Segundo Ato: Cena VIII Talitha · Capítulo 17 de 27
Obra Menu

Segundo Ato: Cena VIII

SEGUNDO ACTO

SCENA VIII

Padre e Talitha

Padre, abraçando Talitha

Não te apoquentes, filha! A dôr que te devora

eu já previra ha muito. A noite tambem chora

no calice da flôr, e o céo que tem a luz

das estrellas sem fim, chorou, quando Jesus

abriu por sobre a terra a sombra dos seus braços,

abençoando a dôr que vaga nos espaços...

Mas os teus olhos, ha pouco illuminados,

não devem, por emquanto, andar annuviados

que se pódem cegar de novo, sem remedio...

Talitha, rapidamente, entre alegre e chorosa

Então se eu lhe pedisse...

Padre

O quer que seja, pede-o...

Pede, Talitha, pede, e poupa o teu olhar...

Talitha, lacrimosa

Pois bem, eu pedirei, que deixe-me chorar!

Padre

Não te apavora a noite immensa e tenebrosa?!

Talitha

Não me amedronta mais! A lua carinhosa

vive na escuridão. Fui tão feliz na treva

que chego a ter saudade e o coração me leva

a pedir que me deixe ind'outra vez banhar

na sombra eterna e mésta a luz do meu olhar...

Padre

Que blasphemia, Talitha!

Talitha

O meu labio não erra,

e o que elle disse, Padre, o meu fervor encerra.

Padre

Medita, minha filha, e Deus Nosso Senhor

envolva a tua crença em seu divino amor!

Talitha

Pois ouça-me um instante a confissão singela

da incomparavel dôr que a minha vida gela:

Padre senta-se e Talitha ajoelha-se ao lado

Tinha soffrido muito; o immenso desespero

de um dia de tortura, afflictivo e severo,

me fez allucinar e, erguendo para os céos

as mãos de quem supplica, eu implorei a Deus

clemencia a tanta dôr. A noite de flagicio,

que dava á minha vida o aspecto de um supplicio,

parecia sem fim, sem luz e sem aurora.

E, como a flôr que á noite exhala, espaço a fóra,

o aroma delicado e puro do seu seio,

vencendo o meu temor e o natural anceio,

eu dei, como penhor da luz que supplicava,

a minha mocidade e o porvir que eu sonhava;

e prometti á santa e casta Samarita

votar-me para sempre ao burel carmelita...

Mas presenti, depois, que dentro de minh'alma

despontava, sorrindo, uma esperança calma

que innundava de luz o coração da céga,

e commigo pensei:--Deus, de certo, não nega

que veja agora a luz quem sempre foi escrava:

e nesse pensamento a vida concentrava.

Foi quando Ruy me fez a esmola caridosa

de uma dôce affeição que tem a côr da rosa;

e, sem pensar, jámais, em vêr de novo o mundo,

o meu amor cresceu e fez-se tão profundo

que para desprender-lhe as tumidas raizes

eu rasgarei, talvez, mais largas cicatrizes...

Depois a mão de Ruy abriu para os meus olhos

o véo da madrugada e eu vi sobre os escolhos,

toda em pedaços feita, a minha pobre herança,

perdida para sempre a querida esperança

que eu havia sonhado em dias de cegueira...

Se sacrifico o amor pelo burel de freira

eu desço á sepultura em plena mocidade;

se não cumpro a promessa e minto á santidade

do voto que levei á pedra de um altar,

não devo conservar a luz do meu olhar

e rogo novamente a Deus que m'a desfaça

e á Virgem que conceda a pequenina graça

de receber de novo esse penhor tão puro,

deixando-me, outra vez, o mesmo olhar escuro!

Padre

Escuta, minha filha.--A Providencia, ás vezes,

se manda aos corações as dôres e os revezes

não é que se compraza em opprimir as almas

para lhes dar mais tarde as viridentes palmas

do martyrio, não! Não, minha ingenua Talitha.

Eras ainda tu mimosa e pequenita

quando ficaste céga. Abrira para o mundo,

apenas, a tua alma e o teu olhar jocundo

sorria para a luz. Assim, innocentinha,

tu ias de manhã commigo á capellinha

e, emquanto eu murmurava as orações da missa,

tu rezavas, sorrindo, angelica e submissa,

á Virgem que te ouvia, a Salvé Magestosa,

bem como se a rezara o labio de uma rosa...

Desse labio subia um fervor tão intenso

como a espiral azul e timida do incenso...

Depois... faltou-te a luz, mas tu nunca faltaste

á mesma hora de sempre, á missa. E que contraste;

tu, pequenita e céga e o Sol com tanta luz!

Muitos annos pediste á Madre de Jesus

que te restituisse um dia o teu olhar,

como se a Virgem fôsse autora da desdita

que te ferira assim, minha meiga Talitha...

Pois creança, tu crês que a Mãe que soffreu tanto

no dia em que perdeu o filho casto e santo

te pudesse roubar dos olhos transparentes

a luz que illuminava as pupillas ardentes?

Pois ella que te viu de rastros, a rezar,

em todas as manhãs, aos pés do seu altar,

levando-lhe, a sorrir, tantos ramos de flôres,

podia assim voltar a crueldade e as dôres

sobre a tua cabeça ingenua e piedosa,

Ella que foi a Mãe mais dôce e generosa!?

Escuta, minha filha:--o livro do Senhor

descreve que, uma feita, andava na Judéa

o divino Jesus prégando a sua idéa...

Acercou-se do Mestre uma infeliz proscripta

a quem a dôr matara a filha pequenita,

e, em lagrimas, pediu que lhe voltasse á vida

o cadaver da filha extremosa e querida.

Abençoando a mãe que aquella dôr humilha

disse Jesus então: «a tua pobre filha

estava adormecida e agora está acordada;

volta que a encontrarás a rir, já levantada».

E a pobre mãe, que vira a pequenina morta,

depois, ao regressar, foi encontral-a á porta,

sorrindo alegremente, entre as demais creanças,

como um bando gazil de cordeirinhas mansas!

Pois bem, minha Talitha, o teu olhar dormiu

sómente, não morreu. Quando a céga pediu,

á Virgem Mãe de Deus, que um dia t'o salvasse,

o seu divino olhar fitava a tua face

e despertou do somno o teu formoso olhar

que nunca fôra cégo e, apenas a sonhar,

adormecera. E agora, agora que acordou

póde fitar a mão de quem lhe descerrou,

em nome de Jesus, a noite que o toldava,

que te fazia triste e lacrimosa, escrava...

Talitha

E a Virgem que me ouviu quando eu lhe prometti

votar-me ao seu burel, por tanto que soffri,

quererá perdoar a minha negra falta?

Padre

Escuta-me, Talitha:

Ruy surge ao fundo e escuta

O coração exalta,

pergunta-lhe o que sente, o que deseja; pensa

muito, muito, em silencio, indaga a tua crença

e faze o que disser a tua consciencia,

mas não esqueças, filha, a dôce confidencia

de Ruy que illuminou o teu escuro olhar,

e lembra-te, depois, que, só por muito amar,

o Christo perdoou á pobre Magdalena.

E agora, que a tua alma está bem mais serena,

attende-me!--Rezando adormeci. A aurora

despertou-me, sorrindo, e entrevi, áquella hora,

um sonho que fugia, em busca de outros lares!

Subia docemente, ao claro azul dos ares,

o vulto da Senhora, abrindo pelo Céo

o palio virginal do seu materno véo,

desnastrado o cabello, um manto de rainha

recamado de sóes; a nuvem que a sustinha,

toda cheia de luz, deixava atraz de si

um rastro de fulgor. E eu lembrei-me de ti...

Curvaram-se a tremer as pernas fatigadas,

ao peso esmagador das longas invernadas;

e assim, postas as mãos, olhando para o vulto

da Virgem que eu adoro em fervoroso culto,

pedi-lhe que mandasse um raio de luar

ás lagrimas de fel da tua dôr sem par...

Talitha começa a sorrir

E a Virgem, a sorrir, do seio do infinito,

baixou por sobre o meu um dôce olhar bemdito

e eu vi rolar no azul da immensa vastidão,

no fulgor de uma estrella, o beijo do perdão...

Talitha, correndo para a porta

Ruy!

Encontra-se com Ruy e pára, pudibunda, de olhar no chão

Padre, só, á frente da scena, mãos postas, a olhar para o céo

Perdôa, Senhor, se lhe menti, perdôa;

o meu labio peccou, mas a intenção foi boa!

CAE O PANNO

1/1
Menu

Fazer anotação