Primeiro Ato: Cena I Talitha · Capítulo 3 de 27
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Primeiro Ato: Cena I

PRIMEIRO ACTO

SCENA I

Joaquina e Ruy

Joaquina

Louvado seja Deus! Como está bello e forte!

Ruy

É verdade, Joaquina, o clima aqui da terra

encheu-me novamente o coração de alento.

Posso dizer que entrei neste bondoso lar

vigiado, sem dó, pelos olhos da morte.

E agora, a luz do Sol, os perfumes da serra,

as aguas desta fonte, o sadio alimento,

o seu cuidado santo, amigo e tutelar,

fizeram-me robusto.

Joaquina

E Deus não lhe fez nada?

Ruy

Foi elle quem salvou a minha mocidade,

porque a divina mão que fez os céos e os montes,

que deu flores á terra e deu frescura ás fontes,

que faz vibrar a luz e a voz da passarada,

que impelle a nuvem branca em plena immensidade,

um dia vos creou as almas caridosas

que vivem nesta casa, humildes e serenas,

felizes com o Bem, suaves como as rosas,

mais simples do que o trigo, a neve e as açucenas!

Joaquina

Então, menino, crê tambem que Deus existe?!

Ruy

De certo, minha amiga.

Joaquina

E não é um hereje,

dessa raça maldita e negra que desmente

as obras do Senhor?

Ruy

Ingenua creatura!

É tão alegre a crença e não crêr é tão triste,

que mesmo sem querer o coração da gente

acredita num Deus que todo o mundo rege,

num Pae que assim te deu alma simples e pura!

Faz tanto bem, Joaquina, acreditar em Deus

e adormecer á noite abrindo a consciencia

aos beijos do luar, sorrir de madrugada

á frescura que vem do azul ethereo e vasto,

que o nosso olhar ascende ás amplidões dos céos

sem esforço nenhum, como a espiral da essencia

que se evola da flôr, se a abelha delicada

lhe poisa na corolla o vôo leve e casto!

Joaquina

Bemdito seja Deus! Não póde imaginar

como eu fico contente ouvindo assim fallar!...

Ruy

Mas que idéa fazia então de mim? Julgava

talvez que eu fosse atheu?

Joaquina, benzendo-se

Deus me perdôe... pensava!

Ruy

Como poude a sua alma angelica e tão boa

fazer-me, sem motivo, essa enorme injustiça?

Joaquina

Ah! mas não foi por mal, nem o pensei á tôa:

eu nunca o vi rezar, eu nunca o vi na missa...

E a gente vê só cara e não vê corações...

Ruy

E se o visse, Joaquina!...

Joaquina

E que é que me servia

o ver-lhe o coração?

Ruy

Nada, é certo. Entretanto

conheceria bem as minhas intenções,

a esperança que faz brotar, em cada dia

que passa, um pensamento alegre, puro e santo...

Joaquina, interrompendo

É, mas diz o rifão que está o inferno cheio

de boas intenções!...

Ruy

Tem razão; mas não minto

se lhe disser tambem, lealmente, o que sinto:

ás vezes mais parece um verdadeiro inferno

este peito infeliz...

Joaquina, benzendo-se

Abrenuncio, menino!...

Mas que blasphemia a sua e que peccado feio!...

Um homem que acredita em Deus, bondoso e eterno,

em Deus Nosso Senhor, não diz tal desatino!...

Virgem Maria! Credo!

Ruy

Alma boa de santa!...

A tua vida inteira adormeceu. A aurora

já para ti não tem aquelle brilho vivo

que a primavera, em luz, alastra pelos campos...

Tudo se transformou em outra vida; agora

a fonte já soluça, a brisa já não canta;

aos teus olhos a lua é d'um fulgor esquivo,

o sol não tem calor, o céo já não é glastro,

as estrellas febris parecem pirilampos;

trazes o teu olhar constantemente a rastro;

sómente a fé te anima; é por isso que extranhas

o inferno abrasador que muita vez domina

a minha mocidade.

Joaquina, com sorriso

Isso me bacoreja

algum amor perdido ahi por essas eiras...

Ruy

É possivel, quem sabe? Os ares das montanhas

tem caprichos assim, póde bem ser, Joaquina!

Joaquina, cariciosa

E diga-me, que olhar é esse que negreja

a sua vida alegre? Ha tantas feiticeiras!...

Ruy, enleiado

Que olhar?

Joaquina, interrompendo

Mas é segredo?

Ruy

É, por ora é segredo...

Joaquina

Ah! não confia em mim?! bem sei, bem sei, tem medo

que eu descubra o mysterio, a princeza encantada

que assim lhe traz a vida em tantas amarguras...

Ruy

Não é mysterio, não. É... cousa complicada!...

Joaquina

Faz muito bem zelar a flôr dos seus amores;

não os conte a ninguem; se acaso as desventuras

lhe roubarem o somno agarre-se com Deus...

tomando-lhe a mão e fallando-lhe ao ouvido

Reze constantemente á Senhora das Dôres.

Acceite este rosario e tenha-o por bordão.

É bemaventurado aquelle que padece,

porque é delle, menino, o reino azul dos céos...

E Deus a quem promette estende sempre o pão;

reze e será feliz... Essa alma bem merece...

Ruy

Santa velhinha, santa...

Joaquina, tapando-lhe a bocca

E nem um ai, silencio...

Olhe quem vem ali...

Ruy, voltando-se

O Padre João Fulgencio

e Talitha; meu Deus!... Pobre, infeliz Talitha!...

Joaquina, a Ruy

Parece que ficou um tanto atrapalhado...

Ruy, encobrindo a verdade

Sempre que a vejo, assim tão cheia de bondade e

céga...

Joaquina

Então, que sente?...

Ruy

Uma dôr inaudita,

que reveste de luto as minhas alegrias:

Ha tanta luz espalhada

na concha astral dos espaços!

E os olhos della tão baços!

E a fronte tão macerada!

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