Três Mensagens e Um Brigadeiro
O jantar real aconteceu num restaurante pequeno de esquina, escolhido por Bento com a cautela de quem pesquisou cardápio, ruído ambiente e distância segura de clientes da agência. Júlia chegou sete minutos atrasada, usando vestido verde, jaqueta jeans e uma confiança montada às pressas no banheiro. Ele estava à mesa, sem terno, com camisa clara e uma expressão que perdeu a blindagem quando a viu. "Você veio sem contrato", disse ela. "Trouxe reserva, guarda-chuva e antiácido." "Romance maduro." "Sobrevivência premium."
Eles comeram massa, dividiram uma entrada que Júlia chamou de bruschetta com autoestima, e falaram de coisas que ainda não tinham cabido na lista. Bento contou que fora noivo aos vinte e oito, numa época em que confundia planejamento com amor. A relação terminou sem escândalo, o que parecia elegante para todos e péssimo para ele, porque não havia vilão suficiente para justificar a tristeza. Júlia contou de Marcelo, da sensação de virar personagem secundária na própria história, da vergonha de ter demorado tanto para sair. Nenhum dos dois tentou vencer o concurso de ferida. Isso tornou a conversa mais rara.
Na sobremesa, pediram brigadeiro de colher. Bento comeu com seriedade quase religiosa. Júlia apontou a colher. "Você tem cara de quem nunca raspou panela." "Minha infância teve limites." "Que horror. Eu deveria denunciar." Ele tomou a colher dela e raspou o fundo do pote com técnica imediata. "Aprendo rápido." A frase saiu leve, só que o olhar dele ficou no rosto dela por um segundo a mais. Júlia sentiu a noite mudar de marcha.
O beijo aconteceu na calçada, depois de uma garoa curta que deixou o asfalto brilhante. Bento segurou o guarda-chuva com uma mão e tocou o pulso dela com a outra, pedindo permissão sem transformar o gesto em cerimônia. Júlia subiu na ponta dos pés antes que a própria cabeça abrisse uma planilha de riscos. O beijo foi calmo no início, depois perdeu educação. O guarda-chuva tombou contra o ombro dele. Um motoboy passou e gritou "aí sim". Júlia riu na boca de Bento, e ele riu junto, o que melhorou tudo de um jeito indecente.
As três mensagens chegaram quando ela entrou em casa. A primeira era de Bento, "Cheguei. Ulisses fingiu indiferença". A segunda era da irmã dele, número desconhecido, "Sou Laura. Se você for a vizinha da newsletter, saiba que apoio". A terceira era de Marcelo, "Sonhei com você. Podemos conversar?" Júlia encarou a tela. O passado tinha um talento vulgar para aparecer depois de beijo bom. Ela bloqueou a tela sem responder. Depois abriu a newsletter anônima e começou a escrever a edição mais curta desde que criara o boletim.
"Antes de ir pra cama, verifique se a saudade é saudade ou apenas costume com bom timing. Costume toca campainha quando percebe mudança de fechadura. Saudade espera convite." Ela leu a frase, fez uma careta, apagou metade e publicou apenas, "Se a mensagem chega tarde, responda amanhã. Se você dormiu melhor sem responder, talvez já tenha respondido." Em três minutos, centenas de leitoras reagiram. Bento mandou uma quarta mensagem, "Tarefa de hoje cumprida?" Júlia respondeu, "Ainda estou decidindo se você é boa ideia." Ele escreveu, "Boa noite, então. Decida dormindo." Pela primeira vez, ela obedeceu.