A Morte de Jesus
Dies iraê, dies ila...
I
O meu nome é Eliziel, e fui capitão da policia do templo: estou velho e inclinado para a sepultura: e antes de me deitarem para a eternidade sob uma pedra lisa em Josaphat, ou nas mortuárias de Siloeh, quero contar o que sei e o que vi de um homem excelente, que na minha mocidade esteve, pelos acasos providenciais da simpatia, intimamente ligado á minha vida. em estes últimos tempos, sobretudo, a sua imagem vive activa e poderosa no meu cérebro; e quando, pelo findar da tarde, a esta luz maguada que então habita no céu da Judea, eu me vou sentar junto ao branco tumulo de Rachel, olhando as muralhas de Jerusalem e a velha Sião, cheia de claridade, e as ruínas de David, é em ele que penso--e em esses tempos distantes em que eu tinha a força, a barba escura, o andar ágil e firme, e a esperança fácil.
Eu sou o mais velho da geração de esse homem: aqui vivo, afastado da cruel Jerusalem, em Bethlem, junto de esse poço que tem uma água tão fresca e consoladora, que David a lamentava no desterro.
Os outros onde estão? Onde estais vós Tomás, Mateus, Simão, Pedro, João? Onde estais vós? Judas de Karioth sei que morreu obscuro e sossegado no campo de Haceldama; Poncio Pilatos está em Espanha, retirado e pobre, ele o velho amigo de Tibério. Antipas, Herodiade, andam na afflicção dos desterros; Hannan morreu, mas a sua memoria e a sua doutrina ainda governam o templo. Onde estão os mais: Nicodemus, Joseph, Maria, as santas mulheres, Cleophas, Gamaliel, o sábio doutor? Uns estão no Vale de Josaphat, outros no Vale de Hinnon, todos esquecidos. Tanto a memoria do homem é como a onda fugitiva e pérfida!
É por isso, para que se não perca a lembrança de aquele homem justo e bom, que eu procuro dizer com simplicidade e verdade tudo quanto vi e compreendi da sua vida, tão breve pelos dias, tão longa pelas dôres.
Quando o conheci em Jerusalem, pela festa da Paschoa, era eu moço. A minha vida passava-se toda no templo. O templo, reconstrucção de Herodes o Grande, estava então novo e resplandecente: ainda se trabalhava nos pórticos exteriores. Ali era o centro de Jerusalem: ali se orava, se celebrava, se tratavam as questões civis, se julgavam os condemnados, se estabeleciam as escolas rabbinicas da lei, se discutiam os editos de Roma, o procedimento dos legados imperiais e dos procuradores, se curavam os doentes, se tramavam as sedições. Os romanos não podiam entrar no templo: no átrio da primeira galeria havia inscripções, em grego e em latim, que vedavam aos gentios, aos pagãos e aos samaritanos penetrar além. No emtanto nós viamos sempre os romanos nos terraços da torre Antonia, que domina o recinto do templo, observarem, rirem, dormirem ao sol, ou pela tarde jogarem a barra, exercitarem-se em luctas.
A mim, como oficial da policia do templo, competia-me abrir, fechar as portas, impedir que se entrasse no santuário com bastões ou armas, que se sujassem as lages dos terraços com lama, que se passasse com fardos, ou que viessem orar junto ás columnas do santuário os que estavam tocados de impureza.
Eu era escrupuloso e atento, e desgostava-me (e muitas vezes o disse) que o serviço do culto auctorisasse factos indignos da santidade da lei e da consagração do logar, porque, no recinto do templo, vinham estabelecer-se toda a sorte de vendedores e do bazares: vinham ali vender os animais para os sacrifícios, os estofos, os véus, as faixas de Tyro; trocava-se a moeda; negociava-se o azeite: e, como o templo era o centro vital de Jerusalem, havia ali toda a semelhança de uma feira: pregões, fardos, arcas; e mais parecia o mercado pagão de Cesarêa, do que o interior da casa de Deus.
Outra coisa me irritava ali, singularmente: eram os fariseus, os escribas, e os doutores da lei; não os estimo: entre eles só vi cerimonias, ódios, disputas estereis. Nunca compreendi o orgulho dos doutores, nem mesmo o seu desprezo pela sabedoria grega: meu pai cultivava as letras helênicas, e tinha-me dado conhecimento de aquela sciencia, incorrendo assim na ira dos doutores fariseus, que envolvem na mesma maldição o que cria porcos, e o que ensina a seu filho a sciencia grega. Meu pai tinha viajado no Egypto, em Alexandria, e aí se tinha ligado com um sábio, Philon, judeu pela mãe, grego pela alma, de quem os mestres das sinagogas diziam o maior mal.
Desde então tinha-se tomado de afeição pela sciencia grega, e velho, entretinha-se a fazer passar ao meu espirito as grandes doutrinas de aquelas gentes. Ora o ódio dos escribas pela sciencia helênica indignava-me. Demais, eles são repulsivos e grosseiros.
Os fariseus, especialmente, são ásperos, desdenhosos, maus, respeitando mais as minuciosidades do culto, do que o espirito da lei. Em tudo cheios de artificio e de vaidade: se entram na sinagoga, querem o melhor logar, o mais largo, e todos os veem batendo no peito sob a amplidão do manto: se vão pela rua ou pelo campo, prostram-se ruidosamente a orar, se veem o olhar do homem: se dão uma esmola, contam-a como virtude, apregoam-a como exemplo: e sempre argumentando, vociferando, enchendo o santuário de disputas e de invectivas! Se, em uma ceia, algum dos convivas faz a ablução sobre a testa, com a mão toda, em logar de a fazer só com dois dedos, amaldiçoam-em o, clamam pelas iras de Jehovah e levantam-se escandalisados: nunca ninguém os vê consolar uma viúva, ou ajudar um velho a andar: os pobres, os abandonados, são para eles como os que estão tocados da peste: caminham com os olhos fechados para não vêrem as mulheres, e com os pés nús para se ferirem nas pedras: mas, por baixo do seu zelo, são cheios de apetites, como um homem sanguíneo!
Quanto é melhor que estes o alto sacerdócio, que é todo da seita dos sadduceus e dos boethozins! Ha aí mais sinceridade, e mais humanidade: são homens pacatos e faustuosos, que intrigam com Roma, não têm zelos nem devoções irritantes, amam o socego, as lindas casas de campo junto a Sião ou para além de Bezetha, os moles estofos de Sidon, ou as belas mulheres da Idumea.
Mas o que, na vida do templo, me indignava superiormente era o vêl-o tornado um logar de comércio, de venda e de troca de moeda. E foi por estes odiosos mercadores do templo, que além de isso me tornavam a policia difícil e fatigante, que eu conheci o homem inefável, por quem os meus olhos ainda se humedecem.
Um dia, entrava eu na galeria de Salomão, que é a que tem três ordens de columnas, o tecto de cedro lavrado, e olha para o monte das Oliveiras. Era na festa da Paschoa, quando ela se enche com a multidão dos peregrinos. Um soldado da milícia do templo tinha-me dito que, contra os avisos, dois mercadores de pombas e de carneiros tenros tinham-se vindo encruzar nas suas esteiras junto das columnatas, com as rezes enfeitadas de escarlate, e os cestos de aves brancas. Eu ia, cheio de cólera, para os condemnar, quando vi em redor uma confusa gente dominada pelo forte ruido de uma voz: defronte dos mercadores, havia um homem de pé, que lhes falava. Era alto, magro, fraco: tinha os cabelos louros, pendentes, separados ao meio, cabelos de homem da Galilea: mesmo, percebi logo, pelo acento e pela pronuncia, que ele era galileo: em aquele momento o seu rosto era irritado e severo: tinha o gesto largo ao modo dos que pregam nas sinagogas, tinha as feições inflamadas, os olhos cheios de uma luz indignada: a sua estatura erguida pela cólera, enobrecida pela justiça das suas palavras, cheia do seu pensamento, fazia-o parecer mais que um homem.
Os mercadores, assustados, recolhiam os cestos, dobravam as esteiras, arrastavam as rezes: as pombas esvoaçavam.
--Ide!--disse-lhes ele então--vós fazeis da casa da oração uma caverna de ladrões!
E com a mão violenta empurrou-os largamente, para além das columnas. Eles iam, tomados de temor. Os homens em redor tinham uma aprovação simpática para o da Galilea: alguns riam: havia creanças assustadas que gritavam. Eu olhava, admirado.
--Quem é este?--perguntei a João, um galileo, que estava junto de ele, e que eu conhecia de o ter encontrado no átrio da casa de Hannan.
--Não o conheces tu? É Jesus de Nazaré, profeta da Galilea!
II
Durante a minha vida do templo eu tinha visto muitos videntes, muitos profetas: vinham da Galilea, da Judea, de todo o paiz que vai até Jopé. Não direi o que penso da intenção profética e da crença messiânica. Só direi que os profetas que, no meu tempo, vieram e eram lapidados ás portas de Jerusalem, eram bons; eram uma voz colectiva, a esperança, a consolação e o alivio.
O povo era profundamente infeliz: os saduceus afogados nos seus repousos, os fariseus perdidos nas suas devoções, os escribas e doutores absorvidos nas suas escolas, não viam o estado das almas. Além de tudo estavam longe do povo, em uma separação desdenhosa e enfática. Eu estava profundamente ligado ao povo pela raça e pelo instincto. Já na vida estreita e toda comum de Jerusalem, já nas conversações dos átrios do templo, já nas minhas demoras em Betel, em Efraim, em Galilea, eu via, comprehendia, sabia o povo. Infeliz, desprezado, eternamente escravo, esmagado pelo tributo da dominação e pelo dizimo, refugiava-se, maltratado da terra, na esperança de um libertador, de um Messias. O judeu é dado a preocupações divinas e a sua verdadeira pátria é em Deus.
Uma serie de homens fortes e piedosos eram os interpretes de este desejo ideal, eram a voz de aquela melancholia, e eram os amigos do pobre, os ásperos juízes do rico, os consoladores austeros.
O povo, sufocado pela sua paixão interior, sentia-se aliviado, consolado, quando um profeta falava. Os profetas confirmavam a vinda do Messias, diziam-lhe a figura e as acções, a piedade e a paixão, esfarrapavam os seus vestidos, iam viver no deserto: de aí a exaltação tornava-se um estado natural e humano, as almas cresciam em desejo e vontade. De sorte que todos os anos apareciam videntes e inspirados, que o sanhedrin mandava lapidar á Porta Esterquilinaria. Mas lamentavam-o, porque o povo segue sempre todo o movimento que seja original, amigo do pobre, anunciador da boa nova: Schammaï, Hillel, Jesus de Sirach, que tiveram altos pensamentos de puresa e de justiça, viveram ignorados da Judea e da Galilea porque não pregavam em nome da esperança religiosa, não tinham a paixão messiânica. Eram espíritos sábios e justos, e não videntes possuidos de fé.
Ora, em esse tempo a esperança do Messias era activa. Clamavam por ele a Deus, jejuavam, oravam, para não morrerem antes da vinda de ele; tinham desalentos, esperavam avidamente os sinais misticos, e as almas falavam baixo, porque vinha o Senhor!
Eu mesmo tinha visto muitos profetas, muitos mestres inovadores; não conhecia João Batista, que vivia no deserto do Jordão, mas sabia que ele também prégava um renascimento, e que, tendo escandalisado a olímpica Herodiade, se definhava em uma prisão de Antipas.
No emtanto nunca nenhum de esses homens me dera uma sensação feliz como esse Jesus de Nazaré. Os seus olhos cheios de infinito, a sua voz poderosa e serena, a justiça das suas palavras, deixáram-me em uma vaga e imprevista perturbação, como quando se olha para o céu, que se supõe escuro, e de repente se vê uma Estrela imortalmente luminosa.
em essa tarde, como eu caminhasse pela encosta do Sião, para o lado do horto de Salomão, com Simeon, escriba do templo, perguntei-lhe se conhecia Jesus de Nazaré, que prégava na Galilea. Simeon disse-me, com um riso:
--Que sabes tu que possa vir de bom de Nazaré?
Realmente toda a Galilea é muito desprezada pelos de Jerusalem. Fômos conversando em esta apreciação: Simeon dizia-me que os galileos eram fracos, femininos, imbecis: que eram ignorantes e pouco ortodoxos: que o sangue estava em eles muito misturado; que tinham muito do samaritanismo; que a sua pronuncia era viciosa; que eram grotescos a falar, insuficientes a pensar; e que idiotismo galileo era um proverbio de Jerusalem. Eu respondia que a gente de Galilea me parecia simples e dedicada; que quem vive em uma natureza tão humana, tão cheia de águas, tão auxiliada das sombras, não podia deixar de ter qualidades finas e harmoniosas; que os galileos eram trabalhadores e sóbrios; e que Isaias tinha dito:--«Oh terra de Zabulon e terra de Nephtali, caminho do mar, Galilea dos gentios, o povo que caminhava na sombra viu uma grande luz!»
--Ora, Simeon--dizia eu--estas palavras de Isaias indicam que na Galilea póde nascer um profeta!
Iamos assim largamente conversando, quando chegamos ao horto de Salomão: a natural beleza, as árvores, as vinhas, a perspectiva suave e recolhida dos vales de Jerusalem, a silenciosa espessura, a fresca serenidade, os bandos de pombos que veem beber aos velhos reservatórios de Salomão, fazem de aquele logar um retiro bom para espíritos sábios, para aqueles que têm no coração uma ideia, ou que são habitados por uma esperança: ali se reunem assim muitos de Jerusalem! em aquele dia andava ali, absorvido, grave e vagaroso, o sábio Gamaliel. Gamaliel era o maior do templo: se os outros eram o poder, a intriga, a riqueza, a tradição--ele era a sciencia; se os outros eram a lei--ele era a justiça. Eu, preocupado pelo Nazareno, perguntei a Gamaliel se conhecia aquele homem severo:
--Pelo que sei de ele--disse Gamaliel--penso que é um justo.
Guardei com amor esta palavra: ela correspondia á atração suave e piedosa que eu sentia pelo severo mestre da Galilea. Ao voltar a Jerusalem, pensava em ele: via-o irritado e augusto: imaginei-o cheio da cólera do justo e da rebelião do oprimido: o que ele prégava decerto era a condemnação do rico e a humilhação do fariseu. Era o que tu precisavas, Jerusalem, dizia eu, era um profeta amado e seguido, que fosse a alma de uma infinita desgraça que se vinga, que erguesse o povo, aniquilasse os sacerdócios corrompidos, expulsasse o romano, que reconstituisse nas almas a velha Israel, nas instituições a velha Judea, que fosse o homem forte e puro, e o continuador dos Machabeos. Produzira a Galilea esta alma terrível? Ou será Elias ressuscitado de entre os mortos? Assim pensava, encaminhando-me pela noite pesada para casa de Hannan.
Hannan era o grande sacerdote, ainda que na realidade e nas coisas do templo o fosse seu genro Caifás; mas ele era o espirito, a direcção, o conselho, a iniciativa de toda a vida sacerdotal do templo. Era velho, sabedor das tradições, astuto; possuía enormes riquezas, conspirava contra Roma, era concentrado e soberbo.
em um dos largos páteos cobertos de sua casa, em Bezetha, era costume reunirem-se em volta de um grande fogo, quando o frio entristecia Jerusalem, os oficiais do templo: ás vezes vinham escribas, doutores, sacerdotes affaveis. Aquele grupo, sempre egual, era como uma consciência um pouco mordente do templo. Ás vezes, quando não estava algum austero doutor fariseu, pedia-se a um soldado expedicionário que entrasse para junto do lume, dava-se-lhe do vinho de Sidon e das colinas do Libano, e pedia-se-lhe que cantasse algumas das cantigas latinas do bairro de Suburra. Alguns velhos sacerdotes riam nas suas barbas brancas. em essa noite, quando eu atravessava o átrio de Hannan, cruzei-me com aquele galileo, João, que eu tinha visto junto a Jesus de Nazaré, na galeria de Salomão. Ele costumava vir ali vêr uma velha, guardadora dos cães, que era de Capharnaum, na Galilea. Chameio-o, tomei-lhe as mãos, falei-lhe afavelmente em Jesus de Nazaré: eu, emfim, comprehendia bem aquele que por um imprevisto interesse, pela elevação da sua palavra, pela beleza do seu aspecto, habitava já no meu peito, como um amigo de antiga mocidade.
III
João disse-me vagamente todo o passado de Jesus, em palavras simples, mas penetradas de fé e de desejo.
Eu reconstrui então, em espirito, a vida obscura de Jesus: vi-o, pela intuição, em Nazaré, educado por aquela doce paizagem da Galilea, sob a influencia do Carmelo, das serras do Tabor e das terras patriarchaes.
Eu tinha ali viajado, e muitas vezes me tinha sentado em um rochedo, nas alturas de Nazaré. Se algum logar ha no mundo em que o homem sinta a estreiteza da vida civil, a instabilidade dos interesses, o contingente e fugitivo das afeições e dos desejos, é ali, em aquele vasto e sossegado horizonte, em que parece que o céu exerce mais profundamente a sua atração infinita sobre a alma captiva.
Que pomares, que prados, que humanas águas, que aldeias delicadamente adormecidas entre as figueiras e as vinhas!
E eu via Jesus, imaginando, esperando, em aquele humido paraíso da Galilea e nas suas montanhas queridas, de belas formas amorosas!
Vi-o com os seus primeiros amigos, já possuido da ideia do seu Deus, entrando a falar nas sinagogas, correndo as aldeias, ajudando as pescas, dormindo nos largos terraços sob a luz das estrelas tão belas, tão expressivas como na velha Chaldea; chamando os que encontrava para que o amassem, acariciando os fracos, e dando-se a si e ao Deus interior que o habitava em alimento ás almas infelizes.
Os de Jerusalem, que nunca saíram das suas estreitas e duras ruas, e apenas têm visto da natureza as suas colinas calvas e os seus vales cheios de mortos, riem quando se lhes fala na natureza do norte, na fecundidade da Samaria e da Galilea e na excelência de aquela gente.
Pois, se Jerusalem tem de ser erguida das suas choradas humilhações, será por alguém vindo do lado das aldeias e dos lagos da Galilea! Esta Jerusalem áspera, seca, toda de pedra e de indiferença, só fará espíritos estreitos, fariseus argumentadores, escribas e lapidadores de homens. O sangue de Judas Galannite, de Hillel, do filho de Sirach, de Gamaliel, de todos os homens justos do nosso tempo, é parente da seiva das árvores da Galilea. Uma elevação ideal sáe de aquelas sombras e do rumor de aquelas águas. Jerusalem será a lei, a autoridade, a sabedoria, a habilidade, a astucia; mas a Galilea será a virtude e o sacrifício.
Ali não ha cidadãos: ha as pequenas aldeias sírias que eu amo, onde as mulheres têm o seio pacifico, os homens a força serena, e até os pequenos burros têm um olhar doce, em que parece habitar uma resignação humana. Tudo é fecundo, bem cultivado: a abundancia impede a hostilidade ao imposto, a avaresa, a economia áspera, qualidades de Jerusalem. Ah! laminas doiradas do templo, túmulos gregos dos Herodes, com relevos de folhagens, como eu vos dera por um dos pequenos regatos azulados, que dormem e sonham, na espessura amada das cearas de Chorazin! Porque não conheço melhor alegria, do que andar pelas estradas da Galilea: veem-se os casais escurecidos pelas sombras das figueiras, das vinhas, os pomares de nogueiras, de romanzeiras estreladas de vermelho: vai-se em uma fresca espessura povoada de aves gloriosas! Quando se está fatigado, senta-se a gente diante de uma porta, á sombra de um cedro, bebe-se o vinho de Safed, olham-se as formas languidas das montanhas, conversa-se com as mulheres que veem da fonte, todas frescas, cantando os cantos do tempo de Salomão! E não se encontram fariseus, nem escribas, nem sadducceus, nem herodianos!
Era ali que Jesus vivia, falando pelos campos, pelos casais e nas sinagogas: ali devia ser escutado: não tinha sábios da lei para o contradizer e para o injuriar, e podia-se penetrar do encanto de dizer a verdade aos simples!
O que João me contava da doce vida do lago de Tiberiade enchia-me de uma afeição inefável pelo doce mestre. Eu conheço bem o lago de Tiberiade, todo o paiz de Genezareth: muitas alvoradas andei pelas suas aldeias e pelos caminhos das suas vilas! Ai! Magdala, Chorazin, Bethsaida, margens do lago, logares que eu choro, hoje, velho, seco, pálido de saudades pela força do meu peito e pela altura da minha esperança! Ó arvoredos sonoros de Genezareth, todos cortados de água, onde os meus pés faziam erguer as rolas! Ó caminho estreito do rochedo, cheio de musgos! Ó rio salgado, que nasces ao pé do lago e logo no lago cáes, e que eu tantas vezes comparei ao meu ser fugitivo! Ó margem do lago, cheia de tamarindos, onde a água, tão azul como os olhos das mulheres de Tyro, vem terminar sem ondas, sem afflicções, nas hervas verde-negras! Ó Galilea, se as ideias moças, que trago mortas dentro do meu peito, as pudesse sepultar fora de mim, escolheria a tua relva, ó terra de Nephtali!
Jesus e os seus amigos viviam ao pé do lago, da vida de pescadores; aquele clima é tão doce, tão afável, que o homem pouco pensa no seu corpo: assim, de dia pescavam, de noite dormiam na areia, sob as estrelas, ao rumor da água. Jesus pescava, ou falava em uma barca, no sossegado embalar da água, aos seus companheiros de rede: assentava-se ás vezes sobre as colinas, que são de uma viva liberdade de ar e de luz, e cercado dos simples pescadores, de mulheres, de creanças, prégava-se a si, ensinava o seu coração, falava das esperanças do reino de Deus. Ele amava tudo o que era delicado, as mulheres, as creanças, os lírios, as aves: a sua palavra era, assim, tão suave como os olhos das creanças, tão pacifica como o caminhar dos regatos: ele pedia apenas que o amassem, e não tinha razões inflamadas de profeta. Ele era o centro de todo o amor na verde Galilea: dava a esperança ás almas: dizia a vinda do Senhor, o fim das lagrimas, as glorias do pobre.
--O céu é dos simples--dizia ele.--Os que choram serão consolados; os miseráveis possuirão a terra. Tendes fome e sede de justiça? Vinde a mim: sereis saciados. Sede pacíficos, sede puros. Se vos perseguirem no reino da terra, abrir-se-vos-á o reino do céu. Segui-me, segui-me!...
E seguiam-no; abandonavam os campos, as hortas, os barcos, os casais: as creanças amavam-o: as mulheres iam presas da luz imortal dos seus olhos. Todos queriam errar com ele pelo paiz de Genezareth, comendo os fructos casuais dos pomares, bebendo como as rezes no fio dos regatos.
Ele explicava Deus de um modo novo: ninguém o conhecia melhor: ele era a consciência viva de Deus. O seu Deus não era Jehovah, amigo de Israel, inimigo dos homens: não era o ser solitário, tenebroso, irritável: o seu Deus era o pai, o consolador, o purificador, o eternamente sereno, o eternamente justo.
O Mestre prégava a fraternidade entre os homens, o perdão, a caridade, a humildade, a grandeza, a poderosa virtude do sacrifício.
--Se vos ferirem, oferecei-vos; se vos odiarem, amae; se vos perseguirem, orae! Que mérito ha em amar os que nos amam?
Uma coisa que singularmente me tocava no ensino que João me repetia, era a condemnação dos usos do templo, dos zelos devotos dos fariseus: com efeito, para que são tantas purificações, tantos cilícios, tantos usos de piedade? Para que hão de os fariseus trazer nas suas túnicas as tiras de papyrus, que são o sinal da devoção, e para que dão a esmola, de pé, nas escadarias do templo, gritando, e elevando a moeda?
--Quando tu deres a esmola--dizia o Mestre de Nazaré--que a tua mão esquerda não saiba o que fez a direita.
E esta palavra enchia-me o coração. E alegrava-me o saber que ele não era como os mais profetas, não se retirava para o deserto, não se emagrecia em jejuns, não rasgava os seus vestidos, não se feria nas rochas agudas: vivia como um simples e como um pobre, e se procurava ás vezes os logares retirados, e amava as montanhas, é que aí estava mais na fraternidade dos seus, e no coração de Deus.
João falava-me das mulheres que o seguiam, e eram Joana, mulher de Khouza, Salomé, Maria de Cleophas e Maria de Magdala, que eu conhecia do Acra, em Jerusalem. Maria de Magdala, aí e em Tiberiade, tinha tido uma vida apaixonada e impura: uma exaltação inexplicável era a essência de aquele ser; tinha espasmos, contracções, entusiasmos perturbados: julgava acalmar a impetuosidade da sua natureza febril pelo amor dos homens; ligava-se com os doutores notáveis de então, penetrava em discussões e explicações da lei, depois andava cercado de fariseus e envolta em devoções: mas tinha o amor dos estofos, e todos os dias chorava. Era uma alma inquieta que buscava alguma coisa: tudo o que fazia era com paixão: a cultura das plantas raras, a creação das moreias em reservatórios, a composição de aromáticos, o estudo das hervas, tudo tratava, ardente e enfastiada. Doente, pobre, foi para Magdala. Aí viu Jesus, prégando. Seguiu-o. Adorava a doutrina do Mestre, e amava a sua figura delicada e bela. Tinha, porém, fortes impaciencias, erguia discórdias com os discípulos, retirava-se para o deserto. Mas voltava, porque a sua dedicação suave pelo Mestre era maior, e domava a sua tenebrosa e confusa natureza.
Gostava de derramar perfumes no corpo de Jesus, e de lhe coser á túnica franjas de Tyro.
Jesus, de resto, aceitava na sua companhia as mulheres transviadas, os publicanos, todos os pecadores.
Tal era Jesus, segundo João. Eu estava cheio de admiração. Demais (dizia eu) aquele homem que eu vi no templo, com as indignações de Isaias, é pois suave como o céu da Galilea!? Realmente, uma raça tão humana, tão simples, tão abundante, tão pacifica poderia dar um profeta irritado?
--O Mestre é a própria doçura--dizia-me João.
de onde vinha então aquela cólera, aquele gesto de Messias vingador?
--Desde quando é ele assim?--perguntava eu a João.
--Dizes bem. O Rabbi mudou desde que chegou a Jerusalem.
IV
Era já manhã e ainda João me contava estas coisas pacificas, enquanto eu seguia para o templo. Ia perturbado, sem centro moral. Ora me vinham desejos de ir á Galilea seguir os passos de Jesus de Nazaré, ora o meu velho orgulho estreito de homem do templo me suscitava hostilidades ou desdens.
O templo abria-se, chegavam os fariseus, os devotos; os doutores aproximavam-se nos seus burros, os sacerdotes nas suas liteiras; encruzavam-se nas suas esteiras os mercadores; tirava-se a água das piscinas, acendiam-se os purificadores, desdobravam-se os velários; os pregões anunciavam os debates civis, as vendas de campos; começavam a instalar-se as escolas rabbinicas; o ouro tinia nas bancas dos cambiadôres; havia risadas; ouvia-se o balar das rezes.
Quando eu estava vigiando os serviços, veio a mim, todo alegre, um velho camarada do templo, Josué, que andava ha muito pelas vilas de Galilea para a organisação dos soforins nas sinagogas. Era homem conhecedor das tradições e cheio de experiencia da vida sacerdotal. Perguntei-lhe se conhecia da sua peregrinação Jesus de Nazaré, filho de Maria de Caná, e os seus companheiros. Ele era douto, sincero, atento; devia saber explicar-me, melhor do que o simples, o exaltado João, a essência do Rabbi da Galilea.
Disse-me, com efeito, que vira Jesus na sinagoga de Chorasin; que conhecia a sua vida e a sua doutrina, e que era um homem destinado, mais tarde ou mais cedo, a ser lapidado ás portas de Betel; que prégava toda a sorte de impiedades; que combatia a lei, a tradição e os textos; que falava contrariamente á velha sabedoria judaica, sendo ignorante e moço; que não respeitava nem os ricos, nem os sacerdotes, nem os fariseus; que queria distribuir as riquezas pelos pobres; que vivia em companhia de mendigos e de mulheres perversas; que dormia ao acaso pelos hortos; que não tinha casa nem campo; que se associava com o publicano e até com o pagão; que não fazia as abluções, nem sacrificava; e que era um vagabundo dos montes da Galilea, sem autoridade entre os doutos e entre os ricos.
Eu ouvia, calado, estas palavras, que eram todo o espirito dos fariseus e dos doutores. E, quando sai do templo, corri ao átrio de Hannan.
Jesus de Nazaré era-me já simpático e intimo, pelo sentimento e pela rasão. Mas o que era aquele homem? Era um simples visionário? Era um contemplador, cheio da melancholia que dão as espessuras de Galilea, e tomado de um desdem divino? Era um espirito cheio de sabedoria? Era um continuador de Judas Galannite? Vinha ele prégar contra o imposto e contra o dizimo? Era ele hostil a Cezar, e cheio da tradicção dos Machabeus? Era um simples? Era um crente? Era um especulador frio das esperanças messiânicas? Vinha ele atacar o espirito do templo?
Encontrei João, conversando no átrio lageado com um homem da milícia sacerdotal. Chamei-o para uma longa galeria escura, vagamente estrelada de lampadas.
--João--disse eu--dize o que vem fazer a Jerusalem o sábio de Nazaré?
João olhou-me:
--Vem á festa da Paschoa--disse ele, lento.
--João--insisti--pelo Messias, e pela liberdade do Batista, prisioneiro de Antipas, dize-me a que vem Jesus, a Jerusalem e ao templo?
--Prégar--disse João.
Compreendi, rapidamente, todos os resultados de aquela lucta original.
--Vai!--lhe disse eu exaltado--dize-lhe que parta, que volte para o lago de Tiberiade! Que viva nas suas montanhas, com o seu Deus, com os que o amam, sossegado, no repouso dos campos. Que vá, que evite as portas de Jerusalem! Dize-lhe que não venha nunca encostar-se como profeta á coluna do templo! Que volte para a Galilea, que se lembre das pedras que estão á Porta Esterquilinaria e que são para lapidar os profetas!
João tinha o espanto nos olhos, na voz.
--Eliziel! Eliziel!
--Que volte, que volte para a Galilea!
E subi rapidamente pela escadaria de granito verde, que levava aos interiores de Hannan.
O velho sacerdote, debilitado, caduco, dobrado, comia, deitado sobre largas peles, arroz e mel. Ao pé, uma escrava síria, de Damasco, cantava. Jesus Bar'Abbas, defronte, fazia momices.
V
No outro dia, casualmente, tive ordem de Caifás para ir á Galilea, em serviço das sinagogas: a concentração dos sacerdotes rituais em Jerusalem obriga assim os oficiais do templo a sucessivas peregrinações; porque as sinagogas estão dominadas pelos escribas e pelos soforins, e por isso agitadas em perpetuas intrigas.
Mas esta viagem agradava-me porque me levava a Bethsaida, a Chorazin, a todo o paiz que fora até aí o centro amado de Jesus.
Em toda a região do lago achei muitos espíritos, ou mais simples, ou mais lúcidos, ou mais amantes, singularmente ocupados na simpatia e na razão pela pessoa, pela doutrina do Rabbi de Nazaré.
Falavam-me longamente da sua doutrina nas sinagogas, das suas palavras nas colinas: e a figura moral de Jesus acentuava-se, definia-se progressivamente no meu espirito.
Diziam-me que a voz do Mestre era doce, unctuosa, que só o seu som captivante fazia esquecer as mulheres da roca, os homens da agulha da rede: falava devagar; entre silêncios, as altas verdades, as palavras profundas apareciam de repente como uma centelha sáe de um diamante, tocado de uma luz inesperada. Contava parábolas, historias; repetia com paciência, sorrindo: uns estavam deitados, preguiçosos, atentos, outros remendavam as velas, alguns sentados aos seus pés olhavam pasmados a água. Ele falava, sossegado, ou afagava uma criança, ou, contando as parábolas, concertava a sua rede.
Vivia como um simples, junto da vida, sem ter as curiosidades da vida. Tinha um desdem elevado pelas coisas exteriores.
--Não vos inquieteis pelo alimento, ou pelo vestuário--dizia ele.--Olhae as aves do céu: não semeiam, nem ceifam, e o pai dos céus é quem as alimenta; e não sois vós mais que as aves que esvoaçam nos campos.
--Para que haveis de cuidar dos vossos vestidos? Vêde os lírios: não trabalham, nem fiam: pois eu vos digo que Salomão, em toda a sua gloria, não estava vestido como nenhum de eles na sua simples candura. E o que Deus faz pelas hervas dos campos que florescem hoje, amanhã secam, não o fará por vós, homens de pouca fé?!
Por isso os discípulos seguiam-o assim, enlevados em aquelas ambições ideais, sem roupas, sem provisões, sem dinheiro. em aquele pensamento, o dinheiro era considerado como um fardo, um inimigo, um traidor, que assim como se toma da ferrugem, dá á alma a esterilidade.
--Vendei o que possuís--dizia ele--dae o dinheiro em esmolas!
Realmente de que servem na Galilea as riquezas?
Ali só ha a verde natureza: o dinheiro não dá mais infinito ao azul, mais repouso á água: o pobre, o mendigo, é o rei misterioso de aquela gloria da folhagem e da luz: para ele se vestem as açucenas de branco, para ele resplandecem os regatos.
Jesus glorificava o pobre: em aquele evangelho da Galilea, o rico é considerado o inimigo, o pagão, o cruel, o inquieto: ele tem os largos vestidos faceis, macios; ele come sobre leitos cobertos de peles; ele enterra os braços nus nas moedas do cofre; o pobre come escassamente as hervas mal cosidas dos hortos; remenda, á candeia, a sua túnica; traz apertada á cintura, tendo sobre ela uma pedra, a moeda de cobre que é a sua fortuna. Bem: Deus tomará conta do vestuário do pobre, e da brancura do lírio; ele velará para que ao homem não falte o pão e á rola o grão: ele fará no céu, ao pobre, um saco, um tesoiro de boas obras, de gloria, sem temor da ferrugem e dos ladrões.
O rico irá para a Gehenna, para o fogo inextinguivel: um cuidado o emagreceu na vida, uma chama o consumirá na existência extra-humana. O pobre estará junto de Deus, e a sua face será imortal e altiva.
--Porque, em verdade, vos digo--ensinava o Mestre--que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus.
Assim falava ele á beira do lago, e, desprendendo os homens dos fatais cuidados do mundo, era o creador da paz e o consolador da vida. Os tédios da existência ordinária, a discórdia dos interesses, as humilhações da vaidade, as invejas, as avarezas, a melancolia da miséria, a apatia da necessidade, as afflicções da obscuridade, as desconsolações da doença, todos estes antigos demônios desapareciam e a velha cabeça humana, obscura, captiva, pesada, podia emfim sentir, esperar, repousar, encostada ao mais profundo seio humano, que o pão da terra tem alimentado.
A alma tinha emfim um logar, o seu logar, o seu espaço, que era o reino de Deus. O reino de Deus era o reino das creanças, dos simples, dos deserdados da vida, dos que sofrem, e até do samaritano, e até do pagão e do publicano, e até do que habita Sidon. Ah! Vós não quereis esperar nas minhas palavras, amar no meu peito, vós, os fariseus, os saduceus, os escribas, os ricos, os sacerdotes, os príncipes! vinde vós, pois, os humildes, os repelidos, os lapidados, os enfermos, os culpados, todos os que eles repelem, todos os que eles amaldiçoam! Desgraçados de vós, oh ricos, que estais saciados, porque tereis fome! Desgraçados de vós que rides, porque vos desfareis em lagrimas!
Boas palavras que eu amo, eu, que conheço as ricas existências sacerdotais! Os nossos profetas já tinham, contra o rico impio e duro, cóleras terríveis em vingança do pobre, que é doce e piedoso. Ora o Rabbi feria assim violentamente todo o judaísmo sacerdotal do templo, porque fazia, dos que ele despreza e domina, os preferidos, os bem amados, os amigos de Deus! Que significa, na verdade, que o fariseu não queira comer com o samaritano e com o pobre recebedor do imposto? Que quer dizer que os levitas vão lavar á piscina os seus vestidos, se á entrada dado santuário tocaram em um mendigo ou em um publicano?
Mas Jesus, na imortal ascenção a que obrigava as almas para o ideal divino, já não somente chamava a si o deserdado, mas chamava o culpado.
--O culpado é infeliz--dizia:--merece por isso mais que o justo o calor do meu seio. O filho prodigo merece mais amor do que o filho cuidadoso, porque é triste na sua alma, e todo em lagrimas.
--Havia uma mulher aqui--dizia-me o homem bom de Chorasin, que me explicava estas coisas imortais--que era repelida, mal vista, amaldiçoada; as mães honestas não a queriam vêr: só os escribas da sinagoga se aproximavam de ela, mas de noite, sob as figueiras do cemitério, porque de dia, se a viam, tapavam a cara com a túnica, e resmungavam maldições. Esta mulher ouviu Jesus, sentiu-se inesperadamente perdoada, viu-se solta da fatalidade por aquela palavra piedosa, e pela fé purificou-se. É Maria de Cleophas. Segue Jesus, serve-o: quanto mais se humilha, mais o ama, e quanto mais se sente amante, mais se sente perdoada.
Os pobres galileos, que nunca tinham ouvido uma tão doce e elevada palavra, julgavam-se já no paraíso imortal. Ele ia seguido dos seus, confundido com todas as alegrias, aparecendo nas bodas e nas noites de noivados, misturando-se ás dansas, com a sua lampada na mão; caminhava pelos campos a pé, dizendo as boas palavras, ou montado em um pequeno burro, que os discípulos cobriam com as túnicas; ás vezes ajudava a ceifar, ou, assentando-se ao pé da fonte, falava ás mulheres, escutava os cantares; entrava nos casais, nos hortos; as creanças vinham, vinham as mulheres:--«Rabbi, Rabbi, dize-nos a boa nova: és tu o Messias?»--Limpavam-lhe os pés, iam buscar os melhores fructos, os vinhos doirados, os legumes que nadam em azeite; as mães mostravam-lhe os filhos de peito, que com as suas pequeninas mãos vermelhas e gordas lhe puxavam as barbas: ele ria, agasalhava-os; quando ele passava atiravam-lhe ramagens, desejavam-lhe o bom caminho. Os doentes vinham tocar as suas mãos, as viúvas limpavam as suas lagrimas; ele falava de Deus, e endireitava as canas de milho caidas no caminho. Vinham das aldeias e diziam-lhe:
--Mestre, tu és bom.
--Bom só é Deus--dizia ele, sorrindo.
--Mestre, que havemos de fazer para entrar no paraíso?
--Amae os outros, dae aos pobres, segui-me!
E seguiam-o todos, enlevados em aquele sonho ideal, o mais belo, o mais doce, o mais acima da terra que até hoje tem feito o homem.
Então o céu amigo e compassivo tocou na lacrimosa terra; então, pela primeira vez, o olhar do pobre foi seguro e confiado; pela primeira vez o estreito sorriso do velho conteve a esperança!
VI
Mal sei dizer o que o meu pobre espirito, educado na antiga lição do captiveiro, sentia ao suave calor humano e feliz de aquelas palavras.
Voltei a Jerusalem: passei sobre o Tabor, de onde se vê a larga planície de Esdrelon, amada dos heróis, o branco Hermon, Endor, e as montanhas de Galaad: descancei em Djenea, a cidade dos Levitas, toda escondida entre oliveiras e palmeiras; depois em Dethem onde Joseph foi vendido por seus irmãos: depois na velha Bethulia, pátria da forte Judith: vi Shomeron, que foi uma das mais velhas cidades de Israel, hoje caída, coberta com muralhas e bastiões de Herodes: Sichem, junto da qual Abrahão ergueu a sua tenda, debaixo dos carvalhos do Moriah: Siloeh, onde se fez a partilha do território entre as tribus, e onde pousou pela primeira vez o tabernáculo, depois da conquista de Canaan.
Depois desviei-me para os lados de Jerichó, que estava então cheio de seivas e de rosas: junto ao Jordão andavam ainda alguns discípulos de João, cheios de saudade e de desejo: atravessei as lúgubres colinas de Judá, asilo de profetas, tumulo dos heróis: uma madrugada entrei, só, em Jerusalem.
em esse dia logo, subi ao templo. Junto dos pórticos exteriores, onde trabalhavam ainda cinzeladores de Cesarea, pedreiros de Samaria, vi, entre homens da Galiléa, a alta figura de Jesus de Nazaré. Estavam parados, esperando: um homem de Karioth, chamado Judas, curvado diante de um cambiador de moeda, trocava drachmas, atento. Parei, comovido, a olhar profundamente o Rabbi. Ele estava triste: os braços caidos, sem vontade, sem gesto: a cabeça desanimada. Tinha, nas feições finas, delicadas, pessoais, uma abstracção, uma transcendente serenidade. Os olhos cheios de infinito, que pareciam olhar de um logar inacessível, a testa larga, expressiva como a imobilidade de um céu, assemelhavam-se, superficialmente, como o corpo se assemelha á sombra--aos olhos, á testa de Hillel, de Jesus de Sirach e de um outro, que era como eles dado ás contemplações, á abstracção, ao ideal. A boca tinha uma fórma tão pura, tão leve, uma mobilidade tão penetrada de graça, que parecia que de ela só deviam soltar-se ironias aladas: mas o forte contorno dos lábios, a sua linha que era como um arco em descanço, tinham uma gravidade, uma beleza austera, que denunciavam a origem das palavras elevadas, e faziam sentir o profeta. Parecia-me vêr-lhe, na parte inferior do rosto, uma firmeza, uma expressão de energia, que o tornavam um pouco semelhante a Judas Galannite, o poderoso agitador, em quem a acção era como um sangue vivo. De resto, um ar simples.
Ele olhava os trabalhos dos pórticos, com um desdem sereno. Nos galileos sentia-se o constrangimento, o isolamento.
Entrei no santuário: nas câmaras dos serviços dois escribas argumentavam junto da arca do tesoiro, com exclamações abundantes. Interroguei-os; disseram-me que o Rabbi de Galiléa muitas vezes prégara no templo; que curara alguns doentes dos que se lamentam nas galerias da piscina probática; que argumentara com os escribas, e que em casa de Hannan, na sala do banho, Gamaliel dissera do Rabbi:
--Ele é bom e justo: mas não diz coisas novas.
Argumentava-se muito sobre aquela palavra contida o desdenhosa do sábio Gamaliel, entre os privados de Hannan.
--Mas Gamaliel--dizia soberbamente o escriba--é um homem alheio a nós; entretem relações com essa gente da escola de Alexandria; viaja demoradamente em Sichem onde estão os heréticos, e em Cesarea onde estão os romanos, e dá-se á cultura helênica, desprezando a lei.
--Homem--disse eu--em que despreza Gamaliel a lei, estudando e sabendo as letras gregas?
O escriba riu finamente, como em triunfo:
--Pois não diz o texto:--e a sua voz era compassada e enfática--«Estudarás a lei de noite e de dia, e se assim não fizeres desagradarás ao Eterno?» Ora--e traçava amplamente a capa, tossindo, victorioso--ora Gamaliel só não desagradará ao Eterno se estudar a sabedoria grega em um tempo, que não seja nem a noite nem o dia.
O outro escriba, que era Eliel, de Efraim, aprovou ruidosamente, batendo no peito. E sob a sombra pesada do velarium saudaram-se, risonhos.
Saí das câmaras levíticas, á hora sétima, quando ha nos terraços do templo uma vida poderosa. Uns argumentavam, ou estudavam a lei, com as folhas de metal diante de si, em movimentos rítmicos; outros vinham comprar ofertas de pombas e cordeiros; alguns consultavam sobre questões agrarias; muitos vinham trocar moedas; os serventes do templo passavam com as rezes a leval-as ás piscinas; tocavam as trompas que anunciam a hora dos sacrifícios: os doentes cantavam os psalmos; as mulheres levíticas lavavam as vestes brancas nos tanques exteriores, espertavam as fogueiras purificadoras, ou giravam em volta das primeiras columnas, batendo em discos de metal.
Eu entrei na galeria de Salomão, toda sonora de vozes. Jesus, cercado de galileos, tinha ensinado. Alguns gritavam: «Hosana, ao filho de David!»: porque os pobres, os doentes e as creanças, vendo que ele era entre os homens o melhor, o mais terno, o mais consolador, chamavam-lhe o filho de David; os escribas riam, bocejavam desdenhosos. Alguns fariseus, tomados de exaltação, queriam a convocação do sanhedrin. Um velho herodiano, com gestos desolados, lamentava a decadência da escola profética de Israel.
--É um ignorante--diziam, com desprezo, vastos doutores.
Asperos, zelozos, com a cabeça envolvida na ponta do manto, as barbas eriçadas, insultavam-o. O povo, com o ruido de um arvoredo, falava do Mestre: alguns velhos diziam:--Sim, sim, irmãos, este é um profeta!
--É o Cristo! É o Messias!--clamavam grandes vozes.
Muitos iam, correndo, prostrar-se diante da porta da Arca bradando:
--Graças, Senhor, o Messias chegou!
Os sacerdotes interrogavam, inquietos. Os homens espalhavam-se pelo templo, gritando:
--É o Messias, é o profeta da Galilea!
Os escribas andavam entre a multidão, explicando, convencendo:
--Que dizeis? Vós não conheceis a lei!
--A lei diz que o Messias virá, e que Elias resuscitará!
--Calae-vos!--bradavam os escribas--Sois também galileos? Não sabeis que a escritura diz que o Messias há de ser da geração de David? E não sabeis vós que este é o filho do carpinteiro Joseph, e de uma mulher da aldeia de Caná? Não vol-o tem dito todos os que veem de Nazaré?
--É verdade, é verdade--diziam alguns.
--E não sabeis--continuavam--que os textos dizem que o Messias nascerá em Bethleem, e onde nasceu este? Em Nazaré, bem o sabeis.
Uma voz, receiosa mas irritada, disse:
--Pois ele nasceu em Bethleem!
--Em Nazaré!--bradaram alguns escribas.
--Sim, sim, em Nazaré--disse a gente.
--É, pois, o Cristo?! Ide, homens amaldiçoados que andais afastados da escritura!...
Os do povo calavam-se, mas desciam rapidamente as largas escadarias areadas, porque se dizia que Jesus estava curando e ensinando no Tyrepeon.
VII
Fui apressado ao Tyrepeon: Jesus tinha saído a porta dos Rebanhos, atravessado o Cedron, subido a Betânia.
Quando eu voltava para Bezetha, veio a mim um homem muito conhecido em Jerusalem, que era Jesus Bar'Abbas. Era uma figura descarnada, torta, arqueada, cheia de cicatrizes, imunda, rindo sempre, em farrapos. Era uma especie de truão de Jerusalem. Tinha gracejos, farças, deslocações: espancavam-o, ele ria, estendia uma ponta da túnica para aparar os drachmas. Encontrava-se com a sua lampada em todos os noivados, gritando em todos os enterros, com uma pedra em todas as sedições, em todos os suplícios com uma cantara de posca, para vender aos soldados. Tinha todos os desastres da miséria, do vicio, e era servil. Os soldados expedicionários espancavam-o, ás vezes prendiam-em o, mas o povo cobria-o com uma proteção avara. Era casado. Tinha uma voz vibrante, forte para cantar os psalmos e imitava os profetas, prégando. Cheirava miseravelmente a alho.
Jesus Bar'Abbas pediu-me um drachma, e disse-me que em essa noite Simeon, um rico do sanhedrin, tinha uma ceia para os oficiais do templo e sacerdotes, fora das muralhas, em Betfagé.
Simeon amava as festas, tinha vivido em Roma, era soberbo; contava com orgulho que fora amigo do gladiador Esterius.
Bar'Abbas fazia rir Simeon: comia com os seus servos, dormia nos seus átrios.
em essa noite fui a casa do Hannan. Nos páteos, João aquecia-se ao lume, junto da velha de Capharnaum.
Caifás e Gamaliel estavam com Hannan. Gamaliel dizia versos gregos: Hannan, repousado, com os olhos cerrados, grave, escutava; Caifás aquilino, duro, áspero, tinha uma atitude desdenhosa. Dois escribas, encrusados no chão, comiam.
Quando o serão ia remoto, repentinamente Caifás mandou-me a casa de Simeon. O sanhedrin devia reunir-se ao outro dia pela hora oitava: tinha havido exigências do legado imperial sobre os vasos do templo.
Um escravo negro de Hannan seguia-me com uma lanterna; a noite era negra, quente, mole: ouviam-se apenas uivar os cães.
Em Betfagé, os servos de Simeon conduziram-me ao pomar onde era a ceia, sob um grande velário feito á moda grega, suspenso ás ramagens dos cedros. O chão estava coberto de areia vermelha, luzidia. Largas lampadas resplandeciam. Flôres de Damasco, rosas de Jerichó, jasmins de Chorasin, e as plantas fortes de Galaad, pendentes dos vasos negros de Perca como serpentes verdes, penetravam o ar da mole vitalidade que dão os aromas. No chão estavam amphoras, grossos cântaros envoltos em palha, jarros cinzelados. Os escravos frígios, com os longos cabelos relusentes de óleo, giravam apressados.
Havia ali membros do sanhedrin, escribas, sacerdotes, herodianos, sadduceus, fariseus. Todos eram zelosos devotos, amplos em sacrifícios: alguns costumavam cobrir-se de cinza. Estavam todos deitados em estrados, cobertos com lãs de Babylonia. Alguns eram gordos, fortes, vermelhos. Quase todos tinham a fisionomia áspera, adunca, eriçada de barbas. Relusiam cabeças calvas.
O vinho doirado, o vinho de Safed, um falerno de Cesarea, dava uma ampla respiração aos peitos, uma feliz cintilação aos agudos olhos negros. Havia largas risadas. Fariseus austeros, que se ferem nas pedras dos caminhos, curvados sobre os discos de aço brunido, devoravam com um ruido devoto. Outros tinham olhares anciosos, e desapercebidamente, esvasiavam as largas taças de bronze. Alguns, decrépitos, desdentados, tinham sobre a barba fios de molho. Velhas mãos tremulas e lividas levantavam as amphoras.
Alguns, estendidos sobre leitos como animais que ruminam, tinham as túnicas soltas, os braços nús. Cabeças enérgicas, duras, mostravam uma expressão irritada, fixa, vasia; os velhos tinham largos risos cínicos. Uns dormiam, outros cantavam. Um velho curvado, frouxo, rouco, lembrava as mulheres e os fariseus. Entre esta multidão sacerdotal havia um romano. Era Publius Sextus, logar tenente do legado imperial; falava com palavras abundantes, largos gestos. Era pálido, com uma pequena cabeça enérgica e voluntaria; era devasso, servil, falso, luxuoso, e vinha de Caprea. Era ali escutado como um profeta na antiga Israel; falava da via Ápia, das festas de Roma.
Eu escutava, encostado a uma árvore, na escuridão, concentrado o triste:
--Só em Roma se vive--dizia ele.--Isto é peor que o bairro das Esquilias. Não é por vós, Simeon, que tendes a escola do vosso amigo Ventidius, homem que sabe comer; mas, na verdade, que nos recebem aqui como Evandro recebeu Hercules, com farinha cosida e uma esteira espartana!
--Mas vós outros, os romanos, sois glutões e amigos do vinho!--disse Nathaul, um escriba, homem invejoso, com lábios carnais.
Mas Publius falava de uma ceia em casa de Atticus, antes de vir a Ostia embarcar com o legado da Syria.
--Quereis saber?--perguntava.
--Dizei, dizei--gritavam curiosamente pela meza.
--O chão era de mosaicos gregos. Entre as columnas havia largos panos tecidos de aço, pesados, á moda de Carthago. Um vapor de água tépida penetrava os músculos, enlanguescia. Tinhamos esfregado os braços, o peito, com pedaços de pele de tigre humedecida de óleo. Os membros estavam ageis, faceis para as danças, para as escravas! Do tecto caíam folhas de rosas humidas!
Todos tinham olhos cintilantes; estendiam-se para escutar; alguns estavam de pé, junto de Publius.
--O trinchador--dizia ele--o trinchador, meus amigos, era o próprio Tripherius! Tinhamos lebre, gazela, faisão de Lichtia, cabras da Getulia, javalis, cordeiros de Tibur, que nunca tinham comido herva, e tartarugas delicadamente preparadas em môlhos da Campania, na própria concha, polida, transparente! Moreias do lago Lustrino, lagostas nadando no azeite de Venafre! As taças eram de âmbar. Que dizeis vós?
Os austeros doutores, os graves herodianos, os fariseus, cevados, oleosos, com os beiços luzidios de môlhos, a boca riscada de vinho, tinham um olhar avido, guloso, impio, para as palavras de Publius.
Bar'Abbas, entre os escravos, tinha os olhos humedecidos pelo desejo. Todos admiravam.
O romano dizia o fim da ceia e as gaditanas que entravam, envoltas em tecidos diáfanos, correndo em choreias, em volta dos triclínios, e aspergiam a cabeça dos saciados, com lilazes molhados em Falerno!--E falava das mulheres romanas do bairro de Suburra; e com uma voz branda, curvando-se:
--Que estas mulheres sírias--dizia--têm uns olhos escuros, que valem centenares de sestércios!
Os outros riam. Falavam baixo, jovialmente, contavam, lembravam, desejavam.
--Estas mulheres são castas e cuidadosas, as romanas são devassas, e tudo ali terminará, como em Sodoma e Ninive!
Quem assim falava era um fariseu, Essen, homem magro, livido, cavado de jejuns, com uns olhos tenebrosos, cheio de barba. Não comia, e parecia constrangido, isolado. Tinha vindo para amaldiçoar, para lembrar a morte e o terror de Jehovah!
--Devassas, dignas do fogo--para vós, devotos e zelozos! Mas belezas impeccaveis, imortais, para quem póde desapertar a rêde de ouro, em que elas prendem o seio! São os seus costumes que as tornam desejadas, que as fazem mais apetitosas que todas as farinhas molhadas em leite que elas põem na face, e que todos os unguentos de Poppea.
Publius falava, inflamado, descomposto: tinha gestos lascivos; bradava os nomes das damas romanas:
--Vêde Laupella, uma patrícia! E Medullina! E Hillia, que se namorou do actor Urbius, e Hippra que fugiu com o gladiador Sergio, e Hipulla, que em plenos jogos megalésios, diante do povo romano e das legiões, cuspiu na estatua do Pudor!
Uma larga risada sacudia os peitos. Bradavam:
--Contae, contae!
Enchiam as amphoras; arrepelavam os escravos. De bruços, sobre a mesa, com a cabeça apoiada nos braços, esperavam voltados para Publius, com olhos perturbados. Os velhos abriam largamente uma boca escura, sem dentes. Os olhos reluziam. Havia gritos. Um escriba da arca do tesoiro gaguejava uma cantiga siciliana, com voz áspera, arrastada. O circulo de cabeças avidas, duras, curiosas, destacava violentamente no escuro. Publius exclamava, com palavras tumultuosas: tinha a túnica clara manchada de vinho; tinha os braços nús, brancos, femininos: e com largos gestos:
--E Tucia! e Tucia!--gritava--Eu vi-a um dia no teatro, quando o actor Bactylo fazia com toda a sorte de lascívias o papel de Leda, torcer-se no seu logar, arrancar a rêde dos seus seios, e com os olhos mortalmente languidos chamar a altas vozes:--Bactylo, Bactylo, vem!
Largas risadas. Alguns gritavam, imitando o romano:--Bactylo, Bactylo!
Os velhos torciam-se nos seus triclínios, tomados de riso, de escândalo. Alguns escribas gritavam:--Viva Roma! Os fariseus tinham olhos terríveis, e uma atenção avida. Um cortava violentamente o pau do estrado, mordendo os lábios!
Publius pedia falerno, folhas de louro, insultava a indolencia dos escravos, queria lançar fogo ao velarium, e dizia:
--Quem conhece Cessenia? Ninguém conhece Cessenia? Cessenia tinha de dote seis milhões de sestércios. Casou com Sertorius, o pobre, com a condição de poder escrever diante do marido os bilhetes aos amantes, o poder ir deitar-se uma vez cada mez, para quem entrar, no leito alugado de um lupanar do Suburra!
Os escribas riam, esvasiavam as taças, desafogavam o pescoço das túnicas pesadas, lançavam para longe as folhas de metal presas á cintura, onde está escripta a lei. Um, ébrio, com os olhos riscados do sangue, pedia o culto de Baal.
Alguns sacerdotes tinham adormecido sobre os triclínios, curvados, enroscados, imóveis. Os fariseus torciam os braços, falavam de Tyro.
Publius clamava:
--Pois que ha de melhor que vêr uma patrícia, de longo penteado e saia curta, depois de estar cheia de ostras e lagostas irritantes, beber de um trago em uma enorme taça o falerno consular, e vir, resvalando sobre o mosaico humido de vinho, caír sobre o nosso peito, gritando em grego: minha alma, minha vida, ai!
E Publius arqueava lascivamente os braços, deixando pender a cabeça, a garganta túmida de suspiros, arquejando!
Os escribas, os fariseus estavam cheios de delírio e de vinho. Riam animalmente. Soltavam grandes gritos. Alguns rolavam-se no chão: mordiam as almofadas dos triclínios. Derramavam o vinho sobre os vestidos, abraçavam os escravos, quebravam as taças exaltados. Um jogava a lucta com uma árvore, depois envolvia-a, beijava-a. Cantavam em grande voz os cantos do tempo de Salomão, dando-lhe expressões lascivas. Feriam a cabeça contra os grandes jarros cinzelados. Corriam, inflamados, como em um mistério sagrado. Alguns gabavam-se de devassidões ocultas. Falavam de dinheiro, de banquetes, de mulheres, de prostituições sagradas no fundo dos bosques!
Publius gritava:
--Não sabeis, fariseus, não sabeis a aventura de Lentullus?
--Não, não!--bradavam alguns penetrados da alegria, do escândalo, de curiosidades inflamadas!
--Lentullus casa com uma virgem patrícia, neta de cônsules: nove meses depois prepara, segundo o costume, para o filho que vai nascer, o berço de tartaruga, coberto de estofos e de ramos de loureiro, e expõe-no ás boas palavras dos que passam. Mas toda a nobreza da via Ápia rompe em risadas. O filho de Lentullus era a imagem viva do bufão Eurialo, e tinha, como ele, três verrugas no queixo.
A risada fazia o ar sonoro. Publius de pé, manchado, com a túnica rota, descomposto, gritava:
--Ouvi, ouvi!
Escutavam com um riso inquieto.
E Publius, enfático:
--Os actores--dizia--os gladiadores, os bufões, os tocadores de flauta, os truões, são os pais de todas as creanças que nascem na nobreza romana!
Um velho fariseu, elevando sacerdotalmente uma amphora, gritou com uma voz terrível:
--Vivam os truões!
A multidão sacerdotal bradava, uivava, cantava, rojava-se pelo chão. Era bestial e imundo.
Bar'Abbas, espancado, cambaleava, blasfemando, jovial.
O vinho começava a domal-os: alguns escorregavam, caiam, agitavam-se como agonisantes, e perdiam os espíritos em um sono petrificado. Outros penetravam na espessura do pomar, buscando as frescuras da herva e da água. Uns falavam como em um delírio grotesco. Dois escribas argumentavam, frenéticos, hostis. Um forte e vasto fariseu, de bruços sobre a mesa, o olhar fixo, bestial, roía monotonamente uma flôr.
Simeon resonava no seu estrado. Publius no chão humido. Os escravos deitavam peles sobre os dormentes. Os lampadários extinguiam-se. Vinha um frio humido. Cantavam os galos.
Eu atravessei o pomar, subi a um terraço.
Uma claridade assustada, abatida, aparecia. Eu via ainda reluzirem lampadas nos pequenos bazares, que estão sob os cedros do monte das Oliveiras. Ouvia-se o rumor grave do Cedron; por vezes o grito de um chacal. Via Betânia; ali Jesus dormia sereno, puro, impecável.
Voltei aos pórticos da casa, pela rua areada do pomar. Ali havia um rumor; os escravos, agitados, falavam. Alguns da milícia do templo tinham encontrado, no pórtico de David, nas lages, uma mulher nos braços de um homem. Era uma adultera; a milícia trazia-a a casa de Simeon, que em aquela semana fazia a condemnação dos desacatos ao templo, em nome do sanhedrin. A milícia tinha sido diligente, apressada, minuciosa, porque a miserável, era mulher de Bar'Abbas, e todos queriam vêr as contorsões joviais, o desgosto grotesco do truão! Mas Bar'Abbas estava prostrado, imóvel, enroscado no chão.
Fui ao logar do velário: os doutores, os fariseus acordavam: era já manhã azul; todos se erguiam, fatigados, sombrios, calados, hostis; aconchegavam-se nos mantos, lívidos, tomados do frio: procuravam os cintos das túnicas, amarravam as franjas, apanhavam, limpavam as laminas da lei; sacudiam-se, penetrados do orvalho. Queriam água clara, fria; os escravos traziam largas conchas de jaspe; bebiam, mergulhando a cabeça, enchiam as taças; alguns iam estirar-se, de rastos, junto de um regato, e bebiam com a cabeça entre as hervas. Simeon, absorto, somnolento, bocejava:
--Vinde--dizia-lhe eu--tendes serviço; vieram uns da policia, com uma miserável mulher.
Simeon, tremulo de frio, febril, encolhido no manto, caminhava, arrastando os coturnos, para o seu pátio civil. Fariseus, doutores, membros do sanhedrim, seguiam-em o. O pátio era largo, em columnas. Uma lampada esmorecia. O cão acorrentado rosnava.
Os da milícia falavam, riam, partiam um pão escuro, bebiam em cântaros. A mulher caída sobre o chão, rota, somnolenta, imbecil, soluçava. A túnica aberta, deixava vêr a forma impecável do seio.
Simeon interrogava.
--Vem presa--dizia eu, com uma voz forte, que dominava, no silencio;--acharam-em a á porta do templo, no pórtico de David. Vêde-a. Estava em ato de adultério.
--Oh!--disseram todos indignados.
E fariseus, scribas, sacerdotes, recuavam, escondiam a cabeça nos mantos, estendiam a mão espalmada, esconjurando:
--Lapidada, lapidada!--disseram irritados.
Alguns cuspiam-lhe sobre o seio. E saíam apressados, erguendo os mantos, para que não tocassem o chão, impuro pelo contacto da mulher adultera.
Essen afastou-se, e falou junto ao ouvido de Simeon.
--Sim, sim--disse Simeon, e voltando-se para os da milícia:--Esta mulher que seja aqui guardada até á hora sexta.
Eu saí. Os soldados romanos, abriam com estrondo metálico as portas de Jerusalem. A multidão apressava-se: vinham os vendedores de legumes dos hortos de Betfagé, da Betânia: os camponezes de Betel traziam os sacos de trigo: passavam solenemente as fileiras de camelos. Um beduíno de Idumeia conduzia rebanhos: as rezes balavam. Do alto da torre Antonia vinha um som de trompas: entravam velhos mercadores sentados em seus burros: um vidente clamava!
VIII
Eu ia triste: o amanhecer, a aparição espiritual da aurora, enche de melancholia, depois das noites tomadas de vinho, fartas de carne. Demais, nunca os tenebrosos devotos me tinham despertado, pelo seu artificio, tão altivos despresos.
Mal dormi, durante o roxo da madrugada: á hora quarta, encaminhei-me, obscuro e inconsolado, para os meus monótonos oficios do templo. Alguns dos fariseus, dos escribas, que se tinham rojado nas relvas de Simeon, já argumentavam, ajustavam rezes para os sacrifícios.
O dia estava nublado, hostil ao homem. Eu afegava-me na melancholia: pensava nos prados da Galilea, nas águas do lago, nas espessas folhagens: Jerusalem, cidade de pedra escura e de negra intriga, pesava-me. Sentia-me desligado da vida sacerdotal. E dizia: Se eu fosse um pobre cultivador das vinhas de Safed, um semeador das planícies de Saron!
A multidão provincial enchia o templo: havia o ruido de um mercado: a minha irritação crescia: percebia em volta de mim uma influencia material, dura, mesquinha, sufocante! Ia-me encostar á balaustrada da galeria de Salomão, olhava as verduras, as hortas, os cedros do monte das Oliveiras: mas tinha de entrar nos santuários, de roçar pelos fariseus, escribas, por aquelas hierarchias sacerdotais que me amargavam. As columnas enormes e brancas, as portas esculpidas em bronze irritavam-me: invejava a herva que cresce junto ás pedras dos mortos.
Aquela vida sem fé, sem dignidade, era-me tão odiosa como me seria odioso o meu corpo se ele se petrificasse, deixando-me a alma livre. Para qualquer lado que olhasse de aquela organisação sacerdotal, só via uma hipocrisia ou uma especulação, ou uma vaidade, ou uma humilhação: os sacerdotes que se prostram á entrada do santuário, no seu extasi enfastiado; os argumentadores vãos, artificiais, vasios; os doentes que cantam os psalmos, mendigam, riem, fazem a ostentação ruidosa das suas chagas, tudo me dava um tédio obscuro e atormentado. Sentia em mim cóleras de bárbaro: agradava-me a ideia de despresar com um açoute aquele sacerdócio aviltado que vive do templo, lhe comprehende a vaidade e lhe aceita o lucro. Quantas vezes eu percebi o sorriso imperceptivel dos sacerdotes sacrificadores, diante da piedade simples e crente de pobres galileos e de provinciais ingênuos!
Invejava quase o romano, o grego, o mercador de Tyro, que não são de Jerusalem, nem do templo, que não habitam em este espaço duro, entre o Aera e o Moriah, captivos e gementes!
Que temos nós em Jerusalem de bom, de justo?--perguntava a mim mesmo.
--Temos uma pátria? Não!--E olhava a torre Antonia, onde os expedicionários, com grande ruido, atiravam á barra.
--Temos uma religião, uma fé? Não!--E via os sacrificadores vestindo os pertuais, para degolar as pombas da raça sagrada, enfastiados, bocejando das noites mal dormidas na encosta de Sião ou na rua do Alto Mercado, no leito das cortezãs de Cesarea!
--Temos nós uma sciencia, uma lei elevada, forte, justa? Não!--E olhava aqueles estereis, consumidos doutores, clamando contra uma palavra, e argumentando se os papyrus devem ser enrolados, ou dobrados para agradar ao Senhor!
Até a brancura do templo, aquelas escadarias novas polidas, aqueles frisos pálidos e nítidos, me faziam o efeito do quer que fosse que não tem alma, nem passado, nem legenda! Eu sentia que o ideal já não habitava Jerusalem!
Ambicionava ter a palavra de Isaias, a sciencia de Gamaliel, a popularidade de Judas Galannite, e á frente das multidões do norte, Galileos e Samaritanos, gente espontânea e forte, derrubar tudo na escura cidade, desde o pórtico onde era o fariseu, até á ameia de onde escarnece o Romano. Estes pensamentos enchiam-me--ou resultados da noite perturbada, ou suggestões de um estado elevado de consciência, ou, emfim, efeitos da reação que em toda a alma honesta aparece um dia, contra o que ela julga o erro ou a vaidade.
--Ah! Jesus de Nazaré--pensava eu--é o único homem que nos poderia salvar, ou como um Messias, ou como um Machabeu, ou como um simples, que tem a fé e a justiça! Mas terá ele a acção?
Aqueles braços, consumidos de se erguerem em vão para o seu ideal, terão o vigor de sustentar a velha espada da pátria Judea? Será ele o homem humano, forte, duro? Ou o seu corpo é apenas o carcere de uma alma melancholica e transcendente?
O Rabbi de Nazaré tem popularidade na Galilea; as suas máximas largas, onde cabem o pecador e o pagão, chamar-lhe-ão a Samaria: a Perea é um paiz de profetas; o povo de Jerusalem sofre todos os dias a vexação de Roma: todo o paiz cultivado, que vai até Jopé, é infeliz, porque o tributo devora a seara. Poderá Jesus de Nazaré fazer este movimento popular?
Porque a ideia de uma pátria perseguia-me, como uma voz que pede socorro.
--Porque não?!--dizia eu--Surprehendi já nos seus olhos uma vontade dura: porque há de ele ser apenas abstracção, ou simbolo?
E pensava em falar a Jesus de Nazaré. Estas ideias aliviaram-me, como inesperadas consolações.
O dia azulava-se, enchia-se de sol imortal. Eu sentia, junto aos pórticos, onde esperam as rezes dos sacrifícios, o profundo mugir dos bois: tinha a sensação de natureza verde, de tempos repousados, contentes.
O templo estava cheio do rumor da multidão civil. Eu descia a larga escadaria para o pátio da balaustrada. Vi Jesus de Nazaré junto do pórtico onde estão as inscripções latinas e gregas de entrada defeza, cercado de galileos, de povo. Os de Jerusalem começavam a atender ás palavras de Jesus: ainda que penetrados da educação farisaica, e limitados em um espirito estreito e hostil, achavam verdade, doçura, nas parábolas do Rabbi da Galilea: era o povo do baixo mercado, dos arredores de Betânia, de Betfagé, do Monte das Oliveiras. Os mercadores, os ricos, mesmo os mais afastados dos zelos farisaicos, tinham para a palavra do Mestre o riso áspero, o desdem, ou a indiferença.
O Rabbi de Nazaré estava triste. Sentia-se de certo isolado, sufocado, em aquele mundo hostil, argumentador. Jerusalem devia pesar á alma delicada e aspiradora do Mestre. Lamentava decerto os seus campos da Galilea, as solidões consteladas, os pomares de Chorasin. em aquela alma passava-se uma lucta dolorosa entre a fé, a convicção que o retinha em Jerusalem, e os seus instinctos todos suaves, idílicos, que, com vozes amantes, o estavam levando para os prados da Galilea! A sua vida até aí tinha sido larga, fácil como a sua túnica, toda penetrada do amor, da luz paradisíaca do reino de Deus.
Em Jerusalem a sua vida seria de lucta, de intriga, de hostilidade, de desdem. E onde tinha tomado o doce Mestre do lago a energia, a resistente fibra, para esses dias amargos? Nos embalos da água, no ar doce das montanhas da Galilea, na leitura serena da sinagoga de Magdala, no amor humildo dos seus companheiros? O homem muito amado póde ser forte? A felicidade simpática, as intimidades femininas, a piedade dos velhos, pódem dar a dureza, a altivez, a atitude indomável? Não, não: em presença de aquelas poderosas hierarchias sacerdotais, da hostilidade minuciosa dos escribas, das oposições farisaicas, da impassibilidade inimiga de Jerusalem, a sua alma acostumada a ser amada, rogada, devia fechar-se asperamente no seu ideal, como em uma concha. O receio da morte era, em ele, decerto maior do que a repugnância que devia fazer á sua alma virginal o escárnio, a argumentação vingativa, o opróbrio. Viver sempre na Galilea, pregar o seu coração, dar-se em amor e em verdade aos infelizes mal amados e transviados, ter a eterna serenidade do seu idílio social, que doce futuro, terno, purificado, coberto de luz!
E estava ele bem certo de convencer as almas, de converter as hostilidades? Como seria comprehendida a sua palavra de amor, de egualdade, de perdão, de pobreza, em este mundo todo egoísta, avaro, hierarchico, politico? Não ia ser repelido por um imenso desdem? Ele só pela sua palavra etérea, pela promessa do reino de Deus, como luctaria com estes sacerdotes que têm liteiras, milicias, escravos frígios, columnas de mármore grandes como torres, e um templo edificado como uma eternidade? E os seus olhos voltavam-se com amargura para as edificações de Herodes, o grande!
Os galileos tomaram, nas suas feições e perfil, da melancholia do Mestre: eles, pobres camponezes ignorantes, sentiam-se esmagados no meio de tantos mármores do templo, de tanta sciencia de doutores, de tantas forças civis!
Jesus ia, com passos casuais, pelos terraços do templo: os seus olhos tinham um vago inefável: os discípulos mostravam-lhe ou um sacrificador revestido, resplandecente, ou as altas columnas incrustadas de jaspe, ou as laminas de ouro do santuário: ele olhava, infinitamente triste, com um desdem abatido.
Eu estudava junto de ele o movimento provável, logico, das suas ideias: mas um grande rumor encheu o templo.
Jesus de Nazaré estava nos altos terraços, de onde se domina todo o baixo recinto do templo.
Pelos páteos, pelas escadarias, aproximava-se uma multidão cheia de vozes, de gritos penetrantes.
Adiante, entre alguns da milícia sacerdotal, armados de paus, couraçados de peles de búfalo, vinha uma mulher, arrastada; escribas, fariseus, herodianos, inflamados de zelo, cheios das vinganças da lei, vinham em volta, com largos gestos de cólera, ásperas imprecações. Os negros olhos irritados reluziam. A mulher a todo o passo caía, abatia-se, duramente espancada: tinha fortes cabelos negros desmanchados, os pés riscados de sangue, a túnica despedaçada, o rosto levemente aquilino tomado de afflicção.
A multidão dura clamava: todos corriam, curiosos: vinham os vendedores de pombas, os cambiadores de ouro: os escribas saíam do santuário: vinham os pregoeiros, os demandistas, os que passeiam na rua com fardos, ou conduzindo gados; os doentes da piscina arrastavam-se, os coxos corriam com grandes deslocações nas suas muletas.
Todos interrogavam, queriam penetrar até aos soldados, aos fariseus: havia uma curiosidade barbara: alguns subiam ás balaustradas, e estendendo o manto sobre a cabeça, contra o pesado sol, olhavam avidamente: as aves de sacrifício, assustadas, esvoaçavam, as rezes balavam. Os sacerdotes revestidos á porta do santuário, sobre a tripeça de bronze, olhavam, interrogavam. A multidão enchia as escadarias e os páteos.
O Rabbi de Nazaré estava no terraço, imóvel, sereno, cercado dos seus galileos: defronte de ele havia um espaço batido do sol: os soldados pararam ali, e a mulher caíu sobre a pedra, sufocada, abandonada, torcendo os braços. Era alta, esculptural, de fortes cabelos, com uma semelhança pagã.
Então, em um grande silencio, um escriba, que vinha, caminhou para Jesus, e com a voz austera, altiva, disse:
--Rabbi, sabemos que és justo e verdadeiro; aqui está uma mulher que foi achada em adultério nos pórticos do templo.
--Lapidada! lapidada!--prorompeu a multidão.
Erguiam-se braços com paus; apareciam rostos inflamados; sentiam-se os gritos agudos, arrastados, das mulheres.
Jesus tinha o olhar abstracto; aos seus pés a mulher soluçava; os soldados riam.
O escriba falava, com gestos abundantes:
--Rabbi--dizia--a lei de Moysés, a nossa lei, diz que a mulher adultera deve ser lapidada; mas tu que a comentas, explica a lei; o que pensas tu, Rabbi?
Jesus olhou o escriba serenamente.
--O Rabbi de Nazaré perdoa sempre esses pecados--gritou alguém entre a multidão.
Sentiram-se risos. Um velho, áspero, adunco, gritava:
--Ele vive com as mulheres possessas; ele vive com os publicanos!
E um fariseu bradou:
--É o Salomão das mulheres perdidas.
Toda a multidão riu largamente, mas o escriba mostrava o plilecterio onde anda escripta a lei, e exclamava:
--Ouve bem, Rabbi, a lei de Moysés manda-a lapidar.
O povo cruel dizia em um clamor:
--Lapidada, que seja lapidada!
Alguns fariseus gritavam:
--E o Rabbi, e o Rabbi de Nazaré!
Os sacerdotes, escandalisados, faziam vêr os centuriões da milícia templaria. A multidão era espessa: os mendigos apregoavam posca; os vendedores de Betfagé mostravam pombas enfeitadas de escarlate: os doentes da piscina iam entre a gente, mostrando as chagas, dizendo os psalmos, pedindo drachmas: da torre Antonia algumas cabeças de legionários espreitavam.
Então uma voz aguda, vibrante, amarga, gritou:
--Essa é a mulher de Jesus Bar'Abbas.
Uma risada sonora, pesada, tomou o povo: os soldados apertavam as costelas; os sacerdotes, junto ás portas da ara, riam nas suas longas barbas, fazendo oscilar as pesadas mitras cravejadas. Entretanto, os fariseus iam entre os homens, contentes de riso, dizendo:
--Esse Rabbi de Galilea quer que seja perdoada; é um homem impuro, que despreza a lei.
Alguns queriam levar o Mestre perante o sanhedrin.
Mas na multidão havia uma oscilação: sentiam-se gritos, risadas joviais, vozes; o povo afastava-se: e de entre a sua escura espessura vinha empurrado, repelido, atirado, um homem.
E vozes alegres bradavam:
--Aí vai Jesus Bar'Abbas, aí vai!
O homem, esfarrapado, absorto, assustado, veio estacar, olhando, em essa áspera inquitação, como um boi espantado, junto de Jesus.
Era Bar'Abbas.
Viu a mulher soluçando, caida sobre as largas lages.
E olhava, com os olhos vibrantes, voltava-se, recuava, e tomando, com ambas as mãos, violentamente, uma ponta da túnica, estendeu-a para a multidão, gritando:
--Quem dá para o luto?
O povo ria; bradava:
--Lapidae-a, lapidae-a!
Bar'Abbas dizia:
--Lapidae-a, dae-me para o luto!
E ria, com grandes contorsões, com visagens. A mulher chorava.
Havia um clamor; o povo pedia a lapidação; os fariseus, os escribas diziam que o Rabbi queria o perdão, o desprezo da lei.
--Fala, Rabbi, fala!--gritavam-lhe de entre a multidão.
Mas Jesus olhava sereno, calado.
Então um escriba, erguendo os braços, convulso, com a voz mordente, colérica, bradou:
--Sim, sim, povo de Jerusalem! O Rabbi de Galilea despreza a lei, quer o perdão da mulher adultera.
Ergueu-se um clamor inimigo: alguns zelosos erguiam paus, pediam a morte.
Mas João, exaltado, tomando o braço ao escriba, bradou-lhe poderoso, irritado:
--Quem te disse que o Rabbi de Nazaré perdoa á mulher adultera? Ele manda lapidal-a.
Havia um silencio. E Jesus, adiantando-se, em toda a nobreza da sua estatura, para a multidão, com um olhar inflamado de luz, disse:
--Sim, lapidae-a! E aquele de vós outros que se julgar sem pecado, que lhe atire a primeira pedra!
A sua voz era forte, concava, misteriosa:--assustava.
A imensa multidão estava calada, absorta: alguns rumores elevaram-se: os fariseus, os escribas afastaram-se, rosnando. Alguns velhos choravam: vozes diziam:--É o Messias, é o Messias! Todos se dispersavam. Os largos páteos reluziam ao sol, quase desertos.
Eu afastei os soldados, soltei a mulher: os fariseus, em grupos irritados, comentavam, á porta do santuário, entre os centuriões da milícia templaria.
Eu que tantas vezes assistira ás lapidações de adulteras, estava concentrado, absorto: aquela palavra, caída no meio da minha educação judaica, perturbava toda a organisação do mundo interior que nos habita. Alegrava-me em vêr, com uma palavra simples e genial, a hipocrisia de uma raça ferida na sua essência: tinha admirações inesperadas pelo espirito harmonioso do Mestre da Galilea.
--Sim, sim--dizia eu--Jesus de Nazaré, pelo seu gênio simples e justo, pela delicadeza penetrante da sua palavra, pelo seu ensino sobre a riqueza, sobre os pobres, sobre o perdão, sobre o culto, e pela influencia poderosa do seu ser sobre os homens, está destinado, talvez, a ser a regeneração de Israel. Se ele tem apenas o espirito, eu terei por ele a força. Ai de mim! Ignorado, fraco, tímido, mais especulativo que activo, como poderia eu ser o homem decisivo de uma insurreição?!
Mas o tédio da vida presente, uma mocidade ávida de acção, o desdem irreconciliável pelo templo e pela sua gente, o prestigio que em mim tinha a vida do agitador Judas Galannite, tudo isso e o desejo de me aproximar do Mestre da Galilea me levou a procurar João, de Capharnaum, e a pedir-lhe, simplesmente, rapidamente, que me levasse a Jesus de Nazaré. João disse-me que á noite estivesse junto á Porta dos Rebanhos; viria um homem que me diria esta palavra: Shalon, que era a saudação usada do Rabbi, que o seguisse, e pela noite alta falaria a Jesus.
Uma tremula inquietação me tomou até ao anoitecer: o contacto com aquele homem, a gravidade das ideias que eu lhe levava, o perigo, tudo me tornava mais perfeito de sentidos, mais abundante de palavras, mais pronto de fé.
IX
Á hora terceira da noite, eu descia por entre os pomares, que têm a sua raiz na encosta, onde assenta o bairro de Bezetha: era em um horto, junto ao monte das Oliveiras, que eu ia vêr Jesus de Nazaré.
A noite estava cheia de um luar vivo, profundo: havia sombras suaves sob as largas ramagens: um silencio doce ocupava a terra. Ouvi apenas um canto, triste, arrastado: alguma pobre mulher embalava o filho, chorava o marido levado para as legiões de Roma.
O homem que me guiava, abriu uma porta, estreita, de vime: entrei em um espaço coberto por folhagem de cedro: sentia-se frescura de água, cheiro do plantas.
A lua alumiava, defronte, um espaço aberto, areado, com um banco de pedra: aí, com os braços cruzados no regaço, a cabeça apoiada ao muro, o olhar afogado no espaço alumiado, estava Jesus.
Ergueu-se lentamente, e disse:
--Paz.
--Paz e alegria, Rabbi!--disse eu.--Velavas?
--Velo sempre. Bemaventurado o que vela! Ele é como o servo diligente, que espera acordado o seu senhor que foi para as bodas: e mal o sente chegar, corre logo a abrir.
Jesus calou-se, perdendo o olhar no inefável espaço luminoso.
Eu aproximei-me, e com uma voz profunda, convencida, disse:
--Creio em ti, Mestre!
Jesus olhava, enlevado, transcendente.
Havia um silencio: eu estava constrangido, e dizia para o chamar ás nossas comuns imaginações:
--Rabbi, o que é necessário, segundo pensas, para alcançar, feliz, a vida eterna?
Jesus pousou em mim, demoradamente, os seus olhos severos.
--Serves o templo--disse--serves a lei, e não conheces a lei; a lei que diz?
--A lei--disse eu--ensina que amemos a Deus sobre tudo, e aos outros como a nós.
--E eu digo como a lei.
E olhava-me, penetrantemente: falava como em um sonho, ou a alguém invisivel.
--Não se póde servir bem a dois amos: um de eles se ha de desprezar, outro servir. Não se adora no mesmo coração a Deus e a Moloch.
Compreendi que o Rabbi não tinha confiança em mim: que me julgava um emissário do templo para lhe escutar a doutrina, e dar testemunho contra ele.
Respondi com uma dignidade dura:
--Tens para mim palavras desconfiadas, Rabbi. Chama João, Ele sabe que creio em ti, e que não vou dar-vos testemunhos, que o Sanhedrin põe por traz das portas dos blasfemadores da lei. O meu corpo serve e vive no templo, mas muitas vezes o meu espirito tem andado contigo, em desejo e em verdade, no teu lago de Tiberiade. Chama João.
O Rabbi considerava-me atento.
--O homem--disse ele--dá testemunho do homem: só Deus conhece os corações.
--Pois bem: tu, que, segundo dizem, és hoje o maior vidente de Israel, tu julga, ou condemna minha alma.
Dizia isto grave, firme, áspero. Jesus de Nazaré, com o rosto esclarecido, disse-me docemente:
--A fé salva.
E depois de um momento:
--E quem dizem então os de Jerusalem que eu sou?
--Uns, Mestre, dizem que és Elias ou o Batista ressuscitado; outros que és o Messias; os fariseus pensam que és um blasfemador ambicioso, ou um simples sincero; a maior parte ignora-te: esta é a verdade.
--E tu quem dizes que eu sou?
--Eu digo que és um homem justo e uma elevada consciência das coisas divinas. Digo que és um homem mandado providencialmente, em um tempo humilhado e vil, para erguer as almas, desmascarar as hipocrisias, vingar a pátria! Penso que se tens de ter uma acção no mundo, essa deve ser insurgir-te contra a aristocracia do templo, contra este espirito estreito de Jerusalem, contra este culto pagão das tradicções, contra o fariseu e contra o romano, ser o consolador e ser o vingador!
--Homem, em que espirito estás?! Eu vim a salvar as almas, e não a perdel-as.
--E é perdel-as tornal-as justas? É perdel-as o combater este sacerdócio rico e indiferente, este culto ensanguentado e hipócrita? É perdel-as o quebrar-lhes este destino que as traz escravas, sempre choradas e sempre perdidas, e agora sob o arbítrio dos favoritos imbecis de Tibério?
--Essas coisas pequenas não me pertencem: são do mundo.
--Perdoa, Rabbi: mas a que vieste então? E tu quem dizes que és, te pergunto eu agora? Queres ficar eternamamente prégando e contemplando no Lago de Tiberiade, e andar errante pelos casais? E pensas que isso influirá sobre os homens, tanto sequer como uma folha seca? Pensas fazer uma revolução na Judea, acariciando as cabeças loiras das creanças de Chorasin, e contando parábolas, entre os campos, aos simples e ás mulheres? Compreendo que a tua ambição não seja maior, e que te baste a felicidade de um sonho na fraternidade dos simples. Mas então para que vieste a Jerusalem? Para que prégas no templo? Se tu não és uma iniciativa revolucionaria, o que és então? Que és tu, se não és uma forte intensidade de vontade? As máximas que tu prégas são de Hillel, são de Gamaliel, são de Jesus de Sirach: sei que ha coisas novas no teu ensino, mas o que em elas ha de grande é a tua força de convicção, e a tua fé, e a tua profunda virtude, e o teu amor do sacrifício, e a tua infinita vontade. De que te servem então estas qualidades, para que as guardas? Não és tu judeu? Não é tua mãe de Caná? Não podia teu pai ser levado legionário para Roma? De que nos servem essas parábolas, essas ironias, essas respostas excelentes, se elas não vão ferir a riqueza do saduceu, a hipocrisia do escriba, a vexação do romano? Queres abster-te da acção? Imaginas que as predicas do templo e o ensino sobre as montanhas, só pela sua verdade abstracta, pódem combater, vencer um mundo completo, organisado, civil, rico, amado? Imaginas que se póde repetir o milagre das trompas de Jerichó! Crês tu que um mundo inteiro, tribunais, templos, oficios, mercados, sacerdócios, escolas, tudo fortemente ligado, se dissipe como uma visão, porque um homem simpático se ergue em um caminho e diz:--Amae-vos uns aos outros, e sereis amados do vosso Pai celeste!--Não! tal não será, Rabbi!
--Pela vossa incredulidade! que se tivesseis a fé, tanta--eu sei?--como um grão de mostarda, e dissesseis àquele monte: passa-te de aí! o monte passaria! Oh geração incredula, geração incredula, até quando estarei entre ti?
O Rabbi dava largos passos, atormentado, doloroso.
--Rabbi, Rabbi, escuta-me! Eu tenho a tua fé, amo o teu reino de Deus. Mas o teu Deus consola muito em cima, e nós sofremos e choramos muito baixo na terra.
Jesus estava tomado de incerteza, de amargura. Eu dizia:
--Escuta, Rabbi: consinto que, só pela tua palavra, tu possas realizar o teu reino de Deus. Mas então deixa esses galileos simples, liga-te aos homens que têm a força, a sciencia e o segredo das coisas humanas: nós seremos a acção, sê tu o nosso Messias. Na Judea, nada se faz sem um profeta! Como tens tu pensado realizar o teu reino de Deus? Pela doçura e pela paciência, ou pela força e pela revolta? Não podes hesitar, se pensas. Queres fazer um renascimento, com os galileos que te cercam, com os publicanos infelizes, com os doentes que curas, com os miseráveis que consolas, com as mulheres que te amam, com as creanças que te sorriem?
--Deus esconde muitas coisas aos sábios, que revela ás creanças.
--Para que pregas então no templo, contra os fariseus e os príncipes?
--Deixa pelo espirito dos simples e creanças operar-se a regeneração!
--Na verdade, Rabbi, dize-me: entendes tu que no mundo nada vale, e que só o teu ideal póde dar felicidade e socego? Professas tu o desdem?
--Só o desdem dá a paz.
--Dá a inercia, o sacrifício e as virtudes passivas. E se amanhã tu pudesses começar a vêr realisado no mundo esse reino dos pobres, dos simples, dos pequenos? Se pelo menos visses uma terra bem preparada para a tua palavra? Se visses tudo transformado, por uma acção enérgica, revolucionaria, pela nossa acção?
Jesus caminhava, inquieto: o seu olhar vibrava. As minhas palavras davam-lhe inesperadas perturbações.
Nós viamos o templo luzir na branca polidez da pedra sob o luar: eu dizia-lhe, profundo:
--Olha, vê o templo: hoje ali tudo é intriga, artificio, aparato, riqueza, sangue, hipocrisia, vaidade: amanhã seria o logar mais santo da terra.
Jesus cobria o templo com um vasto olhar, cheio da fulguração do seu desejo. Eu tinha-lhe tomado as mãos, dizia-lhe baixo, junto á face:
--Ouve: em Jerusalem ha descontentes: alguns membros do sanhedrin estão irritados com a família de Elanan, com Beothos: Gamaliel não ama o templo: o baixo povo do mercado detesta fariseus e escribas; é nosso; a Galilea é nossa; a Perea é nossa; mandar-se-ão emissários a Jopé; toda a Judea se erguerá:--tu serás o profeta. Queres? O teu sonho do lago de Tiberiade será então vivo, real, palpável, existente sob as nuvens!--Queres?
A noite era imortalmente bela: havia uma bondade no ar: o mundo parecia-me possuido de um elemento diverso.
Eu falava confusamente, ora contra os fariseus, ora contra os romanos: e não conhecia nem a força de Roma, nem o poder sacerdotal, nem a inercia de um povo egoísta. Uma grande tentação captivou o espirito do Mestre. Eu dizia-lhe, tomando-lhe as mãos:
--Rabbi, Rabbi, depois do fariseu, será a vez do romano! Tu serás o maior da Judea: terás glorificado o pobre, terás humilhado o rico, terás aniquilado o hipócrita, terás expulso o romano: serás pela justiça egual a Ezequiel, pela força egual aos Machabeus: serás como David, terás a Palestina desde o Jordão até ao mar, e serás o rei de Israel.
Eu falava exaltado: mostrava-lhe Jerusalem e dizia-lhe:
--Terás a Palestina até ao mar, serás o rei de Israel!
Mas Jesus, erguendo a mão, mostrando-me com um gesto elevado e transcendente o céu cheio da lua serena, o inefável silencio, a pura beleza do infinito, o profundo mistério onde Deus habita, disse-me:
--Vai-te: o meu reino não é de este mundo!...
Olhei longamente o Rabbi, lamentei o seu desdem, sorri da sua palavra: e calado, concentrado, sai pelo caminho de Betfagé.
Uma claridade aparecia: os galos cantavam. No outro dia, pela hora da tarde, Jesus, seguido dos seus, subiu para a Galilea.
NOTAS DE RODAPÉ:
[41] Este trabalho de Eça de Queiroz, escrito por ocasião da sua viagem ao Egypto e á Palestina em 1869, foi publicado em 1870 na Revolução de Setembro, ficando todavia incompleto.
(N. dos E.)
FIM