Segundo Ato: Cena III Talitha · Capítulo 12 de 27
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Segundo Ato: Cena III

SEGUNDO ACTO

SCENA III

Padre e Ruy

Padre

Então, Ruy, pensou no resultado

que vae ter para nós a sua operação?

Ruy

Tenho pensado muito e só me felicito:

parece que se abriu um vasto rosicler,

enchendo de perfume o lar da minha vida;

descanta-me no peito o coração alado

tão viva, tão alegre e limpida canção,

que me parece ouvir palpitar o infinito

e a dôce voz de Deus abençoar-me o nome...

Padre

Pois bem, Ruy, entretanto a duvida consome

os meus dias; medito e tenho muito medo

de uma lucta que vae ser travada, em segredo,

no seio de Talitha...

Ruy

E então que lucta é essa?

Padre

O encontro, á luz do Sol, do amor e da promessa.

Conheço-a muito bem. Alma branca de pérola,

possue alguma coisa assim divina e cérula.

Foi creada por mim, na dôce região

em que repoisa a crença á sombra da oração...

e sei que a pobresinha, um dia, prometteu

professar e vestir o burel carmelita,

se a Virgem lhe voltasse o seu perdido olhar.

A Mãe de Deus ouviu a prece, mas agora

que um novo dia aponta a curva azul do céo,

mostrando-lhe o porvir numa formosa aurora

de amor e de ventura, a angelica Talitha

verá, na sua frente, erguer-se e fluctuar,

constante, pertinaz, energica e severa,

a promessa que fez, a consciencia austera

a exigir-lhe que a cumpra e o seu primeiro amor

a sorrir e a tental-a...

Ruy

Esse mesmo receio

tambem me preoccupa. Eu já presinto a dôr

que vae, como um espinho, amargurar-lhe o seio.

Assim a Providencia ás vezes desconhece

o proprio mal que faz e como que se esquece

da victima innocente e nessa lucta enorme

a desgraça feroz que não cança, nem dorme,

de certo vencerá, se nós que a divisamos

ao longe, no horisonte, a deixarmos crescer

tão alto, que domine aquelle pobre ser.

E preciso pensar e vêr bem se afastamos

da sua intelligencia a ideia do convento,

como se afasta a flôr dos impetos do vento.

Padre

E quem terá prestigio e força de arrancar

áquella consciencia, a dôce, a delicada,

a candida expressão da promessa sagrada

que ella espontaneamente ergueu junto ao altar?

Ruy

Nao desejo arrancar essa illusão formosa

á crença da sua alma... A raiz dessa rosa

não é muito profunda, apenas esbraceja

á flôr do coração, por isso não viceja

ainda como o seio altivo e perfumado

de uma corola aberta!... Um botão delicado

agora principia a despertar á luz...

Dessa casta missão, que moverá Jesus,

sómente, Senhor Cura, a sua phrase austera

se póde encarregar; o prestigio da idade,

a alvura de luar das cans alabastrinas,

a palavra de amor, piedosa e severa,

do seu conselho bom, tão cheio de amizade,

a sua consciencia e as affeições divinas

que avizinham do céo o seu viver de santo,

a fé que o seu olhar inspira a quem o fita,

hão de estancar, por certo, a dôr, fonte do pranto,

nos olhos virginaes da mimosa Talitha.

Padre

Sacerdote de Deus que o serve, ha tantos annos,

nas duras provações, na dôr, nos desenganos,

sem nunca haver mentido uma só vez na vida,

tenho medo que a voz de commoção me trema,

que me fuja o valor á hora assim blasphema

de entregar á mentira esta fiel guarida...

Ruy

Caridosa mentira, ó culpa dôce e casta

que salva uma esperança e mais um anjo afasta

á amargura cruel de um grande sacrificio!

Responda, Senhor Cura, em sua consciencia,

acredita que Deus condemne uma existencia

purissima de flôr, a tamanho supplicio?

Que peccados terá Talitha a redimir

que precise descer em vida á sepultura,

agora que brilhou a estrella do porvir

aos seus olhos, sem luz, na densa noite escura?

Não mente, Senhor Cura, o labio quando salva:

é aspera a mentira e tem a côr terrena,

ao passo que a sua alma é branca, de açucena,

e a sua phrase é sã, é redemptora, é alva!

Em vez de sacerdote, a confessar a freira,

seja Pae que dirige o coração da filha!

Aquelle olhar sem luz, durante a vida inteira,

desviou-lhe a razão para diversa trilha.

Estenda-lhe o seu braço, ampare-a no caminho,

traga de novo a rola ao palpitar do ninho!

Padre

E pensa, Ruy, que um Pae, se tiver consciencia,

deva pedir que a filha afaste da lembrança

a promessa que fez, com tanta segurança,

quando implorava a Deus piedade e clemencia?...

Ruy

Meu amigo, nao vê que esse immenso fervor

nascia do tropel da magua e do pavor?

Que, assim feita, a promessa, além de não ser santa,

as almas enlanguece e os corações quebranta?

Não vê que faltou luz áquella intelligencia?

Que aquella alma vergou á estolida exigencia

do desespero intenso e bárbaro, que a ancia

de revêr inda o sol da sua alegre infancia

envolver-lhe a cabeça em nimbos de ventura

a levaram, talvez, nessa hora de tortura,

á extrema tentação de dar a mocidade

por um dia feliz de viva claridade?

Levita, cuja mão diariamente eleva

ao throno do Senhor a hostia consagrada,

levanta esse sacrario á curva constellada,

a flôr que pede sol não viverá na treva!...

Padre, depois de uma pausa

Pois seja assim, meu Deus! e tu que o vês perdôa,

porque ha no meu peccado uma intenção tão boa,

tão pura e tão leal, que eu sinto adormecido

o velho coração por nunca haver mentido...

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