Livro VII
O que é maldade? É aquilo que viste muitas vezes. Em cada acontecimento, conserva diante de ti este pensamento: isto é uma daquelas coisas que já vi muitas vezes. Em toda parte, acima e abaixo, encontrarás as mesmas coisas de que estão cheias as histórias antigas, as médias e as recentes, e de que hoje estão cheias cidades e casas. Nada é novo. Tudo é familiar e breve.
Como podem morrer os princípios, a não ser que se apaguem as ideias que lhes correspondem? E está em teu poder reavivar continuamente essas ideias. Posso formar sobre cada coisa a opinião que devo formar. Se posso, por que me perturbo? As coisas que estão fora da minha inteligência nada são para ela. Aprende isso e ficarás firme.
Tens o poder de viver de novo. Olha outra vez as coisas como olhavas antes. nisso está o renascimento da vida.
Ocupações vãs, representações teatrais, rebanhos grandes e pequenos, lutas, um osso lançado a cachorros, migalhas jogadas em viveiros de peixes, formigas carregando peso e trabalhando, ratos assustados correndo, bonecos puxados por fios: é preciso permanecer entre tudo isso com benevolência, sem arrogância, compreendendo que cada homem vale tanto quanto valem as coisas às quais se dedica.
Na conversa, deve-se acompanhar com atenção o que é dito. no impulso, acompanhar com atenção o que acontece. No primeiro caso, vê imediatamente o sentido. no segundo, vê imediatamente o fim.
Minha inteligência basta para isto ou não? Se basta, uso-a para a obra como instrumento dado pela natureza universal. Se não basta, ou cedo a tarefa a quem possa fazê-la melhor, se isso for permitido, ou faço o que posso com a ajuda de alguém que, usando minha faculdade governante, possa realizar o que agora é útil e conveniente ao bem comum.
Pois tudo o que faço, por mim mesmo ou com auxílio de outro, deve tender somente ao que é útil e harmonioso para a comunidade.
Quantos que foram muito celebrados já foram entregues ao esquecimento. e quantos que os celebravam há muito desapareceram.
Não te envergonhes de ser ajudado. Tua tarefa é cumprir o dever que te cabe, como soldado que sobe a muralha. E se, por estar manco, não puderes subir sozinho, mas puderes fazê-lo com a ajuda de outro?
Não te perturbes com as coisas futuras. Chegarás a elas, se for necessário, levando a mesma razão que usas agora para as coisas presentes.
Todas as coisas estão entrelaçadas umas às outras, e o vínculo é sagrado. Quase nada é estranho ao resto. Todas foram coordenadas e juntas compõem a ordem do mesmo mundo. Há um só mundo formado por todas as coisas, um só Deus que passa por todas elas, uma só substância, uma só lei, uma só razão comum a todos os seres inteligentes, uma só verdade, se também há uma só perfeição para os seres da mesma espécie e participantes da mesma razão.
Tudo o que é material desaparece rapidamente na substância do todo. toda causa é rapidamente retomada pela razão universal. e a memória de todas as coisas é rapidamente sepultada na eternidade.
Para o ser racional, o mesmo ato é conforme à natureza e conforme à razão.
De pé, ou sustentado.
Como acontece com os membros do corpo nos organismos unidos, assim também acontece com os seres racionais, embora separados: foram feitos para cooperar em uma só operação. Esse pensamento te tocará melhor se disseres muitas vezes a ti mesmo: sou membro do sistema dos seres racionais. Se disseres apenas que és parte, ainda não amas os homens de coração. ainda não te alegras simplesmente em fazer o bem. ainda o fazes como dever austero, não como benefício feito a ti mesmo.
Que qualquer coisa exterior aconteça às partes que podem ser afetadas por ela. Essas partes, se sofrerem, reclamarão se quiserem. Quanto a mim, se não julgo que o acontecimento seja mal, ainda não fui ferido. E está em meu poder não julgá-lo mal.
O que quer que alguém faça ou diga, devo ser bom. É como se o ouro, a esmeralda ou a púrpura dissessem continuamente: faça ou diga quem quiser, eu devo ser esmeralda e conservar minha cor.
A faculdade governante não perturba a si mesma. quero dizer, não se assusta nem se entristece por si só. Se outro puder assustá-la ou entristecê-la, que o faça. Ela mesma, por seu próprio juízo, não se volta para tais movimentos.
Que o corpo cuide de si, tanto quanto puder, para não sofrer. e, se sofrer, que diga. Mas a alma, que sente medo e dor e emite juízo sobre essas coisas, nada sofrerá, pois não será levada a formar tal juízo. A faculdade governante nada necessita por si mesma, a não ser que crie para si uma necessidade. por isso, permanece livre de perturbação e impedimento, se não se perturbar nem se impedir.
A felicidade é um bom espírito interior, ou boa força condutora. Que fazes aqui, imaginação? Vai-te, pelos deuses, como vieste. Não preciso de ti. Vieste por antigo hábito. Não me irrito contigo. apenas vai-te.
Alguém teme a mudança? O que pode acontecer sem mudança? O que é mais querido ou mais adequado à natureza universal? Podes tomar banho se a lenha não se transforma? Podes alimentar-te se o alimento não se transforma? Alguma coisa útil pode ser realizada sem mudança?
Não vês, então, que tua própria mudança é da mesma espécie e igualmente necessária à natureza universal?
Todos os corpos passam por a substância universal como por uma torrente. são da mesma natureza do todo e cooperam com ele, assim como nossos membros cooperam uns com os outros. Quantos Crisipos, quantos Sócrates, quantos Epictetos o tempo já engoliu. Que o mesmo pensamento te ocorra diante de todo homem e de toda coisa.
Uma só coisa me inquieta: fazer algo que a constituição humana não quer, ou da maneira que ela não quer, ou aquilo que ela agora não quer.
Em breve terás esquecido tudo. em breve todos terão esquecido de ti.
É próprio do homem amar até aqueles que tropeçam. Isso acontece quando te lembras de que eles são teus parentes, de que erram por ignorância e contra a própria vontade, de que em pouco tempo ambos morrereis, e, acima de tudo, de que o homem não te feriu: não tornou tua faculdade governante pior do que era antes.
A natureza universal, a partir da substância universal, como se fosse cera, modela agora um cavalo. depois, desfazendo-o, usa a matéria para uma árvore. depois para um homem. depois para alguma outra coisa. Cada uma dessas coisas subsiste por pouquíssimo tempo. Não há mal para o vaso em ser desfeito, como não houve mal em ser composto.
Um rosto irado é muito contrário à natureza. Quando se repete muitas vezes, toda beleza se apaga e enfim se extingue de tal modo que já não pode ser acesa outra vez. Procura perceber também por isso que a ira é contra a razão. Se perdermos até a consciência do erro, que motivo restará para viver?
A natureza que governa o todo em breve mudará todas as coisas que vês. de sua substância fará outras, e destas ainda outras, para que o mundo permaneça sempre jovem.
Quando alguém te fizer mal, considera imediatamente qual opinião sobre bem e mal o levou a fazê-lo. Quando vires isso, terás compaixão, não surpresa nem ira. Pois talvez tu mesmo ainda tenhas a mesma opinião sobre o bem, ou outra parecida. Então deves perdoar. Se já não julgas tais coisas boas ou más, serás mais facilmente benevolente com quem vê mal.
Não penses no que não tens como se já fosse teu. Escolhe, entre as coisas que tens, as melhores, e lembra como as buscarias se não as possuísses. Ao mesmo tempo, cuida para que, por te alegrares nelas, não te acostumes a valorizá-las tanto que te perturbes se algum dia faltarem.
Retira-te para dentro de ti. A faculdade racional que governa a si mesma se contenta em agir justamente e, assim agindo, conserva tranquilidade.
Apaga a imaginação. Detém o puxão dos fios. Limita-te ao presente. Compreende o que acontece a ti ou a outro. Divide e separa o objeto em causa e matéria. Pensa em tua última hora. Deixa o erro daquele que erra onde nasceu.
Dirige a atenção ao que é dito. Deixa tua inteligência entrar no que acontece e no que causa o acontecimento.
Adorna-te com simplicidade, modéstia e indiferença em relação às coisas que ficam entre a virtude e o vício. Ama a humanidade. Segue Deus. O poeta diz que a lei governa tudo. basta lembrar que existe lei.
Sobre a morte: ou dispersão, se somos átomos. ou, se somos unidade natural, extinção ou mudança.
Sobre a dor: a dor insuportável nos leva embora. a dor duradoura é suportável. A inteligência conserva sua própria serenidade retirando-se para si mesma, e a faculdade governante não se torna pior. Quanto às partes feridas pela dor, que declarem, se puderem, o que sentem.
Sobre a fama: olha a mente daqueles que buscam fama, vê que tipo de coisa evitam e que tipo de coisa perseguem. Lembra também que, assim como as camadas de areia cobrem umas às outras, na vida as coisas antigas são rapidamente cobertas pelas posteriores.
Do pensamento de Platão: se alguém possui inteligência elevada e contempla todo o tempo e toda a substância, pensas que a vida humana lhe parecerá grande coisa?
É impossível, responderia ele.
Então tal homem também não considerará a morte terrível?
De modo algum.
Também de Platão: o caráter do homem deve ser visto pela investigação daquilo que busca e daquilo que evita.
Considera que a dor, o prazer, a morte, a fama, a pobreza, a riqueza e tantas outras coisas acontecem igualmente ao homem bom e ao homem mau. Portanto, elas não são belas nem vergonhosas por si mesmas. não são bens nem males.
Observa como todas as coisas desaparecem rapidamente: os próprios corpos no mundo, a memória deles no tempo. Observa o que são todos os objetos sensíveis, especialmente aqueles que atraem pelo prazer, assustam pela dor ou são proclamados pela fama. Como são pobres, desprezíveis, sujos, corruptíveis, mortos. Cabe à inteligência compreender isso.
Considera quem são aqueles cujas opiniões e vozes concedem reputação. Considera o que é morrer. Se alguém olha a morte em si mesma e, pela análise, separa dela as imagens que a imaginação lhe acrescenta, não a julgará outra coisa senão obra da natureza. Quem teme uma obra da natureza é criança. E a morte não é apenas obra da natureza, mas também coisa útil à natureza.
Considera ainda como o homem toca Deus, por qual parte de si, e quando essa parte está em que disposição.
Nada é mais miserável do que aquele que percorre todas as coisas em círculo, examina o que está debaixo da terra, conjectura sobre as almas dos vizinhos, mas não percebe que basta estar com a própria divindade interior e servi-la com sinceridade. Servi-la é mantê-la pura de paixão, de leviandade e de descontentamento com o que vem dos deuses e dos homens.
O que vem dos deuses é venerável por sua excelência. o que vem dos homens deve ser querido por parentesco. Às vezes, porém, deve inspirar certa compaixão, por causa da ignorância do bem e do mal. e essa cegueira não é menor que a de quem não distingue o branco do preto.
Ainda que vivesses três mil anos, ou dez vezes isso, lembra que ninguém perde outra vida senão aquela que vive agora, nem vive outra senão aquela que perde. O mais longo e o mais breve chegam ao mesmo. O presente é igual para todos. o que se perde é igual. e o que se perde parece apenas um ponto.
Não se pode perder o passado nem o futuro, pois como alguém poderia ser privado daquilo que não possui? Conserva, portanto, estas duas coisas na memória: tudo, desde a eternidade, é da mesma forma e retorna em círculo. e não faz diferença ver as mesmas coisas por cem anos, duzentos anos ou por tempo sem fim.
Para o homem, o que lhe é próprio não é contrário à natureza. E o que é próprio do homem é amar até aqueles que erram. Isso acontece quando se compreende que eles são parentes, que erram por ignorância e contra a vontade, e que, em breve, tanto tu quanto eles tereis morrido. sobretudo, quando se entende que eles não feriram tua faculdade governante.
A natureza universal transforma continuamente a substância do todo como cera: agora modela um cavalo. desfazendo-o, usa a matéria para uma árvore. depois para um homem. depois para outra coisa. Cada figura dura pouco. Para o vaso, não é mal ser desfeito, assim como não foi mal ser composto.
O rosto contraído pela ira é muito contrário à natureza. Quando se repete com frequência, a beleza se apaga e enfim se extingue de tal modo que não pode mais ser reacendida. Por isso, tenta perceber que a ira é contrária à razão. Se desaparece a consciência do erro, que razão resta para viver?
Tudo o que vês será em breve transformado pela natureza que governa o todo. Ela fará outras coisas da substância presente, e depois ainda outras destas, para que o mundo permaneça sempre novo.
Quando alguém errar contra ti, considera imediatamente qual noção de bem ou mal o moveu. Vendo isso, terás compaixão, não espanto nem cólera. Talvez ainda tenhas a mesma opinião sobre o bem, ou uma opinião semelhante. nesse caso, deves perdoar. Se já não julgas tais coisas bens ou males, serás mais facilmente benigno com quem vê mal.
Não consideres as coisas ausentes como se fossem tuas. Escolhe, entre as presentes, as melhores, e lembra como as desejarias se não as tivesses. Ao mesmo tempo, guarda-te para que, por estimares essas coisas, não te habitues a valorizá-las tanto que te perturbes se te faltarem.
Recolhe-te em ti mesmo. A razão que governa a si mesma tem esta natureza: contenta-se em agir com justiça e, agindo assim, conserva a calma.
Apaga a impressão. Detém os fios que te puxam. Circunscreve o presente. Conhece o que acontece a ti ou a outro. Divide o objeto em causa e matéria. Pensa na hora final. Deixa o erro de quem erra permanecer onde nasceu.
Aplica tua atenção ao que se diz. Deixa tua inteligência entrar no que acontece e naquilo que o produz.
Adorna-te de simplicidade, modéstia e indiferença quanto às coisas que estão entre a virtude e o vício. Ama os homens. Segue Deus.
Sobre a morte: se tudo são átomos, é dispersão. se o universo é unidade ordenada, é extinção ou mudança.
Sobre a dor: a dor insuportável nos tira desta vida. a dor prolongada é suportável. A inteligência conserva sua própria serenidade ao recolher-se em si mesma, e a faculdade governante não se torna pior. Quanto às partes feridas, que se pronunciem, se puderem.
Sobre a fama: contempla a mente dos que buscam reputação, o que evitam e o que perseguem. Lembra que as coisas antigas são rapidamente cobertas pelas novas, como camadas de areia sobre camadas de areia.
Se alguém, com grandeza de inteligência, contemplasse todo o tempo e toda substância, julgaria grande coisa a vida humana? Não. E então não julgaria terrível a morte.
O caráter de cada um se revela pelo que busca e pelo que evita.
Dor e prazer, morte e vida, fama e obscuridade, riqueza e pobreza acontecem igualmente ao bom e ao mau. Portanto, por si mesmas, não são belas nem vergonhosas. não são bens nem males.
Observa como todas as coisas se extinguem rapidamente: os corpos no espaço, a memória deles no tempo. Considera todos os objetos sensíveis, sobretudo os que atraem pelo prazer, assustam pela dor ou brilham pela fama. Como são pobres, desprezíveis, sujos, corruptíveis e mortos. cabe ao entendimento vê-los assim.
Considera quem são aqueles cujas opiniões e vozes conferem reputação. Considera também o que é morrer. Se alguém separa a morte das imagens que a imaginação lhe acrescenta, verá que ela é apenas obra da natureza. Temer uma obra da natureza é coisa de criança. e a morte não é apenas obra da natureza, é também útil à natureza.
Nada é mais infeliz do que aquele que rodeia todas as coisas, investiga o que está sob a terra e conjectura o que se passa na alma dos outros, sem perceber que basta viver junto da divindade interior e servi-la sinceramente. Esse serviço consiste em mantê-la pura de paixão, leviandade e descontentamento com o que vem dos deuses e dos homens.
O que vem dos deuses é venerável por sua excelência. o que vem dos homens é amável por parentesco. Às vezes, porém, inspira compaixão, por ignorarem o bem e o mal. e essa cegueira não é menor do que a de quem não distingue branco e preto.
Se vivesses três mil anos, ou dez vezes isso, lembra que ninguém perde outra vida senão a que vive agora, nem vive outra senão a que perde. O mais longo e o mais breve chegam ao mesmo ponto. O presente é igual para todos. portanto, o que se perde é igual, e aquilo que se perde é apenas um instante.
Ninguém pode perder passado ou futuro, pois como alguém poderia ser privado do que não possui? Lembra sempre estas duas coisas: desde a eternidade, tudo tem a mesma forma e retorna em círculo. e não há diferença entre ver as mesmas coisas por cem anos, duzentos anos ou por tempo infinito.
O que morre cai no mesmo lugar de onde veio. Todas as coisas se dissolvem na razão que as gerou, e nada do que acontece é estranho à ordem do todo.
Em toda ação, pergunta a ti mesmo: que relação tem isto comigo? Arrepender-me-ei disso? Em pouco tempo estarei morto, e tudo estará passado. O que mais procuro, se minha ação presente é própria de um ser inteligente, social e sujeito à mesma lei de Deus?
Alexandre, Caio e Pompeu, que são eles diante de Diógenes, Heráclito e Sócrates? Estes viram as coisas, suas causas e sua matéria, e suas faculdades governantes eram livres. Aqueles, porém, quantas coisas tiveram de cuidar, e a quantas se escravizaram.
Mesmo que te dividas, os homens continuarão fazendo as mesmas coisas.
Antes de tudo, não te perturbes. Todas as coisas acontecem segundo a natureza do todo, e em pouco tempo não serás ninguém nem estarás em parte alguma, como Adriano e Augusto. Depois, olha firmemente para o assunto e vê o que é, lembrando que deves ser homem bom, e que aquilo que a natureza humana exige de ti deve ser feito sem desvio. Fala o que te parece mais justo, mas com bondade, modéstia e sem hipocrisia.