Segundo Ato: Cena VI Talitha · Capítulo 15 de 27
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Segundo Ato: Cena VI

SEGUNDO ACTO

SCENA VI

Talitha e Ruy

Depois de uma pausa prolongada

Talitha, sempre pudica

Porque me encara assim? Offendi-o? Perdôe.

Ruy, caminhando para ella

Fitei-a porque sinto o brilho desse olhar,

como um rio de luz suavissima, innundar

a minha mocidade inhospita e sombria,

num banho redemptor de dôce calmaria.

E parece-me vêr a sombra avelludada

da sua fronte branca, e pura, e macerada,

fugir espavorida á luz desse clarão...

Talitha

Que eu devo tão sómente á sua compaixão...

Ruy

Esqueça que fui eu...

Talitha, interrompendo

Não sei como se esquece...

Ruy

Então recordará, por toda a sua vida,

o nosso amor feliz?

Talitha

A sua alma duvida?

Ruy

Eu não duvido, eu peço, e vae na minha prece

quanto minh'alma tem de puro sentimento...

Talitha, curiosa

Na sua prece?

Ruy

Sim, tão cheia de fervor

como a casta oração que a sua crença augusta

soluça de manhã, mais triste que um lamento,

que vae, azul em fóra, ao throno do Senhor,

no murmurio subtil dessa bocca venusta.

Talitha

Eu nunca olvidarei a dulcida ventura

daquella noite densa, atormentada, escura,

em cujo manto negro a sua mão bondosa

rasgou a dôce aurora alegre e luminosa...

O caridoso amor, que os seus labios deixaram

gravado nesta mão que tanta vez beijaram,

foi um sonho feliz numa noite polar,

sonho de primavera em noite sem luar:

nunca mais sahirá d'entre as minhas lembranças.

Como um beijo de mãe na face das creanças,

a primeira affeição nunca se desvanece,

é como a flôr da lenda: a todo o instante cresce!

Se eu a esquecesse, Ruy, como seria ingrata!

Ruy

Talitha, minha vida, a densa cataracta

não poude escurecer a lucidez suprema

da sua alma christã, que vale um diadema

de rainha e de santa, a cujos pés se inclina

a minha alma que vae sobre a esteira argentina

que o seu vestido traça ao longo da jornada,

como no azul do mar as velas da jangada...

Talitha

E se a vela, batida ao vento da desdita,

levar á sombra eterna essa infeliz Talitha

que a sua mão salvou da mesma sombra eterna?

Ruy

Irei onde ella vá. Se a aragem fôr galerna

e o nosso amor levar a gondola encantada,

sobre o dorso da vaga em branca espumarada,

eu seguirei, sonhando, á prôa, na epopêa

que o seu divino olhar de candida sereia

ha de inspirar, sorrindo, a quem o illuminou.

Se o vento arremessar a vela que enfunou

á rude penedia e sossobrar a barca,

hei de salvar, então, a pequenina arca,

onde vive encerrada a pomba da alliança,

que faz do nosso amor uma alegre esperança!

Talitha

Apenas esperança, e nada mais! A vida

é um sonho que passa e foge; perseguida,

occulta-se a esperança á sombra de um asylo,

tão occulto tambem que, para descobril-o,

desfaz-se muita vez ou rasga-se em pedaços

a nossa fé mais pura e a crença, em estilhaços,

desapparece e vae, por esse mundo fóra,

como nuvens no céo ao despontar da aurora...

Ruy

Porque razão, Talitha, os nossos pobres sonhos

não poderão florir, alegres e risonhos,

á plena luz do Sol?

Talitha

Sonhos são illusões

que a madrugada esbate em limpidos clarões,

e nada mais... Talvez as suas, sim!... As minhas

irão fazer o ninho á sombra... As andorinhas

tem que mudar de clima ao começar o inverno,

levando para longe o seu amor materno...

A minha acostumou-se á sombra da cegueira:

se na sombra passou quasi uma vida inteira!

Na sombra adormeceu, na sombra soluçou

e na sombra sorriu... A sua mão rasgou

este sulco de luz no meu perdido olhar,

e a triste, acostumada á sombra tumular,

fugiu espavorida ao lucido lampejo

e tão distante foi, que nem sequer a vejo...

Ruy

É o receio infantil que vem da escuridão!

A esperança, Talitha, ainda um só instante

não sahiu do calor que faz do coração

o ninho aconchegado, o berço palpitante

e o sacrario fiel do nosso casto amor!

Na sombra nasce, e cresce, e vive tanta flôr

sem perder o perfume!... E a esperança, Talitha,

é o perfume do amor, a essencia que dormita

serena e só desperta ao carinhoso afago

dum beijo a murmurar em sonho dôce e vago...

Talitha

Mas antes que o murmurio a despertasse, a luz

do sol lhe recordou que aos olhos de Jesus

e aos pés de sua Mãe ella havia ajoelhado

no fervor da oração, em dia torturado,

prendendo a vida inteira ao brilho de um olhar.

Entre nós dois agora eleva-se um altar,

e eu vejo-me prostrada e envolta no burel,

sorrindo para o céo, por ter sido fiel

á promessa que fiz...

Ruy

E o nosso amor, Talitha,

não foi uma promessa?

Talitha

Ah! foi, mas a desdita

lançou-lhe a maldição no dia em que nasceu

e o nosso puro amor agora feneceu.

Ruy

E a tua mão divina, angelico florão

de algum ciborio astral, a tua mão de rosa

e jaspe é que me vem ferir esta affeição

que banhava em frescor a vida bonançosa

deste meu sonho azul!... Mas quando, em nostalgia,

á sombra do mosteiro, a tua phantasia

volver para o passado esse formoso olhar

tão cheio de candura e te fizer sonhar;

quando a espiral do incenso á curva do docel

subir da tua mão occulta no burel,

como a dôce expressão duma saudade immensa;

quando á noite o luar, vencendo a treva densa,

entrar na tua cella e fôr beijar-te a face,

como se por ventura envolta nelle entrasse

a minh'alma saudosa a visitar a tua:

quando esse olhar divino, em cuja luz fluctua

a pureza vestal da tua castidade,

sorrindo, remontar á dôce claridade

das estrellas no céo, minha gentil Talitha,

recorda o nosso amor, formosa cenobita,

e pensa na tortura intermina e profunda

desta vaga de fel que a minha vida innunda,

medita nesta noite atroz, que me apavora,

e tu me dás em paga a fulgurante aurora

que o meu amor te deu, sorrindo de ventura...

Bemdita seja a treva, a noite de amargura,

bemdita seja a dôr, para sempre bemdita,

que vem da tua mão, angelica Talitha!

Talitha, em lagrimas, soluça. Ruy vae para sahir e encontra o Padre que

entra. Pausa, durante a qual o Padre, mudo de dôr, fita os olhos, ora em

Talitha, ora em Ruy.

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