O Lume Prosas Bárbaras · Capítulo 14 de 17
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O Lume

Agora, de inverno, no campo, as noites são ásperas e hostis. Toda a natureza está impassível e entorpecida, esperando a fermentação violenta das seivas. As árvores erguem os braços nús, miseráveis e suplicantes. E as águas, que no outono estavam quietas e pálidas, e que em maio faziam claras murmurações, tão melódicas como o ritmo de um idílio latino, têm agora vozes vingativas e más. O vento é rouco e lento como um canto católico de oficios: as chuvas caém de cima, como escarneos triunfantes e ruidosos.

Ás vezes, vem a lua--não aquela imaculada lua cor de opala, de onde se exhala um nevoeiro magnético que faz a alma docemente doente, mas uma lua metálica, fria e livida, como a face dos corpos finados, nas legendas católicas.

Então, o homem sente a sua pequenina e inutil alma afundar-se no tédio, silenciosamente, como um navio roto em uma calmaria, e vai, por instincto, dar-se á intimidade consoladora da lareira, das brazas e do fogo. E, enquanto a força vital se dissolve em uma somnolencia fluida, ele sente aos seus pés uma pequena voz, alegre, inquieta, clara, que lhe fala como em um êxtase profano:

«Sou eu--diz a voz--eu, o teu velho camarada, o bom lume. Sou eu, o teu velho Deus misterioso. Eu que te quero bem, e que te dei o que ha em ti de grande e de justo--a família e o trabalho. A minha historia é triste, luminosa e terrível, imunda e meiga. Eu fui o teu companheiro das noites da Índia, o consolador e o purificador; eu fui o Moloch das religiões da velha Africa, ensanguentado e trágico: e sou agora o escravo a quem tu mandas mover as machinas.

«Sempre escondido e silencioso, ocupando a um canto o mais pequeno espaço da casa, eu venho todo jovial e radioso quando tu me chamas, e fico, nas tuas horas negras de dor e de miséria, calado ao pé de ti, lambendo-te os pés como um cão. Na Índia, lembras-te? durante as noites primitivas, eu fui o bom Agni que te alumiava, que espantava os chacais e as onças, e protegia, como um templo, os teus amores religiosos e simples. Escondia-me nas pedras, e nos paus secos: assim, para onde tu fôsses, ou solitário ou em bando, encontravas-me sempre aos teus pés, bom e humilde. Foi ao pé de mim que tu creaste a trindade humana da família.

«Era ao pé de mim que tu descançavas dos teus bárbaros trabalhos, no principio, quando a vasta natureza te combatia. E eu era o amigo único, o aliado radioso. E eu tive a confidencia dos teus primeiros beijos. E eu sabia as tuas dôres e os teus medos.

«Tinhas em redor de ti a hostilidade dispersa: a grande floresta tenebrosa, que depois foi para ti berço, lenha, morada, navio, defeza e força, era então a tua sepultura iminente. Quando saías de ao pé de mim, da tua cabana ajoelhada ao sol, encontravas-te só, entre os sêres implacaveis--o mar que te ladrava, a vegetação espinhosa que te mordia, a chuva que te paralisava, a neve que te dava sudários. Tudo, sob a pressão doentia do sol, era para ti força inimiga ou fórma resplandecente do mal. E só quando voltavas, encontravas o teu bom lume que te enxugava, que te alumiava, que te dava o pão, a força ou a fé. Eu e a mulher, a minha companheira celeste e silenciosa, ficavamos em casa, esperando os teus cançaços. Ela fiava, limpava o chão da cabana, tirava a água fresca, e adormecia o filho no seio branco como em um leito espiritual: eu estava quieto e atento, combatendo a sombra e a noite, vencendo a humidade traiçoeira, fazendo um docel de vida e de luz para o teu sono, dando á cabana a serenidade tépida, e ás tuas fadigas um paraíso de socego, de silencio e de calor.

«Em volta de mim, criou-se a família. Eu era o purificador da tua natureza. Era o Deus presente e bom, que fecunda as almas, fortalece os braços, e ampara na hora das dôres.

«Eu tenho ainda por ti aquele amor servil e adulador, que se glorifica quando abdica, que tem um êxtase quando se dá a uma humilhação. Quando te afastas, quando me deixas, fico triste, amorteço-me, toda esta grande alma de chama, que te quer tão bem, se definha, e apenas ficam as brasas, ainda quentes, ainda vermelhas, mas já inertes, e cheias de negro--justamente como o corpo de um amor abandonado.

«Mas quando vens para mim, quando me estendes a mão, como para um afago, quando me revolves--desperto, revivo, canto psalmos de luz, requebro-me como uma mulher que se abandona, tenho vivacidades que são gritos de fogo, cintilações que são beijos; e como em uma rapariga, para quem o inconstante bem-amado volta, toda a tristeza se desfaz em rir, em mim, mais infeliz, que não tenho o riso, aurora sonora dos lábios, toda a minha dor e o meu abatimento se vai desfeito em fumo!

«Por ti tenho feito o mal. Fui eu que matei Giordano Bruno, João Huss, tantos santos, e tantos martyres, e tantos alucinados de Deus! Fui eu que queimei, nas cidades misteriosas de Africa, as creanças e as virgens no altar de Moloch.

«Por ti, eu que sou a paz, fui a devastação. Estou fatigado. Durante os tempos tenho sido o camarada, o amigo, o servo, o vigia, o cão, o confidente, o pão, o calor, a vida! Não queiras que eu seja o carrasco! Podia ir contigo, insensivelmente--lareira, se era o teu amor que me assoprava, incêndio, se era a tua cólera--no tempo em que tu eras uma força inconsciente e fatal. Mas hoje és uma consciência. Contigo só me aliarei para ser fé, consolação e paz. Sendo paz e fé, é que eu te tenho consolado das servidões dolorosas.

«No tempo das catedrais, quando tu nada tinhas, nem o amor, nem o pão livre, nem a voz, nem o sono, nem a esperança, eu dei-te o que mais agrada ao escravo--o direito de mandar. Em volta de mim, a família ajoelhava á tua voz, rezava ao teu olhar, erguia a hóstia do amor ao teu coração. Eras servo e tinhas estas grandezas: era eu que t'as dava. Como? Pela fé, pela paz, pela consolação, pela união. Para ti, eu tenho representado a essência humana. Eu tenho advogado a causa da vida.

«A minha irradiação lenta e amorosa dissipou o misticismo. Eu sou o bem. A família, o trabalho, a educação, esta trindade misteriosa da vida, tudo está em mim. Toda a felicidade humana canta, ama, ora, no circulo da minha luz. Tudo para além é sombra--sombra na parede, e sombra na alma. Procuras o ideal na religião, na conquista, na arte; debalde! Trabalhas, adoeces, morres, apodreces: vida inutil! Os únicos momentos verdadeiros e sãos fôram aqueles em que estiveste ao pé de mim, olhando castamente a mulher, ensinando a lêr a criança. Então realisaste o ideal, o simbolo--Deus, que as religiões esboçam e as criticas dissipam.

«Lembras-te da Índia?

«Ali tinhas uma cabana, a tua mulher, branca e mais doce que a lã dos novilhos, e o filho, encarnação misteriosa do amor das almas, e a minha doce presença. Trabalhavas, aquecias-te, amavas, dormias. A alma vivia em ti no estado de presentimento.

«Depois de isso, tens tido uma vida legendaria de luctas, de creações, de religiões, de conquistas, de descobertas, de ideais.

«O que augmentaste em ti? Nada: apenas a tristeza, o desfalecimento, a dor e o mal.

«Eras puro e são: estás mórbido e enfraquecido. Eras forte: estás rachitico. Eras sereno: estás torturado. O teu bom riso é uma triste ironia: o teu largo olhar é uma áspera desconfiança.

«Tinhas por inimiga a natureza. Vencestel-a? Não. Absorvestel-a. E tudo o que ela tinha de terrível e de doloroso, tudo hoje tu tens: a independencia desesperada do mar, o mistério doentio da floresta, o choró afflicto das águas, a inquietação do vento, a barbaridade das feras, a escuridão supersticiosa dos astros, tudo hoje está em ti, com surdas irritações, com rebeliões formidaveis. Aí está. De cada vez que te apartaste de mim, do socego do meu calor, voltaste trazendo uma chaga.

«Foste criar o misticismo: vieste com a nostalgia incurável. Quizeste criar os Direitos do Homem: trouxeste um mal divino chamado Liberdade, que vai sempre fugindo de ti, e só ás vezes se volta de repente, para te borrifar de sangue! Quizeste ir construir a adoração do corpo e da matéria exclusiva: trouxeste o elemento dissolvente da força e o egoismo brutal. Não tens dado um passo de mais para o bem. As tuas obras aí estão imensas, acumuladas, contraditórias e inúteis. Tens uma complicação infinita de azas que te impede o vôo.

«A mim, abandonaste-me.

«Eu não me apaguei. Durante as revoluções e as luctas, andei errante, miserável, sobrecarregado de infâmias, e, para viver, vendendo-me ao carrasco!

«Mas conservei sempre a minha chama, casta e familiar, para o dia em que quizesses vir, tristemente, enxugar-te ao meu calor do sangue dos teus irmãos.

«Vem para junto de mim. Eu sou completo. Correspondo a todos os teus instinctos luminosos, ou sagrados, ou materiais, ou lascivos. Eu dou-te o pão, o calor, a fortaleza, dou-te as visões que são a poesia do movimento na alma, dou-te a sensualidade somnolenta que exhala amor, dou-te a serenidade que dispõe para a contemplação, e a força que prepara para o trabalho. Eu sou a cura, inteligente e boa, do mal natural. Eu alumio-te nas vigílias dolorosas. Quando estás entorpecido na doença, eu, pequenino e encolhido, tremo ao pé de ti. Quando morres e a tua alma vai partir, eu alumio-lhe o caminho de Deus. Eu cerco Cristo nos altares para que tu o vejas bem. Quando andas no mar, eu sou junto das praias o grito de luz que te chama.

«E o que fazes tu em paga de este amor que se dá, que cria, e que purifica? Esmagas-me. Fazes-me o escravo das machinas. A mim que embalava as almas, fazes-me mover os aços. Embalo que era amor, movimento que é força: os dois termos da tua vida--pureza e putrefacção! Eu que vivia, alumiava, creava em liberdade, estou encadeado e martyrisado na tarefa brutal das industrias. Fazes-me o motor da miséria. Nas fabricas, as creaturas doentias, as creanças estioladas, as mulheres definhadas e soluçantes são as minhas victimas. Sou o colaborador dos martírios que lhes infliges. Tu, homem, tomas o fogo, o ser sagrado, por ajudante de execuções! Dás-me por salario a infâmia. Fazes de mim explosão. Obrigas-me a devastar na guerra!

«Eu sou a pureza, o trabalho, a família, a paixão casta: levas-me a ser o mal, a viuvez, o pranto e a dor! Tenho um cortejo de ambulâncias e de macas, eu que era o firmamento dos berços! Não! maldita seja a árvore que consentir em ser forca, e o fogo que consentir em ser explosão!

«Não quero que na minha vegetação de luz haja um orvalho de sangue. Não quero que o vento, ao embalar-me, faça soltar os gritos e os choros que se tivessem aninhado em mim. Tu, homem, sê piedoso e justo. Eu alumio o mais que posso as egrejas, mas parece-me que tu não vês bem a Cristo. Não, deixa-me ser a pureza, a graça, a família, a intimidade casta e o bem. Peço-t'o, rojando-me como um mendigo. Oh homem, oh meu velho camarada das choupanas da Índia! não me faças ser explosão, morte e devastação, para que eu no dia de pureza e de castidade, quando estiver alumiando e aquecendo os beijos, as orações e os berços--não sinta entre as minhas chamas bailarem espectros!»

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