O Milhafre Prosas Bárbaras · Capítulo 10 de 17
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O Milhafre

Um dia um homem entrou em uma casa arruinada. No portal havia um nicho com um santo de pedra, que lia uma Biblia, também de pedra. Em redor, na beira dos telhados, nas fendas das pedras, no canto do nicho, havia hervas molhadas e verdes, e ninhos de andorinhas. O santo tinha sempre as suas pálpebras de pedra descidas sobre o livro sagrado. Passavam as cavalgadas, os enterros silenciosos, os noivados, os cortejos, a pompa dos regimentos, e o santo lia atentamente o seu livro de pedra.

Vinham defronte dançar saltimbancos, passavam as frescas serenatas, vinham dos montes rebanhos e ceifeiras; o santo tinha os seus olhos de pedra sobre as paginas inertes. As devotas, lentas e desfalecidas, beijavam-lhe os pés nús, os homens severos saúdavam-o, as creanças olhavam-o com os seus grandes olhos inanimados, os cães ladravam-lhe á calva: o santo, curvado, seguia o espirito de Deus por entre as letras do livro.

Passavam os fardos, os mercadores crestados pela industria, os poetas languidos que desfalecem nas cançonetas, os histriões que cantam nos tablados, mulheres mais preciosas que o âmbar, os sábios, os mendigos, as virtuosas e as melodramáticas:--e o santo lia o seu livro profético.

Ora as torres gloriosas, as bandeiras, os ciprestes--ais de folhagem--os homens, perguntavam entre si:--«Que lê tão atentamente aquele santo, que nem sequer nos olha?» E os enxurros, que passam rosnando, diziam:--«Que lê tão devotamente aquele santo, que nem sequer nos escuta?»

Ora o santo lia assim. De noite, quando as bandeiras caém de sono, quando os homens estão cheios de comida e de inercia--a lua, que ao nascer é material e metálica como uma moeda de ouro nova, depois, na suavidade do azul, é tão pura, tão casta, tão imaculada, tão consoladora, como uma chaga de Cristo por onde se lhe visse a alma. A essas horas, uma criança, tão pobre e tão esfarrapada como o antigo pastor S. João, vinha deitar-se junto do nicho do santo. E então, o santo afastava um pouco o livro, e toda a noite ficava cobrindo, com a grande luz dos seus olhos, aquela criança miserável, adormecida sobre as lages.

Depois os planetas, a lua, a noite seguiam a sua viagem imensa para o oeste, e a leste começava uma claridade: eram as hesitações da luz do dia, medrosa por ter de descer ás misérias dos homens.

As bandeiras ainda estavam desfalecidas, sonhavam as árvores, a cidade dormia como outr'ora Sodoma. Acordavam então as andorinhas. Esvoaçavam gloriosas, gritando, e vinham sofregamente, em tumulto, poisar no nicho.

As andorinhas estavam nas intimidades e nas confidencias do santo.

Ora o vento, que passa pelos campos e pelas eiras, vem cheio de grãos e de sementes: a chuva cáe lúcida e fresca. O santo aparava a chuva nas prégas da capa, e os grãos nas paginas do livro. E as andorinhas, quando vinham para o nicho, bebiam na capa do santo e comiam sobre a Biblia de Deus. E, em quanto comiam e bebiam, gritavam, batiam com as azas nas barbas do santo, beijavam-se na sua boca, aninhavam-se-lhe entre os braços, cobriam-em o todo; e o sol, quando chegava, ficava maravilhado de vêr aquele pobre santo de pedra, que ele não conhecia do Paraíso, com os pés entre as hervas verdes, rindo, sereno, sob a luz imensa, e todo vestido de azas!

O homem entrou na casa arruinada e foi, através de pedras esverdeadas, de grandes humidades que escorriam, de madeiros apodrecidos, do muralhas leprosas de musgo, de escadarias miseráveis, até uma sala enorme, escura e trágica, e tão alta, que involuntariamente o olhar procurava as constelações em aquela sombra.

No fundo da sala havia um grande crucifixo de madeira. Sobre a cabeça macerada do Cristo, as traves pôdres do tecto abriam uma larga fenda. Por ali vinha a chuva escorrer-lhe nos cabelos como o antigo suor do Jardim das Oliveiras, vinham os granisos magoal-o como as pedras da paixão, vinha o sol alumial-o como a tocha de Judas, e a lua vinha, também, tornal-o mais livido, como em aquela noite em que ele, depois de ter visto a gente soluçante descer para Jerusalem, sentiu poisar na sua cruz um rouxinol que toda a noite cantou.

Sobre a cabeça e sobre os braços do Cristo havia teias de aranha; em baixo os ratos roíam-lhe a cruz.

Então o homem sentiu que aquele seio constelado, e aquela boca de onde saíu a revelação do amor, do perdão, e da alma, tinham o pó, a podridão, a caliça e os bichos; e que, se um dia Cristo, vendo o homem afflicto e miserável, lhe tinha arrancado da alma o mal, não era muito que o homem, encontrando Cristo abandonado, profanado e roído, lhe limpasse da cabeça as aranhas! Mas, quando ia a limpar a imagem, viu, sobre a cruz, junto da mão pregada, um milhafre enorme. O homem, com as mãos, quis arredar o milhafre.

E a ave, então, com a antiga voz dos animais da Biblia, do Apocalypse e dos livros dos profetas, disse surdamente: «Homem, deixa a cruz socegada!»

Através das fendas viam-se os astros sagrados. E o milhafre, batendo as azas, dizia:

«Deixa a cruz, deixa! Não tenhas medo que apodreça. Lá em cima luzem agora estrelas, sóis, planetas, cintilações, carbúnculos. É o pó dos Deuses mortos. Todos se finaram, histriões ensanguentados, e a sua farça acabou em desterros.

«Morreram velhos, expulsos, esfomeados e nús.

«Este ficou, solitário, alumiando. Ele perdoou enquanto os outros luctaram, ele amou enquanto os outros choraram: por isso fica enquanto os outros passam. Deixa. Esta cruz, que é de madeira, vale tanto como as que lá em cima fazem os raios dos astros, ou no silencio dos mirtos dois olhares bem-amados.

«Deixa as aranhas, o pó, a caliça, os bichos, a neve, a geada, o apodrecimento. Ele póde bem dar ás aranhas o seu corpo de madeira, pois que vos deu a vós o seu corpo de carne--a vós, que pregais com o mesmo riso e o mesmo esquecimento os morcegos no alto das janelas e o Cristo no alto dos montes; a vós, que lhe vindes limpar os cabelos de madeira depois de lhe ter arrancado os cabelos vivos; a vós, que quereis lavar as nodoas que ele tem no peito, e não vêdes as imundícies que tendes na alma. Tudo o que ele criou, o amor, o ideal, o perdão, a fé, o pudor, a religião, Deus, todo aquele evangelho da vida-nova anda pelo mundo, tão degradado, tão coberto de bichos, tão imundo como o seio de esta imagem antiga. A matéria, o impudor, o apetite rude, o ódio, o aviltamento, o trafico, a miséria e a penalidade, andam sujando a tua alma, ó homem! como as aranhas andam sujando a cabeça de este Cristo! E não reparais, e não vêdes, sobre os espíritos, sobre os corações, sobre as consciências, o pó, a caliça, o caruncho, os ratos e os vermes!

«Sim, é verdade: tudo é magnifico, e são, e banhado de sol. As cidades são limpas e caiadas, só as consciências é que tem nodoas; as praças estão cheias de iluminações, só os corações é que estão escuros; os cais estão arejados, só os espíritos é que sufocam; os corpos estão sãos, cobertos de estofos, frescos e resplandecentes, só as almas é que andam núas, miseráveis e leprosas. De resto, tendes o riso, a farça, os paraísos artificiais, as arcas venais, e também o esfriamento do tumulo! Oh amigos íntimos dos vermes, como vós cuidais do corpo, e o lavais, e o amaciais, e o engordais--para a pastagem escura das cóvas!

«Homem, que fizeste tu da alma? Ao principio não era conhecida, depois foi vendida, depois foi apupada; tu, modernamente, julgaste melhor matal-a--mas não certamente de cançaço com viagens a Deus! Déstel-a a despedaçar á negra matilha do mal. Em compensação, guardaste o corpo: para esse uma religião, um asilo forte como o sol, os sete selos da lei e a escolta dos regimentos. Esse é o sagrado, o imaculado, o pontifical, o victorioso. Prohibição a Deus de lhe tocar. Para ele palácios, cortejos, serralhos, estofos, pedrarias, o sol e a iluminação dos astros. Para ele a inviolabilidade: Não matarás!

«Começaram então as cruzes a ficar desertas, os cepos a encher-se de musgo, as forcas a apodrecer nos caminhos. Nós, os milhafres, e os nossos camaradas, os abutres, para quem já não havia corpos nos despenhadeiros, ladrões arroxeados pela corda, afogados disformes, deixamos os grandes montes e os rios, as vastas tradições do sangue, e viemos, para viver, aceitar, com os capões, a domesticidade nos parques resplandecentes, ou andamo-nos mostrando aos imbecis, pelas feiras, em uma gaiola! E as aves da noite, depois de terem visto a natureza imensa, as afflicções do vento, as nupcias do mar, de terem luctado nas tempestades e insultado as estrelas, veem, modestamente, comer bichinhos no saguão dos burguezes! Eu, que tinha estado entre a força, quis, ao menos, ficar entre a graça; e, depois de ter vivido na noite de Deus, quis, ao menos, morrer na madrugada de Jesus! E, entretanto, a alma morre esmagada e solitária, e a grande vida moderna, a vida do sol, da musica, dos metais, vai, entre fulgurações, pisando e cuspindo em aquela coisa miserável. E ainda está quente o sangue de Jesus!

«Homem, que fizeste tu do pensamento?

«Anda expulso, perseguido e sublime, como um Deus antigo. Cravaste-lho no seio as sete dôres. Coube-lhe a dor e o escárnio. É necessário que, nas cidades, os pensadores e os artistas extáticos sofram e sangrem: os triunfos dos homens da matéria são como os dos antigos imperadores--só são completos quando passam entre torturas. E quem havia de soluçar sobre a scena moderna da paixão, senão os que têm alma?

«Amam, sufocam, caém, agonisam, e entretanto vai passando a cohorte dos victoriosos e dos reluzentes, e as suas bolsas riem-se de aqueles corações, como os botões de ouro das suas camisas apupam a luz dos astros.

«E os que quiserem viver e tiverem a alma grande, bela e heroica, têm de se baixar á estatura burgueza e mercantil dos cérebros modernos. Os deuses olímpicos, se não se deixassem ajuizadamente finar nas florestas antigas, teriam de se empregar nas secretarias. O soberbo pavão de Juno viveria em um pomar dos arrabaldes. Homero seria localista. Os cavaleiros andantes roubariam lenços nos ajuntamentos, e o trágico S. Jeronymo seria presidente de uma junta de parochia. de este modo tu aceitas a arte, o pensamento, a alma. Não, arte, não te vás; a vida moderna dar-te-á uma libré resplandecente; vem, musica, tu que creaste a Alemanha, far-me-ás uma contradança; vem, architectura, tu que deste hospitalidade a Deus, far-me-ás uma estufa; vem, esculptura, tu que fizeste o povo dos deuses, ó bela esculptura! vem fazer-me um gavetão. Oh! tristes domesticidades do ideal!»

Houve um silencio. Havia na sala um ar mistico, como para a concepção de um Deus.

O milhafre esvoaçava. Ouvia-se o chorar de uma flauta. E o olhar do Cristo errava, contemplativo e atento, entre as estrelas inumeráveis, enquanto na escuridão, aos seus pés, os ratos lhe roíam a cruz.

«Vai-te, disse o milhafre. Os ratos róem a cruz, eu estou velho: a antiga geração das aves da noite vai-se. Os prégos já se despregam, a cruz apodrece. E quando ela se desfizer, atirarei o seu pó á grande natureza, ao elevar da lua, que vale o elevar da hóstia. Irei, oh meu Deus! para além dos sóis e dos caminhos lácteos, onde as constelações são gôttas de sombra, certo--eu que sou da vasta terra, o selvagem dos prados, a respiração dos antros, eu que sou a palpitação dos montes--certo de que, se os homens não derem a cruz aos Christos, não lha dará também a natureza. E eu, que roí as ossadas verdes, tendo visto sempre Este que fez o bem, que amou, que perdoou, pregado em uma cruz, irei também, entre os sóis meio doidos, eu, que devastei, e matei, e escorri do sangue, crucificar-me em um astro!»

Assim falou, lentamente, aquele milhafre filosófico e letrado, enquanto as violas gemiam, e os pobres tremiam de frio; assim falava, de cima de uma cruz, em uma sala legendaria, longe das maravilhas dos Cains burguezes, em estes tempos livres, sensatos, verdadeiros, magníficos, em que, como se não pódem pôr certas verdades na boca dos homens, tem de se dependurar do bico dos milhafres.

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