O Senhor Diabo Prosas Bárbaras · Capítulo 12 de 17
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O Senhor Diabo

Conhecem o Diabo? Não serei eu quem lhes conte a vida de ele. E todavia sei de cor a sua legenda trágica, luminosa, celeste, grotesca e suave!

O Diabo é a figura mais dramática da Historia da Alma. A sua vida é a grande aventura do Mal. Foi ele que inventou os enfeites que enlanguescem a alma, e as armas que ensanguentam o corpo. E todavia, em certos momentos da historia, o Diabo é o representante imenso do direito humano. Quer a liberdade, a fecundidade, a força, a lei. É então uma especie de Pan sinistro, onde rugem as fundas rebeliões da natureza. Combate o sacerdócio e a virgindade; aconselha a Cristo que viva, o aos misticos que entrem na humanidade.

É incomprehensivel: tortura os santos e defende a egreja. No século XVI é o maior zelador da colheita dos dízimos.

É envenenador e estrangulador. É impostor, tirano, vaidoso e traidor. Todavia conspira contra os imperadores da Alemanha: consulta Aristóteles e Santo Agostinho, e suplicia Judas que vendeu Cristo, e Brutus que apunhalou Cesar.

O Diabo ao mesmo tempo tem uma tristeza imensa e doce. Tem talvez a nostalgia do céu!

Ainda novo, quando os astros lhe chamavam Lucifer, o que leva a luz, revolta-se contra Jehovah, e comanda uma grande batalha entre as nuvens.

Depois tenta Eva, engana o profeta Daniel, apupa Job, tortura Sara, e em Babylonia é jogador, palhaço, difamador, libertino e carrasco. Quando os deuses foram exilados, ele acampa com eles nas florestas humidas da Gália e embarca expedições olímpicas nos navios do imperador Constancio. Cheio de medo diante dos olhos tristes de Jesus, vem torturar os monges do Ocidente.

Escarnecia S. Macario, cantava psalmos na egreja de Alexandria, oferecia ramos de cravos a Santa Pelagia, roubava as galinhas do abbade de Cluny, espicaçava os olhos a S. Sulpicio e á noite vinha, cançado e empoeirado, bater á portaria do convento dos dominicanos, em Florença, e ia dormir na cela de Savonarola.

Estudava o hebreu, discutia com Lutero, anotava glosas para Calvino, lia atentamente a Biblia e vinha ao anoitecer para as encrusilhadas da Alemanha jogar com os frades mendicantes, sentado na relva, sobre a sela do seu cavalo.

Intentava processos contra a Virgem: e era o pontífice da missa negra, depois de ter inspirado os juízes de Socrates. Nos seus velhos dias, ele que tinha discutido com Átila planos de batalha, deu-se ao pecado da gula.

E Rabelais, quando o viu assim, fatigado, engelhado, calvo, gordo e somnolento, apupou-o. Então o demonógrafo Wier escreve contra ele panfletos sanguinolentos, e Voltaire criva-o de epigramas.

O Diabo sorri, olha em roda de si para os calvários desertos, escreve as suas memorias, e em um dia enevoado, depois de ter dito adeus aos seus velhos camaradas, os astros, morre enfastiado e silencioso.

O Diabo foi celebrado pelos sábios e pelos poetas. Proclus ensinou a sua substancia, Presul as suas aventuras da noite, S. Tomás revelou o seu destino. Torquemada disse a sua maldade, e Pedro de Lancre a sua inconstância jovial. João Dique escreveu sobre a sua eloquência e Jacques I, de Inglaterra, fez a corografia dos seus estados. Milton disse a sua beleza e Dante a sua tragedia. Os monges ergueram-lhe estatuas. O seu sepulchro é a natureza.

O Diabo amou muito.

Foi namorado gentil, marido, pai de gerações sinistras. Foi querido, na antiguidade, da mãe de Cesar, e na meia-edade foi amado da bela Olympia. Casou no Brabante com a filha de um mercador. Tinha entrevistas languidas com Fredegonda, que assassinou duas gerações. Era o namorado das frescas serenatas dadas ás mulheres dos mercadores de Veneza.

Escrevia melancolicamente ás monjas dos conventos da Alemanha.

Feminæ in illius amore delectantur, diz tragicamente o abbade Cesar de Helenbach. No século XII tentava com olhares cheios de sol as mães melodramáticas dos Burgraves. Na Escossia havia grande miséria sobre os montes: o Diabo comprava por 15 schellings o amor das mulheres dos highlanders, e pagava-lhes com o dinheiro falso que fabricava em companhia de Philippe I, de Luiz VI, de Luiz VII, de Philippe o Belo, do rei João, de Luiz XI, de Henrique II, com o mesmo cobre de que se faziam as caldeiras onde eram cosidos vivos os moedeiros falsos.

Mas eu quero só contar a historia de um amor infeliz do Diabo, nas terras do norte.

Oh mulheres! vós todas que tendes dentro do peito o mal que nada cura, nem os simples, nem os balsamos, nem os orvalhos, nem as resas, nem o pranto, nem o sol, nem a morte, vinde ouvir esta historia florida!

Era na Alemanha, onde nasce a flôr do absinto.

A casa era de pau, bordada, rendilhada, cinzelada, como a sobrepeliz do senhor arcebispo de Ulm.

Maria, clara e loura, fiava na varanda, cheia de vasos, de trepadeiras, de ramagens, de pombas e de sol. No fundo da varanda havia um Cristo de marfim. As plantas limpavam piedosamente, com as suas mãos de folhas, o sangue das chagas; as pombas, com o calor do seu colo, aqueciam os pés doloridos. No fundo da casa, o pai de ela, o velho, bebia a cerveja de Heidelberg, os vinhos de Itália, e as cidras da Dinamarca. Era vaidoso, gordo, somnolento e mau.

E sempre a rapariga fiava. Preso á roca por um fio branco, sempre o fuso saltava; preso ao seu coração por uma tristeza, sempre pulava um desejo.

E todo o dia fiava.

Ora debaixo da varanda passava um lindo moço, delicado, melodioso e tímido. Vinha e encostava-se ao pilar fronteiro.

Ela, sentada junto do crucifixo, cobria os pés de Jesus com os seus grandes cabelos louros.

As plantas, as folhagens, em cima, cobriam de frescura e de sombra a cabeça da imagem. Parecia que toda a alma de Cristo ali estava--consolando, em cima, sob fórma de planta, amando, em baixo, sob fórma de mulher.

Ele, o branco moço, era o peregrino de aquela santa. E o seu olhar procurava sempre o coração da doce rapariga, e o seu olhar de ela, séria e branca, ia procurar a alma do caro bem amado.

Os olhos investigavam as almas. E vinham radiosos, como mensageiros de luz, contar o que tinham visto. Era um encanto!

--Se tu soubesses!--dizia um olhar.--A alma de ela é imaculada.

--Se tu visses!--dizia o outro.--O coração de ele é sereno, forte e vermelho.

--É consolador, aquele peito onde ha estrelas!...

--É purificador, aquele seio onde ha bençãos!

E olhavam ambos, silenciosos, extáticos, perfeitos. E a cidade vivia, as árvores rosnavam sob o balcão dos eleitores, a trompa de caça soava nas torres, os cantos dos peregrinos nas estradas, os santos liam nos seus nichos, os diabos escarneciam na grimpa das egrejas, as amendoeiras tinham flôr, e o Reno cantigas de ceifeiras.

E eles olhavam-se, as folhagens aninhavam os sonhos, e Cristo aninhava as almas.

Ora, uma tarde, as ogivas estavam radiosas como mitras de arcebispos, o ar estava meigo, o sol descido, os santos de pedra estavam corados, ou dos reflexos da luz, ou dos desejos da vida. Maria, na varanda, fiava a sua estriga. Jusel, encostado ao pilar, fiava os seus desejos.

Então, no silencio, ao longe, ouviram gemer a guitarra de Inspruck, que os pastores de Helyberg enroscam de hera, e uma voz robusta cantar:

Os teus olhos, bem amada,

São duas noites cerradas.

Mas os lábios são de luz.

Lá se cantam alvoradas.

Os teus seios, minha graça,

São duas portas de cêra.

Fora a minha boca um sol,

Como ele as derretêra!

Os teus lábios, flôr de carne,

São portas do paraíso:

E o banquinho de S. Pedro

É no teu dente do sizo.

Queria ter uma camisa

de um tecido bem fiado,

Feita do todos os ais

Que o teu peito já tem dado.

Quando nos fôrmos casar,

Canta missa o rouxinol.

E o teu vestido de noiva

Será tecido de sol!

A benção nos deitará

Algum antigo carvalho!

E por enfeites de boda

Teremos gotas de orvalho!

E, ao cimo da rua, apareceu um homem forte, de uma palidez de mármore. Tinha os olhos negros como os dois sóis legendários do paiz do Mal. Negros eram os cabelos, poderosos e resplandecentes. Tinha presa ao peito do corpete uma flôr vermelha de cactus.

Atraz vinha um pagem perfeito como uma das antigas estatuas, que fizeram na Grecia a lenda da beleza. Andava convulsivamente como se ferisse os pés no lagedo. Tinha os olhos inertes e fixos dos Apolos de mármore. Dos seus vestidos saía um cheiro a ambrozia. A testa era triste e serena como as dos que têm a saudade imortal de uma pátria querida. Trazia na mão uma amphora esculpida em Mileto, onde se sentia a suavidade dos nectares olímpicos.

O homem da palidez de mármore veio até junto da varanda, e, entre as suplicas gemidas de guitarra, disse sonoramente:

--A gentil moça, a linda Yseult da varanda, deixa que estes beiços de homem vão como dois peregrinos corados de sol, em doce romaria de amor, das suas mãos ao seu colo?

E olhando para Jusel, que desfolhava uma margarida, cantou lentamente, com grandes risadas frias e metálicas:

Quem depena um rouxinol

E rasga uma triste flôr,

Mostra que dentro do peito

Só tem farrapos de amor.

E ergueu para a varanda os seus olhos terríveis e desoladores, como blasfêmias de luz. Maria tinha levado a sua roca e só havia na varanda as aves, as flôres e Jesus!

--A toutinegra voou--disse jovialmente.

E indo para Jusel:

--É que talvez sentisse a vizinhança do abutre. Que diz o Bacharel?

Jusel, com os olhos serenos, desfolhava a margarida.

--No meu tempo, senhor Suspiro,--disse o homem dos olhos negros, cruzando lentamente os braços--já havia aqui duas espadas, a fazer rebentar na sombra flôres de faíscas. Mas os heróis vão-se, e os homens nascem cada vez mais da dor das mulheres. Vejam isto! É um coração com gibão e gorra. Mas coração branco, pardo, alvacento, de todas as cores, menos vermelho e solido. Pois bem! Aquela rapariga tem uns cabelos louros que dizem bem com os meus cabelos pretos. As cintas delgadas querem os braços fortes. Os lábios, vermelhos de desejo, gostam das armas vermelhas de sangue. É minha a dama, senhor Bacharel!

Jusel tinha descido as suas grandes pálpebras elegíacas, e via as pétalas arrancadas da margarida caírem como desejos assassinados, desprendidos do seu peito.

O homem dos olhos resplandecentes tomou-lhe rijamente a mão:

--Bacharel Ternura--disse--ha aqui perto um logar onde os goivos nascem expressamente para os inocentes que morrem. Se tens alguns bens a deixar, recomendo-te este excelente Rabil.--Era o pagem.--É necessário proteger as aves da noite. Os abutres bocejam desde que findou a guerra. Vou-lhes dar ossos tenros. Se queres deixar o coração á bem amada, á moda dos trovadores, eu me encarrego de lho trazer, bem embalsamado em lama, na ponta da espada! Tu és formoso, amado, branco, delicado, perfeito. Vê-me isto, Rabil! E uma farça bem feita ao Compadre lá de cima dos sóis, dilacerar-lhe esta beleza! Se namoravas alguma Estrela, eu lhe mandarei, por bom portador, os teus últimos adeuses. Em quanto aos sacramentos, são inúteis: eu me encarrego de te purificar pelo fogo. Rabil, toca na guitarra o rondó de defuntos: anuncia no Inferno o Bacharel Suspiro! A caminho, meus filhos! Ah! Mas em duelo secreto, armas honradas!

E batendo heroicamente nos copos da espada:

--Eu tenho aqui esta debilidade: onde está a tua força?

--Ali!--respondeu Jusel, mostrando Cristo na varanda das plantas e das pombas, alumiado pelo sol que descia, branco entre a folhagem, agonizante entre as palpitações das azas.

--Ah!--disse cavamente o homem da flôr de cactus.--A mim, Rabil! Lembras-te de Acteon, de Apolo, de Derceto, de Inachus e de Marte?

--Eram os meus irmãos...--disse lentamente o pagem, hirto como uma figura de pedra.

--Pois bem, Rabil, para a frente, através da noite! Cheira-me aqui ás terras de Jerusalem!

E sumiram-se debaixo das arcarias e das pilastras, sinistros, soluçando.

Na noite seguinte, havia pela Alemanha um grande luar purificador. Maria estava debruçada na varanda. Era a hora celeste em que os jasmins concebem. Em baixo, o olhar de Jusel, que estava encostado ao pilar, suspirava para aquele corpo feminino e branco, como nos jardins a água, que sobe em repuxo, suspira murmurosamente para o azul.

Maria disse suspiradamente:

--Vem.

Jusel subiu á varanda, radioso. Sentaram-se ao pé da imagem. O ar estava tão sereno como na pátria das almas. Os dois corpos dobravam-se, um para o outro, como se os estivessem aproximando os braços de um Deus.

As folhagens escuras, que envolviam o Cristo, estendiam-se sobre as duas cabeças louras com gestos de benção. Havia na moleza das sombras um mistério nupcial. Jusel tinha as mãos de ela presas como pássaros captivos, e dizia, com a voz humilde dos corações primitivos:

--Queria bem vêr-te, assim, ao pé de mim. Se soubesses! Tenho receios infinitos. És tão loura, tão branca! Tive um sonho que me assustou. Era em um campo. Tu estavas de pé, imóvel: ouvia-se um coro que cantava dentro do teu coração! Em redor andava uma dança nebulosa de espíritos. E diziam uns:--Aquele coro é de mortos: são os amantes infelizes que choram no coração de aquela mulher.--Outros diziam:--São as tristezas dos minnesingers errantes que ali soluçam.--Outros diziam:--Sim, aquele coro é de mortos: são os nossos deuses queridos que choram ali do exílio.--E então eu adiantei-me e disse:--Sim, sim, aquele coro é de mortos: são os desejos que ela teve por mim, que se lembram e que gemem.--Que sonho tão mau, tão mau!

--Porque estás tu--dizia ela--todos os dias encostado ao pilar, com as mãos quase postas?

--Estou a ler as cartas de luz que os teus olhos me escrevem.

Calaram-se. Eles eram, em aquele momento, a alma florida da noite.

--Quais são os meus olhos? quais são os teus olhos?--dizia Jusel.--Nem eu sei!

E ficaram calados. Ela sentia os desejos, que se desprendiam dos olhos de ele, virem, como pássaros feridos que gemem, cair no fundo da sua alma, sonorosamente.

E inclinando o corpo:

--Conheces meu pai?--disse ela.

--Não. Que importa?

--Ai, se tu soubesses!...

--Que importa? Estou aqui. Se ele te quer bem, há de gostar de este meu amor, sempre aos teus pés como um cão. O que quero eu? Ter a tua alma presa, bem presa, como um pássaro cativo. Esta paixão toda deixa-te tão imaculada, que se morresses podias ser enterrada na transparência do azul. Os desejos são uma hera: queres que os arranque? Tu és o pretexto da minha alma. Se me não quizesses, deixava-me andar esfarrapado. Por eu entrar no teu coração, não tires nada de ele, não? Tens lá a fé de Jesus, e a saudade de tua mãe: deixa estar: damo-nos todos bem, lá dentro, contemplando o interior do teu olhar, como um céu constelado. O que quero eu de ti? As tuas penas. Quando chorares, vem a mim. Farei a alma em farrapos para tu limpares os olhos. Queres tu? Casemo-nos no coração de Jesus! Dá-me essa agulheta, que te prende o cabelo. Será a nossa estola.

E com a ponta da agulheta, de pé, junto da imagem, afastando os ramos, transfigurado e celeste, gravou sobre o peito de Cristo as iniciais dos dois nomes enlaçados--J. e M.

--É o nosso noivado!--disse ele.--O céu atira-nos os astros, confeitos de luz. Cristo não se esquecerá de este amor que chora aos seus pés. As exhalações divinas que saírem do seu peito aparecerão, lá em cima, com a fórma das nossas letras. Deus saberá este segredo. Que importa? Eu já lho tinha dito, a ele, ás estrelas, ás plantas, aos pássaros, ás florescências; porque, vês tu? as flôres, as constelações, as pombas, tudo isto, toda esta efusão do bondade, de inocência, de graça, era simplesmente, oh adorada! um eterno bilhete de amor que eu te escrevia!

E ajoelhados, extáticos, calados, eles sentiam misturar-se ao seu coração, ás suas confidencias, aos seus desejos, toda a vaga e imensa bondade da religião da Graça.

E as suas almas falavam, cheias de mistério:

--Vês tu?--dizia a alma de ela.--Quando te vejo, parece que Deus diminue, e se contráe, e se vem aninhar todo no teu coração; quando penso em ti, parece-me que o teu coração se alarga, se estende, abrange o céu e os universos, e encerra por toda a parte Deus!

--O meu coração--suspirava a alma de ele--é uma concha. O teu amor é o mar. Muito tempo esta concha viverá afogada e perdida em esse mar. Mas, se tu me expulsares de ti, como em uma concha abandonada se ouve ainda o rumor do mar, no meu coração abandonado se escutará sempre o susurro do teu amor!

--Olha--dizia a alma de ela--eu sou como um campo. Tenho árvores e relvas. O que ha em mim de maternidade é árvore para te cobrir, o que ha em mim de paixão é relva para tu pisares!

--Sabes tu?--dizia a alma de ele.--No céu ha uma floresta invisivel de que apenas se veem as pontas das raízes, que são as estrelas. Tu eras a toutinegra de aqueles arvoredos. Os meus desejos feriram-te. Eu, ha muito que te vejo vir caindo pelo ar, gemendo, resplandecente, se o sol te alumia, triste, se a chuva te molha. Ha muito que te vejo vir descendo: quando cairás tu nos meus braços?...

E as duas almas, desprendidas dos corpos bem-amados, subiam deslumbradas, ineffaveis, ternas: confundidas, tinham o céu por elemento, os seus risos eram os astros, a sua tristeza a noite, a sua esperança a madrugada, o seu amor a vida, e, sempre mais ternas e mais vastas, envolviam tudo o que do mundo sóbe de justo, de perfeito, de casto, as orações, os prantos, os ideais, e estendiam-se por todo o céu, unidas e imensas--para Deus passar por cima!

E então, á porta da varanda, houve uma risada metálica, imensa e sonora. Eles ergueram-se resplandecentes, puros, vestidos de graça. Á porta estava o pai de Maria, hirto, gordo, sinistro. Atraz, o homem de palidez de mármore balançava vaidosamente a pluma escarlate da gorra. O pagem ria, fazendo uma claridade na sombra.

O pai foi lentamente para Jusel e disse, com escárnio:

--Onde queres ser enforcado, vilão?

--Pai, pai!--gritou Maria afflicta, com uma convulsão de lagrimas, enlaçando o corpo do velho.--Não. É meu marido, casamos as almas! Olhe, ali está. Veja. Ali, na imagem!...

--O que?...

--Ali, no peito. Veja. Os nossos nomes enlaçados como em uma escritura. Veja. É meu marido! Só me quer bem. Mas veja. Sobre o peito de Jesus, no logar do coração. Mesmo sobre o coração! E ele, o doce Jesus, deixou que lhe fizessem mais esta ferida!

O velho olhava as letras enlaçadas como uns esponsais divinos que se tinham refugiado no seio de Cristo.

--Raspa, meu velho, que isso é marfim!--gritou o homem dos olhos negros.

O velho foi para a imagem com a faca do cinturão. Tremia. Ia arrancar as raízes de aquele amor, até ao peito imaculado de Jesus!

E então a imagem, sob o justo e incorruptivel olhar da luz, despregou uma das suas mãos feridas, e cobriu sobre o peito as letras desposadas.

--É ele, Rabil!--gritou o homem da flôr de cactus.

O velho soluçava.

E então o homem pálido, que tocava na guitarra de Inspruck, onde os pastores de Helyberg enroscam heras, veio tristemente junto da imagem, enlaçou os braços dos namorados, como se vê nas velhas estampas alemãs, e disse ao pai:

--Abençôa-os, velho!

E saíu, batendo rijamente nos copos da espada.

--Mas quem é?...--disse o velho apavorado.

--Mais baixo!--disse o pagem da amphora de Mileto.--É o Senhor Diabo!... Mil desejos, meus noivos!

Pelas horas da madrugada, na estrada de Vecker, onde as cerejeiras luzem, o homem dos grandes cabelos negros dizia ao pagem branco como os Apolos do mármore:

--Estou velho. Vai-se-me a vida. Sou o último dos que combateram nas estrelas. Os abutres já me apupam. É estranho: sinto nascer cá dentro, no peito, um rumor de perdão. Gostava de aquela rapariga. Lindos cabelos louros, quem vos dera no tempo do céu! Já não estou para aventuras de amor! A bela Imperia diz que eu me vendi a Deus!

--A bela Imperia!--disse o pagem.--As mulheres! vaidades, vaidades! As mulheres belas foram-se com os deuses belos. Hoje os homens são misticos, frades, santos, namorados, trovadores! As mulheres são feias, avaras, magras, burguezas, vestidas de burel, cingidas de cilícios, com uma pouca de alma incomoda, e uma carne tão diáfana, que se vê através o lodo primitivo! Miserias! Ai Atenas! Corintho! Mileto! Tenedos! Abydos!

--Vou achando risível a obra dos Seis Dias! As estrelas tremem de medo e de dor. A lua é um sol fulminado. Começa a escassear o sangue pelo mundo e a aparecer muito a tinta. Eu tenho gasto o mal. Fui prodigo. Se eu no fim da vida tinha de me entreter perdoando e consolando--para não morrer de tédio! Fica-te em paz, mundo! Sê infame, lamacento, podre, vil e imundo--e sê todavia um astro no céu, impostor! E contudo o homem não mudou. É o mesmo. Não viste? Aquele, para amar, feriu com uma agulheta o peito da imagem. Como nos antigos tempos, o homem não começa a gozar um bem, sem primeiro rasgar a carne a um Deus! É esta a minha última aventura. Vou para o meio da natureza, para junto do livre mar, pôr-me socegadamente a morrer.

--Também os diabos se vão! Adeus, Satan!

--Adeus, Ganymedes!

E o homem e o pagem separaram-se na noite.

A poucos passos o homem encontrou um cruzeiro de pedra.

--Estás também deserto!...--disse, olhando para a cruz.--Os infames pregaram-te e voltaram-te as costas! Foste maior que eu! Soffreste calado.

E sentando-se nos degraus do cruzeiro, enquanto vinha a madrugada, afinou a guitarra e cantou, no silencio:

Quem vos desfolhou, estrelas,

Dos arvoredos da luz?

E com uma grande risada melancólica:

Chegará o outono ao diabo?

Virâ o inverno a Jesus?

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