Mefistófeles Prosas Bárbaras · Capítulo 15 de 17
Obra Menu

Mefistófeles

No Fausto, de Charles Gounod, a figura dramática e sintética é Mephistopheles.

Em volta de ele, Fausto canta artificialmente como um lirico histrião de operas; Margarida sente as primeiras rebeliões nervosas do desejo; Siebel estremece com a nascente seiva do amor, como o antigo Cherubim; a alma legendaria do rei de Tule canta na sua torre que molha a espuma do mar; o povo celebra as kermesses, e os judeus dizem a musica da avaresa: mas só Mephistopheles vive! E a sua grande figura angulosa, nervosa, elástica, incisiva, atravessa, sinistra, o drama--os seus lirismos nostálgicos, as suas sensualidades tristes, os seus misticismos artificiais--glorificando a força brutal do dinheiro, escarnecendo as castidades expirantes, empurrando o Fausto espiritualista para a violência lasciva, combatendo a serena inspiração do Cristo, negociando em almas, e abatendo toda a penosa construcção da honra, do dever, do perdão, do amor, da purificação--com o riso trágico do mal!

Aquela opera é uma simples aventura do antigo Diabo.

em ela, o Fausto não é o sábio que penetrou a medicina, a física, a logica, a dialéctica, a dogmática, a teologia, a metafísica, para quem os seis mil anos do passado são apenas o prefacio do saber humano, que procura o X terrível da equação dos astros, e que ao ruido que faz a sua alma buscando através da natureza o Deus fugitivo, o Mysterio, só consegue despertar os dormentes do seu coração, os desejos, os beijos luminosos, e as languidezas silenciosas: não é o homem que se enoja das vasias realidades da vida e da paixão, e que se recolhe em um stoicismo trágico, tendo todavia, sempre, dentro do peito, o coro soluçante e rebelde dos desejos infinitos e das ásperas curiosidades, até que em fim, mais sereno e transfigurado, vai ao fundo do mundo antigo buscar o corpo sublime de Helena e tem de ela, que é o ideal da fórma antiga, um filho, Euphorion, que é o ideal do espirito moderno.

Não. Na opera, Fausto é simplesmente um de aqueles ambiciosos grotescos, que contratavam por escrito com o velho Diabo, nos claustros malditos, e lhe compravam a realisação de um desejo, por uma pequena coisa despresivel, menos valiosa que o dinheiro e que os estofos, uma coisa inutil e estéril, que se lhe atirava desabridamente--e que era simplesmente a alma!

As legendas estão cheias de estas negociações.

Cornelio Agripa vende a alma pelos segredos da filosofia; o abbade de Tritheim pelo segredo da circulação do sangue; Falstaff vende a alma, em uma sexta-feira santa, á noite, quando estavam fechadas as tavernas de Londres, por uma garrafa de vinho de Espanha, e uma perna de capão. Luiz Gaufridi, pelo poder de exaltar nervosamente as mulheres. Um lacaio do Marais, pela felicidade aos dados. Ricardo Dugdale, um namorador do condado de Landshire, por uma lição de dança! Fausto vende desprendidamente a alma, pelo amor vulgar de uma rapariga clara e loura, que tinha um modo celeste de fiar, cantando!

O Diabo cumpria escrupulosamente o contrato: havia para estas negociações uma jurisprudência dogmática. Sujeitava-se mesmo a acompanhar o contratador, como uma inspiração visível, como um camarada de perigos, para lhe facilitar a ampla realisação do desejo. Seguia Agripa sob a fórma de um escudeiro, vestido de negro, com o nome de Sujeito. Seguia Fausto, vestido de escarlate, com o nome de Mephistopheles. Nada mais.

Margarida, não é, na opera de Gounod, como em Gœthe, o simbolo da alma alemã, simples, casta, sofredora, de aquela alma alemã que, como na Melancolia de Alberto Dürer, quando a matéria, a tirania, a desesperança a oprimem, só sabe resignadamente, dobrar as suas azas; aquela alma alemã que exhala toda a sua imensa dor em frescas cantigas religiosamente humanas, que tem todas as simplicidades, todas as inteligencias, todos os deveres, que quando olha para a terra é para amar, quando olha para o céu é para orar, quando olha para si é para morrer. Não. A Margarida da musica sabia de Gounod, é uma alma lirica, nebulosa, nostálgica, sensual, para quem o amor é um magnetismo suave, a oração uma lucta com o mal, a morte um libertamento romântico da vida--insuficiente e vasia. Este Fausto tem na alma um lirismo teatral, esta Margarida um paraíso artificial.

Mas ele, o bom Mephistopheles, tem uma vida real e poderosa. É ele--a antiga creatura terrível e grotesca, vaidosa, infame e trágica. É o antigo Satanás das legendas. É ele--o mesmo a quem os Severios ouviram dizer que antes queria devorar uma alma, do que voltar, entre purificações, para os seus antigos camaradas, os astros, sidera lucida! É ele, o eterno inspirador dos heréticos e dos impostores, ele que ensinava os oráculos aos crocodilos de Arsineë, e aos carvalhos proféticos de Dodona, e que dava a Manés, o homem impio, a ascética palidez dos monges, como dá a Fausto, velho e tépido, o resplandecente magnetismo do olhar. Ele, que segundo as tradições judaicas, inventou os enfeitos e as joias, para ferir os castos instinctos da mulher--e que atirava os corais ao regaço das mulheres de Brabante, como mostra a Margarida a cor traiçoeira e hipócrita das perolas. É ele o mesmo que em Babylonia tomava as atitudes hieráticas de um Deus, e fugia do olhar de Daniel--como na kermesse de Leipzig toma a voz sinistra e rouca do dinheiro, e cáe, torturado e covarde, diante da serena aparição das cruzes das espadas. É ele o antigo Diabo que dava aos monges da Tebaida o mal da acedia, como dá á pobre Margarida o mal do amor. Tortura os monges do Ocidente; dá-lhes as chagas e as dores de Job, envolve-os nas visões magnificas do mal.

As virgens diáfanas fazem, no silencio da noite, as mil orações da prostração: os monges passam os anos em jejuns dolorosos. Debalde! Se se deitam na neve, a neve toma um calor vital e lascivo que os definha: se bebem a água fria e purificadora das fontes, a água dá-lhes ao corpo a palpitação dos vastos apetites. Se querem rezar no silencio, ouvem os risos ambrosíacos dos Deuses sensuais, e o gemer desfalecido dos bandolins. Também a pobre Margarida, se queria fiar castamente, e chorar o velho rei de Tule, sentia a melodia da carne cantar-lhe baixo: «Vê como Fausto, o cavaleiro vestido de veludo, é branco, e belo, e são, e forte.»

Os monges de Alexandria andavam de noite, pelos corredores solitários e sonoros, com as cruzes alçadas, cantando, para o afastar, os versículos do Evangelho, e regando com água santa as lages do claustro: assim o gentil Siebel asperge, tristemente, as flôres maculadas de maio.

E ao mesmo tempo este Diabo terrível, que andava disperso nos elementos, de tal sorte que o vento era a sua tosse, ele que era o carrasco da inquisição, a fera dramática das almas, ele que redigiu a sentença de Cristo, que acendeu as fogueiras das feiticeiras, que celebrava o sabbat, onde á luz de uma lampada sem óleo, prégava o sermão dos sete pecados, ele que tinha por filhos, Merlino, Roberto de Normandia, Átila e os Hunos, era ao mesmo tempo jovial, grotesco, bailarino, poeta, jogador e palhaço. Bebia gloriosamente o vinho das missas do Papa. Tinha uma taverna no Inferno, onde se comiam, com molho de beata, as almas dos usurários. Dava serenatas ás patrícias de Veneza. Fazia sonetos correctos e acadêmicos ás abbadessas de Vecker. Vestia-se de veludos e de sedas, emprestava dinheiro aos estudantes das universidades livres, e assignava-se Belzebuth, cosinheiro do Inferno. Os trovadores cantaram esta legenda faceta das farças de Satan.

Tomou tanta familiaridade com o homem, que Lutero sujou-o de tinta, e Rabelais deu-lhe piparotes. Na Alemanha, na noite de 30 de abril, dava um sarau magnifico nas alturas de Borx-belg. Era a noite do Walpurgis. Havia a grande dança das nudezas. Nas noites claras, as estrelas assistiam, com a impassibilidade de vestais.

Assim é a figura complexa de Mephistopheles. Durante a opera de Gounod, esta individualidade sinistra deixa escorrer sobre o drama dos amores e dos arrependimentos o seu desprezo resplandecente e ruidoso, como aquelas figuras de Satan, que nas catedrais da Alemanha deixam cair do último coruchéu uma risada de pedra, que nos nichos, nas esculpturas, nas rosáceas, nos fustes, nos baixos-relevos, em todas as figuras de santos, de virgens e de anjos--vai gelar as aspirações ideais e os sentimentos do céu.

Toda aquela musica da opera, que envolve Mephistopheles, é a vaga melodia sombria do mal. Tem o escárnio, tem a violência, tem as trevas, a jovialidade e o medo. Range, ri, treme, devasta, insulta e vence.

1/1
Menu

Fazer anotação