A Regra do Pijama Decente
Na manhã seguinte, Júlia desceu para buscar uma encomenda usando o pijama de listras que ela chamava de roupa de guerra. A blusa tinha um furo discreto perto da barra, a calça perdera qualquer compromisso com a cintura, e o cabelo estava preso por uma caneta promocional de um congresso de sono que ela cobriu para a agência. Ela calculou que o prédio estaria vazio às oito e dez. O elevador abriu no nono andar, e Bento entrou com o cachorro nos braços, um vira-lata branco de focinho grisalho e expressão de desembargador aposentado.
"O senhor do shake", disse ele, antes que ela encontrasse uma frase decente. Tinha voz baixa, camisa azul passada e olheiras leves que não combinavam com a postura impecável. O cachorro usava uma bandana amarela. Júlia sentiu que estava sendo julgada por ambos, embora apenas um tivesse dentes suficientes para sustentar a arrogância. "Júlia, a vizinha que calunia eletrodomésticos", respondeu ela. "E esse é o paciente?" Bento ajeitou o animal no braço. "Ulisses. Quinze anos, quatro dentes, opinião forte sobre pisos escorregadios."
O elevador demorou a descer porque alguém prendeu a porta no quinto andar. O silêncio ficou cheio demais para um prédio com infiltração. Júlia tentou olhar para o visor, para a própria unha, para qualquer coisa que não fosse a camisa de Bento ou o jeito ridículo com que Ulisses apoiava a cabeça no peito dele. "Eu peço desculpas de novo", disse ela. "Tenho mania de transformar incômodo em stand-up doméstico." Bento ergueu uma sobrancelha. "Funciona?" "Pago aluguel com isso, então a justiça social ainda não venceu." Ele riu pelo nariz, quase nada, o suficiente para irritá-la pela economia.
Na portaria, a encomenda dela estava aberta por engano. O pacote revelava um babydoll vermelho que Júlia havia comprado às duas da manhã depois de um vinho medíocre e uma promessa de recomeçar a vida íntima com autoestima e frete grátis. O porteiro, seu Osvaldo, entregou a caixa com a solenidade de quem segura prova criminal. Bento fez um esforço visível para olhar para o teto. Ulisses espirrou. Júlia puxou a tampa e empurrou a peça para dentro. "É para uma amiga", disse, frase tão velha que deveria pagar condomínio.
"Sua amiga veste seu CPF?", perguntou Bento, apontando para a etiqueta. Júlia encarou o nome impresso. "Minha amiga é muito apegada a mim." Ele segurou a porta de vidro para ela passar. "Fique tranquila. Advogados são treinados para fingir que não viram coisas piores." "Isso deveria me acalmar?" "Depende das coisas piores." Ela quis rir e se negar a rir ao mesmo tempo. Falhou nas duas tarefas.
Antes de entrar no elevador de volta, Bento olhou para o pijama de listras e disse, "A assembleia extraordinária sobre barulho será hoje às vinte. Sugiro traje de combate". Júlia levantou a caixa. "Tenho uma opção vermelha com renda, porém talvez cause distração administrativa." Ele apertou o botão do nono andar. "O condomínio merece limites." Quando a porta fechou, Júlia percebeu que estava sorrindo para a própria imagem no espelho do elevador. O sorriso era péssima notícia. Ela anotou mentalmente uma quarta regra de sobrevivência, nunca achar graça de homem que responde rápido demais.