Primeiro Ato: Cena VI Talitha · Capítulo 8 de 27
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Primeiro Ato: Cena VI

PRIMEIRO ACTO

SCENA VI

Ruy e Talitha

Ruy vê sahir o Padre e fica pensativo, fitando os olhos no chão,

sentado no banco de pedra. Depois de uma pausa, Talitha desce,

tacteando, até junto delle.

Talitha

Padrinho, então não vem?

Ruy, sobresaltado

Ah! Talitha...

Talitha

Perdão!

Pensei que estava aqui...

Ruy

Já se foi...

Talitha

Obrigada...

Vae retirar-se

Ruy

Talitha!

Talitha

Senhor Ruy!

Ruy

O seu bom coração

inda não lhe contou, baixo, muito baixinho,

quasi a tremer de medo e susto, um segredinho,

diga, não lhe contou?

Talitha, com muita simplicidade

Que pergunta engraçada!

Ruy

E vive então sereno?

Talitha

Ah! Sim, tenho certeza!

Ruy

É bem feliz, Talitha, a sua singeleza!

Outro tanto, porém, ao meu já não succede

que o sinto palpitar acceleradamente,

como quem vae fallar e o soffrimento impede.

Talitha

Eu bem lh'o disse ha pouco...

Ruy

Entretanto eu lhe juro...

Talitha, interrompendo

Não jure que é peccado a jura de quem sente

que não diz a verdade. É mais bello e mais puro

não negar.

Ruy

Tem razão, mas eu não disse, ainda

qual era o juramento...

Talitha, ingenua

E qualquer que elle seja...

Ruy

Diga, diga o que sente...

Talitha

Ha de ser...

Ruy, curioso

Ha de ser?

Talitha

Não digo...

Ruy

Diga, sim, a sua voz bemvinda

ha de me dar a esmola honesta e bemfazeja

que a minh'alma sem luz precisa de viver.

E do seu labio casto apenas um sorriso

vale mais que uma estrella e rasga um paraiso.

Talitha

Assim o quer, direi; jamais o seu protesto

póde ser verdadeiro...

Ruy

E porque não, Talitha?...

Talitha

Não sei, não sei porque. A jura é como o gesto

que abala fortemente, a nossa vida agita,

mas passa e foge...

Ruy

Ah! sim, quando falla sómente

o labio, sem fallar tambem o coração...

Ah! de certo que assim o labio sempre mente.

Mas quando o sangue estúa e faz tremer a mão

de quem jura, Talitha, ou quando a fronte em braza,

apenas num momento, empallidece e tomba,

bem como se a roçára a ponta fria da aza

feita de gelo e dôr de alguma extranha pomba,

quando um homem que sempre olhou de frente o sol

tem medo de encarar o olhar de um rouxinol,

e treme até de ouvir-lhe a voz encantadora,

quem sempre ouviu sorrindo a furia rugidora

do vento e dos trovões...

Talitha, interrompendo

Então?...

Ruy

Assim revela

que é grande, generoso e casto o sentimento

que apenas se traduz e que tão mal se vela

na gaze pueril d'um simples juramento!

Talitha, ingenua

Quem foi que o ensinou a fallar assim?

Ruy, timido

Digo?...

Talitha, ingenua

E porque não? Quem foi?...

Ruy, timido

Nem mesmo eu sei, Talitha!

Talitha, insistido

Nem sabe onde aprendeu?

Ruy, sorrindo

Quer aprender commigo?

Talitha, ingenua e triste

Não me quer responder, nem confessa, nem nega...

Se eu pudesse aprender, de que valera á céga

saber fallar assim?

Ruy, triste

Á céga?

Talitha, simples

E á Carmelita?...

Ruy, ancioso

Á Carmelita!... e quem lhe disse que os seus olhos

recuperando a luz, como duas estrellas,

irão illuminar as fragas e os escolhos

das montanhas da Syria, entre as monjas Carmellas?

Quer sepultar-se em vida?

Talitha

E não é cemiterio

maior a escuridão deste pavor funereo,

sem vêr o sol que doira as nuvens do poente,

sem vêr a lua assim como um berço dolente

embalando no azul um sonho que não morre,

não vêr duma colmeia o mel que filtra e corre

como um rio de luz nascendo num enxame,

sentir e adivinhar a suprema belleza

da madrugada em flôr, das noites constelladas,

dos mares e do céo, de toda a natureza,

ter olhos e não vêr, inda haverá quem chame

vida a tal vida? Não! Mais negras, mais cerradas

do que esta noite immensa e triste, sem estrellas,

não póde ser, de certo, a solidão das cellas,

e o sol que tudo aquece, aquecerá de leve

a macerada fronte á monja que não teve

nem um seio de mãe que um dia a amamentasse,

nem a luz d'um olhar na pallidez da face,

e nem um coração...

Ruy

Talitha!

Talitha, ingenua

Meu doutor!

Ruy, com intenção

Um coração?

Talitha, ingenua

Qual foi?

Ruy, tomando-lhe a mão

O meu...

Talitha, comprehendendo, envergonhada

O seu?

Retira a mão

Ruy, enleiado

Perdoe.

Pausa prolongada

Talitha, implorando

Que mal lhe fiz?

Ruy

Rasgou-me o coração, Talitha;

e pensará, talvez, que não me fere a dôr

de vêl-o assim rasgar?

Talitha, humilde, implorando

Mas creia, Ruy, que foi

sem que eu desse por isso. E se o mal está feito

seja agora gentil e não me rasgue o peito.

Esqueça a minha falta, esqueça esta maldita,

não se lembre da céga e deixe-a definhar

na torva escuridão desta noite polar...

Ruy

E se eu não conseguir tirar do pensamento

o seu casto perfil, celeste e macilento,

se a minh'alma quizer viver escravisada

unindo o meu destino á corrente doirada

que me prende, sorrindo, ao seu cruel martyrio,

se o meu olhar prefere esse apagado cirio

dos seus olhos de céga á lucida manhan

do amor sentimental de alguma castellan,

como esquecel-a então?

Joaquina apparece ao fundo

Talitha, triste

Não creio...

Ruy

Mas porque?

Já tão cedo a sua alma angelica descrê

da minha que, arrastada á fimbria azul da sua,

por toda a parte a segue e a seu lado fluctua?

Não recorda, Talitha, o dia amargurado

em que eu entrei aqui perdido e quasi morto?

Não se lembra da noite em que eu fui condemnado?

Não se lembra talvez das horas de conforto

que os seus olhos sem luz e a sua bocca em flôr

me trouxeram a rir, como um remedio santo

da minha vida enferma á cruciante dôr?

Não recorda talvez que esse supremo encanto,

essa graça divina, aligera e bemdita

a vida me salvou?

Talitha

Não creio...

Ruy, curioso

É tão cruel!

Porque razão não crê, a minha alma fiel

simplesmente traduz o que a sua entendeu?

Talitha, com intenção

Só porque a sua mão na minha não tremeu.

Ruy

Entretanto, Talitha, eu amo-a...

Talitha, tremula

Ruy!...

Ruy, apertando-lhe a cintura

Talitha!

Beija-lhe docemente a mão

Talitha

Ah! E eu sem poder vêr o labio que me beija!...

Que destino fatal, que desgraçada eu sou!

Ruy

Não foi a minha bocca ardente que a beijou.

Foi o dôce rumor da abelha que voeja

sugando á sua mão de branca flôr de liz

o magico licôr, o aroma delicado,

que vem do rosicler florido e perfumado,

no sangue que palpita em vibrações subtis!!

Talitha

Mas, Ruy, o seu amor não ve como eu sou pobre!!

Ruy, interrompendo

Pobre sou eu que peço a esmola angelical

desse affecto gentil que a vida transfigura.

Talitha

Tão pobre que não tenho um Pae que me conforte,

nem caricias de mãe que veja esta tortura...

Ruy

A sua alma divina essa tortura encobre...

Talitha

Tão pobre que este olhar perdido é glacial

como um floco de neve, e a desfazer fluctúa...

Ruy

Os seus olhos sem luz tem mais fulgor que a lua.

Talitha

Engeitada ao nascer vivo esperando a morte...

Ruy

Alma branca de luz que illuminaste

a ventura das minhas esperanças,

bemdito seja o véo de negras tranças

que sobre a minha vida desnastraste!

Bemdito seja nesse dôce engaste

das palpebras subtis brancas e mansas

o mesto olhar que cobre de bonanças

a vida deste amor que tu salvaste!

És para mim a linha do horisonte,

curva do céo, á noite, constellada,

agua lustral de uma sagrada fonte,

toda a ambição dest'alma allucinada,

e a nuvem que circumda a minha fronte

como um disco de treva avelludada...

Talitha, de mãos postas

Meu Deus, e nunca mais, nunca mais hei de vêl-o!...

Ruy

Sim, Talitha, verá; o meu maior desvelo

ha de ser o fulgor do seu formoso olhar.

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