Antes de Ir pra Cama Antes de Ir pra Cama · Capítulo 12 de 12
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Antes de Ir pra Cama

Ulisses saiu do veterinário com diagnóstico administrável, remédio caro e a convicção de que todos deviam desculpas formais pela coleta de sangue. Júlia acompanhou Bento no táxi de volta, segurando a sacola da farmácia pet enquanto o cachorro dormia no colo dele. A manhã tinha cheiro de chuva e pão quente das padarias abertas. Bento parecia exausto e aliviado. Júlia, que fora preparada para grandes declarações por filmes ruins e amigas ansiosas, descobriu que intimidade também podia ser comparar preços de suplemento canino às oito e meia.

A campanha do colchão estreou duas semanas depois com boa repercussão e nenhum vazamento. A newsletter de Júlia cresceu após a confissão pública, talvez porque as pessoas confiem mais em conselho quando veem a pessoa tropeçar sem tentar vender o tombo. Ela passou a assinar todas as edições. Criou uma seção chamada "Tarefa de Hoje", sempre com gestos pequenos, beber água antes de mandar textão, trocar lençol antes de culpar a vida, pedir desculpa antes que a frase vire patrimônio. Bento dizia que ela estava monetizando bom senso tardio. Júlia respondia que bom senso tardio pagava melhor que cinismo precoce.

O namoro deixou de ser falso sem cerimônia oficial. Dona Nair declarou que sempre soube. Seu Osvaldo passou a receber encomendas de Júlia com discrição teatral. Sônia convidou Bento para outro almoço e prometeu conter tia Célia, promessa juridicamente frágil. Marcelo tentou aparecer com uma mensagem madura demais, e Júlia respondeu apenas que desejava coisas boas. Depois apagou o número. Não fez postagem sobre isso. Algumas vitórias perdem valor quando viram legenda.

Numa sexta de calor, Bento chegou ao apartamento dela com Ulisses, uma mochila e o contrato antigo dobrado. Júlia estava de camiseta larga, hidratante no rosto e cabelo preso de qualquer jeito. "Você veio renovar cláusula?" Ele abriu o papel na mesa. A cláusula do beijo continuava riscada. Abaixo, Bento havia escrito à mão, "Partes concordam em parar de fingir que isto é temporário apenas para parecerem prudentes". Júlia leu devagar. "Você usou juridiquês para pedir espaço na minha gaveta?" "Eu trouxe meias. Organizadas por cor e grau de esperança." Ela encostou no balcão, tentando manter seriedade. "Isso é forte."

Ela assinou embaixo com uma caneta roxa. Depois acrescentou, "A parte que ronca cuidará do café da manhã". Bento protestou que não roncava. Ulisses, traidor veterano, soltou um som nasal no tapete. Júlia apontou para a testemunha. Bento ergueu as mãos. "Aceito conciliação." O beijo que veio depois não precisou de cláusula. Teve gosto de riso, pasta de dente e sexta-feira possível.

À noite, já deitados, cada um no seu lado da cama e Ulisses ocupando o centro com autoridade de proprietário, Júlia abriu o notebook para escrever a edição de domingo. Bento apagou a luz do abajur dele. "Vai me transformar em texto de novo?" Ela pensou na pergunta com respeito. "Vou transformar o que aprendi. Você fica com seus direitos de imagem." Ele tocou o tornozelo dela com o pé. "Boa resposta." Júlia digitou o título, Antes de Ir pra Cama. A primeira frase veio sem esforço, "Antes de dormir, confira se a pessoa ao seu lado deixa você rir de si mesma e descansar do personagem que inventou para aguentar o dia." Ela leu em voz baixa. Bento ficou quieto por um tempo. Depois disse, "Pode publicar." Júlia sorriu para a tela, salvou o arquivo e fechou o notebook. Pela janela, a cidade seguia acesa, barulhenta e nada resolvida. Na cama, pela primeira vez em muito tempo, isso bastava.

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