Macbeth Prosas Bárbaras · Capítulo 3 de 17
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Macbeth

Foi no tempo de Philippe II, trágico môcho do Catolicismo, que Shakspeare criou o seu drama épico de Macbeth.

É desde então que aquela figura, que exhala noite e humidade, erra pelo enorme céu negro, livida no meio das tempestades, alumiada e crescida por um estranho reflexo de saques e de incêndios, em quanto os abutres, os corvos, os milhafres, os gaviões, as corujas vôam em círculos sobre a sua trágica cabeça esguedelhada.

As outras imaginações nocturnas do poeta, que se chamam Hamlet, Lear, Otelo e pisam com pé trágico o sólo augusto da epopeia, todas têm junto de si o dôce corpo de uma mulher para lhes embalar no seio as angustias tenebrosas, como em um leito misterioso, para lhes fazer subir por vezes ao rosto a serenidade augusta do bem.

Essas formas femininas andam impalpavelmente, como radiações de luz, em redor de aquelas terríveis cariátides do mal: elas derramam-se sobre aquelas almas nocturnas, como umas auroras vivas, cheias de meiguices, de orvalhos, de claridades, de fecundos descanços, purificadoras e transfiguradoras.

Assim Ofélia, humida dos beijos da água, segue o seu dolente e lacrimoso Hamlet; Desdémona derramou o seu perdão, como um óleo santo, sobre a agonia flamejante de Otelo: e Cordelia estira os seus braços como azas de benção, e, com gestos de coroação, ampara a cabeça desvairada do velho rei Lear. Macbeth, esse vai seguido na sombra pelos seus negros vassalos--os incêndios, as pestes, os derrubamentos.

Macbeth é o mal-fantasma. Ele não é de aqueles lobos que andam, pela noite da historia, dilacerando as liberdades e as pátrias. Não.

É uma energia inconsciente e fatal. Um pouco mais mergulhado na sombra, seria o egual de Satan. Quando a sua corôa reluz na escuridão, parece que as constelações devem seguir aquele reflexo terrível, curiosas de saber que sombria aventura vai ele tentar contra o Homem. Porque é certo que ele provoca a atenção do infinito, e tem misteriosas afinidades na noite.

Ele atravessa todo aquele drama como um espectro.

Quando as Ondinas saíam fora da água a namorar os moços formosos debaixo dos plátanos, denunciavam-se, as pobres, porque a orla do seu vestido estava sempre ensopada de água. Macbeth é assim: debalde se cobre de purpuras, e se assenta aos banquetes, e fala de manobras de guerra com os seus capitães tenebrosos, e se queixa que lhe foge o sono, para parecer humano: os que se aproximam de ele empalidecem, porque a extremidade do seu manto tem uma orla sulfurosa.

Ele ouve a predicção das soberanias flamejantes da boca esverdeada das feiticeiras, que se dão, lascivas, aos beijos do vento, por cima das folhagens, e se somem nos esvaecimentos tenebrosos, riscando a noite de sangue. Ao atravessar pelas horas negras os seus terraços, entrevê o luzir dos punhais: não póde sentar-se aos banquetes resplandecentes, entre os risos sonoros, sem vér diante de si, com a lividez dos que fizeram a viagem maldita, o espectro de Banquo, de onde se exhalam os castigos. Por fim, quando toda a Escocia sangra, porque passou Macbeth esmagando as cidades, assolando os campos, enegrecendo o céu com o fumo--luto dos incêndios--não são os exércitos que o vencem: a natureza ouviu as queixas humanas, os brados de justiça que saíam dos postes, das queimadas, das forcas, dos cemitérios, ouviu a alegria estridente dos abutres, dos córvos e dos milhafres--e destaca então uma floresta, que vai com ruido trágico esmagar o homem sinistro. em este castigo, Shakspeare é maior que Eschilo. Eschilo, quando vê Prometeu pregado no Caucaso, olha desvairado, e vendo lá em cima a serenidade de mármore dos deuses de nomes sonoros, vem, pálido, ajoelhar junto de aquele rochedo ideal e santo como um altar; e, sufocado, apenas póde fazer um gesto suplicante ao velho Mar, para que mande as suas Oceanides consolar o vencido enorme.

Shakspeare, porém, quando vê Macbeth matar os reis, matar o povo, derrubar os capacetes heráldicos, matar os instinctos, matar os Macduffs, matar as creanças de olhar divino, as mulheres de seios fecundos, matar a pátria--corre desvairado, toma uma floresta e vem esmagar a feroz creatura sob um desabamento da santa natureza: e aquele castigo passa com o ruido terrível do carro da justiça.

Este Adão do mal tem uma Eva monstruosa--Lady Macbeth. Lady Macbeth é a serenidade do mal. Ela, com a sua atitude soberana e barbara, tem a vaga semelhança de uma Juno homérica. Tem em si toda a grandiosa rigidez, todas as frias austeridades da natureza do norte.

Ela é a energia selvagem, que de longe conduz as batalhas. Ela passa no drama como sacerdotisa do mal, predestinada e serena: até ás vezes parece fluctuar, no seu olhar frio, não sei que fúnebre resignação: as cóleras e os castigos têm quase piedade de aquela mulher estéril. Ela não tem o amor, não tem a consolação, não tem a melancolia, não tem a maternidade. Alguém, feroz e desconhecido, lhe tirou aqueles amolecimentos onde ha lagrimas, para lhe poder conservar a atitude hirta e rígida do mal.

Lady Macbeth é como uma estatua do crime, feita de mármores e de bronzes, e erguida ao longe em uma lividez silenciosa, tendo por pedestal a noite. De vez em quando concebe, com lascivos estremecimentos de alma, as opressões e as violências, e vem então lenta, deixa caír da sua mão estendida as agonias e as destruições, acende com um olhar as sinistras queimadas pela planície, e volta para os lados da noite e da humidade, arrastando o seu manto, que faz a cada passo como que uma onda negra e humida de sangue, que a segue.

E no emtanto, quando ela passa, o olhar perde-se na contemplação perigosa de aquele busto forte, de aqueles braços de aço, de aquela testa que tem reflexos de opala, de aqueles cabelos poderosos de um negro flamejante, de aquele seio de fórma barbara. E então abre-se na alma, como uma grande flôr do mal, um desejo, negro e reluzente. Aquele olhar attráe como uma profundidade cheia de echos, de vapores humidos e de mugidos de águas. E a alma, esquecida da justiça e do bem e dos pudores da piedade, quer atravessar as brumas do mal que cercam aquela mulher e palpar os brocados luzentes e recamados que a vestem, destrançar-lhe os cabelos pelas moles sombras e dissolver-se em aquele olhar negro, como uma flôr se dissolve num vinho forte. O coração ri-se dos gemidos da Escocia e do último high-lander, que morre contemplativo, tocando as árias da sua montanha na última cabana, e lastima unicamente Macbeth porque tem para matar--só um Duncan. Suffoca o peito a negra lembrança de um desfalecimento lascivo, em aqueles braços de mármore pálido, salpicados de sangue. A contemplação de aquela terrível Lady Macbeth, em Shakspeare, deixa o corpo frouxo e tremulo, como se sobre ele se estendesse a nudez de uma deusa.

Foram estas figuras tenebrosas que Verdi quis revelar no seu poema musical de Macbeth.

Ha, sem dúvida, na obra imensa de Shakspeare creações que devem dar a sua alma, a sua vida, a sua paixão, a esta musica moderna, vestida de sensualidades pesadas, coberta com veludos de prégas moles e silenciosas. Porque em Shakspeare ha tudo: ha os corpos disformes feitos de lôdo: os corpos transparentes feitos de pulverisações de luz; os corpos luminosos feitos de argilas ideais: ha almas tão puras como musicas de constelações, tão terríveis como as fulgurações do desespero, tão voluptuosas como os beijos vermelhos do sol. Ele semeou ali, com mão augusta, as energias, o amor, as enervações, os ciumes, as angustias, as melancolias, a dúvida, a paternidade, a covardia--eu sei?... Ha toda a sorte de vestidos, sedas, farrapos, lutos, purpuras, sudários; umas cabeças têm corôas flamejantes, outras cabeças têm corôas de violetas: aquelas creações têm nos lábios o lirismo, a ode, a imprecação, a sátira, a chocarrice: ha architecturas, tormentas afflictas, arvoredos sagrados, luares e aparições. Assim caminha enorme aquela obra, tentando a grande aventura da imortalidade! Para dar a vida e o sopro ideal a esta creação imensa, é necessário que venha a architectura, a decoração, todos os coloridos, os vestuários, o lirismo, e sobre tudo a melodia e a orchestra.

A musica deve ser a voz de tudo aquilo que ali está silencioso, sem ter a faculdade de se exprimir, e nós termos a possibilidade de o comprehender,--a voz das estrelas, das pedras, das nuvens, das flôres, de tudo o que, desde as hervas molhadas até ás vias-lácteas, fala muito indefinidamente e com vibrações muito sobrenaturais, para que o nosso extasi as possa escutar. Quando Julieta suspira ao seu balcão, desejando que o corpo do seu Romeu, depois de morto, seja dividido em pequenas estrelinhas, para que todas as mulheres se namorem da noite, em roda de ela, as flôres, as vegetações, aquelas moles divindades núas, que se chamam as nuvens, o arfar brando do seio da noite que cria as aragens, a floresta divina de que nós apenas vêmos as pontas das raízes, que são as estrelas--tudo se balança em aquela evaporação de amor que exhala a alma da languida mulher, luminosa na escuridade do seu jardim, como um diamante no seio de uma negra: e toda a natureza está cheia de confidencias, de murmurações e de córos. Diante dos pudores, das indefinidas meiguices, das sentimentalidades da alma de Ofélia, diante dos pensamentos de Hamlet, incertos e revoltosos como as ondas, como os ventos, como as nuvens que no ar se fórmam e se desmancham, o lirismo do celeste William empalidece como um herói derrubado: e então a musica vem, na sua ideal serenidade, dolorosa e branca, revelar todas aquelas vibrações celestes.

E estas imaginações radiosas dos poetas devem entrar antes nos poemas musicais do que as figuras históricas.

São aquelas creações maravilhosas que nos enlevam, que nos fazem sofrer, que nos transfiguram a alma.

Que importa que agonise Maria Stuart, e a dôce Maria Antoinette, e Beatriz de Cenci, e a idílica Ignez de Castro? Nós vemos estes desaparecimentos de astros, com os olhos enxutos, atentos á justiça de bronze da historia: e, se nos interrogam sobre aquelas fatalidades, mostramos lá em cima o grande azul constelado.

Mas que Julieta se definhe e que lance, chorosa, o seu olhar fulgurante pelo espaço, para alumiar a fuga de Romeu até Mantua; que Desdémona diga a canção do salgueiro, onde se morre de amor; que apareça entre os lutos reais o enterro virginal de Ofélia, nós vamos, desgrenhados e afflictos, perguntando por que caminhos misteriosos sóbe lá cima, até á radiosa bondade divina, o coro suplicante das lagrimas.

No emtanto, parece que as imaginações terríveis e ferozes dos poetas não pódem ser nobremente transportadas para a musica: e quando os maestros querem subir aqueles escarpamentos divinos, caém, sem fôlego, junto da montanha sagrada: e só recobram a paixão, a alma, o lirismo, o sopro divino, diante das creações femininas, lúcidas figuras feitas de cheiros suaves onde habita a alma dos deuses, e de pétalas macias, e de vapores de luz.

Sem falar em Gounod, que não compreendeu a grande figura de Fausto, mas pôs divinas vibrações nos lábios de Margarida, o grande Rossini não pôde erguer-se até á região onde desvaira a alma de Otelo, e ficou-se a chorar um choró celeste com Desdémona, debaixo do salgueiro.

Assim também Verdi, o luminoso Verdi, não compreendeu aquelas trevas, que Shakspeare derramou na alma de Macbeth.

Verdi, o musico querido dos mexicanos, dos americanos, dos russos e de nós outros, os portuguezes, é, realmente, o único compositor italiano verdadeiramente sério que ficou, depois do desgraçado Donizetti; Rossini retirou-se da arte.

Verdi tem um talento vigoroso, apaixonado mesmo, mas falta-lhe o lume santo, o desvairamento ideal, o deus, aquele sôpro de que fala a Biblia. A sua musica é profundamente materialista: é uma melopêa enérgica e estridente: é uma melopêa colorida e pesada: ha mesmo o quer que seja de rígido e de metálico em aquela sonoridade sensual: ele sabe excitar as sonoridades materiais, mas não consegue arrancar a alma do seu vestido de carne e levá-la, núa e possuida do infinito, pelas regiões das surpresas radiosas.

Todo o entusiasmo que Verdi tem alimentado na Itália, provém do momento grave em que se revelou.

em esse tempo a Itália revolvia o poema convulsivo da sua reconstituição: os italianos, que tinham adormecido em aquela rede tecida com os raios do sol, que se chama a preguiça, começavam a erguer-se e a experimentar os seus músculos frouxos e amolecidos de amor e de sonhos. em esse momento Verdi foi pela Itália com um canto poderoso, em que os libertamentos batiam as azas. Aquela musica apaixonada, ardente e vermelha, enrijava as enervações e couraçava as energias: e a Itália seguia com idolatria o poeta, que lhe soprava na alma, com o amor das epopeias, o amor das liberdades.

No Norte, quando a Alemanha, no tempo de Napoleão, começou a pensar no seu passado, como no deus porque havia de bradar no dia das batalhas, aparece uma musica nacional, a de Spohr e Weber, que canta as velhas poesias da Alemanha, melodias feitas quase dos cantos populares, que diziam, outr'ora, á tarde, nas encruzilhadas da Floresta Negra, rapsodos errantes: e quando a grande pátria, ouvindo as caçadas de Samosel pelas florestas da Turíngia, os estremecimentos dos elfos vaporosos pelos prados Hyrcinios, e todas as velhas mitologias do Reno, vivendo, sofrendo, voando, susurrando em um livre canto, ergueu-se terrível, entoou também, ela, o velho canto de Lutero, couraçado de ferro, e atirando para longe a sua roca de Margarida, ficou, severa e iluminada, esperando junto do Reno, tendo a um lado o espectro da honra e a outro lado o fantasma da justiça.

Verdi, ou instinctivamente ou intencionalmente, fez em parte, no Sul, o que tinham feito os poetas do Norte: nem todos aqueles entusiasmos foram fecundos: as duas pátrias sangram ainda: e as flautas tristes do Norte, e as guitarras gemedoras do Sul só sabem aquele choró lento e doloroso de Rama, quando perdeu a esposada da sua alma: e não é verdade que a esposada dos povos é a liberdade? Pobre Itália! Pobre Alemanha! Deus vos envolva em um olhar de benção e de repouso, em este tempo em que estamos, que é a véspera das agonias!

Mas, voltando ao Macbeth, é certo que Verdi fez de aquela figura desvairada um herói italiano, melodioso e mau. Por toda aquela opera anda errante um terror transparente e mole. Será porque a musica, a meiga errante do espiritualismo, não póde comprehender aquelas duas almas pavorosas saídas da noite e pesadas de matéria? Não sei. O certo é que aquela opera parece uma transfiguração do velho Macbeth: parece que o velho herói livido entrou em este tempo moderno, amoleceu-se em voluptuosidades, perdeu-se em melancolias, teve as febres silenciosas da alma e assim, frouxo, doente, dessorado, vem com Lady Macbeth contar a sua velha legenda trágica sobre uma scena resplandecente. Com efeito, aquela opera faz saudades do drama de Shakspeare: era ali que Macbeth erguia o seu rosto erriçado de barbas, e invocava Hecate de três cabeças: era por aquele terraço, onde mugia o vento, que eles atravessavam, esguedelhados e convulsivos, para a camara de Duncan.

E assim, enquanto aquelas figuras liricas se adiantam para a orchestra de poderosos alentos, com as gargantas túmidas de melodias gemedoras e violentas, a alma póde deixar o seu querido corpo e ir por cima dos mares e dos continentes, para os descampados da Escocia, vêr passar aquelas sombras unidas de Macbeth e de Lady Macbeth, que, segundo as legendas, galopam de noite nos clarões das tempestades, uivando manobras de batalha.

E depois póde a alma voltar, para ouvir aquela confusão de ruidos coloridos e apaixonados, de melodias pesadas que murmuram, que estremecem, que gemem e que gritam, e que se vão desvanecendo em volta do corpo e cobrindo-o como uma onda. Enquanto se canta Macbeth, a alma póde andar longe, pelo paiz das chimeras.

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