Entre a Neve
(A ANSELMO de ANDRADE)
O lenhador, pela madrugada, ergueu-se da enxerga e acendeu a candeia.
Junto da lareira, engelhado de frio, cavado de magresa, dormia um rapaz enrodilhado nos farrapos de uma manta. O pobre lenhador desfalecia de febre: até ao anoitecer da véspera andara pelo negro mato, e depois nem teve um magro caldo junto das somnolencias da lareira.
Iam grandes neves pelos montes, e o triste tinha filhos pequenos, que á noite, quando resavam, todos arripiados e magros, em redor da mãe, sufocavam no choró da fome: por isso, àquelas horas, por entre os nevoeiros moles, ele ia pelos montes, pelas colinas, pelos pinheirais, rachar, cortar e desramar, a ásperos ventos, na grande neve silenciosa.
O rapaz dormia com os pés inteiriçados e todos brancos da lama seca: tinha os grandes cabelos espalhados, e branco tinha o peito. A um canto, sobre esteiras bolorentas, cobertas com o saiote da mãe, as duas creanças dormiam com os cotovelos arroxeados--dissolvidas no sono do frio e da fome. O lenhador tirou a jaleca que levava para os montes, embrulhou-lhes os pés regelados, e com a candeia foi debruçar-se sobre a enxerga onde dormia a mulher: ela tinha o corpo colado ao fraco calor da enxerga como a um seio amado, os braços caidos e frouxos como os de uma mulher estéril: os seus cabelos negros espalhavam-se tristemente pela enxerga como um luto: e a manta esburacada modelava a fórma casta e fecunda dos seus peitos.
Então o lenhador tomou o machado negro e o feixe rijo das cordas, cobriu-se com o capuz de saragoça e foi-se lento, esfomeado e esquelético, pelos grandes caminhos, duros, lívidos e cobertos de nevoas.
O seu casebre ficava perdido ao pé dos montes, longe dos povoados, entre umas poucas de árvores que erguiam para o ar os seus braços negros, descarnados, nús e suplicantes.
Ali vivia aquela família transida dos frios, emagrecida das fomes, diante da neve e dos invernos, com os peitos cheios da religião do sol, das searas e das fecundidades sonoras e alumiadas--como coisas flamejantes e divinas, que estão tão longe como Deus, inacessíveis, na poeira da luz, entre os paraizos. O pai ia todos os dias para os grandes montes lidar entre a ramaria: a mulher, em casa, cosia os farrapos ao pé da lareira sem lume, e ao anoitecer ia para junto da porta desconjuntada dos ventos, gretada dos frios, vêr se, pelos atalhos enevoados, via chegar o marido, lento, curvado sob os grandes feixes de lenha.
O lenhador caminhava para as bandas dos montes.
A neve caia, levemente. A alma aconchegava-se dentro do corpo--como em um vestido santo, amedrontada pela dureza sobrenatural das coisas. Porque toda aquela natureza tinha estranhas barbaridades.
A manhã vinha escura, lenta e lacrimosa, como uma viúva á hora dos enterros: e á pouca luz tênue, os pedaços de gelo pendurados dos cardos e das urzes tinham o aspecto de farrapos de mortalhas: sobre as árvores imóveis, os pássaros, quietos e mudos, eriçavam as plumagens aos ventos cortantes.
O lenhador caminhava sempre, rasgando-se nas silvas, orvalhado dos pingos das árvores, pálido e sereno.
Ia lento. Pensava nos lavradores, que àquelas horas, nas terras quentes, saem, assobiando sob a noite religiosa e alumiada, entre as hervas altas, ao resplandecimento fecundo dos orvalhos, guiando pelos sulcos, enquanto as andorinhas gritam alegres e gloriosas, os bois fortes, lentos e bons. Ele tinha a mulher e os filhos esfomeados no casebre; desfazia-se em suores e em cansaços, e nem sempre aquelas faces amadas se enchiam das cores da vida. Era o frio, era a fome; nem uma manta nova, nem uma pouca de lã! O bom Deus, lá em cima, parece que está tão bem agasalhado ao calor dos seus paraizos e das suas estrelas, que se não lembra da pobre gente dos campos e dos montes que se arrepia de frio. E havia gente que via sempre os filhos bem quentes e bem córados!
Assim pensava o triste, caminhando, pesado, molhado e todo cheio de coisas dolorosas e mórbidas. A neve vinha descendo como um imenso desprendimento de lãs.
E ele pensava que podia ser um abastado dos campos, e vêr á noite, em volta da sua lareira flamejante e serena, toda a multidão dura dos ceifadores e dos semeadores, entre os bons risos, em redor da grande tijela de caldo, ao estalido das castanhas, na atitude dos bons e dos simples.
A neve ia caindo direita e vaga: e ouvia-se o rumor--indefinido como de um mar, laborioso como de uma colmeia--das multidões doentias dos pinheiros.
O pobre lenhador olhava em redor as grandes neves extensas, enoveladas nas pedras, esfarrapadas pelos cardos: e ás vezes um corvo, passando silencioso e nocturno, vinha bater o ar em redor de ele com uma selvagem palpitação de azas.
Começava a espalhar-se o dia. Ele sentia-se só entre aquela natureza inimiga e barbara; e por vezes o braço, enfraquecido da febre, vergava sob o machado e as cordas humidas.
Ele ia entrando pelo pinheiral, indolente. O pinheiral era cerrado, e a noite continuava ainda no encruzamento das ramagens lividas. A neve, que caía sobre os ramos, desfazia-se em orvalhos ao calor da seiva.
As árvores estavam como tomadas de um susto religioso.
Quando saíu do pinheiral, em caminho para os montes, lembrou-lhe quando ia para as escamisadas em uma aldeia do sul, e sob a luz apaixonada e melódica das constelações cantava á viola junto de uma dôce rapariga de testa santa e de cabelos cor de amora; e ele, o perdido, amolecia o olhar a passeal-o, pela abertura do lenço, sobre a brancura do colo de ela!
Hoje, àquelas horas, pensava ele, aquela pobre mulher gemia na sua alma, vendo os filhos, sem um bocado de pão, andarem pelo casebre humido, rotos, dependurando-se-lhe das saias, gemendo: mãe! mãe! E os olhos do desgraçado tremiam-lhe nas águas do choró.
O lenhador apertou o machado e entrou na floresta.
Os velhos carvalhos violentos e proféticos, os choupos desfalecidos, os castanheiros ruidosos, os olmos gigantescos, as ramagens e os silvados eriçados onde o vento brada afflicto, todas aquelas verduras vivas e sãs que cantam ao sol, no empoeiramento da luz cruá--toda aquela sombria Diana esguedelhada, que se chama a floresta, dormia sob as opressões da neve, triste, silenciosa, estoica e soberba.
O lenhador, com o machado erguido, ia por entre a floresta; ele conhecia aquelas estranhas atitudes, aqueles escarpamentos de neve, as faces pensadoras dos rochedos, todo o emaranhamento de ramos, de folhas, de onde caém gotas como um echo de chuvas passadas: e todavia, ao endireitar-se contra um velho carvalho, empalideceu, como diante de uma profanação.
O seu coração simples e bom não comprehendia, mas sentia aquelas vidas imóveis, silenciosas e sonoras, que são árvores, ramagens, arbustos, florescências; ele tinha compaixão dos gemidos dos troncos, das cascas esmigalhadas, das fibras dilaceradas, e sentia que sacrificava ali, á fome dos filhos, vidas infinitas de árvores.
O lenhador atirou o machado contra o tronco do carvalho--e toda a árvore imensa ficou tomada de vibrações dolorosas: e as suas ramagens estenderam-se caidas, sem vida e sem força, pelo tronco, como para se vêrem morrer sem gemidos, em um silencio soberbo e selvagem.
O sol veio livido, mole, desfalecido, sem força, sem vitalidade, sem ascenção flamejante e sagrada, entre nevoas arrastadas, entre esvaecimentos lúgubres de nuvens. Começavam a esvoaçar os pássaros, piando tristemente.
E o lenhador, com o peito arqueado, os cabelos desmanchados, vermelho, feroz, com o machado erguido nas mãos, com trágicos encarniçamentos, luctava contra os troncos, contra os ramos, contra as raízes, contra as duras cortiças e os filamentos tenazes; e enchia o chão de ramagens negras, de braços mortos de árvores, caidos e inertes como armaduras vencidas.
Aquelas árvores que tanto tempo levaram a formar-se, e a enrijar, e a acostumar-se aos ventos tumultuosos, e a saber agarrar as clinas da chuva, e a enlaçar as moles nudezas das nevoas e dos vapores, aquelas árvores cheias das mordeduras de novembro, cheias de legenda e do cheiro das tormentas, encolhiam os ramos em um estremecimento medroso quando o machado reluzia lugubremente no ar.
Ele tinha a camisa solta e esfarrapada: os socós faziam covas na neve: e, esfomeado, terrível, ia a grandes passos pela floresta, rasgando os silvados, esmigalhando as raízes, envolto em estilhas, em fibras partidas, com gestos trágicos, afastando com o machado o vôo dos córvos; e, todo cheio do amor dos filhos, torturava as árvores, com golpes flamejantes, gritando-lhes: covardes!
Assim lidou sob a neve, e o vento, e a chuva, e a humidade, e as nevoas, e a febre, e a dor, até ao anoitecer.
Tinha já um monte de ramagens e de lenhas: enfeixou-o nas cordas, duras como os seus braços: encravou no meio o machado: o feixe enorme estava encostado a um monte de neve: as duas pontas da corda por onde ele o havia de erguer, pendiam negras e humidas: então curvou-se todo para tomar o feixe sobre as costas largas: mas quando o ia a erguer, lento e cansado, sentiu os músculos afrouxarem, as mãos esfriarem, subiu-lhe um desfalecimento, e caiu, com os cabelos suados e colados á testa; e os seus dedos inteiriçados esburacaram a neve.
Assim esteve perdido na moleza do esvaecimento, até que abriu os olhos vagarosos, e ficou-se encostado ao feixe, silencioso e cheio de tremuras.
Vinha-se derramando a noite, desciam as neblinas: todo o ar estava tomado de uma palidez opaca e severa: caía uma chuva vaporisada: todo o chão estava pesado de neve.
Ao pé do lenhador estava estendido um grande tronco engelhado, morto, sem raízes, sem ramagem, sem seiva: por um lado começava a desfazel-o a podridão.
Em redor erguiam-se as multidões de árvores cobertas de neve, adelgaçadas entre as transparências do nevoeiro, tristes e nocturnas como monges brancos.
Ao fundo abria-se uma clareira, que deixava vêr ao longe a grande luz, que se ia, serena e tímida.
O lenhador, com o pescoço nú, o peito dolorido e ensopado, agarrou as cordas do feixe e, enrijando os músculos, com a face congestionada, as fontes inchadas, as grandes veias saídas como cordagens, e as pernas hirtas, violentou o corpo para se erguer. Mas caíu sobre a neve, amolecido, sufocado, e coberto das friezas humidas da febre.
Então ficou-se a olhar o tronco esfolhado, nú, coberto de neve, e a pensar que o seu corpo ia ali finar-se e dissipar-se entre as podridões dos troncos.
E toda a sua carne foi tomada por uma vibração terrível. Tinham-lhe lembrado os filhos e a mulher, e o pobre pastor que lhe sacudia, quando ele entrava, a neve dos cabelos e as silvas da jaleca.
A neve caía triste. Àquelas horas ela esperava, junto da porta, a vêr se o via ao longe chegar, curvado debaixo dos seus feixes, pelos caminhos brancos de neve.
Ela estaria com uma mão apoiada á hombreira, e com a outra agazalhando as creanças nas dobras da saia, contra os frios da noite.
E ele estava ali só, esmagado, sob a neve implacavel!
E quando o não vissem vir?! E ele procurava na memoria se já alguma vez teria ficado de noite pelos montes. Nunca.
Se o não vissem chegar, iriam todos, chorando e bradando, com a candeia acobertada do vento, procurá-lo pelas urzes sinistras.
Ás vezes tomava-o o desvairamento, e via grandes figuras de sombra subirem pelos troncos como um fumo terrível; e sempre aquele enovelamento de similhanças humanas subia até se perder nas transparências lividas do ar.
A neve caía como escorrida das nuvens.
E ele pensava, triste, que a mulher e os filhos saberiam a sua morte na neve, sob o encruzamento irado das folhagens, e todas as mordeduras da ventania, silencioso e solitário como um lobo!
Então aquele corpo, pisado, rôxo, tiritando entre as roupas molhadas, dissolvido nas molezas da nevoa, inteiriçou-se; com os olhos flamejantes, os dentes irados, tomado de risos, esfarrapado dos cardos, endireitou-se e, sufocado, esguedelhado, hirto, livido, deu um grito na noite.
Houve um levantamento assustado de pássaros por toda a ramagem escura. E veio um vento e levou, nas suas espirais violentas, um enovelamento de folhas. E toda a luz do dia se sumiu na clareira. Não havia ninguém pelo monte. Estava só. Só! Nem pastores, nem vaqueiros, nem caminheiros perdidos. Só! E iam-se os pássaros, iam-se as folhas, ia-se a luz. Ele ficava só.
Então, vendo em redor a floresta solitária e negra, a amontoação crescente das sombras, o esvaecimento livido dos últimos ramos, as atitudes tenebrosas, as corcovas nocturnas das raízes, sentindo ao longe o uivo dos lobos e por cima da cabeça o esvoaçar dos córvos, estirou-se de bruços e bradou, na noite, sob a neve e o ruido dos ramos:--Jesus!
E toda a floresta ficou silenciosa, indiferente, soberba; os córvos voaram gritando; ele caíu, fraco, desalentado, roto, agonizante, macerado; e de cima o grande céu, o céu justo, o céu sereno, o céu sagrado, o céu consolador cuspia neve sobre aquela carne miserável.
E ficou inerte. A neve caía desfeita e branca. Estava estirado. Via por cima a grande imobilidade da floresta, os nevoeiros, que deixavam caír farrapos que lhe vinham roçar o rosto, e a sombra espectral do feixe de lenha.
Ele sentia o corpo entorpecido pelo frio, e na testa e nos olhos abrazamentos mordentes: e parecia-lhe que lhe mordia as costas uma chaga imensa, que tivesse terríveis ardores ao contacto da neve, sob o peso do corpo.
Ás vezes soluçava. E, quando assim estava, viu grandes sombras que lhe esvoaçavam sobre a cabeça e fugiam bradando afflictas, com um terrível ruido de azas, esbranquiçadas da neve, apavoradas e ferozes.
Eram os córvos. Tremeu todo. Ele entrevia-os já quando eles viessem pousar-lhe sobre o peito, e curvados, batendo as azas, meio suspensos, enterrar-lhe os bicos negros na pobre carne.
Então moveu dolorosamente o braço entorpecido e apalpou em redor: encontrou um ramo solto, negro, espinhoso: lançou-o contra as sombras negras dos córvos; mas ele tinha a mão quase inanimada pelo frio, e o ramo, debilmente arremessado, veio-lhe caír sobre a face, e rasgou-lhe a carne com os espinhos. Já, porém, as mãos inertes não tiveram força para o tirar.
E pôs-se a chorar. Os córvos voavam terríveis: ele enterrava o pé na neve e atirava-a para o ar, como para os apedrejar. Os córvos desciam.
A neve caía e já lhe cobria as pernas hirtas. Ele então, vendo a floresta que o ensopava de água, o chão que lhe coalhava a vida, o vento que o transia, a neve que o enterrava, os córvos que vinham comêl-o, todas as hostilidades selvagens das coisas, encheu-se de cóleras, e, silencioso, feroz, com os olhos luzentes na noite, deitou rijamente a cabeça sobre o feixe--e pôs-se a morrer.
Então veio repentinamente um vento tumultuoso: e pareceu ao pobre lenhador sentir, em aquele vento, o som de um choró e uma voz bradando afflicta.
O vento redobrou de fúria: dispersou os córvos: eles balançavam-se nas azas entre os redemoinhos do sopro feroz.
A neve caía: e os braços do lenhador já estavam cobertos, e todo o peito estava coberto. Os córvos fugiam: e todo o bando aparecia como uma sombra indecisa e pesada.
A neve caía. E estava coberta a garganta do homem, e estava coberta a boca.
Os córvos iam-se sumindo nas transparências da noite...
A neve caía, contínua, silenciosa. A testa do pobre estava coberta, e apenas se moviam ainda, lentamente, ao vento, os seus grandes cabelos escuros.
A neve riscava a noite de branco. Ao longe uivavam os lobos.
E a neve descia. As sombras dos córvos sumiram-se para além das ramas negras.
Os cabelos desapareceram. Só ficou a neve!