O Miautonomah Prosas Bárbaras · Capítulo 8 de 17
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O Miautonomah

Ha duzentos anos, uns poucos de calvinistas exilados fretaram um barco na Holanda humida e ubere, e, sob o equinoxio e os grandes ventos, miseráveis, austeros, levando uma Biblia, partiram para as bandas da America.

Duzentos anos depois, estes homens que tinham ido, solitários, em um barco apodrecido das maresias, derramaram uma esquadra épica pelo Mediterraneo, pelo Pacifico, pelo mar das Indias, pelo Atlantico, pelos mares do Norte.

Aquela colonia de desterrados, que choravam de frio, esfomeados, rotos, que dormiam ás humidades do ar em uma capa esfarrapada, é hoje a America do Norte--os Estados-Unidos.

America do Norte significa trabalho, fé, heroísmo, industria, capital, força e matéria.

Ultimamente via eu o Miautonomah, sinistro e negro caçador de esquadras: é toda a imagem da America--frio, sereno, contente, material, e cheio de fogos, de estrondos, de machinismos, de forças e de fulminações.

É o que amedronta em aquele navio:--a frieza na força.

Ele representa a consciência soberba da força e da industria, e os grandes orgulhos do calculo: despréza as iras e as hostilidades dos elementos: ele tem de atravessar o Pacifico, o Oceano Indico, o Mediterraneo, os grandes desvairamentos da água, os ventos imensos, os equinoxios, as trombas, as correntes, os rochedos bruscamente aparecidos, os nevoeiros pérfidos, os magnetismos, as electricidades, toda a vil populaça das tempestades. Então todos os navios se preparam:--cordagens, velames, mastreações, complicações e resistências de forças, toda a combinação astuciosa de lonas e calabres, que transforma as hostilidades em auxílios; ele, o Miautonomah, contenta-se com uma taboa rasa.

Em tempo de lucta precavem-se os almirantes e os cabos de guerra: um formigueiro de morteiros, de bombas, de obuses: metralhas, machadas, o arsenal reluzente das abordagens; a ele basta-lhe uma muralha de ferro.

O vento é temido: nas vastas solidões azuis, ele é o lobo sinistro que anda rodando e uivando, á caça dos navios; ele acalenta o mar, massa inerte e salgada: ele faz com a água estranhas nupcias ferozes; extermina, cantando com alegrias barbaras; esfarrapa as nuvens, persegue e esguedelha as chuvas, assobiando contente: em alguns mares do Norte, quando ele sopra, as estrelas têm maior tremor: mas o grande horror do vento, é que ataca com o peso, com a violência, com a força, e defende-se com o esvaecimento.

O Miautonomah é assim: ataca serenamente, com violências enormes, com fulminações trágicas, e defende-se com a impassibilidade e quase com o esvaecimento.

Na lucta das esquadras, no meio das descargas, das trovoadas flamejantes, entre os terríveis fulgores do fogo, e os fantasmas do fumo, e as efervescências da água--ele passa, solta a sua fulminação enorme, despedaça, esmigalha, dispersa e continua lento, frio, impassível, mudo, tenebroso, coberto de ferro.

Ele não receia o mar: os outros navios erguem amuradas imensas para conter o encrespamento da onda: forram-em as de cobre, erriçam-em as de pregaria. O Miautonomah não: ele julga a demência do mar um prejuízo: corta a amurada e fica com o convez raso, ao rez da água: satisfaz a velha curiosidade da vaga: e por misericórdia dá-lhe hospitalidade: e para que o mar tenha alguma coisa a desfazer, a triturar, a roer--dá-lhe, por compaixão, uma varanda de hastes de ferro enferrujado, e pedaços de corda pôdre. E o mar entra, desesperado, mugindo, e lambe o chão do navio americano: em baixo, nas camas, agasalhados e preguiçosos, os marinheiros dizem:--Lá anda o mar a varrer e a lavar o tombadilho.--E com efeito, o velho oceano dos dilúvios faz, humildemente, o serviço dos últimos grumetes.

Em cima, na superfície da água, ha o vento, as espumas, os nevoeiros, as chuvas, as trombas; ele, aborrecido, afasta-se de este bando miserável e vai investigar o fundo das águas, as vegetações fantásticas, a região dos corais, as cavernas enceladicas as purezas infinitas da transparência, todo esse mundo submarino de que os velhos mareantes falavam, benzendo-se com terror religioso: com a quilha de ferro, enorme, ele brutalisa aquelas virgindades do mar: em baixo, a tripulação nada sabe das tempestades: em vão ruge o mar, e torce-se, e desencadeia o jogo fulminante das ondas, e espanca o convez do navio com o ruido de mil carros de batalha; os marinheiros, em baixo, riem, cantam, baloiçam-se, pulem os aços dos machinismos, cachimbam, e leem a Biblia--serenos.

Como não ha mastreação, nem velame, nem cordagens, nem toda a amontoação confusa de calabres e de lonas--o tombadilho aberto é cheio de ar e de luz: e, durante as viagens, é uma pousada das algas, das conchas, das espumas, das aves do mar.

Dentro são as machinas, as forças: os motores trabalham solitários, com vozes, impaciencias, preguiças, friamente, como as fatalidades da matéria. Ao atravessar os espaços obscuros, vê-se o frio luzir dos aços, e os cobres luminosos; depois são as fogueiras flamejantes que dão a vida aos machinismos--vermelhas como corações sobrenaturais: o ar é descido por machinas de respiração, pulmões terríveis: e um vento geral, fecundo, benéfico, escorre constantemente por todo o negro bôjo. Fazem-se assim livremente temperaturas: frios mordentes, calores pesados, e frescuras das manhãs do Sul. Nas suas viagens pelo mundo, aquele navio desmente, quando quer, os climas e as temperaturas.

Ora sobre aquele negro navio, sobre os machinismos frios, aquelas forças pavorosas, aquelas fogueiras terríveis, no convez, entre as negras torres, ao livre ar, ao livre sol, alegre, glorioso, gordo, esvoaçando na sua gaiola--canta um canário.

Tal é o Miautonomah, navio de guerra da America do Norte.

Nós entrevemos a America como uma oficina sombria, sonora e resplandecente, perdida ao longe nos mares.

Entrevemol-a assim: movimentos imensos de capital; adoração exclusiva e única do deus Dollar; superabundancia de vida; exaggeração de meios: violenta predominação do individualismo: grande senso pratico; atmosfera pesada de positivismos estereis; uma febre quase dolorosa do movimento industrial; aproveitamento avaro de todas as forças: extremo desprezo pelos territórios; preocupação exclusiva do útil e do econômico; doutrinas de uma filosofia e uma moral egoísta e mercantil: todo o pensamento repassado de essa influencia: uma fria liberdade de costumes; uma seriedade artificial e brusca; dominação terrível da burguezia; movimentos, construcções, machinismos, fabricas, colonisações, exportações colossais, forças extremas; acumulação imensa de industrias, esquadras terríveis, uma estranha derramação de jornais, de panfletos, de gazetas, de revistas; um luxo excessivo; e por fim um profundo tédio pelo vasio que deixa na alma a adoração do deus Dollar. Assim entrevemos a America, ao longe, como uma estação entre a Europa e a Asia, aberta ao Atlantico e ao Pacifico, com uma bela costa de navegação cheia de enseadas, molhada de grandes lagos, com os seus grandes rios que escorrem entre as terras, as culturas, as fabricas, as plantações, os engenhos; e depois uma natureza vigorosa, fecunda, eleita, desaparecendo entre as industrias, os fumos das fabricas, as construcções, os machinismos,--como a herva de uma campina fértil que desaparece sob uma amontoação tumultuaria de multidões.

A vida da America do Norte é quase um paroxismo.

Representa decididamente uma grande força, uma vitalidade enorme, superabundante. Mas será essa a vida ideal, fecunda, a vida do futuro?

Todos os dias dizem á Europa:--Olhae para os Estados Unidos, lá está o ideal liberal, democrático, e, sobre tudo, a grande questão, o ideal econômico.

Mas a America consagra a doutrina egoísta de Monroe, pela qual uma nacionalidade se encolhe na sua geografia e na sua vitalidade, longe das outras pátrias; esquece as suas antigas tradicções democráticas e as ideias gerais para se perder no movimento das industrias e das mercancias; alia-se com a Russia. A raça saxônia vai desconhecendo os grandes lados do seu destino, enrodilha-se estreitamente nos egoísmos políticos e nas preocupações mercantis, scisma conquistas e extensões de territórios, subordina o elemento grandioso e divino ao elemento positivo e egoísta, e a grande figura sideral do Direito ás fabricas, que fumegam negramente.

Uma das inferioridades da America é a falta de ciências filosóficas, de ciências históricas e de ciências sociais.

A nação que não tem sábios, grandes criticos, analisadores, filósofos, reconstruidores, ásperos buscadores do ideal, não póde pesar muito no mundo politico, como não póde pesar muito no mundo moral.

Enquanto a superioridade foi de aqueles que batalhavam, que lançavam grandes massas de cavalarias, que apareciam reluzentes entre as metralhas, o Oriente dominou, trigueiro e resplandecente. Quando a superioridade foi de aqueles que pensavam, que descobriam sistemas, civilisações, que estudavam a terra, os astros, o homem, e faziam a geologia, a astronomia, a filosofia, o Oriente caíu, miserável e rasteiro.

Ha sobretudo na America um profundo desleixo nas ciências históricas. Inferioridade! As ciências históricas são a base fecunda das ciências sociais.

É a superioridade da Europa: sob a mesma aparência de febre industrial ha uma geração forte, grave, ideal, que está construindo a nova humanidade sobre o direito, a rasão e a justiça.

O nosso mundo europeu também é uma extranha amontoação de contrastes e de destinos; é uma epocha, esta, anormal, em que se encontram todas as eflorescências fecundas e todas as velhas podridões: politicas superficiais e grandes fanatismos de ideias; um desafogo das livres consciências e a tirania dos velhos ritos: diplomacias pacificas e transigentes, e um espirito de guerra surdo, aceso e flamejante: territórios violentados e conquistados, e a aniquilação pela historia e pela filosofia dos conquistadores e dos heróis: restos de influencias monarchicas, entre explosões de individualismo revolucionário; humanitarismo fundido com o mais áspero egoismo; um chãos horrível de contradicçoes, e em cima, triunfal e soberba, a industria, entre as musicas dos metais, as architecturas das Bolsas, reluzente, cintilante, colorida, sonora, em quanto no vento passa o seu sonho eterno--que são fortunas, impérios, festas, empresas colossais.

Ora em baixo, sob a confusão, sereno, fecundo, forte, bom, livre, move-se em gérmen um novo mundo, o mundo da justiça social e econômica.

Este gérmen é que a America não tem, creio eu.

Porque toda a America econômica se explica por esta formula: feudalismo industrial.

Diz-se que na America ha um constante augmento de trafico, de receitas, de riquezas: ha augmento; mas não ha justa distribuição. A riqueza amontoa-se em proveito da alta finança--com detrimento das pequenas industrias.

Logo que na ordem econômica não haja um balanço exato de forças, de producção, de salários, de trabalhos, de benefícios, de impostos, haverá uma aristocracia financeira, que cresce, engorda, incha, e ao mesmo tempo uma democracia de proletários que emagrece, definha, e dissipa-se nas misérias: e como o desequilibrio não cessa, não cessam estas terríveis desuniformidades.

Mas o grande mal da predominação exclusiva da industria é este: o trabalho pela repugnância que excita, pela absorpção completa de toda a vitalidade física, pela aniquilação e quebrantamento da seiva material, pela liberdade em que deixa as faculdades de concepção--por isso mesmo, sobreexcita o espirito, estende os ideais, abre grandes vasios na alma, complica as necessidades, torna insuportável a pobreza: nas grandes democracias industriais onde as posições são obtidas pela perseverança, conquistadas pela habilidade, onde ha mil motores--a ambição, a inveja, a esperança, o desejo--o cérebro aquece-se, cria sonhos, ambições, necessidades impossiveis; o querer chegar torna-se uma verdadeira doença de alma: exageram-se os meios: e toda a seiva moral se altera e se deforma.

É o que vai acontecendo na America; debaixo da frieza aparente, move-se todo um inundo terrível de desejos, de desesperanças, de vontades violentas, de aspirações nevrálgicas.

Depois, como no meio das industrias ruidosas e absorvedoras muitas amarguras ficam por adoçar, muitas angustias por serenar, muitas fomes por matar, muitas ignorâncias por alumiar, tudo isso se ergue terrível no meio da febre da vida social, e torna-a mais perigosa. Londres dá hoje o aspecto de esta lucta.

De maneira que o trabalho incessante, enorme, irrita e exagera o desejo das riquezas, aferventa o cérebro, sobreexcita a sensibilidade: a população cresce, a concorrência é áspera, as necessidades descomedidas, infinitas as complicações econômicas, e aí está sempre entre riscos a vida social. Entre riscos, porque vem a lucta dos interesses, a guerra das classes, o assalto das propriedades, e por fim as revoluções politicas.

E todavia a liberdade da America parece tão confiada, tão assente, tão satisfeita!

No emtanto ha muita força fecunda nos Estados Unidos! Ainda ha pouco deram o exemplo glorioso de uma nação que deixa os seus positivismos, a sua industria, o seu egoismo, o seu profundo interesse, e arma exércitos, esquadras, dissipa milhões, e vai bater-se por uma ideia, por uma abstracção, por um principio, pela justiça.

O Sul queria manter a escravatura; o escravo que trabalhe, que cultive, que produza, que sue, que morra sob a força metálica, baça e sinistra do clima e do sol. Pois bem. O Norte quer a liberdade, o amor das raças, e bate-se pela liberdade, pela legalidade, pela união, pelo direito! E dispersa os exércitos da Virginia.

Tais coisas me lembraram ha dias, ao visitar o Miautonomah, fundeado no nosso Tejo.

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