A Península Prosas Bárbaras · Capítulo 7 de 17
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A Península

Ainda ontem eu pensava que nós outros, os peninsulares, nem sempre tinhamos sido uma nação estreita, de pequenas tendencias, somnolenta, chata, fria, burgueza, cheia de espantos e de servilidades: e que este velho canto da terra, cheio de árvores e de sol, tinha sido pátria forte, sã, viva, fecunda, formosa, aventureira, épica!

Ah! foi ha muito tempo...

Era em aquele tempo em que a Itália rodeava os papas severos; e olhavam para o céu as virgens do Dominiquino. Por esse tempo ia, pela Europa, uma profunda transformação social. Na Alemanha, Lutero entrava em Worms, com um canto batalhador, em nome do espirito e da alma. O Papado ia morrer. Era necessário que todo o Sul se aliasse na cruzada católica.

Toda a revolta de Lutero foi tomada, ao principio, por um de aqueles lentos suspiros alemães, que se perdiam no coro profano, luminoso, embalador e forte do Sul.

Viu-se, depois, que era a voz imensa da alma do Norte, toda uma humanidade austera e vital, que se movia, que vinha falar, pensar, examinar, revelar, sob o peso da teocracia romana, dos papas, dos imperadores, das tiranias, dos sacerdócios.

Todo o Sul católico estremeceu: aquela revolta vinha imprevista e rápida: um dia, a imperceptivel e vasta humanidade, quando fosse, uma madrugada, para as suas adorações, podia encontrar a velha Roma deserta, e, ao longe, o catolicismo dissipando-se com um som hierático de psalmos, e um colorido vermelho de fogueiras.

Era necessário salvar o Sul.

A Itália tinha-se familiarisado com o cristianismo: tinha-se acostumado ás santas macerações de Jesus, á transparência ascética das virgens: os renunciamentos e os medos católicos já a não vergavam para o pó. Ela, cheia de sol, e de sons, e de forças, começava a olhar a natureza, as grandes fecundidades, as vitalidades poderosas, as melodias moventes da carne.

Os velhos Deuses da Grecia tinham-se refugiado na alma italiana: ao principio andavam no fundo, como recordação leve, transfigurados pela dor, encolhidos, soluçantes, miseráveis: depois, lentamente, foram aparecendo, espalhou-se um cheiro de ambrosia e um som de idílio; e os seus corpos, sãos como astros, ocuparam, por fim, toda a alma italiana com choreias, derramações de nectares, palpitações de luz, divinos resplandecimentos de vida.

A Itália tinha-se afastado de Dante e das visões devoradoras do infinito: e os poucos que se curvavam sobre a Divina Comedia, não era para vêr os castigos e os paraizos, mas para sentir as palpitações, que lá tinham ficado, da alma de Florença.

A Itália seguia Petrarcha: mas em Petrarcha havia ainda uma religião e um misticismo--o amor: e a Laura dos Sonetos, como a Virgem mistica, prendia nas humilhações religiosas todos os cavaleiros do Sul. A Itália então deixou Petrarcha e rodeou Ariosto, o aventureiro, o jovial, o descrente, cavaleiro e escarnecedor.

Foi então que se ouviu aquela voz do Norte.

Todas as cohortes católicas andavam dispersas, galhofeiras e namoradas, rindo com o Aretino, escarnecendo brutalmente com o poeta Pulci, guiadas por Lorenzo do Medicis e pelo cardeal Bembo, cantando ás estrelas, adorando as Violantes, rindo de Fra-Angelico, aclamando Ticiano, cobertas das sedas de Veneza, com o peito cheio da religião do sol, da musica e das noites profanas.

Foi então que se ouviu a voz do Norte, o canto de Lutero. Todos os católicos correram instinctivamente, rodearam os papas severos, Adriano VI, Clemente VIII, cantaram os psalmos e as missas de Marcello, cheias dos renascimentos ascéticos, e foram seguindo o Tasso, que voltava, apaixonado e religioso, para Dante e para Deus.

E o papa continuou caminhando, sereno e terrível, deixando as sombras das masmorras de Galileo e de Campanella, e mais longe o fumo das fogueiras de Vanini e de Giordano Bruno.

Tal era a lucta do Norte e do Sul.

Ora, durante essa lucta das religiões e das pátrias, a Peninsula, encolhida nas suas montanhas, coberta de sol, violenta, sinistro cavaleiro de Deus, armava as caravelas e os galeões para as bandas desconhecidas das ilhas, dos continentes, dos cabos temerosos. Nós outros, os peninsulares, appareciamos ás demais nações como velhos lobos do mar, sempre sobre os tombadilhos, trigueiros, rijos como calabres, sãos como o sol, ensurdecidos pelo clamor das marés, cheios de legendas, e perdidos, ao longe, nas brumas terríveis.

De vez em quando desembarcava este povo, bradando que tinha descoberto um mundo, que lá tinham ficado infinitas multidões, negras, bestiais e núas, sob a benção dos padres: ali mesmo, sobre a areia, ao rumor das maresias, escrevia a historia trágica da sua viagem, e uma madrugada, tomados das saudades do mar, partiam de novo, radiosos e bons, para a banda das Indias.

Era assim. Todos os anos, aquela multidão imensa de aventureiros embarcava nos galeões, entre os psalmos o os chorós, e eles iam, silenciosos e flamejantes, por entre as sonoras ilimitações, os ventos afflictos e os tremores da água--para os nevoeiros inexplorados.

Iam em demanda de mundos, levando Deus dentro do peito, sob as constelações augustas, entre as tempestades, os rochedos, os climas e as correntes, de pé nos tombadilhos, descobertos, rodeando um Cristo, cantando os psalmos ao coro dos furacões, todos reluzentes de armaduras e de divisas de amor, com a alma cheia de altivezas de batalhadores e de doçuras de apóstolos.

Iam como em uma gloria e em nome de Deus! E quando encontravam as hostilidades e os encrespamentos irados dos elementos, as opressões infinitas dos ventos e das águas, erguiam as mãos como para uma excomunhão, e bradavam, soberbos, àqueles sôpros e àquelas maresias, os versículos do Evangelho segundo S. João.

Ora aqueles homens, marinheiros e batalhadores, eram historiadores e poetas. Escreviam os seus feitos.

Escreviam-nos entre os assaltos e as tempestades, no convez das caravelas, nos cabos tormentosos, nas florestas sagradas da Índia, sob as imobilidades cruás da luz: escreviam cobertos das espumas, enegrecidos pelos fumos, trêmulos das iras das batalhas. Por isso enchiam as suas chronicas e os seus poemas de uma estranha prodigalidade de força e de vida. E os seus diários de bordo tinham, muitas vezes, a simplicidade épica de Homero.

Mas eles também tinham amores, ciumes, paternidades, paixões, lirismos interiores, e as saudades da pátria nasciam em aquelas almas como grandes assucenas que se abrem dentro de um vaso, e que o enchem.

De noite, nos tombadilhos, embrulhados nos seus mantos esburacados, deitados entre as cordagens, aos embalos das marés, enquanto os pilotos, silenciosos, seguiam com os olhos as viagens imensas das estrelas, e todo o mar enorme se amolecia como um seio cansado, eles contavam em voz baixa, com as cabeças juntas, as historias de amores, os torneios, as aventuras, as serenatas, e a vida da pátria.

E escreviam poemas, cantatas, sonetos, farças, comedias e elegias.

E para vestirem o sentimento fecundo, forte, cheio do sol e do mar, tomavam a fórma popular.

Estavam longe da Europa, das plásticas da Itália, dos renascimentos gregos e romanos, das antigas formas rituais, das educações clássicas.

Não conheciam isto.

Mas lembravam-se sempre das cantigas da pátria, das lendas heroicas, dos romances populares, que eles tinham ouvido pelos campos, com que os velhos embalavam os netos, que se cantam do noite ás estrelas por Sevilha e por Granada e que os mendigos diziam pelas velhas pontes dos godos e dos árabes. Porque o povo, na Peninsula, tinha uma poesia, sua exclusivamente, que cantava nos trabalhos, com que adormecia os filhos, em que escarnecia os alcaides e celebrava os heróis.

Fazia de aquela poesia um uso sagrado: era a sua consolação, o grande leito misterioso onde adormecia as tristezas: era ali que procurava confortos, recompensas, e as ideias da pátria.

No Norte, a poesia popular foi a Invisivel que levou, pela mão, os trovadores, filhos das glebas, até ás lareiras dos senhorios feudais: foi o primeiro suspiro de amor que os pobres poetas da populaça, misticos e sensuais, soltaram para as brancas castelãs que entreviam nos torneios, cobertas de pedrarias; ou passando de noite, brancas, ás estrelas, pelos altos terraços; ou entre as árvores, ao entardecer, quando as ogivas, cheias do sol oblíquo, estão flamejantes como mitras.

E as castelãs abriram os braços para os poetas tristes, indolentes, e cheios do paraíso. Admirável influencia da poesia, que produziu, pelo amor, um renascimento social!

Mas a poesia da Peninsula era unicamente do povo: era a epopeia austera do Cid, exterminador de mouros, e de Bernardo del Carpio, exterminador de bárbaros. Na Peninsula, o povo estava sob uma condição especial; tinha uma importância no estado forte, fecunda e soberba: a Peninsula tinha passado os primeiros anos da sua constituição nas luctas terríveis do forte Mahomet e do Cristo mistico; ora o popular da Peninsula não era um servo, era um christão: consagrado pelos baptismos, era uma força individual, que impelia e dissolvia o elemento mourisco, sensual e poderoso.

Ora foi sob a fórma popular que aqueles batalhadores e poetas, que vão hoje tomando a vaga atitude da legenda, escreveram os seus poemas, as suas cantatas, as suas comedias e os seus sonetos.

Então toda a literatura peninsular tem uma originalidade profunda, independente de formas e ritos: a arte, o drama, a poesia, sáem das tradições populares, do clima, do sol, de todas as vitalidades meridionais: isto quando pelo resto da Europa todas as nacionalidades esqueciam as suas tradições, a sua historia, a sua velha alma, para se envolverem nas formas antigas. Era a Renascença. Então aparece o teatro espanhol, original, cavalheiresco, enérgico, apaixonado, cheio de selvagens palpitações, de lances, de religião: teatro onde a cruz é um personagem; onde falam lacaios, heróis, santos, ventos, galeões; onde todas as formas da vida se confundem--o riso, o choró, a ironia, a sátira, o madrigal...

Depois uma pintura mistica e sensual: não é a espiritualisação da alma, é antes a immortalisação da carne, inspirada de aquele misticismo espanhol, que sob a influencia da natureza, do clima, da politica, da raça, parece mais cheio das trágicas iras de Jehovah, do que das doçuras de Jesus.

Depois uma musica, como a do Dies iraê, obra dos terríveis dominicanos: um poema de morte: uma das maiores agonias da alma: musica ascética e flamejante, onde a natureza aparece, trágica e desgrenhada.

Uma arte onde se torcem todas as chamas do inferno, e todas as pedrarias dos paraizos católicos, que parece uma lucta trágica e cômica da vida e da morte; uma egreja cheia de renunciamentos misticos, mas onde o misticismo parece mais um desespero de não poder saciar-se dos bens do mundo, do que uma aspiração a poder fartar a alma nas contemplações divinas: uma defeza do catolicismo, trágica e apaixonada: um amor sublime pelos despotismos e pelos sacerdócios: confusão dos imperadores com os santos e das corôas de metal com as corôas de luz: uma vida superabundante: ascetismos ferozes e onde o sentimento mais aparente é o rancor.

Ao mesmo tempo uma austeridade monástica em tempo de guerra: caravelas que partem, sem cartas nem roteiros, sob as simples indicações das estrelas: quase, por vezes, uma reconciliação aparente do Mahometanismo e do Cristianismo: uma paixão avara pelo dinheiro: o elemento da intriga que quer entrar na politica, vindo substituir o elemento da força: combates cavalheirescos com a Europa vizinha. Depois um sol ardente: um sangue exigente: uma carnação soberba: ao longe a America e as Indias como um paraíso de oiros, de metais e de soberanias.

Tal é o aspecto mais geral da Espanha nas vésperas da Renascença.

É dramática aquela vida.

Não admira, por isso, que a fórma suprema da sua arte--fosse o drama.

Em Portugal, não é este rigorosamente o fundo do gênio: ha mais serenidade na força: o caráter portuguez é mais parecido com o caráter italiano: os nossos sábios, os nossos viajantes, os nossos descobridores, tinham mais a lucidez do tempo de Galileo do que a fé do tempo de Dante: as navegações são prudentes: por isso Portugal não resistiu nada á influencia italiana. O renascimento da antiguidade, a serenidade plástica, a frieza clássica, aclimatam-se na Espanha, mas com dor e com lucta: foi necessário que a Espanha já não acreditasse na sua epopeia cavalheiresca e que Cervantes começasse a fazer trotar, pelos caminhos, o magro D. Quixote.

Em Portugal não: o gênio antigo aclimatou-se: transformou-se mesmo: perdeu o elemento vital e fecundo--e ficou-lhe o elemento retorico.

Oh Arcadia! Oh moços pastoris e burguezes! Oh clássicos!

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