A Lista do Boa-Noite Antes de Ir pra Cama · Capítulo 3 de 12
Obra Menu

A Lista do Boa-Noite

A assembleia extraordinária começou com doze minutos de atraso, três garrafas de café ruim e uma discussão sobre bicicletas no hall que nada tinha a ver com liquidificador, cachorro ou paz pública. Júlia sentou no fundo, usando calça jeans, camiseta preta e um blazer que chamava de uniforme de adulta em perigo. Bento ficou duas fileiras à frente, com Ulisses deitado aos pés da cadeira e uma pasta cinza no colo. O síndico abriu a reunião pedindo objetividade, palavra que em condomínio serve apenas para inaugurar longas jornadas de ressentimento.

Dona Nair defendeu Ulisses com paixão. Um rapaz do 701 acusou crianças de correrem "com intenção". A moradora do 1102 sugeriu multa para quem cantasse no banho depois das dez, proposta que causou indignação numa mulher que dava aula de canto lírico por videochamada. Júlia observava tudo com a alegria secreta de quem tinha material para cinco edições da newsletter. Bento, para azar dela, conduziu a conversa com calma. Explicou horários, propôs isolamento no tapete da cozinha, ofereceu o próprio telefone para reclamações diretas e ainda conseguiu fazer o síndico admitir que a regra antiga sobre ruídos era tão vaga quanto horóscopo.

No fim, aprovaram uma solução doméstica, Bento anteciparia a comida de Ulisses, e qualquer morador insatisfeito deveria reclamar sem insultos criativos. Júlia sentiu vários olhares na nuca. Levantou a mão. "Eu posso oferecer uma compensação pública pela minha contribuição ao caos. Trabalho com texto. Posso revisar o comunicado novo do condomínio para ele parecer escrito por seres humanos." O síndico aceitou rápido demais. Bento virou o rosto, e a expressão dele dizia que ela acabara de se voluntariar para sofrer.

Depois da reunião, ela ficou na sala comum cortando frases do regulamento enquanto Bento esperava Ulisses terminar de farejar uma cadeira. Ele se aproximou com dois copos de água. "Você escreve bem quando não está processando meu liquidificador sem defesa prévia." Júlia aceitou o copo. "Você fala igual petição até para elogiar." "É um defeito de fábrica." "Tem recall?" "A garantia acabou no estágio." Ela riu, dessa vez sem tentar esconder.

O celular dela vibrou com notificações da newsletter. A edição sobre o áudio tinha sido compartilhada por uma influenciadora de organização pessoal que usava robe branco até para falar de boleto. Bento viu o nome Antes de Ir pra Cama na tela e inclinou a cabeça. "Você lê isso?" Júlia bloqueou o aparelho depressa. "Às vezes." "Minha irmã manda. Diz que é o único conselho amoroso que combina acidez e serviço público." Júlia sentiu o estômago dar um giro. "Sua irmã tem bom gosto e talvez precise de terapia." "Todos precisamos."

Ao subir, o elevador parou entre o sétimo e o oitavo por uma queda curta de energia. A luz de emergência deixou Bento com aparência menos arrumada. Ulisses nem se mexeu. Júlia respirou fundo, calculando se morreria presa com o homem cuja irmã lia seus textos secretos. Bento abriu o bloco de notas do celular e disse, "Já que a noite virou programa ruim, proponho uma lista. Uma coisa para cada um fazer antes de dormir, todo dia, durante uma semana. Algo pequeno. Sem palestra." Júlia estreitou os olhos. "Isso é flerte ou consultoria jurídica?" "É uma tentativa de impedir que você escreva outro boletim sobre meu lar." Ela pegou o celular. "Primeira tarefa para você, mandar boa noite sem parecer aviso extrajudicial." Bento digitou. O celular dela vibrou, "Boa noite, Júlia. Que seus eletrodomésticos descansem em paz." Ela guardou o riso no bolso junto com a lista.

1/1
Menu

Fazer anotação