Misticismo Humorístico Prosas Bárbaras · Capítulo 9 de 17
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Misticismo Humorístico

Voltei. É agora que as toutinegras emigram.

Andei pelos campos, em este ar desfalecido do inverno outonal.

Agora o azul está indolentemente belo. Tem quase uma irônica serenidade. É o azul intenso, frio, triunfante. Tem a luz, a beleza, a força, a inefabilidade. Agora a luz enternecida dos campos arrasta-se pelas grandes águas quietas e pálidas, onde o vento revolve e espalha a agonia das folhas.

Quando voltava, vi uma casa pequena, esbranquiçada, escondida entre as bençãos indolentes das árvores. Tinha a serena quietação de quem tem ouvido segredos extáticos, e era triste e religiosa como a entrada amarelecida de um convento católico. Havia uma corrente de água delgada que fazia claras murmurações, e era como o acompanhamento, natural e melódico, de uma écloga latina. Entre as árvores estava um banco solitário, que o musgo ia cobrindo. Nas plantas, nas clematites, nas trepadeiras que o cercavam, havia um murmurio como de vozes distantes que contam felicidades perdidas. A pedra escura e molhada do banco tinha a tristeza das pedras do cemitério, á luz consoladora, purificadora e branca, que cáe dos céus outonais.

Agora, sobre aquele banco, dorme estirada a grande luz do sol, e á noite o luar, porque já não ha em aquela casa namorados contemplativos que venham, de noite ou á sésta, despertar, para se poderem sentar ali, aqueles dormentes de luz.

Aquela casa abandonada faz lembrar amores misticos: e, quando se vê á luz dolente do escurecer, faz subir do coração como um sabor de beijos antigos e esquecidos.

As árvores erguiam, em atitudes violentas e proféticas, os seus braços nús, engelhados, suplicantes para o frio azul, esperando, no entorpecimento, a fermentação violenta das seivas. Os ramos frios e nítidos deixavam passar indiferentes, sem as suspender, sem as acariciar, as moles nudezas das nuvens.

Toda a natureza, no tempo dos frios, está impassível e somnolenta.

Passei por um cemitério. Andava um coveiro abrindo covas. Tinha um rosto inerte e animal. A luz dissipava-se, e uma Estrela que se chama Venus luzia, metálica, ardente, desejosa, lucilante, em um fundo sinistro de ramagens.

O coveiro é um semeador. Semeia corpos. Somente não tem a esperança nem o amor das colheitas. Quem sabe se os corpos, que se atiram á vala, sementes fúnebres, se abrem, lá em cima, em searas divinas de que nós apenas vemos a ponta das raízes, que são as estrelas? Mas não. A alma morre. O corpo revive e dissipa-se na matéria enorme.

É na alma que estão as más vontades, os negros remorsos, as lacerações do mal: o corpo desce livre, novo e são para as uberdades limosas das covas.

Quando chega o último frio, ódios, amores, tristezas, invejas, melancholias, desejos, todos cançados das luctas e da vida, dizem á natureza como gladiadores vencidos:--Os que vão morrer saúdam-te!--E morrem.

A vida e o seu suplicio é absorvida na insensibilidade da natureza, no silencio perpetuo, na força fatal e céga. E a matéria vai pelos ares, pelas planícies, amolece-se nas sombras, vivifica-se nos raios claros, é rochedo, floresta, torrente, fluido, vapor, ruido, movimento, estremecimento confuso do corpo de Cybéle: e a matéria sente a vida universal, a palpitação do átomo debaixo da fórma, sente-se banhada pelas claridades suaves e pelos cheiros dos fenos, sente-se impelida para a luz magnética dos astros e dilacerada nos ásperos movimentos da terra. A matéria tem a consciência augusta da sua vitalidade. E assim, sob a tua impassibilidade, ha uma angustia imensa, uma vida ardente, impiedosa, uma alma terrível, oh formidável natureza!

A noite descia: caía de cima uma claridade láctea; pesava um austero e lento silencio; a larga brancura celeste era gloriosa; os pastores desciam com os rebanhos lentos, balando; havia pelo ar uma bondade indefinida, uma virtude fluida: eu lembrava-me dos Elysios olímpicos e mitológicos onde na claridade, passam as sombras heroicas, serenas, brancas, leves, levadas por um vento divino. Claridades sem sol!

Eu ia escutando os passos da doce noite, que vinha caminhando. Ia-me afundando no tédio, como um navio roto em uma maré do equinoxio. Enchiam-me a alma crepúsculos brancos. Entrei no grande arvoredo negro. Àquelas horas, os lymphaticos, os inocentes, os misticos, encontram nos arvoredos languidezas e elevações ascéticas. Mas eu tremia entre a ramaria inquieta como um mar, misteriosa como um firmamento:--tremia como um homem medroso que visse erguer-se um morto. Toda aquela negra decoração de ramos torcidos, de folhagens lividas, de silêncios, enchia-me de um terror profundo e trivial. A luz dissipada e transfiguradora do ocaso dava aos troncos um estranho aspecto de luctadores, vindos do sangue e dos incêndios: os sinos distantes eram como vozes indefinidas de miséria e de dor.

Passava um vento incessante e perseguidor. Os môchos voavam, e as águas sonoras eram como vozes vingativas e trágicas. A lua, entorpecida, passava por detrás da estacada de ramos. O vento era rouco e lento como um canto católico de oficios. E o grasnar lento e arrastado dos córvos parecia uma ladainha barbara de padres. As árvores doentias rangiam ao vento hibernal, o ar estava diáfano, lácteo e mortuário. As estrelas que apareciam tinham o olhar lancinante.

Cheguei á estalagem. Em baixo, na lareira, um magro fogo lambia as fuligens. A luz do meu quarto tinha a lividez dos círios, e o espelho tinha reflexos pálidos, como de sombras mythologicas que passassem. Ouviam-se os lobos.

Lembraram-me então as outras noites, claras, doces, lentas, em que o céu derrama somnolencias; então também eu ia por entre as árvores, e ouvia ondas sonoras de cantigas, que o vento fazia retinir através da bruma, entre o acre cheiro das eflorescências. Aquelas vozes claras eram doces, santas, saídas de cristais, como veladas por um luar. Eram como claridades sonoras de estrelas. Era uma multidão de formas divinas que assim cantavam, divindades feéricas, willis, nixes, peris, fadas, que passavam ligeiras sem despertar os ramos adormecidos. Aquelas nudezas celestes, filhas do fogo, flôres do mal, ondas do ar, entrelaçavam-se, dançando nas obscuridades, que as cintilações estelares franjavam de palidezas. No meio dos nevoeiros humanos, elas faziam resplandecer diante dos olhos as visões paradisíacas, as creaturas siderais de languidos misticismos. Elas iam em aqueles enlaçamentos, brancas e loiras, cheias de lirismo, com os pés vermelhos e magoados de terem pisado auroras; iam poisando nos Jacintos, nos mirtos, nas rosas barbaras cheias de sangue radioso: iam rolando sobre a brancura soluçante dos lírios: e a sua voz triste subia, por entre o azul lácteo, para a lua chorosa.

Quando assim estava no quarto da estalagem, inerte como uma múmia, pensando em estas coisas, vi, repentinamente, através das vidraças, a lua aparecer-me.

Mas não era aquela pura e imaculada lua cor de opala--que derrama brancuras, como se através do azul caissem lírios. Era uma lua metálica, fria, hostil, material como uma moeda de ouro nova.

Ela aparecia-me mortuária e livida como uma sombra finada, que se ergue ás grades de um adro. E o seu olhar, lancinante e rápido, estava cheio das minhas agonias.

Ora em essa estalagem encontrei um amigo, antigo camarada, que se tinha feito saltimbanco.

Fez bem. Cançado dos pedantes, dos burguezes, dos ventres mercantis, dos imbecis afogados em gordura, fez-se saltimbanco, e vive entre os palhaços. Faz forças coberto de farrapos luzentes, engole espadas, dança farto de vinho como um Sileno. Dorme em uma capa esfarrapada, com a nuca sobre um tambor, á frescura das estrelas e sob a bondade dos luares.

Ás vezes tem frio e fome, e gela em uns calções feitos de veludilho e de galões de ouro. Anda errante de vila em vila, e a populaça da lama admira-o cingido do seu diadema de metal luzente. Dança sobre a corda, e os seus gestos e as suas musculaturas fazem soluçar de desejos as gitanas e as feiticeiras. Que lhe importam as grandezas e as materialidades felizes?

Ele tem a multidão extática e enlevada nos giros dos seus sapatos. E tem uma bem-amada de tranças tão compridas como os ramos de um chorão, e aneladas e fortes como negros penachos de voluptuosidade: e a sua testa tem um reflexo de luar, de mármore e de espelho: e tem um belo seio de formas barbaras.

Ele pula á noite, no circo alumiado, enquanto as toutinegras cantam nos canaviais. Ele faz girar vinte punhais agudos em volta da cabeça, em um circulo puro e sonoro. E a multidão, um dia, vendo aquele diadema terrível e faiscante, e o saltimbanco impassível, grave, enfarinhado, sob aquela corôa de luz, tomal-o-á por um ídolo e fal-o-á igual aos deuses!

Ele, o meu saltimbanco, tem a alma de ouro e o coração de diamante--e ri-se, ri-se, quando o vento sôa como flauta do inverno, e ao concerto das corujas e das ondas as estrelas dançam.

A miséria anda-lhe cavando a sepultura. Um dia, abandonado da bem-amada, morrerá sem pão, sem luz, sem calor, sem orações e sem sol. E não sofrerá mais. Viu durante a vida todo um povo curvado, aplaudindo, debaixo dos seus borzeguins. Os tambores e os clarinetes tocarão o dia melhor do saltimbanco, o dia em que morrer: tocarão o seu melhor dia os ferrinhos, os timbales, os clarinetes, os tambores!

Todas estas coisas se parecem com sonhos. Mas o que é o sonho? O que são as visões? São as atitudes, fantásticas e desmanchadas, que a sombra dá ás verdades. Já pensava assim o poeta Li-Tai-Pè, que escrevia sobre as coisas santas da China, entre porcelanas e lacas, ao aroma dos nenuphares, vestido de sedas amarelas, perfumado de sândalo--dôce, contemplativo, branco, diante de um vaso de margaridas!

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