Terceiro Ato: Cena VIII Talitha · Capítulo 25 de 27
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Terceiro Ato: Cena VIII

TERCEIRO ACTO

SCENA VIII

Os mesmos, Joaquina e Ruy

Marqueza

Dize-me, filha, e tu sonhavas muitas vezes

com tua mãe?

Talitha

Sonhava!

Marqueza

E o sonho que dizia?

Talitha

Tanta coisa, mamã! Quando os nossos revezes

nos vinham perturbar, desde o romper do dia

até o anoitecer, pensava em ti, mamã,

e, sem dormir, sonhava até pela manhã.

Marqueza

Mas revezes de quem?

Talitha

Desta immensa tristeza

que vinha atormentar a vida de pobreza

baixo, quasi em segredo

do nosso Padre Cura...

Marqueza

E o Padre Cura é pobre?

Talitha

Muito, muito, mamã, mas tão bom e tão nobre

que nunca pude ouvir um lamento, sequer!

Marqueza

D'hoje em diante, porém, não faltará mais nada:

será de todos nós aquillo que eu tiver.

Tu és rica, Talitha, e d'alma bem formada,

por certo acudirás de todo o coração

por que não faltem mais nem ventura, nem pão

a quem te fez gentil, tão boa e generosa...

Talitha

Muito rica, mamã?

Marqueza

Que te serve saber?

Talitha

É que o velho sargento acaba de morrer

deixando na miseria immensa e dolorosa

os netinhos com fome. O velho era céguinho!

muita vez o encontrei mendigando, sósinho,

para matar a fome e, se eu hoje sou rica,

só este pensamento a dôr me purifica

e, se tu dás licença, o Ruy vae procural-os.

Marqueza

Pois sim, minha Talitha, irás tambem buscal-os;

que sejam teus irmãos já que assim o quizeste.

Mas dize, o Ruy quem é? Inda não m'o disseste...

Durante este dialogo as duas não poderão vêr as demais pessoas,

enlevadas como estão. Ha sorrisos em todos.

Talitha, perturbada

O Ruy?...

Baixa os olhos, sorri e cala-se

Marqueza

Sim, sim o Ruy...

Talitha, enleada

O Ruy é um doutor...

Quando eu estive céga... Eu era tão céguinha!...

Elle tratou de mim e fez a operação...

Marqueza

Só?!

Talitha

O resto não conto...

Marqueza

E porquê?

Talitha

Adivinha!

Marqueza

E não furtou tambem o teu primeiro amor?

Talitha

Furtou!... E que mal fez? Deu luz ao meu olhar,

eu dei-lhe o coração...

Marqueza

Mas depois de casar

deixarás tu sósinho o velho Padre Cura?

Talitha

Nem eu quero pensar em tamanha loucura.

Viveremos aqui juntinhos da Joaquina

que sempre me guiou, do tempo de menina.

Marqueza

Pois vae dizer ao Ruy que tua mãe quer vêl-o.

Talitha, soltando-se do pescoço da mãe, sorrindo alegremente.

Tu vais ver que rapaz... intelligente e bello...

Ruy! Ruy!

Voltando-se encontra Ruy, Joaquina e Padre. Fica embaraçada e cobre o

rosto com as mãos.

Meu Deus, que susto!

Padre

Ouvimos tudo, tudo!...

Marqueza, voltando-se

Desculpe, Senhor Cura... em favor della acudo...

A culpada fui eu...

Ruy, surprehendido

Ah! Senhora Marqueza!

Marqueza

Sim. Ruy, eu mesma, aqui. Nem me causa extranheza

o vêl-o nesta casa. Eu fui quem o mandou

em busca deste céo tão puro que o salvou.

Previ toda esta scena e quando aconselhei

que viesse até cá, senti que palpitava

o meu seio de mãe. Já vê que adivinhei

e o meu presentimento o bem me segredava...

Talitha, admirada

Mamã, tu és Marqueza?

Silencio prolongado

Marqueza

A Marqueza morreu...

Agora sou a mãe da mimosa Talitha

que vem pedir perdão a quem assim soffreu

dessa magua sem par, dessa dôr infinita,

que tanto fez chorar a tua mocidade,

as lagrimas febris e negras da saudade.

Agora sou a Mãe que um dia te engeitou

e que uma vida inteira a dôr acabrunhou,

que vem pedir perdão ao velho Padre-Cura

do quanto padeceu para te dar ventura,

que vem agradecer á santa da Joaquina,

os beijos que te deu quando eras tamanina,

que vem pedir a Ruy o supremo favor

de dar á sua filha o seu primeiro amor...

Ruy

Marqueza, o meu amor recebe a grande esmola

do casto coração da candida Talitha,

como um beijo de luz que conforta e consola

a dôr da minha vida. O peito me palpita

na suprema alegria e eu penso na alvorada

desta noite feliz, de lucido natal,

bemdizendo, Senhora, a dôce madrugada

que vae surgir em breve.

Talitha

Ao despontar o dia

vamos todos buscar os netos do sargento...

Tu concordas, mamã?

Ao Cura

Acha que faço mal?

Padre

Para ti, minha filha, a madrugada é fria.

O Ruy irá commigo e apenas num momento

as creanças virão: descança, pequenita.

Marqueza, a Joaquina

Repare bem, Joaquina: este casal catita

como envelhece a gente!

Joaquina

E Deus Nosso Senhor

lhe dê por toda a vida o seu sagrado amor!

Padre

Já toca á missa d'Alva...

Ruy, a Talitha

Estrella d'Alva, pura,

immaculada estrella, o céo desta ventura

estende sobre nós a cupula sagrada

e eu vejo nesse olhar a luz ambicionada

que faz de ti, creança, a dôce Conceição

do meu culto feliz, purissimo e christão.

A Joaquina

Um dia, bem me lembro, a sua mão amiga

mais trémula e subtil do que uma branca estriga

ás aragens d'outomno, abrindo-me o sacrario

da sua alma de santa, entregou-me um rosario.

Recorda-se? Pois bem! nas horas de afflicção

esse rosario amigo encheu-me o coração

duma frescura immensa e assim se dissipou

essa nuvem cruel que sobre nós passou...

Quero beijar a mão da santa que me deu

nesse rosario astral uma visão do céo:

a flôr que se banhou na sua fé divina,

bondosa creatura, alvissima Joaquina!

Beija-lhe a mão. Joaquina, em silencio, enxuga os olhos com o avental.

Padre

O dia vae surgir, o sino da capella

convida-nos á missa. Ali pela janella

já vem a madrugada entrando alegremente

num baptismo de luz que brota do nascente.

Talitha

Meu Deus, como é feliz a minha mocidade!

Rasgou a mão de Ruy a dôce claridade

ao meu perdido olhar, depois a mãe de Deus

envia-me o perdão do fundo azul dos céos:

e, dando luz á céga e vida á condemnada,

entrega-me, a sorrir, no fim da madrugada

do Natal de Jesus, a minha Mãe distante.

Meu Deus, como é feliz neste sereno instante

a Ruy

a nossa mocidade ao pé desta velhice

tão boa e tão leal! Antes que alguem cobice

esta aurora de amor que ao céo nos avizinha

eu vou rezar por nós uma Salvé-Rainha:

Ouve-se o repicar dos sinos. Talitha approxima-se do oratorio;

ajoelham-se todos, excepto o Padre que fica de pé.

Talitha

Salvé, Rainha Mãe, céu de misericordia,

vida e doçura, amor, luz da nossa esperança,

lançae por sobre nós o manto da concordia.

Salvé, Rainha, Mãe serena de bonança!

A vós, os filhos d'Eva, em lagrimas, bradamos,

por vós que estaes no céo, gemendo, suspiramos,

neste valle de magua e dôr. Eia, Senhora!

Sêde a divina Mãe, a dôce protectora

da nossa vida inteira e para nós volvei

esse olhar piedoso e tão cheio de luz!

Sobre o nosso destino a vossa mão pendei,

rasgae a nossa dôr, mostrae-nos a Jesus,

fructo do vosso ventre, ó sagrada e clemente,

ó Virgem dôce e casta, ó candida innocente!

ó Santa Mãe de Deus, ouvi a nossa voz

tão simples e fiel, rogue no céu por nós,

por que sejamos bons e dignos da promessa

do moreno Jesus. Que a nossa vida aqueça

o materno calor da estrella de Bethlem,

á luz do vosso olhar, por todo o sempre.

Padre

Amen!

CAE O PANNO

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