A Noite em que Ninguém Dormiu Antes de Ir pra Cama · Capítulo 9 de 12
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A Noite em que Ninguém Dormiu

Na sexta-feira, a campanha do colchão vazou antes da aprovação final. Um vídeo de teste, gravado no apartamento cenográfico da agência, caiu numa conta de fofoca publicitária com a legenda "nova campanha usa newsletter anônima famosa sem autorização". O problema era meio verdadeiro, que sempre dá mais trabalho que mentira completa. A frase central lembrava demais o boletim de Júlia. O diretor criativo jurou que ninguém sabia da autoria. O atendimento suava. O cliente queria nota. Bento chegou à agência com a expressão fechada e o celular cheio de mensagens do jurídico.

Júlia sentiu o chão se estreitar. O anonimato da newsletter sempre fora uma brincadeira séria, protegia as pessoas sobre quem escrevia, protegia o emprego dela, protegia a parte de si que ainda precisava contar a própria vida sem pedir licença. Se a campanha parecesse roubo, ela perderia a confiança das leitoras. Se assumisse a autoria, perderia a distância que sustentava o jogo. E havia Bento, parado do outro lado da sala, entendendo antes de todo mundo que ela era a pessoa por trás de Antes de Ir pra Cama.

Ele pediu para conversar na escada de emergência. A luz branca deixava tudo áspero. "Você podia ter me contado", disse. Júlia cruzou os braços. "Eu ia contar." "Quando? Depois de assinar contrato usando uma frase sua?" "Eu não usei você. A campanha veio da minha cabeça." "Da sua cabeça e das nossas conversas." Ela respirou fundo. A acusação doeu porque tocava perto demais da verdade. Ela tinha transformado mensagens, tarefas e beijos em material, ainda que sem nomes. Era o vício do trabalho e também a defesa antiga, escrever primeiro, sentir depois.

"Eu nunca expus você", disse ela. Bento passou a mão pelo rosto, e pela primeira vez pareceu cansado sem elegância. "Não é só exposição. É descobrir que eu estava vivendo algo enquanto você talvez estivesse editando." Júlia quis responder rápido, salvar com humor, puxar uma frase brilhante de dentro do incêndio. Nada prestou. "Isso foi injusto", disse. "Eu sei." O silêncio seguinte não ajudou nenhum dos dois.

À noite, o prédio inteiro pareceu acordado. A conta de fofoca publicou teorias. Leitoras discutiam autoria. Marcelo mandou uma mensagem oferecendo "ajuda estratégica", o que fez Júlia bloquear também o e-mail dele. Sônia ligou porque vira comentários na internet e reconhecera "o jeito da filha". Bento não mandou tarefa. O liquidificador do 904 ficou mudo. Essa ausência incomodou mais que o barulho.

Júlia abriu um arquivo novo e tentou escrever uma nota fria. Saiu horrível. Tentou uma nota engraçada. Ficou covarde. Tentou dizer que marcas roubavam mulheres criativas o tempo todo, o que era verdadeiro e insuficiente, porque naquele caso a mulher criativa também tinha confundido vida com estoque de frases. Às duas da manhã, ela foi até a cozinha, fez brigadeiro de panela com chocolate barato e mexeu até o braço doer. Depois escreveu para Bento, "Eu errei. Não tenho versão charmosa disso agora." A mensagem ficou sem resposta. Júlia sentou no chão da cozinha, comeu direto da panela e entendeu que algumas noites não pediam conselho. Pediam vergonha sentada, sem filtro, esperando amanhecer.

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