Terceiro Ato: Cena VI Talitha · Capítulo 23 de 27
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Terceiro Ato: Cena VI

TERCEIRO ACTO

SCENA VI

Marqueza e Padre

Padre

Senhora, estamos sós! Vossa Excellencia ordene!

Marqueza

Ouça-me, Senhor Cura! ouça e não me condemne!

Padre

E condemnar por que? Se tem algum peccado,

o coração de Deus não estará fechado!

Marqueza

Pensei chegar mais cedo: hontem, pelo sol posto,

estaria acabado este immenso desgosto

que me tortura a vida; a asperrima inverneira

embaraçou-me o passo e augmentou-me a canceira.

Padre

E vem de muito longe?

Marqueza

Ah! sim, de bem distante,

anciosa, esperando este feliz instante.

Ha muito tempo, um dia, ao romper da alvorada,

alguem que veiu aqui lhe trouxe uma engeitada...

Padre

É verdade, Senhora!

Marqueza

Uma carta pedia

ao Cura desta aldêa a esmola caridosa

de guardar a creança, até que a mãe chorosa,

depois, a procurasse. Afinal esse dia

felizmente chegou e a mãe que a dôr humilha,

Senhor Cura, a seus pés, vem procurar a filha...

Padre

E como poderei saber se esta senhora

que se confessa mãe, embora peccadora,

é realmente a mãe da creança engeitada

ha tantos annos já, naquella madrugada

tristissima d'inverno?

Marqueza

A carta igual áquella

que o Senhor Cura achou no berço, junto della...

Padre, tomando a carta

Mas falta alguma cousa...

Marqueza

A pérola? está aqui...

Dá-lhe a pérola

Pois desde aquella noite eu jámais a perdi

de vista e a conservei com cuidadoso afan,

como alguem que resguarda um rico talisman.

Padre

Seija feita de Deus a sagrada vontade,

embora se me parta o coração de dôr...

Marqueza

Essa dôr, Senhor Cura, ha de fugir vencida!

Eu não quero quebrar tão dôce piedade

que fez de minha filha o seu risonho amor,

nem desejo apagar a luz da sua vida

num soluço de magua.

Padre

Então não vem buscal-a?

Marqueza

Não, não, meu bom amigo, eu venho acompanhal-a.

A minha desventura, emfim, se condoeu

dest'alma cruciada e triste que viveu

reclusa na saudade, apenas na esperança

de vêr um dia ainda essa gentil creança...

Se nunca procurei saber dessa existencia

não é que se apagasse em minha consciencia,

como um sonho infeliz, a lembrança dorida

dessa flôr do peccado em anjo convertida.

Como eu pensava nella, ah! sabe-o Deus sómente!

Que lagrimas chorei por conserval-a ausente,

e quanto passei eu por causa desta filha

dil-o, com eloquencia, a dôr que me polvilha

a cabeça de cans. Amal-a com ardor

e ter de estrangular todo esse immenso amor!...

Vêl-a crescer ao longe, e calcular-lhe o encanto,

mas sem poder beijal-a, adivinhar que o pranto

as faces lhe banhava e não poder sorvel-o,

que tormento cruel, que duro pesadello...

Soffri, meu bom amigo, e soffri a sorrir,

que até para soffrer é preciso mentir!

Não me pergunte, Padre, a origem desse amor

ninguem perguntaria ao seio de uma flôr

como foi que nasceu o aroma que elle exhala.

Bastará que lhe diga: a dôr que me avassalla

é a amiga fiel que me segue ha vinte annos,

que nunca me deixou; que os tristes desenganos

dessas horas sem luz foram os companheiros

da minha mocidade e os filhos feiticeiros

que encheram o meu lar de pranto e de amargores,

como um dia sem sol, como um jardim sem flôres.

Um dia, Sr. Cura, em confissão, no templo,

diante do seu olhar que eu agora contemplo

humilde e agradecida, hei de contar-lhe a historia

da minha desventura e desta dôr ingloria,

mas não exija, Padre, agora, que eu recorde

o passado infeliz, que o coração acorde

do somno em que repousa, e desvende o segredo

que a vida me cobriu de sombras e de medo.

Padre

Nem quero desvendar, Senhora, essas torturas;

mas a minha velhice acostumou-se a vêr

em tão meiga creança uma filha extremosa

junto de mim crescer, florir como uma rosa

ao pé dum castanheiro, e fazer-se mulher.

Aos dez annos cegou...

Marqueza, interrompendo, afflicta

É céga a minha filha?

Padre

Foi: ha dias, porém, a luz de novo brilha

no seu formoso olhar. Emquanto a escuridão

durou, eu sempre a trouxe unida ao coração,

apoiada ao meu braço.

Marqueza

E quem foi que a curou?

Padre

Alguem que a soube amar. Um dia despontou

na sua alma de flôr um novo sentimento

e a pobre céga amou e foi tambem amada.

Queria dedicar-se á vida enclausurada

na casta região da cela de um convento,

mas, sonhadora e boa, o amor venceu em breve

o vago mysticismo e a Virgem que a fadou,

condoendo-se della, o seu amor salvou...

De modo que, feliz, dentro de pouco, deve

desposar um rapaz, formoso coração...

Marqueza, interrompendo

Ruy de Ornellas, talvez?

Padre, admirado

Mas como adivinhou?

Marqueza, depois de uma pausa

Não importa saber; prosiga, Senhor Cura,

eu contarei mais tarde essa alegre aventura,

tão simples e feliz.

Padre, proseguindo

A mim, pobre ancião,

uma alegria basta: a de morrer contente

por haver feito bem á candida innocente.

Do mundo nada espero, esta gentil creança

era a minha formosa e unica esperança:

arrancam-m'a daqui e eu sinto que a corola

dessa flôr, que me dava a encantadora esmola

do seu perfume agreste, arrasta a minha vida

á derradeira estancia, á ultima guarida...

Marqueza

E quem lhe disse, Padre, as minhas intenções?

Padre

Ninguem. Mas adivinho. Eu sei que os corações

carinhosos das mães não querem a partilha

das caricias, do amor, dos beijos de uma filha.

Talitha vae partir; que o Senhor a conduza

e que uma boa estrella ao seu porvir reluza.

Marqueza

Attenda, Sr. Cura! A mãe que ora lhe falla

tambem sabe que a dôr o coração estala

e não lhe vem roubar a luz dessa velhice

tão cheia de bondade e simples de meiguice.

A dôr me fatigou e eu quero repousar

de tantas afflicções, e venho procurar,

nesta aldeia tranquilla e sem perversidade,

a paz que não frui na minha mocidade.

Sou rica, felizmente, e quero ter um nicho

onde acaba a existencia: é, talvez, um capricho...

Mas quero aqui viver ao lado desta filha

que a sua alma de santo, alvissima, perfilha

e nunca mais sahir deste sereno azylo

tão suave e tão bom, tão feliz e tranquillo,

onde mora a virtude. A filha que eu procuro

tambem é muito rica e tem porvir seguro.

Se a desventura um dia a separou de mim

a minha vida agora ha de chegar ao fim,

aqui onde ella teve um lar sagrado e nobre.

E o dôce olhar de Deus que o mundo inteiro cobre,

abrindo sobre nós o pallio da ventura,

ha de envolver na sombra o coração do Cura

que fez de minha filha a filha da sua alma,

extremosa e leal. E Deus que tudo acalma

ha de extinguir a dôr de todo esse passado

que eu vejo, felizmente, agora terminado...

Padre, alegremente

Obrigado, Senhora. O coração que sente

a alheia desventura e lança boamente

o seu conforto amigo a quem já nada espera,

tem, nas bençãos do céo, eterna primavera...

E agora que sabeis que a vossa filha é viva,

attendei-me, Senhora, á santa rogativa:

Talitha esteve céga. O homem que salvou

o seu formoso olhar o amor lhe conquistou.

Ella, uma encantadora e formosa creança,

concentra nesse amor toda a sua esperança:

tiral-a será dar-lhe o mais cruel supplicio.

Marqueza

Não preciso pedir tão duro sacrificio

ao seu bom coração. Eu quero-a vêr feliz,

se quem serviu de Pae o consentiu e quiz.

Procurava uma filha, encontrei um casal:

para mim, que sou mãe, jámais este Natal

feliz esquecerei. E agora que conhece

a Mãe da sua filha, attenda á minha prece

e mostre-me Talitha, anceio por beijal-a.

Padre

Louvado seja Deus, Senhora, eu vou chamal-a.

Entra e volta com Talitha pela mão

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