O Contrato do Sofá
Na segunda-feira, a mentira familiar virou boato oficial. Dona Nair encontrou Júlia na lixeira reciclável e perguntou se o namoro já podia entrar na lista de assuntos felizes do prédio. Seu Osvaldo piscou quando Bento passou pela portaria. O síndico, que até então tratava romance alheio com a discrição de um megafone, sugeriu que casais jovens participassem da comissão de decoração da festa junina. Júlia percebeu que condomínio era uma rede social com infiltração, boleto e testemunhas presenciais.
Bento bateu à porta dela às vinte e uma horas com Ulisses no colo e um documento impresso. "Contrato de encerramento do namoro fictício", anunciou. Júlia pegou a folha. Havia cláusulas sobre sigilo, uso moderado de expressões como "meu bem" em áreas comuns e proibição de novas mentiras familiares sem aviso prévio. "Você redigiu isso mesmo." "Você me pediu funcionalidade." "Eu pedi um namorado falso por quatro horas, não a Constituição do Sofá." Ele entrou porque Ulisses já havia decidido entrar, caminhando com cuidado até o tapete da sala.
Júlia leu as cláusulas sentada no chão. O apartamento estava no seu estado honesto, livros em pilhas tortas, canecas no braço do sofá, uma luminária com fita adesiva e o babydoll vermelho ainda dentro da caixa, agora usado para apoiar uma vela. Bento observou o cômodo sem comentário. Isso a deixou grata e irritada. Ela esperava uma piada sobre bagunça. Recebeu apenas o cuidado de quem entende que casa, às vezes, mostra cansaço antes de mostrar personalidade.
"Cláusula quarta", disse ela. "Qualquer beijo usado para manutenção da narrativa deverá ser previamente negociado. Você acha mesmo que haverá demanda?" Bento sentou no sofá, mantendo distância suficiente para parecer civilizado. "Depois do almoço, sua tia Célia me adicionou no aplicativo de mensagens e mandou receita de pudim. O risco operacional existe." Júlia largou o papel. "Célia é uma instituição sem freio." "Percebi quando ela perguntou minha tipagem sanguínea." "Ela chama isso de carinho."
Ulisses subiu no sofá com esforço e deitou entre os dois, anulando a distância diplomática. Júlia coçou a cabeça dele. Bento relaxou um pouco, tirando os sapatos sem perceber. A cena ficou doméstica depressa demais. Para combater a sensação, ela abriu uma garrafa de vinho barato e serviu em copos de requeijão. Bento aceitou. "Isso viola alguma cláusula?" "Apenas de bom senso." "Ótimo. Minha especialidade."
Eles conversaram até tarde sobre empregos que pareciam inventados por pessoas que odiavam pessoas. Júlia contou que escrevia campanhas para vender serenidade enquanto mal conseguia lavar roupa antes que acabassem as calcinhas confortáveis. Bento contou que trabalhava com separações consensuais e brigas que começavam por apartamento de praia, cachorro, cafeteira italiana. "Você vê o amor quando ele termina", disse ela. "Vejo o amor quando ele precisa dividir a air fryer." "Trágico." "Instrutivo."
Antes de ir embora, Bento pegou o contrato e riscou a cláusula do beijo. Júlia ergueu as sobrancelhas. Ele devolveu a folha. "Jurídico demais." "Você está amadurecendo." "Não espalhe." Na porta, ficaram próximos o suficiente para a noite lembrar que tinha corpo. Bento olhou para a boca dela, depois para Ulisses, que bocejou no corredor com desaprovação senil. "Boa noite, Júlia." "Boa noite, Bento." Ela fechou a porta e encostou a testa na madeira. O contrato ficou sobre a mesa, com a cláusula riscada parecendo menos documento e muito mais convite.