TOMO I — Capítulo V A Regente · Capítulo 6 de 31
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TOMO I — Capítulo V

TOMO I

Capítulo V

A senhorita D. Anunciación Ozores chegara aos quarenta e sete anos sem sair da província de Vetusta. Era, portanto, grande incômodo, talvez perigo, aventurar-se a percorrer em vinte horas de diligência a estrada da costa que chegava até Loreto. Acompanharam-na na viagem D. Cayetano Ripamilán, cônego respeitável por sua condição e seus anos, e uma antiga criada dos Ozores.

D. Carlos morrera de repente, à noite, sem confissão, sem sacramento algum. O médico falava em derrame, em algum vaso... Materialismo puro. D. Anuncia via a mão de Deus, que castiga sem pau nem pedra. Isso não impediu que, durante a viagem, a senhorita de Ozores, vestida de rigoroso luto, manifestasse uma dor apenas mitigada pela resignação cristã.

“Ana, a filha da modista, caíra de cama; estava sozinha, em poder dos criados; não havia outro remédio senão ir buscá-la. Diante daquela morte terminavam as diferenças de família.”

“Morto o cão, acabou-se a raiva”, dissera um dos nobres de Vetusta.

D. Anuncia e D. Cayetano encontraram a jovem em perigo de morte. Era febre nervosa; crise terrível, dissera o médico; a enfermidade coincidira com certas transformações próprias da idade; próprias, sim, mas diante de senhoritas não deviam ser explicadas com a clareza e os pormenores empregados pelo doutor. D. Cayetano podia ouvir tudo, mas D. Anuncia teria preferido metáforas e perífrases. “O desenvolvimento contido”, “a crítica e misteriosa metamorfose”, “a crisálida que se rompe”, tudo isso estava bem; mas o médico acrescentava detalhes que D. Anuncia não hesitava em qualificar de grosseiros.

“Que gente meu irmão frequentava!”, dizia, revirando os olhos.

Durante quinze dias vivera sozinha, em poder dos criados, aquela pobre menina, órfã e doente, pois D. Anuncia só se decidiu a empreender a viagem de vinte horas quando lhe pediram aquela obra de caridade em nome da sobrinha moribunda. Ana já estava enferma quando a catástrofe a surpreendeu. Sua doença era melancólica; sentia tristezas que não sabia explicar. A perda do pai assustou-a mais do que a afligiu a princípio. Não chorava; passava o dia tremendo de frio, numa sonolência povoada de pensamentos disparatados. Sentiu um egoísmo horrível, cheio de remorsos. Mais do que a morte do pai, doía-lhe então o abandono, que a aterrorizava. Toda a sua coragem desapareceu; sentiu-se escrava dos outros. Não bastava a força de sofrer em silêncio, nem refugiar-se na vida interior; precisava do mundo, de um asilo. Sabia que estava muito pobre. Poucos meses antes de morrer, seu pai vendera às irmãs, por preço vil, o palácio de Vetusta. Era o último resto de sua herança. O produto de tão má venda servira para pagar dívidas antigas. Mas outras permaneciam. A própria quinta estava hipotecada, e seu valor não poderia tirar ninguém de dificuldades. Nas mãos do filósofo, não fizera senão perder valor.

“Quer dizer que estou quase na miséria.”

Seus direitos de orfandade, que lhe disseram constituírem ajuda irrisória, pouco mais que nada, demorariam a ser recebidos; não tinha quem lhe explicasse como e onde solicitá-los. Estava só, completamente só; o que seria dela? Os amigos do filósofo não lhe serviram de nada. Só sabiam discutir. O capelão não apareceu por ali; a morte repentina de D. Carlos cheirava um pouco a enxofre.

Um dia, três ou quatro depois de enterrado o pai, Ana quis levantar-se e não pôde. O leito a segurava com braços invisíveis. Na noite anterior adormecera com os dentes cerrados e tremendo de frio. Quisera escrever às tias de Vetusta e não conseguira coordenar as palavras; duvidava até da própria ortografia.

Teve pesadelos e, embora se esforçasse para não se declarar enferma, o mal foi mais forte e a venceu. O médico falou em febre, em grandes cuidados necessários; fez-lhe perguntas às quais ela não sabia nem queria responder. Estava sozinha, e isso era absurdo. O doutor disse que não tinha com quem se entender; acrescentou pragas contra o desleixo dos criados.

“Eles a deixarão morrer, minha filha.”

Ana gritou, assustou-se muito, sentiu-se muito covarde; chorando e de mãos postas, pediu que chamassem suas tias, irmãs do pai que viviam em Vetusta e que, segundo ouvira, eram muito boas cristãs.

As tias sentiam vago remorso pela compra do casarão. Compreendiam que valia mais, muito mais do que haviam pago por ele, abusando da situação apertada de D. Carlos, que, além disso, era um desatinado em matéria de interesses. Ele, que renegara a fé dos Ozores! “Para não ser vítima de uma mistificação.”

Apresentava-se ocasião de tranquilizar a consciência, amparando a desventurada filha do irmão e de seus pecados.

D. Anuncia pôde apreciar melhor a grandeza de sua boa obra quando viu que Ana “estava na rua”, ou pouco menos. A quinta que elas haviam imaginado digna de um Ozores, embora extraviado, era uma casa de aldeia muito pintada, mas sem valor, com uma horta de utilidade mediana. E, além disso, estava sujeita a uma dívida que mal poderia ser paga com o que valia. Anita estava bem-arranjada! Nem rico soubera tornar-se o infeliz ateu. Perder a alma e o corpo, o céu e a terra! Negócio perfeito. Mas, enfim, ao feito, peito.

Lançara sobre os ombros uma carga muito pesada; mas quem não tem sua cruz?

Ana levou um mês para deixar o leito.

D. Anuncia, porém, aborrecia-se em Loreto, onde não havia sociedade; e a viagem, o regresso a Vetusta, foi precipitada contra os conselhos do mediquinho grosseiro, que prodigalizava os termos técnicos mais transparentes.

Assim que chegaram a Vetusta, a órfã teve “um atraso na convalescença”, segundo o médico da casa, homem comedido, que não chamava as coisas pelo nome.

O atraso foi outra febre, na qual a vida de Ana tornou a correr perigo.

As senhoritas de Ozores e a nobreza de Vetusta suspenderam o juízo que lhes mereceria a filha de D. Carlos e da modista italiana até poderem reunir dados suficientes. Enquanto a jovem esteve entre a vida e a morte, D. Anuncia achou irrepreensível sua conduta.

Em honra da verdade, nada havia que dizer contra sua educação nem contra seu caráter: era muito boa enferma. Não pedia nada; tomava tudo o que lhe davam e, se lhe perguntavam:

“Como está, Anita?”

“Um pouco melhor, senhora”, respondia a jovem sempre que podia.

Outras vezes não respondia porque lhe faltavam forças para falar. E às vezes nem sequer ouvia.

Durante a nova convalescença, não foi impertinente.

Não se queixava; tudo estava bem; não se permitia excessos.

No círculo aristocrático de Vetusta, ao qual pertenciam naturalmente as senhoritas de Ozores, não se falava senão da abnegação daquelas santas mulheres.

Glocester, isto é, D. Restituto Mourelo, então simples cônego, dizia com voz melíflua e misteriosa na tertúlia do marquês de Vegallana:

“Senhores, esta é a virtude antiga; não essa falsa e gárrula filantropia moderna. As senhoritas de Ozores estão realizando uma obra de caridade que, se quiséssemos analisá-la detidamente, nos daria como resultado longa série de boas ações. Não se trata apenas de lançar sobre si a enorme carga de manter, e creio que até vestir e calçar, uma pessoa que provavelmente lhes sobreviverá, carga que é por toda a vida ou vitalícia, por conseguinte; além disso, essa jovem representa uma abdicação, que me abstenho de qualificar, uma abdicação de seu senhor pai...”

“Uma abdicação abominável”, atreveu-se a dizer um barão falido.

“Abominável”, acrescentou Glocester, inclinando-se. “Representa uma aliança nefasta, na qual o sangue, evidentemente azul, dos Ozores se misturou em má hora com sangue plebeu; e, o que é pior, segundo todos sabemos, essa menina representa a moralidade pouco escrupulosa da mãe, de sua infausta...”

“Sim, senhor”, interrompeu a marquesa de Vegallana, que não tolerava os discursos de Glocester; “sim, senhor, a mãe era uma perdida, está bem; mas a moça se apresenta bem, segundo dizem as tias; é muito dócil e muito calada.”

“Claro que se cala; mal consegue falar de tanta fraqueza.”

Disse-o o médico da aristocracia, D. Robustiano, que atendia Anita.

Naquela noite decidiu-se na tertúlia acolher a filha de D. Carlos como uma Ozores, descendente da melhor nobreza. Não se falaria de modo algum da mãe; isso ficava proibido, mas ela seria considerada sobrinha de quem tantos elogios merecia.

Grande consolo receberam D. Anuncia e D. Águeda ao saberem pelo médico dessa resolução da nobreza vetustense.

Ana passava muitas horas sozinha. Suas tias tinham o costume de trabalhar, fazer tricô e colcha, na sala de jantar; a alcova da sobrinha ficava na outra extremidade da casa.

Além disso, as ilustres damas passavam muito tempo fora do triste casarão dos antepassados. Visitavam o melhor de Vetusta, sem contar a visita ao Santíssimo e a Vigília, que lhes cabia uma vez por semana. Assistiam a todas as novenas, a todos os sermões, a todas as confrarias e a todas as tertúlias de bom-tom. Comiam duas ou três vezes por semana fora de casa. A maior parte do tempo empregavam em retribuir visitas. Essa era a ocupação a que davam mais importância entre todas as de sua atarefada existência. Não retribuir uma visita de classe parecia-lhes o maior crime que se podia cometer numa sociedade civilizada. Amavam a religião porque era brasão de sua nobreza, mas não eram muito devotas; em seu coração, o culto principal era o da classe e, caso fossem incompatíveis a Visita à Corte de Maria e a tertúlia dos Vegallana, Maria Santíssima, em sua imensa bondade, perdoaria, mas elas assistiriam à tertúlia.

A etiqueta, segundo se entendia em Vetusta, era a lei pela qual o mundo se governava; a ela se devia a harmonia celeste.

Suprimida a etiqueta, as estrelas se chocariam e provavelmente se esmagariam. Que sabia dessas coisas a sobrinhazinha? Essa era a questão. Os olhares de D. Águeda, um pouco mais gorda, mais jovem e mais bondosa que a irmã, iam carregados dessas perguntas quando se cravavam em Anita ao dar-lhe um caldo.

A órfã sorria sempre; agradecia sempre. Estava de acordo com tudo. As tias viam com impaciência prolongar-se aquele estado. A menina não acabava de sarar, nem recaía; não se apresentava solução alguma. Além disso, assim não se podia conhecer seu verdadeiro caráter. Aquela submissão absoluta podia ser efeito da doença. D. Robustiano disse que era.

Uma tarde, talvez julgando que a sobrinhazinha dormia, ou sem recordar que estava perto, no gabinete contíguo à alcova, as duas irmãs falaram de assunto muito importante.

“Estou tremendo; você não sabe por quê?”, dizia D. Anuncia.

“Será pela mesma coisa que me preocupa?”

“O que é?”

“Se essa moça...”

“Se aquela vergonha...”

“Isso!”

“Você...”

“...se lembra da carta da aia?”

“Como não? Eu a conservo.”

“A menina tinha doze ou catorze anos, não é?”

“Um pouco menos, o que é ainda pior.”

“E você acha que...”

“Ora! Claro.”

“Será uma Obdulita?”

“Ou uma Tarsilita. Lembra-se de Tarsila, que teve aquele caso com um cadete e depois uns amores, não sei quais, com Alvarito Mesía?”

“Tudo inocência, diziam os bobocas daqui.”

“Pois veja a inocência; creio que em Madri ela tem amantes assim”, juntando e separando os dedos.

“É claro, caráter e figura...”

“Quando falta uma base firme...”

“Se a gente soubesse!”

“E Obdulita? Veja o que se disse no ano passado; depois negaram, garantiram que era calúnia...”

“A mim, que sou tambor de marinha!”

“Se a gente soubesse!”

“Se a gente tivesse querido!” E esta senhorita de Ozores suspirou. Sua irmã também suspirou.

Ana, que repousava vestida sobre o pobre leito, saltou dele às primeiras palavras daquela conversa. Pálida como morta, com duas lágrimas geladas nas pálpebras e as mãos magras cruzadas, ouviu todo o diálogo das tias.

Não falavam a sós como diante dos senhores de classe; não eram prudentes nem comedidas, não buscavam frases escolhidas. D. Anuncia dizia palavras que a teriam escandalizado em lábios alheios. A conversa demorou a voltar ao pecado de Ana, à vergonha mencionada na carta de D. Camila. Da alcova, a órfã ouvia histórias que revoltavam seu pudor, que lhe ensinavam mil nudezes não vistas nos livros de Mitologia. Mas aquelas mulheres já se haviam esquecido dela. Tarsila, Obdulia, Visitación, outra mocinha que fugia pela sacada em companhia do namorado, a própria marquesa de Vegallana, suas filhas, suas sobrinhas da aldeia, toda Vetusta, inclusive a de classe, era ali exposta à vergonha naquela vingança solitária das duas incasáveis senhoritas de Ozores. Naquele mundo de fraquezas e escândalos, quem se lembrava já da aventura, afinal pouco conhecida, da sobrinhazinha enferma?

As solteironas voltaram, contudo, ao ponto de partida; segundo elas, tratava-se de um marinheiro que abusara da inocência ou da precocidade da menina. Discutiu-se, como no Casino de Loreto, a verossimilhança do delito do ponto de vista fisiológico. Aquelas senhoritas falaram como duas parteiras diplomadas. Que riqueza de dados! Que empirismo tão provido de documentos! D. Anuncia tinha a boca cheia de água. Procurava a cada instante o recipiente de porcelana aos pés de sua poltrona.

“Quanto à moral, o caso tampouco era grave, porque em Vetusta ninguém devia saber de nada. O mau seria se aquela moça houvesse continuado numa vida tão dissoluta. Mas não havia motivo para crê-lo. Nada mais se soubera que a condenasse. Sobretudo, logo se veria.”

Ana, que teve coragem para sofrer até a última palavra, compreendeu que suas tias perdoavam tudo, menos as aparências: contanto que daí em diante fosse como elas, esquecia-se o passado, fosse qual fosse. Como eram elas, já começava a conhecê-lo. Mas estudaria mais.

Houve alguns minutos de silêncio.

D. Águeda o rompeu:

“E eu acho que a moça, se se recuperar, será bonita.”

“Creio que era um pouco raquítica, ao menos pouco desenvolvida...”

“Isso não importa; eu também era assim, e depois que...” Ana sentiu brasas nas faces. “Comecei a engordar, a comer bem e fiquei como um rolo de manteiga.”

D. Águeda suspirou outra vez, lembrando-se do rolo que fora.

D. Anuncia tivera seus motivos para não engordar: amores românticos furiosos. Daqueles amores haviam-lhe restado várias canções à lua, numa espécie de cantochão que ela própria acompanhava à guitarra. Uma das canções começava:

Essa lua que brilha no céu

melancolicamente me inspira:

é o último som de minha lira,

que pela última vez ressoou.

Tratava-se de um condenado à morte.

O belo ideal de D. Anuncia fora sempre uma viagem a Veneza com um amante; mas, uma vez que o século estava metalizado e as moças já não sabiam enamorar-se, queria aproveitar, se possível, a beleza de Ana, que, bem alimentada, seria bonita como o pai e todos os Ozores, pois isso lhes vinha da raça. Sim, era preciso alimentá-la bem, fazê-la engordar. Depois se procuraria um noivo. Empresa difícil, mas não impossível. Num nobre não se podia pensar. Estes eram muito finos, muito galantes com as de sua classe, mas, se não tinham dote, casavam-se com filhas de americanos e de pasiegos ricos. Elas o sabiam por dolorosa experiência. Os rapazes não nobres, por assim dizer, de Vetusta não eram grandes partidos; mas, ainda que se quisesse aceitar, aceitar dizia D. Águeda no seio da confiança, algum advogadão, nenhum daqueles bobocas ousaria cortejar uma Ozores, mesmo que morresse por ela. A única esperança era um americano. Os indianos desejavam mais a nobreza e se atreviam mais, confiavam no prestígio do dinheiro. Procurar-se-ia, portanto, um americano. Primeiro era preciso que a moça sarasse e engordasse.

Ana compreendeu sua obrigação imediata: sarar depressa.

A convalescença ia-se tornando impertinente. Empregou toda a vontade em recuperar a saúde quanto antes.

Desde o dia em que o médico disse que já era oportuno comer bem, ela, com lágrimas nos olhos, comeu quanto pôde. Se não tivesse ouvido a conversa das tias, a pobre órfã não se atreveria a comer muito, mesmo com apetite, para não aumentar o fardo que era ela própria. Mas já sabia com o que contar. Queriam engordá-la como vaca destinada ao mercado. Era preciso devorar, embora no princípio custasse algumas lágrimas fazer passar os bocados.

A natureza logo veio em auxílio daquele terrível esforço da vontade. Ana queria forças, saúde, cores, carne, beleza; queria poder livrar depressa as tias de sua companhia. Cuidar-se muito, alimentar-se bem, pareceu-lhe então o dever supremo. O estado de seu espírito não contrariava esses propósitos.

Aqueles acessos de religiosidade que ela tomara por revelação providencial de verdadeira vocação haviam desaparecido. Eles determinaram a crise violenta que pusera em perigo sua vida, mas, ao voltar a saúde, não voltaram com ela; o sangue novo não os trazia.

Nas insônias, nas exaltações nervosas que tocavam o delírio, as visões místicas, as poderosas intuições da fé, os enternecimentos repentinos haviam-lhe servido ora de consolo, ora de tormento. Notara com tristeza que sua fé era demasiado vaga; acreditava muito e não sabia ao certo em quê; sua maior desgraça, a morte do pai, não encontrara na piedade que julgara tão firme e profunda, embora tão nova, consolo tão forte quanto esperava. Para aquela ausência, para a necessidade de crer que veria o pai em outro mundo, a religião ainda lhe servia; mas muito pouco para consolar seus próprios males, remediar as angústias do egoísmo assustado, as dificuldades do momento nascidas da solidão e da pobreza. O pânico do abandono, sentimento que vencera todos os outros, a fé não o curava.

“A Virgem está comigo”, pensava Ana no leito, lá em Loreto, e acabava chorando, rezando fervorosamente e sentindo sobre a cabeça as carícias da mão invisível de Deus; mas sobrevivia um ataque nervoso, sentia a angústia da solidão, da frieza ao redor, do abandono surdo e mudo, e então as imagens místicas não acudiam. Era necessário um amparo visível. Por isso pensou nas tias que não conhecia, das quais sabia pouco de bom, e desejou sua companhia, acreditou firmemente na força do sangue, nos laços da família.

Durante a convalescença da primeira febre, as primeiras forças que teve foram gastas pelo cérebro em imaginar poemas, romances, dramas e poesias avulsas. Esse compor constante, esse imaginar sem trégua começava como agradável passatempo e, além disso, lisonjeava sua vaidade; mas terminava em tormento. Tudo quanto imaginava lhe parecia excelente e, ao contemplar a beleza que acabava de criar, admirava-a tanto que chorava enternecida, como quando pensava no amor do Menino Jesus e de sua Santa Mãe. Em alguns momentos de reflexão serena, examinava com desgosto a semelhança das duas emoções. Sentia-se tão profunda e sinceramente comovida ao contemplar a beleza artística que criava quanto ao contemplar a beleza da ideia de Deus. Seria porque um e outro sentimento eram religiosos? Ou porque a vaidade, o egoísmo, causavam aquele enternecimento? De todo modo, sofria muito. Parecia-lhe que toda a vida lhe subira à cabeça; que o estômago era máquina parada e o cérebro, forno onde ardia tudo quanto ela era por dentro. Pensar sem querer, contra a própria vontade, alguma coisa complicada, original, delicada, requintada, chegou a causar-lhe náuseas, e ela imaginou invejar os animais, as plantas, as pedras.

Na convalescença da segunda febre, em Vetusta, essa atividade indomável do pensamento voltou a incomodá-la; mas, pouco depois de começar a comer bem, graças àqueles esforços supremos, notou que umas rodas que giravam dentro do crânio se moviam mais devagar e com movimento harmonioso. Já não imaginava tantos heróis e heroínas, e os que lhe restavam na cabeça eram menos fantásticos, seus sentimentos menos rebuscados; comprazia-se em descrever-lhes a beleza exterior, colocava-os em lugares deliciosos e pitorescos, e todas as aventuras terminavam em batalhas ou cenas de amor.

Ao despertar todas as manhãs, Anita surpreendia em si um sorriso na alma e plácida preguiça no corpo. As tias permitiam-lhe levantar tarde, e ela gozava com delícia aquelas horas. Seu leito já não estava naquele casarão dos antepassados, nem em Vetusta, nem na terra; flutuava no ar, não sabia onde. Ela se deixava embalar dentro da macia barquinha naquele navegar aéreo de seus sonhos. E, enquanto os personagens de sua fantasia diziam ternuras uns aos outros, preparava-lhes um almoço suculento num jardim de fragrâncias puríssimas e penetrantes. Ana aspirava com prazer voluptuoso os aromas ideais de suas visões túrgidas.

Algumas vezes, por desgraça, o príncipe russo vestido de peles finas ou o nobre escocês que exibia panturrilha torneada e robusta, com meia de quadrados brilhantes, transformavam-se de repente num cavalheiro enfermo do fígado, pálido, magro, de chapéu panamá, que se despedia da senhora de seus pensamentos dizendo:

“Até loguinho. Já volto”, com um balanço de rede nos diminutivos. Era o indiano que ela e as tias divisavam ao longe.

D. Águeda era excelente cozinheira; conhecia o empirismo da arte e, além disso, professava-o por princípios. Sabia de cor O Cozinheiro Europeu, livro que contém a arte de confeccionar todos os pratos das cozinhas inglesa, francesa, italiana, espanhola e outras. Mas cozinhar como o Europeu custava os olhos da cara, segundo D. Águeda. Quando se tratava de grande jantar ou merenda da aristocracia, dirigia as operações na cozinha do marquês de Vegallana e então recorria ao Europeu. Em sua casa havia muito pouco dinheiro, e ali se contentava com as receitas herdadas dos antepassados. Maravilhas e primores da cozinha caseira comeu Anita assim que o estômago pôde tolerá-los. D. Águeda, com olhos adocicados, inutilmente grandes, que ninguém quisera para si, contemplava extasiada a convalescente que engordava a olhos vistos, segundo as Ozores. Enquanto a jovem saboreava aqueles manjares, tributando um elogio à cozinheira a cada bocado, D. Águeda, satisfeita no mais profundo de sua vaidade, passava a mão pequena e rechonchuda, de dedos como chouriços cheios de anéis, pelos cabelos ondulados, entre louros e castanhos, da sobrinhazinha de seus pecados, como dizia. A artista e sua obra trocavam sorrisos entre um prato e outro.

D. Anuncia não cozinhava, mas ia ao mercado com a criada e trazia o melhor entre o mais barato. Ajudava-a a comprar bem um antigo catedrático de psicologia, lógica e ética, grande partidário da escola escocesa e dos embutidos caseiros. Não confiava muito nem no testemunho dos sentidos nem nas linguiças da praça. Era muito amigo de D. Anuncia e ajudava-a a pechinchar.

Depois do mercado, a solteirona percorria as casas da nobreza para proclamar aquele excesso de caridade com que ela e a irmã davam exemplo ao mundo.

“Se vocês a vissem”, dizia, “está irreconhecível; vê-se que engorda. Parece um balão que vai inflando pouco a pouco. É verdade que aquela Águeda tem umas mãos... Enfim, vocês sabem por experiência como cozinha minha irmãzinha. Eu me desfaço pela menina. Em nossa casa não entendemos a caridade pela metade. Todos os dias se vê alguém recolher um parente pobre, para quê? Para economizar um criado ou uma criada; atira-se-lhe uma côdea e não se lhe paga salário. Mas nós entendemos a caridade de outro modo. Enfim, vocês verão a menina. E vai ser bonita. Vocês verão.”

Com efeito, a nobreza ia em romaria ver o prodígio, ver a menina engordar.

O elemento masculino percebeu muito antes que o feminino a extraordinária...

beleza de Anita. Poucos meses depois da febre, Ana crescera milagrosamente; suas formas haviam adquirido amplitude harmoniosa que enchia de orgulho a nobreza vetustense. A verdade era que o tipo aristocrático não se perdia, apesar da ralé que não queria classes. Assim que separaram aquela menina de uma vida vulgar, em poder de um pai extraviado e liberalão, e a alimentaram bem, ela recuperara o tipo da raça. Votou-se por unanimidade que era belíssima. A plebe opinava o mesmo que a nobreza, e a classe média tinha igual parecer. Em pouco tempo consolidou-se a fama daquela beleza, e Anita Ozores foi, por aclamação, a moça mais bonita da cidade. Quando chegava um forasteiro, mostravam-lhe a torre da catedral, o Passeio de Verão e, se possível, a sobrinha das Ozores. Eram as três maravilhas da população.

D. Águeda agradecia aquele triunfo como Fídias poderia ter agradecido a admiração que o mundo tributou à sua Minerva.

“É uma estátua grega!”, dissera a marquesa de Vegallana, que imaginava as estátuas gregas segundo a ideia que lhe dera um adorador, amante das formas volumosas.

“É a Vênus do Nilo!”, dizia extasiado um frangote chamado Ronzal, vulgo o Estudante.

“Mais do que a de Milo, a dos Médici”, corrigia o jovem e já sábio Saturnino Bermúdez, que sabia o que queria dizer, ou pouco menos.

“É um Fídias!”, exclamava o marquês de Vegallana, que viajara e recordava que se dizia “um Zurbarán”, “um Murillo” etc., tratando-se de quadros.

E Bermúdez atrevia-se a corrigir também:

“Em minha opinião, parece mais de Praxíteles.”

O marquês encolhia os ombros.

“Que seja Praxíteles.” As senhoras eram as que melhor podiam julgar, porque muitas haviam conseguido ver Anita como se veem as estátuas. Não sabiam se era um Fídias ou um Praxíteles, mas sabiam que era uma moça esplêndida; um bijou, dizia a baronesa falida, que passara oito dias na Exposição de Paris.

Sua beleza salvou a órfã. Admitiram-na sem reparos na classe, na intimidade da classe, por sua formosura. Ninguém se lembrava da modista italiana. Tampouco Ana devia mencioná-la, segundo ordem expressa das tias. Tudo fora esquecido, inclusive o republicanismo do pai, tudo: era perdão geral. Ana pertencia à classe; honrava-a com sua beleza, como um cavalo de sangue e pele de seda honra a cavalariça e até a casa de um potentado.

As senhoritas nobres não invejavam muito Anita, porque era pobre. Para elas, a beleza era coisa secundária; davam mais valor ao dote e aos vestidos e acreditavam que os partidos, os noivos aceitáveis, fariam o mesmo. Sabiam com o que contar. Nas tertúlias, nos bailes, nas excursões campestres não faltariam adoradores à sobrinha; os rapazes da aristocracia eram quase todos libertinos mais ou menos dissimulados; seriam atraídos pela beleza de Ana, mas não se casariam com ela. Cada menina aristocrata só precisava tomar o cuidado de proibir ao namorado formal, o futuro esposo, fazer a corte à órfã, ao menos na presença da futura esposa. Se Anita se descuidasse, pensavam as herdeiras, podia comprometer-se sem utilidade alguma. Dentro da nobreza, não era provável que se casasse. Os nobres ricos buscavam aristocratas ricas, suas iguais; os nobres pobres buscavam arranjo na parte moderna de Vetusta, na Colônia Indiana, como os aristocratas chamavam o bairro dos americanos. Um indiano plebeu, um vespúcio, como também os apelidavam, pagava caro o prazer de tornar-se sogro de um título, ou ao menos de um cavalheiro de linhagem.

O cálculo das tias quanto ao casamento de Ana não mudara apesar da grande beleza da sobrinha. Por ser bonita, não se casaria com um nobre; era preciso abdicar, deixá-la casar com um plebeu ricaço. Enquanto isso, exigiam-se muita vigilância e advertências à menina.

“No grande mundo de Vetusta”, dizia D. Anuncia, “é preciso um equilíbrio muito difícil de aprender.”

Embora a explicação desse equilíbrio fosse um pouco embaraçosa, sobretudo para uma senhorita que oficialmente devia ignorar tudo, caso de D. Anuncia, as irmãs concordaram que era indispensável dar instruções à moça.

Poucas vezes Ana se permitia manifestar desejos, gostos ou repugnâncias, e menos ainda estas quando se tratava dos gostos e predileções das tias; mas uma noite não pôde deixar de expressar sua opinião ao voltar sozinha da tertúlia íntima dos Vegallana.

“Divertiu-se muito?”, perguntou D. Anuncia, que ficara na sala de jantar, junto à grande lareira, lendo o folhetim de Las Novedades. Era liberal em matéria de folhetins.

“Não, senhora; não me diverti. E não gostaria de voltar lá sem uma das senhoras. Quando vou sozinha...”

“O quê?”, exclamou D. Anuncia, convidando a sobrinha, pelo tom áspero daquele monossílabo, a não proferir censura de espécie alguma contra a tertúlia de sua predileção.

“Quando vou sozinha... aqueles cavalheirinhos me incomodam demais.”

Não era isso o que queria dizer. A tia compreendeu perfeitamente; mas queria mais clareza e replicou:

“Incomodam! Incomodam! Explique-se, senhorita. Acha pouco fina a sociedade de Vetusta?”

Pelo tratamento formal e pela ironia, Ana compreendeu que D. Anuncia se desgostara.

“Não é isso, tia; é que há alguns... muito atrevidos... Não sei o que imaginam. As senhoras não querem que eu seja sombria, séria, arisca...”

“Naturalmente que não...”

“Pois que eles não sejam atrevidos. Se Obdulia lhes permite certas coisas... eu não quero, eu não quero.”

“E eu tampouco quero que você se compare com Obdulia. Ela é... uma qualquer, não sei como a admitem na tertúlia; e, para dar-se importância, para dizer que é íntima da marquesa e das filhas, passa por tudo. Você é da classe.”

“É que não é só Obdulia quem tolera... o que não quero tolerar. As próprias Emma, Pilar e Lola permitem liberdades...”

“Não toque nas filhas do marquês!”, gritou a tia, pondo-se de pé e deixando cair o Werther sobre o tapete gasto.

“Sou uma besta”, pensou Ana; “devia ter ficado calada.” Cada vez que faltava ao propósito de não contradizer as tias, sentia espécie de remorso, como o artista que erra.

Entrou D. Águeda. Ouvira a conversa desde o gabinete. As duas irmãs se olharam. Chegara a ocasião de explicar o tal equilíbrio.

“Ouça, Anita”, disse com voz melíflua a cozinheira perfeita; “você é uma menina; e, embora pouco saibamos do mundo, temos alguma experiência, pelo que se observa.”

“Isso; pelo que observamos nos outros.”

“No mundo em que entrou e ao qual pertence por direito é necessário... um equilíbrio especial.”

“Um equilíbrio, isso.”

“Sobretudo no trato com os homens. Você terá notado que, em público, os da classe jamais faltam à mais estrita e meticulosa... isso, decência.”

“Que é o principal”, disse D. Anuncia, como quem recita o decálogo.

“Nunca terá visto Manolito, Paquito, o barãozinho, o visconde, nem Mesía, que não é nobre, mas anda com eles, exceder-se no mínimo... Mas no trato íntimo, aquele que é só da classe, já é outra coisa.”

“Outra coisa muito diferente”, disse D. Anuncia, compreendendo que, por ser a mais velha, cabia-lhe continuar explicando o equilíbrio.

“Como todos somos parentes”, continuou, “de perto ou de longe, tratamo-nos como tais; e nem porque se aproximem muito para falar, nem porque façam alusões picantes, sempre cheias de graça, à beleza de seus ombros, ao contorno do pouco, pouquíssimo, de panturrilha que tenham visto ao descer da carruagem; por nada disso, nem sequer por algo mais, contanto que não seja muito, você deve assustar-se, escandalizar-se ou dar-se por ofendida.”

“De maneira alguma”, apoiou D. Águeda.

“O contrário é revelar uma malícia que você não deve ter. Sua inocência serve-lhe para tolerar tudo isso.”

“Assim fazem Pilar, Emma e Lola.”

“Mas...”

“Mas, filha...”

“Mas, se o que não se espera...”

“De modo algum...”

“Se algum deles se excedesse em coisas maiores, no que se chama maiores, sobretudo levando a sério e cortejando-a”, palavra da juventude de D. Anuncia, “cortejando-a devidamente, então não confie; deixe-o falar, mas não se deixe tocar. Ao que lhe propuser amores formais, não tolere beliscões nem nada que não seja inofensivo. Escandalizar-se é ridículo, é como não saber com que se come determinada coisa...”

“É falta de educação entre a classe...”

“E tolerar demais é expor-se. Você não há de casar-se com nenhum deles...”

“Nem tenho vontade, tia”, disse Anita, sem poder conter-se, arrependendo-se logo depois.

D. Águeda sorriu.

“Essa vontade você guarda para si”, exclamou D. Anuncia, pondo-se de pé outra vez e deixando cair o Werther ao chão.

“Você é muito orgulhosa”, acrescentou.

“Deixe-a; quem não se consola...”

“Tem razão; estão verdes. Mas o importante é que você não esqueça o que digo. Antes de entrar na casa da marquesa, é necessário deixar esse ar displicente e esse tom seco, porque são impertinência. O que está bem, muito bem, e veja como lhe elogiamos o que é bom, é que em público mantenha o porte severo, que merece do público não menos elogios do que seu lindo rosto e seu belo talhe.”

“Sim, minha filha”, interrompeu D. Águeda. “É preciso tirar proveito dos dons que o Senhor prodigalizou em você a mãos-cheias.”

Ana morria de vergonha. Aqueles elogios eram o maior martírio. Imaginava-se levada a leilão público. D. Águeda e depois a irmã trataram longamente da provável cotação daquela beleza que consideravam obra sua. Para D. Águeda, a beleza de Ana era um dos melhores embutidos; orgulhava-se daquele rosto como poderia orgulhar-se de uma morcela. O restante, o que se referia à esbeltez, fora feito pela raça, dizia D. Anuncia, que se gabava de esbelta porque era magra.

Ao discutirem semelhante negócio, o tipo da alcoviteira de salão, que só se diferencia das outras porque não faz ruído, assomava à figura daquelas solteironas como anúncio de velhice de bruxa; a lareira projetava na parede suas sombras disformes, e os movimentos da chama e os gestos delas produziam na sombra um embrião de sabá.

O que eram os homens, especialmente os indianos, o que não lhes agradava, a maneira de atordoá-los, o que se devia conceder antes, o que não se devia tolerar depois, tudo isso foi discutido longamente, sempre concluindo com o protesto de que tanta sabedoria era filha da observação em cabeça alheia.

“De resto, nem sua tia Águeda nem eu jamais manifestamos inclinação ao casamento.”

Assim foi explicado à órfã o tal equilíbrio.

Naquela noite, Ana chorou na cama como chorava sob o domínio de D. Camila. Mas jantara muito bem. Ao despertar, sentiu a deliciosa preguiça que era quase o único prazer daquela vida. Como então já não havia motivo para não madrugar e o trabalho a reclamava naquela casa desde muito cedo, procurava despertar muito antes do necessário para gozar daqueles sonhos matinais, envolta no doce calor dos lençóis.

Um a um desprezava todos os elogios que à sua beleza tributavam os senhoritos nobres, os advogadetes de Vetusta e quantos a viam; mas, ao despertar, como uma névoa de incenso perfumado, envolviam o voluptuoso amanhecer de sua alma aqueles doces louvores de tantos...

lábios, condensados num só, e Ana saboreava com deleite aquele perfume. E, como a história deve ousar dizer tudo, segundo manda Tácito, saiba-se que Anita, casta pelo vigor do temperamento, encontrava prazer requintado em verificar a justiça daqueles louvores. Era verdade, era bela. Compreendia aqueles ardores que, com olhares uns, com palavras misteriosas outros, todos os jovens de Vetusta davam a entender. Mas o amor? Aquilo era o amor? Não; o amor ainda estava num futuro distante. Devia ser grande demais, belo demais, para estar tão perto daquela vida miserável que a sufocava, entre as tolices e pequenezas que a cercavam. Talvez nunca viesse; mas preferia perdê-lo a profaná-lo. Toda a sua resignação aparente era, por dentro, pessimismo invencível: convencera-se de que estava condenada a viver entre tolos; acreditava na força superior da estupidez geral; tinha razão contra todos, mas estava por baixo, era a vencida. Além disso, sua miséria e seu abandono preocupavam-na mais do que tudo; seu pensamento principal era livrar as tias daquele fardo, daquela obra de caridade que as velhas proclamavam a cada dia com maior solenidade.

Queria emancipar-se; mas como? Não podia ganhar a vida trabalhando; antes as Ozores a teriam assassinado. Não havia maneira decorosa de sair dali, senão pelo casamento ou pelo convento.

Mas a devoção de Ana já fora qualificada e condenada pela autoridade competente. As tias, que haviam farejado algo daquele misticismo passageiro, tinham zombado dele cruelmente. Além disso, a falsa devoção da menina vinha complicada com o maior e mais ridículo defeito que uma senhorita podia ter em Vetusta: a literatura. Esse era o único vício grave que as tias haviam descoberto na jovem, e já fora cortado pela raiz.

Quando D. Anuncia encontrou na mesa de cabeceira de Ana um caderno de versos, um tinteiro e uma pena, manifestou o mesmo assombro que se tivesse visto um revólver, um baralho ou uma garrafa de aguardente. Aquilo era coisa de homem, vício de homens vulgares, plebeus. Se ela fumasse, não seria maior o espanto das solteironas. “Uma Ozores literata!”

“Por ali, por ali aparecia a orelha da modista italiana, que de fato devia ter sido bailarina, como insinuava D. Camila em sua célebre carta.”

O caderno de versos foi apresentado aos patriarcas graves da aristocracia e do cabido.

O marquês de Vegallana, a quem as viagens davam fama de instruído, declarou que os versos eram livres.

D. Anuncia enlouquecia de raiva.

“Então são indecentes, livres? Quem diria! A bailarina...”

“Não, Anuncita, não se altere. Livres quer dizer brancos, sem rimas; coisas que você não entende. De resto, os versos não são maus. Mas é melhor que ela não os escreva. Nunca conheci literata que fosse mulher de bem.”

O mesmo opinou o barão falido, que vivera em Madri sustentado por uma poetisa tradutora de folhetins.

O senhor Ripamilán, cônego, disse que os versos eram regulares, talvez bons, mas de uma escola romântico-religiosa que o enjoava.

“São imitações de Lamartine em estilo pseudoclássico; não me agradam, embora demonstrem grande habilidade em Anita. Além disso, as mulheres devem ocupar-se de tarefas mais doces; as musas não escrevem, inspiram.”

A marquesa de Vegallana, que lia livros escandalosos com singular deleite, condenou os versos por carolas. “Que não misturassem com ela o humano e o divino. Na igreja, como na igreja; em literatura, Castela larga.” Além disso, não gostava de poesia; preferia os romances em que tudo é pintado ao vivo e tal como acontece. “Se ela sabia o que era o mundo! Quanto à sobrinhazinha, era indubitável que se deviam cortar aqueles arroubos de falsa piedade romanesca. Para ser literata, além do mais, era necessário muito talento. Ela própria o teria sido se vivesse em outra atmosfera. O que haviam visto aqueles olhos!” E lembrava-se de umas Aventuras de uma cortesã que projetara em sua juventude, rica de experiência.

Tão geral e viva foi a oposição do grande mundo de Vetusta às tentativas literárias de Ana, que ela própria se julgou ridícula e enganada pela vaidade.

A sós na alcova, algumas noites em que a tristeza a atormentava, tornava a escrever versos, mas logo os rasgava e atirava o papel pela sacada, para que as tias não tropeçassem no corpo do delito. A perseguição nessa matéria chegou a tal extremo, tantos desgostos lhe causou seu desejo de exprimir por escrito ideias e sofrimentos, que teve de renunciar completamente à pena; jurou a si mesma não ser “a literata”, aquele ente híbrido e abominável de que se falava em Vetusta como de monstros repugnantes e horríveis.

As amiguinhas, que souberam de alguma coisa e nunca tinham o que censurar em Ana, aproveitaram aquela fraqueza para expô-la ao ridículo diante dos homens, e às vezes conseguiram. Não se sabia quem, mas acreditava-se que Obdulia inventara um apelido para Ana. As amigas e os jovens desprezados chamavam-na de George Sandio.

Muito tempo depois de abandonar toda pretensão de poetisa, ainda se falava diante dela, com maliciosa complacência, das literatas. Ana perturbava-se, como se se tratasse de algum crime seu descoberto.

“Numa mulher bonita, o vício de escrever é imperdoável”, dizia o barãozinho, cravando os olhos em Ana e julgando agradá-la.

“E quem se casa com uma literata?”, dizia Vegallana sem má intenção. “Eu não gostaria que minha mulher tivesse mais talento do que eu.”

A marquesa encolhia os ombros. Acreditava firmemente que o marido era idiota. “Ao que os maridos chamam talento!”, pensava, satisfeita com o passado.

“Não quero que minha mulher vista calças”, acrescentava o efeminado barãozinho. E a marquesa, vingando nele o comentário do marido, dizia:

“Pois, meu filho, vocês serão um casal sans-culotte.”

Fora dessas defesas relativas da marquesa, a opinião era unânime: a literata era um absurdo vivo.

“Tinham razão nesse ponto aqueles tolos”, chegou a pensar Ana; não escreveria mais. Mas vingava-se das zombarias desprezando-as e desdenhando os obséquios daqueles que seu orgulho tinha por paspalhos aristocráticos. Aceitava o culto tributado à sua beleza, mas, como alguns homens eminentes e presunçosos, desprezava um por um os fiéis que se prostravam diante do ídolo. Para ela, o amor e qualquer daqueles nobres, antes audazes, agora covardes diante de seu supremo desdém, eram incompatíveis. Era demasiado crédula no que se referia às coisas vãs e repugnantes do mundo em que vivia; nessas matérias, preferia as advertências de D. Anuncia ao próprio critério. A princípio imaginara que, com um pouco de arte, poderia conquistar qualquer daqueles nobres ricos que se divertiam com todas e se casavam com a de maior dote. Mas semelhante ideia pareceu-lhe indignidade repugnante; nem uma vez tentou experimentar seus recursos e preferiu acreditar na tia: aqueles aristocratas interesseiros não eram maridos possíveis. Acostumou-se a essa ideia e olhava os amigos e parentes como os manequins das alfaiatarias; de fato, via-os tão débeis de espírito que lhe pareciam de papel de embrulho.

Os frangotes da aristocracia acabaram confessando que Ana era exceção; ou calculava mais do que as próprias tias, ou era virtude verdadeira.

“Diabo, alguma havia de existir!” Os sedutores da classe média, que sempre ansiavam meter a cabeça na aristocracia, declararam o mesmo: “Ana era invulnerável.”

“Estará esperando algum príncipe russo”, dizia Alvarito Mesía, que vivia entre plebeus e nobres. Alvarito nunca dissera a Anita: “Que belos olhos você tem.” Eram dois orgulhos paralelos.

Mesía foi a Madri escovar um pouco o provincianismo. Já deixava em Vetusta muitas vítimas de seu bom talhe e arte de enamorar, mas pensava causar os maiores estragos ao voltar.

Na tarde em que Álvaro tomou a diligência, Ana saíra a passeio com as tias pela estrada de Madri. Encontraram o carro. Álvaro as viu e saudou da berlinda. Os olhos de Ana e Mesía encontraram-se. Olharam-se como se até então nunca se houvessem visto bem.

“Belos olhos”, pensou o Tenório. “Eu não sabia a que sabiam, até agora.”

E continuou: “Essa será uma das primeiras.”

Durante mais de uma hora, foi vendo aquela nuvem de pó que parecia feita de luz e, no meio dela, os olhos da sobrinha.

A sobrinha também levou para casa a imagem de D. Álvaro entre as sobrancelhas.

E pensava: “Era um dos menos maus. Parecia mais distinto; não era importuno; tinha certa dignidade... era comedido... frio com elegância... sem dúvida o menos tolo.”

O pessimismo fez com que repetisse durante muitos dias:

“Foi embora o menos tolo.”

Mas, ao cabo de um mês, já não se lembrava de D. Álvaro; nem D. Álvaro de Ana assim que chegou a Madri. “Oh, o convento, o convento; esse era seu recurso mais natural e decoroso. O convento ou o americano.”

O confessor de Anita, Ripamilán, ouviu a proposta da jovem como quem ouve chover.

“Tá, tá, tá, tá!”, disse em voz alta, sem pensar que estava na igreja. “Minha filha, as esposas de Jesus não se fazem de sua madeirinha. Faça feliz um cristão, o que bem pode, e deixe-se de vocações improvisadas. A culpa é do romantismo, com seus dramas escandalosos de freirinhas que fogem nos braços de trovadores de penacho e capitães de salteadores. Saiba, minha Anita, que tenho para você um noivo, conterrâneo meu. Volte para casa; irei até lá e lhe falarei do assunto. Aqui seria uma profanação.”

O candidato de Ripamilán era magistrado, natural de Saragoça, jovem para desembargador e um pouco maduro, embora não muito, para noivo. A senhorita D. Ana Ozores tinha então dezenove anos, e o senhor D. Víctor Quintanar passava dos quarenta. Mas estava muito bem-conservado. Ana suplicou a D. Cayetano que nada dissesse às tias daquela proposta até que ela convivesse algum tempo com Quintanar; porque, se D. Anuncia soubesse de alguma coisa, imporia o noivo sem outro exame.

“Nada mais justo; prefiro que essas coisas sejam resolvidas pelo coração; Moratín, meu querido Moratín, ensina-nos isso com galhardia em sua comédia imortal: O sim das meninas.”

Assim ficou. Quem diria a D. Anuncia que aquele noivo sonhado, que já começava a tardar, passava todos os dias perto delas, no Espolón, o Passeio de Inverno, ou na estrada de Madri, ladeada por altos choupos que se juntavam ao longe! Ana notara que todas as tardes se encontravam com D. Tomás Crespo, íntimo da casa, e com um cavalheiro que a devorava com os olhos. D. Tomás era uma das poucas pessoas que ela estimava de verdade, por ver nele qualidades morais raras em Vetusta: a tolerância, a alegria expansiva e o despreconceito em matérias supersticiosas.

O cavalheiro observava-as de longe, enquanto D. Tomás parava para saudá-las. Aquele senhor era Quintanar, o magistrado. Efetivamente, não estava mal conservado. Era muito asseado no traje e de aspecto simpático.

“Era um forasteiro”, palavra de sentido especial em Vetusta, para as senhoritas de Ozores, que ainda não o haviam visto em nenhuma casa das suas.

“É magistrado”, dissera-lhes Crespo um dia; “um aragonês muito íntegro, valente, grande caçador, muito pundonoroso e grande apreciador de comédias; representa como Carlos Latorre. Sobretudo no teatro antigo, é coisa de ver.”

Isso era tudo quanto as tias sabiam do noivo que se lhes preparava às escondidas.

Uma tarde, Crespo, informado de que a menina já sabia alguma coisa, sem encomendar-se a Deus nem ao diabo, deteve as Ozores na estrada de Castela e apresentou-lhes o senhor D. Víctor Quintanar, magistrado. Aqueles senhores acompanharam-nas durante o passeio e até as deixarem no sombrio portal do casarão dos Ozores. D. Anuncia ofereceu a casa a D. Víctor. Este pensava que as tias conheciam sua honesta pretensão e, no dia seguinte, de fraque e calças negras, visitou as nobres damas. Ana tratou-o com muita amabilidade. Achou-o muito simpático.

A única pessoa com quem ousava falar um pouco do que se passava dentro dela era D. Tomás Crespo, livre, segundo dizia, de todos os preconceitos, inclusive o de não tê-los, que era dos mais tolos.

Ana observava muito. Julgava-se superior aos que a cercavam e pensava...

que devia existir em outra parte uma sociedade que vivesse como ela desejava e partilhasse suas ideias. Mas, enquanto isso, Vetusta era sua prisão; a rotina tola, um mar de gelo que a mantinha presa, imóvel. Suas tias, as jovens aristocratas, as beatas, tudo aquilo era mais forte do que ela; não podia lutar, rendia-se sem condições e reservava-se o direito de desprezar o tirano, vivendo de sonhos.

Crespo, porém, era exceção, amigo verdadeiro, que compreendia por meias palavras aquilo que as tias, o barão etc. não compreenderiam em volumes do tamanho de casas.

Chamavam D. Tomás de Frígilis, porque, quando lhe contavam algum deslize dos que os povos costumam castigar com hipócritas espantos de moralidade assustada, ele encolhia os ombros, não por indiferença, mas por filosofia, e exclamava sorrindo:

“O que querem? Somos frígilis, como dizia o outro.”

Frígilis queria dizer frágeis. Tal era a divisa de D. Tomás: a fragilidade humana.

Ele próprio fora frágil. Acreditara demais nas leis da adaptação ao meio. Mas disso se falará em seu devido tempo. Oito anos mais tarde, brilhava em todo o esplendor sua nobre mania de perdoar tudo.

Era sagaz para procurar o bem no fundo das almas e adivinhara em Anita tesouros espirituais.

“Veja, D. Víctor”, dizia ao amigo, “essa menina merece um rei e, pelo menos, um magistrado que logo será Regente, como o senhor, por exemplo. Imagine uma mina de ouro num país onde ninguém sabe explorar minas de ouro; isso é Anita em minha querida Vetusta. Em Vetusta, o melhor são as árvores.”

“Deixe a flora, D. Tomás.”

“Tem razão, eu me perco... Dizia que Anita é mulher de primeira ordem. Vê como é belo o corpinho que o deixou feito caramelo? Pois, quando conhecer sua alma, derreterá como caramelo ao sol. Devo advertir que, para mim, alma boa não passa de alma saudável; a bondade nasce da saúde.”

“O senhor é um pouco materialista, mas não me zango. Dizia que a menina...”

“Sou um chifre, meu senhor; e desculpe. Não me ponham rótulos. Detesto sistemas. O que digo é que só acredito na bondade que a natureza dá; a saúde de uma árvore precisa entrar pelas raízes... pois é o mesmo, a alma...”

E continuava filosofando para concluir que Anita era a melhor moça de Vetusta.

Crespo, segundo contou, tomou um dia a jovem por sua conta para recomendar-lhe o senhor Quintanar.

“Era o único noivo digno dela. Os quarenta e tantos anos eram como os das árvores que vivem séculos, juventude, primeira juventude. Um cão de dez anos é mais velho do que um corvo de cem, se é verdade que os corvos duram séculos.”

Ana dava grande valor aos conselhos de Frígilis. Aceitou o convívio de Quintanar, mas a benefício de inventário e com as demais condições impostas a D. Cayetano; as tias nada saberiam. D. Víctor aceitou aquele modo de ser pretendente.

“Veja”, dizia Frígilis, “o segredinho é o molho desses negócios; a moça morderá a isca mais depressa... verá como morde...”

Ana passava o tempo sem senti-lo ao lado de Quintanar.

“Ele tinha ideias puras, nobres, elevadas e até poéticas.”

Não tingia os cabelos brancos, era simples, embora na linguagem um pouco declamatório e altissonante. Devia esse vício aos muitos versos de Lope e Calderón que sabia de memória; custava-lhe não falar como Sancho Ortiz ou D. Gutierre Alfonso.

Mas, a sós, Anita dizia consigo: “Não é temeridade casar sem amor? Não diziam que sua vocação religiosa era falsa, que ela não servia para esposa de Jesus porque não o amava bastante? Pois, se tampouco amava D. Víctor, também não devia casar-se com ele.”

Consultado, Ripamilán respondeu:

“Que entre um magistrado, que nem sequer era Presidente de Câmara, e o Salvador do mundo havia muita diferença. Anita não confessava que gostava de D. Víctor? Sim. Pois a cada dia lhe acharia mais graça. Enquanto no convento, quem começa sem amor acaba desesperada.”

D. Cayetano, que sabia tornar-se sério quando necessário, procurou convencer a amiguinha de que sua piedade, suficiente para uma mulher honrada no mundo, não bastava aos sacrifícios do claustro.

“Tudo aquilo de haver chorado de amor lendo Santo Agostinho e São João da Cruz não valia nada; fora coisa da idade crítica que atravessava. Quanto a Chateaubriand, não se devia dar atenção. Isso de fazer-se freira sem vocação ficava bem no teatro; mas no mundo não havia Manriques nem Tenórios que escalassem conventos, graças a Deus. A verdadeira piedade consistia em fazer feliz cavalheiro tão perfeito e enamorado como o senhor Quintanar, seu conterrâneo e amigo.”

Ana renunciou pouco a pouco à ideia de ser freira. Sua consciência gritava que aquele não era o sacrifício que podia fazer. O claustro provavelmente era o mesmo que Vetusta; não iria viver com Jesus, e sim com irmãs certamente mais parecidas com suas tias do que com Santo Agostinho e Santa Teresa. Algo se soube no círculo da nobreza sobre as “veleidades místicas” de Anita, e as que a haviam chamado George Sandio não morderam a língua e criticaram com maior crueldade o novo capricho.

Confessava-se que era virtuosa, já que não se conhecia nenhum casinho seu; mas isso era pouco para julgar-se com vocação de santa.

“Por acaso as outras eram umas tais?”

“É bonita, mas orgulhosa”, dizia a baronesa falida, que tinha marido e filho inutilmente enamorados da sobrinhazinha.

Não foi Ana quem apressou sua resolução, como esperava Frígilis; foram as tias, que descobriram um noivo para a menina. O novo pretendente era o americano desejado e temido, D. Frutos Redondo, vindo de Matanzas com carregamento de milhões. Chegava disposto a construir o melhor chalé de Vetusta, ter as melhores carruagens de Vetusta, ser deputado por Vetusta e casar-se com a mulher mais bonita de Vetusta. Viu Anita, disseram-lhe que aquela era a formosura da cidade e sentiu-se ferido de ponta pelo amor. Advertiram-no de que suas onças não bastavam para conquistar aquela praça. Então apaixonou-se muito mais. Fez-se apresentar na casa das Ozores e pediu a D. Anuncia a mão da sobrinha.

Depois D. Anuncia encerrou-se na sala de jantar com D. Águeda e, terminada a conferência, Anita compareceu. D. Anuncia pôs-se de pé junto à lareira pseudofeudal, deixou cair sobre o tapete La Etelvina, romance que encantara sua juventude, e exclamou:

“Senhorita... minha filha; chegou um momento que pode ser decisivo em sua existência.” Era o estilo de La Etelvina. “Sua tia e eu fizemos por você todo gênero de sacrifícios; nem nossa miséria, a duras penas dissimulada diante do mundo, nos impediu de cercá-la de todas as comodidades desejáveis. A caridade é inesgotável, mas nossos recursos não. Nós nunca lhe recordamos o que nos deve”, recordavam-lho ao almoço e ao jantar todos os dias, “perdoamos sua origem, isto é, a de sua desgraçada mãe; tudo, tudo foi aqui esquecido. Pois bem, você pagaria tudo isso com a mais negra ingratidão, com a ingratidão mais criminosa, se respondesse com uma negativa... inqualificável à proposta que vamos fazer.”

“Inqualificável”, repetiu D. Águeda. “Mas creio inútil todo esse sermão”, acrescentou, “porque a menina saltará de alegria quando souber do que se trata.”

“É isso o que quero; saber em que posso servir às senhoras, a quem tanto devo.”

“Tudo.”

“Sim, tudo, querida tia.”

“Como suponho”, prosseguiu D. Anuncia, “que você já nem se lembrará daquela loucura de convento...”

“Não, senhora...”

“Nesse caso”, interrompeu D. Águeda, “como não quererá ficar sozinha no mundo no dia em que nós faltarmos...”

“Nem terá amorzinho oculto, o que seria indecente...”

“E como nós não podemos mais...”

“E como é seu dever aceitar a felicidade que lhe oferecem...”

“Você morrerá de alegria quando souber que D. Frutos Redondo, o homem mais rico do Espolón, pediu hoje mesmo sua mão.”

Ana, contra a ordem expressa das tias, não morreu de alegria. Calou-se; não ousava dar negativa categórica.

Mas D. Anuncia não precisou de mais para soltar o basilisco que carregava nas entranhas. Sua sombra nas sombras da parede parecia agora a de uma bruxa gigantesca; outras vezes, multiplicando-se pelos saltos da chama e pelos saltos e contorções da velha, figurava todo o inferno desencadeado; havia momentos em que a sombra da senhorita de Ozores tinha três cabeças na parede e três ou quatro no teto, e dir-se-ia que de todas saíam gritos e uivos, segundo o que vociferava D. Anuncia sozinha.

A própria D. Águeda estava horrorizada.

A sobrinha permaneceu oito dias encerrada na alcova depois daquela cena. Ao completar-se a novena do confinamento, que tinha algo de prisão, D. Anuncia apresentou-se tranquila, digna, severa, para ler a sentença. “Não faltaria à filha da bailarina, quem duvidava já que a modista dançara?, uma cama no palácio de seus antepassados; mas elas, as tias, não tinham o que pôr à mesa; a menina comera tudo.”

Ana escreveu a Frígilis.

E, no dia seguinte, D. Víctor Quintanar, em traje de gala como no dia da primeira visita, entrou no estrado dos Ozores. Vinha pedir a mão de Ana, “a quem acreditava não ser indiferente”.

“Dava aquele passo antes do que pensava porque acabava de ser promovido; ia a Granada como Presidente de Câmara e queria levar a esposa, se seu ardente desejo fosse atendido. Contava com o salário, algumas vinhas e não poucos rebanhos em Almunia de D. Godino. Nunca teria ousado pedir a mão de jovem tão preclara, ilustre e bela sem poder oferecer-lhe, senão opulência, uma aurea mediocritas, como dissera o latino.”

D. Anuncia ficou deslumbrada... D. Godino... mediocritas... a cruz de Isabel a Católica!... Era tentação demais.

Ao pôr-lhe a cruz ao peito, Frígilis advertira D. Víctor de que D. Anuncia se enamorava de discursos que não entendia e de condecorações.

Enquanto falava, Quintanar sentia-se ridículo; mas a velha estava fascinada.

“D. Frutos”, pensava ela, “quebrava torrões nos subúrbios de Vetusta doze anos antes; eu me lembro de tê-lo visto em mangas de camisa.”

A Ozores respondeu “que não podia dispor da mão da sobrinha, ainda que a jovem consentisse, sem consultar, sem obter a licença da nobreza, da classe”.

Os senhores da toga, os da Audiência, eram a segunda aristocracia de Vetusta, embora não figurassem tanto quanto em outros tempos.

A justiça era respeitada com terror supersticioso herdado de muitos séculos. Os liberais mais exaltados de Vetusta, que falavam em anarquia e em queimar tudo, tremiam diante da voz de um meirinho da Câmara Criminal que gritava porque uma testemunha cruzava as pernas:

“Guardem a cerimônia!”

A aristocracia, a primeira, opinou que Anita fazia casamento louco.

Ela o fez. D. Frutos voltou a Matanzas, prometendo regressar vingado, isto é, com muito mais milhões. Cumpriu a promessa.

Passou um mês, e Ana Ozores de Quintanar, com seu cavalheiresco esposo, saía pela estrada de Castela na berlinda daquela diligência em que vira D. Álvaro Mesía partir pelo mesmo caminho.

Toda Vetusta foi despedir-se deles; a nobreza e a classe média. Frígilis tinha lágrimas nos olhos.

“Assim que puderem voltar... voltem”, dizia, com um pé no estribo e a cabeça dentro do carro. “A senhora será a Regenta de Vetusta, Anita.”

“A lei não permite, por causa das tias”, respondia D. Víctor.

“Ora, ora! Isso se arranjaria... A senhora será a Regenta.”

D. Cayetano também quis subir ao estribo, mas não pôde.

D. Anuncia e D. Águeda haviam ficado no estrado, quase às escuras, suspirando, cercadas de alguns amigos e amigas, talvez os mesmos que em outra ocasião lhes haviam dado pêsames pela morte civil de D. Carlos.

“E ela vai contente”, dizia o barão.

“Uf! Claro.”

“A juventude é ingrata...”

“Senhores, vai arrancar, afastem-se!”, gritou o ajudante da diligência.

E o carro partiu. D. Víctor apertava entre as suas as mãos daquela esposa que uma cidade inteira lhe invejava.

Um “adeus!” encheu o espaço da Plaza Nueva: era um adeus verdadeiramente triste, a despedida da maravilha da cidade; Vetusta em massa via partir a nova Presidente de Câmara como poderia ter visto levarem a torre da catedral, outra maravilha.

Enquanto isso, Ana pensava que talvez não houvesse, entre aquela multidão que admirava sua beleza, ninguém mais digno de possuí-la do que aquele D. Víctor, apesar de seus quarenta e tantos, tantos misteriosos.

Quando, já perto da noite, enquanto subiam ladeiras que os animais venciam a passo, o novo Presidente de Câmara lhe perguntava se ele era, por ventura, o primeiro homem a quem amara, Ana inclinava a cabeça e dizia, com melancolia que soava ao marido como voluptuoso abandono:

“Sim, sim, o primeiro, o único.”

“Não o amava, não; mas procuraria amá-lo.”

Caiu a noite. Ana, com a cabeça apoiada nas almofadas gastas daquele carro velho, fechava os olhos, fingia dormir e escutava o ruído ensurdecedor e confuso de vidros, ferro e madeira da diligência desconjuntada; parecia-lhe ouvir naquele estrépito os últimos gritos da despedida.

Nem um só daqueles homens que ficavam lá embaixo lhe falara de amor, de amor verdadeiro, nem lho inspirara. Revendo todos os anos da juventude inútil, recordava, como a maior delícia que talvez pudesse ser lançada ao capítulo do amor, algum olhar de desconhecido em um daqueles passeios pelas estradas ladeadas de árvores povoadas de pardais e pintassilgos.

Entre ela e os jovens da sociedade em que vivia, o orgulho de Ana e a tolice dos outros logo haviam erguido uma muralha de gelo.

“Não se casariam com ela, dissera D. Anuncia, porque era pobre; mas ela lhes tomava a dianteira e os desprezava por fátuos e vulgares.”

Se algum quisera tratá-la como a Obdulia, logo encontrara desdém altivo e ironia cruel capazes de gelar uma brasa.

“Talvez, embora não fosse certo nem de longe, entre aqueles homens que a admiravam à distância, devorando-a com os olhos, houvesse algum digno de ser amado... mas as tias encarregavam-se de manter as distâncias exigidas pelo tom, e os pobres advogadinhos, ou o que fossem, talvez democratas teóricos, respeitavam aqueles preconceitos e, a contragosto, participavam deles. Não se aproximavam.” Todos os que haviam causado em Ana algum efeito, embora pequeno, falando com os olhos, eram tudo menos partidos. Em Vetusta, a juventude pobre não sabe ganhar a vida; no máximo ganha a miséria; rapazes e moças devoram-se com os olhos, amam-se, chegam a dizê-lo... mas deixam para lá; falta uma posição; as moças perdem a beleza e acabam beatas; os rapazes abandonam a reluzente cartola, embrulham-se na capa e tornam-se jogadores.

Os que querem prosperar saem da cidade; ali não há outros ricos senão os que herdam ou fazem fortuna longe da sonolenta Vetusta.

“Entre americanos, pasiegos e morgadinhos fátuos, rudes e grotescos teria podido escolher”, continuava pensando Ana. “Que o dissesse D. Frutos Redondo... Mas, além disso, para que enganar-se? Não estava em Vetusta, não podia estar naquele pobre canto a realidade do sonho, o herói do poema, que primeiro se chamara Germán, depois Santo Agostinho, bispo de Hipona, depois Chateaubriand e depois tivera cem nomes, tudo grandeza, esplendor, doçura delicada, rara e escolhida...”

“E agora estava casada. Era crime, mas crime verdadeiro, não como o da barca de Trébol, pensar em outros homens. D. Víctor era a muralha da China de seus sonhos. Toda aparição fantástica que ultrapassasse aqueles cinco pés e várias polegadas de homem que tinha ao lado era delito. Tudo terminara... sem ter começado.”

Ana abriu os olhos e olhou para seu D. Víctor, que, à luz de uma lâmpada de viagem, com um gorro de seda enterrado até as orelhas, lia tranquilamente, o cenho um pouco franzido, O maior monstro, os ciúmes, ou o Tetrarca de Jerusalém, do imortal Calderón de la Barca.

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