Segundo Ato: Cena V Talitha · Capítulo 14 de 27
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Segundo Ato: Cena V

SEGUNDO ACTO

SCENA V

O mesmos, Joaquina e Talitha

Talitha entra de olhos vendados, pelo braço de Joaquina. Ruy e Padre

vão ao seu encontro e tomam-lhe as mãos para conduzil-a a uma cadeira.

Joaquina, deixando-a, vae cerrar as janellas e portas. Senta-se Talitha

e conversam um pouco.

Padre

Como te sentes, filha?

Talitha

Afflicta, muito afflicta

por ver a luz do dia...

Ruy, tomando-lhe a mão

A mesma curiosa

de sempre!...

Talitha

Se parece á sua intelligencia

que não tenho razão!... Ha tantos annos céga!...

Joaquina

Deixa-o fallar, Talitha, isto é mais tagarella

do que as creanças, vês?

Ruy

Pois não creia, Talitha!...

Padre, tomando Ruy á parte

Prepare o coração e veja que anciosa

aquella vida está... tenha a maior prudencia!

Ruy

É muito natural; só emquanto não chega

o instante de tirar a venda que lhe vela

o dulcissimo olhar...

A Talitha

Diga, Talitha, ainda

sente alguma dôr?

Talitha

Não! apenas a impressão

do lenço que me causa a maior afflicção,

a vontade feliz, viva, crescente, infinda

de vêr de novo a luz...

Ruy

E não ha quinze dias

que lhe descubro a vista?

Talitha

Ha, sim, mas lá no escuro,

onde eu não vejo nada...

Padre

Assim é que convem...

Depois de tanto tempo, então, já pretendias

vêr livremente o sol? Seria prematuro...

Joaquina

É muito perigoso!...

Ruy

E sentia-se bem?

Chegou a distinguir, alguma vez, o aspecto

ou a forma geral de qualquer um objecto?

Talitha

Muitas vezes, pois não; primeiro vagamente,

depois com nitidez.

Padre, alegre

Mas então a doente

Recuperou a vista!?

Joaquina

Abençoada a hora

em que o menino entrou nesta pobre choupana!...

Ruy

Agradeçam a Deus!

Talitha

Doutor, porque demora

esta venda cruel que o meu olhar empana?

Ruy

Pois diga-me primeiro o que pensa de mim.

Talitha

Que é muito feio e máo...

Joaquina

Bem feito!

Ruy

E da Joaquina?...

Talitha

Penso della que é santa e que tem de setim

côr da neve o cabello, a pelle muito fina,

como eu creio que são as santas da capella.

Ruy

E o nosso Padre-cura?

Talitha

Um velhinho bondoso,

que vive para o bem e sobre os pobres vela!

Supponho que elle tenha a cabeça bem branca,

o olhar muito suave e d'expressão tão franca,

que appareça na face enrugada e senil

a dôce candidez da sua alma infantil...

E, cogitando assim, parece-me que vejo,

dos altos de uma torre, a uma enorme distancia,

como um jardim florido, a minha dôce infancia

vicejando a sorrir, a sombra do seu braço,

e o seu olhar de Pae enchendo todo o espaço

de luz, de muita luz, tão dôce e tão leal,

como o luar banhando as ondas de um trigal

numa noite estreitada, e o sangue me palpita

no seio, e o coração ardentemente agita

na immensa anciedade afflicta e pressurosa

de poder innundar a sua mão rugosa

de lagrimas febris e de beijos sem fim.

Ruy

Tantas coisas ao Cura e nada para mim!...

Talitha

Exactamente, Ruy; a saudade de vêl-o

augmenta a cada instante o meu triste flagello,

porque nos braços delle um dia adormeci

e não despertei mais... e ao Ruy...

baixando a voz

eu nunca vi...

Ruy, com caricia

Pois vae tornar a vêr a boa da Joaquina

que a trouxe ao collo, a rir, quando era pequenina.

Aproxima-se de Talitha para tirar-lhe a venda

Vae vêr o Padre-cura e matar os desejos

de lhe cobrir a face e as mãos de muitos beijos...

E vae me conhecer...

Tira-lhe a venda

Silencio. Commoção geral. Talitha, acostumada á treva, não supporta a

luz; tapa os olhos com as mãos; depois habitua a vista, levanta-se,

olha, procura anciosamente. Antes de Talitha distinguir cada uma das

pessoas, encanta-se com a luz e com os objectos.

Talitha, á luz, correndo á janella

Céos! Vejo novamente

a luz que me faltou durante a meninice!

Ó Sol da minha infancia, a sorrir de contente

torno a vêr-te de novo. Azul do céo, meiguice

que ha muito não beijava o meu perdido olhar,

como deves ser lindo ao dôce despontar

da madrugada clara!

Ao oratorio

Oratorio velhinho,

junto ao qual, em pequena, eu tanto vez rezei,

como sinto vontade, agora que revejo

o teu branco Jesus, do amor e do carinho

com que pela manhã e á noite eu te beijei,

e hoje, meu velho amigo, a estremecer te beijo!

Passa as mãos nos olhos, como para certificar-se que vê bem

Mas parece-me um sonho!

Pausa. De novo esfrega os olhos

Eu já não sou a céga...

Pausa

Eu vejo tudo...

Estaca; olha as paredes

Sim, sim tudo...

Olha para o tecto, baixa os olhos ao chão, volta-se para os lados,

palpa as cadeiras, palpa a meza, corre á commoda

Eu não me engano.

Eu vejo a minha mão!

Olha para as mãos

Mais branca do que o panno

pega o avental e examina

do meu lindo avental!

Põe a mão sobre o peito, como que desmaiada

Ah! coração, socega...

Neste momento Joaquina, receiando que Talitha caia, corre para

amparal-a, dizendo

Joaquina

Credo! Jesus, Senhor!

Talitha, como que acordando aos gritos de Joaquina, ao vêl-a tem uma

commoção e exclama

Joaquina! ó boa e santa

velhinha, dôce mãe que tanta dôr e tanta

lagrima derramaste, aos pés do meu bercinho!...

Vendo o Cura, lança-se a elle, soluçando; abraça-o, beija-o, vê-o,

chora, ri, torna a abraçal-o, doida de alegria

Mas como eu sou feliz, meu Pae, meu Avôsinho!

Deixa afinal o Cura e corre para Ruy

E Ruy que me salvou...

Vae para abraçal-o, estaca: o pudor impede-a; baixa os olhos, em silencio

Ah!... Ruy... eu nunca o vi!...

Padre, soluçando e enxugando as lagrimas, aproxima-se della, toma-lhe a

mão e leva-a junto de Ruy

Beija-o, Talitha; beija, elle é digno de ti,

emquanto eu vou render a Jesus Christo, filha,

graças por essa luz que nos teus olhos brilha.

Sae, enxugando os olhos

Joaquina, a Ruy

Á Virgem prometti uma lampada accêsa

durante uma semana, e por sua intenção,

se Ella daqui levasse as dôres e a tristeza,

fazendo este milagre. Hei de accender o azeite

e rezar a seus pés, com toda a devoção,

pedindo á Virgem Mãe que este meu voto acceite.

Louvado seja Deus! O Céo vos abençôe!

Sae

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