Terceiro Ato: Cena II Talitha · Capítulo 19 de 27
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Terceiro Ato: Cena II

TERCEIRO ACTO

SCENA II

Joaquina e Ruy

Ruy, entrando

Boas noites, Joaquina!

Joaquina

As mesmas Deus lhe dê!

Inda bem que chegou; pensei que não voltasse

aqui á nossa casa!

Ruy

Essa agora... e porque?

Joaquina

É boa! Inda pergunta? Esteve lá por fóra

durante todo o dia e sem que se lembrasse

que neste pobre asylo ainda vive e mora

gente boa e christã...

Ruy, interrompendo

E quem lhe disse tanto?

Vão vêr que foi intriga ou treta de algum santo!...

Joaquina

Hereje! brinque, brinque assim com Jesus Christo

e ha de vêr se é feliz! Não sabe que o Natal

é a noite sagrada?

Ruy

É, sei! Não foi por mal

que faltei. Pela vez primeira não assisto

á missa desta noite. Ha bem vinte e seis annos

que falleceu meu Pae: rompia a madrugada.

Começaram-me assim os tristes desenganos

e a lucta da existencia abriu-se amargurada.

Desde então, minha Mãe, boa e santa velhinha,

recorda tristemente, apenas se avizinha

a noite do Natal, a dôr daquella aurora,

e emquanto tudo ri, ella soluça e chora...

Joaquina

Sem mesmo a conhecer eu tenho pena della.

Ruy

E hoje que eu sou feliz a pobresinha vela.

Creio que neste instante os seus labios de crente

envolvem numa prece encantadora e mesta,

num templo illuminado, ao celebrar da festa,

o esposo que morreu e o proprio filho ausente.

Joaquina

Devera ser então mais um grande motivo

de não faltar á missa.

Ruy

E creia que é bem vivo

o meu pezar. Entanto a razão dessa falta

foi sagrada e vae vêr como ella tanto exalta

a minha consciencia.

Joaquina, ironica

Eu imagino bem!

Ruy

Não posso vêr soffrer o coração de alguem...

Attenda-me, Joaquina, e diga se eu podia

negar-me, sem peccar, ao dever que exigia

de acudir pressuroso ao leito d'um enfermo

ardendo em alta febre e bem proximo ao termo

duma longa existencia asperrima e deserta,

onde apenas a dôr tinha uma entrada aberta.

Conhece aquelle atalho escuro e retirado

que vae dar á capella?

Joaquina, benzendo-se

Onde foi enforcado

O marido da Emilia?

Ruy

Exactamente, ahi.

Mesmo nesse logar em que ficou a cruz

existe uma choupana á qual me recolhi

para fugir á chuva. O caminho conduz,

pela esquerda, á Capella; a direita, ao moinho

do velho reformado! Entrou-me na choupana

a neta do sargento a dizer que o avosinho

quasi estava a expirar. Fôra maldade insana

deixar morrer o velho á mingoa de cuidados.

Fui. Mas antes não fôsse. Em nada lhe valeu

a visita que fiz, o velho falleceu...

Como devem morrer os bravos e os soldados

assim elle expirou, fitando bem a morte,

firme como um leão e simples como um forte.

Uma miseria extrema; os netos quasi nús,

com fome e sem comida ha dois dias!

Joaquina, benzendo-se

Jesus!

E aqui tanta fartura!

Ruy

A Patria é bem madrasta!

Esse velho, que a morte aos netos hoje afasta,

tem no peito e na face algumas cicatrizes

das lanças do inimigo.

Joaquina

Ah! são bem mais felizes

os soldados que vão á guerra e que lá morrem

no campo da batalha.

Ruy

Exacto. Os outros correm

o perigo maior de morrer desprezados, como

esse pobre velho.

Joaquina

E estão abandonados

os netos, Sr. Ruy?

Ruy

Não estão; felizmente

fallei ao regedor e tudo se arranjou;

demais a mais tambem, segundo me informou,

têm direito á pensão que o velho Avô doente

não poude receber.

Joaquina

E quem receberá

essa triste pensão, se o velho que serviu

não poude recebel-a e nem sequer a viu?

Ruy

Tambem já pensei nisso e tudo se fará,

minha boa Joaquina. Assim, o moribundo

me obrigou a faltar á missa do Natal.

Se um pobre que estivesse a deixar este mundo

lhe pedisse um amparo, a sua alma leal

negaria essa esmola?

Joaquina

Ainda m'o pergunta?

Ruy

Á sombra desse olhar tudo se abriga e junta

e eu leio na pupilla esmaecida e pura,

num misto de mudez, de pranto e de ternura,

que o seu bom coração tambem acudiria.

E por isso faltei; tenho, porém, certeza

que Talitha por mim, ao menos, rezaria.

E quando assim se tem tão lucida pureza

a interceder por nós aos pés da Divindade,

parece que a nossa alma, em dôce alacridade,

mergulha no baptismo, em aguas de um Jordão

todo feito de amor, de beijos e perdão!

Joaquina

Ah! quando eu penso em tudo o que se tem passado

depois que aqui chegou!... Como isto está mudado!

Ruy

Tudo é tão natural que não nos vale a pena

gastar tempo a pensar em cousa tão pequena.

Joaquina

Então é cousa pouca uma pobre engeitada,

ha tanto tempo céga, e sem mãe, desprezada,

encontrar quem lhe dê de novo o seu olhar,

e quem lhe tenha amor e a queira desposar!?

Ruy

Engeitada, que importa? O coração não pensa,

ama sómente e assim não indaga a nascença

da mulher que o inspirou. Mas não é desprezada

a formosa Talitha; esta mansão amada

serviu de lar paterno á sua dôce infancia

e, se aqui respirou a magica fragrancia

de uma alma aberta, em flôr, se a sua mão, Joaquina,

materna, a acompanhou desde assim pequenina,

pouco importa que a mãe a tivesse engeitado;

amei-a, e nesse amor eu tenho baptisado

o sonho do porvir...

Joaquina

Diga, e quando casar

vae leval-a d'aqui?

Ruy

Seria derrancar

o santo coração do velho Padre-Cura;

nem tanto necessita a completa ventura

das minhas illusões, nem teria coragem

para tamanho mal; seria mais selvagem

que a propria malvadez

abraçando-a

tirar ao seu amor

o prazer de aspirar o aroma dessa flôr,

que ao seu lado cresceu, tão branca e tão fagueira,

como um lyrio do valle ao pé de uma roseira!

Joaquina

Sim; isso diz agora e depois de casado

ha de pensar, de certo, em sua mãe saudosa,

e para que ella veja, alegre e carinhosa,

o filho salvo e bom, tão robusto e córado,

o Ruy tem de levar comsigo a pequenita

que nos serve de filha e que nos faz felizes!...

Ruy

Descance, boa amiga; este amor tem raizes

que eu nunca poderei arrancar de Talitha,

nem penso em perturbar a paz do vosso azylo

que a propria mão de Deus formou assim tranquillo.

Joaquina

Se Deus que nos dôou a innocentinha, agora

mandasse a Mãe aqui para leval-a embora,

onde quer que ella fosse havia eu d'ir tambem,

porque a trouxe no collo e quero tanto bem

que passo a minha vida olhando o azul dos céos,

para vêr se descubro a Santa Mãe de Deus

e pedir-lhe que deixe á tremula velhice

dos meus dias sem luz, ao menos, a meiguice,

daquelle coração que eu vi desabrochar...

Ruy

E o céo que lhe responde?

Joaquina

O céo?... Nada! A rezar

tenho passado a vida e, nesta idade, a gente

já não póde chorar, as lagrimas seccaram

e por isto se soffre, a dôr é mais pungente

quando se quer chorar e os olhos já cançaram.

Ouve-se a voz de Talitha, fóra

Taitha

Ó Joaquina! Ruy, Ruy...

Joaquina

Ahi vem a traquina;

E ha de chamar por tudo a pobre da Joaquina...

Ruy, corre á porta

Mas como vem alegre...

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