TOMO I — Capítulo XII
TOMO I
Capítulo XII
Dom Francisco de Assis Carraspique era um dos integrantes mais importantes da Junta Carlista de Vetusta e aquele que, no momento oportuno, fizera maiores sacrifícios pecuniários. Era político porque o haviam convencido de que a causa da religião não prosperaria se os bons cristãos não se metessem a governar. Sua mulher o dominava por completo, uma fanática ardorosíssima que detestava os liberais porque, na guerra anterior, os cristinos haviam enforcado seu pai numa árvore sem lhe dar tempo para confessar-se. Carraspique beirava os sessenta anos e não se distinguia nem pela coragem nem pelos dotes de governo; distinguia-se por seus milhões. Era o maior contribuinte que a soberania clandestina de dom Carlos VII possuía na província. Sua religiosidade, a de Carraspique, sincera, profunda, cega, constituía nele uma virtude inteira; mas a fraqueza de seu caráter, suas poucas luzes naturais e a má intenção dos que o cercavam convertiam sua piedade em fonte de desgostos para o próprio dom Francisco de Assis, para os seus e para muita gente de fora.
Dona Lucía, sua esposa, confessava-se com o Magistral. Este era o pontífice infalível naquele lar honrado. Os Carraspique tinham quatro filhas; todas haviam feito a primeira confissão com dom Fermín; tinham sido educadas no convento escolhido por dom Fermín; e as duas primeiras haviam professado, uma nas Salesas, outra nas Clarissas.
O palácio dos Carraspique, comprado por pouco dinheiro na falência de um nobre liberal que morreu de desgosto, ficava em frente ao casarão dos Ozores, na Praça Nova, podre de velha.
O Magistral deixou-se conduzir à sala por uma criada de sessenta anos, que ladrava para os pobres como os cães maus. Aos padres, teria lambido os pés de bom grado.
— Espere um pouco, senhor Magistral, tenha a bondade de sentar-se; o senhor está lá dentro e sai num instante...
E, com voz misteriosa e áspera:
— Está aí o médico... aquele primo empedernido da senhora.
— Sim, já sei, dom Robustiano. Mas o que há, Fulgencia?
— Creio que irmã Teresa está um pouco pior... mas não é motivo para alarmar os pobres senhores. Não é verdade, senhor Magistral, que a pobre senhorita não corre perigo?
— Creio que não, Fulgencia; mas o que diz o médico? Vem de lá?
— Sim, senhor, vem de lá; e ali dentro estava aos gritos... vem furioso... é um louco. Não sei como o chamam. O parentesco, são coisas do parentesco.
A sala era retangular, muito espaçosa, decorada com gosto severo, sem luxo, com certa elegância nascida da venerável antiguidade, do asseio primoroso, da sobriedade e da própria severidade. O único móvel novo era um piano de cauda Érard.
Dom Robustiano chegou à sala e Fulgencia saiu falando entre os dentes.
O médico era alto, robusto, de longa barba branca. Vestia-se com o luxo arrogante de certos personagens provincianos que desejam revelar pelo porte sua boa posição social. Era uma bela figura que ainda se defendia com sucesso das injúrias do tempo. Dom Robustiano era havia muitos anos o médico da nobreza; mas, se na política passava por reacionário e zombava dos progressistas, em religião era tido por voltairiano, ou por aquilo que ele e outros vetustenses entendiam por tal. Jamais lera Voltaire, mas o admirava tanto quanto o odiava Glocester, o Arcediago, que tampouco o lera. Em matéria de letras, incluídas as de sua ciência, dom Robustiano não podia erguer a crista diante de nenhum medicastro moderno dos que morriam de fome em Vetusta. Estudara pouco, mas ganhara muito. Era um médico de sociedade, um doutor de bom trato social. Anos antes, para ele tudo era flato; agora tudo era questão de nervos. Curava com boas palavras; por ele, ninguém sabia que ia morrer. Costumava atender de graça os amigos; mas, quando a doença se agravava, declarava-se incompetente, mandava chamar outro e não se ofendia.
“Ele não servia para ver morrer uma pessoa querida.”
Ao lado dos enfermos, estava sempre brincando.
— Então o senhor quer morrer, senhor Fulano? Pois, por Deus, ainda veremos isso...
Era uma frase sacramental, mas tinha muitas outras. Assim enriquecera. Não usava muitos termos técnicos porque, segundo ele, não se devia assustar os profanos com grego e latim. Não era pedante, mas, quando o apertavam um pouco, quando o contradiziam, invocava o sacrossanto nome da ciência como quem chama o comissário de polícia.
“A ciência manda isto; a ciência ordena aquilo.”
E não se podia replicar.
À parte a ciência, que não era seu terreno próprio, dom Robustiano podia competir com qualquer um em franqueza, alegria, simpatia e até em bom senso e não pequena perspicácia. Pecava por falar demais.
Não podia engolir o Magistral, mas temia sua influência nas casas nobres e tratava-o com franqueza fingida e falsa amabilidade.
De Pas considerava-o um grandíssimo imbecil, mas lhe concedia a cortesia que empregava sempre no trato, sem distinguir entre imbecis e homens de talento.
— Oh, meu senhor dom Fermín! Que prazer... Chega em boa hora, meu amigo; o primo está inconsolável. Disse-lhe a verdade, toda a verdade; e, naturalmente, agora que a coisa não tem remédio, desespera-se... Quer dizer, remédio... eu creio que sim... mas essas ideias exageradas que... enfim, com o senhor se pode falar francamente, porque é uma pessoa esclarecida.
— O que há, dom Robustiano? O senhor vem das Salesas?
— Sim, senhor; venho daquele chiqueiro.
— Como está Rosita?
— Que Rosita? Já não existe Rosita! Rosita acabou; agora é irmã Teresa, que não tem rosas nem no nome nem nas faces.
Dom Robustiano aproximou-se do Magistral, olhou para todos os cantos, para todas as portas e, levando a mão à frente da boca, disse:
— Aquilo é o fim de tudo!
O Magistral sentiu um calafrio.
— O senhor acha?
— Sim, creio numa catástrofe próxima. Isto é, distingo, distingo em nome da ciência. Eu, Somoza, não posso esperar nada de bom; eu, homem de ciência, preciso declarar, primeiro: que, se a menina continuar respirando naquele meio... não há salvação; mas, se a tirarem de lá... talvez haja esperança. Segundo: que é um crime, um crime de lesa-humanidade não empregar os meios aconselhados pela ciência... Senhor Magistral, o senhor, que é uma pessoa esclarecida, acredita que a religião consiste em deixar-se morrer junto a um esgoto? Porque aquilo é uma latrina; sim, senhor, uma cloaca.
— O senhor sabe que é uma residência provisória. As Salesas estão construindo, como sabe, seu convento junto à fábrica de pólvora.
— Sim, sei; mas, quando o convento estiver pronto e as mulheres puderem mudar-se para lá, nossa Rosita já terá morrido.
— Senhor Somoza, talvez o afeto o faça enxergar o perigo maior do que realmente é.
— Como maior, senhor De Pas? O senhor há de saber mais do que a ciência? Já lhe disse o que pensa a ciência: segundo, que é um crime de lesa-humanidade... Oh! Se eu apanhasse o padrezinho culpado por tudo isto! Porque aqui há um padre envolvido, senhor Magistral, tenho certeza... e o senhor me perdoe... mas sabe que distingo entre clero e clero; se todos fossem como o senhor... Aposto que meu senhor dom Fermín não aconselha nenhum pai que tenha quatro filhas como quatro sóis a fazê-las freiras uma por uma, como se fossem os carneiros de Panurgo.
O Magistral não pôde deixar de sorrir, recordando que os carneiros de Panurgo não tinham sido freiras nem frades. Mas dom Robustiano repetia aquilo dos carneiros de Panurgo sem saber que espécie de gado era aquele, como não sabia muitas outras coisas. Já se disse que ele não lia livros: faltava-lhe tempo.
Dom Fermín pensava:
“Serão indiretas as tolices deste imbecil?”
— Suspeito — continuou o doutor — que meu pobre Carraspique está submetido à vontade de algum fanático, por exemplo o reitor do Seminário. Não lhe parece que pode ser o senhor Escosura, esse Torquemada pour rire, quem trouxe tanta desgraça a esta casa?
— Não, senhor; não creio que seja ele, nem que haja nesta casa tanta desgraça quanto o senhor afirma.
— Já vão duas meninas para a cova!
— Como para a cova?
— Ou para o convento, chame como quiser.
— Mas o convento não é a morte; como o senhor compreende, não posso concordar nesse ponto...
— Sim, sim, compreendo, e o senhor me perdoe. Mas, já que existem conventos, senhor, que os construam em condições higiênicas. Se eu fosse o governo, fecharia todos os que não fossem reconhecidos pela ciência. A higiene pública prescreve...
O senhor Somoza expôs longamente várias vulgaridades relativas à renovação do ar, ao aquecimento, à aeroterapia e a outros assuntos de folhetim semicentífico. Depois voltou à desgraça daquela casa.
— Quatro filhas e duas já freiras! Isto é absurdo.
— Não, senhor; absurdo, não, porque são elas que escolhem livremente...
— Livremente! Livremente! Ria, senhor Magistral, ria, o senhor que é uma pessoa tão esclarecida, dessa suposta liberdade. Pode haver liberdade onde não há escolha? Pode haver escolha quando só se conhece um dos termos entre os quais ela deve ocorrer?
Dom Robustiano falava quase como um filósofo quando se exaltava.
— A mim ninguém engana — continuou. — Conheço muito bem esta comédia. Não vê, meu senhor, que acompanhei o nascimento de todas elas, vi-as crescer, segui passo a passo todas as vicissitudes de suas existências? Vou lhe mostrar o sistema.
Dom Robustiano sentou-se e prosseguiu:
— Até os quinze ou dezesseis anos, as filhas de meus primos não veem o mundo. Aos dez ou onze, vão para o convento; ali Deus sabe o que lhes acontece. Elas não podem contar, porque as cartas que escrevem são ditadas pelas freiras e seguem sempre o mesmo molde, segundo o qual “aquilo é o Paraíso”. Aos quinze anos, voltam para casa; não trazem vontade. Essa faculdade da alma, ou seja lá o que for, fica no convento como um traste inútil. Para dar uma satisfação ao mundo, à opinião pública, dos quinze aos dezoito ou dezenove representa-se a farsa piedosa de fazê-las ver o século... por um buraco. Essa maneira de ver o mundo é muito graciosa, meu senhor dom Fermín. Lembra-se do banquete da cegonha? Pois é isso. As meninas veem o mundo dentro da redoma, mas não podem prová-lo. Bailes? Deus nos livre. Teatro? Abominação. À novena, ao sermão! E, de Páscoa em Páscoa, um passeiozinho com mamãe pelo Espolón ou pelo Passeio de Verão; os olhinhos no chão; não se fala com ninguém; e logo de volta para casa. Depois vem a grande prova: a viagem a Madri. Ali...
viam-se as feras do Retiro, o Museu de Pinturas, o Museu Naval, a Armaria; nada de teatros nem de bailes, que ali são ainda mais perigosos que em Vetusta: correr ruas, ver muita gente desconhecida, estropiar os pés e voltar para casa. As meninas regressam à terra dizendo de todo o coração que se entediaram na Corte, que seu querido convento, que quanto se divertiam mais ali com as Madres e as companheiras. De volta a Vetusta. Um rapaz se apaixona por qualquer uma das meninas... Vade retro! Mandam-no embora com respostas ásperas. Em casa rezam-se todas as horas canônicas; matinas, vésperas... depois o rosário com a coroinha, um padre-nosso para cada santo da Corte Celestial; jejuns, vigílias; e nada de sacada, nem de reuniões, nem de amigas, que são perigosas... Isso sim, podem tocar piano à vontade e costurar sem limites. Como artigo de luxo, permite-se às meninas que riam à vontade com as piadas do Arcediago, o diplomático senhor Mourelo, também chamado Glocester. O bom sujeito torto solta uma graça viscosa, as meninas riem, o pai também se derrete de satisfação, pobre Carraspique!, e tutti contenti. O Arcediago não é o padre oculto que existe aqui, não; esse representa a parte contrária, o demônio ou o mundo; mas, naturalmente, às meninas parece que o atrativo mundano reduzido às graças de Mourelo é pouca coisa; e, em compensação, o claustro oferece prazeres puros e certa liberdade, sim, senhor, certa liberdade, se comparada à vida arquimonástica daquilo que chamo de Regra de dona Lucía, minha prima carnal. Oh, senhor De Pas, fácil vitória a da Igreja! As meninas, vendo que Vetusta é andar de templo em templo com os olhos baixos; Madri, ir de museu em museu arrebentando os pés e tropeçando; o lar, um quartel místico, com piadas de padre como único encanto, resolvem livremente tornar-se freiras, para desfrutar um pouco de... de autonomia, como dizem os liberalões, que nos concedem uma liberdade parecida com a desfrutada pelas filhas de Carraspique.
O Magistral ouviu com paciência o discurso do médico e, para dizer alguma coisa, observou:
— O senhor não poderá negar que nesta casa o trato é jovial, franco; a cem léguas de toda beatice afetada.
— Outra farsa! Não sei quem diabos ensinou esta comédia à minha prima. Quem entra aqui pensa que é calúnia aquilo que contam sobre a rigidez monástica deste lar honrado, mas tedioso. As aparências enganam. Esta alegria sem motivo, estas brincadeirinhas de clericalha, e o senhor me perdoe, esta tolerância formal, puramente exterior, sem disfarces, servem apenas para tapar a boca dos profanos.
O Magistral olhava para o médico com grande curiosidade e algum espanto.
“Como aquele homem de tão poucas luzes raciocinava daquele modo em semelhante matéria? Saberia Somoza que era ele, e ninguém mais, o padre oculto, o chefe espiritual daquela casa? Se sabia, como lhe falava assim? Até os tolos possuíam a arte de dissimular?”
Carraspique entrou na sala. Trazia os olhos úmidos de lágrimas recentes. Abraçou o Magistral e suplicou fervorosamente que fosse às Salesas ver como estava a filha; ele não tinha coragem de ir pessoalmente. Dom Fermín prometeu ir naquele mesmo dia.
Somoza tornou a descrever a falta de condições higiênicas do convento.
— Mas o que quer que eu faça, meu primo?
— Meu caro, eu nada; eu não quero nada, porque sei como vocês são. Mas o que digo é o seguinte: a menina está muito doente, e não por culpa dela; sua natureza era forte; em sua constituição não existe vício algum; mas ela nunca recebe sol e a umidade a está devorando; precisa de calor e não o tem; de luz, e ali lhe falta; de ar puro, e ali respira-se peste; de exercício, e ali não se move; de distrações, e ali não existem; de boa alimentação, e ali come mal e pouco... mas não importa; pelo visto, Deus está satisfeito. Qual é a perfeição? Viver entre dois esgotos. O mundo está perdido? Pois vamos morar metidinhos dentro de um... inodoro.
Como aquela palavra, embora lhe parecesse culta, não exprimia o que queria, mas justamente o contrário, acrescentou:
— Num inodoro... que é a antítese, assim disse, de um inodoro.
— Enfim, senhores — prosseguiu —, os senhores defendem o absurdo, e minha paciência não chega tão longe. Resumo: a ciência oferece a saúde de Rosita com ares do campo, lá junto ao mar; vida alegre, boa alimentação, carne e leite sobretudo... sem isso, não respondo por nada.
Apanhou o chapéu e a bengala de castão de ouro; cumprimentou o Magistral com um movimento de cabeça e saiu murmurando:
— Pelo menos são Simeão Estilita vivia em cima de uma coluna, mas não era uma coluna... desta espécie; não era um monturo.
Dona Lucía apareceu e, com um gesto de desagrado, respondeu às palavras do primo, que ouvira de longe:
— É um louco, devemos deixá-lo.
— Mas gosta muito de nós — advertiu Carraspique.
— Mas é um louco... e estou sendo generosa.
O Magistral, com boas palavras, veio a dizer a mesma coisa.
“Não era preciso dar atenção a Somoza; era um sectário. Certamente, o convento provisório das Salesas não constituía boa moradia; ficava num bairro baixo, no ponto mais profundo de uma vertente, sem sol; ali desembocavam os esgotos mal construídos de grande parte da Encimada e, de fato, em algumas celas a umidade atravessava as paredes, e havia rachaduras; não se podia negar que, por vezes, os odores eram insuportáveis; semelhantes miasmas não podiam ser saudáveis. Mas tudo aquilo duraria pouco; e Rosita não estava tão mal quanto o médico afirmava. O médico das freiras garantia que não, e que tirá-la dali sozinha, separá-la das queridas companheiras, de sua vida regular, seria matá-la.”
Depois, dom Fermín examinou a questão do ponto de vista religioso.
“Havia alguma coisa além do corpo. Aqueles argumentos puramente humanos, mundanos, que se podiam opor a Somoza e a outros como ele, eram o que menos importava. O principal era avaliar se não haveria escândalo em precipitar-se e adotar medidas capazes de alarmar a opinião. Por culpa deles, por culpa de um carinho excessivo, de uma solicitude extrema, poderiam alimentar a maledicência. O que esperavam, senão isso, os inimigos da Igreja? Diriam que o convento das Salesas era um matadouro; que a religião conduzia a juventude viçosa àquela latrina para apodrecer... Diriam tantas coisas! Não, não era possível tomar ainda nenhuma medida radical. Era preciso esperar. De resto, ele iria ver irmã Teresa...”
— Sim, dom Fermín, por Deus! — exclamou dona Lucía, unindo as mãos. — Tenho certeza de que aquela querida menina recuperará a saúde se o senhor lhe levar o consolo de sua palavra.
Não se atrevia a chamá-la de filha. Considerava-a de Deus, somente de Deus.
Depois falaram de outra coisa. Embora jamais se houvesse tratado diretamente do assunto, ficara estabelecido, por acordo tácito, que as duas meninas mais novas não seriam freiras, a menos que houvesse nelas uma vocação superior a toda resistência prudente e moderada. Aquele acordo implícito era uma imposição da consciência ou do medo da opinião pública.
A mais velha das duas meninas tinha um pretendente. O Magistral vinha eliminá-lo.
“Era um ímpio.”
— Um ímpio, Ronzal? Seu amigo! — atreveu-se a dizer Carraspique.
— Sim, dom Francisco, meu amigo; mas o principal vem primeiro. Sacrifico o amigo quando se trata da felicidade de sua filha.
Uma lágrima, das poucas que possuía, rolou pelo rosto da dona da casa. Teria sido mais estético e simétrico que as lágrimas fossem duas; mas houve apenas uma. A do outro olho devia ter brotado tão pequena que a secura daquelas pálpebras, sempre enxutas, a engoliu antes que aparecesse.
A lágrima era de gratidão.
“O Magistral sacrificava por eles o nome e até a conveniência de um amigo, de um grande amigo, de um defensor, de um partidário seu, de todo um Ronzal, o deputado. Fazia ela muito bem em entregar as chaves do coração e da consciência a semelhante homem, àquele santo, seria melhor dizer.”
Ronzal, também chamado Trabuco, aspirava à mão de uma Carraspique, fosse qual fosse, porque seu orçamento de despesas aumentava e o de receitas diminuía; e dom Francisco de Assis era um milionário que educava muito bem as filhas. Mas o Magistral tinha outros projetos.
— Um ímpio, Ronzal? — perguntou Carraspique, assustado.
— Sim, um ímpio... relativamente. Não basta que a religião esteja nos lábios, não basta respeitar a Igreja e até protegê-la; na política e no convívio social, muitas vezes é preciso contentar-se com isso, nos tempos tristes em que vivemos, mas isso é outra coisa. Ronzal, comparado a outros... a Mesía, por exemplo, é um bom cristão; o próprio Mesía, que afinal não se separou da Igreja, é católico, religioso... comparado a dom Pompeyo Guimarán, o ateu. Mas nem Mesía nem Ronzal são homens de fé, e muito menos de piedade suficiente... O senhor daria uma filha a dom Álvaro?
— Antes morta!
— Pois Ronzal, embora se chame conservador e queira a unidade católica e outros princípios contidos em nossa política, não é bom cristão, não o é como precisa ser o marido de uma Carraspique.
Aquele ardor com que defendia os interesses espirituais da família chegava à alma dos donos da casa.
Ronzal foi descartado.
O Magistral ainda falou de outros assuntos. Era preciso fazer novos desembolsos. Esmolas, grandes esmolas para Roma; para as Irmãzinhas dos Pobres, que iam comprar uma casa; esmola para a Santa Obra do Catecismo; esmola para a novena da Conceição, porque seria preciso pagar caro a um pregador jesuíta que viria de longe.
“Era muito, sim; mas, se os bons católicos que ainda possuíam alguma coisa não se sacrificassem, o que seria da fé? Se outros pudessem!”
Dona Lucía suspirou ao ouvir aquilo. Compreendera. O Magistral queria dizer que, se fosse rico, seu dinheiro pertenceria a São Pedro e às instituições piedosas.
“E pensar que havia quem caluniasse aquele santo, supondo-o carregado de ouro!”
Antes de sair daquela casa, onde seu império não conhecia limites, dom Fermín tornou a prometer uma visita às Salesas.
“Mas não era preciso alarmar-se nem perder a paciência.”
— No último transe — atreveu-se a dizer, quando julgou oportuno —, aconteça o que Deus quiser; se for preciso sofrer, para o bem da fé, uma prova terrível, será sofrida; porque o nome de cristão obriga a isso e a muito mais.
Ali, dom Fermín não dizia que a virtude era fácil.
Era pouco menos que impossível. A salvação alcançava-se à custa de muito padecimento, e muito poucos a conseguiam. A voz do Magistral, no estilo terrorista, não era menos doce do que quando suas ideias também eram melosas. A palavra salvação soava como a flauta do deus Pã; ao dizer “Deus misericordioso, mas justo”, aquela língua imitava o murmúrio da brisa entre as flores...
Nunca falava aos Carraspique sobre o fogo do inferno. Eram tormentos da consciência que lhes oferecia para o caso provável de não se salvarem, apesar de tantos desgostos.
Dona Lucía achou dom Fermín um pouco frouxo naquela manhã. Ele não falava com a sublime unção de outras vezes. Seu pessimismo piedoso saía-lhe dos lábios com dificuldade. A boa senhora percebeu que seu diretor espiritual falava como quem pensa em outra coisa.
O Magistral saiu.
Quando se viu sozinho no portal, sem conseguir conter-se, descarregou um soco sobre o corrimão de mármore do último lance da suntuosa escada.
— Não há remédio, não há remédio! — disse entre os dentes. — Não vou começar agora a viver de novo. É preciso continuar sendo o mesmo.
Em outros dias, ao sair daquela casa, saboreara o prazer forte e picante do orgulho satisfeito; o domínio das almas, que ali exercia de maneira absoluta, proporcionava ao amor-próprio uma doce complacência... Mas agora, nada daquilo. Não saía contente. Procurara abreviar a visita, suprimindo palavras de suas arengas piedosas.
“Aquele idiota de dom Robustiano o deixara de mau humor. Devia ser isso.”
“Precisava arrancar a máscara, dar rédea solta ao mau humor, pisar alguma coisa com raiva...”
Dirigiu-se ao Paço.
Assim se chamava, por antonomásia, o palácio do Bispo. Mergulhado na sombra da catedral, ocupava todo um lado da praça úmida e estreita chamada Curralada. O palácio era um apêndice da Basílica, contemporâneo da torre, mas de gosto pior, remendado muitas vezes no século passado e no presente. Com emplastros de cal e cataplasmas de barro, parecia um inválido da arquitetura; e a fachada principal, renovada e sobrecarregada de ornamentos churriguerescos, sobretudo na porta e na sacada superior, dava-lhe o aspecto grotesco de um velho galanteador.
O Magistral deixou para trás o vestíbulo, grande, frio, nu e não muito limpo; atravessou um pátio quadrado, com algumas acácias raquíticas e canteiros de flores murchas; subiu uma escada cujo primeiro lance era de pedra e os demais, de castanheiro quase apodrecido; e, depois de um corredor fechado por alvenaria e janelas estreitas, encontrou uma antessala onde os familiares do Bispo jogavam tute.
A chegada do Provisor interrompeu o jogo. Os familiares levantaram-se, e um deles, belo, louro, de movimentos suaves e ondulantes, com a batina impecável e perfumada, abriu um biombo revestido de damasco cor de cereja. Do mesmo tecido era estofado todo o aposento que então apareceu e que De Pas atravessou sem deter-se.
— Onde estará Sua Ilustríssima, dom Anacleto?
— Creio que está recebendo visitas — respondeu o pajem. — Umas senhoras...
— Que senhoras?
Dom Anacleto deu de ombros com muita graça e sorriu.
Dom Fermín hesitou por um instante, deu um passo para trás; mas imediatamente tornou a avançar e abriu uma porta lateral pela qual desapareceu.
Depois de atravessar salas e passagens, chegou ao salão claro, como chamavam no Paço aquele destinado pelo Bispo às visitas particulares. Era um retângulo de trinta pés de comprimento por vinte de largura, com teto muito alto, carregado de caixotões platerescos de nogueira escura. As paredes, pintadas de branco brilhante, com estreitas molduras douradas formando quadrados, refletiam as torrentes de luz que entravam pelas sacadas abertas de par em par para toda aquela alegria.
Os móveis revestidos de damasco amarelo, também envernizados de branco, de luxo antiquado, bonachão e simpático, pareciam rir às gargalhadas com suas contorções de madeira retorcida, ora em curvas barrigudas, ora em colunas salomônicas. Os braços das poltronas pareciam apoiados na cintura; os pés dos consoles faziam piruetas. Não havia esteira nem tapete, à exceção daquele que prestava homenagem ao sofá; era de alcatifa e representava um cestinho de rosas vermelhas, verdes e azuis. Era o gosto de Sua Ilustríssima.
Das paredes do norte e do sul pendiam dois quadros de Cenceño, mas retocados com cores berrantes que davam gosto; os outros muros eram adornados por grandes gravuras inglesas em molduras de ébano. Ali estavam Judite, Ester, Dalila e Rebeca nos momentos críticos de suas respectivas histórias. Um Cristo crucificado de marfim, sobre um console, diante de um espelho que o refletia pelas costas, mantinha um dos olhos fixos em sua Santa Mãe de mármore, duas vezes maior que ele, colocada sobre o console em frente. Não havia mais santos no salão nem outra coisa que revelasse a morada de um prelado.
O ilustríssimo senhor dom Fortunato Camoirán, bispo de Vetusta, deixava o Provisor governar a diocese à vontade; mas em seu salão não se devia tocar. Por isso haviam valido pouco as advertências de dom Fermín para que Fortunato se abstivesse de adornar as sacadas com gaiolas pobres, mas alegres, nas quais pintassilgos e canários saltavam e faziam algazarra, ensurdecendo o mundo, e que, em honra da verdade, pareciam loucos.
— Ainda bem que não levo meus pássaros à catedral para cantarem o Glória quando celebro pontificalmente. Quando eu era pároco das Veguellinas, pintassilgos, cotovias e até pardais cantavam e assobiavam no coro, e era uma delícia ouvi-los.
Fortunato era um santo alegre, incapaz de ver irreverência onde se podia admirar e amar uma obra de Deus.
Glocester, o maquiavélico Arcediago, opinava, mas aquilo era segredo seu, que o Bispo não estava à altura do cargo.
— Não basta ser bom — dizia — para governar uma diocese. Nem os poetas servem para ministros, nem os místicos para bispos.
Essa opinião era a mais corrente entre o clero do bispado. Os senhores da Junta Carlista pensavam o mesmo. Jamais haviam podido contar com o Bispo para coisa alguma!
Qual era o resultado daquela piedade excessiva? Sua Ilustríssima abandonava-se nos braços do Provisor em tudo que dizia respeito ao governo da diocese. Isso, segundo uns, era a perdição do clero e do culto; segundo outros, uma grande felicidade; mas todos concordavam em que o bom Camoirán não possuía vontade própria.
Era verdade que aceitara a mitra sob a condição de escolher, sem que valessem recomendações, uma pessoa de sua confiança na qual depositaria os cuidados do governo eclesiástico. O Magistral era, sem dúvida, o homem de maior talento que conhecera. Além disso, dona Paula, quando o filho ainda era um humilde seminarista, servira como governanta de Camoirán, então cônego de Astorga. Desde aquela época, aquela mulher de ferro dominava o pobre santo de cera. O filho, ajudado pela mãe, continuara a tirania e, como diziam eles, “mantinham-no fechado na mão”. E ele estava muito satisfeito assim.
Como chegara a bispo? Numa época de nomeações por intriga e complacências palacianas, para apaziguar as queixas da opinião pública, procurou-se um santo a quem dar uma mitra, e encontraram o cônego Camoirán.
Chegou a Vetusta distribuindo bênçãos e recebendo-as do povo. Para grande escândalo de seu coração simples e humilde, contavam-se maravilhas de sua virtude e quase lhe atribuíram milagres.
Certa vez, durante a visita às paróquias dos caminhos sinuosos, no coração da montanha, montado num burrico, margeando abismos, em meio à neve, apresentou-se diante dele uma mãe desesperada com o filho nos braços. Uma víbora mordera o menino.
— Salve-o, salve-o! — gritava a mãe, de joelhos, fechando o caminho ao burrico.
— Mas eu não sei! Eu não sei! — gritava o Bispo, desesperado, temendo pela vida do pequeno anjo.
— Sabe, sim, o senhor, que é santo! — replicava a mãe aos berros.
— O cautério! O cautério! Mas eu não sei...
— Um milagre! Um milagre!... — repetia a mãe.
A vida de Fortunato era ocupada por quatro grandes cuidados: o culto da Virgem, os pobres, o púlpito e o confessionário.
Tinha cinquenta anos, a cabeça cheia de neve, e o coração ainda abrasado no fogo do amor a Maria Santíssima. Desde o seminário, e já chovera muito desde então, sua vida fora uma ode consagrada aos louvores da Mãe de Deus. Sabia muita teologia, mas sua ciência predileta consistia na doutrina dos Mistérios referentes à Mulher sine labe concepta. De memória, poderia repetir tudo quanto os Santos Padres e os Místicos haviam dito em honra da Virgem, e sabia louvá-la em estilo oriental, com metáforas tiradas do deserto, do mar, dos vales floridos, dos montes de cedros; em estilo romântico, que irritava o Arcipreste, e em estilo familiar, com frases de carinho paterno, filial e fraterno.
Escrevera cinco livros, que primeiro eram vendidos a uma peseta e depois distribuídos de graça, intitulados: O Roseiral de Maria, em versos; Flores de Maria; A devoção à Imaculada; O Romanceiro de Nossa Senhora; A Virgem e o dogma.
A Rainha do Céu nunca lhe aparecera, mas dava-lhe consolos em profusão; inundava-lhe o espírito de luz e de uma alegria que todas as desgraças do mundo, ao menos aquelas sofridas por ele, não podiam escurecer nem perturbar.
Em esmolas, gastava quase todo o dinheiro recebido do Governo e muito daquilo que herdara. Mas ai do alfaiate se tentasse enganá-lo cobrando caro pelos remendos das calças! Não sabia ele o que eram remendos? Sua Ilustríssima não remendara as próprias roupas e pregara botões muitas vezes? Quanto ao sapateiro, que era dos mais humildes, aguçava o engenho para que as peças e meias-solas colocadas nos sapatos do Bispo ficassem bem disfarçadas.
— Mas, senhor — gritava a governanta, dona Úrsula, sucessora de dona Paula no cargo —, o senhor pede milagres. Como não se hão de notar os pontos? Compre sapatos novos, como Deus manda, e será melhor.
— E quem lhe disse, sua sabichona, que Deus manda comprar sapatos novos enquanto o próximo anda descalço? Se aquele remendão soubesse o ofício, estes pareceriam uma glória.
O Bispo tinha seus motivos para exigir que os remendos do calçado não fossem percebidos. Todos os dias, o Provisor passava-lhe revista, como a um recruta, olhando-o de alto a baixo quando o julgava distraído; e, se notava algum descuido na indumentária que denunciasse pobreza indigna de um mitrado, repreendia-o com aspereza.
— Isto é absurdo — dizia De Pas. — O senhor quer ser o bispo de Os miseráveis, um bispo de livro proibido? Faz isso para jogar em nossa cara que os demais nos vestimos como pessoas decentes e como exige o decoro da Igreja? Acredita que, se todos exibíssemos calças remendadas como um amolador de facas ou limpador de chaminés, a Igreja conseguiria dominar nas regiões onde habita o poder?
— Não é isso, meu filho, não é isso — respondia o Bispo, sufocado, com vontade de esconder-se debaixo da terra. — É uma glória vê-los vestidos de novo; é assim que deve ser; eu sei. Acredita que não sinto prazer em olhar para você, para dom Custodio e para o primo do ministro, tão belos, tão reluzentes, tão elegantes com os chapéus de telha curtos, abertos, felpudos?... Claro que sinto... é uma bênção de Deus; é assim que deve ser... Mas você sabe quem é Rosendo? É um grandíssimo patife que me pede três pesetas por umas meias-solas e nem sequer tapa um furinho que pode aparecer no couro... Estes são novos, palavra de honra que são novos, mas estão rindo; o que podemos fazer, se têm bom humor?
Durante alguns anos, Fortunato fora o pregador da moda em Vetusta. Seu antecessor raramente subia ao púlpito, e vê-lo na cátedra do Espírito Santo quase todos os dias despertara primeiro a curiosidade, depois o interesse e, por fim, até o entusiasmo dos fiéis. Sua eloquência era espontânea, ardente; improvisava; era um verdadeiro orador, valia mais no púlpito e na ocasião do que sobre o papel. Falava de repente; chamas de amor místico subiam-lhe do coração ao cérebro, e o púlpito convertia-se num turíbulo de poesia religiosa cujos perfumes inundavam o templo e penetravam nas almas. Sem pensar nisso, Fortunato possuía a arte suprema de causar arrepios; sim, o auditório os sentia ao ouvir aquela palavra cheia de unção, eloquente e santa. A caridade, em seus lábios, era a necessidade suprema, a beleza máxima, o maior dos prazeres. Quando Fortunato descia da cátedra desejando a todos a glória pelos séculos dos séculos, a unção do prelado corria pelo templo como uma influência magnética; parecia que, se os corpos se tocassem, saltariam faíscas de caridade elétrica; o entusiasmo e a conversão podiam ser lidos nos olhares e nos sorrisos; naqueles momentos, os vetustenses levavam a sério aquilo de serem todos irmãos.
Mas isso acontecera no início. Depois... o público começou a se cansar. Diziam que o Bispo se prodigalizava demais.
— Estuda mais os sermões — diziam alguns, referindo-se ao Magistral.
— É mais profundo, embora menos ardente.
— E mais elegante ao falar.
— E tem melhor figura no púlpito.
— O Magistral é um artista; o outro, um apóstolo.
Havia muito tempo que Glocester, o Arcediago, não compreendia por que o Bispo agradava como pregador.
“Ele confessava não entender aquilo. Era florido demais.”
Para Glocester, aquele abrasar-se no amor ao próximo não passava de mera retórica.
“Soava-lhe vazio.”
— E o dogma? E a controvérsia? O Bispo nunca fala mal de ninguém; para ele, é como se não existissem o materialismo grosseiro, a hidra revolucionária ou um satânico non serviam livre-pensador.
Na opinião de Glocester, Camoirán começara a desacreditar-se nos sermões da Audiência. Todas as sextas-feiras da Quaresma, a Real Audiência Territorial pagava e ouvia, com religiosa atenção ou sonolência mística, um sermão que alguma notabilidade do púlpito vetustense pregava em Santa María, a igreja antiquíssima.
— Pois bem — dizia Glocester —, ali não se fala por falar, nem se diz a primeira coisa que vem à boca; ali não basta abrasar-se em fogo divino; é preciso algo mais, sob pena de ofender a cultura daqueles senhores. Fala-se a jurisconsultos, a homens de ciência, meu senhor, e é preciso pensar duas vezes antes de subir à cátedra sagrada. O Bispo falou aos senhores da margem, à Audiência Territorial, nem mais nem menos mal do que falaria ao comum dos fiéis.
O atual Regente, que não era Quintanar, dissera em confiança a um desembargador que o sermão não tinha substância. O desembargador espalhara a notícia, e o promotor atreveu-se a dizer que o Bispo não ia ao cerne da questão.
Para ir ao cerne, ninguém como Glocester. Naquele mesmo ano em que Fortunato se saíra tão mal, na opinião dos senhores magistrados, o sinuoso Arcediago brilhara em seu sermão de sexta-feira. Já vinha anunciando isso havia muitos dias.
— Senhores, não se enganem; é preciso ler-me nas entrelinhas. Não falo para criadas e soldados; falo para um público que saiba... isso, ler nas entrelinhas.
A musa de Glocester era a ironia. Naquela sexta-feira memorável, Mourelo apresentou-se sorridente no púlpito, como de costume; oito dias antes, o Bispo se desacreditara. Cumprimentou o altar, cumprimentou a Audiência e dignou-se a cumprimentar o auditório católico. Seu olhar perscrutou os cantos da igreja para ver se, conforme lhe haviam anunciado, algum livre-pensadorzinho de Vetusta, desses que estudam em Madri e voltam apodrecidos, estava ali para ouvi-lo. Viu dois ou três que conhecia e pensou:
“Fico contente; agora verão o que é bom.”
O Regente, que não era Quintanar, com o cenho franzido e a toga impecável, sentado no meio da nave numa poltrona de veludo e ouro, contemplava o pregador, preparando-se para separar o trigo do joio, caso houvesse de ambos. Outros magistrados, menos inclinados à crítica, dispunham-se a dormir disfarçadamente, valendo-se dos recursos fornecidos por sua experiência nos tribunais.
Glocester foi imediatamente ao cerne. A antífrase, o eufemismo, a alusão, o sarcasmo, todos os projéteis de sua retórica, que ele julgava dissimulada e hábil, foram lançados contra o ímpio Arouet, como sempre chamava Voltaire. Mourelo ainda continuava às voltas com o pobre Voltaire; dos ímpios modernos, sabia pouco: alguma coisa de Renan e de algum apóstata espanhol, nada mais. Quase nenhum nome próprio; o materialismo grosseiro, o sensualismo asqueroso, os porcos dos estábulos de Epicuro e outras coletividades semelhantes davam conta do recado. Nada, porém, de Strauss nem das lutas exegéticas de Tübingen e Göttingen. Ora, isso ficava para o Magistral, não sem grande inveja de Glocester.
Voltaire e, às vezes, o desviado filósofo genebrino pagavam o pato. Mas não; o Arcediago tinha ainda outro cavalo de batalha: o paganismo, a antiga idolatria. Naquele dia, sexta-feira, estivera oportuníssimo zombando dos egípcios. O Regente teve dificuldade para conter o riso que Glocester procurava provocar.
Aqueles grandíssimos porcos que adoravam gatos, alhos-porós e cebolas divertiam muito o orador sagrado.
“Com que graça ele tirava sarro dos egípcios!”, segundo a expressão de Joaquinito Orgaz, religioso por bom-tom e sinceramente convencido de que a idolatria era um disparate.
— Sim, Excelentíssimo Senhor, sim, auditório católico, aqueles habitantes das margens do Nilo, aqueles cegos cuja sabedoria os autores ímpios nos mandam admirar, adoravam o alho-poró, o alho, a cebola. Risum teneatis! Risum teneatis! — repetia, voltando-se para o cachorro de São Roque, que permanecia com a boca aberta no altar em frente.
O cachorro não ria.
Durante quase meia hora, ficou esmagando os faraós e seus súditos com semelhantes pilhérias.
“Onde tinham a cabeça aqueles homens que adoravam tamanhas imundícies?”
Ronzal, Trabuco, que admirara aquele sermão, dois meses depois aproveitava as citações de Glocester nas discussões do Casino e dizia:
— Senhores, o que sustento aqui e em todos os terrenos é que, se proclamarmos a liberdade de culto e o casamento civil, logo voltaremos à idolatria e seremos como os antigos egípcios, adoradores de Ísis e Busílis, uma gata e um cachorro, ao que me parece.
O Regente opinou, e com ele toda a Audiência Territorial, que o senhor Mourelo, Arcediago, estivera em nível mais elevado que o senhor Bispo. Isso correu pelas reuniões, rodas e passeios, e todos os que pretendiam passar por pessoas instruídas lamentaram que não houvesse maior profundidade nos sermões do prelado, que ele não se preparasse e que se prodigalizasse tanto.
Por fim, a opinião chegou a dizer isto, embora já sem a aprovação de Glocester:
— É preciso desenganar-se; o verdadeiro pregador de Vetusta é o Magistral.
Logo, semelhante opinião se tornou lugar-comum, frase feita, e desde então a fama do Bispo como orador perdeu-se irremediavelmente. Quando em Vetusta alguma coisa era repetida por rotina, tornava-se impossível que prevalecesse a ideia contrária.
Assim, foi inútil que, num sermão da Semana Santa, Fortunato estivesse sublime ao descrever a crucificação de Cristo.
Era na paróquia de San Isidro, um templo grande e severo. O recinto permanecia quase mergulhado em trevas, trevas que pareciam refletidas e multiplicadas pelos panos negros que cobriam altares, colunas e paredes; apenas lá, no sacrário, alguns círios compridos e estreitos brilhavam com palidez, quase lambendo com as chamas os pés do Cristo, dos quais gotejava sangue; o suor pintado refletia a luz com tonalidades de tristeza. O Bispo falava com voz de trovão distante, submerso na sombra do púlpito; dele, só se via de vez em quando um reflexo roxo e uma mão que se estendia sobre o auditório.
Descrevia o estalar dos ossos do peito do Senhor quando os carrascos relaxaram as pernas do mártir para que os pés alcançassem o madeiro em que seriam pregados. Jesus encolhia-se; todo o corpo tendia a subir, mas os carrascos faziam força; eles venceriam.
— Meu Deus! Meu Deus! — exclamava o Justo, enquanto seu corpo deslocado se rompia por dentro com estalos surdos.
Os carrascos irritavam-se com a própria inabilidade; não conseguiam terminar de pregar os pés... Suavam, ofegavam e praguejavam; seu hálito manchava o rosto de Jesus...
— E era um Deus! O único Deus, o Deus deles, o nosso, o de todos! Era Deus!...
Fortunato gritava horrorizado, com as mãos crispadas, recuando até esbarrar na pedra fria do pilar; tremia diante de uma visão, como se o hálito dos verdugos lhe houvesse tocado a testa, e a cruz e Cristo estivessem ali, suspensos na sombra sobre o auditório, no meio da nave.
A tristeza imensa, o horror infinito da ingratidão do homem matando Deus, absurdo de maldade, foram sentidos por Fortunato naquele momento com desolação inefável, como se um universo de dor lhe esmagasse o coração. E seu gesto, sua voz e sua palavra souberam dizer o indizível, aquela aflição. Ele próprio, embora de longe e como se se tratasse de outro, compreendeu que estava sendo sublime; mas essa ideia passou como um relâmpago, ele esqueceu-se de si, e não ficou na igreja ninguém que compreendesse e sentisse a eloquência do apóstolo, salvo talvez alguma criança de imaginação forte e fresca que ouvia pela primeira vez a descrição da cena do Calvário.
Às pausas eloquentes, carregadas de efeitos patéticos, a que o Bispo era obrigado pela força da emoção, respondiam lá embaixo os suspiros comprimidos dos fiéis e o farfalhar das roupas negras. Algumas mulheres choravam; outras, ajoelhadas, apertavam as mãos com fervor. Mas muitos dos ouvintes de boa sociedade já conheciam o parecer corrente.
“O Bispo era florido demais, prodigalizava-se e não tinha a profundidade do Magistral.”
Na saída, falava-se do sermão.
— Muito bonito, muito comovente.
— Sim, mas faltou doutrina.
— Faltou o dogma.
— Faltou aquilo que o Magistral sabe pôr em tudo.
Glocester, informado da emoção causada pelo sermão, deu de ombros.
— Teatro — disse. — Puro teatro.
O Magistral não precisava de semelhantes auxílios. Quando pregava, preparava o assunto, estudava os efeitos, combinava a doutrina com a eloquência, a controvérsia com a moral, o dogma com a aplicação prática. Não se abandonava à inspiração; dominava-a.
Os vetustenses instruídos admiravam nele precisamente aquilo que julgavam faltar ao Bispo: o fundo.
As senhoras, além do fundo, admiravam-lhe a figura, a voz e a maneira de fitá-las do púlpito, sem parecer que olhava para nenhuma.
Dom Fermín falava do pecado de modo que cada pecador pensava estar ouvindo a própria história. Não pintava o vício em abstrato; apresentava suas consequências nesta vida e na outra. Aquela moral utilitária era perfeitamente compreendida pelas senhoras e pelos indianos. O resumo que faziam consigo mesmos era este:
“Cuidado, Pablo.”
“Quanta razão ele tem!”, pensavam muitas damas quando o ouviam falar do adultério.
A maioria delas era composta por mulheres honradas que nunca haviam sido adúlteras, que não haviam feito mais do que flertar, como todas. Em algumas ocasiões, as admiradoras de dom Fermín imaginavam que o imprudente contava do púlpito aquilo que elas lhe haviam dito no confessionário.
Também no tribunal da penitência o Provisor derrotara o Bispo.
Quando Camoirán chegou a Vetusta, viu-se assediado pelo belo sexo de todas as classes: todas queriam o Bispo como pai espiritual. No confessionário, porém, desacreditou-se antes que no púlpito. Era tão insosso! E tinha a manga muito estreita, sem graça alguma. Perguntava pouco e mal. Falava demais e dizia quase a mesma coisa a todas. Além disso, madrugava em excesso e nem sequer demonstrava consideração pelas senhoras delicadas. Entrava no confessionário ao romper do dia.
Pouco a pouco, foram abandonando-o. Aquilo de ter de misturar-se, na capela da Madalena, atrás do altar-mor, com uma multidão de criadas e beatas pobres não tinha graça alguma. E o Bispo as chamava por rigorosa ordem de chegada, como numa barbearia, sem levar em conta se eram patroas ou criadas.
“Era apostólico demais.”
Abandonaram-no.
Logo ele se viu cercado apenas pela plebe madrugadora. Canteiros, pedreiros, sapateiros, armeiros carlistas, beatas pobres, criadas tocadas por um misticismo mais ou menos autêntico, coleteiras e debrumadeiras, esse foi muito cedo seu povo de penitentes.
“Por isso se queixava, muito aflito, dos maus costumes e dos muitos nascimentos ilegítimos que devia haver, segundo suas contas. Se tratasse com senhoritas!”
Certa vez, chegou a dizer ao governador civil:
— Homem, não estaria entre suas atribuições proibir o passeio das chinelas?
O Bispo aludia ao passeio dos artesãos no boulevard, ao cair da tarde.
Acreditava que dali e dos bailes de uma peseta do teatro nascia a crescente corrupção de Vetusta.
Assim era o bom Fortunato Camoirán, prelado da diocese isenta de Vetusta, a muito nobre antiga corte; aquele humilde Bispo a quem o Provisor, assim que entrou no salão, repreendeu com um olhar semelhante a um raio.
O Bispo estava sentado numa poltrona, e as duas senhoras, no sofá.
Eram Visita, a do Banco, e Olvido Páez, filha de Páez, o Americano, o segundo milionário da Colônia.
Ao ver o Magistral, o Bispo corou como um estudante de latim surpreendido pelos mais velhos com o primeiro charuto barato.
“O que era aquilo?”, queria dizer o olhar do Magistral, que cumprimentou as senhoras, inclinando-se com graça e inocente coqueteria. “Duas senhoras sozinhas com o Bispo! E nenhum cavalheiro as acompanhava! Aquilo era novidade.”
Coisas de Visitación. Tratava-se de seduzir Sua Ilustríssima para que honrasse com seu comparecimento a solene distribuição de prêmios à virtude organizada por certo círculo filantrópico. O círculo chamava-se La Libre Hermandad, nome feio, pouco espanhol e de odor nada santo. Na sociedade, havia uma junta de cavalheiros e outra agregada de damas protetoras, segundo a gramática do presidente do círculo.
La Libre Hermandad fora fundada com certos ares de instituição independente de todo jugo religioso, e seu primeiro presidente fora o senhor dom Pompeyo Guimarán, que por milagre não estava excomungado e jamais comungava.
O círculo era algo semelhante a uma oposição às Irmãzinhas dos Pobres, à Santa Obra do Catecismo, às Escolas Dominicais e assim por diante. O elemento religioso declarou-lhe guerra imediatamente e, poucos meses depois, já não havia em todo o município de Vetusta um único pobre disposto a aceitar as esmolas, os prêmios ou o ensino de La Libre Hermandad.
As meninas das Escolas Dominicais e os garotos do Catecismo, que cantavam pelas ruas, em vez de coplas profanas:
Santo Deus, Santo Forte,
Santo Imortal,
e também:
Vinde, vamos todos
com flores a Maria,
inventaram uma cantiga contra o Círculo. Dizia assim:
As crianças pobres não querem
à Livre Irmandade ir;
as crianças pobres preferem
a Caridade Cristã seguir.
A caridade cristã e a perfeição da rima revelavam o estilo de dom Custodio, o beneficiado, que era, a tanto chegara, diretor das Escolas Dominicais de meninas pobres.
La Libre Hermandad teria morrido de inanição sem o valoroso sacrifício de seu presidente. O senhor Guimarán compreendeu que os tempos não eram propícios à secularização da caridade e das primeiras letras e apresentou a renúncia, “sacrificando-se, dizia, não às imposições do fanatismo, mas ao bem das crianças abandonadas”.
Com a renúncia de dom Pompeyo e a feliz ideia de criar a junta agregada de damas protetoras, a sociedade beneficente ganhou alguma coisa e deixou de sofrer uma guerra sem quartel. Ainda não lavara, porém, o pecado original trazido no nome. O Provisor desprezava aquele círculo.
Visitación fora a primeira dama agregada, por sua mania de agregar-se a tudo. Naquele momento, era tesoureira das protetoras.
Tratava-se agora de apagar os últimos vestígios de heresia, ou do que quer que fosse, reconciliando-se com a catedral e rogando ao senhor Bispo que presidisse a solene distribuição de prêmios daquele ano.
“Mas quem colocaria o guizo no gato?”
Visitación, a do Banco. Quem mais apropriada para tamanha ousadia?
Por decoro, pediu que outra dama de consideração a acompanhasse na visita. Nenhuma quis ir; não se atreviam. Houve uma votação, e Olvido Páez foi escolhida, pela posição do pai e pela simpatia de que a jovem desfrutava no Paço.
— Sim — dizia Visitación na junta —, que venha Olvido; assim o Magistral não pensará que o tiro é contra ele. Porque ele não pode me ver...
E era verdade. O Magistral desprezava a mulher do Banco e a considerava uma grandíssima qualquer coisa. Era uma das poucas senhoras que auxiliavam o Arcediago em sua conspiração contra o Vigário-Geral. Apesar disso, Visita confessava-se algumas vezes com dom Fermín, apesar das desfeitas dele.
“Ele sabia muito bem o que aquela boa peça ia fazer ali, mas se enganava redondamente; ele a confessava pelos mandamentos, e pronto.”
“E o que mais? Prossiga; e o que mais?”, no estilo de Ripamilán. “Fora procurar a pessoa certa, a leva-e-traz de Glocester.”
Fortunato já dera sua palavra de honra de comparecer à sessão solene de La Libre Hermandad. Isso e o fato de encontrar ali a filha de Páez, sua devota mais fiel, agravaram o mau humor do Vigário. Teve dificuldade para ser delicado e cortês, mas conseguiu graças ao hábito de dominar-se e dissimular. Visitación divertia-se adivinhando a cólera do Provisor, esmagava-o com piadas e o atordoava com aquela distração “que lhe subia à boca do estômago”.
— Mas, minhas senhoras — disse De Pas —, falemos com seriedade por um momento.
— O quê? Como assim? Quer recolher as velas? Quer que Sua Ilustríssima retire o que disse?
— Creio que...
— Nada, nada! Palavra dada é palavra cumprida. Vamos embora, vamos embora; pronto, pronto, conversa encerrada; não ouço nada... Vamos, Olvido... não ouço... não ouço...
Por uma espécie de milagre acústico, cada palavra de Visitación soava como sete; parecia que toda a junta das protetoras estava ali discursando.
Levantou-se e dirigiu-se à porta, levando a filha de Páez a reboque.
O Magistral protestou em vão:
— Aquela sociedade fora fundada por um ateu, era inimiga da Igreja...
— Não é verdade! — gritou Visita da porta. — Se fosse assim, nós não participaríamos dela como damas agregadas.
— Eu participo — advertiu a filha de Páez — por insistência desta, que convenceu papai.
— Mas, senhores, La Libre Hermandad já cantou a palinódia; desde que entramos para ela, acabaram a liberdade e toda aquela algazarra...
— Ela tem razão — atreveu-se a dizer o Bispo, ainda enganado pela distração fingida da mulher do Banco. — Essa maluquinha tem razão...
— Não tem! — gritou o Provisor, perdendo pelo menos um dos estribos. — Não tem; e isto foi... uma imprudência.
Visita virou o rosto e mostrou a língua.
“Como ele o trata!”, pensou, invejando um homem que ousava chamar o Bispo de imprudente.
As damas saíram. Sua Ilustríssima ficou envergonhado e, depois de indicar ao Magistral que as acompanhasse pelos corredores estreitos e labirínticos, pôs-se a salvo, encerrando-se no oratório para evitar explicações.
O Magistral não pensou em procurá-lo.
A filha de Páez caminhava de cabeça baixa. Também temia uma repreensão do prebendado. Este aproveitou o momento em que Visita parou para cumprimentar uma família que ela recomendara ao Bispo e, aproximando-se do ouvido da jovem, disse em tom de autoridade paternal:
— A senhorita fez mal, muito mal, acompanhando esta... louca.
— Mas votaram em mim...
— Se a senhorita não pertencesse a essa junta...
— Papai espera o senhor hoje para jantar. Eu mesma ia lhe escrever, mas considere-se convidado.
— Muito bem, muito bem; a senhorita não gosta de ouvir as verdades?
— O que digo é que papai...
— Pois hoje não posso ir jantar. Fui convidado há dias... outro Francisco que... Mas nos veremos lá dentro de uma hora, assim que eu resolver tudo depressa e correndo...
Despediram-se. As damas saíram à rua, e o Provisor entrou, deixando para trás corredores, galerias e salões, nas repartições do governo eclesiástico.
O senhor Vigário-Geral chegou a seu gabinete e, sem cumprimentar os que o esperavam, sentou-se numa poltrona de veludo carmesim atrás de uma mesa ministerial carregada de papéis atados com fitas. Apoiou os cotovelos na escrivaninha e escondeu a cabeça entre as mãos.
Sabia que o esperavam e que pretendiam falar-lhe, mas fingia não perceber.
Aquela era uma das maneiras que usava para fazer sentir a tirania; assim humilhava os subalternos, desprezando-os até o ponto de não os enxergar a dois passos de distância. Primeiro vinha seu mau humor. Um mau humor cor de piche. A bile chegava-lhe aos dentes. Por quê? Por nada. Nenhum desgosto grave lhe haviam causado; mas tantas pequenezas reunidas estragaram aquele dia que ele julgara feliz ao ver o sol brilhante e lavar-se alegre diante do espelho. Primeiro, sua mãe tratando-o como criança, recordando-lhe as calúnias com que o perseguiam; depois, as notícias alarmantes e as brincadeiras tolas do médico; em seguida, aquela Visitación, a Livre Irmandade, Olvidito faltando à disciplina... e, sobretudo, aquele demônio de Bispo esmagando-o com sua humildade, recordando-lhe apenas com sua figura de lebre assustada toda uma história de santidade, de grandeza espiritual, diante da história dele, de dom Fermín... que, para que ocultá-lo de si próprio?, era pouco edificante.
Aquela comparação eterna que Fortunato fazia sem saber irritava o Magistral. E agora o irritava mais do que nunca. Agora lhe parecia que a superioridade intelectual do vigário nada era diante da grandeza moral do Bispo. Ele era a única pessoa capaz de compreender todo o valor de Fortunato. Como lhe pareciam poéticas, nobres e espirituais a virtude do outro, sua eloquência e seu culto romântico à Virgem! E as próprias habilidades, como eram mesquinhas, prosaicas! Seu caráter forte e dominador, como era ridículo no fundo!
“Quem é que ele dominava? Besouros!”
— O que há? — gritou com voz áspera, levantando a cabeça e olhando para os besouros que tinha diante de si.
Eram um clérigo que parecia leigo e um leigo que parecia clérigo; ambos mal barbeados, pior ainda o sacerdote, que exibia o rosto coberto por ásperos espinhos negros. Vestiam-se os dois à paisana, mas como os padres de aldeia; o colarinho clerical do sacerdote era branco e estava manchado de vinho tinto e suor gorduroso; o colarinho da camisa do outro também parecia um colarinho clerical; usava uma gravata preta presa na nuca.
Dom Carlos Peláez, notário eclesiástico que exercia outros dois ou três cargos no Paço, nem todos compatíveis, gabava-se de ser uma das pessoas mais influentes na cúria eclesiástica e até no ânimo do senhor Provisor. Ia prová-lo naquele momento, interpondo sua influência para arrancar o mísero pároco de Contracayes, aldeia da montanha, das garras da disciplina. Houvera uma denúncia, coisa de invejosos, e o Provisor sabia que Contracayes, o padre, tinha a fraqueza de converter o confessionário em escola de sedução. De Pas quisera descarregar sobre Contracayes toda a censura eclesiástica e as penas mais severas; mas, graças aos rogos do notário, consentira, antes de proceder, em manter uma conferência com o pároco montanhês, prometendo que, se notasse nele verdadeiro arrependimento, se contentaria com um castigo de caráter reservado, que em nada prejudicaria a reputação do clérigo, grande eleitor e excelente partidário da causa ótima.
— O que há? — repetiu o Magistral, sorrindo mecanicamente para o notário.
Peláez apontou para o companheiro, um sujeito bem-apessoado, moreno, de sobrancelhas muito espessas, cenho carregado, olhos cor de avelã que lançavam fogo, boca grande, orelhas pontudas, pescoço muito robusto e pomo de adão saliente. Parecia inteiramente coberto de fuligem, embora não estivesse; tinha tanto de carvoeiro quanto de padre. Aquele tom das cerdas negras entre a carne arroxeada das faces fazia crer que todo o corpo fosse da mesma cor. Nunca estivera diante do Provisor, a quem temia pelos raios que manejava, mas nada além do medo que um gigante selvagem pode sentir diante de quem, em último caso, pode esmagar com um soco. Dom Fermín percebeu que Contracayes estava mais aturdido que aterrorizado. O padre cumprimentou-o com um grunhido, e o Provisor nem sequer respondeu.
O notário transformou-se em doçura. Sentou-se de lado numa cadeira para dar a entender ao padre que estava ali como em casa; falava na linguagem mais familiar possível, sem incorrer em irreverência; permitia-se pequenas brincadeiras e esteve a ponto de declarar que o pecado de solicitação não era dos mais feios e que seria fácil enterrar o assunto. Como o Magistral franzisse o cenho, Peláez mudou de conversa e falou com falso desembaraço das últimas eleições, chegando a aludir às façanhas de certo padre da montanha que ele conhecia e que metera medo no corpo de uma dupla da guarda civil. Contracayes sorriu como sorriria um urso se soubesse fazê-lo.
O Magistral pensava na maneira pela qual aquele selvagem solicitava suas penitentes. Houve um momento de silêncio. Não se dissera uma palavra sobre o assunto, e até o próprio Peláez compreendeu que era preciso abordar a questão espinhosa. Dom Fermín, recordando de repente seu mau humor e os contratempos daquele dia, levantou-se e, encarando o pároco, que também se pôs de pé como se fossem atacá-lo, disse com voz áspera:
— Meu senhor, estou informado de tudo e tenho o desgosto de lhe dizer que seu caso está muito mal encaminhado. O Concílio de Trento considera o delito cometido pelo senhor semelhante ao de heresia. Não sei se o senhor sabe que a constituição Universi Domini, de 1622, promulgada por Sua Santidade Gregório XV, chama o senhor e outros como o senhor de execráveis traidores; e a pena estabelecida para o crime de solicitar ad turpia as penitentes é severíssima; além disso, ordena que o senhor seja degradado e entregue ao braço secular.
O pároco abriu muito os olhos e fitou, espantado, o notário, que, pelas costas de dom Fermín, lhe piscou um olho.
— Bento XIV — continuou o Magistral — confirmou, quanto aos solicitantes, as penas impostas por Sisto V e Gregório XV... enfim, por onde quer que se examine o caso, o senhor está perdido...
— Eu pensava...
— Pensava mal, meu senhor! E, se duvida de minha palavra, ali naquela estante tem Giraldi, Expositio juris Pontificii, que, no tomo segundo, primeira parte, trata da questão com grande abundância de dados...
O senhor Peláez estava acostumado ao estilo do Provisor, que nunca era tão erudito como ao lançar a garra sobre uma vítima.
— Senhor — atreveu-se a dizer Contracayes, um tanto irritado e perdendo grande parte do medo —, a palavra de Vossa Senhoria já me basta, e não são os sagrados cânones de que me queixo, mas de minha má sorte, que me fez escorregar e cair onde muitos outros, muitíssimos que conheço, escorregam sem cair.
O Magistral virou-se de repente, como se o tivessem mordido nas costas.
— Saia daqui, seu insolente, e não durma em Vetusta! — gritou.
— Mas, senhor...
— Silêncio, já disse! Silêncio e obediência, ou o senhor dorme na cadeia da Coroa!
E o Magistral descarregou um soco formidável sobre a escrivaninha.
— Pois para esta viagem não precisávamos de alforjes! — gritou Contracayes, não menos furioso, voltando-se para o consternado Peláez, que não previra aquele choque de dois gênios ruins.
— Mas, senhores, calma...
— Fora daqui, seu patife! — gritou o Magistral, atravessando o manteio sobre o peito e perdendo a compostura, contra seu costume. — Desgraçado! Dê-se por perdido, mau clérigo...
— Mas o que foi que eu disse, senhor? — exclamou o pároco, que se assustou um pouco diante da atitude daquele homem, no qual reconhecia a superioridade moral de um Júpiter eclesiástico.
Assim que percebeu que sua autoridade era acatada, De Pas foi acalmando as ondas da cólera; e, por fim, pálido, mas já com voz serena:
— Saia — disse, apontando para a porta —, saia... livre, por ser um louco... mas não permaneça nem duas horas na cidade, nem fale com alma viva sobre o que aconteceu aqui... e, quanto ao seu crime execrável, eu me entenderei, sem necessidade de vê-lo, com o senhor Peláez, e ele lhe comunicará o que decidirmos.
O clérigo quis humilhar-se, pedir perdão...
— Saia imediatamente.
Saiu. Peláez, trêmulo e lívido, atreveu-se a dizer:
— Quanto lamento!... senhor Magistral...
— Não lamente nada. Os senhores vieram num dia ruim. Estou nervoso. Quis assustá-lo, impor-lhe respeito pelo terror... e não contei com meu mau humor; exaltei-me de verdade, deixei-me arrastar pela ira...
— Oh, não, isso não! Ele, sim, é um animal, um selvagem...
— Sim, é um selvagem... mas justamente por isso eu devia tê-lo tratado de outra maneira.
— O que eu não perdoo é o desgosto...
— Deixe, deixe; falaremos desse patife... outro dia. Hoje não posso... hoje... seria impossível prometer-lhe suavizar os rigores da lei, que é terminante.
— Sim, já sei... mas, como nunca se aplica...
— Porque não há provas... como agora. E alguma vez é preciso começar. Enfim, já disse que falaremos... Preciso ficar sozinho.
Peláez também saiu, e De Pas, então a sós com o próprio pensamento, deixou que lhe subisse ao rosto o sangue acumulado pela vergonha.
“Que degradação!”, pensou.
E começou a andar pelo gabinete como uma fera na jaula.
Quando se sentiu mais sereno, tocou uma campainha. Entrou um jovem alto, tonsurado, pálido e triste, provavelmente tuberculoso. Era um primo do Magistral que fazia ali as vezes de secretário.
— O que ouviram?
— Gritos; nada mais.
— O padre de Contracayes é um selvagem...
— Sim, já sei...
— O que há?
— Nada urgente.
— Então posso ir embora? Não precisam de mim...
— Não; hoje, não.
— Muito bem, vou embora... Minha cabeça dói... não estou em condições de fazer nada... Mas não diga a minha mãe... Se souber que deixei o gabinete tão cedo, pensará que estou doente...
— Sim, sim, está bem.
— Ah, escute; a licença para o oratório dos Páez já veio?
— Sim.
— Está pronta? Posso levá-la agora?
— Aí está, naquela pasta.
— Está tudo em ordem? O coadjutor de Parves poderá celebrar uma segunda missa?
— Tudo está em ordem.
— Vejo aqui um cartão de dom Saturno Bermúdez. Para que veio?
— O de sempre: para que não façamos caso do pobre dom Segundo, o padre de Tamaza, que reclama o dinheiro das missas de São Gregório que dom Saturno lhe mandou celebrar...
— E não quer pagar.
— É seu costume. Está endividado com todo o clero. Salvou metade do purgatório...
O jovem tonsurado tossiu com violência para conter o riso.
— ...à custa de seus ingleses.
— O padre de Tamaza é um gritador...
— Mas pede o que lhe devem.
— Não se pode fazer nada... Quer que eu me indisponha com o bispinho de sobrecasaca?
— Isso, não. Pagaríamos no Lábaro, que ele inspira e que agora o trata bem. A propósito de jornais: ontem vinha em La Caridad, de Madri, uma correspondência de Vetusta e, ou muito me engano, ou nela andava a mão de Glocester.
— O que dizia?
— Tolices: que os carlistas se haviam assenhoreado de algumas dioceses nas quais, contra o direito, eram vigários-gerais aqueles que não podiam sê-lo senão interinamente e por graça especial; mas que, em troca de certos serviços à causa do Pretendente, os superiores hierárquicos fechavam os olhos.
— Então eu não posso ser vigário-geral?
— Ao que parece, não; porque, entre os casos de exceção, citam “os prebendados de ofício” e trazem à baila não sei quais disposições dos Papas...
— Sim, já sei; um breve de Paulo V e dois ou três de Gregório XV. Imbecis! E será milagre se não vierem também com aquilo de “ser natural da diocese”. Idiotas! Como têm pouco senso prático esses falsos católicos! Glocester deve ser o correspondente daquele pasquim; essas agudezas rombudas são dele. Puf! Que inimigos, Senhor, que inimigos! Bestas, nada além de bestas!
O Magistral respirava com força, como se fingisse sufocar naquele ambiente de estupidez.
Quis ir embora sem ver nenhum dos clérigos ou leigos que esperavam na antessala e na repartição contígua, mas não conseguiu defender-se das invasões; o senhor Carraspique meteu o nariz por uma porta.
— Pode entrar?
“Era Carraspique!”
— Entre — foi preciso dizer.
Vinha recomendar a rápida tramitação de um expediente na agência de Preces e de alguns assuntos de capelanias.
Foi necessário recorrer aos registros e consultar os funcionários. O Magistral, distraído, aventurou-se a passar do gabinete para a repartição e ali se viu cercado de litigantes e pretendentes, quase todos muito barbeados, todos vestidos de preto, ou com batina, ou com sobrecasaca que parecia batina. A repartição não ostentava o luxo do gabinete, longe disso; era grande, fria e suja; o mobiliário, indecoroso; e havia ali um cheiro de sacristia misturado ao odor peculiar de um corpo da guarda. Os funcionários tinham a palidez da abstinência e da contemplação, mas produzida pelos miasmas do trabalho burocrático miserável, sórdido e malsão, agravado ali pela icterícia dos aduladores do clero.
Havia uma mesa em cada canto e, ao redor de todas, padres e leigos que falavam, gesticulavam, iam e vinham, insistindo em pedir alguma coisa com medo de receber uma desfeita. Os funcionários, mais tranquilos, fumavam ou escreviam, respondiam com monossílabos e, às vezes, nem respondiam. Era uma repartição como qualquer outra, com um pouco menos de maus modos e um pouco mais de hipocrisia impassível e cruel.
Quando o Provisor entrou, o ruído diminuiu. A maioria se voltou para ele, mas o chefe limitou-se a pôr uma mão diante do rosto, como se repelisse todos os importunos, e dirigiu-se a uma mesa para perguntar por um expediente de côngruas.
Era aquilo que ele dizia: nas repartições da Fazenda Pública não davam informação; os expedientes de côngruas dormiam o sono eterno, cobertos de pó.
O senhor Carraspique batia os pés no chão.
— Esses liberais! — murmurava perto do Magistral.
— Restauração coisa nenhuma! São os mesmos cães com coleiras diferentes...
— O Estado zomba da Igreja, sim, senhor, isso é evidente; não há concordata que valha; tudo se promete e nada se faz...
Dois padres aproximaram-se humildemente do Magistral. Eram da aldeia; também queriam saber se os expedientes de côngruas...
— Nada, nada, senhores, já ouviram — disse o Provisor em voz alta, para que todos os presentes se inteirassem e não o importunassem mais. — Nas repartições do Governo Civil dizem que os expedientes serão resolvidos um a um, porque não existe critério geral aplicável; isto é, os benditos expedientes jamais serão resolvidos.
De Pas viu-se apanhado pela roda que diariamente o prendia às fadigas canônico-burocráticas. Sem pensar, contra seu propósito, atolou-se, como todos os dias, nas complicadas questões de seu governo eclesiástico, mescladas até o mais íntimo com seus próprios interesses e os de sua senhora mãe. Com cem nomes da disciplina, muitos dos quais designavam na Igreja primitiva objetos poéticos e puros do culto e do sacerdócio, disfarçava-se ali a eterna questão do dinheiro: espólios, vacâncias, meias-anatas, padroado, côngruas, capelanias, estola, pé de altar, licenças, dispensas, direitos, quartas paroquiais e muitas outras dezenas de palavras iam e vinham, combinavam-se, repetiam-se e substituíam-se, e, no fundo, soavam sempre a metal; e o lucro do Provisor, o de sua mãe, agarrava-se a tudo.
Dona Paula jamais pusera os pés ali, mas seu espírito parecia presidir o singular mercado da cúria eclesiástica. Ela era o general invisível que dirigia aquelas batalhas cotidianas; o Magistral, seu instrumento inteligente.
Como todos os dias, apresentaram-se naquela manhã questões obscuras que o Provisor costumava resolver mecanicamente, segundo o critério do próprio ganho, com habilidade assombrosa e sob a forma mais correta, com aparente e requintado escrúpulo. Mais de uma vez, contudo, ao decidir uma injustiça, uma espoliação ou uma crueldade útil, seu ânimo vacilou. Estava nervoso, não sabia que erva havia pisado. Mas a lembrança da mãe, por um lado, a presença daquelas testemunhas habituais de seu sangue-frio, de sua habilidade e firmeza, por outro, e, em grande parte, a força da inércia, o hábito, mantinham-no em seu posto. Foi o de sempre, decidiu como sempre, e ninguém ali precisou pensar que o Provisor tivesse enlouquecido, nem ele necessitou inventar histórias para enganar a mãe.
“Dona Paula podia estar satisfeita com o filho; com o filho, não com o sonhador tolo e leviano que naquela manhã se perturbava ao ler uma carta insignificante e se alegrava sem saber por quê ao ver um sol esplêndido num céu límpido. O sol, o céu! Que importavam ao Vigário-Geral de Vetusta? Não era ele um homem da cúria que se tornava milionário para pagar à mãe dívidas sagradas e para saciar com a cobiça a sede de ambições frustradas?”
“Sim, sim; era isso que ele era. Não havia por que alimentar ilusões nem procurar nova maneira de viver. Devia estar satisfeito e estava.”
“Uma hora e meia na repartição!”, disse consigo ao sair do palácio, entre envergonhado e satisfeito. “E ele que julgava não ter passado ali nem vinte minutos!”
Quando se viu outra vez ao ar livre, na Curralada, De Pas respirou com força. Naquele dia, parecia-lhe que sair do Paço era sair de uma caverna. De tanto falar lá dentro, estava com a boca seca e amarga e imaginava sentir um leve sabor de cobre. Achava que tinha hálito de falsificador de moedas.
Apressou-se a deixar a pracinha que a parda catedral cobria de sombra. Fugiu para as ruas largas, abandonou a Encimada, com suas calçadas ressonantes, gastas e estreitas, sua triste solidão solene, a erva entre os seixos, os casarões enegrecidos pela fumaça e as grades de ferro arqueadas, e procurou a Colônia, saindo pela praça do Pão, pela rua do Comércio e pelo Boulevard, de cujas arvorezinhas caíam folhas secas sobre as largas lajes. O manteio do Magistral atraía-as e arrastava-as pela pedra atrás de si, com um rumor rítmico e tagarela de maré.
Ali já se via muito céu, todo azul; em frente, a silhueta do Corfín, também azulada. Aquilo era alegria, vida.
“Capelanias, bulas, meias-anatas, reservas! O que tinha o mundo, o vasto e belo mundo, a ver com tudo aquilo? Sabia aquele gigante de pedra, o Corfín grave, majestoso e tranquilo, o que eram agências, se existia uma agência de preces ou por que custava dinheiro obter licenças para qualquer coisa?”
O Magistral avançava pelo Boulevard, cumprimentando à direita e à esquerda, assustado por lhe ocorrerem aqueles pensamentos de bucólica religiosa. Sempre fora inimigo das Arcádias eclesiásticas e professava uma espécie de positivismo prosaico quanto às necessidades temporais da Igreja. Estaria doente? Estaria enlouquecendo?
Sem que pudesse evitá-lo, enquanto o ar fresco, pois o vento mudara do sul para o noroeste, lhe enchia os pulmões de uma cócega voluptuosa, a fantasia, sem fazer caso das observações nem das ordens, continuava herborizando e já se plantara nos primeiros séculos da Igreja. O Magistral via-se com uma cesta debaixo do braço, recolhendo de porta em porta, pelo Boulevard e pelo Espolón, as frutas ricas que Páez, dom Frutos Redondo e os demais Vespúcios da Colônia arrancavam com as próprias mãos naqueles jardins que ele, de fato, via de um lado e de outro, atrás de grades douradas, entre folhagem deslumbrante e cheia dos rumores do vento e dos pássaros.
O palacete dos Páez era o primeiro dos seis que ornamentavam a rua Principal, ladeando-a pelo sul. Era um grande cubo que parecia uma torre de vigia das existentes ao longo da costa da província de Vetusta, recordação, segundo diziam, da defesa contra os normandos.
O senhor Páez não temia desembarque algum de piratas, pois o mar ficava a várias léguas de seu palácio, mas acreditava que a “elegância sólida consistia em construir muros muito espessos, desperdiçar mármore e, enfim, em trabalhos ciclópicos”, segundo sua expressão incorreta. No ponto mais alto da fachada, em lugar de um brasão, que o senhor Páez não possuía, havia um grande semicírculo de jaspe negro e, no centro, em letras de ouro, esta eloquente inscrição: 1868, que não indicava nada além da data da construção ciclópica. Nos cantos do terraço, coroado por grande balaustrada, duas águias de ferro pintadas de verde ensaiavam levantar voo. Segundo o senhor Páez, aquelas águias combinavam com outras duas bordadas no tapete de seu gabinete.
O bom dom Francisco não era o americano mais rico da Colônia; dom Frutos possuía alguns milhões a mais, mas, quanto ao luxo, ao Vespúcio das Águias “nem dom Frutos, nem são Frutos, nem ninguém lhe passava à frente”. Ele era o único vetustense que fazia visitas de coche e mantinha diariamente lacaios de libré com galões, embora nunca conseguisse fazer com que aqueles lacaios se vestissem com o asseio, a correção e a severidade que observara em seus equivalentes na Corte.
Páez passara vinte e cinco anos em Cuba sem ouvir missa, e o único livro religioso trazido da América fora O Evangelho do povo, do senhor Henao y Muñoz; não porque Páez fosse democrata, Deus o livrasse!, mas porque gostava muito do estilo entrecortado. Acreditava firmemente que Deus era uma invenção dos padres; pelo menos na Ilha não havia Deus. Passou alguns anos em Vetusta sem modificar tais ideias, embora se guardasse de publicá-las; pouco a pouco, porém, entre a filha e o Magistral foram convencendo-o de que a religião era um freio para o socialismo e um sinal infalível de bom-tom. Por fim, Páez tornou-se o mais fervoroso partidário da religião de seus maiores.
“Sem dúvida”, dizia, “a Metrópole deve ser religiosa.”
E tornou-se religioso; dava todo o dinheiro que lhe pediam para o culto e, embora muitas vezes, ao dizer disparates, prejudicasse o dogma, estava sempre disposto a retratar-se e trocar aquele disparate por outro inofensivo.
Por duas brechas a religião, sob a forma do Magistral, conseguira entrar na fortaleza daquele espírito livre-pensador e duro como rocha: os dois pontos fracos de Páez eram o amor pela filha e a mania do bom-tom.
Olvido dizia, com voz aguda e tom de repreensão:
— Papai, isso é cafona.
E dom Francisco passava a abominar aquilo que antes lhe parecera excelente.
O Magistral dominava inteiramente Olvidito, e Olvido mandava no pai pela força do carinho e pelo conhecimento daquilo que ali chamavam bom-tom.
Olvido era uma jovem magra, pálida, alta, de olhos castanhos e orgulhosos. Não tinha mãe e levava quase a vida de um pequeno ídolo, supondo atividade e consciência no ídolo. Serviam-na negros e negras, além de um branco, o pai, o escravo mais fiel. Nenhum capricho da menina deixara de ser satisfeito. Aos dezoito anos, ocorreu-lhe que queria ser desgraçada, como as heroínas de seus romances, e acabou inventando um tormento muito romântico e divertido. Consistia em imaginar que era uma espécie de rei Midas do amor, que ninguém podia amá-la por ela mesma, mas apenas pelo dinheiro, de onde resultava uma desgraça muito grande, de fato.
Todos os jovens elegantes, de boa posição, nobres ou de talento relativo, que se atreveram a declarar-se a Olvido receberam a fatal rejeição que ela jurara dar a todos mediante uma fórmula invariável:
“O amor não era seu destino.”
Não acreditava no amor.
Pouco a pouco, aquela farsa inventada por ela apoderou-se de seu espírito, e a menina começou a levar a sério seu papel de rainha Midas. Renunciou ao amor antes de conhecê-lo e dedicou-se ao luxo de corpo e alma. Amou a arte pela arte: era ela quem exibia maior riqueza nos passeios, bailes e teatros; para Olvido, o traje chegou a tornar-se uma religião. Não usava duas vezes a mesma roupa. Chegava tarde ao passeio, dava três ou quatro voltas e, quando já se sentia suficientemente invejada, voltava para casa, sem jamais se dignar a pousar os olhos em indivíduo algum do sexo forte em idade e condição de merecer. Os vetustenses acabaram por considerá-la um manequim carregado de artigos da moda, que só divertia as senhoritas.
“Era um grande partido”, no qual não valia a pena pensar.
“Olvido espera um príncipe russo” era a frase consagrada.
Quando um forasteiro incauto se atrevia a tentar a sorte, chamavam-no ironicamente de “príncipe russo” até que saísse dali com as mãos na cabeça.
Depois, cansada de não ter no coração nada além de trapos, ocorreu à filha de Páez tornar-se devota. Procurou o Magistral com bons modos, como ele gostava que o procurassem, e encontrou-o. Entenderam-se.
Para dom Fermín, aquela moça magra, fria e seca não era mais que o caminho que conduzia a dom Francisco, que empregava os milhões em comprar influência. Mas Olvido teve a má ideia de apaixonar-se misticamente, assim dizia a si mesma, pelo Magistral. Este fingiu não perceber, aproveitou aquela nova tolice da menina para conquistar o pai mais depressa e, como não enxergou perigo para ninguém na paixão imaginária daquela americanazinha caprichosa, não a afastou de seu lado, como fizera com outras mulheres menos tímidas e mais perigosas para a carne.
De Pas tinha um projeto: casar Olvido com quem ele quisesse. Acreditava poder consegui-lo; mas ainda não havia candidato. Aquele grande partido devia ser o prêmio de algum serviço muito importante que lhe prestassem, embora ainda não soubesse quando nem em que grave necessidade.
Naquela manhã, receberam-no no palacete dos Páez como sempre, sob um pálio, segundo a expressão de dom Francisco.
Pisando aqueles tapetes, vendo-se naqueles espelhos tão grandes quanto portas, afundando voluptuosamente o corpo na maciez daquele luxo confortável, ostensivo, francamente louco, pródigo e deslumbrante, o Magistral sentia-se transportado a regiões que julgava adequadas a seu grande espírito. Ele, pensava com orgulho, nascera para aquilo; mas a mãe cobiçosa, a fortuna própria insuficiente para tamanho esplendor, o estado eclesiástico e a necessidade de aparentar modéstia e quase estreiteza mantinham-no afastado do ambiente natural, que era aquele.
Ao entrar naqueles salões e gabinetes, o Magistral suavizava ainda mais seus modos suaves e, com elegância natural, manejava o manteio, dobrava a batina e movia mãos, olhos e pescoço com uma distinção profana que nunca chegava à desfaçatez do padre que renega o pudor dos hábitos ao pisar os palácios da alta sociedade ou seus sucedâneos. De Pas jamais deixava de ser o Magistral; mas demonstrava, apenas movendo-se, sorrindo ou olhando, que o prebendado, sem deixar de sê-lo, podia ser homem de sociedade como qualquer outro. Somava-se essa graça às qualidades físicas que possuía, à fama de homem eloquente, influente e talentoso, e, como dizia a marquesa de Vegallana, “era um padre muito apresentável”.
Dom Francisco Páez e a filha suplicaram a dom Fermín que almoçasse com eles; não tinham convidados, seria uma refeição de família, os três sozinhos.
— Os três sozinhos! — dizia Olvido, deixando por um instante de ser sorvete.
O Magistral, de pé no umbral de uma porta, segurando e amarrotando com a mão branca uma cortina de veludo, inclinava-se com graça, sorria e movia a cabeça pequena e bem modelada, dizendo não com o gesto, com certa coqueteria epicena.
— Vamos, papai, segure-o — dizia Olvido com voz suplicante, arrastando as sílabas que pareciam sair pelo nariz.
— Impossível.
— É muito teimoso, filha, deixe-o... Não quer que lhe agradeçamos a licença do oratório e a permissão para o padre Anselmo celebrar uma segunda missa.
— Agradeça a Sua Santidade.
— Sim, porque foi por causa de meu belo rosto que Sua Santidade me concedeu essa graça...
O Magistral sorria, disposto a fugir se tentassem agarrá-lo.
— Mas vejamos, uma razão, dê-nos uma razão — gritou Olvido, novamente restituída ao frio natural.
O Magistral ficou um pouco vermelho.
Teve de mentir.
— Fui convidado há três dias para almoçar na casa de outro Francisco; não posso faltar, seria uma desfeita... já sabem como são estas cidades... o que diriam...
Não havia nada disso. Ninguém o convidara para almoçar. A mãe o esperava, como todos os dias.
Contudo, ao recusar aquele convite espontâneo e cordial, que em qualquer outra ocasião o teria lisonjeado, obedecia a um pressentimento. Não sabia por que imaginava que o convidariam na casa dos Vegallana, a última visita que pensava fazer. Por que o convidariam? Além disso, ali almoçavam à francesa, embora dona Rufina costumasse mudar os horários e comer quando lhe dava vontade. De qualquer maneira, o dia de Paquito Vegallana não costumava ser celebrado com gaudeamus, ele não estava convidado e... apesar de tudo, deixara aquela visita para a última hora.
E por que preferiria a mesa dos marqueses à dos Páez, não menos esplêndida? Embora tentasse evitar a resposta àquela pergunta capciosa, a consciência deu-a como uma explosão nos ouvidos antes que ele pudesse preparar uma mentira:
“É que a Regenta às vezes almoça com os marqueses, especialmente em dias como este, porque a tratam como alguém da família.”
“E o que lhe importavam a família, a Regenta ou o almoço dos marqueses?”
Depois de visitar outros dois Franciscos importantes e uma Francisca beata, o Magistral, com um pouco de fome, uma fome saudável, entrou pelos pórticos da Praça Nova na rua dos Cônegos, atravessou a dos Recoletos, chegou à rua da Rúa e perguntou ao porteiro do marquês de Vegallana, um anão vestido com uma libré extravagante, com voz trêmula:
— O senhorito está?
Naquele momento, a porta do pátio abriu-se com estrépito, e lá dentro ressoaram gargalhadas. O Magistral reconheceu a voz de Visita, que gritava:
— Pois não, senhor! Não são azuis...
— Sim, senhora, azuis com listras brancas — respondia Paco, batendo palmas.
— Aposto que não! Aposto que não!
— Tola, tola — dizia outra voz, mais suave, de uma janela do primeiro andar. — Não acredite nele; não se viu nada... Eu estava mais abaixo e não vi nada...
Aquela voz era a de Ana Ozores.
Os ouvidos do Magistral zumbiram... e ele entrou no pátio.