Os Mortos Prosas Bárbaras · Capítulo 6 de 17
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Os Mortos

Ontem foi o dia dos mortos. Os mortos são felizes. Enquanto nas dolentes celebrações da Igreja, ao pé dos altares luzentes, diante do Jesus rôxo e descarnado, os tristes e os simples rezam pelos seus queridos mortos, eles andam dispersos pela grande natureza, pelas florestas esguedelhadas, pelas espessuras sonoras, pelas uberdades da seiva, pelos sulcos fecundos, por todas as verduras de acre cheiro.

A sua carne sofreu, empalideceu com os medos, emagreceu com as febres, engelhou-se com os frios; mas agora anda, repousada e sã, pelas frescas vegetações, pelos fructos coloridos, na luz selvagem e vital do sol, nos átomos da noite constelada e suave.

Os que morreram nos apodrecimentos das febres desfizeram-se no seio da terra planturosa, foram sugados pelas raízes e, confundidos com a seiva, vêm outra vez para o sol, em fórma de fructos, de corolas, de ramagens ondulosas.

Os que morreram sobre as águas do mar, desfazem-se entre as verdes profundidades, entre as areias, os corais, as conchas, os rochedos, e vêm depois, sob a fórma de ondas, embalar-se serenos ao sol, ou de noite estirar-se ao peso da moleza que escorre dos astros, ou de madrugada, cantando com barbaridades de rainhas e doçuras de santas, acalentar o povo dos pescadores, silencioso e trigueiro.

Os que morrem sobre os montes, como os pastores contemplativos, são consumidos pelo sol; e andam dissipados pela luz hierática das estrelas, pelos vapores moles das nuvens, pelas auroras; são os átomos de luz, serenos, fecundos, consoladores e purificadores.

Assim os mortos são felizes.

Nós outros andamos ruidosos e nocturnos, gordos ou empalidecidos, esfomeados de materialidades, calcando as Margaridas, perdidos nos deslumbramentos da carne; celebramos as religiões, esboçamos Deuses, riscamos sociedades no ar; e, nervosos, desconsolados, derrubadores, no meio de esta forte vitalidade--como um lavrador que suspende a enxada e se fica, todo amarelo, a pensar na velhice sem pão e sem lume--estamos sempre a sustar as nossas alegrias alumiadas e sonoras, para pensarmos, aterrados, nos esfriamentos lúgubres do tumulo.

E entretanto os mortos, que são os pais, as irmãs, as bem-amadas, as mães, estão pela natureza, pelos montes, pelas águas, pelos astros--serenos e imaculados. E porque tememos a morte? Que instincto tenebroso ou sagrado nos faz amar tanto esta fórma humana, estes cabelos, estes olhos, estes braços enrodilhados de músculos? As árvores, as florescências, as hervas, as folhas, são também formas da vida, santas e cheias de Deus. Por toda a parte, pelas famílias das constelações, pelos planetas, pelas árvores, pelos lívidos interiores da terra, pelas águas, pelos vapores, pelos prados fecundos, escorre a seiva, o átomo santo, a alma universal! Por toda a parte ha atrações, amores, antagonismos, repulsões, polarisações, alegrias, estiolações, polens, alma, movimento--vida. Porque ha de então ser esta fórma, que tem braços e cabelos, e não aquela, que tem ramos e folhagens?

A vitalidade é a mesma, cheia dos mesmos instinctos negros, sagrados, luminosos, bestiais, divinos.

Por isso os mortos são felizes, porque andam longe da fórma humana, onde ha o mal, pela grande natureza santa, onde só ha o bem, na pureza, na serenidade, na fecundidade, na força.

Bemaventurados os que vão para debaixo do chão, porque vão para uma transfiguração sagrada. Mal caém sobre eles as últimas pazadas de terra e o canto dos padres, bárbaro e dolente, se perde com o fumo dos círios, o corpo fica só na plenitude da noite e do silencio, perante a grande vegetação esfomeada; ele vai dar-se ali como pasto ás bocas sinistras das raízes: ele amolece entre as humidades da terra e desfaz-se em podridões: então as raízes começam a sugar e a comer: a podridão transforma-se em seiva: a seiva sobe pelos troncos, estende-se pelos ramos, palpita dentro da árvore, engrossa, fecunda, arredonda-se nas exhuberancias dos gomos, e abre-se depois em folhagens, em florescências e em fructos: e o corpo transformado vê outra vez o sol, as grandes poeiras, e sente os orvalhos, e ouve as cantigas dos pastores, e vive sereno, repousado, na floresta imensa.

E no emtanto, junto de aquele corpo, que sofreu a metempsicose do bem, foi enterrado outro, em um caixão de chumbo, entre pedra e cal, hirto e embalsamado. Entre a enorme palpitação difusa, enquanto em redor se vai operando a lenta transformação da semente, onde já estão em gérmen as folhas, os troncos, os fructos, as flores, os ramos que mais tarde o vento atormentará, entre as raízes fortes e retorcidas dos arbustos, entre as ondas da seiva, entre as uberdades e as voluptuosidades creadoras da terra fecunda, o cadáver embalsamado ali está, inteiro, hirto, rijo, feio, livido. Ele inveja os átomos livres e soltos, que sobem e descem no encruzamento das vitalidades, que se deslocam e escorrem, como grãos de um saco, desde as constelações e os cometas, até ás espumas castas das fontes: ali, sequestrado á natureza, não se póde dissolver na eterna matéria forte: não tornará a vêr o sol, as noites amolecidas de orvalhos, os soluços lascivos do mar... Que estranha fatalidade pesava sobre ele, que nem a morte o libertou?

Oh! possamos nós todos ter sempre em vida a religião do sol, da beleza e da harmonia; movermo-nos na atmosfera serena do bem e da liberdade; ter a alma limpa e transparente, sem sombras de deuses e de tiranos; sentir o enlaçamento divino dos braços da bem-amada--e depois, ó santa Natureza! toma os nossos corpos para fazer de eles árvores cheias de sombra e ramos resplandecentes!

E ao menos, durante a vida, convivamos com a natureza. Quando entramos em uma floresta, parece que a luz do sol, que escorre abundante e fecunda, nos enche todo o interior, despertando ali, como faz nas madrugadas de maio, os córos de pássaros: e depois ha um responso sagrado, como se todas as iras, e as amarguras, e os desalentos, e os terrores, se curvassem na mesma humildade, ao elevar-se na alma uma hóstia misteriosa.

Durante o dia ha, nas florestas, uma santa celebração: as árvores estão graves como sacerdotes: as flôres incensam: a luz do sol é a alva flamejante e serena que a floresta veste: e ela murmura um canto dolente e sacro, acompanhado pelos pássaros religiosos, e de entre as ramagens eleva-se uma paz viva, fecunda e consoladora, como uma vaga hóstia: e, ao fim da missa, as árvores, balançando os ramos, parecem lançar ao povo curvado das plantas, das hervas, e das relvas, a sua benção soberba.

Ora quando passamos entre estas celebrações, tristes, humildes, purificados, de entre a folhagem que se aninha, inquieta, no seio do vento, sáe, para nós, toda a sorte de vozes, de saudações e de confidencias.

São os nossos queridos mortos que nos falam; e então toda a matéria tende a elevar-se, a desfazer-se em vapores e orvalhos, a ir pousar, com suavidade e doçura, nos seios da folhagem, que já foram seios amados...

E depois a natureza tem imensos perdões e reconciliações formidaveis; todos os ódios trágicos, todos os corações ferozes se fundem divinamente na promiscuidade sagrada da terra. Ela não escolhe; tudo lhe é bom; as raízes das rosas pastam a podridão dos tiranos; e dos homens que na terra ensanguentaram, dilaceraram, profanaram, faz carvalhos austeros e cedros religiosos.

Ela é mais dôce que as religiões: nas Escripturas Judas atraiçôa Jesus, e no emtanto ha muito tempo que os dois corpos--o do homem luminoso e o do homem escuro--andam enlaçados e dissolvidos nas mesmas auroras e nas mesmas corolas.

Ela acolhe, indiferente, todos os ritos, todas as religiões: as mesmas oliveiras, que na Grecia encobriam, serenas, as choreias núas dos ritos de Baco, cheios de ondulações lascivas, encobriram depois, agitadas por um vento feroz, sob a luz irada das constelações, o pobre Jesus, gemendo, arrastando-se na rocha e nas silvas, suando sangue, bradando afflicto na noite das Agonias.

Ás horas em que acabo estas linhas, vai o dia a declinar: agora, lá ao longe, nos campos, lembra-me que anda o semeador erguido sobre os sulcos, roto e sereno, espalhando o grão com gesto augusto: e parece-me vêl-o de aqui, entre as transparências mórbidas do anoitecer, distribuindo a vida: são os corpos dos seus avós, que ele assim espalha pelos sulcos fecundantes: são eles que se tornaram seáras e que lhe hão de encher o celeiro; são eles que lhe dão a comer a sua carne e a beber o seu sangue. Sagradas transfigurações!

Assim, é na natureza que devemos ir procurar as consolações, estremecer com os amores mortos, chorar no seio das maternidades passadas. É na natureza que se deve procurar a religião: não é nas hóstias misticas que anda o corpo de Jesus--é nas flôres das larangeiras.

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