TOMO II — Capítulo XXIX A Regente · Capítulo 30 de 31
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TOMO II — Capítulo XXIX

TOMO II

Capítulo XXIX

“No dia de Natal, venha comer peru conosco. Mandaram-me um de León, recheado de nozes. Deve estar delicioso. Além disso, tenho vinho de minha terra, um Valdiñón que se mastiga...”

Mesía cumpriu a promessa e, no dia de Natal, almoçou no casarão dos Ozores. O salão estava agora revestido de papel azul e dourado, em quadrados. A grande lareira churrigueresca fora conservada, com suas ondulantes sereias de seios volumosos, moldadas em gesso. Dom Víctor limitara-se a pintar de um branco acinzentado e discreto, como dizia, todas aquelas cornijas, volutas, folhas de acanto, molduras côncavas e ramagens ornamentais.

À sobremesa, o dono da casa ficou pensativo. Acompanhava disfarçadamente com os olhos as idas e vindas de Petra, que servia à mesa.

Depois do café, dom Álvaro percebeu que o amigo estava impaciente.

Desde aquele verão, desde que haviam vivido juntos na hospedaria de La Costa, dom Víctor se acostumara a ter dom Álvaro à mesa. Achava-o mais conversador e simpático ali do que em qualquer outro lugar e convidava-o frequentemente para almoçar.

Em outras ocasiões, depois de conversar quanto queria, Quintanar costumava levantar-se, dar uma volta pelo Parque, vestir-se, sempre cantando, e deixar Anita e o amigo sozinhos durante mais de meia hora.

Agora, não.

Não se movia.

Ana e Álvaro olhavam-se, perguntando com os olhos que novidade seria aquela.

A Regenta inclinou-se por um instante para apanhar um guardanapo caído no chão, e dom Víctor fez a Mesía um gesto que dizia claramente:

“Ela está me atrapalhando. Caso saísse... conversaríamos.”

Mesía encolheu os ombros.

Quando Ana ergueu a cabeça, sorrindo para dom Álvaro, ele, sem que Quintanar visse, indicou a porta apenas com os olhos.

Ana saiu imediatamente.

— Graças a Deus! — disse o marido, respirando com força. — Pensei que hoje essa moça não fosse embora.

Nem sequer se lembrava de que, nas outras vezes, era ele quem saía.

— Agora poderemos conversar.

— O senhor dirá — respondeu Álvaro tranquilamente, chupando o charuto e cobrindo o rosto com fumaça, segundo seu costume de turvar o ar quando lhe convinha.

“Que problema terá surgido para este homem?”, pensou, com um receio vago que nem sequer sabia explicar.

Dom Víctor aproximou a cadeira da de Mesía e adotou o tom das grandes revelações.

— Atualmente — disse — tudo me sorri. Sou feliz em meu lar. Não entro nem saio da vida pública. Já não temo a invasão absorvente da Igreja, cuja influência deletéria... mas parece-me que Petra quer causar-me uma desgraça.

Mesía sobressaltou-se.

— Explique-se. O senhor voltou às antigas aventuras?

— Voltei e não voltei... Quero dizer... houve escaramuças... explicações... tréguas... promessas de respeitar... aquilo que aquela grandíssima malandra não quer que se respeite...

Em suma, ela está ofendida porque prefiro a tranquilidade de meu lar, a pureza de meu leito, de meu tálamo, por assim dizer, à satisfação de prazeres efêmeros...

O senhor me compreende?

Finge indignar-se para defender a honra que, no fim das contas, ninguém aqui se atreve a ameaçar seriamente. Aquilo que de fato a irrita é minha frieza...

— Mas o que ela faz? Vamos ver...

— Olhe, Álvaro, por nada deste mundo eu causaria uma tristeza à minha Anita, que agora é um modelo de esposa. Sempre foi boa, mas antes tinha seus caprichos, o senhor se lembra...

— Sim, sim... Vá ao ponto.

— Agora a pobrezinha concorda com meus gostos em tudo. Por aqui, digo eu, e é por aqui que ela vai. Passou até aquela exaltação um pouco selvagem, aquele amor excessivo pelos prazeres bucólicos, aquela preocupação exclusiva com a saúde ao ar livre, com o exercício, com a higiene, em suma...

Todos os extremos são ruins, e Benítez me dissera que a verdadeira cura de Ana chegaria quando ela se mostrasse menos atenta à saúde do corpo, sem voltar, nem por pensamento, ao cuidado excessivo e louco da alma.

Aquilo era o pior!

— Mas o senhor ainda não me disse...

— Já chego lá. Ana vive agora num equilíbrio que garante a saúde pela qual suspiramos durante tanto tempo. Já não há nervos, quero dizer, já não nos dá aqueles sustos. Jamais tem veleidades de santa nem enche minha casa de batinas...

Em suma, é outra. E não quero perder por preço algum a paz que agora desfruto.

Pois bem... Petra pode, e creio que quer, comprometer-nos.

— Mas, afinal, o que Petra faz?

— Compromete a paz desta casa. Temo que queira dominar-nos, aproveitando-se de minha situação falsa, falsíssima... confesso.

O senhor não compreende que qualquer revelação daquela... rameirinha hipócrita seria um golpe terrível para Ana?

— Mas o que aconteceu, homem? Fale com clareza e depressa! — gritou Mesía, impaciente e mais interessado na questão do que o amigo poderia imaginar.

— Mais baixo, Álvaro, mais baixo. O que aconteceu? Muita coisa.

Petra sabe que quero evitar a qualquer custo uma tristeza para minha mulher, porque temo que qualquer crise nervosa estrague tudo e nos faça voltar ao passado.

Uma desilusão, a descoberta de minha pouca fidelidade, certamente a levaria de volta às antigas reflexões, ao desprezo pelo mundo. Procuraria consolo na religião, e teríamos outra vez o senhor Magistral...

Qualquer coisa antes disso!

É preciso impedir a todo custo que Ana saiba que eu, num momento de cegueira intelectual e sensual, fui capaz de solicitar os favores daquela scortum, como dom Saturnino chama mulheres assim.

— Mas por que Ana haveria de saber? Afinal, não existe nada para saber...

— O que existe é suficiente para cravar um punhal na pobrezinha. Eu a conheço.

E, acima de tudo, caso Petra conte o que existe, minha esposa imaginará o resto, aquilo que não existe.

— Mas Petra?... Termine. Disse alguma coisa? Ameaçou contar?

— Essa é a questão. Fala alto, é insolente, trabalha pouco, não admite repreensões e aspira a colocar-se num absurdo plano de igualdade...

— Absurdo...

— E com quem o senhor pensa que a infame se mostra mais altiva, soberba e insolente? Comigo? Isso pareceria natural.

Pois não, senhor. Com Ana!

Espante-se: com Ana!

De dentro da nuvem de fumaça que o envolvia, dom Álvaro respondeu:

— É fácil compreender... Quer obrigá-lo a fazer o que deseja. Talvez sejam ciúmes!

— É o que digo.

“Suporte que sua mulher ouça insolências daquela que o senhor quis transformar em concubina... ou conto tudo.”

Essa é a linguagem da conduta daquela meretriz dissimulada.

Agora, um conselho, uma solução: que faço? Suporto em silêncio? Absurdo.

Além disso, a paciência de Anita pode acabar. Caso tenha suportado até agora, é pelo muito que ainda lhe resta da época em que foi quase santa...

Mas se Ana se irritar, caso suspeite... caso...

Pobre de mim!

— Calma, homem, calma.

— Que faremos, Álvaro? Que faremos?

— É muito simples.

— Simples!

— Sim. É preciso expulsar Petra desta casa.

Dom Víctor saltou na cadeira.

— Isso é cortar o nó...

— Não existe outra solução. Expulsá-la.

Dom Víctor expôs as dificuldades e os perigos do remédio, mas dom Álvaro prometeu resolver tudo.

Ele sabia como se tratava gente daquela espécie.

Por feliz coincidência, na hospedaria onde vivia havia tantos anos como criança mimada, precisavam de uma moça para servir os hóspedes.

Petra parecia feita para o posto.

A proposta a lisonjearia. O próprio dom Álvaro a faria e, caso por alguma estranha razão ela resistisse, ele saberia ameaçá-la de modo que... etc., etc.

Por fim, dom Víctor deixou tudo nas mãos do amigo e foi ao Casino um pouco mais tranquilo.

— O senhor fica para preparar o terreno, não é?

— Sim, homem, para arrumar tudo.

Assim que dom Víctor fechou com força a porta da escada, Ana entrou assustada na sala de jantar.

Ia falar, mas Petra chegou para recolher o serviço do café, e Ana se calou, fingindo ler El Lábaro.

A criada saiu, e Ana perguntou:

— Que aconteceu, Álvaro?

— Aconteceu que já não lhe resta pretexto para negar que eu venha à noite.

— Não compreendo...

— Petra vai sair desta casa. Adeus, espiões.

— Petra? Petra vai embora?

— Sim. Ele me encarregou de despedi-la. Diz que é insolente, que a trata mal...

— Meu Deus! Ele percebeu?

— Sim, tolinha, mas não se assuste... Ele compreendeu tudo... pelo lado que não queima.

Mesía explicou o caso à Regenta.

Já lhe contara tudo e muito mais.

Graças às calúnias de Álvaro, as tentativas do miserável dom Víctor eram, para a Regenta, delitos consumados.

Mas ela não atribuía a insolência da criada a essas aventuras. Temia que Petra tivesse descoberto seus amores com Mesía e que aquela soberba, aquele desafio constante dos olhares, sorrisos e gestos fosse uma ameaça de revelar seu segredo a dom Víctor.

— Está vendo como não era aquilo que você temia, minha apreensiva? É muito possível, provável até, que a pobre moça não suspeite de nada, que sua insolência seja apenas uma ameaça contra o patrão...

Ana corou.

Tudo aquilo lhe causava repugnância.

“Aquele marido a quem sacrificara o melhor da vida não era apenas um maníaco, um homem frio para ela, sem substância. Perseguia as criadas à noite pelos corredores, surpreendia-as nos quartos, via-lhes as ligas!

Que nojo!

Não eram ciúmes. Como poderiam ser ciúmes?

Era nojo e uma espécie de remorso retroativo por ter sacrificado a vida a semelhante homem.

Sim, a vida, que era a juventude.”

“Álvaro”, continuava pensando Ana, “fizera mal em revelar-lhe aquelas misérias, em trair Quintanar, por mais indigno que este fosse, e principalmente em envergonhá-la com as aventuras ridículas e repugnantes do velho.”

Mas, como estava empenhada em limpar seu Mesía, seu senhor, o homem a quem se entregara de corpo e alma para toda a vida, segundo pensava, logo o desculpava, refletindo que o pobre Álvaro fizera aquilo por amor, para expulsar do pensamento de Ana qualquer escrúpulo ou consideração que pudesse ligá-la ao velho, que transformara o melhor de sua vida num deserto de tristeza.

Também não agradava a Anita ver seu Álvaro envolvido naquelas tarefas domésticas de despedir criadas, e menos ainda encontrá-lo tão experiente no assunto.

Tudo aquilo, de tão prosaico e baixo, era repugnante.

Mas que remédio havia?

Álvaro fazia aquilo por ela, para desfrutar tranquilamente a felicidade que lhe custara tantos anos de martírio.

Esses e todos os demais defeitos que, havia pouco, o endiabrado espírito de análise, caminho para a loucura segundo ela, obrigava-a a descobrir em Mesía, Ana procurava transformá-los em estrelas luminosas de pura beleza.

Quando a assaltava a ideia de perder dom Álvaro, tremia horrorizada, como em outros tempos, quando temia perder Jesus.

As primeiras palavras de amor que Ana, já vencida, atreveu-se a murmurar com voz apaixonada e terna ao ouvido do vencedor, não no dia da rendição, mas muito depois, serviram para pedir-lhe o juramento de constância.

“Para sempre, Álvaro, para sempre. Jure-me. Caso não seja para sempre, isto é uma vergonha, um crime infame e vil.”

Mesía jurara e continuava jurando todos os dias uma eternidade de amor.

A ideia da solidão depois daquilo parecia à Regenta mais horrorosa do que outrora lhe parecera a imagem do Inferno.

Com amor, podia-se viver em qualquer lugar, de qualquer maneira, sem pensar senão no próprio amor.

Mas sem ele... voltariam os fantasmas negros que às vezes ela sentia agitar-se no fundo da cabeça, como se surgissem num horizonte muito distante, primeiras sombras de uma noite eterna, vazia e aterradora.

Ana sentia que o fim do amor, daquela paixão absorvente, forte e nova, que experimentava pela primeira vez na vida, seria para ela o começo da loucura.

“Sim, Álvaro. Caso me abandonasse, eu certamente enlouqueceria. Tenho medo de meu cérebro quando estou sem você, quando não penso em você.

Contigo, não penso senão em amá-lo.”

Era o que costumava dizer nos braços do amante, desfrutando sem hipocrisia e sem aquela timidez que, no princípio, fora verdadeira, intensa e incômoda para Mesía, mas que, ao desaparecer, não deixara fingimento em seu lugar.

Ana entregava-se ao amor para sentir com toda a veemência do temperamento e com uma espécie de furor que Mesía, grosseiramente, chamava para si de fome acumulada.

Durante o primeiro mês, ele ficou assustado.

Nos primeiros dias, amaldiçoava o medo, a ignorância e os escrúpulos, absurdos numa mulher casada de trinta anos, segundo a filosofia do presidente do Casino.

Logo, porém, viu tão completamente satisfeita a medida dos desejos que começou a preocupar-se com outro aspecto daqueles amores.

Nunca fora mais feliz.

Queria satisfazer o amor-próprio, a que a idade começava a causar alguns desgostos?

Pois Ana, a mulher mais bonita de Vetusta, adorava-o.

E o adorava por ele mesmo, por sua pessoa, pelo corpo, pelo físico.

Muitas vezes, quando ele começava a falar longamente, ela lhe cobria a boca com a mão e dizia, em êxtase amoroso:

— Não fale.

Mesía não interpretava aquilo mal.

Também reconhecia que era melhor permanecer calado e deixar-se adorar pela beleza.

Queria satisfazer os caprichos de uma carne saciada, desfrutar delicadas volúpias dos sentidos?

A própria ignorância de Ana, a força da paixão, as circunstâncias da vida anterior, as condições de seu temperamento e de sua beleza facilitavam aqueles prazeres requintados ao galo experiente e gasto, porém capaz de morrer de prazer sem medo.

Apesar de tanta felicidade, Mesía estava inquieto.

— O senhor está abatido — dizia-lhe Somoza.

— Cuidado — repetia Visita.

Ele próprio percebia que seu rosto perdia a aparência viçosa recuperada durante aqueles meses de boa vida, exercícios e abstinência prudentemente observados antes do ataque decisivo à fortaleza da Regenta.

Sim, sentia que dentro do corpo alguma coisa fazia crac de tempos em tempos.

Havia caruncho lá dentro.

Aquilo que temia não era a doença pela doença, nem a velhice pela velhice.

Não.

Era bom soldado do amor, herói do prazer. Saberia morrer no campo de batalha.

Sua inquietação tinha outro motivo.

Morrer, muito bem. Mas decair, e decair diante de Ana, era horroroso, ridículo e infame.

Sim. Ele faltava ao juramento ao envelhecer e perder as forças.

Recordava com calafrios épocas passadas em que decadências passageiras, provocadas por excessos de prazer, obrigaram-no a recorrer a expedientes vergonhosos, bons para contar entre gargalhadas no Casino, tarde da noite, a Paco, Joaquín e outros frequentadores das madrugadas, depois de tudo ter passado, quando o vigor voltava e os artifícios cômicos já não eram necessários.

Mas eram expedientes odiosos como a miséria e seus enganos.

Aquele fingimento de juventude, virilidade e constância no amor corporal parecia a dom Álvaro semelhante aos recursos da pobreza ostentosa descritos por Quevedo no Grande Avarento.

Ele também fora mais de uma vez, depois de pródigo, o Grande Avarento do amor.

Mas os antigos recursos seriam impossíveis agora, caso chegasse o momento de precisar deles.

“Não. Antes fugir ou dar um tiro na cabeça.

Ana, a pobre Ana, tinha direito a uma juventude eterna e inesgotável.”

Essas ideias tristes, apreensões da idade, surgiam apenas de tempos em tempos.

Na maior parte do tempo, aquela inquietação deixava livre o Tenório vetustense, que desfrutava aqueles amores considerados por ele a glória mais alta de sua vida.

Por sua parte, confessava-se tão apaixonado quanto poderia estar por alguém que não fosse dom Álvaro Mesía.

Depois do presidente do Casino, nenhum ser da terra lhe parecia mais digno de adoração do que sua dócil Ana, sua Ana frenética de amor, como sempre esperara que ela se tornasse, até nos dias em que pareciam mais afastados.

Dom Álvaro não confessava a si mesmo que houvera um tempo em que perdera a esperança de vencer a Regenta.

Agora ela estava tão vencida!

Percebeu isso melhor do que nunca quando foi preciso travar a grande batalha para transferir ao casarão dos Ozores o ninho do amor adúltero.

Ana opôs-se, chorou, suplicou:

— Não, não. Isso não, Álvaro, pelo amor de Deus. Isso jamais.

E resistiu durante muitos dias às súplicas do amante, que se queixava de desfrutar seu amor por pouco tempo, às pressas e sem comodidade.

Quase sempre se encontravam na casa dos Vegallana. Ali, os carinhos eram furtivos e precipitados.

O domínio tranquilo de horas e horas de intimidade voluptuosa, porém, não poderia ser obtido sem a procura de um lugar menos exposto a sobressaltos, interrupções e disfarces.

Ana recusava-se a ir a um refúgio amoroso que Álvaro prometia encontrar.

O próprio Álvaro confessava ser difícil descobrir um lugar seguro numa cidade tão atrasada quanto Vetusta.

Além disso, qualquer lugar que encontrasse acabaria parecendo repugnante a ela.

Como a imaginação influía tanto sobre Ana, o desprezo pelo abrigo poderia levá-la à repugnância pelo próprio adultério.

Não havia outro remédio senão tomar por refúgio o casarão dos Ozores.

Era o local mais seguro, tranquilo e cômodo.

Álvaro compreendia os escrúpulos de Ana, mas decidiu vencê-los e venceu.

Entretanto, embora os obstáculos de ordem puramente moral, os escrúpulos místicos, como dizia Álvaro numa expressão tão imprópria quanto horrivelmente grosseira, fossem afastados pela força da paixão, os inconvenientes materiais e as precauções do medo apresentavam dificuldades mais sérias.

Ocorreu a dom Álvaro que, sem ter uma criada ao seu lado, de preferência a dama de companhia, tudo seria, se não impossível, muito difícil.

Mas nem sequer se atreveu a propor a ideia a Anita.

Sempre a vira desconfiada e demonstrando uma antipatia mal disfarçada por Petra.

Compreendia também que a Regenta era muito inexperiente nessa espécie de aventura para chegar ao cinismo de proteger-se por meio dos criados, principalmente sabendo que a moça fora cortejada pelo marido.

Outra coisa era conquistar a criada sem que a patroa soubesse.

Petra não tinha grande inclinação para brincadeiras amorosas?

A aventura da liga e outras que conhecia não provavam ser muito fácil interessar a moça a seu favor?

Sim.

E assim foi feito.

Na ausência de Ana e dom Víctor, atrás das portas, nos corredores, onde conseguia, dom Álvaro iniciou o ataque a Petra, que se rendeu muito mais depressa do que ele esperava.

Mas havia um inconveniente gravíssimo.

Ocorreu à moça ser, ou fingir-se, desinteressada, preferir os jogos loucos do amor às gorjetas e oferecer seus serviços, por meio de discretíssimas meias palavras e boas ações, em troca de um afeto que Mesía não estava em condições de esbanjar.

“Pobre Ana! Que sabia ela de todas aquelas complicações?”

Dom Álvaro também não sabia tanto quanto imaginava.

Ignorava, por exemplo, que Petra podia permitir-se o luxo de servi-lo bem sem pensar no interesse e sem outro pagamento além do amor, no qual o galo vetustense já não podia ser pródigo.

Petra não era inimiga do vil metal, e a ambição de melhorar de sorte e até de esfera, como sabia dizer, não era uma paixão fraca naquela alma concupiscente da cabeça aos pés.

Mas não buscava isso em Mesía.

Gostava dele por ser bonito, para zombar à sua maneira da patroa, que odiava por hipócrita, bonita demais e orgulhosa.

Gostava dele por vaidade.

Quanto a servi-lo no que desejava, isso também lhe convinha para satisfazer sua paixão favorita, depois talvez da luxúria: a vingança.

Vingava-se, protegendo os amores de Mesía e Ana, do idiota de dom Víctor, que se punha a comprometer as moças sem compreender coisa alguma.

Vingava-se da própria Regenta, que caía, caía, graças a ela, num abismo sem fundo.

Sem saber, a hipócrita estava nas mãos da criada, que poderia revelar tudo no dia em que lhe conviesse.

Tinha a senhora entre as unhas. Que mais poderia querer?

Todas as noites, durante algumas horas, a honra e talvez a vida do patrão ficavam penduradas num fio que ela, Petra, segurava.

Caso quisesse, caso lhe desse vontade, zás!, tudo se esmagaria de repente.

O mundo arderia.

E, como se tudo isso, em vez de prazer e glória, fosse para Petra um fardo ou um trabalho, o rapaz mais bonito de Vetusta pagava seus serviços com amores de senhorito, aqueles que ela sempre saboreara com maior delícia, por um instinto de domínio que sempre a governara.

Mas a moça endiabrada desfrutava ainda outra vingança mais saborosa do que todas aquelas.

E o Magistral?

O Magistral tentara enganá-la, fizera-a sua.

Ela se entregara acreditando que ocuparia imediatamente o posto que mais invejava em Vetusta, o de Teresina.

Petra sabia como dona Paula instalava bem todas aquelas que durante algum tempo serviam em sua casa.

Teresina, a quem em breve esperava uma colocação de grande senhora em certa administração de bens do patrão, casada com um rapaz bonito, contara-lhe aquilo que ela não pudera observar ou adivinhar, abrira-lhe os olhos e enchera-lhe a boca de água.

Petra compreendia que a casa do Magistral era o caminho mais seguro para casar-se e transformar-se em senhora, ou quase.

A ocasião chegara.

Depois da romaria de São Pedro, acreditou que tudo era questão de semanas, que bastava aguardar uma oportunidade.

Teresina logo sairia bem colocada, e ela ocuparia seu lugar.

Mas não foi assim.

O Magistral não voltou a procurar Petra.

Quando precisou falar-lhe, não foi sobre questões que lhe interessassem diretamente.

Foi, que vergonha!, para comprá-la como espiã.

É verdade que o Provisor prometeu-lhe para breve o posto de Teresina, com todas as vantagens que a amiga desfrutava e ainda desfrutaria.

Apesar disso, ela fora enganada.

Ou melhor, enganara-se.

Mas a loura orgulhosa não queria reconhecer isso.

O fato era que, segundo sua opinião, o Magistral fora amante de dona Ana havia muito tempo.

A vaidade da criada interpretara a cena do bosque do Vivero como uma vitória de sua beleza, que fizera o cônego cair no pecado da inconstância.

Petra acreditou que dom Fermín agora a desejava, depois de haver desejado sua patroa.

Já vira muitos caprichos assim.

Quando se convenceu de que dom Fermín, por mais que dissimulasse, estava perdidamente apaixonado pela Regenta, furioso de ciúmes, de que não fora amante dela nem de longe e de que quisera Petra apenas como instrumento, a ira, a inveja, a soberba e a luxúria revoltaram-se dentro dela, saltando como serpentes.

Por enquanto, porém, silenciou-as.

Dissimulou.

Naquele momento, limitou-se a satisfazer a avareza.

Aceitou as propostas do cônego.

Entraria na casa de dom Fermín no dia em que precisasse sair do casarão dos Ozores.

Enquanto isso, prestaria ali serviços bem pagos, mais bem pagos do que poderia imaginar.

O cônego saberia tudo o que acontecia.

Caso dona Ana recebesse visitas, quem entrava quando dom Víctor não estava ou permanecia depois da saída do patrão, etc., etc.

Petra prometeu contar tudo o que houvesse.

Fingiu não se lembrar de certas promessas de outra ordem que escaparam a dom Fermín no calor da improvisação naquela feliz manhã no Vivero, da qual ele se envergonhava.

Quando viu Petra tão disposta a servi-lo por dinheiro, dom Fermín lamentou ainda mais ter começado pelo caminho absurdo e vergonhoso de uma sedução ridícula.

Aquela aventura, que lhe recordava as de outros tempos, agora o fazia corar, porque contradizia de certo modo o andaime de sofismas com que explicava sua paixão pela Regenta.

“O amor puríssimo que sinto desculpa tudo.”

“Mas esse amor combina com aventuras como a do bosque? Claro que não”, dizia-lhe a consciência.

Por isso Petra agora lhe causava repugnância.

Mas não havia outro remédio senão servir-se dela.

Petra era feliz naquela vida de intrigas complicadas, cujas pontas apenas ela segurava.

Por enquanto, servia lealmente a Mesía.

Ele pagava em amor, embora fosse um pouco lento nos pagamentos.

Ela o ajudava quanto podia, porque ajudá-lo significava satisfazer os próprios desejos: afundar a patroa, tê-la sob seu domínio e zombar cruelmente do idiota do patrão e do indigno cônego.

Para mais tarde, a astuta moça reservava-se o direito de vender dom Álvaro e ajudar seu senhor, aquele que lhe pagava e haveria de transformá-la em grande senhora, dom Fermín.

Quando seria isso?

O tempo diria.

Caso dom Álvaro não se comportasse bem, a ocasião poderia surgir.

Caso ela se cansasse, ou caso Teresina deixasse o posto e, por medo de que outra o ocupasse, fosse conveniente correr para lá, também poderia ser útil fazer tudo desmoronar.

Enquanto isso, dom Fermín não recebia de Petra senão notícias vagas, suficientes para mantê-lo eternamente sobre espinhos, fazê-lo viver como um louco furioso, obrigado ainda ao tormento de dissimular os acessos diante do mundo e principalmente diante de dona Paula.

Portanto, caso dom Álvaro pudesse dizer com razão: “Pobre Ana, que nada sabe de tudo isso!”, Petra também poderia exclamar: “Pobre dom Álvaro, que não sabe nem a quarta parte daquilo que tanto lhe importa!”

O presidente do Casino de Vetusta não teve inconveniente em enganar a Regenta.

Segundo ele, era muito justo respeitar os escrúpulos daquela adúltera principiante, outra expressão grosseira do sedutor, que não conseguia aceitar Petra como cúmplice.

Mas também era justo que ele, sem contar a dona Ana, fingindo igualmente desconfiar da criada, aproveitasse seus serviços, preciosos em semelhantes circunstâncias.

A questão era entrar todas as noites no quarto da Regenta pela sacada.

Isso se dizia depressa, mas fazer oferecia sérias dificuldades.

Para onde dava a sacada do toucador?

Para o Parque.

Como se entrava no Parque?

Pelo portão.

Mas quem tinha a chave do portão?

Uma delas estava com Frígilis.

Com essa não se podia contar.

E a outra?

Com dom Víctor.

Essa poderia ser furtada, mas Petra disse que não se comprometia a tanto. Mexer com chaves era uma questão delicada e poderia comprometê-la.

O melhor seria o senhorito saltar o muro.

Por feliz coincidência, dom Álvaro tinha pernas muito compridas.

Desse modo, a comédia seria melhor representada.

Segura de que dom Álvaro saltava o muro, dona Ana não poderia suspeitar tão facilmente que ele tinha cúmplices dentro de casa.

Depois, chegar sob a sacada, subir pela grade do térreo e agarrar-se ao parapeito de ferro seria fácil para um rapaz tão vigoroso.

Dom Álvaro fazia tudo isso sem a ajuda direta e imediata de Petra.

Dona Ana considerava assim muito verossímil tudo quanto o amante lhe dizia sobre sua habilidade para entrar no quarto.

Petra servia para vigiar, evitar que dom Álvaro fosse surpreendido ao entrar ou sair e fazer as coisas de modo que dona Ana acreditasse que ela, a criada, não estivera durante a noite em condições de perceber a chegada do amante.

Estava ali também para dar o alarme, caso fosse necessário, e combinar os horários.

No serviço de Petra havia alguma coisa da responsabilidade de um chefe de estação ferroviária.

Dom Álvaro sabia, porque dom Víctor lhe confessara, que o ex-regente e Frígilis, quando chegava a temporada, saíam para caçar muito mais cedo do que Ana imaginava.

Petra era encarregada de despertar o patrão, porque Anselmo inevitavelmente adormecia e não cumpria o dever.

Frígilis chegava ao Parque na hora marcada, latia, e dom Víctor descia.

Dom Tomás chegou a queixar-se de que seus latidos nem sempre despertavam o patrão nem a criada e de que o faziam esperar muito.

Para evitar discussões e esperas, ficou combinado que Crespo e Quintanar se apresentariam no Parque à mesma hora, sem necessidade de latir para ninguém.

Para maior segurança, dom Víctor comprou um despertador que soava como um terremoto.

Com aquele aviso automático, como dizia, passou a comparecer pontualmente ao encontro.

Quase todas as manhãs, Quintanar e Crespo chegavam ao Parque ao mesmo tempo.

O trem que os levava aos pântanos e bosques de Palomares saía naquele ano um pouco mais tarde, e não precisavam levantar-se antes do amanhecer.

Dom Álvaro precisou saber tudo isso para não se expor a uma colisão na linha com Frígilis ou com o próprio dom Víctor.

Este, sem saber o que fazia, informou-o sobre seus horários de saída.

O restante dos pormenores necessários foi-lhe contado por Petra.

Portanto, não havia medo.

Saltar o muro ofereceu algumas dificuldades.

Certa noite, pelo lado externo, no solitário caminho de Traslacerca, o Tenório preparou, removendo pedras e retirando argamassa, dois ou três apoios muito disfarçados no muro, perto da esquina.

Também abriu discretamente falsas rachaduras e fendas que lhe permitiam apoiar-se e ajudar na subida.

Assim, o principal obstáculo foi vencido.

Pelo lado interno, tudo foi muito fácil.

Um tonel velho, deixado como por acaso junto à parede, e os restos de uma espaldeira serviam de degraus suficientes para que dom Álvaro subisse e descesse pelo lado do Parque com toda a rapidez aconselhada pelas circunstâncias, sem que ninguém pudesse perceber.

Dom Álvaro comparava aquela escada disfarçada às caixas de fósforos com a popular legenda: “Onde está a pastora?”

Onde estava a escada?

Depois de vê-la uma vez, não se via outra coisa.

Mas aquele a quem não a mostravam jamais a encontraria.

Faltava apenas o pior: convencer a Regenta a abrir a sacada.

Como não podia falar-lhe das garantias de segurança que tinha dentro da casa, pouco ou nada podia opor aos argumentos dela sobre as prováveis suspeitas da antipática Petra.

No fim, porém, dom Álvaro, que triunfara no mais difícil, triunfou também no mais fácil.

Ana acabou compreendendo que era impossível, e talvez ridículo, recusar-se a receber na alcova um homem a quem se entregara por completo.

Muito valia a castidade do leito nupcial, ou melhor, do antigo leito nupcial.

Mas não valeria mais a castidade da própria esposa?

Esses sofismas, a paixão e a constância dos pedidos deram a vitória a Mesía.

Embora não conseguisse silenciar os sobressaltos de Ana, que a cada ruído acreditava sentir a espionagem de Petra, muitas vezes fazia-a esquecer tudo para desfrutar o delírio amoroso em que sabia envolvê-la como numa nuvem envenenada por ópio.

Assim passavam os dias, com Ana assustada por ser capaz, tão pouco tempo depois da queda, de receber um homem na alcova, ela que durante tantos anos soubera lutar antes de cair.

Naquela tarde de Natal, depois de recolher o serviço do café, Petra saiu de casa e dirigiu-se à residência do Magistral.

Dona Paula recebeu-a.

Agora eram muito amigas.

A mãe do Provisor conhecia a estreita simpatia que existia entre Teresina e a criada da Regenta.

Por intermédio da atual criada do senhorito, de seu filho, sabia que, no espírito de Fermín, Petra era a pessoa destinada a substituir Teresa no dia, já próximo, em que esta recebesse o prêmio conhecido de sair dali casada para administrar certos bens dos Provisores.

Dona Paula, que entendia meias palavras e até dispensava palavras, desejosa de satisfazer aquele desejo do filho, segundo sua política constante, e de fazê-lo de maneira limpa e irrepreensível na forma, antecipando-se a ele, resolvera tomar a iniciativa e oferecer pessoalmente a Petra o posto que a loura lasciva tanto ambicionava.

A proposta foi feita naquela tarde.

Teresina sairia de casa de um dia para o outro.

Petra aceitou sem hesitar, tremendo de alegria.

Até voltar ao casarão, não lhe ocorreu pensar que aquela felicidade traria a desgraça de muitos e, até certo ponto, seu próprio prejuízo.

Adeus aos amores com dom Álvaro, amores cada vez mais escassos, cada vez mais economizados pelo libertino elegante, que reduzia as gorjetas e encarecia as carícias, mas que afinal eram amores de senhorito e a enchiam de orgulho.

Que fazer?

Não havia dúvida.

Ser prudente, colher o fruto cobiçado e entrar naquela prebenda, na casa do Magistral.

Para isso, seria preciso fazer desmoronar tudo o mais, romper o fio que segurava e do qual pendiam a honra, a tranquilidade e talvez a vida de várias pessoas.

Ao pensar nisso, Petra encolheu os ombros.

Pareceu-lhe ver a Regenta cair e esmagar-se, o Magistral cair e esmagar-se, dom Víctor cair e transformar-se numa omelete, e até dom Álvaro rolar pelo chão em pedaços.

Não importava.

O momento chegara.

Caso perdesse aquela oportunidade, a vaga de Teresina poderia ser ocupada por outra e adeus ao futuro senhorio.

Não havia outro remédio senão ocupar imediatamente o posto.

Mas então teria de contar tudo ao Provisor, porque, depois de sair do casarão, já não poderia servir de espiã nem ajudar aquele que lhe pagava a abrir os olhos do estúpido dom Víctor.

Este, naturalmente, desejaria vingar-se e castigar os culpados.

Era justamente aquilo de que o cônego precisava, pois, carregando o mantelete sobre os ombros, não poderia desafiar dom Álvaro.

Petra raciocinava perfeitamente sobre tais assuntos porque lia folhetins, a coleção de Las Novedades deixada num sótão por dona Anuncia, e sabia quem desafiava quem quando eram descobertos os amores de uma mulher casada.

Quem desafia é o marido, não um pretendente rejeitado, muito menos sendo padre.

Não havia dúvida.

O Magistral precisava dela dentro do casarão quando chegasse o momento crítico.

Caso saísse antes e depois não lhe fosse útil, poderia expulsá-la por inutilidade.

Era preciso fazer tudo rapidamente, de imediato.

E que faria?

Uma traição, naturalmente.

Mas como?

Pensava nisso quando entrou na sala de jantar, já ao anoitecer, para preparar a lâmpada.

Sentiu que alguém a segurava pela cintura e lhe beijava a nuca.

“Era o outro. Pobre homem, não sabia o que o esperava!”

Dom Álvaro, depois da conversa com Ana, fizera-a retirar-se e ficara sozinho na sala de jantar para atacar Petra e propor, entre carícias, que a cada dia lhe custavam mais, a mudança de patrões.

Não era verdade que houvesse uma vaga na hospedaria, mas ali ele mandava e a vaga seria criada.

Com toda a diplomacia de que era capaz um homem que se julgava principalmente político e era sedutor de profissão, ofereceu à criada a nova posição, que seria divertidíssima e lucrativa como poucas.

Dom Víctor tinha medo dela, dona Ana também, cada qual por seu motivo, e ele, dom Álvaro, seria muito mais bem servido caso Petra consentisse em sair da casa.

— Está vendo, minha filha, você cometeu uma falta ao tratar a senhora com altivez e insolência. Isso, além de ser feio por si só, assustou-a, fazendo-a acreditar que você sabe alguma coisa e abusa do segredo.

Assustou também o patrão, que teme que você conte tudo.

E me prejudica, como compreende, porque... já vê... estando ela assustada e desconfiada, quem paga sou eu.

Já não preciso de você nesta casa, porque agora entro e saio sem guias... e lá na hospedaria poderá ser útil para nós.

Além disso...

Além disso, dom Álvaro compreendia que já não podia pagar os serviços de Petra com amor, pois a cada dia era mais urgente economizá-lo.

Levando a moça para a hospedaria, outros hóspedes famintos daquela espécie de petisco a distrairiam, e ele passaria a cumprir sua parte por meio de gorjetas.

Em suma, Petra já o incomodava no casarão dos Ozores por muitas razões.

Mas não poderia apresentar-lhe tais razões.

— Senhorito — disse Petra, que, apesar da recente decisão, sentiu no orgulho uma ferida de três polegadas —, não precisa esforçar-se tanto para convencer-me de que devo sair desta casa.

— Não, minha filha. Caso interprete pelo lado que queima, não insisto.

— Não, senhor, o senhor não me deixa explicar...

Eu quero sair daqui. Justamente...

Mas, quanto a ir para a hospedaria, não, senhor.

Uma coisa é uma mulher ter seus caprichos e boa vontade, está entendendo? Outra coisa é ser oferecida aos amigos, levada de um lado para outro...

— Mas, Petrica, não se trata disso. Faço isso para seu bem...

Dom Álvaro abaixava a voz, e Petra a erguia.

A astuta moça, porém, que sabia conter-se quando era em benefício próprio, dominou-se.

Mudando o tom e a maneira de falar, desculpou-se, dissimulou a irritação e disse que tudo estava perfeitamente bem.

Ela mesma pediria o pagamento e iria embora satisfeita, não para a hospedaria, mas para outra casa.

Tinha uma oportunidade que ainda não podia revelar.

Quanto ao resto, continuariam amigos.

Caso o senhorito dom Álvaro precisasse dela, estaria à disposição, porque a palavra dada era palavra dada.

Quanto a ficar calada, seria um túmulo.

Fizera aquilo por afeição a uma pessoa, não havia motivo para ocultar, e por pena de outra, casada com um velho caduco, inútil e maluco, que era digno de compaixão.

Petra enganou Mesía outra vez.

Permitiu-lhe até novas carícias de agradecimento, que ele jurou a si mesmo serem as últimas, por causa daquela economia que se tornara sua obsessão.

Naquela noite, dom Víctor soube no Casino que, no dia seguinte, Petra pediria as contas e iria embora.

Que prazer!

Quintanar respirou como um fole e abraçou o amigo.

Devia-lhe coisa melhor do que a vida: a tranquilidade de seu lar.

Dom Fermín trabalhava no escritório, com os pés enrolados no velho xale da mãe.

Escrevia sob a luz esbranquiçada e monótona da manhã nublada.

Um ruído o distraiu.

Ergueu os olhos e viu dona Paula no meio da soleira, pálida, mais pálida do que costumava.

— Que aconteceu, mãe?

— Está aí Petra, a criada de Quintanar. Quer falar com você.

— Falar comigo!... Tão cedo? Que horas são?

— Nove horas. Diz que é urgente. Parece assustada... A voz está tremendo...

O Magistral ficou da cor da mãe e levantou-se como movido por uma máquina.

— Que entre, que entre.

Dona Paula deu meia-volta e saiu para o corredor.

Antes, acariciou o filho com um olhar de compaixão materna.

— Entre — disse a Petra, que, toda de preto, esperava com a cabeça inclinada sobre o peito.

Dona Paula queria devorar com os olhos o segredo da criada.

Que seria?

Hesitou um instante.

Esteve quase decidida a perguntar.

Conteve-se e repetiu:

— Vá, minha filha, entre.

“Minha filha”, pensou Petra. “Esta mulher me quer dentro de casa. Minha sorte está garantida.”

— Que aconteceu? — gritou o Magistral, aproximando-se da criada como se quisesse sair ao encontro das notícias.

Petra viu que estavam sozinhos e começou a chorar.

Dom Fermín fez um gesto de impaciência, que ela não viu, pois mantinha os olhos baixos.

O cônego quis falar, mas não conseguiu.

Sentia mãos de ferro na garganta e, pela coluna e pelas pernas, abalos e um tremor tênue, frio e constante.

— Depressa! Que aconteceu? — conseguiu perguntar por fim.

Petra disse, sem parar de gemer, que precisava ser ouvida em confissão.

Não sabia se aquilo que pretendia fazer era uma boa obra ou um pecado.

Queria servi-lo, servir ao patrão, servir a Deus.

Afinal, o interesse pelo próximo também era religião, mas... temia... não sabia se devia...

— Fale! Fale! Estou mandando que fale depressa. Que aconteceu, Petra? Que aconteceu?

Dom Fermín apoiou disfarçadamente uma das mãos na mesa.

Houve uma pausa.

— Fale, pelo amor de Deus.

— Em confissão?

— Petra, fale... depressa.

— Senhor, prometi contar-lhe... tudo...

— Sim, tudo. Fale.

— Mas agora não sei... não sei... se devo...

Dom Fermín correu até a porta, fechou-a por dentro e, voltando-se rapidamente, descomposto, gritou, segurando com força o braço da criada:

— Chega de fingimentos! Fale, ou eu mesmo arrancarei as palavras!

Petra olhou-o de frente, fingindo humildade e medo.

Queria ver a expressão daquele cônego ao saber que a grande senhora o traía.

Sem rodeios, Petra disse ter visto com os próprios olhos aquilo em que jamais teria acreditado.

O melhor amigo do patrão, aquele dom Álvaro que durante o dia não se separava de dom Víctor, entrava à noite no quarto da senhora pela sacada e só saía ao amanhecer.

Ela o vira certa noite e pensara estar sonhando.

Pusera-se a vigiar, acreditando que assim dissiparia certas suspeitas.

Mas, ai, era verdade, era verdade...

Aquele infame pervertera a senhorita, uma santa...

Dom Fermín tivera razão em temer.

Petra continuava falando, mas havia muito tempo De Pas já não a ouvia.

Assim que compreendeu do que se tratava, antes de escutar as frases cruas com que a loura lasciva descreveu o assalto do casarão dos Ozores pelo Tenório vetustense, dom Fermín girou sobre os calcanhares, como se fosse cair, deu dois passos incertos e chegou à sacada, apoiando a testa nos vidros.

Parecia olhar para a rua.

Mas estava de olhos fechados.

Ouvia Petra sem compreender direito sua conversa.

Incomodava-o o som agudo e choroso da voz, não aquilo que dizia, pois as palavras já não alcançavam a atenção do cônego.

Queria mandar que se calasse, mas não conseguia.

Não conseguia falar.

Não conseguia mover-se.

Petra falou quanto quis.

Quando se calou, ouviram-se apenas os ruídos amortecidos da rua: as rodas de uma carruagem correndo muito longe e a voz de um vendedor ambulante que anunciava aos gritos toalhas e rendas finas.

O Magistral pensava que o vidro gelado contra sua testa parecia uma faca que lhe cortava o cérebro.

Pensava também que, ao enfiar-lhe uma batina pela cabeça, sua mãe o tornara tão infeliz, tão miserável, que ele era a única criatura no mundo digna de compaixão.

A ideia vulgar, falsa e grosseira de comparar o clérigo a um eunuco também entrou em seu cérebro com a umidade do vidro gelado.

Sim.

Era como um eunuco apaixonado, objeto de riso, coisa repugnante de tão ridícula.

Sua mulher, a Regenta, que era sua mulher, não diante de Deus nem dos homens, mas diante dos dois, principalmente diante dele, diante de seu amor, de sua vontade de ferro, de todas as ternuras de sua alma, a Regenta, sua irmã da alma, sua mulher, sua esposa, sua humilde esposa, o enganara e o desonrara como qualquer outra mulher.

E ele, que tinha sede de sangue, ânsia de apertar o pescoço do infame, de sufocá-lo entre os braços, certo de que poderia fazê-lo, certo de vencê-lo, pisá-lo, chutá-lo, reduzi-lo a pedaços, a pó, a vento, ele estava amarrado pelos pés com um pano ignominioso, como um presidiário, como uma cabra, como um pangaré solto nos prados.

Ele, miserável padre, escárnio de homem disfarçado de criatura sem sexo, precisava calar-se, morder a língua, as mãos, a alma, tudo o que lhe pertencia, sem tocar em nada do outro, nada do infame, do covarde que lhe cuspia no rosto porque ele tinha as mãos amarradas.

Quem o prendia?

O mundo inteiro.

Vinte séculos de religião, milhões de espíritos cegos e preguiçosos, que não viam o absurdo porque não sentiam sua dor, que chamavam de grandeza, abnegação e virtude aquilo que era um suplício injusto, bárbaro, tolo e, acima de tudo, cruel.

Cruel.

Centenas de papas, dezenas de concílios, milhares de povos, milhões de pedras de catedrais, cruzes e conventos, toda a história, toda a civilização, um mundo de chumbo pesava sobre ele, sobre os braços, sobre as pernas, transformado em grilhões.

Ana, que lhe consagrara a alma e a fidelidade de um amor sobre-humano, enganava-o como se ele fosse um marido idiota, carnal e grosseiro.

Abandonava-o para entregar-se a um miserável janota, a um vaidoso, a um elegante de falso ouro, a um homem de gesso, a uma estátua oca.

E nem sequer a compaixão do mundo poderia receber.

Nem sua mãe, que acreditava adorá-lo, poderia dar-lhe consolo, o consolo de seus braços e lágrimas.

Caso estivesse morrendo, a mãe estaria a seus pés, arrancando os cabelos e chorando desesperada.

Mas para aquilo, muito pior do que morrer, muito pior do que condenar-se, sua mãe não tinha lágrimas, abraços, desespero, nem sequer olhares.

Ele não podia falar.

Ela não podia, não devia adivinhar.

Existia somente um dever supremo: dissimular.

Silêncio.

Nem uma queixa, nem um movimento.

Queria correr, procurar os traidores e matá-los?

Pois silêncio.

Não se podia mover uma mão nem colocar um pé fora de casa.

Dentro de pouco tempo, sim, iria para o coro.

Talvez celebrar missa.

Receber Deus!

O Provisor sentiu uma gargalhada de Lúcifer dentro do corpo.

Sim, o diabo rira em suas entranhas.

Aquela gargalhada profunda, cujas raízes estavam no ventre e no peito, sufocava-o, asfixiava-o.

Abriu a sacada com um soco.

O ar frio e úmido trouxe-lhe de longe a ideia da realidade, e ele ouviu a tosse discreta de Petra, que esperava atrás, cravando-lhe os olhos na nuca.

Dom Fermín fechou a sacada, voltou-se e olhou com olhos de idiota para a loura, que enxugava lágrimas vis.

Não precisava de um instrumento para lutar e fazer mal?

Aquele era o único que possuía.

Petra permanecia imóvel e calada, esperando servir ao senhor.

Experimentava voluptuoso prazer ao ver o cônego sofrer.

Mas queria mais.

Queria continuar a obra.

Queria que lhe mandassem cravar na alma da patroa, da orgulhosa grande senhora, todas aquelas agulhas que acabara de enterrar na carne do clérigo louco.

Uma voz lenta, rouca e opaca, que não parecia haver soado no escritório, voz de ventríloquo, perguntou:

— E você... que pretende fazer agora?

— Eu?... Deixar aquela casa, senhor.

“Não quer ser franco?”, pensou Petra. “Pois que sofra. Ele virá procurar-me onde quero que me procure.”

— Deixar aquela casa — repetiu. — Que outra coisa posso fazer? Não quero ajudar com meu silêncio a vergonha do patrão. Não posso remediar a situação, mas posso sair daquela casa.

— E a honra de dom Víctor não lhe importa? É assim que agradece o pão... que comeu durante tantos anos?

— Senhor, o que posso fazer por ele?

— Depois de sair, nada.

— Pois estão me expulsando.

— Eles?

— Sim, eles. Ontem o senhorito Álvaro, que é quem manda ali, porque o patrão está cego e enxerga pelos olhos dele, o senhorito Álvaro me pôs na rua.

Hoje devo despedir-me.

Ofereceu-me um lugar na hospedaria, mas prefiro ficar na rua.

— Você virá para esta casa, Petra — disse a voz de caverna, fazendo esforços inúteis para parecer doce.

Petra tornou a chorar.

Como poderia pagar semelhante caridade, etc., etc.?

Aquela ternura facilitou o acordo.

Cedendo cada qual um pouco da obstinação, aproximaram-se do pacto infame, da intriga asquerosa e vil.

No princípio, fingiam decência e invocavam interesses sagrados.

Depois, esqueceram as fórmulas.

Por fim, o Magistral prometeu garantir a sorte da moça e satisfazer-lhe a ambição.

Ela, por sua vez, colocaria a vergonha diante dos olhos de Quintanar de modo tão evidente, tão palpável, que aquele senhor, caso corresse sangue de homem em seu corpo, seria obrigado a castigar os traidores como mereciam.

Ao fim da conversa, falavam como dois cúmplices de um crime difícil.

O Magistral poupava palavras, mas não aquelas que esclareciam o projeto.

Que faria Petra para colocar diante do estúpido Quintanar aquela vergonha?

Revelações?

Não poderiam ser feitas.

Cartas anônimas?

Eram perigosas.

— Não, senhor, nada disso. Ele precisa ver — repetia Petra, esquecida dos fingimentos, com prazer de artista.

Havia ali dois criminosos apaixonados e nenhuma testemunha da ignomínia.

Cada um enxergava a própria vingança, não o crime do outro nem a vergonha do pacto.

Quando Petra saiu da casa do Magistral, este sentiu dentro de si um novo homem.

O homem que feria mortalmente por vingança.

O criminoso.

O cego pela paixão.

O assassino, sim, o assassino.

A outra era apenas seu instrumento. O assassino era ele.

E não se arrependia.

Não.

Cem mortes, cem mortes para os infames.

Que faria dom Víctor?

De qual comédia antiga se lembraria para vingar completamente a ofensa?

Mataria primeiro a mulher?

Iria antes procurá-lo?

No dia seguinte, 27 de dezembro, dom Víctor e Frígilis deveriam tomar o trem de Roca-Tajada às oito e cinquenta, para chegarem aos pântanos de Palomares por volta das nove e meia.

Era um pouco tarde para iniciar a caça aos patos e alcaravões, mas a empresa ferroviária não estabeleceria um trem especial para caçadores.

Por isso, levantavam-se mais tarde do que nos outros anos.

Quintanar preparou o despertador para chamá-lo às oito em ponto com estrépito horríssono.

Num instante, vestia-se, lavava-se, saía para o Parque, onde costumava esperar dois ou três minutos por Frígilis, caso não o encontrasse já ali, e gastava o tempo restante no caminho até a estação, chegando poucos minutos antes da partida do trem misto.

Naquela manhã, Quintanar despertou de um sono doce e profundo, raro nele, mais assustado do que de costume, atordoado pelo repique estridente daquele estertor metálico, rápido e descompassado.

Com grande esforço, venceu a preguiça, bocejou muitas vezes e, quando resolveu saltar da cama, o corpo encolhido protestou contra o despertar inoportuno.

O sono e a preguiça diziam que parecia mais cedo do que nos outros dias, que o despertador mentia descaradamente, que não poderia ser nem de longe a hora indicada pelo mostrador.

O caçador não deu atenção àqueles sofismas.

Sem parar de abrir a boca e esticar os braços, dirigiu-se ao lavatório e mergulhou imediatamente a cabeça em água fria.

Assim dom Víctor respondia às sugestões da mísera carne, que pretendia voltar às plumas ociosas.

Quando as ideias já estavam mais claras, reconheceu imparcialmente que a preguiça naquela manhã não se queixava sem motivo.

De fato, devia ser muito mais cedo do que marcava o relógio.

Entretanto, tinha certeza de que o despertador não adiantava e de que, com as próprias mãos, dera-lhe corda e acertara a hora na manhã anterior.

Ainda assim, devia ser mais cedo.

Não poderiam ser oito horas, nem sequer sete.

Dizia-o o sono que voltava, apesar das abluções, e com maior autoridade dizia-o a pouca claridade do dia.

“O nascer do sol deve ocorrer hoje por volta das sete e vinte, minuto a mais ou a menos.

Pois bem, o sol ainda não nasceu. Isso é indubitável.

É verdade que a névoa muito espessa e as nuvens cinzentas e pesadas que cobrem o céu tornam a manhã muito escura.

Mas não importa.

O sol ainda não nasceu.

Está escuro demais.

Não devem ser sequer sete horas.”

Não podia consultar o relógio de bolso, porque, no dia anterior, ao dar-lhe corda, descobrira a mola principal quebrada.

“O melhor é chamar alguém.”

Saiu para os corredores de pantufas.

— Petra! Petra! — disse, querendo gritar sem fazer barulho.

— Petra, Petra...

Que diabo!

Como responderia, se já não estava em casa?

Maldito costume.

O homem é um animal de hábitos.

Dom Víctor suspirou.

No fundo, alegrava-se por estar livre daquela testemunha e semivítima de suas fraquezas.

Apesar disso, ao recordar que gritava inutilmente “Petra!”, sentiu uma melancolia estranha e poética.

“Coisas do coração humano!”

— Servanda! Servanda! Anselmo! Anselmo!

Ninguém respondeu.

— Não há dúvida, é muito cedo. Nem sequer é hora de os criados se levantarem.

Mas então?

Quem adiantou meu relógio?

Dois relógios estragados em dois dias!

Quando a desgraça entra numa casa...

Dom Víctor voltou a duvidar.

Os criados não poderiam ter adormecido?

A falta de luz não poderia ser provocada pela densidade das nuvens?

Por que desconfiar do relógio, caso ninguém pudesse tocá-lo?

E quem teria interesse em adiantá-lo?

Quem se permitiria semelhante brincadeira?

Quintanar passou à convicção contrária.

Poderiam muito bem ser oito horas.

Vestiu-se depressa, pegou a garrafa de anis e bebeu um gole, como fazia quando saía para caçar, ele, inimigo mortal do chocolate.

Pôs ao ombro o saco de provisões, cheio de excelentes frios, e desceu para a horta pela escada do corredor, caminhando na ponta dos pés, como sempre, para não perturbar o silêncio da casa.

Mas, na volta, ele ajustaria contas com os criados.

Preguiçosos!

Agora não havia tempo para nada.

Frígilis já devia estar no Parque, esperando impaciente.

— Pois, senhor, caso sejam realmente oito horas, jamais vi dia mais escuro em minha vida.

Entretanto, a névoa não está muito espessa... não... nem o céu está muito carregado.

Não compreendo.

Quintanar chegou ao caramanchão, o lugar do encontro.

Que coisa estranha!

Frígilis não estava ali.

Andaria pelo Parque?

Pôs a espingarda ao ombro e saiu do caramanchão.

Naquele momento, o relógio da catedral deu três badaladas, como se bocejasse.

Dom Víctor parou pensativo, apoiou a coronha da espingarda na areia úmida do caminho e exclamou:

— Adiantaram o relógio! Mas quem? São oito menos quinze ou sete menos quinze? Esta escuridão!

Sem saber por quê, sentiu uma angústia estranha.

Ao que parecia, também tinha nervos.

Sem compreender a causa, aquela incerteza preocupava-o e incomodava-o muito.

Que incerteza?

Antes estivera obcecado.

Aquela claridade não poderia ser a das oito.

Eram sete menos quinze.

Aquilo era o crepúsculo da manhã.

Agora tinha certeza.

Mas então quem adiantara o despertador mais de uma hora?

Quem e por quê?

E principalmente, por que aquele acidente sem importância o atingia tão profundamente?

Que pressentia?

Por que acreditava que ficaria doente?

Voltava a caminhar, dirigindo-se para a casa, que se via entre os galhos sem folhas das árvores, muito cerradas naquele trecho.

Ouviu um ruído que lhe pareceu o de uma sacada aberta com cuidado.

Deu mais dois passos entre os troncos, que o impediam de compreender o que acontecia.

Por fim, viu uma sacada de sua casa fechar-se e um homem muito alto descer, segurando-se nas grades e procurando com os pés a janela gradeada do térreo para apoiar-se e depois saltar sobre um monte de terra.

A sacada era a de Anita.

O homem envolveu-se numa capa com forro vermelho e, evitando a areia dos caminhos, saltando de um canteiro a outro e depois correndo aos pulos sobre a relva, chegou ao muro, à esquina que dava para o caminho de Traslacerca.

Com um salto, colocou-se sobre um tonel meio apodrecido que estava abandonado ali e, usando como escada alguns restos de paus da espaldeira cravados entre as pedras, conseguiu, graças às pernas muito compridas, ficar montado sobre o muro.

Dom Víctor seguira-o de longe, entre as árvores.

Erguera o cão da espingarda sem pensar, por instinto, como durante uma caçada.

Mas ainda não apontara para o fugitivo.

Primeiro queria reconhecê-lo.

Não se contentava em adivinhar.

Apesar da pouca luz do crepúsculo, quando o homem ficou montado no muro, o dono do Parque já não pôde duvidar.

“É Álvaro!”, pensou dom Víctor.

E levou a arma ao rosto.

Mesía estava imóvel, olhando para o caminho, com o rosto inclinado, atento apenas às pedras e fendas que lhe serviam de apoio na descida.

“É Álvaro!”, pensou outra vez dom Víctor, que tinha a cabeça do amigo na extremidade do cano da espingarda.

Ele estava entre as árvores.

Mesmo que o outro olhasse para o Parque, não o veria.

Poderia esperar e refletir.

Havia tempo.

Era um tiro certo.

Quando o outro se movesse para descer... então.

Mas demorava anos, demorava séculos.

Não era possível viver assim, com aquele cano que pesava quintais, mundos de chumbo, e aquele frio que devorava o corpo e a alma.

Seria melhor estar na outra extremidade do cano, ali sobre o muro.

Sim, sim.

Trocaria de lugar.

E isso apesar de o outro estar prestes a morrer.

Era Álvaro.

E não duraria mais um minuto.

Cairia no Parque ou no caminho?

Não caiu.

Desceu sem pressa pelo lado de Traslacerca, tranquilo, acostumado àquela escalada e já conhecido pelas pedras do muro.

Dom Víctor viu-o desaparecer sem abandonar a mira e sem ousar mover o dedo apoiado no gatilho.

Mesía já estava no caminho, e o amigo continuava apontando para o céu.

— Miserável! Eu deveria tê-lo matado! — gritou dom Víctor quando já era tarde.

Como se a consciência o mordesse, correu ao portão do Parque, abriu-o, saiu para o caminho e correu até a esquina do muro por onde o inimigo saltara.

Não havia ninguém.

Quintanar aproximou-se da parede e viu nas pedras e fendas a escada de sua desonra.

Sim, agora a via perfeitamente.

Agora não via outra coisa.

Quantas vezes passara por ali sem suspeitar que por aquele muro se subia à alcova da Regenta!

Voltou ao Parque e examinou a parede daquele lado.

O tonel meio apodrecido junto ao muro, como abandonado por acaso, e os paus da espaldeira quebrada formavam outra escada.

Via aquilo vinte vezes por dia e até então não percebera o que era.

Uma escada!

Aquilo lhe parecia o símbolo de sua vida.

Os sinais de sua desonra estavam muito claros, assim como os passos da traição.

Aquela amizade fingida, o suportar-lhe comédias e confidências, o fato de haver colocado o Magistral contra ele... tudo aquilo era outra escada.

Jamais a vira.

Agora não via outra coisa.

E Ana?

Ana!

Ela estava ali, dentro de casa, no leito.

Estava em suas mãos.

Poderia matá-la.

Deveria matá-la.

Já que poupara a vida do outro, por algumas horas, apenas algumas horas, por que não começar por ela?

Sim, sim, já iria.

Estava decidido.

Era evidente, seria preciso matar.

Quem poderia duvidar?

Mas antes... antes queria meditar.

Precisava calcular... sim, as consequências do crime.

Porque, afinal, seria crime.

Eles eram infames.

Enganaram o marido e o amigo.

Mas ele seria assassino, desculpável, quanto quisessem, porém assassino.

Sentou-se num banco de pedra.

Levantou-se imediatamente.

O frio do assento chegara-lhe aos ossos.

Sentia no corpo uma estranha preguiça, um egoísmo material que lhe pareceu indigno dele e das circunstâncias.

Tinha muito frio e muito sono.

Sem querer, pensava nisso com clareza, enquanto as ideias referentes à desgraça, à desonra e à vergonha mostravam-se resistentes, fugiam, confundiam-se e recusavam-se a organizar-se num raciocínio.

Entrou no caramanchão e sentou-se numa cadeira de balanço.

Dali via a sacada de onde dom Álvaro saltara.

O relógio da catedral bateu sete horas.

Aquelas badaladas fixaram na cabeça atordoada de Quintanar a triste realidade.

Adiantaram-lhe o relógio.

Quem?

Petra, sem dúvida.

Fora uma vingança.

Uma vingança bem realizada.

Agora lhe parecia absurdo ter confundido a pouca luz da madrugada com um dia nublado.

Caso Petra não houvesse adiantado o relógio, ou caso ele não tivesse acreditado nele, talvez ignorasse durante toda a vida a desgraça horrorosa, aquela desgraça que acabara para sempre com a felicidade.

A preguiça de ser infeliz e de sofrer, unida à preguiça do corpo que pedia aos gritos colchões e lençóis quentes, entorpecia o espírito de dom Víctor.

Não queria mover-se, sentir, pensar, nem sequer viver.

A atividade o horrorizava.

Ah, como seria bom se o tempo parasse!

Mas não parava.

Corria, arrastava-o consigo, gritava:

“Mexa-se. Faça alguma coisa. Cumpra seu dever.

Onde estão suas promessas?

Mate, queime, grite.

Anuncie ao mundo sua vingança.

Despeça-se para sempre da tranquilidade.

Procure energia no fundo do sono.

Arranque dos bocejos as apóstrofes da honra ultrajada.

Represente seu papel.

Agora chegou sua vez.

Não é Perales quem trabalha.

É você.

Não é Calderón quem inventa questões de honra.

É a vida, é sua maldita sorte, é o mundo miserável que lhe parecia tão alegre, feito para divertir-se e recitar versos.

Vá, vá, corra, suba, mate a dama.

Depois desafie o galã e mate-o também.

Não existe outro caminho.”

E, apesar de tudo, não conseguia mover pés nem mãos.

Estava morto de sono e odiava a vigília, que apresentava tamanhas misérias, tanta desgraça, uma desgraça que duraria para sempre.

Mas chegara sua vez.

Aquele era seu drama de capa e espada.

Também existiam no mundo.

Mas como eram feios, como eram horrorosos!

Como poderiam proporcionar tamanho prazer aquelas traições, mortes e rancores em verso, no teatro?

Como o homem era mau!

Por que divertir-se com aquelas tristezas quando pertenciam aos outros, caso doessem tanto quando eram próprias?

E ele, miserável, homem indigno e covarde, estava filosofando enquanto sua honra continuava sem vingança!

Era preciso começar.

O tempo voava!

Outro tormento!

A ordem da função, a ordem da trama!

Por onde começaria?

Que diria?

Que faria?

Como a mataria?

Como procuraria o outro?

O relógio da catedral bateu sete e meia.

Quintanar levantou-se de um salto.

— Meia hora! Meia hora em um minuto! E não ouvi o quarto...

Frígilis chegará... e ainda não resolvi...

Dom Víctor compreendeu claramente que sua vontade estava inerte.

Não conseguia decidir-se.

Desprezou-se profundamente.

Mais profundo do que o desprezo, porém, foi o alívio sentido ao compreender que não tinha coragem para matar ninguém assim, tão repentinamente.

— Ou subo e a mato agora mesmo, antes que Tomás chegue, ou hoje já não a mato.

Tornou a cair na cadeira de balanço.

Aliviada a angústia pela lassidão do espírito, que já não lutava contra a impotência da vontade, o sentimento recuperou parte do vigor.

A dor da traição feriu-o pela primeira vez com força suficiente para arrancar-lhe lágrimas.

Chorou como um velho e pensou que já o era.

Jamais lhe ocorrera semelhante ideia.

Seu temperamento o enganava, fingindo uma juventude interminável.

Ao feri-lo de repente, a desgraça desbotava, como um aguaceiro, todos os cabelos brancos do espírito.

Sim, era um pobre velho.

Um pobre velho que enganavam e de quem zombavam.

Chegava à idade em que precisaria de uma companheira como de um cajado.

E o cajado se quebrava em suas mãos.

A companheira o traía.

Ficaria sozinho.

Sozinho.

A mulher e o amigo o abandonavam.

A dor e a compaixão por si mesmo trouxeram-lhe ideias mais naturais e oportunas do que aquelas despertadas, entre fantasmas de febre e insônia, pela indignação postiça das leituras românticas, combatida pela preguiça, pelo egoísmo e pela fraqueza de caráter.

Não sentia ciúmes.

Naquele instante, não sentia a vergonha da desonra.

Já não pensava no mundo nem no ridículo que cairia sobre ele.

Pensava na traição.

Sentia o engano daquela Ana a quem dera a honra, a vida, tudo.

Agora percebia que seu afeto era mais profundo do que imaginara.

Amava-a mais do que nunca.

Mas sentia com clareza que não era amor de amante, amor de esposo apaixonado, e sim de amigo terno e de pai.

Sim, de pai doce, indulgente e desejoso de cuidados e atenções.

“Matá-la!

Isso se diz depressa.

Mas matá-la...

Ora, ora.

Os atores matam imediatamente.

Os poetas também, porque não matam de verdade.

Mas uma pessoa honrada, um cristão, não mata assim, de repente, sem morrer de dor, aqueles a quem vive unido por todos os laços do afeto e do costume.

Ana era como sua filha.

E sentia a desonra como a sente um pai.

Queria castigar, queria vingar-se.

Mas matar era muito.

Não teria coragem hoje, nem amanhã, nem nunca.

Para que enganar a si mesmo?

Mata aquele que fica cego, aquele que odeia.

Ele não estava cego, não odiava.

Estava triste até a morte, sufocando em lágrimas geladas.

Sentia o ferimento, compreendia toda a ingratidão dela.

Mas não a odiava.

Não queria, não poderia matá-la.

O outro, sim.

Álvaro tinha de morrer.

Mas frente a frente, em duelo, não com um tiro.

Com uma espada.

Aquilo seria mais nobre, mais digno dele.

Frígilis teria de cuidar de tudo.

Mas quando?

Agora?

Assim que chegasse?

Não.

Também não se atrevia a contar-lhe de repente.

Depois de falar com uma alma humana sobre descoberta tão vergonhosa, já não haveria como recuar, isto é, mudar de decisão, adiar ou modificar a vingança.

Assim que alguém soubesse, seria preciso agir depressa e com violência.

O mundo exigia isso, as ideias de honra exigiam.

Afinal, ele era um marido enganado.

Ela teria de ser levada para um convento.

Ele voltaria para sua terra, caso Mesía não o matasse.

Esconder-se-ia na Almunia de dom Godino.”

Ao chegar a esse ponto, o infeliz marido lembrou-se de que, meses antes, Ana lhe propusera uma viagem à Almunia.

Talvez, caso aceitasse, tivesse evitado aquela desgraça irreparável.

Sim, irreparável.

Que dúvida havia?

“E Petra?

Maldita Petra!

É ela que me torna tão infeliz, que me lança neste poço escuro de tristeza, de onde jamais sairei, mesmo que mate o mundo inteiro, mesmo que faça Mesía em pedaços e enterre viva a pobre Ana!

Ai, Ana também será muito infeliz!”

A catedral deu oito badaladas.

“Oito horas!

Agora eu deveria despertar... e nada saberia.”

Esse pensamento o envergonhou.

Explodiu-lhe no cérebro a palavra grosseira com que o povo mal-educado chama os maridos que toleram a própria desonra.

A ira voltou a acender-se no peito, soprou com força e varreu a dor terna.

“Vingança! Vingança!”, disse para si mesmo, “ou sou um miserável, uma criatura digna de desprezo.”

Ouviu passos sobre a areia, ergueu a cabeça e viu Frígilis ao lado.

— Olá! Parece que alguém acordou cedo — disse Crespo, que gostava de ser sempre o primeiro.

— Vamos, vamos — respondeu dom Víctor, levantando-se outra vez e pendurando a espingarda no ombro.

A chegada de Frígilis o assustara.

Tirou força da fraqueza para tomar subitamente uma decisão.

Por fim, decidiu-se.

Decidiu calar, dissimular e ir à caça.

Lá nos prados dos pântanos, quando ficasse sozinho à espreita, durante todo aquele dia triste que seria tão longo, meditaria.

Na volta, talvez já tivesse formado o plano.

Consultaria Tomás e o mandaria desafiar o outro, caso fosse isso o que devia fazer.

Por enquanto, calar e dissimular.

Aquilo não poderia ser lançado aos quatro ventos de qualquer maneira.

A descoberta que devia a Petra não poderia ser revelada sem consideração e cálculo.

A Frígilis poderia contar tudo, mas no devido tempo.

Saíram do Parque.

O próprio Quintanar fechou a grade com sua chave.

Crespo caminhava na frente.

Dom Víctor olhou para o fundo da horta, para o casarão que já lhe parecia outro.

Que estava fazendo?

Era covarde por adiar a vingança?

Não, porque eles não suspeitavam de nada, não fugiriam, não havia perigo.

Silêncio e dissimulação.

Era disso que precisava naquele momento.

E refletir muito.

Qualquer coisa que fizesse seria tão grave!

Angustiava-o a ideia da imensa responsabilidade de seus próximos atos.

Saber que da vontade sempre instável, impressionável e fraca dependeriam acontecimentos tão importantes, a sorte de várias pessoas, mergulhava-o numa espécie de pânico taciturno e desesperado.

Tinha impulsos de chamar Frígilis, contar tudo e colocar tudo em suas mãos.

Frígilis, embora sonhador, em momentos decisivos tinha mais bom senso do que ele e saberia ser mais prático.

Que faria?

Por enquanto, seguir Tomás até a estação.

E calar.

Sempre haveria tempo para falar.

A manhã continuava acinzentada.

Nuvens e mais nuvens cor de chumbo saíam como de um tear dos picos e planaltos do Corfín, caíam sobre a serra, arrastavam-se pelos cumes, deslizavam em direção a Vetusta e enchiam o espaço de uma tristeza cinzenta, muda e surda.

— Não está frio — observou Frígilis ao chegarem à estação.

Não trazia outro agasalho além do cachecol xadrez.

Mas dizia que sua jaqueta valia pela pele de um proboscídeo.

Não entravam nela balas nem resfriados.

Quintanar, ao contrário, envolto no casacão espesso, precisava esforçar-se para não bater os dentes.

— Não, não está muito frio — disse, com medo de denunciar-se.

“Felizmente, este homem é um sonâmbulo que jamais repara se os outros têm rosto alegre ou azedo.

Devo estar pálido e transtornado, mas este egoísta não vê nada disso.”

Entraram num vagão de terceira classe.

No mesmo banco, Frígilis encontrou antigos conhecidos.

Eram dois criadores de gado que voltavam de Castilla e, depois de passarem a noite em Vetusta, procuravam o amor do lar na aldeia.

Crespo, como se não houvesse no mundo sofrimentos nem amigos que se afogavam neles, alegre, com aquela irritante satisfação inspirada pela geada nas manhãs mais frias do ano, esfregava as mãos e falava dos preços do gado e das vantagens da parceria.

Estava loquaz como jamais se mostrava em Vetusta.

Parecia que, à medida que o trem se afastava dos telhados de vermelho sujo, quase pardo, da cidade triste, mergulhada no sono e na névoa, a alma de Frígilis se expandia, respirando à vontade naquele pulmão de ferro.

Aquele cego, inoportunamente alegre e falante, não suspeitava que seu amigo, seu melhor amigo, no momento em que o trem começara a andar, tivera vontade de atirar-se na plataforma.

Depois quis lançar-se pela janela sobre a linha e correr, correr desesperadamente até Vetusta, entrar no casarão dos Ozores e cobrir de punhaladas o peito de uma infame.

Sim, tudo isso quisera fazer dom Víctor.

Sentiu morrer de vergonha e cólera contra os adúlteros infames e contra si mesmo assim que percebeu que o trem se movia e o afastava do lugar do crime, da desonra e da necessária vingança.

“Sou um miserável, sou um miserável!”, gritava por dentro Quintanar enquanto o trem voava e Vetusta ficava distante.

Tão distante que, por trás das colinas e árvores nuas, já se via apenas a torre da catedral, como um estandarte negro destacado contra o fundo esbranquiçado do Corfín, envolto pela névoa que o sol morno iluminava de lado.

“Fujo de minha desonra, em vez de lavar a afronta, fujo dela.

Isto não tem nome.

Ah, sim, tem.”

E zás!

O nome que aquilo tinha, segundo Quintanar, explodia como um foguete de dinamite dentro do cérebro do pobre velho.

“Sou um tal, sou um tal!”

E dizia a palavra inteira para si mesmo, tão alto que parecia impossível que os demais passageiros não ouvissem.

O trem, porém, fugia de Vetusta e apitava, apitava para ele.

E ele não tinha coragem de lançar-se ao chão e voltar à cidade.

Demoraria mais de doze horas para ver novamente o casarão.

Adiava a vingança durante mais de doze horas!

Passaram por um túnel, e já não restou nada de Vetusta nem de sua paisagem.

Era outro panorama.

Estavam do outro lado da serra.

Montes avermelhados e colinas monótonas como uma ondulação simétrica estendiam-se, fechando o horizonte à esquerda da linha.

O céu estava escuro daquele lado, com as nuvens baixas, que se desfaziam sobre as colinas distantes como grandes sacos de roupa suja.

À direita, campos de milho agora vazios mostravam a terra negra de umidade.

Entre as manchas de terra nua apareciam o mato baixo e, de trecho em trecho, os pomares agora tristes, com macieiras sem folhas, cujos galhos afiados pareciam mãos e dedos de esqueletos.

Daquele lado, o céu prometia clarear.

A névoa fazia empalidecer as nuvens altas e finas, que começavam a rasgar-se.

Sobre o horizonte, na direção do mar, estendia-se uma faixa leitosa, uniforme e de tonalidade constante.

Sobre os castanhais, semelhantes a ruínas, que mostravam descoberto aquilo que no verão eram mistérios da folhagem, sobre os bosques de carvalhos, os campos nus e os pomares tristes, passavam de tempos em tempos bandos de corvos em triângulo macedônico, rumo ao mar, como náufragos da névoa.

Às vezes silenciosos, outras vezes lamentavam-se num grasnar lúgubre que chegava amortecido à terra, como uma queixa subterrânea.

Enquanto Frígilis falava da conveniência de abandonar o cultivo do milho e cultivar intensamente os prados, dom Víctor, com a cabeça apoiada na tábua dura do vagão de terceira classe, olhava o céu pardo e via desaparecer na névoa uma falange de corvos através daquele deserto de ar.

Primeiro pareciam sinais tipográficos.

Depois, uma impressão da vista.

Depois, nada.

— Lugarejo, dois minutos! — gritou uma voz rápida e rouca.

Dom Víctor pôs a cabeça para fora da janela.

A estação, triste cabana muito pintada de cor de chocolate e morta de frio, estava ao alcance da mão, ou pouco mais distante.

Sobre a porta, debruçada numa janela, uma mulher loura de cerca de trinta anos amamentava uma criança.

“É a mulher do chefe. Vivem neste deserto.

Felizes.”

O chefe da estação passou.

Parecia um mendigo.

Era jovem.

Parecia mais jovem do que a mulher da janela.

“Devem se amar.

Ao menos ela lhe será fiel.”

Depois dessa conjectura, dom Víctor tornou a cair no assento.

Fechou os olhos e cobriu o rosto quanto pôde com uma das mãos.

O trem voltou a mover-se.

O ruído do ferro e da madeira e a trepidação uniforme eram como uma canção que atraía o sono.

Quintanar, sem pensar, media o ritmo das rodas pesadas e rangentes com o compasso de uma marcha que seu melro cantava, aquele melro que era o orgulho da casa.

Depois mediu o andamento do trem pelo ritmo de certa polca.

E adormeceu.

Meia hora mais tarde, chegaram à estação onde deixariam o trem para seguir a pé pela estrada que levava aos pântanos de Palomares.

Dom Víctor despertou assustado graças a uma pancada que Frígilis lhe deu no ombro.

Sonhara mil disparates desconexos.

Ele próprio, vestido de cônego com traje de coro, casava dom Álvaro e a Regenta na igreja paroquial do Vivero.

Dom Álvaro também usava traje de clérigo, mas conservava o bigode e a barbicha.

Depois, os três começavam a cantar O barbeiro, a cena do piano.

Ele, dom Víctor, avançava até as luzes da ribalta para dizer com voz rachada:

Quando la mia Rosina...

Ao ouvi-lo, o público das cadeiras grasnava como se fosse um único espectador.

Todas as cadeiras estavam ocupadas por corvos que abriam muito os bicos e torciam os pescoços em ondulações de serpente.

“Um pesadelo”, pensou Quintanar.

Entre adormecido e desperto, começou a caminhar pela estrada de Palomares.

Estavam em Roca-Tajada.

À direita, a pique, erguia-se o monte Arco, cortado por aquele desfiladeiro, uma garganta estreita onde cabiam apenas a estrada estreita e o rio Abroño.

Ambos se cruzavam no meio da garganta, com o caminho passando perpendicularmente ao rio por uma ponte de pedra branca.

Depois de almoçarem em Roca-Tajada, na taberna de Matiella, vendedor de tabaco e pedreiro, grande amigo de Frígilis, os dois caçadores deixaram a estrada principal e, atravessando prados lamacentos de capim alto e verde-escuro, chegaram novamente às margens do Abroño.

Ali o rio era mais largo, cercado por juncos e areia e encrespado por ondas verdes enviadas pelo mar já próximo.

Frígilis e Quintanar atravessaram o rio numa barca e começaram a subir uma colina coroada por uma aldeia de casas brancas, separadas por pomares, loureiros, pinheiros de copa larga e redonda e álamos esbeltos.

O verde dos pinheiros, loureiros e algumas laranjeiras das hortas, sobre o verde mais claro dos prados inclinados, limpos e como recortados com tesoura, alegrava o alto, destacando-se sob o céu leitoso e entre as paredes brancas, que absorviam toda a claridade do dia, difusa e como peneirada através das nuvens finas.

À medida que subiam pela encosta da elevação, primeiro degrau da colina, o terreno se tornava mais firme, o capim clareava e diminuía.

Frígilis parou e contemplou o monte Arco à frente, o rio ondulante embaixo e a faixa do mar, azulada e salpicada de branco, que aparecia num canto do horizonte, parecendo mais alta do que o rio, como uma parede escura que subia em direção às nuvens.

Quintanar sentou-se numa pedra que emergia do prado.

Do lado de Areo, atravessando o rio a grande altura, viram aproximar-se um bando de aves aquáticas.

Quando chegaram ao alcance, Frígilis disparou os dois canos da espingarda com tão pouca sorte que conseguiu apenas dispersar as fileiras compactas.

— Atire você, tolo! — gritou Crespo, furioso.

Quintanar levantou-se, apontou e disparou.

Quatro aves aquáticas caíram feridas pelos chumbos que, naquele instante, dom Víctor pensou que deveriam estar dentro do cérebro do amigo traidor, o infame dom Álvaro.

Sim, aquele tiro era o tiro de Álvaro.

As aves inocentes caíam aos pares, e o ladrão de sua honra continuava vivo.

E, coisa estranha, quando estivera no Parque apontando para a cabeça de Mesía, não se lembrara de que o cartucho mortal continha chumbo miúdo.

Imaginara-o cheio de balas ou bagos grossos.

Contra a vontade, apesar da desgraça que carregava, o caçador sentiu o prazer da vaidade satisfeita.

Frígilis disparara duas vezes e nada.

Ele disparava apenas uma vez e abatia quatro.

Sim, quatro.

Ali estavam, sangrando sobre o prado, misturando gotas vermelhas à geada branca do capim.

Meia hora mais tarde, Frígilis vingou-se, matando um magnífico pato marinho.

Quintanar, por gosto, matou um corvo que não recolheu.

Caçaram até o meio-dia, hora de comer os frios.

Os cães de Frígilis estavam entediados.

Aquela caçada, na qual desempenhavam papel secundário, parecia-lhes uma vergonha.

Bocejavam e obedeciam mal à voz do dono.

Depois de comerem os frios e beberem bons goles, dom Víctor sentiu a dor com intensidade quatro vezes maior.

Tudo se tornava claro.

Toda a importância da descoberta do amanhecer apareceu-lhe como um tratado clássico de história.

Aquilo que acontecera e aquilo que aconteceria, via tudo como num panorama.

Sentia comichão de falar e vontade de chorar.

Por que não abria o peito ao amigo da alma, ao verdadeiro, ao único?

Não abriu.

Ainda não era o momento.

Para perseguir um bando de pegas que voava de prado em prado, sempre alerta, separaram-se.

Aquelas aves não se comiam, mas Frígilis lhes declarara guerra porque zombavam dos caçadores com uma espécie de ironia e sarcasmo que pareciam racionais.

Esperavam, fingiam estar distraídas, dissimulavam a vigilância.

Quando Frígilis se preparava para atirar, escondido atrás de uma sebe, as condenadas voavam, gritando como bruxas surpreendidas num sabá.

Por isso ele as perseguia tenazmente, irritado.

Separaram-se.

Caso as pegas fugissem do prado por um lado, encontrariam o disparo de Crespo.

Caso tomassem o outro, dom Víctor atiraria.

Quintanar ficou sozinho sobre uma colina que dominava o vale.

O sol não conseguira dissipar a névoa.

Mal se percebia atrás de um toldo esbranquiçado, como se fosse uma lua de teatro, feita com um pouco de óleo sobre papel.

Ao longe, gritavam as aves agourentas do inverno.

Depois apareciam sob as nuvens, voando fora do alcance, sem medo do caçador, mas tristes, cansadas da vida, supunha Quintanar.

O campo estava melancólico.

O inverno parecia uma nudez.

Apesar disso, como a natureza era bela!

Como repousava tranquilamente!

Os homens, os homens eram aqueles que haviam criado os ódios, as traições e as leis convencionais que amarravam o coração à desgraça.

A filosofia de Frígilis, aquele pensador agrônomo que desprezava a sociedade, seus falsos princípios, seus preconceitos, exageros e violências, apareceu a Quintanar, cujo corpo repleto pedia uma sesta, como a filosofia verdadeira, a única sabedoria eterna.

Vetusta ficava lá atrás, depois de montanhas e mais montanhas.

Que era, comparada com o vasto mundo?

Nada.

Um ponto.

E todas as cidades, todos os buracos onde o homem, aquela formiga, fabricava abrigo, que eram comparados com os bosques virgens, os desertos, as cordilheiras e os vastos mares?

Nada.

E as leis da honra, todos os preconceitos da vida social, que eram diante das grandes, fixas e naturais leis obedecidas pelos astros no céu, pelas ondas no mar, pelo fogo sob a terra e pela seiva circulando nas plantas?

Por um instante, Quintanar sentiu vivo desejo de criar raízes e galhos e cobrir-se de musgo como um carvalho secular daqueles que via coroando o alto do monte Areo.

Vegetar era muito melhor do que viver.

Ouviu um tiro distante.

Depois, o estrépito das pegas que voavam, rindo com guinchos estridentes.

Viu-as passar sobre a cabeça.

Não se moveu.

Que fossem para o diabo.

Pensava em Tomás de Kempis.

Sim, Kempis, a quem esquecera, tinha razão.

Em toda parte estava a cruz.

“Organize”, dizia o sábio asceta, “e ordene todas as coisas conforme seu modo de ver e sua vontade, e verá que sempre terá alguma coisa para sofrer, de boa vontade ou à força. Sempre encontrará a cruz.”

Também recordava:

“Às vezes parecerá que Deus o abandona. Outras vezes será atormentado pelo próximo. E, o que é mais, muitas vezes será incômodo para si mesmo.”

“Sim, o próximo me atormenta, e eu mesmo me incomodo, faço-me mal até a alma sangrar.

Não sei o que devo fazer nem sequer o que devo pensar.

Anita me engana, é uma infame, sim.

Mas e eu?

Não a engano também?

Com que direito uni minha frieza de velho distraído e insípido aos ardores e sonhos de sua juventude romântica e extremada?

Por que invoquei os direitos de minha idade para não servir como soldado do casamento e depois pretendi lutar como contrabandista do adultério?

O adultério do homem deixará de ser adultério, digam as leis o que disserem?”

Irritava-o encontrar-se tão filosófico.

Mas não conseguia ser outra coisa.

Compreendia que aquelas meditações o afastavam da vingança, que, no fundo da alma, já não desejava vingar-se.

Queria castigar como juiz justo e salvar a honra.

Nada mais.

E isso também o irritava.

Depois voltava a terna compaixão por si mesmo, a imagem da velhice solitária.

Os alcaravões, no alto do céu cinzento, cantavam seus lamentos como quem recita Kempis numa língua desconhecida.

Sim, a tristeza era universal.

O mundo inteiro era podridão.

O ser humano era aquilo que havia de mais podre.

E sempre chegava à conclusão de que não sabia o que deveria fazer, nem sequer o que deveria pensar ou sentir.

De qualquer maneira, as comédias de capa e espada mentiam descaradamente.

O mundo não era como elas diziam.

Não se atravessa o corpo do próximo sem lhe dar tempo senão de recitar uma quadra.

Homens honrados e cristãos não matam tanto nem tão depressa.

À noite, no trem, quando voltavam sozinhos para Vetusta num vagão de segunda classe, por medo do frio dos de terceira, Frígilis contemplava a paisagem triste à luz da lua, que daquela vez fora mais forte do que o sol e rasgara as nuvens.

Ouviu atrás de si um suspiro como uma perfuração e voltou a cabeça.

— Que aconteceu, homem? Passei o dia inteiro vendo você preocupado e triste... Que aconteceu?

A pequena lâmpada do teto, que iluminava dois compartimentos, mal rompia as trevas daquele vagão semelhante a um caixão.

Frígilis não conseguia ver direito o rosto de dom Víctor.

Mas ouviu-o de repente chorar como uma criança e sentiu a cabeça forte e branca de Quintanar apoiar-se em seu ombro.

Sim, o pobre velho apoiava-se com afeto, confiança e a força com que cai um morto.

Parecia a abdicação de seu pensamento e de toda iniciativa.

— Tomás, preciso que me aconselhe. Sou muito infeliz. Escute...

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