigo, enganava-o sem consciência. O que dom Álvaro não consentia era que se passasse revista às coleções de ervas e insetos: deixava-o tonto fixar sucessiva e rapidamente a atenção em tantas coisas inúteis. O único bicho simpático a dom Álvaro era um pavão empalhado por Frígilis e seu amigo. Costumava acariciar-lhe o peito enquanto Quintanar dissertava:
— Está bem — dizia dom Víctor —, passaremos ao meu gabinete, já que o senhor despreza minhas coleções. Anselmo, a cerveja no gabinete.
O gabinete era outro museu: ali estavam as armas e a indumentária. Uma panóplia antiga completa, outras duas modernas, muito brilhantes e bordadas; espingardas, pistolas e bacamartes de todas as épocas e tamanhos enchiam as paredes e os cantos. Em arcas e armários, dom Víctor guardava, com o carinho de colecionador, os trajes de amador que exibira em tempos melhores. Se se entusiasmava falando de seus louros murchos, abria as arcas, abria os armários, e seda, galões e plumas, contas de vidro e fitas numa mistura de cores berrantes saltavam sobre o tapete, e naquele mar de recordações de pano Quintanar perdia a cabeça. Numa caixa de lata, entre ervas, guardava como ouro em pó um objeto que à primeira vista pareceu a Mesía uma serpente; de fato, o volume jazia enroscado e era verde-negro... Não havia o que temer... dom Víctor domava feras; aquilo era a corrente que arrastara ao representar Segismundo em A vida é sonho, no primeiro ato.
— Veja, meu amigo, ao senhor posso dizê-lo; não é imodéstia. Reconheço, como não?, a superioridade de Perales no teatro antigo, seu Segismundo é uma revelação, concedo, revela melhor do que o meu a filosofia do drama, mas... eu não gostava do modo como ele arrastava a corrente; parecia um cão com uma maça presa ao rabo. Eu a manejava com muito maior verossimilhança e naturalidade; arrastava a corrente, acredite, como se não tivesse arrastado outra coisa em minha vida. Tanto assim que, certa noite, em Calatayud, atiraram todo esse ferro ao palco, como símbolo de minha habilidade. Por pouco o tablado não desabou. Guardo essa corrente como a melhor recordação de minha efêmera vida artística.
Mesía esperava a chegada de Ana e assim conseguia suportar a conversa do amigo, mas muitas vezes a Regenta não aparecia pelo gabinete do marido, e o galanteador tinha de contentar-se com o copo de cerveja e o teatro de Calderón e Lope.
Mas já estava dentro da casa. Pouco a pouco atreveu-se a ir a qualquer hora e Ana, sem perceber, encontrou-o ao lado como um objeto familiar. Mesía ia-se tornando para o casarão aquilo que Frígilis era para a horta.
Aquele procedimento rasteiro, de vilão, deveria tê-la irritado, mas não a irritou; teve de confessar que não desprezava nem aborrecia dom Álvaro, embora suas intenções fossem tortas, miseráveis; queria abusar da confiança de dom Víctor. “Mas e se não queria? Se se contentava em estar perto dela, vê-la e falar-lhe com frequência, e tê-la por amiga? Veríamos. Se ele se excedesse, ela tinha certeza de que resistiria e até sentia coragem para lançar-lhe em rosto seu crime, sua baixeza, e expulsá-lo de casa.”
Passaram-se dias e Ana estava cada vez mais tranquila. “Não, não se excedia; nada fazia além de admirá-la, amá-la em silêncio. Nem uma palavra perigosa, nem um gesto atrevido; nada de espreitar ocasiões, nada de procurar cenas; uma honradez completa; o amor que respeita a honra, a paixão que se alimenta de ver e respirar o ambiente que rodeia o ser amado. O prazer que ela sentia, também precisava confessá-lo a si mesma, era o mais intenso que saboreara na vida. E isso dizia pouco, pois tão pouco gozara!” Ao sentir dom Álvaro perto de si, segura de que não havia perigo, respirava com delícia, deixava o espírito cair numa sonolência moral que a mantinha sob os efeitos do ópio. Comparava a situação à aventura de flutuar sobre uma corrente mansa, preguiçosa, sombria, à hora da sesta; a água vai para o abismo, o corpo flutua... mas há a certeza de sair da corrente quando o perigo se aproximar; basta um esforço, duas braçadas, e se está fora, na margem... Ana já sabia, em seu íntimo, que aquilo não estava bem, porque não podia responder pela prudência de dom Álvaro. “Mas não estava segura de si mesma? Sim! Então, por que não deixá-lo ir à sua casa, contemplá-la, demonstrar os cuidados de uma mãe, a fidelidade de um cão?”
“Além disso, quem mandava em casa era seu marido, não ela. Era ela quem procurava Mesía? Não. Era ela quem mandava Quintanar trazê-lo? Não. Pois bastava. Agir de outro modo seria alarmar o marido sem motivo, incutir suspeitas sem fundamento, talvez roubar para sempre a dom Víctor a paz da alma. O melhor era calar, manter-se alerta e... gozar de esguelha a chama tépida da paixão; ainda que tão pouco, aquele calor era a fogueira mais viva de que ela se aproximara na vida.”
“E ao Magistral não se dizia nada disso. Para quê? Não havia pecado. Havia ocasião, mas ela não era procurada.” Além disso, Ana, visto que defendia sua virtude, julgava prudente ocultar do confessor tudo quanto fossem personalidades. “Se o perigo crescesse, falaria. Enquanto isso, não.”
Foi então que o Provisor viu com a luneta, do campanário da catedral, os preparativos de uma excursão ao campo em que Mesía, Frígilis e Quintanar acompanhavam a Regenta. Não foi a única; muitas vezes, assim que via um raio de sol, dom Víctor tinha a ideia de aproveitar o bom tempo e divertir-se nos botequins da estrada de Castela ou nos de Vistalegre, em companhia das pessoas que mais amava em Vetusta, a saber: sua querida esposa, Frígilis... e dom Álvaro. O pobre Ripamilán era convidado, mas dizia que, se não o levassem de carruagem... “O espírito não faltava, mas os ossos não têm espírito.”
Comia-se lá em cima o que aparecesse, o que ofereciam os estupefatos taberneiros: chouriços tostados, pingando sangue, umas migas, ovos fritos, qualquer coisa; o pão era duro, melhor! O vinho ruim, sabia a pez, melhor! Era disso que Quintanar gostava; e nesse gosto coincidia com a esposa, também amiga daqueles lanches aventurosos, nos quais encontrava um tempero picante que despertava a fome e a alegria infantil. Naqueles outeiros respirava-se o ar como coisa nova; aqueciam-se aos raios do sol com preguiça voluptuosa, como se o sol de Vetusta, lá embaixo, fosse menos benéfico. Ana percebia que naquela altura, naquele cenário, metade pastoril, metade de romance picaresco, entre tropeiros, maritornes e senhores de castelos à moda de dom Quixote, despertavam nela o instinto das artes plásticas e o senso da observação; reparava nas silhuetas de árvores, galinhas, patos, porcos, detinha-se nas linhas que pediam o lápis, via mais matizes nas cores, descobria grupos artísticos, combinações de composição sábia e harmônica e, em suma, a natureza se lhe revelava como poeta e pintor em tudo o que via e ouvia, na resposta aguda de uma aldeã ou de um rude trabalhador, nos episódios da vida do terreiro, nos grupos de nuvens, na melancolia de uma mula cansada e coberta de poeira, na sombra de uma árvore, nos reflexos de uma poça e, sobretudo, no ritmo recôndito dos fenômenos, divisíveis ao infinito, sucedendo-se, coincidindo, formando a trama dramática do tempo com uma harmonia superior às nossas faculdades perceptivas, mais adivinhada do que testemunhada. Esse novo sentido, do qual Ana tomava consciência naquelas excursões aos botequins altos de Vistalegre, a caminho de Corfín, inundava-lhe o cérebro de visões e mergulhava-a numa doce inércia em que até imaginar acabava sendo fadiga. Então a tiravam de seus êxtases naturalistas uma atenção delicada de Mesía ou uma explosão intempestiva de bom humor de Quintanar.
Dom Víctor acreditava que no campo, sobretudo quando se fazia um lanche, não se devia fazer senão loucuras; e, naturalmente, segundo ele era indispensável que alguém se disfarçasse, trocando pelo menos de chapéu. Em tais ocasiões costumava procurar um aldeão que usasse o antigo barrete da região; pedia-o emprestado e apresentava-se ao respeitável grupo coberto com aquele trapo de veludo preto. Riam para agradá-lo. Quase sempre se lanchava ao ar livre, contemplando lá embaixo o casario pardacento de Vetusta; a catedral parecia dali afundada num poço e muito pequena; esbelta, mas como um brinquedo; atrás, a fumaça das fábricas no bairro dos operários, no Campo do Sol, e mais além os milharais, agora verdes com a cevada ainda tenra, os prados, os bosques de castanheiros e carvalhos... as colinas de verde escuro e, por fim, a névoa confundindo-se com os picos das serras distantes. Filosofava-se enquanto se comia, talvez com os dedos, salame ou chouriços mal tostados, queijo duro ou omeletes de presunto, o que fosse; falava-se sem cuidado, lentamente, pensando em coisas mais profundas do que as ditas, com os olhos cravados na distância, atrás da qual se vela a lembrança, o desconhecido, a vagueza do sonho; falava-se do que era o mundo, do que era a sociedade, do que era o tempo, da morte, da outra vida, do céu, de Deus; evocava-se a infância, as datas remotas em que havia uma memória comum; e um sentimentalismo, como que desprendido da névoa que descia de Corfín, estendia-se sobre os comensais bucólicos e sua filosofia de sobremesa.
Começava a brisa; picava um pouco e tinha seus perigos, mas acariciava a pele; surgia uma estrela; o quarto crescente, que a dom Víctor parecia a dobradeira de ouro que lhe haviam presenteado em Granada, ganhava cor, isto é, luz. A conversa, já preguiçosa, caía então na astronomia e detinha-se no conceito do infinito; acabava-se por sentir um desejo vago de ouvir música. Quintanar então se lembrava de que naquela noite se cantava O Relâmpago ou Os Magiares; levantava o acampamento e, passo a passo, voltavam à sonolenta Vetusta, deixando-se escorregar pela suave descida da estrada. Frígilis oferecia o braço à Regenta, que infalivelmente o procurava; e Mesía, resignado, firme no propósito de ser prudente enquanto fosse necessário, caminhava ao lado de dom Víctor, que talvez se permitisse cantar, a seu modo, o spirto gentil ou a casta diva, embora preferisse recitar versos, sem jamais esquecer-se de dizer com Góngora:
> À cabana os encaminha,
> pois o sol deixa o horizonte,
> e a fumaça da cabana
> vai servindo-lhes de norte.
Os sapos cantavam nos prados, o vento cochichava nos galhos nus, que se chocavam alegres, inclinando-se, já grávidos das folhas novas; e Ana, apoiada tranquilamente no braço forte do melhor amigo, farejava no ambiente os anúncios inefáveis da primavera. Era disso que ela e Frígilis falavam. Crespo, satisfeito, tranquilo, sereno, em voz baixa, como se respeitasse o primeiro sono do campo, seu ídolo, deixava cair as palavras como orvalho na alma de Ana, que então compreendia aquela adoração tranquila, aquele culto poético, nada romântico, que Frígilis consagrava à natureza, sem chamá-la assim, é claro. Nada de grandes sínteses, de quadros dissolventes, de filosofia panteísta; pormenores, história dos pássaros, das plantas, das nuvens, dos astros; a experiência da vida natural cheia de lições de uma observação riquíssima. O amor de Frígilis à natureza era mais de marido do que de amante, e mais de mãe do que qualquer outra coisa. Naqueles momentos, ao voltar para Vetusta com Ana pelo braço, tornava-se eloquente, falava longamente e sem medo, embora sempre devagar; em sua voz havia arrulhos amorosos para o campo que descrevia, e em seus lábios tremia a gratidão com que ouvia de outra pessoa palavras de carinho e interesse por árvores, pássaros e flores. Ana invejava, em tais horas, aquela existência de árvore inteligente, e apoiava-se e quase se recostava em Frígilis como num carvalho venerável. E atrás vinha o outro, ela o sentia. Às vezes dom Álvaro falava com Ana, e Ana respondia em voz afável, como pagamento por sua prudência, sua paciência e seu martírio... “Porque, sem dúvida, suportar Quintanar durante tanto tempo era um martírio.”
Dom Álvaro suava de angústia. Dom Víctor pendurava-se em seu braço, erguia os olhos ao céu e divertia-se encontrando semelhanças entre os grandes negrumes da noite e as formas mais vulgares da terra.
— Veja, veja, aquele cumulus é igualzinho a Ripamilán; imagine-o com o chapéu eclesiástico na mão...
— Aquele cirrus negro parece o enfeite de um toureiro...
Ao chegar à Rinconada, enquanto deixava passar à frente dom Víctor, que trazia uma chave pequena, dom Álvaro levantava o punho fechado sobre a cabeça do insuportável amigo... Não descarregava o golpe... não... mas... “Já o descarregaria!”
“Oh!”, pensava, “agora, sim, estou no meu direito. Olho por olho.”
Assim vivia Ana, menos entediada, embora não contente, sem grandes remorsos, embora não satisfeita consigo mesma. Nem permitia a dom Álvaro aproximar-se, alimentar esperanças que ela sustentasse, nem o repelia com o desdém categórico que a virtude, aquilo que se chama virtude, exigia. Esses meios-tons da moralidade pareciam-lhe então os mais conformes à fraca natureza humana. “Por que hei de julgar-me mais forte do que sou?”
Também voltou a frequentar a casa dos Vegallana. Foi muito bem recebida; a mulher do Banco cobria-a de beijos, falava-lhe de modas, mandava moldes para sua casa e lembrava-lhe visitas que precisava retribuir e às quais ela a acompanhava, porque dom Víctor se recusava a perder tempo com tais cumprimentos.
— Senhor! — gritava ele. — Eu não sirvo para isso; não me façam falar do tempo, do mau serviço das criadas, da carestia dos alimentos. Exijam de mim qualquer coisa, menos fazer visitas de cortesia!
“Sou artista, não sirvo para essas ninharias”, dizia consigo.
Visitación procurava introduzir em Ana, às mãos-cheias, pelos olhos, pela boca, por todos os sentidos, o demônio, o mundo e a carne; o bom tempo a ajudava.
A Regenta não se entregava com grande ardor àquelas diversões, mas preferia-as à sua estéril solidão, na qual, procurando ideias piedosas, encontrava tristezas, um tédio profundo e o rancoroso espírito de protesto da carne pisoteada, que bramia sempre que podia. “Era melhor viver como todos, deixar-se levar, ocupar o ânimo com os passatempos vulgares, insossos, mas que, afinal, enchem as horas...”
Estava nessa situação quando o Magistral lhe disse no confessionário que ela se perdia; que ele a vira atirar com desdém sobre um banco de relva a história de Santa Joana Francisca... Naquela tarde, De Pas esteve mais eloquente do que nunca; ela compreendeu que estava sendo ingrata, não apenas com Deus, mas com seu apóstolo, aquele apóstolo todo fogo, razão luminosa, língua de ouro, de ouro líquido... A voz do sacerdote vibrava, seu hálito queimava, e Ana julgou ouvir soluços contidos. “Era preciso segui-lo ou abandoná-lo; ele não era o capelão complacente que serve aos grandes como lacaio espiritual; ele era o pai da alma, o pai, já que não queriam ouvi-lo como irmão. Era preciso segui-lo ou deixá-lo.” E depois falara do que ele mesmo sentia, de suas ilusões a respeito dela. “Sim, Ana, eu sonhara com aquilo que parecia anunciar-se desde nosso primeiro encontro: um espírito companheiro, um irmão mais novo, de sexo diferente, para reunir faculdades opostas numa união harmônica; eu sonhara que Vetusta já não era para mim cárcere frio, nem viveiro de invejas que se transformam em serpentes, mas o lugar onde habitava um espírito nobre, puro e delicado que, ao procurar-me para caminhar na santa via da salvação, sem sabê-lo também me guiava por essa via; eu esperava que a senhora fosse aquilo que aquela história, contada entre lágrimas, prometia... aquilo que depois me prometeu cem vezes... Mas não, a senhora desconfia de mim, não me julga digno de sua direção espiritual e, para satisfazer essas ânsias de amor ideal que sente, talvez já procure no mundo quem a compreenda e possa ser seu confidente.”
— Não, não — repetia Ana, chorando.
Mas ele continuara falando de seu despeito, cada vez mais triste, cada vez com mais ardor nas palavras e no hálito... E haviam terminado por reconciliar-se, por prometer-se uma vida nova, verdadeira reforma, mudança eficaz de costumes; e ela, exaltada, lhe dissera: “Quer que hoje mesmo o acompanhe à casa de dona Petronila?” “Sim, sim; isso, o melhor é isso”, respondera ele. E haviam ido juntos sem que nenhum dos dois pensasse no que fazia.
Desde aquela tarde começara para a Regenta a vida de devota praticante; mas durou pouco a eficácia daquele impulso, no qual não havia piedade depurada, mas gratidão, desejo de agradar ao homem que tanto trabalhava para salvá-la, que era tão eloquente e valia tanto. Ana, às vezes, não conseguindo elevar a atenção às coisas invisíveis, à contemplação piedosa, procurava preparar essa viagem mística pensando no Magistral. “Oh, que grande homem! E como penetrava bem no espírito, e como falava bem do que parece inefável, dos subterrâneos das intenções, das delicadezas do sentimento! E quanto ela lhe devia! Por que tanto interesse, se aquela pecadora não o merecia?” As lágrimas se acumulavam nos olhos de Ana. Chorava de gratidão e admiração. E, não podendo meditar sobre coisas santas e piedosas, punha a mantilha e corria à conferência de São Vicente, ou à Junta do Coração, ou ao Catecismo, ou à missa... onde quer que fosse. Mas a fé era morna; por ali não se chegava aonde ela desejara. Além disso, conhecia-se; sabia que, se se entregasse a Deus, seria de verdade; que, enquanto sua devoção fosse de rua, ostensiva e distraída, ela própria a teria em pouca conta, e qualquer paixão má, mas forte, a reduziria a pó.
Contudo, decidida a fugir dos extremos, a ser como todo mundo, insistiu em seguir as demais beatas em todos os seus passos e, embora sem gosto, entrou em todas as confrarias, foi filha e irmã, conforme quiseram, de quantas associações piedosas a solicitaram.
Dividia o tempo entre o mundo e a igreja: nem mais nem menos que dona Petronila, Olvido Páez, Obdulia e, até certo ponto, a Marquesa. Viram-na na casa dos Vegallana e nas Paulinas, no Viveiro e no Catecismo, no teatro e no sermão. Quase todos os dias o Magistral e dom Álvaro tinham ocasião de falar com ela em seus respectivos círculos, e às vezes um e outro no mundo e um e outro no templo; havia lugares em que Ana ignorava se estava ali como mulher devota ou como mulher de sociedade.
Mas nem De Pas nem Mesía estavam satisfeitos. Ambos esperavam vencer, mas para nenhum deles se aproximava a hora do triunfo.
— Esta mulher — dizia dom Álvaro — é pior que Troia.
“O remédio foi pior do que a doença”, pensava dom Fermín.
Ana via nos pormenores da vida de beata mil motivos de repugnância, mas preferia afastar deles a atenção; não deixava que o espírito de contradição procurasse as fraquezas, as grosserias, as misérias daquela devoção exterior e ruidosa. Não queria censurar, não queria ver.
Mas comparava-se ao cadáver do Cid vencendo mouros. Não era ela, era seu corpo que levavam de igreja em igreja.
E a inquietação profunda e surda voltou a minar-lhe a alma. Já esperava outra época de lutas interiores, de aridez e rebelião.
Uma noite, depois de ouvir um sermão soporífero, entrou no toucador quase envergonhada de ter passado duas horas na igreja como uma pedra; ouvindo, sem piedade e sem indignação, sem sequer compaixão, tolices monótonas, tristes; vendo cerimônias que nada diziam à alma...
— Oh, não, não — disse consigo, enquanto se despia —, não posso continuar assim...
E depois, sacudindo a cabeça e estendendo os braços para o teto, acrescentara em voz alta, para dar maior solenidade ao protesto:
— Salvar-me ou perder-me! Mas não me aniquilar nesta vida de idiota... Qualquer coisa... menos ser como todas essas!
E poucos dias depois caiu doente.
Quando essa história de sua tibieza e de suas transações covardes e preguiçosas com o mundo passava pela memória de Ana com formas plásticas, teatrais, graças à saúde que voltava a circular com o sangue, a fraca convalescente sentia remorsos que se comprazia em julgar intensos, pungentes. “Oh! Que diferença entre aquele torpor moral em que vivia poucas semanas antes e a agudeza de sua consciência agora, ali prostrada, sem poder erguer com a mão a dobra da colcha, mas com força na vontade para levantar o chumbo do pecado, que a esmagava com sua gravidade!”
“Esta, sim, era uma resolução firme! Ia ser boa, boa, de Deus, somente de Deus; o Magistral veria. E ele, dom Fermín, seria seu mestre vivo, de carne e osso; mas, além dele, teria outro: a santa doutora, a divina Teresa de Jesus... que estava ali, junto de sua cabeceira, esperando-a amorosa, para entregar-lhe os tesouros de seu espírito.”
Ana, burlando os decretos do médico, tentou, nos primeiros dias daquela segunda convalescença, ler o livro amado: ia a ele como uma criança a um doce. Mas não podia. As letras saltavam, estouravam, escondiam-se, davam voltas... mudavam de cor... e a cabeça se perdia... “Esperaria, esperaria.” E deixava o livro sobre a mesa de cabeceira e, com uma delícia que tinha muito de voluptuosidade, entretinha-se imaginando que os dias passavam, que recuperava a energia corporal; contemplava-se no Parque, no caramanchão ou no mais espesso do bosque, lendo, devorando sua Santa Teresa. “Quantas coisas ela lhe diria agora, que não soubera compreender quando a lera distraída, por automatismo e sem gosto!”
A impaciência pôde mais do que as ordens do médico e, antes de deixar o leito, quando começaram a permitir-lhe outra vez sentar-se entre almofadas, já um pouco mais forte, Ana fez nova tentativa e então encontrou as letras firmes, quietas, compactas; o papel branco não era um abismo sem fundo, mas superfície lisa e consistente. Leu; leu sempre que pôde. Assim que a deixavam sozinha, e suas solidões eram longas, os olhos se agarravam às páginas místicas da Santa de Ávila e, salvo as lágrimas de ternura, já nada perturbava aquele colóquio de duas almas através de três séculos.