Terceiro Ato: Cena III Talitha · Capítulo 20 de 27
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Terceiro Ato: Cena III

TERCEIRO ACTO

SCENA III

Os mesmos e Talitha

Talitha, ao entrar, vendo Ruy, estaca: fica silenciosa e em seguida:

Eu bem disse ao padrinho...

Ruy, tomando-lhe a mão

Que foi que tu disseste, alma da côr do linho?

Talitha

Que ninguem póde crêr na jura...

Ruy, interrompendo com meiguice

Das mulheres?...

Talitha, ralhando com carinho e retirando a mão

Dos homens... atrevido, ainda tens coragem

de rir?...

Ruy, alegremente

Ou de chorar, se tu assim preferes...

Talitha

Mas a tua promessa? Esqueceste a homenagem

da noite de Natal?

Ruy

Pois pergunta á Joaquina...

Joaquina, intervindo

A mim? não sei de nada...

Ruy, a Talitha

Ella está gracejando;

sabe tudo tão bem como eu, mas imagina

que tu és ciumenta e então, de vez em quando,

a recordar o tempo em que era rapariga,

faz pirraças á gente, armando alguma intriga...

Talitha

A verdade, porém, é que faltaste e eu não.

Ruy

Pois bem, faltei; mas tive uma forte razão:

o velho reformado estava agonisante

e mandou-me chamar; eu fui no mesmo instante

assistir-lhe á agonia. Expirou-me nos braços:

ia o sol a fugir na curva dos espaços,

á hora em que soluça o sino das trindades

o Angelus sagrado envolto nas saudades

que a terra balbucia, agradecendo ao céo

a luz que lhe mandou na flacidez do véo

crepuscular e dôce, oiro tecido em gaze,

sem brilho de offuscar e sem calor que abraze.

Talitha

E nunca mais o vi, nem o verei jamais!...

Foi cégo como eu fui. Nas manhãs estivaes

muita vez o encontrei, cançado dos trabalhos,

pedindo esmola ahi por todos os atalhos.

Elle ia pela mão da neta, uma creança!

Era um velho senil á sombra da esperança!

Eu ía recostada ao braço do padrinho

e, ao sentir-me, dizia: «ampare-me esse anginho

--amigo Padre-Cura, eu quero que elle veja

--como um velho soldado, a mendigar, rasteja

--neste mundo de Christo»--. E ficava a pensar

naquelle desgraçado. O meu perdido olhar

novamente voltou, quando o delle se apaga

na escuridão mortal que tudo cobre e alaga...

Se eu pudesse amparar as pobres creancinhas!

Ruy

Não faltará calor ás meigas andorinhas.

Joaquina

E quem lhes ha de dar?

Ruy

Quem?

Talitha

Deus, Jesus e nós!

Ruy, com ingenuidade

Nós seremos os paes:

a Joaquina

tu e o Cura, os avós...

Joaquina

Valha-te Deus, tontinha!

Ruy, a Talitha

Encantadora e casta;

ó Virgem Conceição, flôr, ingenua madrasta,

bemdito seja o dia em que te amei, formosa,

sonho feito mulher, sorriso feito em rosa...

Talitha, admirada

Que tem isso de mal? Tambem elle era cégo,

não podia cuidar da neta que o guiava

e agora, felizmente, eu tenho no aconchego

da minha mocidade a luz que me faltava

e posso olhar por ella. A minha desventura

não teve neste asylo o amor do Padre-Cura?

Depois não tive ainda?!...

Olha para Ruy, baixa os olhos e cala-se

Joaquina, beijando-a

Ah! minha tagarella!...

Ruy

Depois tiveste ainda o teu formoso olhar

que andava lá no céo illuminando a estrella

d'alva. E agora tambem tens muito que narrar

do que viste na igreja...

Talitha

Ah! na missa do gallo?

Eu vinha exactamente aqui para contal-o...

O que eu vi, Ruy, na igreja, emquanto o Padre-Cura

dizia aquella missa!... Inda agora fulgura,

sobre a minha retina, a vivida impressão

do seu olhar tão dôce e manso, de perdão...

Inda agora o sorriso, angelico e furtivo,

do seu labio de rosa, orvalhado e festivo,

innunda de frescor a minha vida inteira,

como o rócio da noite á flôr da amendoeira.

Ruy

Quem foi que te sorriu com tamanha affeição,

que fez vibrar tu'alma em tanta commoção?

Talitha

Um milagre de Deus! Se tens fé, acredita

no que te vou dizer.

Ruy

Dize, minha Talitha!

Joaquina, approximando-se

Conta, conta o que foi.

Talitha

Pois nesse caso, ouvi:

Quando eu entrei no templo um borborinho enorme

encheu toda a capella; então foi que eu senti

como é triste ser cégo e ter olhar que dorme

tantos annos de vida, em funda lethargia,

sem a benção gentil de vêr a luz do dia!

Toda a gente fallava, olhando para mim,

e eu muito satisfeita a caminhar assim...

Imita o andar magestoso

Ruy

Como tu és vaidosa!

Joaquina, sorrindo e pondo as mãos

E como ella é catita...

Talitha, a Ruy, ingenua

Mas se eu fôsse a teu lado, inda era mais bonita!...

Deram-me tanto abraço e beijaram-me tanto!

A capellinha estava alegre, era um encanto.

Á entrada muita flôr, o altar com muita luz,

e num bercinho branco o menino Jesus,

tão lindo, tão mimoso e tão engraçadinho,

que parecia mesmo um rouxinol no ninho.

Uma velha fitou-me e disse: que princeza!

Um velho lavrador olhou-me com surpreza

e bem alto fallou: «Que Deus Nosso Senhor

te dê um bom marido»...

Ruy

E que disseste, amor?

Talitha

Nem uma palavrinha! Eu ía bem calada,

entre muito contente e muito envergonhada.

Joaquina

E depois?

Talitha

E depois... fui então ajoelhar,

sósinha, nos degráos que sóbem ao altar,

á espera que viesse, a meia noite, a missa.

Rezando ali, a sós, com fervor de noviça,

lembrei-me da promessa e as lagrimas rolaram,

subindo-me do seio aos olhos que as choraram.

Eu sentia uma dôr immensa, por fugir

ao voto que fizera e, em vão, quiz resistir,

á minh'alma affluia um extranho remorso

e embora eu despendesse o mais sincero esforço,

para conter o pranto, o coração vergava

e, numa agitação convulsa, palpitava

acabrunhado e triste...

Ouve-se o repicar dos sinos

Joaquina, interrompendo

Ai! que acabou a festa

e a ceia por fazer, mas que cabeça é esta!...

Sae e entra constantemente, nos arranjos da casa

Ruy

Mas não te lembras já que, em nome do Senhor,

o Cura abençôou o nosso casto amor?

Não te lembras tambem da lucida visão

que te trouxe do céo a estrella do perdão?

Talitha

De tudo me lembrei; não sei que força extranha

pesava sobre mim, como immensa montanha,

e não deixava erguer o meu olhar medroso

para encarar de frente o vulto magestoso

da Virgem Mãe de Deus! Mas quando o Cura entrou

parece que a minha alma

torna o sino a repicar

alegre despertou...

Senti uma esperança illuminar-me o seio

e dissipar-se então esse cruel receio!

Rezei muito, rezei com tanta commoção,

pedi com tanto ardor, com tanta devoção,

que a minh'alma subiu, tão leve e tão submissa,

aos pés da Mãe de Deus, durante aquella missa,

como se fôsse presa a hostia consagrada

que o Cura levantava á cruz abençoada...

Com ella o meu olhar de supplica subiu.

E fitando, sem medo, a face alabastrina

da candida judia, eu vi que Ella sorriu

com tão dôce expressão de placidez divina

que me banhou de luz amortecida e calma

a minha santa crença e fez vibrar minh'alma!

Senti que era o perdão que vinha, n'um sorriso,

abrir á minha vida um novo paraiso...

Ergui-me docemente, approximei-me d'Ella

e, beijando-lhe a mão que sobre o mundo vela,

ouvi, como um soluço, a sua voz tão pura,

dizendo-me em segredo, em intima ternura:

Que lindos olhos, Talitha,

os olhos que o Ruy te deu:

tem uma luz infinita,

parecem feitos no céo...

Joaquina, que tem parado o trabalho, attrahida pela narrarão de

Talitha, enlevada, abraça-a, lacrimosa, beija-a...

Ruy, emquanto Joaquina abraça Talitha

Mas tu ouviste bem, tens a certeza plena?

Talitha, desprendendo-se de Joaquina

Ouvi perfeitamente; a voz era serena,

tão serena e subtil que a mim se affigurava

ser o proprio silencio assim que me fallava.

Ouve-se o repicar dos sinos e começa-se a ouvir as primeiras vozes dos

córos distantes.

Estremeci de alegre e acreditei então

que surgira, afinal, o dia do perdão;

Approximam-se as vozes

desci do altar, corri, deixei a missa e vim,

como se o coração cantasse dentro de mim,

para dizer-te, Ruy, que a minha vida é tua.

Corre para elle, mas detem-se e, olhando para Joaquina, baixa os olhos

timida, brincando com o avental: pausa e silencio.

Joaquina, percebendo

Filhos, não serei eu quem assim vos destrua

as santas illusões...

ouve-se o côro muito perto

Se Deus as abençôa!...

Sae

Talitha, vendo-a sahir

Ruy!

Corre para elle

Ruy, recebendo-a nos braços

Ah! minha Talitha!

Talitha, abraçada, beija-o

Oh! meu amor!

Ruy, beijando-a

Perdôa!

As vózes elevam-se distinctamente com a musica das violas e gaitas de

fóles; pausa, emquanto os dois, enleiados, nada ouvem.

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