A Campanha do Colchão Antes de Ir pra Cama · Capítulo 7 de 12
Obra Menu

A Campanha do Colchão

A campanha do colchão recebeu o nome provisório de Antes de Dormir, o que fez Júlia engasgar com café. O cliente queria vídeos curtos com casais reais, apartamentos reais e frases reais, embora a verba fosse falsa em quase todos os aspectos. O diretor criativo pediu uma abordagem "jovem, picante, acolhedora, vendável". Júlia respondeu que isso descrevia tanto uma marca de colchão quanto um pastel de feira bem administrado. Ninguém riu na reunião, então ela anotou a frase para uso próprio.

O problema cresceu quando o atendimento revelou que a equipe jurídica do cliente revisaria todas as peças. O advogado externo, contratado para contratos de imagem, era Bento. Ele entrou na sala de reunião da agência com terno escuro, notebook fino e a expressão de quem tinha encontrado um boleto dentro do bolo de aniversário. Júlia, do outro lado da mesa, segurou a caneta com força. "Vocês se conhecem?", perguntou o diretor. Bento respondeu antes dela. "Somos vizinhos." Júlia completou, "Com histórico de mediação sonora." O diretor achou a frase moderna e mandou seguir.

Trabalhar com Bento de dia era diferente de dividir vinho no chão à noite. Ele fazia perguntas precisas, cortava exageros, pedia autorização de uso para qualquer imagem de cachorro e marcava riscos com comentários secos. Júlia queria odiar aquela eficiência. Em vez disso, percebeu que as ideias ficavam melhores depois que passavam pela peneira dele. A campanha ganhou uma linha, "O que você diz antes de dormir diz muito sobre quem fica". Ela fingiu que a frase não tinha nascido de uma mensagem dele às onze e cinquenta e oito.

No intervalo, Bento a encontrou perto da máquina de café. "Você está brava." Júlia apertou o botão errado e recebeu chocolate quente. "Estou profissional." "Esse tom costuma preceder multa." "Você apareceu no meu trabalho sem aviso." "Fui contratado antes do seu áudio criminoso." "Meu áudio tinha valor literário." "Tinha difamação com ritmo." Ela tomou o chocolate quente por falta de dignidade. "Agora minha equipe acha que você é apenas meu vizinho. Isso é verdade demais e pouco demais."

Bento apoiou o copo de café na bancada. "O que você quer que eu seja nessa sala?" A pergunta veio simples, sem charme ensaiado. Júlia olhou para a porta de vidro, para os colegas fingindo não espiar, para a própria imagem refletida na máquina cromada. Queria responder com piada. Queria dizer "um problema com crachá". Queria pedir que ele fosse embora e ficasse. Escolheu a fuga mais curta. "Quero que você aprove a campanha." Bento assentiu devagar. "Isso eu consigo." O resto ficou parado entre eles, sem contrato, sem cláusula, sem testemunha útil.

Naquela noite, a tarefa da lista foi dela. Mandou para Bento, "Antes de dormir, escreva uma coisa que você quer e não pediu por medo de parecer ridículo". Ele demorou vinte e três minutos. Respondeu, "Quero jantar com você sem cachorro, sem família, sem cliente, sem audiência e sem fingimento. Parece pouco ridículo?" Júlia deitou de costas, celular sobre o peito. Digitou "parece perigoso", apagou. Digitou "parece quinta", enviou e jogou o aparelho longe no colchão. O quarto ficou quieto, porém o silêncio tinha a imprudência de quem acabou de aceitar um encontro real.

1/1
Menu

Fazer anotação