Família em Modo Avião Antes de Ir pra Cama · Capítulo 5 de 12
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Família em Modo Avião

O almoço dos Vidal avançou com a naturalidade de uma gincana emocional. Sônia queria saber quando Bento pretendia apresentar a mãe. O pai de Júlia, Ronaldo, perguntou sobre futebol e recebeu uma resposta tão diplomática que passou a respeitar o rapaz sem entender a resposta. A tia Célia contou a história de um noivo que fugiu em 1987 e olhou para Marcelo com evidente esperança de repetição. Lavínia, educada demais para ser vilã, elogiou a farofa e perguntou a Júlia sobre a newsletter da agência. Júlia respondeu com frases profissionais enquanto o celular, dentro da bolsa, recebia mensagens de leitoras pedindo conselhos sobre homens que mandavam "sumida" com acento errado.

Bento interpretava o namorado com um detalhe perturbador, ele prestava atenção. Quando Júlia desviava o alho do arroz, ele trocava o prato de lugar sem anúncio. Quando Marcelo citou uma viagem antiga dos dois, Bento perguntou a Sônia onde ficavam os álbuns de infância e mudou a mesa inteira de assunto. Quando uma prima adolescente quis saber se adultos ainda sofriam por mensagem visualizada, ele disse que sim, porém a maturidade ensinava a sofrer bebendo água. A menina anotou no celular. Júlia quase bateu palmas.

Depois da sobremesa, Sônia encurralou a filha na cozinha. "Ele é bonito, educado e parece saber usar furadeira." Júlia secava pratos com agressividade. "Mãe, esse último critério explica muita coisa sobre a nossa árvore genealógica." Sônia fingiu não ouvir. "Você fica engraçada perto dele de um jeito diferente." "Eu fico engraçada porque estou em pânico." "É quase a mesma coisa no começo." Júlia encarou a mãe. Sônia estava feliz por ela de um jeito tão pronto que a mentira perdeu a graça por alguns segundos.

Na sala, Marcelo tentou conversar a sós. Disse que estava contente por vê-la bem, frase que Júlia recebeu com a vontade madura de jogar um guardanapo na testa dele. Ele falou da nova fase, da terapia, da importância de fechar ciclos. Júlia pensou em todas as vezes em que ele usara palavras bonitas para cobrir preguiça afetiva. Antes que respondesse, Bento apareceu com duas xícaras de café. "Interrompo alguma coisa?" Marcelo sorriu sem mostrar os dentes. "Só lembranças." Bento entregou a xícara a Júlia. "Então cheguei na hora certa. Café frio combina com lembrança requentada." Júlia tomou um gole para esconder a gargalhada.

No carro, voltando para casa, ela agradeceu. O trânsito parado na avenida deixava as luzes dos outros carros espalhadas no painel. Bento dirigia com as duas mãos no volante, sério de novo. "Sua família é intensa." "A palavra jurídica seria qual?" "Com potencial probatório." Ela riu e depois ficou sem saber onde pôr as mãos. A atuação terminara na porta da casa dos pais, só que o corpo dela ainda guardava a mão dele na mesa, a defesa silenciosa diante de Marcelo, o café entregue no minuto exato.

Quando chegaram ao prédio, Bento desligou o carro e esperou. "Tarefa de hoje", disse ele. "Dormir sem reler conversa antiga." Júlia abriu a boca para protestar, depois fechou. "Você viu minha alma ou minha tela?" "Sou advogado. Adivinho culpa por postura." Ela pegou a bolsa. "Sua tarefa é dormir sem planejar resposta para tudo." Bento sorriu de lado. "Isso é pedir nude emocional." "Exatamente. Comece com os tornozelos." Ele riu alto pela primeira vez, uma risada inteira, sem economia. Júlia saiu do carro antes de fazer algo irresponsável, porém levou a risada com ela pelo elevador, pela porta do apartamento e pela cama onde, pela primeira vez em semanas, não abriu a conversa de Marcelo.

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